sexta-feira, setembro 5

Os velhos

Uma Rosita Steenbeek, licenciada em Neerlandês, aos vinte e poucos anos emigrou para Roma. Aí diz que se meteu nas camas de Moravia e de Fellini, e conta-nos essas vivências em A última mulher, um romance autobiográfi­co.

Como é compreensível a cobertura publicitária não poderia ser maior. Não se vê programa, não se abre jornal ou revista onde a escritora, ora com recato no género menina de colégio, ora em pose erótica, não apareça a repetir a história. Mas pelos jeitos, passados anos sobre as aventuras romanas, a sua preferência já não vai para os amores gerônticos. Porque, afirma ela com o sério de quem descobriu uma verdade profunda: "Os velhos morrem."


quarta-feira, setembro 3

Trovoada num Agosto de antigamente

A nuvem formou-se de repente, cor de chumbo, destoando no azul limpo do céu.
- Não tarda aí!
As moscas, sentindo a mudança, desalmam-se contra as bestas, contra as crianças que as mães deixaram à soleira da porta na pressa de acudir à lenha, à roupa, de recolher as lonas dos feijões. A rua enche-se de gente, gritos, estrondos, as galinhas voam, os porcos desembestam contra as tábuas das cortelhas, grunhindo de medo, no céu aparece outra nuvem negra e a luz faz-se crua como de madrugada, o vento ruge entre os pinheiros, a poeira escurece tudo.
Caem pingas grossas aqui, além, com o primeiro relâmpago desaba o dilúvio, num pronto a rua tem palmos de água, e ao longe ouve-se o barulho da ribeira, engrossada pelo enxurro que as encostas ressequidas não seguram. Os homens correm atrás dos animais que o medo faz cabrear, guiam-nos à cinturada, cegos, encharcados, rogando pragas, chamando em vão.
À mula ninguém acode. Presa pela rédea a uma argola, escouceia contra a parede, desvairada, sangrando da barbela, onde a serrilha morde a cada empuxão.
- De quem é?
O sapateiro espreita para ver, mas os outros, sentados em torno da banca, não se interessam.
- Ainda se enforca!
E a rir, aprovando, retoma a forma, atento à conversa.
A tia Rita, corcovada, não chega à argola e espreita pela janela, furiosa ao vê-los sentados:
- Vinde cá, ó mandriões! Quem é o desalmado que deixa um animal…
O Abílio levanta-se contrafeito e, sem paciência para deslindar os nós, saca da navalha, corta a rédea, a mula vai rua abaixo toda mansidão.
Brusca como veio a trovoada passou, as crianças brincam nas poças, da bica sai uma água barrenta que não se aproveita, as galihas depenicam na lama com frenesim. No forno ouve-se um grito seguido de um estalo, um miúdo a chorar, uma voz de mulher que diz:- Aprendes!

terça-feira, setembro 2

Ah! A verdade!

Folheio os diários que escrevi na adolescência e ainda me envergonha o ver-me neles nu e tão ingénuo. Os que mantive ao redor dos trinta anos envergonham-me pelo romantismo, a fantasia, a ilusão em que eu vivia de que, com entusiasmo e solidariedade, se salvaria o mundo.
Pergunto-me como olharei para o que agora escrevo se o destino me deixar chegar aos oitenta. Porque ingénuo já não sou. Romântico também não, e das ilusões guardo somente as precisas para com elas diluir um pouco as sombras do viver.
E a verdade?
Ah! A verdade! Num diário, num romance, numa conversa, no seu dia a dia, a única verdade que ao escritor interessa é aquela que ele próprio cria. E à qual se agarra, como bóia da sua salvação.

segunda-feira, setembro 1

Visita episcopal (1943)

D. Maria toca o sino, puxando uma corda que, por entre as amoreiras, vai da torre da igreja, atravessa o largo e lhe entra pela janela. Vejo-lhe o braço descarnado a puxar e assusto-me, fujo, porque ouvi dizer que ela fala muito com Deus.
As Filhas de Maria estão à entrada da aldeia, em duas filas, batem palmas, cantam, atiram pétalas de rosas. O bispo, pequenino, gorducho, sorridente, passa abençoando. D. Abílio. Este é que fala com Deus!
Ajoelho como os outros e evito encará-lo, beijo-lhe o anel.
A minha avó também fala com Deus, mas diz que nunca se sabe, e o missionário tinha aconselhado. Por isso pagou duzentos mil réis por trinta indulgências. Leio e compreendo: o Purgatório, o adoçar das penas infernais, ou mesmo a segurança de escapar ao Belzebu, está em ter à mão estes papéis.

sábado, agosto 30

Hospital de Santo António - Porto (1939)

Tenho nove anos. O filho da senhora Emília levou um tiro na barriga, está a morrer. Ainda é parente e vamos ao hospital com os primos que vieram de Carviçais. Já puseram um biombo em volta da cama para que os outros doentes não se incomodem. Há ali um cheiro estranho. Escapo-me de mansinho.
Vou-me pela enfermaria e paro diante de um homem enrolado em ligaduras como uma múmia, buracos para os olhos, o nariz, a boca.
Queimou-se no trabalho, explica a mulher. Calma, como se fosse natural, segurando os gomos de laranja que ele não consegue chupar.
Volto à cama do moribundo. Meu pai esteve na morgue e, sussurrando, conta aos primos que viu braços e pernas em cima das mesas, pedaços de gente, cabeças, muito sangue.
Aquilo agonia-me, começo a chorar. Ele encara-me, franze o sobrolho e, para que a aflição me passe, dá-me uma chapada.

sexta-feira, agosto 29

Amarguras

Recebe-se às vezes uma confidência ou, com alusões veladas, alguém nos põe a par do seu sofrer. Em ocasiões assim não há conselho que sirva, e talvez esse alguém não deseje senão libertar-se de um peso. Reagir à desconhecida que ontem, sem razão que eu descubra, me mandou um longo mail de amarguras e decepções sentimentais, é ainda mais bicudo.
Quem me conhece sabe-o, de verdade não sou muito de poesia, mas num caso destes valho-me de Florbela Espanca (1894-1930).

