quinta-feira, janeiro 10

Citações


Cita poetas e filósofos, Rock Stars, Torricelli, Santo Agostinho, Eduardo Lourenço, Filomena Mónica, Dave Brubeck, Albert Schweitzer, Teresa de Ávila, Alfredo Marceneiro. Cita Vergílio Ferreira e Raúl Brandão, diz sempre "a Dona Agustina" quando dela escolhe uma frase. Da internet tira citações em Latim. De Alemão guarda umas quantas de Nietzsche e Schopenhauer, que dão jeito em conversas de política.
Cita com o entusiasmo do noviço que descobriu um nicho e se julga único. Mais: tem a certeza de que citar demonstra conhecimento e dá cachet.

quarta-feira, janeiro 9

Quer saber


Quer respostas, explicações, quer saber de tudo até ao fundo, os detalhes, e como foi, e quando, e quem lá estava, e se eram família, e se moravam longe.
Atordoa, uma curiosidade assim, a bisbilhotice transformada em doença crónica, de nada adianta mudar de passeio, fingir urgência, arranjar cara de quem vai a funeral de um tio ou perdeu na Bolsa.
- Tenho tempo. Todo o tempo do mundo.
Afirma aquilo como se a pressa alheia fosse coisa que desculpa ou perdoa, nem um instante lhe passará pela cabeça que é cansativo, insuportável, impertinente.
Diz-se que onde o cavalo de Átila pousava a ferradura nunca mais crescia relva. Assim também, onde este Abílio aparece vai-se o descanso e o resto da paciência.
Morre tanta gente nova. Há tantos inválidos nos hospitais, nos asilos, nos lares, tantos presos nas cadeias. Com que propósito deixará o Altíssimo que este não esteja acamado e continue à solta?

terça-feira, janeiro 8

Tostões





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Comprei-o por tostões em 1987. Tem valido uma fortuna de risos.

sábado, janeiro 5

Êxodo

Hoje, durante horas, na autoestrada que de Burgos leva a Bayonne, e com as intermináveis rectas das Landes segue para Bordéus e outros longes, foi grande a minha satisfação, maior ainda o orgulho de ser português.Ultrapassou-me um incrível número de coches, todos do melhor e do mais chique, todos de matrícula suíça, carreando - a ajuizar pelas feições - centenas de compatriotas.
Audis, Touaregs, Cayennes, Mercedes, nunca antes vi tantos juntos, nem semelhante êxodo.
Natal consoado, Ano-Novo findo, é o fim-de-semana em que a boa gente deixa a Pátria e se vai a labutar. Deus os abençoe e, a seu tempo, ensine o comedimento que permite a imunidade às crises.
Tudo isso, porém, é acessório. O que me ocupa neste fim do dia, a repousar num quarto do Novotel, em Poitiers, de um estirão de oitocentos quilómetros, é que a maioria daqueles impressionantes carrões levava decalcada nos vidros traseiros, em desmesurado tamanho, ora uma Cruz de Cristo e esfera armilar, ora o nome de Portugal em letras artisticamente estiladas.
Gostei, francamente gostei. Enterneci-me. Dei comigo a sorrir. Por isso compreendo mal como é que, repensando, me dá agora para a melancolia

 

                                                                              

sexta-feira, janeiro 4

Inutilidade

Somos cartaz, bilhete de identidade ampliado, montra que os outros olham com poderes de Raios-X. Privacidade? Dos pés à cabeça o mais de nós é público, transparente. Porque fingindo  passar despercebidos queremos marcar presença. Trejeitos, o gesto simples de pegar num embrulho, tudo são sinais, fraco morse, livro aberto quando nos olham.
Por isso nos refugiamos em disfarces, contrariamos o que é natural. Aparentamos, e a ninguém iludimos - nem a nós próprios.

quinta-feira, janeiro 3

Obrigadinho (bis)

(Este texto é de 25.05.2011, mas há circunstâncias em que o repeti-lo alivia)

