segunda-feira, dezembro 3

Segunda-feira



Passou um quarto de século, mas a recordação permanece. Durante a minha vida activa os momentos de verdadeiro descanso eram da sexta à tarde ao sábado à noite.
Por muito que fizesse, o domingo era o sombrio preparo da semana que ia chegar e, as mais das vezes, na manhã de segunda arrastava-me para o calvário, em disposição parecida com a de Jesus Cristo sentindo o peso da cruz.
Desse fardo há muito me libertei, o que não impede que, vezes sem conta, nas manhãs de segunda-feira o meu pensamento vá para os que se arrastam, como tantas manhãs me arrastei, para um trabalho que tinha sido vocação e se tornara suplício.
Peço então ao Todo Poderoso que, como o fez comigo, se compadeça, e lhes dê força para aguardar a tarde de sexta-feira.

domingo, dezembro 2

Espectáculo



Tive, mas há muito o perdi, esse sentimento de que o tempo não passa. O meu corre, voa, já é ontem quando o julgo amanhã, descubro-me idoso de um dia para o outro, surpreende-me que, como vizinhos irritados, cabeça e músculos deixem de se falar, desdenhando da sincronia que ainda na semana passada os harmonizava.
Queixas não tenho, antes me diverte o espectáculo em que para mim próprio me tornei, e a que obrigado assisto, em simultâneo actor e público de mim mesmo, dando réplicas, negando o aplauso, por vezes a resmungar com o mau desempenho.
Uma curiosidade me resta: quem será o régisseur ? Eu de certeza não sou. Apenas  forneço o palco, represento os papéis que já disse, e impaciento-me com a repetição das cenas.

sábado, dezembro 1

Quem nos acuda



Em seis meses acontece de tudo, menos o que se deseja. É infrutífera a peregrinação em torno do nosso quarto (mesmo para quem leu Xavier de Maistre), de nada adianta espiolhar o íntimo, e fica mal deitar ares de quem se preocupa com a crise, porque essa, a que é a sério, dói de verdade aos que a sofrem calados, não toca os senhoritos que, à esquerda e à direita, anunciam o que se deve fazer para que Pandora despeje sobre todos, mas primeiro sobre eles e compadrio, o saco de dobrões.
Tive mão em mim e, avisadamente, creio, meti a viola no saco, já deprime de sobra ver que os senis profetas de "O Sol brilhará, para todos nós" ainda sobem ao palco, esperançados de poderem esfregar nas chagas alheias a banha de cobra de sua receita.
Fátima não volta, nem os extra-terrestres nos querem, por isso teremos de ir indo como até agora: sonhando com Índias e Brasis, um Salazar que nos acuda, uma União Europeia  melhor do que esta, também capaz nos subsídios, mas que não nos venha depois afligir, exigindo contas.
Ou teremos de aceitar que nós, portugueses, não fomos feitos para este mundo, nos puseram nele por engano. Por isso pague a despesa quem para cá nos atirou.


quinta-feira, novembro 29

Capilar

  2 DIAS 

É capaz de correr há muito por aí, mas ouvi-a ontem e achei-lhe graça, tanto mais que eu próprio já sofri com a senhora:
"José Saramago é o único careca que não tem problema ca pilar."

segunda-feira, novembro 26

Cumprimento ou insulto?

4 DIAS 
A custo leu dois livros meus, e agora quer saber: 
- Como se explica que você, sendo como nós, tenha tanta coisa na cabeça?

sábado, novembro 24

Possesso

6 DIAS 
Infelizmente, nem a benzedura liberta o possesso, nem argumento há que lhe faça esquecer a tentação.


quinta-feira, novembro 22

Queixumes

8 DIAS 
O sapo engole-se, e o queixume só adianta por dar uma ilusão de alívio. Melhor é calar, deixar correr o tempo, e então pagar na mesma moeda. Com juros.


segunda-feira, novembro 19

Festivais literários

11 DIAS

Festivais literários: feiras de grandes egos, grandes vaidades, talentos de todos os tamanhos. Por maior que seja o palco, nunca é grande bastante, e sabe-se o que acontece quando se fecham muitos ratos numa caixa pequena.
 A dor dos que não são ratos, é só poderem morder com os olhos.

