segunda-feira, abril 7

Um entre tantos


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Ouve-se o caso à mesa do almoço, o cérebro regista uma ou outra frase, uma cena, uma imagem, e passa-se à sobremesa, bebe-se o café, esquece-se o sujeito.
Mais tarde, involuntariamente, recorda-se a conversa, formam-se outras imagens, abana-se a cabeça em descrença, vão-se inventando desculpas para um procedimento assim, talvez seja herança genética, resultado da educação que nem os pais nem a escola lhe deram, maus exemplos, mau destino.
Talvez seja tudo isso. Insidiosa, porém, levanta-se a questão: será caso único nos detalhes, todavia, guardando as proporções quantos, e cada um à sua maneira, da chamada plebe à suposta burguesia rica, do malandrim ao advogado, do escriturário ao ministro, não fazem igual?
Dizem-no inteligente e capaz em tudo a que deita a mão: electricidade ou carpintaria, soalhos, telhados, aquecimento, é chamá-lo e ele fá-lo perfeito como deve ser. Mas por regra trabalha três dias por mês, que esse ganho e a pensão da mãe lhe bastam.
O resto do tempo dá umas voltas no BMW.

sábado, abril 5

Snobes


Sofro de uma afeição ridícula por snobes. Gosto deles com aquele misto de afeição que se tem pelos adultos que se comportam como crianças; pelos atrasados mentais; pelos que acreditam em OVNIS e os que bebem chás para a cura do cancro.
A senhora é snobe, escreveu um livro snobe, e como é daquelas filhas que, por adorarem o progenitor, deslizam nos sentimentos e na realidade, de tantas em tantas páginas é um louva a Deus do homem que foi na vida um escritor medíocre, mas manteve relações de amizade com "os últimos grandes senhores" da Literatura. E para que, postos ao corrente pelos fac-símile documentais que ilustram a obra, devidamente nos pasmemos, segue então uma basbaquice de lugares-comuns.
Ao mesmo tempo que agradeço à senhora o quanto me diverte, com gulodice igual à que tenho para os "jesuítas" e os pastéis de nata salto de postais para cartas, de páginas caligrafadas para dedicatórias, retratos amarelados, fotos de grupo.
Bem haja ela que, além do divertimento, fornece prova de que os snobes deveriam ter lugar cativo nos palcos das variedades.

quinta-feira, abril 3

Quantos serão?


Quantos serão? Os que nos habitam, os que no íntimo se guerreiam e nos afligem, incapazes de harmonia, puxando para extremos, levados por interesses que se contradizem e nos tiram a paz. Quantos serão?
Feliz aquele que se julga apenas um, traçou caminho e por ele vai desinteressado do que vê, desinteressado do semelhante, insensível à paisagem, indiferente ao azul do céu e ao que em redor acontece.
Mas a vida, a estranha vida, desconhece a compaixão. A todos ilude e castiga, tão pronta em fazer brilhar a réstia de luz, como dum só golpe decepar um braço; oferecer ao mesmo tempo o sorriso do inocente e a carantonha do malfeitor; confundindo o bem e o mal; levando-nos de escantilhão quando julgamos ir pelo nosso pé; iludidos de que uma e outra vez mandamos, quando não fazemos mais que obedecer.

quarta-feira, abril 2

terça-feira, abril 1

À porta da Caixa


Porque numa rua de vila transmontana, cujo nome agora não interessa, vi uma cinquentona furibunda que à porta da Caixa, socava o marido, repete-se este texto velho de dez anos.

Comparados aos da sharia islâmica os mandamentos da doutrina cristã são de inegável doçura: nada de apedrejamentos, amputações, forcas ou crueldades medievais. E no mundo dito ocidental podemos, com algum orgulho, mostrar aos nossos irmãos árabes - se eles ainda não se deram conta - que, embora sem termos chegado a uma verdadeira igualdade dos sexos, entre nós, regra geral, as mulheres não temem ser consideradas como simples animais de carga ou aparelho reprodutor.
Claro que há aqueles casos de violência doméstica em que nem os vizinhos gostam de se intrometer, nem a Polícia se apressa a acudir. E em consequência da igualdade antes mencionada, acontece também que já não são apenas as mulheres a fugir espavoridas do lar: aqui na Holanda criaram-se os primeiros refúgios destinados aos homens que se querem pôr a salvo da violência física e/ou da crueldade mental das suas caras-metades.
Esta sensível medida demorará certamente a ser adoptada no Arkansas, o estado de que Bill Clinton foi governador antes de chegar a presidente dos EUA: a legislação estadual estabelece que o marido só será punido por bater na esposa se o fizer mais de uma vez por mês.


segunda-feira, março 31

Raposas


De vez em quando a tentação é grande, tanto mais que parecem  inconscientes de como seria fácil assentar-lhes uma bordoada no ego, na vaidade, naquela importância de pechisbeque. Mas no silêncio está a paz. Deixa andar.
Empurram-se na ilusão de que têm de ser sempre os primeiros, os do lugar de honra, que o mundo nada mais faz do que olhar para os mais dez isto, os mais dez aquilo, quem tem estrelas, e quantas, quais, onde.
O que tarde ou nunca aprendem é a esconder a ganância, a inveja: mesmo quando sorriem descaem-lhes os cantos da boca, na tez ganham o amarelo do fígado envenenado.
São moles na espinha e no aperto de mão, caminham de lado com manhas de raposa, a risada que conseguem é um gargarejo que sai meio entupido, sincopado de bílis.
Que o Senhor a todos favoreça.

sexta-feira, março 28

A segunda

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Terá de se arranjar nome para a "hibernação"dos livros. Por curioso acaso, este sai em nova (segunda) edição no país onde nasceu, depois de, mais mês, menos mês, ter "dormido" quarenta anos.

quinta-feira, março 27

Topo de gama


Um governo digno, consciente dos seus deveres, respeita e educa os cidadãos, não os insulta nem alicia com brindes. É falta de vergonha tratá-los como débeis mentais, querer  agradar-lhes com lotarias, acenar-lhes com luxo quando a realidade em que o povo vive é a da miséria.
Infelizmente, e para mal de todos, na nossa desgraçada pátria não o são apenas os carros do burlesco sorteio, topo de gama é também a bacoquice governamental.

terça-feira, março 25

Corridas


Pronta como a felicidade é na arte do escape, em vez de correr atrás dela fatiga menos, e dá maior a satisfação, deixar que venha ao nosso encontro. Também de nada adianta querê-la grande, como sonham os poetas e os amantes, pois é a miudinha a que com mais frequência se repete.
Sei do que falo, o gráfico da minha vida apresenta cumes e fundos muito semelhantes aos extremos da febre de quem sofre de sezões. Com eles descobri que um pico de felicidade, por intenso que seja, não faz contrapeso ao conforto e à segurança dos momentos de bem-estar, os quais dependem de pequenas coisas, muitas vezes até da rotina.
Prego no deserto. Também eu corri atrás dela, e muitas vezes me esfalfei.