Desconheço se algum sociólogo estudou o curioso fenómeno da dificuldade que os portugueses em geral sentem com agradecer.
Generosidade, hospitalidade, favores, cortesia, bons conselhos, uns esquecem, estes acham que recebem aquilo de direito, outros crêem que só um dependente ou subalterno se mostra grato.
Uns são tolos ou mal educados, os restantes involuntariamente exibem a insegurança que se associa com os que não têm e fingem, e os que não são mas tentam parecer.
Que o português nem a Deus sabe agradecer, também é facto. Transacciona à merceeiro: se o resultado o satisfaz paga em contado e velas, ou arrasta-se de joelhos, que além de grátis impressiona mais.
A sua especialidade, se assim se pode dizer, é o "obrigadinho". O "obrigadinho" que simultaneamente minimiza a oferta ou o favor, e dá aquele ar de importância que os parolos e os simples de espírito tomam por genuína superioridade.
Há aí, pois, para as famílias, as escolas e os senhores políticos, trabalho missionário a fazer. É urgente informar o português de que lhe mentiram e consideraram papalvo quando disseram que Abril o tornaria um homem livre, íamos ser todos iguais, em público e em privado nada havia a agradecer, daí em diante tudo seriam direitos.
A verdade é que em sociedade ninguém é livre e os deveres ultrapassam os direitos. Fora isso, esta nossa infeliz nação é uma de repelentes desigualdades. Mas agradecer não rebaixa, bem ao contrário: fá-lo sem dificuldade quem se sente senhor de si e respeita os outros.

quarta-feira, janeiro 2

O Vampiro de Curitiba


Comecei bem o ano e dando-me conta de que a surdez é incómodo, mas também benefício. Enquanto à meia-noite tudo eram berros, foguetes e descargas de escopeta, estava eu no quente, a reler consolado O Vampiro de Curitiba.
A primeira leitura, há quarenta e pico anos, deixou impressão forte. A de agora, à luz de mais quatro décadas de vivências, tocou a campainha de alarme e, pudesse eu, saía à rua com um cartaz: Proíbam este livro a menores de quarenta anos!
De momento não recordo personagem que nas muitas e complicadas andanças do sexo, do desejo, da luxúria, do desencanto pré e pós-coital, alcance a triste e trágica comicidade de Nelsinho.
Ele é todos nós, os que viemos depois de Adão e os que nos sucederem. Ele é o que vai para a cama nu, mas ainda com as peúgas e os sapatos. Depois, "Sentado, deixou-se abraçar pela velha; foi beijar a bochecha rechonchuda e arrepiou caminho – uma grossa verruga no queixo, três cabelos crespos que nem mola de relógio".
Nelsinho, pobre Nelsinho, retrato de tanta paixão imerecida, das más horas que deixam cicatrizes - " riscou-lhe nas costas a unha afiada – a do mindinho mais longa" - dos dolorosos  e inesquecíveis diálogos  que atormentam a vida inteira.
"Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo - sedas e rendas! Aos beijos de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.
- Quer que morda ou beije?
- Sim.
- Beije ou morda?
- Sim. Ai, sim. Ai. Sim.
- Abra o olho.
- …
- Gema comigo, anjo. Agora.
O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo."
- Ai, ai. Eu morro.

A sério: proíbam a leitura de Trevisan a menores de quarenta anos. Homens ou mulheres.

segunda-feira, dezembro 31

31.12.2012

Que este dia de chuva, vento, cara feia, seja de despedida. Nasça o ano amanhã soalheiro, esperançoso, com promessas de alegria, de paz, e Deus a todos abençoe.

sábado, dezembro 29

Azeitonas

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sexta-feira, dezembro 28

Desigualdade

- Você gosta de brincar – diz ele.
É um simples. Logo de rapaz se deu ares e mantém a pose. Quer, aprecia que digam: vai ali um sujeito sério, responsável. Leu no jornal que o consideram "figura grada da nossa sociedade", e acreditou.
É um simples, um pobre de espírito, senso de medida não tem, julga o mundo à sua imagem, acha que craveira mais alta só a de um trono.
O meu modo perturba-o. Com ar de reprimenda aconselha-me a mudar, e exigir respeito, genuflexão, pois idade tenho de sobra. Fora que a seu ver é assim que as pessoas gostam.
Sussurra então, bom conselheiro: - Andaram por aí a dizer que éramos todos iguais, mas esse tempo passou. Somos todos desiguais.
Dou-lhe razão. Desiguais somos, e poucos se dão conta de que o brincar importa.

terça-feira, dezembro 25

Maldade pós-natalícia


Do peito ebúrneo, da cintilação,
Fogo tardo desmembra, rasga
Faixas de noite, sulcos da alma.
Mole dissoluta. Do teu evangelho,
Crispadas centelhas de harmonia
Dançam em vertentes caudalosas
No sim da ilusão fanada do viver.
 