A MULHER

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem de saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
(13.03.1916)

quinta-feira, agosto 28

Arnaldo Gama

Seja uma forma de homenagem. Antes de Eça, Camilo, Balzac e Zola, Arnaldo Gama (1828-1869) foi o escritor por onde comecei. Livros infantis e histórias de fadas, aí por volta dos nove anos era fase que já tinha ultrapassado, embora durante muito tempo continuasse a ler "O Mosquito" e o "Pim-Pam-Pum" que vinha com "O Século". Arnaldo Gama, pois. Os livros que dele acarinho, e tantas vezes reli que estão a desfazer-se, são edições de 1935.

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quarta-feira, agosto 27

Esperar

Nem todos os dias têm de ser tristes, maus ou monótonos. Por isso espero, espero, espero pelo dia bom, o momento excepcional de alegria, de satisfação. Enquanto esse momento ou esse dia não chega, conformo-me com as pequenas coisas da vida e continuo a esperar, a esperar, a esperar.
Esperar, aliás, sempre foi para mim um modo de existir e, ao fim e ao cabo, talvez eu não seja mais que um optimista que se desconhece, um tolo, ou alguém que, escondido à espera, julga poder escapar aos seus demónios íntimos.

terça-feira, agosto 26

Matança

Enxotaram o porco para fora da pocilga e os homens pegaram-lhe, estenderam-no de lado sobre o banco, apertaram as cordas de carro em volta do corpo e do focinho, para que grunha menos.
O Zé ajoelha-se a meter a faca e o sangue espicha, aparam-no num alguidar. Desatam as cordas. Com molhos de palha começam a chamuscar-lhe os pêlos, a pele estala aqui e ali, acastanhada. De repente, com um urro formidável, o porco salta e abala rua abaixo, cego, esbarrando contra as paredes.(*)


(*) A recordação é de Novembro de 1945, a fotografia de Outubro de 68. Clique para aumentar.

segunda-feira, agosto 25

Escolhas

Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-). Socióloga de renome e nos anos 60 catedrática na Sorbonne. Amiga desse tempo longínquo, partilhava então comigo o interesse pelos “Cangaceiros” e a invasão lusitana de Paris.
Ela contou e provavelmente esqueceu. Eu anotei para não esquecer.
Ambos no comissariado da polícia, esperando para renovar o visto de residência, o rapaz atreveu-se a falar. Depois –ao fim e ao cabo ela vinha de São Paulo, tão longe! – encorajou-se e convidou-a tomar um café, contou da sua vida:
- Quando estive em Lisboa a tratar dos papéis, ainda quis casar, mas a rapariga foi sincera, disse que gostava de mim, só que não podia, eu não era o primeiro. O patrão tinha-a desgraçado.
- Mas aqui em Paris, com tanta mulher… E bonitas!…
- Está enganada, minha senhora! Casar cá? Nunca! São piores do que as da rua! Vão com todos! Fazem tudo!...
- Mas na sua terra de certeza que há boas raparigas… Sérias…
- Pois há!... – e tristonho, baixando a cabeça – Mas envergonham-se! Não fazem nada!

domingo, agosto 24

Feira dos Gorazes em Mogadouro (1944)

Há três dias que não param os rebanhos, as manadas, récuas, fatos,varas, ciganada, peleiros, gente da tenda, pobres de pedir. A rua cheira a bodum. Não saio dali porque passa o mundo. Aleijados, caldeireiros, o doutor Adelino de Carviçais, magro, com óculos de ouro, vestido de preto sobre um cavalo preto, guardas, almocreves, sardinheiros, burros com cântaros, burros com caixas, burros com gente.
Por fim vamos nós, acordados de madrugada, viajando no escuro. Embalado pelo chouto da mula, adormeço antes de passarmos as Quintas das Quebradas.

sábado, agosto 23

Adolescência ( Julho,1945)

As meninas vieram da cidade. Pintam-se. Assustam. Não se sentam nas albardas de lado, mas cavalgam escarranchadas como os homens, as saias repuxadas a mostrar as coxas.
Escureceu. Vamos uns quantos para as eiras no alto do monte, ver os foguetes de lágrimas de uma festa lá longe.
Deitámo-nos na palha que ficou da malhada. Das três irmãs calhou-me a mais nova. Porquê? Nunca o saberei. Guia a minha mão, desaperta a blusa, acaricio o seio nu. Procuro o outro e ela trava-me. "Só esse!"
Firme, moreno, macio, o primeiro que não é sonho. A irmã do meio vem, abraça-me, beija-me nos lábios! Vou enlouquecer!

sexta-feira, agosto 22

Paisagem antiga

Terras de pedra, de pão, calcinadas pelo fogo de Agosto. Oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca. Abutres circulam alto, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou. Vagarosos, à espera que o rebanho se afaste. Chocalhos fúnebres. Montes sem alegria. O fumo pairando sobre as casas, sete da tarde, sol bárbaro. Um carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção de tristeza e desespero. A torre quadrangular e escura da igreja. A casa do capitão - com sentina - alvejando, casas escuras de pedra solta, palheiros cobertos de colmo, a nossa derreada na encosta, caiada de amarelo. Mais longe uma cor-de-rosa, outra de um azul deslavado. À porta do forno um saco de pinhas, um molho de estevas, cântaros de barro sem asa. Uma burra presa à argola. Uma mulher passa com um saco à cabeça.

