segunda-feira, julho 16

Indiferença


Deve ser coisa que tenho de nascença, certo é que logo de criança me apercebi da qualidade de me tornar invisível. Não era e não é pela escassa estatura, deve ser algo que, em certos momentos, me faz desaparecer aos olhos dos outros.
Por vezes, num jantar ou convívio em que estou há horas, há sempre alguém que de repente me encara espantado, como se me julgasse defunto, esperasse longe, me visse cair do céu, ou ser tirado de um daqueles armários que os prestidigitadores usam nos circos, e donde fazem aparecer e desaparecer tigres, bandos de pombas, mulheres nuas soprando labaredas ou serradas a meio.
Deve haver outros que conhecem essa situação e, como eu, se maravilham com a indiferença do semelhante naquelas ocasiões em que dele se espera o que se chama as boas maneiras.
Assim, para tratar assunto de mútuo interesse, me encontrava eu, dias atrás, no gabinete de uma Power Woman. A meio da conversa teve ela de atender uma chamada, retirei-me discretamente para o fundo da sala. Devia ser assunto de peso, porque quando olhei o relógio já passara um quarto de hora, mais um quando desligou.
E então aconteceu: tinha-me tornado invisível, surgia ali por mágica, a madame não gritou quando me viu aproximar, mas quase.
O que aqui vem ao caso não é a distracção sincera ou fingida das pessoas, mas a indiferença que mostram pelo semelhante e nem sempre conseguem esconder.

sábado, julho 14

Gerrit Komrij (1944-2012)

Assisti hoje a uma cerimónia fúnebre em que se disseram sobre o defunto, carinhosas e sentidas palavras. Não das superficiais, das do preceito que aos mortos só se devem elogios, mas palavras sinceras de amizade e admiração, comemorando este um momento festivo, citando outro um dito memorável, um poema.
Tocou-se, coisa rara, bela música medieval. Incomum foi também ouvir os risos provocados pela lembrança de uma cena hílare, e que ali se lhe prestasse homenagem com longo aplauso e ovação de pé.
Lá onde está deve ter apreciado, pois era rebelde e iconoclasta, poeta de raro talento, crítico acerbo de gregos e troianos, justamente temido pelo veneno das setas que disparava e raro falhavam o alvo.
Durante um pouco mais de quatro anos foi sincera e íntima a nossa amizade. Depois cortei eu o laço. Dias atrás, recebi, chocado, a nova da sua morte. E hoje, na despedida, com pena recordei, não apenas a sua, mas as amizades que ao longo da vida se perdem e deixam um vazio.

sexta-feira, julho 13

Festa

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Houve ontem razão para festejo, pelo que os quatro presentes esvaziaram esta e lhes ficará algum tempo na lembrança.
Horas felizes são mais fáceis de recordar que as de amargura, a arte está em não tornar demasiado solenes as primeiras, nem julgar que as outras prenunciam o Inferno.

quarta-feira, julho 11

A sardinha do vizinho

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Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.
A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.
É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.
Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.

domingo, julho 8

Қазақстан

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Guarde-se por enquanto o mistério de como eu, estando nos pólders, me divirto também no Casaquistão - Қазақстан é mais bonito - e dei lá com o interessante divertimento do Kuuz Kuu que, imagine, quer dizer: "Agarra a moça".

sexta-feira, julho 6

Deus, o Bosão e a Santa da Ladeira

Anos atrás, como com regularidade pendular acontece, houve grande fervura sobre se Deus lá do alto nos olha, ou se tudo é poeira, ilusão, e o que chamamos vida se limita à sucessão de pontapés que uns acidentalmente recebem e de que outros também acidentalmente se livram.
Em ocasiões dessas aparece sempre um Dawkins de segura arrogância, a explicar como os mitos funcionam e desandam a cabeça de tantos. Na outra ponta está gente como Swedenborg e a muito nossa Mãe Maria, a Santinha da Ladeira, que não se gastam em argumentos, pois eles próprios visitaram o Altíssimo.
Chega-nos agora o Bosão, e esse não só garante a existência de Deus, de que é partícula, como profetiza um futuro próximo de melhoria e felicidade .
De modo que está na hora de que um novo Dawkins venha incomodar as certezas.

terça-feira, julho 3

"Açoriano Oriental"

Que ninguém olhe vesgo, ou me julgo emproado, mas é uma alegria ler um texto assim, depois de mais de cinquenta anos passados na assombrada ideia de que o que escrevia eram garrafas lançadas ao mar com esperança, mas se perdiam no fundo e nunca davam à costa ou chegavam à praia.