 As palavras que alinham a dizer suavidades e emoções, a luz do poente, as dores do coração e do amor, a mística que os eleva aos altos em que nunca voarei, nem consigo imaginar.
Com pouco dizem tanto, mas deixam-me cego, impotente, tolhido, surdo para a melodia que só eleitos e iniciados sabem ouvir.
É desespero que sinto, o de ler sem compreender, o engano em que embrulham as palavras, as armadilhas do significado, as névoas, as viravoltas. E sigo os versos com dedo de criança, soletro, esbarro, paro em desalento. São palavras que conheço, mas noutra cara, traje diferente, exigindo em tom desdenhoso que compreenda o que para mim é algaraviada.

 

domingo, dezembro 23

sábado, dezembro 22

Seis

Cinco sobrinhos e a tia. Deu-se-lhes cama grande e agasalhada, mas nada feito, é aqui e assim que se sentem bem. (Clique)

sexta-feira, dezembro 21

Boas-Festas

Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Com que cara posso eu exprimir os mesmos votos a um tão variado número de pessoas, todas elas diferentes e nem todas gozando da minha parte o mesmo grau de amor, amizade ou simpatia?
Assim, nesta tradicionalmente chamada época festiva não retribuo votos. Os que faço vão em modo de oração, guardo uns instantes a pensar naqueles a quem quero bem, nos que me merecem carinho, nos que de maneira ou outra fazem saber que me têm em conta.

quinta-feira, dezembro 20

Passeio

Fui-me a passear esta manhã e é como sempre, as maravilhas aparecem à beira do caminho. Fungos desta cor nunca tinha visto, nem o branco das estevas é neve, mas musgo, prova dos bons ares que aqui se respiram.

quarta-feira, dezembro 19

Nove da manhã

Dizem que esteve. Parece que o viram descer a calçada. Alguns, aos berros da muita razão, juram que ainda anteontem passou pelo café, mas não bebeu nada. Comprou cigarros, uma raspadinha.
-Isso foi a semana passada, meu homem, diz o senhor Zé Maria, que o conhece desde… - levanta a mão à altura de metro e pico. Usa expressões de antigamente e diz que se houvesse parceiro ia num dominó, mas ninguém lhe responde.
A Zilda tem mau prenúncio. Duas vezes sonhou com ele todo vestido de preto, a olhar de lado, uma vela na mão, o mesmo sonho que teve quando o Pintinhas caiu do andaime.
- Sabe-se alguma coisa? – pergunta o Arnaldo, baixando o vidro do Audi.
As cabeças acenam que não e abrem alas para que a D. Zé passe, certinha às nove e um quarto.
- Queira Deus não seja desgraça.
No outro lado da rua vêem a Alice abrir a carrinha, pegar mais novo pela gola, empurrar o outro para o banco de trás.
- Se calhar vai à Polícia.
- Foi ontem.
- Não adianta.
D. Zé olha o espelho, ajeita o cabelo, acena para a segunda bica.

terça-feira, dezembro 18

Proveito

Meses atrás li com muito proveito A Civilização do Espectáculo, de Vargas Llosa. Ontem, passando por um sítio onde vou com frequência, dei com este texto de Eduardo Cintra Torres, e o meu proveito duplicou.
Ambos, o livro e o texto, são muito de recomendar aos maiores de vinte e cinco anos e quinquagenários que, nos concertos e eventos gritam, pulam, mas nunca se perguntaram por que razão o fazem: http://quetzal.blogs.sapo.pt/

segunda-feira, dezembro 17

O madeiro

É uma cruz. Levezita. Pouco mais que um incómodo. E os ingénuos que me obrigam a carregá-la só se dão conta do que fazem e dizem quando, perdida a paciência, começo a rabiar.
Querem eles saber se esta ou aquela figura de livro meu é personagem autobiográfica, ficam de olho arregalado e a boca salivando no aguardo da resposta.
Favorito é A Amante Holandesa, onde um homem triste e desencantado se dá ao prazer inocente de mirar fotografias e desenhos de jovens corpos femininos.
Um dia, uma desarvorada não se conteve, chegou tão perto que lhe senti o bafo e, num sussurro, quis saber se "aquele era eu". Estive vai-não-vai para consolá-la, tanto mais que o olhar da dama prometia confidências, mas desisti, desapontei-a com a verdade.
 "Aquele" não sou eu. Se de algum modo há pedaços de mim no que escrevo, nunca o leitor, nem mesmo o que nasceu adivinho, terá a arte precisa para destrinçar o que tranço.