quinta-feira, agosto 21

Confissões

Embora já me tenha ocorrido consultar ambos, ainda nunca me confessei a um padre, nem consultei um psicanalista.
Não por descrença nos seus poderes, mas por deformação profissional minha: tenho a certeza de que chegado o momento de confessar os meus pecados, ou abrir os esconsos da minha alma, eu involuntaria­mente assumiria o papel de um personagem de romance, mais interessado no espectacular da ficção, do que na banalidade do real.

quarta-feira, agosto 20

Uma vida

Herdeiro de grande fortuna, vive num majestoso prédio num dos canais nobres de Amsterdam. Dentro em pouco fará noventa anos e de si próprio diz com desinteresse , “tenho um IQ escandalosamente alto.”
Tem. Engenheiro de profissão, correu mundo, trabalhou em mais partes do que as que consegue recordar e, belo homem que foi, perdeu a conta de quantas mulheres entraram na sua vida. Dessas casou com quatro, e aquela que realmente amou, faleceu. As restantes aborrecem-no com exigências de aumento da pensão alimentar.
Conhecemo-nos por acaso em São Paulo, nos anos cinquenta, e a simpatia permanece. Une-nos também o interesse pela História, por computadores e pela internet, talvez porque ambos vimos do tempo em que mesmo o rádio era maravilha.
Encontramo-nos uma vez por outra no seu café, onde chega por volta das seis. De táxi, porque as pernas já não aguentam os trezentos metros da caminhada. Bebe ele duas ou três “cabeçadas”, fico-me eu pelo copo de tinto. (*)
Ontem, rememorando uma tumultuosa peripécia da sua vida, surpreendeu-me o modo sombrio como em certo momento disse: “No passado, quando me zangava com alguém, havia nessa zanga um certo respeito. Actualmente recuso zangar-me com quem quer que seja. É uma forma de desprezo.”
……………………………….
(*) A fotografia (©Ad Nuis) não se relaciona com o texto, ilustra apenas a maneira como se bebe a “cabeçada” (kopstoot em holandês), começando pelo cálice a trasbordar de genebra e alternando com cerveja.





terça-feira, agosto 19

Águas

Debates, teorias e controvérsias sobre o meio ambiente, o aquecimento global, etanol, biodiesel, energia eólica etc., não somente me levam a franzir o sobrolho, como aumentam o cepticismo com que sempre encarei modas, activismos, e a generalidade das manifestações de rebanho do meu semelhante.
Razões para tal encontro-as por toda a parte e a cada passo. Por exemplo esta notícia no jornal de sábado (16.08.08): “A Grã-Bretanha exporta anualmente 20.000 toneladas de água mineral para a Austrália, e da Austrália são exportadas 20.000 toneladas de água mineral para a Grã-Bretanha”.
É navio para cá, navio para lá, com a sujidade correspondente. E estou a vê-los daqui, os defensores do planeta, com a garrafinha de água pura ao alto, a gritar “Morras!” à poluição dos ares e dos mares.

segunda-feira, agosto 18

Repetições

Atento e preocupado, um jovem amigo escreve a avisar-me que ando a repetir textos. Pergunta-se ele se é a memória que me falha ou, visto os anos que já por cá ando, não serão achaques de Alzheimer ou Parkinson.
Nada disso, felizmente. Acontece sim, que muitos desses textos apareceram algures – na saudosa Periférica e nos blogs A Oeste Nada de Novo e Os Canhões de Navarone, do meu amigo Rui Ângelo Araújo. Outros apenas foram publicados em neerlandês.
Se fosse questão de comércio, poderia julgar-se que procuro o lucro, seguindo aquele princípio da Economia que aconselha “Move the product!” Mas neste caso a razão é mais simples: trata-se apenas de arrumo, vou pondo aqui o que na casa alheia e na minha andava disperso ou quase perdido.
A repetição tem ainda um outro motivo: entre a média de quarenta visitantes diários deste blog, haverá dois ou três que antes me leram. Esses por certo compreenderão que, para manter a porta aberta e não desapontar quem a ela bate, “sirvo” prosa que para eles é requentada, mas novidade para os mais.

domingo, agosto 17

A nossa vida

A nossa vida gira em torno de quê? Ponho-me a pergunta e envergonho-me de para a minha não saber onde achar a resposta.
As gerações anteriores podiam responder com a família, a pátria, o trabalho, a religião, as ideologias, mas entretanto todos esses alicerces da existência se foram esboroando.
A minha vida gira em torno de quê? De mim próprio? Acho que não, pois para isso me faltam egocentrismo e vaidade suficientes. Em torno dos meus livros? Menos ainda, porque jamais qualquer deles se me afigurou definitivo como a chegada a uma meta, antes me parecem etapas curtas num moroso e difícil percurso que não sei onde irá terminar.
Mas então? Não faço ideia. Aparentemente a minha vida não gira em torno de coisa nenhuma, talvez seja apenas uma sequência de hábitos que ficaram no lugar dos objectivos de que por vezes desdenhei, e outras vezes me esqueci de ter.

sexta-feira, agosto 15

Liberdade

É um sentimento perturbante, quando o que sempre se repudiou surge por vezes com um inesperado atractivo. Fazer parte dum exército, dum convento, duma seita, duma quadrilha. Seguir um regulamento. Aceitar um chefe. Eliminar as incertezas e as dúvidas daquele que caminha sozinho.
Cadeias? Laços? No diário faço por esquecê-los, mas nem assim pesam menos os grilhões que me acorrentam à liberdade.

quinta-feira, agosto 14

"O País de Salazar"

"O País de Salazar" - data de 1941 e pela capa ninguém diria, mas é um laudatio. Com fotografias do tempo, como estas da Casa dos Pescadores (1939) em Matosinhos e do Instituto Superior Técnico (1939).



