quarta-feira, janeiro 23

Senhas

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Abre-se um caderno esquecido e de lá cai de tudo. A locomotiva era da linha do Tua, o edifício atrás a estação de Mirandela. A data? Fins dos anos 70. Da mesma altura é a senha de entrada no hospital de Bragança, e de 1986 o fac-simile das senhas de portagem da Ponte (como nós dizemos).
E esta, misteriosa, que não faço ideia como ou porque vias chegou às minhas mãos:
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terça-feira, janeiro 22

O salvador


Conheci o capitão sem barriga e sem barba, depois com barba à Che, mangas arregaçadas, uniforme de camuflagem, botas de paraquedista.
Visitei-o num rés-do-chão em Benfica, e quando a Revolução tinha ano e meio num belo apartamento dos altos do Restelo. Felicitei-o pela promoção a general, benesse que há muito aguardava e no seu pensar merecia pelos - palavras suas – "relevantes serviços prestados à Pátria e à Revolução".
Gosta de mostrar fotografias desse "incrível momento". Não se distingue bem, mas diz que é aquele ao lado do Jaime Neves. Ao lado do Chaimite também é ele.
- Aqui, com o Salgueiro Maia. Sou eu.
Será. A figura é a três quartos, num instantâneo desfocado.
- Fomos amigos. Amicíssimos. Um grande herói. Olha eu aqui, quando fomos esperar o Cunhal à Portela.
Digo que sim, mas é uma confusão de barbas, ora à Che, ora à Fidel, uma ou outra à Marx. Ele pega na esferográfica, aponta uma cabeça na massa de gente:
- Eu.
Ultimamente fala menos no passado. A barriga pesa-lhe, há muito rapou a barba, tem problemas com o genro, acha que a Pátria, entregue "a esta súcia" vai água abaixo.
Gosto dele, enternece-me quando acrescenta:
- E eu, nesta idade, não lhe posso deitar a mão!
 Enternece-me também porque o vejo como fiel retrato do salvador que vive em tantos de nós.

segunda-feira, janeiro 21

Blogosfera


Nas universidades em redor do mundo, de certeza se afadigam cientistas que, em busca de novos fenómenos para medir e estudar, apontam os seus teodolitos para a Blogosfera.
Digo já que acho o fenómeno uma maravilha. É sonho de menino que queria ter um jornal, uma emissora, uma tribuna, estar num daqueles balcões palacianos onde reis e ditadores aparecem a discursar.
Você acorda, levanta-se, liga o computador, alinhava duas frases do que julga pensamento, e lança-as para a World Wide Web.
No instante seguinte estão elas na Manchúria e no Turquestão, no Canadá, na Patagónia, em Budapeste, Vila Nova de Milfontes e Cerejais de Cima. Frases suas. Que vão e talvez sejam lidas - na curiosa tradução da Google - onde você nunca foi, nem em sonhos quer ir.
Mas como quase todas as maravilhas, também esta tem uma ratoeira: a de lhe dar a ilusão de que, deitando ao mundo as duas frases que alinhavou, existe, em muitas partes o lêem, lhe conhecem o nome, apreciam a subtileza do seu pensar, logo de manhã esperam mais frases.
Desiluda-se amigo/a: com blogue, twitter, iPhone, Facebook e o resto, você, eu, Lady Gaga, o Príncipe das Astúrias, o senhor Bernardino da padaria, Lili Caneças, e os restantes sete mil milhões de amarelos, pretos, esquimós, índios do Amazonas, suecos e minhotos, estamos sós, somos nada. 
Não adianta o fraseado. Oito, no melhor nove décadas, vamo-nos, ninguém dá conta que estivemos.

domingo, janeiro 20

Sétimo dia

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Esta vista da minha janela ilude, a fotografia falsifica, mostra a brancura da neve e  esconde o crepúsculo cinzento de quase noite às cinco e meia da tarde.
Vou no sétimo dia de clausura. Na semana passada o termómetro desceu aos 16 negativos, neste momento anda por -5 e a promessa é de pioras.
Mas quanto mais arrefece, mais os holandeses regozijam, esperançados de daqui a nada patinarem na água gelada dos canais. Enfim, cada um lá sabe do que gosta. 

sábado, janeiro 19

O senhor Barthou



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sexta-feira, janeiro 18

O bife e a bolsa


Gente poupada a extremos que tocam a sovinice, foi calculado que as poupanças dos holandeses andam à volta de 300 mil milhões de euros. Nada mau para 16 milhões de almas.
Queixa-se agora o governo que não está certo levar o vício a tal exagero, é preciso pôr algum desse dinheiro a rodar, torna-se mesmo patriótico ir às compras, comer melhor, mudar de carro, aperaltar a fatiota.
Mas de nada vale a injunção: os cordões da bolsa continuam firmemente apertados e nas vitrinas do supermercado expõem-se os bifes de 150 g que, diz na embalagem, fartam dois.

quinta-feira, janeiro 17

Elmore Leonard

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Há mais de trinta anos que o leio, apenas um dois dos seus livros me desiludiram (Cuba Libre - 2008 e Djibouti - 2010). Quando sai um novo é para mim dia de festa.