domingo, dezembro 16

Bem-estar


Nos últimos dias, por razões de trabalho, aconteceu-me falar com um maior número de pessoas do que para mim é corrente e, uma vez por outra, tive a surpresa de me ouvir dizer que me sinto bem.
Semelhante afirmação desorienta o interlocutor que, em geral mais novo, tem dificuldade em compreender a minha paz e contentamento. Mas de facto assim é: sinto-me bem. Se esgravatasse, de certeza iria encontrar uma ou outra razão de pessimismo e desespero. Simplesmente acontece que deixei de me preocupar com o mundo, as suas fomes, guerras e  desgraças, o arsenal de tragédias que, em detalhe, a cores, som no máximo, me é servido a todas as horas.
De modo que, faz tempo, carrego o peso que me cabe e, graças a Deus, aguento. Sinto-me bem. Carregue cada um o seu e deixe de fingir que se sente esmagado pela miséria do semelhante.

quinta-feira, dezembro 13

A rua

Passamos e não vemos, que tudo é pressa, frenesim, medos e desespero. A rua é triste. Tantos olhos, outros tantos cegos. Quem atenta no senhor idoso vestido de luto, na mulher trombuda, no rapaz com livros debaixo do braço, na garota que telefona olhando a vitrina, nos dois a conversar  encostados à porta, na fila para o autocarro, nos que saem do café e hesitam para que lado ir? Quem atenta neles?
Também eu passo, olho e não vejo, esquecido dos outros, mal lembrado de quem sou, perguntando-me que faço aqui, que razão me trouxe e se é vida uma inutilidade assim, a pressa que leva a nenhures, a indiferença que nos isola.

quarta-feira, dezembro 12

Sacanices

O sacaninha tem aquele sorriso imbatível, o olhar meigo, a dicção cuidada, o modo que pertence a quem veio ao mundo em ninho confortável. O sacaninha sabe dos clássicos, de línguas, é bom nas citações, fá-las em Latim quando é preciso. O pequenino poder que detém  usa-o com o discernimento dos hábeis, medindo agrado e severidade, diligência e desprezo, sorriso e má cara. Depende a quem, mas tão presto é nos rapapés como nos pontapés.
Para seu mal, tem nessa presteza o tendão de Aquiles: faz de vez em quando rapapés a quem não lhos aceita, e há ocasiões em que, falhando o alvo, recebe com juros o pontapé que deu.
Mas nem isso o quebra: o sacaninha é como o vime, dobra-se conforme o vento e o poder de quem sopra.

segunda-feira, dezembro 10

"Wants to be friends on Facebook"


Desde há três meses e pouco, até há coisa de uma semana, recebia eu todos os dias uma ou mais mensagens de boa gente que queria ser minha amiga. Mas à moderna: fulano/a de tal wants to be friends on Facebook. Pouco a par da modernidade,  respondia eu a todos “pela volta do correio” com o texto que segue:
Grato pelo convite,  mas deixei de estar em redes sociais. Dá a impressão de que mantenho conta, mas acontece que quem uma vez entrou no Facebook não consegue sair de facto, nem livrar-se da impertinência dessa organização.V. aqui  http://tempocontado.blogspot.nl/2010/02/facebook-genealogias-chatices.html

 Dizem-me agora que talvez não sejam as pessoas, mas os robots do Facebook que disparam essas “amizades”. Se assim é,aproveitemos a ocasião, inscrevam-se os meus novos “amigos” nos seguidores deste blogue, e eu prometo não desmerecer. A elas e a eles, desde já obrigado.