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quarta-feira, agosto 13

"Vinho cobarde"

Ainda nunca usei drogas e com o que consumo de álcool ninguém será capaz de se embebedar. Não que eu seja assim por virtude, mas ao primeiro aviso de que me se me tolda a cabeça, o medo de deixar de ser eu próprio pode mais que a curiosidade pelos efeitos do trip ou da bebedeira.
Não é isso que me encartará como moralista e longe de mim condenar quem, levado pelas inúmeras razões que a vida oferece ou a que a vida obriga, se droga e se embebeda. É certo que me falta paciência para ouvir os longos monólogos da carraspana. Também passo de largo pelos que têm o "vinho mau." Mas esses, pelo menos, não me dão pena como os que têm o "vinho cobarde." Deus me livre de um dia procurar na bebida ou na droga a coragem de me assumir.

terça-feira, agosto 12

Remexendo nas gavetas (30)

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Remexendo nas gavetas (29)

No Diário Popular em Setembro de 1968. (Clique para aumentar )

domingo, agosto 10

O escritor

É um romântico. No jardim que tem atrás de casa, uns escassos metros quadra­dos, avulta uma tília secular. Quando o tempo o permite leva para junto da árvore uma mesita, uma cadeira da cozinha e, horas a fio, escreve o seu livro. Com uma pena de aparo de aço, um tinteiro e cadernos escolares, porque lhe repugna usar meios a que falte uma longa tradição.Escrever à máquina parecer-lhe-ia uma falta de respeito, dum computa­dor nem quer ouvir falar. Escreve, por isso, morosamente, mas diz que só desse modo consegue provocar a passagem do misterio­so fluído com que o cérebro canaliza as ideias para a mão.

O livro não é uma qualquer obra de narrativa fictícia, mas a síntese das observações e pesquisas filosóficas, intelectuais, morais e psíquicas a que se dedica desde a adolescência, e agora, na meia idade, lhe parece terem atingido o ponto de maturação. Anos atrás tinha enchido o equivalente a novecen­tas páginas dactilografadas e, quase certo de ter produzido um magnum opus, levou o manuscrito ao editor.

Este foi cruelmente sincero no seu juízo: "Ilegível, incompreensível, um desarrazoado." Com razões idênticas o editor rejeitou uma segunda versão do texto, mas a vontade que o anima de oferecer ao mundo o livro último, aquele onde se encontrem todas as perguntas e quase todas as respostas, não é das que esmorecem com um revés. Nem com dois. E à sombra da tília, diligente, imper­turbável, continua a escrever, certo e seguro de que sabe o que ninguém mais sabe, que tem para dizer aquilo que ainda nunca ninguém disse.

sexta-feira, agosto 8

Lang Lang

Lang Lang, o genial e jovem (26) pianista chinês que hoje tocará na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, recebeu tempos atrás do seu progenitor o conselho de, sobretudo, dar atenção às críticas negativas, pois “mesmo a opinião de um tolo nos pode ensinar algo.” (*)
O seu mentor americano deu-lhe um conselho mais adaptado à realidade: “Não faças caso das palavras (nos artigos críticos), mas conta as linhas. Quanto mais escreverem sobre ti, mais atenção te darão.”

O conde de Morny (1811-1865) teve o seu momento de fama ao responder do mesmo modo ao criado que, assustado, uma manhã o acordou com a má nova de que os jornais estavam cheios dos escândalos e patifarias de monsieur: “Não importa o que escrevem sobre mim, importa sim que escrevam muito”.

(*) interessante em You Tube: Lang Lang gone mad.

terça-feira, agosto 5

A aldeia

Houve um tempo em que idealizei a aldeia, que me parecia uma fonte de virtudes, uma fonte de harmonia e paz. Depois veio o tempo em que a odiei, porque se assemelhava a um cárcere, e o meu desejo era um só: fugir.
Com a ausência recomecei a idealizá-la e mais tarde esforcei-me por redescobri-la. Para me embeber do sonho antigo percorri de novo todos os lugares, procurei ouvir de novo o bater do seu coração. Mas finalmente tive de me resignar ao irremediável: ela mudou, eu envelheci, somos ambos personagens secundários num romance histórico que ninguém vai escrever.

domingo, agosto 3

Mendigos (6)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, agosto 2

São gostos

Tradução: Na opinião unânime do júri, Sanae Chirar tem as pernas mais bonitas dos Países Baixos. Na final do concurso em Amsterdam, organizado por uma revista feminina e um fabricante de lâminas de barbear, participaram 25 mulheres.
(fonte: Het Parool 30.05.08)

Mistério

Será mistério ou avaria? Culpa de Google.com? Não. Microsoft.com que o diga! Hoje, durante cerca de quinze horas Tempo Contado não abriu com Internet Explorer, só com Firefox! Já abre.

sexta-feira, agosto 1

Diário (3)