segunda-feira, julho 2

sábado, junho 30

Ser pobre

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Há pobre e pobre. Sabe-o quem o foi e já não é, quem sempre o será, adivinha-o aquele que não tardará a sê-lo.
Há ricos pobres, mas poucos nas circunstâncias do grande Isaac Babel (1894-1940), meu herói quando, na adolescência, li Cavalaria Vermelha e Contos de Odessa.
Casado há pouco, voltando da guerra debilitado, sujeito a fortes ataques de asma, o  sogro, rico comerciante judeu, arranjou-lhe uma casa na Geórgia, nas montanhas próximas de Batumi.
Chegado com a mulher a esse longe, e crendo-se abastado, Isaac Babel descobriu-se pedinte: o sogro tinha-lhe dado uma nota de mil rublos, e em todo o distrito não havia uma única alma com dinheiro suficiente para fazer o troco.

quinta-feira, junho 28

Futebol

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De futebol não entendo, mas de vez em quando vejo, como nas semanas atrás, ontem também. Não sofro com más jogadas, ou os disparos à trave, não grito se há vitória, aborreço-me se os jogadores saltitam de um lado para o outro como crianças no recreio.
Por essas razões e outras o jogo interessa-me menos que as carantonhas dos treinadores, o ar soturno dos sujeitos que se sentam junto deles na bancada, sempre com um caderninho na mão.
Gosto também daqueles rapazes que durante as interrupções beijam e abraçam os jogadores. Gosto dos massagistas. Num jogo da semana passada estava Balotelli em pé, a conversar com alguém, parecendo não se dar conta que dois - dois! um a cada perna! - lhe massajavam os músculos.
Gosto da cara dos árbitros quando agitam uma yellow card, e de quanto Ronaldo se põe a bufar antes de um penalty.
Aqueles stewards, de costas para o jogo, serão mesmo de carne e osso? Gosto de vê-los ali, impávidos, lembrando os soldados gregos de saia branca e espingarda de brinquedo. Aprecio muito quando os jogadores rebolam uns sobre os outros, com cara de grande aflição e dor, mas logo desatam a correr
É que não me sobra o tempo, senão todos os dias via futebol. Bom teatro, grande comédia, próspera indústria.

PS. Não me canso de admirar a variedade das tatuagens e o elaborado das cabeleiras. 

terça-feira, junho 26

Para pensar

Pergunta a uma psiquiatra:
- Será possível que um adulto realmente mude?
- Quem em criança sofreu constantemente castigos dos pais, e foi mau aluno na escola, tem grande possibilidade de, na vida adulta, se esforçar por agradar aos outros.
Reconhece-se? Deixe de ser bonzinho/a.

sábado, junho 23

O Portugal moçambicano


Com uma expressão de genuíno pasmo, e não era para menos, em meados dos anos 80 contava-me um diplomata holandês, que geria o auxílio a Moçambique, o que tinha testemunhado durante a visita a um ministério em Maputo.
Numa sala de enormes dimensões alinhavam-se dezenas e dezenas de faxes, todos eles matraqueando num ruído de ensurdecer. Por entre as filas de aparelhos moviam-se uns quantos funcionários, não se compreendendo o que os levava a parar aqui e ali, pois em nenhum dos faxes havia rolo de papel para a impressão das mensagens.
Recordei isto ao ler o caso que Henrique Raposo cita do Jornal de Negócios, e o sentimento que me toma não é de pena ou raiva, só desespero e vergonha. Nenhum país merece gente desta.

quinta-feira, junho 21

A fé

Veio de um pueblo de donde via a Peña Trevinca na Sierra de la Cabrera, mais de dois mil metros, muita altura. Disso tem saudades, mas do resto… Encolhe os ombros, dez réis de gente, alegre, despachada, ri às gargalhadas quando conta como veio parar aTrás-os-Montes e lhe deu a ideia que tinha chegado a um paraíso, tudo grande, melhor, florido, mais bonito.
Arranjou homem, pariu filhos, três ao todo, diz que a vida tem horas boas e horas más, e sem queixas aceita o destino.
Em Janeiro, quando soube o irmão mais velho às portas da morte, entrou na igreja e pediu a Nossa Senhora que o salvasse, ou pelo menos lhe aliviasse o grande sofrimento. Força tinha pouca, mas jurava, prometia, iria a pé ao Santuário.
Agora estou eu, crente ou descrente conforme as horas, preso à expressão desta mulher em corpo de criança, uns olhos que brilham de fé, de entusiasmo, e me conta da romagem, da canseira, do espanto de chegar a Fátima e sentir-se leve como uma pena, tomada de uma alegria luminosa, desconhecida.
- Nem quando me nasceram os niños! Agradeci de joelhos! Olhe que não vou esquecer. Nunca! E enquanto puder hei-de lá ir.
Suspendo a pergunta, que me parece descabida, mas ela lê os meus olhos e responde: - Está melhor, está cada vez melhor. Os médicos dizem que tem cura.
Despeço-me maravilhado. Vi a alegria e o arrebatamento da fé. Da fé pura, verdadeira, inocente, a fé que eu gostaria de ter.