Afonso Ferreira, Agostinho Santos, Aida Gomes, Alberto Franco, Alberto Jorge Guedes Reis, Alex Honrado, Alexandra Miguel Frazão Moreira, Alexandre Roma, Alexandre Vasconcelos e Sá, Alice Lacerda, Alice Vieira, Amadeo Liberto Fraga, Ana Aranha, Ana Branca, Ana de Sousa,  Ana Dianela Soares Ferreira, Ana Freire, Ana Margarida de Carvalho, Ana Maria Oliveira, Ana Moreira, Ana Nunes Cordeiro, Anabela Borges, Anabela Miranda, Anabela Natário, Anabela Sousa, André Gomes, André Sebastião Sá, Anto Affonso, António Alberto Silva, António Baptista Lopes, António Conde, António Fernando Nabais, António Gil, António Gonçalves, António Luís Catanno, António Martins Neves, António Pedro Pereira, António Piedade, Aonia Odarres, Arminda Luz Ferreira, Artur Barosa, Bárbara Taborda, Biblioteca Arga e Lima, Biblioteca Escolar Foz Côa, Camila Lane Kerley , Carla Catalão, Carla Gonçalves, Carla Maia de Almeida, Carlos Alberto Machado, Carlos Amaro, Carlos Azevedo, Carlos Furtado, Carlos Leite, Carlos Lopes, Carlos Machado, Casimiro Teixeira, Catarina Ivone, Celeste Pereira, Célia Lopes, Círculo de Leitores, Clara Macedo Cabral, Cláudia de Sousa Dias, Cláudia Páscoa, Clorinda Torres, Colectivo António Manuel Pina, Conceição Gomes, Cristina Basílio, Cristina Maria Ovídio Baptista, Cristina Silveira de Carvalho, Cristina Veríssimo, David Machado, Dinis H. G. Nunes, Domingos da Mota, Domingos Lobo, Dulce Garcia, Editora Babel, Emanuel Cameira, Fernanda Portela Martins, Fernando Alves Espadinha, Francisco Belard, Francisco Correia, Francisco Duarte Azevedo, Germano Almeida, Goretti Figueiredo, Graça Navarro da Cunha, Helena Alves Velho, Helena Girão Santos, Henrique Nelson, Hugo Xavier, Inês Lourenço, Isabel Chaves, Isabel Damião, Isabel Garcez, Isabel Lucas, Isabel Mateus, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Rocha, Isabel Rosas, Joana Emídio Marques, João  Macdonald, João Arezes, João Arsénio, João Bosco Delmar, João da Luz Ferreira, João de Mancelos, João Gonçalves, João Luís Barreto Guimarães, João Miguel Baptista, João Pombo, João Ricardo Lopes, João Tordo, João Vieira, Joaquim Cepeda, Joaquim Paulo Nogueira, Jorge Silva Melo, Jorge Tinoco, José André Sousa, José Augusto Nunes Carneiro, José Bandeira, José Braga-Amaral, José Carmo Francisco, José Diogo Nogueira, José Emílio-Nelson, José Meireles Graça, José Moças, José Riço Direitinho, José Tavares, Julieta Maria Valadas Monginho, Lena Alves, Leonaldo Almeida, Livraria Palavras de Culto, Livraria Porextenso, Livraria Sá da Costa, Livraria Velhotes, Luís Carlos Silva, Luís Filipe Rodrigues, Luís Fonseca, Luís Martins, Luís Miguel Rocha, Luís P. Carlo, Luís P. Carmelo, Luís Pereira, Luís Semblano, Luís Silveirinha, Luísa Mellide-Franco Monteiro, Luisa Sousa Santos, Lurdes Fidalgo, Maia David, Manuel Alberto Valente.,  Manuel Gantes, Manuel Halpern, Manuel João Croca, Manuel Monteiro, Manuel Neto dos Santos, Manuel Vitorino, Manuela Silva, Margarida Bravo, Margarida Ferra, Margarida Fonseca, Margarida Pino, Maria Adelaide Madeira, Maria Albuquerque, Maria Bernardette Nogueira Sant'Anna, Maria Carmo Figueira, Maria da Conceição Vidal, Maria de Lurdes Soares, Maria do Rosário Pedreira, Maria do Sameiro Barroso, Maria Helena Coelho Lopes, Maria Isabel Silva Reis, Maria Jesus Trindade, Maria João Camarinha Moreira, Maria João Cantinho, Maria Rocha, Maria Rolim, Maria Santos, Mariana Crispim, Mário Cláudio, Mário David Campos,  Mário Dorminsky, Marta Campos, Marta Coutinho, Mat Münstermann, Miguel Barreto Henriques, Miguel Domingues, Mimi Kina, Mónica Marques, Nair Alexandre, Natacha Palma, Natti Leppert, Nelson Correia, Nelson de Quinhones, Nuno F Santos Cash, Nuno Teixeira, Óscar Macarenhas, Patrícia Guerreiro Nunes, Paula Calhau Silvestre, Paula Carvalho, Paula Guedes, Paula Machado, Paula Valério, Paulo Alexandrino, Paulo Amado, Paulo Bugalho,  Paulo Gonzaga, Paulo Granjo, Paulo Guinote, Paulo Moura, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Vieira, Pedro Fazenda, Pedro Ribeiro, Rafael A. Martins, Raquel Marinho, Raquel Ribeiro, Raquel Varela, Renato Epifânio, Ricardo Afonso Lourenço, Ricardo Soares, Rita Dias, Rosamaria Medeiros, Rosário Duarte da Costa, Rui Bebiano, Rui Carreto, Rui Couceiro, Rui Lagartinho, Rui Neto Pereira, Sandra Costa, Sandra Silva Inês Leitão, Sara Canelhas, Sérgio Almeida Correia, Sérgio Grilo, Sílvia Agostinho, Sílvia Alves, Sónia Pereira, Tânia Ganho, Teatro Ensaio, Telma Ferreira, Teolinda Gersão, , Teresa Correia, Teresa Machado, Teresinha Pina, Tiago Rebelo, Tiago V. Moita, Vasco Medeiros Rosa, Vasco Pimentel, Vítor Alves, Zilda Cardoso.