Fosse eu como gostaria de ser, e não como me fizeram e me fiz!
Seria racionalista, arrojado, não sofreria insónias, nem dúvidas, nem os medos que azedam as horas do dia e tornam temerosas as da noite.
Infelizmente é grande o fosso entre o ser e o sonhar, e mais vale confessá-lo já, desmesurado o que me perturba. Para meu mal encaro o mundo como uma teia, onde várias e perigosas aranhas se penduram com o fito único de me amargurar os dias. Por isso, e à falta de defesas melhores, há muito me tornei supersticioso.
Desconfio de gatos pretos e acredito no mau olhado, em bruxedos, nos poderes maléficos do jade e da ametista, na eficiência das receitas do Livro de São Cipriano, nas más vibrações, no perigo de certas correntes de ar, nos venenos da espirradeira, do acanto...
Vem isto a propósito de um cáustico mail que anteontem recebi, no qual um desconhecido, tendo espiolhado um dos meus romances, encontrou nele tantas "erros de palmatória" e tão irritantes contradições que não resistiu a encher duas páginas de comentários.
Passada uma vista de olhos à argumentação do homem, breve me dei conta de que lhe faltava razão e que, verbalmente, pouco custaria dar-lhe a merecida sova.
Voltei a ler e de novo me subiu a mostarda ao nariz. De modo a cuidadosamente rebater a acusação, impunha-se imprimir o mail. Confesso que me sentia raivoso, possesso de uma força má ao premir “Enter”. E então aconteceu.
A impressora, que com escassos meses de uso tinha funcionado sem empeno, deu uns estalos e uns saltos, estremeceu, aquietou-se um instante, para logo de seguida, com silvos e soltando faíscas, espichar tinta de vários coloridos e disparar rodinhas de plástico.
Um racionalista dirá que foi acaso. Pessoalmemte inclino-me para a hipótese de que, não podendo atingir o homem, as minhas más vibrações destruiram a máquina.
Pense cada um o que quiser, verdade é que ao certo nunca se sabe.

quinta-feira, julho 31

Retrato doutros tempos

Curioso, o acaso que nos faz abrir um livro(*) e reler, com um sorriso triste, esta ironia antiga. Mas de certo modo consola que o retrato do Portugal de 1871 nada tenha a ver, nem de longe, com o Portugal de 2008. Só um espírito azedo pretenderá o contrário:

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso… A ruína económica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro… Não é uma existência, é uma expiação. E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: “O país está perdido!” Ninguém se ilude… E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado – e pede-se conhaque!
Assim todas as ideias certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!”
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(*) Uma Campanha Alegre (vol. I)- Eça de Queiroz.

quarta-feira, julho 30

Antigamente

Antigamente, sem hesitar, eu entregaria a defesa dos meus interesses a um advogado, o cuidado da minha saúde a um médico, a segurança da minha pessoa a um polícia. Se as circunstâncias o mandarem também hoje terei de o fazer. Mas sem ilusões. Antes como a rês que ao ser tirada do estábulo nunca sabe se a vão levar para o pasto ou para o matadouro.

terça-feira, julho 29

Mendigos (5)

Que fique a imagem para vergonha e remorso dos que rasgam os jeans por moda ou "solidariedade" para com os miseráveis.

E de novo se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)




(*) As fotografias são do começo dos anos 50. (Clique para aumentar)

segunda-feira, julho 28

Genista lydia

Nascido em comunhão com a terra, os meus conhecimentos da natureza são práticos. Diferencio um carvalho dum castanheiro, um macho dum cavalo; sei que a rama da batata não cresce alta como a do tomate; que o voo da pomba é silencioso e o da perdiz barulhento. Mas de vez em quando tenho inveja dos que sabem o nome e os detalhes das plantas, das flores, das árvores; dos que distinguem pelo pio ou pela pena a espécie dos pássaros.
O meu receio, porém, é de que, pelo menos nesse particular, a um aumento do saber corresponda uma diminuição do sentimento. Não sei se se continua a olhar com alegria ingénua para a giesta em flor quando se lhe chama Genista lydia, se lhe conhece a genealogia e se estudou a composição química do solo em que ela melhor se desenvolve.

domingo, julho 27

"O Rei da Terra"

Pelo simples gosto de apreciar mais uma vez o seu talento, releio O Rei da Terra, de Dalton Trevisan (1925-).
Grande escritor. Curioso destino o deste homem que fez de Curitiba um universo, tem passado a vida a ser director de fábrica e, nas horas vagas, se tornou um dos grandes, senão o maior dos contistas brasileiros.
No Brasil é famoso, mas pouco lido. Em Portugal poucos o conhecerão. Nos Estados Unidos terá uma mão-cheia de leitores, na Holanda outra mão-cheia. Dá pena que seja assim, mas essa é a realidade.
Do talento, como do crime, também se pode dizer que não compensa.

quinta-feira, julho 24

O fim da internet livre

Isto é consigo, comigo, com todos nós:
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9627

Mendigos (4)

Recorda-se com pena e espanto que há dias, no Porto, uma mulher de 95 anos tenha morrido de fome.
E pela quarta vez se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 22

A cara que temos

É uma dor que vai e vem, talvez ciática, por vezes tão aguda que me impede o andar.
Jovem ainda e simpática, atenta, concentrada no que faz, a neurologista manda-me que caminhe na ponta dos pés, sobre os calcanhares, diz-me que feche os olhos e ponha os indicadores no nariz, faz aqueles testes dos reflexos com o martelinho, puxa aqui, torce acolá, raspa-me a sola dos pés, pica-me as pernas...
Como não encontra o que poderia ser a causa da mazela resolve que se terá de fazer um MRI, aparelhagem em que já noutra ocasião me vi metido. E enquanto escreve o seu relatório entrega-me um folheto com perguntas a que devo responder.
Vou lendo. Se tenho um pacemaker. Se tenho uma peça dental de fixação magnética. Se no corpo tenho bomba ou aparelho que não possa ser retirado. Se em qualquer parte do corpo tenho fragmentos de metal. Se tenho válvulas metálicas no coração. Se tenho uma prótese auditiva metálica. Se sofro de claustrofobia. Se alguma vez me foi injectado líquido contrastante. Se se deram complicações. Quantos quilos peso.
Preenchi, assino. A neurologista, sorridente, parece hesitar, diz que quer fazer ainda uma pergunta, mas…
- Diga, diga.
- O senhor, por acaso, tem balas no corpo?
- Balas? Não!
Despedimo-nos. O átrio do hospital está cheio de gente e dá-me a impressão de que um ou outro me olha de modo estranho. Balas no corpo! Será que a minha cara justifica a pergunta e aqueles olhares?