quarta-feira, janeiro 16

Como vamos


- Como vai isso?
- Bem.
- Mesmo bem? Estás com bom aspecto
- Faz-se o que se pode.
Fecha meio olho a reforçar a insistência:
- Então vais bem?
- Palavra.
Estas frases são repetidas umas quantas vezes, intercalando ele um curioso fungar. Conversa de supermercado, ambos parados no meio de gente afadigada nas compras ao fim da tarde.
- De facto ouvi dizer que ias bem, mas nunca se sabe. Também vou bem.
E ao mesmo tempo que dá a informação que não pedi, volta-me as costas.
Tenho a certeza que continuava a investigação se ouvisse de mim más novas, ou desse comigo macambúzio.
É escritor. A inveja facilmente "escreve"  pequenas comédias.

segunda-feira, janeiro 14

A Ladra



http://comosholandeses.blogspot.pt/

Esta é das que vai longe. Chegou, roubou, farfalha contente. Um abraço ao amigo que me avisou e parabéns à malandrinha - o nome é outro para este tipo de gente, mas estou em disposição benigna.
Tivesse comentário aberto, e-mail não se lhe vê, felizmente para ela, levava uma desanda que não iria esquecer.

domingo, janeiro 13

Solução para a crise

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Com sentido de humor, Gerry List, jornalista da minha simpatia, descreve uma visita à Tate Modern, e como se viu numa sala cheia de borboletas a esvoaçar entre os visitantes. Explicava o catálogo que Damien Hirst, o artista que expunha, queria simbolizar assim "a fragilidade da existência".
Gerry List também suporta mal música de órgão, filmes falados em Sueco ou Dinamarquês, arte abstracta – "Não posso compreender que alguém diga que sente a sua vida enriquecida ao observar um quadro que é apenas uma superfície branca onde aparece um ponto negro. Untitled. IV , elucida um cartãozinho."  Barafusta ele ainda contra um enorme calhau intitulado Solidariedade, e a obra Holocausto: quatro cordas de roupa a secar.
Remata afirmando: "Tomar posição contra o subsídio da arte moderna pode ser visto como uma forma baratucha de populismo. Em democracia, porém, isso quase sempre é de preferir  acima do dispendioso e esbanjador elitismo."
Concordo por inteiro, com uma ressalva: a dos filmes falados em Dinamarquês. Neste caso Borgen, uma série que passa aqui na televisão, mas está à venda em dvd, com subtítulos.
Série política espectacular, excepcional, das que deixa de boca aberta.
Vi e pus-me a sonhar: Sidse Babbet Knudsen como primeiro-ministro, e aquela gente, incluindo os maus da fita, a fazer o que deve fazer, e o para que é paga, o querido e abalado Portugal saía da crise em dois tempos.

quinta-feira, janeiro 10

Citações


Cita poetas e filósofos, Rock Stars, Torricelli, Santo Agostinho, Eduardo Lourenço, Filomena Mónica, Dave Brubeck, Albert Schweitzer, Teresa de Ávila, Alfredo Marceneiro. Cita Vergílio Ferreira e Raúl Brandão, diz sempre "a Dona Agustina" quando dela escolhe uma frase. Da internet tira citações em Latim. De Alemão guarda umas quantas de Nietzsche e Schopenhauer, que dão jeito em conversas de política.
Cita com o entusiasmo do noviço que descobriu um nicho e se julga único. Mais: tem a certeza de que citar demonstra conhecimento e dá cachet.

quarta-feira, janeiro 9

Quer saber


Quer respostas, explicações, quer saber de tudo até ao fundo, os detalhes, e como foi, e quando, e quem lá estava, e se eram família, e se moravam longe.
Atordoa, uma curiosidade assim, a bisbilhotice transformada em doença crónica, de nada adianta mudar de passeio, fingir urgência, arranjar cara de quem vai a funeral de um tio ou perdeu na Bolsa.
- Tenho tempo. Todo o tempo do mundo.
Afirma aquilo como se a pressa alheia fosse coisa que desculpa ou perdoa, nem um instante lhe passará pela cabeça que é cansativo, insuportável, impertinente.
Diz-se que onde o cavalo de Átila pousava a ferradura nunca mais crescia relva. Assim também, onde este Abílio aparece vai-se o descanso e o resto da paciência.
Morre tanta gente nova. Há tantos inválidos nos hospitais, nos asilos, nos lares, tantos presos nas cadeias. Com que propósito deixará o Altíssimo que este não esteja acamado e continue à solta?

terça-feira, janeiro 8

Tostões





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Comprei-o por tostões em 1987. Tem valido uma fortuna de risos.