 

 

 

 

 

A manhã de todos os dias


Polícia, psicólogo, padre confessor, nenhum saberá dizer que homem ali vai. Camaleão das almas que teve e das aparências que se inventou, há muito descobriu que segura menos firme a rédea, e o seu Pégaso não voa para onde ele manda.
Chega ao café, olha em redor, e mesmo se não há gente tira o chapéu numa vénia antiga, caminha direito à "sua" mesa, perto da janela.
Espera, mas nada acontece. Chegará um ou outro que, distraído, perguntará "como vão esses ossos?", intróito de conversas que não são conversas,  de recordações feitas de aparências, enganos e desencontros.
Quando na torre bater a uma, dirá que "vão sendo horas", levanta-se, repuxa as calças, apoia-se à bengala e, com a sem-pressa da velhice, desce a rua, entra no restaurante,  pergunta desinteressado o que é o "prato do dia".

domingo, dezembro 9

Diferenças


Geou forte. Aqui em volta apontam tufos de verde, as árvores perderam a seiva, o resto é brancura, frio, desconforto.
Saíram num escuro de noite, o relógio da igreja a dar as seis. Varas ao ombro, silenciosos como sombras, um já de oitenta, aos outros dois faltará um ano, vão repetir o trabalho que fazem desde criança: varejar a azeitona, apanhá-la nas lonas, guardá-la nos sacos que irão  para o lagar. Ora de pé, braços ao alto, agitando as varas, ora curvados na apanha, esquecidos da dor e do cansaço.
Pelas encostas não se ouve uma fala, um grito, um chamamento. Há ali uma solenidade e um recato de missa, o modo grave do ritual atávico de semear, cuidar, colher e guardar para as horas de precisão.
Vi-os passar, encolhidos, pressentindo o gelo que vai abrir gretas nas mãos, entorpecer os pés, endurar os ossos. Vi-os passar, sem pena nem sentimento de culpa do meu conforto, mas  invejoso dos que, sem se interrogar, seguem decididos um ritual e têm um propósito.


Já eles trabalhavam há mais de duas horas quando o sol começou a derreter a geada, e eu, desolado com a inutilidade da minha manhã e do que penso, me fui a ouvir Brahms.

sábado, dezembro 8

Fado



Imagino. No quarto de banho, depois do que no falar antigo se chamava "as abluções", você enfrentou o espelho, encheu-se de vento, retesou os peitorais, está pronto para o dia.
Se é mulher, creio que se pôs de perfil, avaliou a linha, achou que está bem, que ainda está bem, e sai dali com um sorriso.
Aceitação e confiança, são essas as boas atitudes, e ainda a crença de que, por muito que filósofos, cientistas e sacerdotes repisem o contrário, a razão está do lado da saudosa D. Amália Rodrigues: ninguém escapa ao seu fado.
O busílis reside em manter o tom, trinar na boa altura, e ter força para o que muitos não conseguem: cantar a solo.