segunda-feira, julho 21

Sábado à tarde

O calor da tarde era demasiado. Raquel abriu o jornal vagarosamente, sem vontade de ler. Na primeira página um ministro búlgaro abraçava Solana e, por baixo, em maiúsculas, a notícia de que o nível do Reno já baixara mais que no ano anterior.
As janelas estavam abertas, ouvia-se o ladrar dos cães, correndo uns atrás dos outros. Pegou outra vez na garrafa e pô-la à boca, sem se dar ao trabalho de usar o copo. O leite frio, quase gelado, tornara-se para ela um vício tão exigente como o fumar. A garrafa, porém, estava vazia e, durante um instante, perplexa, não conseguiu recordar-se se era a primeira ou a segunda.
Irritada, atirou com o jornal. Apoiando-se com dificuldade nos braços da cadeira, levantou-se, caminhou lentamente para a cozinha. Os dias piores eram os do fim-de-semana. Não fossem os cães teria a impressão de que se achava ali num deserto. Os vizinhos saíam para a praia de manhã cedo e quando voltavam já era noite. No Verão só raramente os via.
A casa não era grande, mas o corredor parecia aumentar de comprimento. Como era possível que a cozinha estivesse fechada? Estaria outra vez a piorar dos olhos? Tinha a certeza de que a deixara aberta e em casa não havia mais ninguém.
- Quem é?
Foi andando apoiada à parede. Empurrou a porta com cuidado, hesitando um instante antes de entrar, certa de que ouvia passos que se afastavam.Tirou outra garrafa do frigorífico, bebeu lentamente, contou as que sobravam. Nove, o bastante até segunda-feira.
Naquele momento ouviu telefone. Um tilintar desagradável e tanto mais inesperado porque só raramente lhe telefonavam. A sala parecia-lhe longe, uma distância absurda, fatigante, mas vencendo-se caminhou para lá. Ia a meio do corredor quando um dos cães passou a correr, seguido por outros dois. Como teriam entrado? Era impossível que fossem capazes de saltar pelas janelas, demasiado altas.
O telefone silenciou. Um instante depois recomeçou a tocar e levantou-o do descanso. Reconheceu a voz da irmã que vivia em Paris, aquele modo aflito de gritar "Allô! Ana? Allô!", mas não tinha vontade de conversar, nem de lhe ouvir as queixas. Pousou o aparelho, perguntando-se se teria força bastante para voltar à cozinha, onde tinha deixado a garrafa.

domingo, julho 20

Alforges (8)


De casaco e gravata

Uma fotografia tirada no dia dos meus dez anos mostra-me pela primeira vez de gravata. Recordo vagamente que minha mãe, cheia de impaciência e descontente com o resultado, várias vezes fez e desfez o nó, até que por fim lhe conseguiu dar o volume preciso. Quando lhe perguntei a razão de tanto incómodo, respondeu-me ela que nos trajes e nos modos era preciso parecer bem às pessoas.
A noção do parecer bem e as suas exteriorizações, sofreram desde essa época longínqua mudanças de tal modo radicais, que hoje só são aceitáveis quando se lhes pode acrescentar a desculpa da caricatura ou do disfarce. Como num carnaval. Ainda se vêem homenzinhos de dez anos com gravata nas festas e nos casamentos, mas com carta branca para se lambuzar e andar aos coices. Porque é só a brincar, é só disfarce. Um ministro em uniforme de grande gala, bicórnio, condecorações, é notícia de primeira página e corre o risco de ser ridicularizado. Quando nas cerimónias mais solenes os soberanos ainda reinantes deitam pelos ombros o manto de arminho, logo se recorda a cómica autocoroação do imperador Bokassa no seu efémero império africano. Ainda há quem tente vestir-se para “parecer bem às pessoas” num concerto, num jantar. Simplesmente, um pouco de elegância sóbria no traje ou apenas o decoro, logo destoam entre os jeans esgarçados e o desalinho em moda. Qual o homem que se irá barbear, quando o preceito corrente é a barba de três dias?
Ao escrever isto poderei dar a impressão de que suspiro pela formalidade do passado ou me incomoda a liberalidade do presente. Assim não é. Estou mesmo suficientemente entranhado pelo espírito do século para, de vez em quando, me permitir também liberdades com que antes não sonharia. Poucas, diga-se de passagem, e em escala modesta. Mas o que de facto me transtorna é a minha insegurança perante as regras de etiqueta vigentes ou, melhor dizendo, a subtileza dos ditames a que elas obedecem e a celeridade da sua mudança. Porque de ditames se trata, e rigorosos. O que à primeira vista aparenta ser licença, no fundo é decretado e obriga a uma estrita arregimentação. Ao observador perspicaz não escapará que as cores, os modelos, ademanes e cortesias que no passado eram válidos durante anos, agora são-no no máximo durante uma estação, e já na seguinte se tornam anátema. Que se insista em usá-los e é-se logo apontado como excêntrico ou incorrigível bota-de-elástico.
Mais perturbador ainda, a regra de hoje tem tendência para ser o contrário da de ontem. Além disso, por mais tola que a regra seja, o bom-tom actual ordena que se não exteriorize o pasmo ou a irritação que ela nos causa. O mandamento é o da anuência sem reservas. Que nos seja imposta a presença dum poeta aviltado, de camisa aberta até ao umbigo e pés fedorentos em sandálias do tipo Jesus nikes, a nossa obrigação é manter o sorriso, como se não tivéssemos opinião nem olfacto.
Uma dama insiste em chamar a atenção para as suas pernas recobertas com absurdas meias de rede representando pássaros e galhos, cabe-nos não ter opinião nem olhos. Outra dama, com inocência ou de propósito, permite-se um trajar obsceno, é nosso dever, conforme manda a regra, acharmos tudo bem, tudo aceitável.
No fundo, e mais que os exageros, que são de todos os tempos, é esse assentimento automático o que faz desesperar. Na verdade não são as modas que importam, pois por natureza são passageiras. Preocupante é, sim, o desprendimento com que elas marcam as relações mútuas. Cada um de nós torna-se uma ilha, isolado dos outros pela espessa névoa do interesse fingido e da falsa aceitação sem nenhum desejo de, para aliviar o isolamento, se dar ao trabalho de realmente querer “parecer bem”.

