segunda-feira, maio 12

Quem serei?


É qualidade que me falta: não me revejo no próximo, não comparo, quero-me de fora. Ando por aí esquecido da idade, do aspecto físico, há horas em que me distraio e comporto como um extra-terrestre, atribuindo-me uma invisibilidade que não tenho, imaginando que os meus olhos vêem para lá da pele alheia, o meu cérebro lê os pensamentos de quem passa. Que só não voo porque ainda não quero.
Assim fosse, assim não é. E porque me devolve à realidade, quando caio em mim, esse acordar pouco tem de agradável ou pacífico.
Tempos atrás vi-me numa reunião em que só havia idosos em avançado estado de debilidade, felizmente quase todos bem dispostos, só um ou outro caindo no hábito de enumerar mazelas e  comprimidos. O sentimento que primeiro me tomou foi de que me encontrava ali por acaso, mas logo me recompus, e participei, cavaqueei, fiz o melhor que pude para não destoar no papel de ancião.
Todavia, à saída revelou-se-me o que aponto acima: tinha convivido, participado, mas sem me rever naquela boa gente, alguma dela com bem menos anos do que eu.
Daí que o mais provável é que um dia destes me espere uma desagradável surpresa, pois também não me identifico com aqueles a quem há pouco cresceu a barba.
Quem serei, que não descubro quem sou?
Sabe você quem é?

quinta-feira, maio 8

Um segredo


Na primeira vez foi inesperado, intenso, a conjugação perfeita dos corpos e do sentir, um assombro de mistério revelado. Esqueceram a data, dispensam falar nas ocasiões em que se repete, são cuidadosos a nunca entre si, mesmo de forma velada, aludir ao segredo que partilham e os une com poder de sacramento.
Não forçam nem esperam, sabem que não lhes cabe a escolha da hora, maravilha assim aborre preparos, técnicas, habilidades, combinações. Exige pureza e ingenuidade. Exige abandono, entrega, aquele levitar feliz e raro de quando o espírito ilude o corpo.
Ambos conhecem dores, sombras, desagrados e desentendimentos, horas em que se evitam, as palavras más que deviam calar. Mas também a euforia que nasce das pequenas coisas, das atenções, dos sorrisos de cumplicidade que certas memórias chamam.
O seu dia-a-dia seria o de todos, não fosse aquele segredo que lhes foi revelado, precioso, frágil, tão de outro mundo que as palavras deste o destruiriam.

segunda-feira, maio 5

O sorriso e o sexo


Vamos lá então meter o nariz onde por pressuposto não sou chamado, e que a sisuda maioria provavelmente acha impróprio para a minha idade. Por sorte é essa uma questão do foro privado, e aqui só se tocará em generalidades, dois fenómenos apenas, mas que singularmente concorrem para a poluição mental dos meus dias: o sorriso e o sexo.
Tornou-se-me um reflexo automático: se na televisão começam aquelas bonecas loiras e arranjadinhas a sorrir para o boião de creme, o desinfectante da sanita, o caldo Knorr? Desligo. Político ou comentador a arreganhar os dentes? Desligo. Evento, concurso, a multidão aos vivas e a sorrir? Desligo. Entrevista às gargalhadas? Idem.
Com o sexo a dança é a mesma, maior ainda a ubiquidade. Explicações, estatísticas, cursos, workshops, sonhos, recalques, fetichismos,  sadomasoquismos, sombras de Grey, pederastias, incestos, bestialidades, trios, quartetos, swing, orgias…
Com filmes, televisão e internet, a oferta excede de tão longe a procura que nem se pode dizer, como nas lojas de antigamente, que é à vontade do freguês. Mulher ou homem, mesmo superdotado nos atributos, com tempo de sobra e resistência de mulo, passaria o século sem  esgotar as possibilidades do que lhe oferecem.
De modo que, caídos o sorriso e o sexo em extrema banalização, resta a pergunta se compensa sorrir e copular. Responda cada um por si, mas acerca da cópula talvez valha a pena dizer que, embora nem todos se dêem conta, é dos inesquecíveis momentos em que um casal, qualquer casal, verdadeiramente pode comungar.
O sorriso pouco importa, banalizar o sexo deveria ser crime.