sexta-feira, novembro 16

quarta-feira, novembro 14

15 DIAS


segunda-feira, julho 16

Indiferença


Deve ser coisa que tenho de nascença, certo é que logo de criança me apercebi da qualidade de me tornar invisível. Não era e não é pela escassa estatura, deve ser algo que, em certos momentos, me faz desaparecer aos olhos dos outros.
Por vezes, num jantar ou convívio em que estou há horas, há sempre alguém que de repente me encara espantado, como se me julgasse defunto, esperasse longe, me visse cair do céu, ou ser tirado de um daqueles armários que os prestidigitadores usam nos circos, e donde fazem aparecer e desaparecer tigres, bandos de pombas, mulheres nuas soprando labaredas ou serradas a meio.
Deve haver outros que conhecem essa situação e, como eu, se maravilham com a indiferença do semelhante naquelas ocasiões em que dele se espera o que se chama as boas maneiras.
Assim, para tratar assunto de mútuo interesse, me encontrava eu, dias atrás, no gabinete de uma Power Woman. A meio da conversa teve ela de atender uma chamada, retirei-me discretamente para o fundo da sala. Devia ser assunto de peso, porque quando olhei o relógio já passara um quarto de hora, mais um quando desligou.
E então aconteceu: tinha-me tornado invisível, surgia ali por mágica, a madame não gritou quando me viu aproximar, mas quase.
O que aqui vem ao caso não é a distracção sincera ou fingida das pessoas, mas a indiferença que mostram pelo semelhante e nem sempre conseguem esconder.

sábado, julho 14

Gerrit Komrij (1944-2012)

Assisti hoje a uma cerimónia fúnebre em que se disseram sobre o defunto, carinhosas e sentidas palavras. Não das superficiais, das do preceito que aos mortos só se devem elogios, mas palavras sinceras de amizade e admiração, comemorando este um momento festivo, citando outro um dito memorável, um poema.
Tocou-se, coisa rara, bela música medieval. Incomum foi também ouvir os risos provocados pela lembrança de uma cena hílare, e que ali se lhe prestasse homenagem com longo aplauso e ovação de pé.
Lá onde está deve ter apreciado, pois era rebelde e iconoclasta, poeta de raro talento, crítico acerbo de gregos e troianos, justamente temido pelo veneno das setas que disparava e raro falhavam o alvo.
Durante um pouco mais de quatro anos foi sincera e íntima a nossa amizade. Depois cortei eu o laço. Dias atrás, recebi, chocado, a nova da sua morte. E hoje, na despedida, com pena recordei, não apenas a sua, mas as amizades que ao longo da vida se perdem e deixam um vazio.

sexta-feira, julho 13

Festa

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Houve ontem razão para festejo, pelo que os quatro presentes esvaziaram esta e lhes ficará algum tempo na lembrança.
Horas felizes são mais fáceis de recordar que as de amargura, a arte está em não tornar demasiado solenes as primeiras, nem julgar que as outras prenunciam o Inferno.

quarta-feira, julho 11

A sardinha do vizinho

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Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.
A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.
É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.
Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.

domingo, julho 8

Қазақстан

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Guarde-se por enquanto o mistério de como eu, estando nos pólders, me divirto também no Casaquistão - Қазақстан é mais bonito - e dei lá com o interessante divertimento do Kuuz Kuu que, imagine, quer dizer: "Agarra a moça".

sexta-feira, julho 6

Deus, o Bosão e a Santa da Ladeira

Anos atrás, como com regularidade pendular acontece, houve grande fervura sobre se Deus lá do alto nos olha, ou se tudo é poeira, ilusão, e o que chamamos vida se limita à sucessão de pontapés que uns acidentalmente recebem e de que outros também acidentalmente se livram.
Em ocasiões dessas aparece sempre um Dawkins de segura arrogância, a explicar como os mitos funcionam e desandam a cabeça de tantos. Na outra ponta está gente como Swedenborg e a muito nossa Mãe Maria, a Santinha da Ladeira, que não se gastam em argumentos, pois eles próprios visitaram o Altíssimo.
Chega-nos agora o Bosão, e esse não só garante a existência de Deus, de que é partícula, como profetiza um futuro próximo de melhoria e felicidade .
De modo que está na hora de que um novo Dawkins venha incomodar as certezas.

terça-feira, julho 3

"Açoriano Oriental"

Que ninguém olhe vesgo, ou me julgo emproado, mas é uma alegria ler um texto assim, depois de mais de cinquenta anos passados na assombrada ideia de que o que escrevia eram garrafas lançadas ao mar com esperança, mas se perdiam no fundo e nunca davam à costa ou chegavam à praia.

segunda-feira, julho 2