terça-feira, junho 19

Gonçalo M. Tavares na Holanda

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Neste tempo em que vivemos, entre um rapaz de quarenta e um sénior com o dobro, podem ser abissais as diferenças de sensibilidade, de interesse, visão do mundo e, sobretudo, as das ideias sobre os corpos e as almas.
Isso bastaria para que a temática e o estilo de Gonçalo M. Tavares me travassem a vontade de lê-lo. O que da sua obra conheço também não me encorajou a persistir, nem os muitos prémios, elogios, ou as similitudes com Houellebecq me entusiasmam ou fazem mudar de opinião. Teimosia de idoso, esta de só através dos seus olhos querer ver o que se passa e o que o rodeia
Felizmente outros há, com menos anos, mais capazes, e melhor percepção da contemporaneidade, como o muito capaz e inteligente Gerry van der List, que no semanário holandês Elsevier termina assim a crítica de Aprender a Rezar na Era da Técnica:
"É um livro estranho e desconcertante, com curiosos personagens… Mas a precisão clínica, o tom seco e a mórbida fantasia de Tavares emprestam ao romance um estranho sentimento opressivo. E isso leva a desejar que, com brevidade, mais obras suas sejam traduzidas para o Neerlandês".
Congratulo-me com o êxito do jovem colega, e faço votos para que Gerry van der List continue a interessar-se pela literatura portuguesa. Quanto a mim, fico como sou: nem cego, nem invejoso, mas com demasia de anos para mudar de andadura.

domingo, junho 17

Portugal 2 - Holanda 1

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Aviso: tem você dois amores, duas pátrias, duas famílias? Se jogam uma contra a outra fica sempre a perder.

quinta-feira, junho 14

Descanso


Este blogue vai descansar uns dez dias. Obrigado pela visita.

Trás-os-Montes

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terça-feira, junho 12

O Cinquecento

Em Itália, quando na segunda metade dos anos 30 o Partido Comunista e os sindicatos estavam a ganhar influência suficiente para destabilizar a sociedade burguesa, The powers that be – a Santa Madre Igreja, a grande indústria e a banca – excelentes conhecedores do que anseiam os corpos e as almas, deitaram-se a construir bairros operários confortáveis, mas longe das fábricas, o que diminuía a vontade de pertencer a sindicatos e participar em reuniões de contestação. A fase seguinte foi o Fiat 500. Acessível no preço, económico na gasolina,  o trabalhador italiano tomou o gosto de, no fim-de-semana, levar a família para a praia. Adeus Marx, adeus Lenine.
Nos anos 60, e na mesma ordem de ideias, repetiu-se a coisa aqui ao lado, o operário espanhol sentou-se a conduzir o Seat, cópia fiel do Cinquecento, e com o passar das décadas, em ambos esses países os então proletários alcançaram o estatuto e os confortos da classe média.
No nosso Portugal, tradicionalmente débil em agitação social, mas de excelentes relações com o divino, ao findar a década de 80 repetiu-se, como sabemos, o milagre do maná, com que no Egipto o Senhor salvara os judeus.
Não vou repetir a gracinha brasileira de termos caído da palmeira para o volante, mas o português nunca faz as coisas por menos, e ele, que vinha da carroça e dos comboios com terceira classe, tomando grandes ares atirou-se aos BMW, Mercedes, Audi, Range Rover e quejandos.
A que vem o Cinquecento aqui chamado?
Já lho digo. São umas frases que com frequência oiço. "Isto já não é o que eles julgam! Já não é como antigamente! Isto mudou!"
Mas infelizmente tudo está na mesma e continuamos como somos, sonhadores da Fórmula 1. Nada de vagares, esperas, nada de desenvolvimento ordenado e pensado. O miúdo quer logo o brinquedo e nenhum Cinquecento o consola ou lhe serve. Venha o Ferrari, senão chora.
“Isto já não é o que eles julgam! Já não é como antigamente! Isto mudou!"
Será que mudou porque o sonho se foi?