sábado, maio 3

quinta-feira, maio 1

Caminhos


Com humildade o digo: porque assim me criei, me fiz, nunca a outros deixei a escolha do meu caminho, vi realizados alguns sonhos, foi-me dado viver mais que uma vida, têm-me calhado em dose dupla as alegrias e os desencantos.
Afirmações destas contêm o risco de serem interpretadas em extremos, cada um projectando nelas a própria vivência, o seu sentir, a imaginação que possui, o modo como encara a vida, até a sua idade. A este parecerão tolice, outro verá nelas arrogância, satisfação tola.
Verdade é que mal iria o mundo com cada um de nós a querer o seu carreiro. A paz e a harmonia, o desenvolvimento, a ordem, exigem o rebanho, nada de sonhos, de escolhas individuais.
Ciente disso, e às vezes parecendo que acompanho, de facto vou sozinho.

sábado, abril 26

Em acção de graças


"Os capitães do 25 de Abril trouxeram-nos a democracia e a liberdade, devemos agradecer-lhes".
Oiço isso a pessoas sinceramente enternecidas, e de facto assim foi, duma maneira ou doutra os capitães accionaram a mudança de regime.
Ao mesmo tempo toma-me a melancolia, porque o agradecimento assemelha-se muito ao de um favor recebido, não ao de direitos conquistados pela própria acção. Alguém se mexeu, o resto esperou, a sequência conhecemo-la todos.
É assim que, mau grado a liberdade, não me parece que a apatia geral seja diferente da que testemunhei durante o salazarismo. A nação, mais uma vez, como tantas outras ao longo da sua História, parte dela foge, o resto espera que alguém se mexa, a sacuda e  tire da sonolência.
Mas os "capitães" estão reformados, e os banqueiros até a própria mãe vendem, quanto mais a pátria alheia. Por isso me pergunto se não haverá por aí um grupo de gente de saber, honra e vontade, que se levante, que diga que Portugal não merece o que lhe aconteceu, nem o que lhe acontece, e que é urgente, muito urgente, mudar?
Com a fé que me resta mandava rezar uma missa em acção de graças.

segunda-feira, abril 21

Na "Folha de São Paulo"

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 João Pereira Coutinho - in A Folha de São Paulo

Mal-agradecido


Perde-se-lhe a conta, e a chamada experiência que a idade supostamente proporciona de nada adianta para aguentar o choque, que na verdade não é choque, mas aquele sentimento a que em linguagem corrente se dá o nome de chatice.
De viva voz, por mail, numa ou noutra ocasião por carta, raro passa semana sem que um certo tipo de carinhoso leitor ou leitora me ponha ao corrente do entusiasmo que lhe causa a minha escrita.
Começa pelos cumprimentos, alarga-se neles, mas feito esse intróito entra no cerne do comunicado, explica então que se gostou muito do meu romance X, o romance Y o/a desiludiu, leu depois o Z e não gostou nada. Na página tal deste último emendaria o parágrafo que começa por…; tiraria as duas vírgulas que estão na linha vinte e sete; neste e naqueloutro diálogo surpreende a falta de naturalidade…
Oiço e leio com paciência, já nem abano a cabeça, mas no íntimo, em forma de oração, oiço-me a dizer: poupa-me os elogios, mete as críticas no mesmo saco onde os avisados metem a viola, vai bater a outra porta.

quinta-feira, abril 17

Esplanadas


Em muitas ocasiões basta um sorriso, uma palavra, um olhar, um toque de carinho para mudar o dia. Há momentos de bem-estar que se recordam ao longo da vida, pequenos gestos que equivalem a gotas daquele bálsamo de que a alma necessita nas horas de desespero.
A dificuldade está na dose, no momento, por vezes na intenção. Infelizmente, nem sempre sabemos dar, em muitas alturas falta-nos preparo para receber, e ora não compreendemos o carinho, ora interpretamos mal o gesto, esbanjamos tempo e sentimentos passando de lado, cruzando-nos sem nos encararmos, fingindo que nada temos para dar nem queremos receber.
Por isso me deprimem as esplanadas. Aqueles rostos a mostrar que nada esperam, os olhares vazios, a indiferença dos gestos, a artificialidade dos sorrisos.