quinta-feira, dezembro 6

Belo presente



É você artista, amador da Arte, ou simplesmente pessoa que aprecia a beleza?
Então aqui tem um presente. Não meu, mas do famoso Rijksmuseum de Amsterdam que, para alegria de muitos, depois de estar fechado para obras uns dez anos, reabre em Abril.
Essa espectacular instituição põe gratuitamente, sem direitos, e à disposição de todos, nada menos de 125.000 quadros célebres e obras de Arte. Pode descarregar, imprimir, copiar, utilizar e reproduzir  como lhe apetecer.
O site: https://www.rijksmuseum.nl/en/rijksstudio tem também instruções em Inglês e informações em Português.

Fraco arquivista



Guardo pouco, e esse pouco guardo-o em desarranjo, perco-o, esqueço que o tive ou tenho. Deixar rasto não é comigo, e nunca me vi nem vejo precisado de mostrar que por cá andei. Chamem-lhe falsa modéstia os maldosos, e os que sentem diferente, mas nasci assim, sou assim, é desse modo que me vejo acabar.
Dos descendentes quero que guardem boa memória, e faço de modo a que os amigos que tenho - poucos, mas bons – me recordem enquanto eles próprios continuarem vivos.
Ficarão os livros – se ficarem - uns escassos anos, que isso é o que acontece, mesmo aos dos que pareceram grandes, deixaram viúvas e têm estátuas.

quarta-feira, dezembro 5

"Não vales pra nada!"



Cedo gravaram em mim a ideia do pouco préstimo. "Não vales pra nada!" tornou-se o slogan  dos mais variados momentos, e eficiente lavagem do cérebro, pois se aplicava igualmente ao corriqueiro, ao acidental, às situações em que, tendo sido bom, poderia ter feito melhor, e mesmo àquelas em que se me censurava, ora o excesso de actividade, ora a preguiça.
Mas mal comecei a andar na vida pelo meu pé e a seguir a própria cabeça, pouco demorou a livrar-me do trambolho, caindo então no extremo de não dar ouvido a conselhos nem avisos, seguindo o que me parecia o bom caminho, o qual, nalgumas ocasiões, mostrou ser o do  precipício.
Mas das vezes que caí, não voltei a ouvir o anúncio da minha fraca utilidade, tão-pouco bateram palmas quando, à força de pulso, e rangendo os dentes, me viram sair dele.
Digo-me então que, ao fim e ao cabo, e porque a vida é luta, aquele "Não vales pra nada!" talvez faça sentido: além de provar que reparam em nós, fornece um adversário.

segunda-feira, dezembro 3

Segunda-feira



Passou um quarto de século, mas a recordação permanece. Durante a minha vida activa os momentos de verdadeiro descanso eram da sexta à tarde ao sábado à noite.
Por muito que fizesse, o domingo era o sombrio preparo da semana que ia chegar e, as mais das vezes, na manhã de segunda arrastava-me para o calvário, em disposição parecida com a de Jesus Cristo sentindo o peso da cruz.
Desse fardo há muito me libertei, o que não impede que, vezes sem conta, nas manhãs de segunda-feira o meu pensamento vá para os que se arrastam, como tantas manhãs me arrastei, para um trabalho que tinha sido vocação e se tornara suplício.
Peço então ao Todo Poderoso que, como o fez comigo, se compadeça, e lhes dê força para aguardar a tarde de sexta-feira.

domingo, dezembro 2

Espectáculo



Tive, mas há muito o perdi, esse sentimento de que o tempo não passa. O meu corre, voa, já é ontem quando o julgo amanhã, descubro-me idoso de um dia para o outro, surpreende-me que, como vizinhos irritados, cabeça e músculos deixem de se falar, desdenhando da sincronia que ainda na semana passada os harmonizava.
Queixas não tenho, antes me diverte o espectáculo em que para mim próprio me tornei, e a que obrigado assisto, em simultâneo actor e público de mim mesmo, dando réplicas, negando o aplauso, por vezes a resmungar com o mau desempenho.
Uma curiosidade me resta: quem será o régisseur ? Eu de certeza não sou. Apenas  forneço o palco, represento os papéis que já disse, e impaciento-me com a repetição das cenas.

sábado, dezembro 1

Quem nos acuda



Em seis meses acontece de tudo, menos o que se deseja. É infrutífera a peregrinação em torno do nosso quarto (mesmo para quem leu Xavier de Maistre), de nada adianta espiolhar o íntimo, e fica mal deitar ares de quem se preocupa com a crise, porque essa, a que é a sério, dói de verdade aos que a sofrem calados, não toca os senhoritos que, à esquerda e à direita, anunciam o que se deve fazer para que Pandora despeje sobre todos, mas primeiro sobre eles e compadrio, o saco de dobrões.
Tive mão em mim e, avisadamente, creio, meti a viola no saco, já deprime de sobra ver que os senis profetas de "O Sol brilhará, para todos nós" ainda sobem ao palco, esperançados de poderem esfregar nas chagas alheias a banha de cobra de sua receita.
Fátima não volta, nem os extra-terrestres nos querem, por isso teremos de ir indo como até agora: sonhando com Índias e Brasis, um Salazar que nos acuda, uma União Europeia  melhor do que esta, também capaz nos subsídios, mas que não nos venha depois afligir, exigindo contas.
Ou teremos de aceitar que nós, portugueses, não fomos feitos para este mundo, nos puseram nele por engano. Por isso pague a despesa quem para cá nos atirou.