sábado, janeiro 5

Êxodo

Hoje, durante horas, na autoestrada que de Burgos leva a Bayonne, e com as intermináveis rectas das Landes segue para Bordéus e outros longes, foi grande a minha satisfação, maior ainda o orgulho de ser português.Ultrapassou-me um incrível número de coches, todos do melhor e do mais chique, todos de matrícula suíça, carreando - a ajuizar pelas feições - centenas de compatriotas.
Audis, Touaregs, Cayennes, Mercedes, nunca antes vi tantos juntos, nem semelhante êxodo.
Natal consoado, Ano-Novo findo, é o fim-de-semana em que a boa gente deixa a Pátria e se vai a labutar. Deus os abençoe e, a seu tempo, ensine o comedimento que permite a imunidade às crises.
Tudo isso, porém, é acessório. O que me ocupa neste fim do dia, a repousar num quarto do Novotel, em Poitiers, de um estirão de oitocentos quilómetros, é que a maioria daqueles impressionantes carrões levava decalcada nos vidros traseiros, em desmesurado tamanho, ora uma Cruz de Cristo e esfera armilar, ora o nome de Portugal em letras artisticamente estiladas.
Gostei, francamente gostei. Enterneci-me. Dei comigo a sorrir. Por isso compreendo mal como é que, repensando, me dá agora para a melancolia

 

                                                                              

sexta-feira, janeiro 4

Inutilidade

Somos cartaz, bilhete de identidade ampliado, montra que os outros olham com poderes de Raios-X. Privacidade? Dos pés à cabeça o mais de nós é público, transparente. Porque fingindo  passar despercebidos queremos marcar presença. Trejeitos, o gesto simples de pegar num embrulho, tudo são sinais, fraco morse, livro aberto quando nos olham.
Por isso nos refugiamos em disfarces, contrariamos o que é natural. Aparentamos, e a ninguém iludimos - nem a nós próprios.

quinta-feira, janeiro 3

Obrigadinho (bis)

(Este texto é de 25.05.2011, mas há circunstâncias em que o repeti-lo alivia)

Desconheço se algum sociólogo estudou o curioso fenómeno da dificuldade que os portugueses em geral sentem com agradecer.
Generosidade, hospitalidade, favores, cortesia, bons conselhos, uns esquecem, estes acham que recebem aquilo de direito, outros crêem que só um dependente ou subalterno se mostra grato.
Uns são tolos ou mal educados, os restantes involuntariamente exibem a insegurança que se associa com os que não têm e fingem, e os que não são mas tentam parecer.
Que o português nem a Deus sabe agradecer, também é facto. Transacciona à merceeiro: se o resultado o satisfaz paga em contado e velas, ou arrasta-se de joelhos, que além de grátis impressiona mais.
A sua especialidade, se assim se pode dizer, é o "obrigadinho". O "obrigadinho" que simultaneamente minimiza a oferta ou o favor, e dá aquele ar de importância que os parolos e os simples de espírito tomam por genuína superioridade.
Há aí, pois, para as famílias, as escolas e os senhores políticos, trabalho missionário a fazer. É urgente informar o português de que lhe mentiram e consideraram papalvo quando disseram que Abril o tornaria um homem livre, íamos ser todos iguais, em público e em privado nada havia a agradecer, daí em diante tudo seriam direitos.
A verdade é que em sociedade ninguém é livre e os deveres ultrapassam os direitos. Fora isso, esta nossa infeliz nação é uma de repelentes desigualdades. Mas agradecer não rebaixa, bem ao contrário: fá-lo sem dificuldade quem se sente senhor de si e respeita os outros.

quarta-feira, janeiro 2

O Vampiro de Curitiba


Comecei bem o ano e dando-me conta de que a surdez é incómodo, mas também benefício. Enquanto à meia-noite tudo eram berros, foguetes e descargas de escopeta, estava eu no quente, a reler consolado O Vampiro de Curitiba.
A primeira leitura, há quarenta e pico anos, deixou impressão forte. A de agora, à luz de mais quatro décadas de vivências, tocou a campainha de alarme e, pudesse eu, saía à rua com um cartaz: Proíbam este livro a menores de quarenta anos!
De momento não recordo personagem que nas muitas e complicadas andanças do sexo, do desejo, da luxúria, do desencanto pré e pós-coital, alcance a triste e trágica comicidade de Nelsinho.
Ele é todos nós, os que viemos depois de Adão e os que nos sucederem. Ele é o que vai para a cama nu, mas ainda com as peúgas e os sapatos. Depois, "Sentado, deixou-se abraçar pela velha; foi beijar a bochecha rechonchuda e arrepiou caminho – uma grossa verruga no queixo, três cabelos crespos que nem mola de relógio".
Nelsinho, pobre Nelsinho, retrato de tanta paixão imerecida, das más horas que deixam cicatrizes - " riscou-lhe nas costas a unha afiada – a do mindinho mais longa" - dos dolorosos  e inesquecíveis diálogos  que atormentam a vida inteira.
"Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo - sedas e rendas! Aos beijos de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.
- Quer que morda ou beije?
- Sim.
- Beije ou morda?
- Sim. Ai, sim. Ai. Sim.
- Abra o olho.
- …
- Gema comigo, anjo. Agora.
O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo."
- Ai, ai. Eu morro.

A sério: proíbam a leitura de Trevisan a menores de quarenta anos. Homens ou mulheres.