sábado, julho 19

Em Carviçais


Testemunho de um tempo em que o comércio e a publicidade eram mais simples.

sexta-feira, julho 18

Adeuses

Uma tarde, anos atrás, no hall do aeroporto de Lisboa, chamaram-me a atenção dois grupos de ciganos que, silenciosos, se encontravam a pequena distância um do outro.
A calcular pelo luxo do vestuário e a quantidade de ouro e jóias que os enfeitava, gente abastada. Um grupo, rodeado de malas caras, ia partir para o Brasil. O outro grupo era por certo de familiares e amigos que tinham vindo despedir-se. Uma cena fora do comum, pois de toda evidência aquela gente se pertencia e contudo não trocava palavra. O único sinal de emoção era o pranto de uma anciã no grupo que ficava, e que duas mulheres apoiavam, sussurrando-lhe palavras de conforto.
Afastei-me, receoso de ser indiscreto, mas continuei a observar a cena que tanto me intrigava. E descobri que o que primeiramente me parecera indiferença entre eles, era um ritual. Um ritual de despedida. Tão harmonioso e cheio de carinho que quase senti inveja de não lhes pertencer, e ao mesmo tempo recordei com desagrado os abraços, a excitação, o triplo beijo, as porradas nas costas e os acenos desvairados que são a marca corrente dos nossos adeuses.
Um homem de idade, com a postura e a calma do verdadeiro chefe de família, ia ao grupo que partia, segurava uma pessoa ou uma criança pela mão e levava-a gentilmente para junto dos que ficavam. Aí parecia escolher alguém, colocava nas mãos dessa pessoa as mãos do viajante e afastava-se um momento. Tive a impressão que os dois trocavam então frases idênticas numa língua desconhecida, repetiam certos gestos, se tocavam ligeiramente as faces uma única vez. Quando todos os que iam viajar tinham tomado parte na cerimónia, pegaram na sua bagagem e com um último olhar ao outro grupo, mas sem qualquer gesto ou aceno, desapareceram na multidão. Entre os que ficavam só a anciã continuava a chorar. O homem de idade tirou solenemente o chapéu e colocou-o contra o peito, num gesto reverente, enquanto os restantes permaneciam quietos e tensos, como quem guarda um minuto de silêncio.
Achei solene e bonito. Depois fui-me à vida, a remoer como me desagradam as nossas despedidas. De pequeno eram sempre enormes emoções, soluços, rios de lágrimas. Íamos já longe a caminho do comboio e ainda me parecia ouvir, ecoando pela serra, as lamentações bíblicas da minha avó, queixando-se de que aquele adeus era o último, que nunca mais nos tornaria a ver.
O resto da família e os vizinhos participavam nesse teatro. E isso, que duas vezes por ano gerava na criança que eu era uma grande aflição, tornou-se cicatriz indelével no espírito do adulto.
Talvez que por esse e outros traumas semelhantes, estações e aeroportos sejam para mim calvários. Ver num cais uma multidão que gesticula, que chora, agita lenços e atira beijos a um navio que se afasta, provoca-me uma angústia indizível.
Se vou de viagem, prefiro partir sem acenos, nem olhar para trás. Mas há os irremediáveis deveres da cortesia, e então mesmo o preparo da despedida mais simples se me torna bicho-de-sete-cabeças. Como dizer adeus de maneira sóbria, conveniente? De que modo? Com que palavras? Dantes escondia a minha perturbação atrás de saudações que, por serem estrangeiras, me pareciam neutras. De preferência dizia ciao, adiós, au revoir, goodbye... Mas procurando no mais fundo de mim próprio descubro que também isso já não é solução, porque finalmente, depois de tantos anos, continua a pesar-me o dizer adeus.

quinta-feira, julho 17

Pobres monarcas

Poder viver como um rei era a expressão consagrada nos sonhos do comum. Hoje em dia, porém, deixou de ser válida. Os mais abastados dos soberanos que ainda restam, coitados, terão umas centenas de milhões de dólares (euros ou libras), o sultão do Brunei dois ou três biliões, mas essa gente, além da constante aflição de ver os juros baixar, vive no medo ainda mais constante de que os políticos e a plebe, usando das manhas da democracia, lhes tirem os palácios e os pés-de-meia.
Assim, tal como as multinacionais têm mais poder que os governos, os negociantes da Ásia deixam atrás de si a pelintrice das monarquias. Vejam os irmãos Ambani, que juntos possuem 85 biliões de dólares. O mais novo, Anil Ambani, está a ponto de vender uma das suas empresa por uns 70 biliões. O mais velho, Mukesh, a fazer morder-se de inveja o benjamim, com quem vive em discórdia, ofereceu como presente de aniversário à mulher um Boeing de 60 milhões de dólares e vai gastar 1 bilião de dólares na construção de uma residência. Talvez para que se veja de longe, a casa terá vinte e sete andares (para a mulher e três filhos deve chegar), três pistas para helicópteros e uma garagem para cento e sessenta e cinco carros. Entre jardineiros, paquetes, camareiras, cozinheiros, porteiros, mordomos, choferes, guarda-costas e outros, andarão por ali uns seiscentos servos.
Quanto rei não gostaria de viver assim!

quarta-feira, julho 16

Diário (2)

Era daquelas amizades que não se sabe como nascem. E amizade não é bem o termo. Anos atrás aconteceu falarmos, depois houve uma vaga troca de gentilezas, dois ou três encontros, creio também que um jantar ou dois.
Esquecia-o, mas lá trazia o correio um recorte de jornal onde o mencionavam, um opúsculo com os seus poemas, maus poemas, um livrinho de contos, maus contos…
Eu agradecia a oferta e a dedicatória com palavras banais, e voltava a esquecê-lo. Depois houve um longo período em que telefonava com frequência. O intróito eram as perguntas sobre a saúde. Queria também saber se o que agora me ocupava era romance, conto ou novela. Finalmente, se eu já começara a preparar material para aquela ideia que ele tinha tido de escrever a minha biografia.
Respondia-lhe com evasivas. Ontem chegou-me a notícia de que faleceu e não posso negar o alívio que sinto.

Mendigos (3)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)

(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 15

Alforges (7)

A Praga

Por vezes penso que ainda há esperança e que o bom senso levará a melhor. Mas ao ler que este ano, em torno de mundo, mais de seiscentos milhões de turistas terão atravessado as fronteiras e ido de praia para museu, de catedral para ruínas romanas, de parque de campismo para parque de atracções, de porto típico para gruta pré-histórica, mergulho em desalento. Perseguem-me as imagens que todos conhecemos dos monstruosos ajuntamentos. Meio milhão de corpos numa praia, meio milhão ou mais na seguinte. Filas de automóveis com dezenas de quilómetros. Os doze milhões de basbaques que anualmente passam as portas da catedral de Notre Dame em Paris. Doze milhões! Para ir ver e dizer que viram. Para poderem escrever para casa o postal com as palavras imortais: 'Esplêndidas férias. Vamos bem.'
Mas Notre Dame e milhares de outros monumentos, reservas naturais, praias e florestas, não vão bem. Por toda a parte são visíveis os estragos que lhes causa a desenfreada “admiração” do turista. As estátuas enegrecem de ser tocadas por centenas de milhar de mãos gordurosas, soalhos históricos cedem sob o peso das massas de gente, as praias tomam a desolação de lixeiras, vitrais e pinturas sofrem com o suor condensado de milhões de corpos. Os mesmos milhões que se julgam conscientes da necessidade de melhorar o meio ambiente, da urgência de salvar as espécies raras da fauna e manter límpida a água dos rios e dos mares.
Contudo, nenhuma força contrariará o instinto poderoso de rebanho que os leva a procurar na Costa Brava o mesmo sol que brilha nos seus quintais. Nenhum sermão os convencerá de que o seu comportamento não é o dos indivíduos que eles próprios julgam ser, mas o de eternos carneiros, tão dóceis que nem sequer precisam pastor: vão porque os outros vão ou porque os outros foram.
Nessa ânsia de movimento e imitação, de ver e palpar, pela simples força do seu número conseguem destruir o que tinha resistido aos séculos. O granito das escadarias romanas quebra, o mármore dos templos gregos esboroa, as estátuas da Renascença vêem o seu bronze corroído. Tão inconscientemente perigosos se tornam, que já ouvi aldeãos dizer “Vêm aí os turistas”, no mesmo tom preocupado com que falam das pragas que lhes ameaçam as colheitas.
Felizmente nem tudo ainda está perdido. Pelo menos na Itália - a Itália de quem sempre se diz que é desleixada, que não sabe cuidar - as autoridades tomaram a sábia medida de pôr a bom recato as obras de arte mais frágeis, substituindo-as por réplicas. Os franceses fizeram o mesmo com as grutas de Lascaux, cujas pinturas rupestres conseguiram sobreviver dezassete mil anos, mas por pouco escaparam à curiosidade dos basbaques. Para eles, que nada respeitam e com tudo se contentam, foi criada a ilusão de Lascaux II. E eles acorrem de longe às dezenas de milhar nos seus uniformes de veraneante, a máquina fotográfica a pendular sobre a barriga, o vídeo a tiracolo, a mulher e a filharada a reboque, para nas grutas, nas praças e nas igrejas se embasbacarem diante do pechisbeque.
Quando li essas boas notícias, tomou-me um sentimento metade malícia, metade tristeza. Eu sei que nada exterminará o turista: ele procria, associa-se, faz prosélitos. Oiço dizer que os seiscentos milhões deste ano serão mais de seiscentos e cincoenta milhões em 2010. Os próprios governos aliciam-no para que viage mais e mais. Porque viajando deixa lucro. (Os danos causados? Quem então viver que cuide.) A indústria e o comércio enfeitiçam-no com folhetos sobre paragens exóticas, onde o sol brilha em permanência e todos os dias são de festa. Onde o mar é sempre calmo, o bosque sempre verde, o amor, a amizade e o sexo sempre à mão. E ele, crédulo, só sonha em partir.
Por isso não há esperança, o que entristece. Mas há um prazer malicioso em imaginar o turista, macaqueador por excelência, caminhando em massa para os museus de réplicas num mundo de pacotilha.

segunda-feira, julho 14

Remexendo nas gavetas (28)

A fotografia é de Agnès Varda, o lugar a Póvoa de Varzim, o ano 1956, Sophia Loren no cartaz. Se não houve mise-en-scène foi uma bela coincidência.

Miguel Torga

Ainda do volume XIII do Diário de Miguel Torga (*)

“Coimbra, 15 de Agosto de 1980 – Não consigo lê-lo sem forçar a natureza. Há em mim uma exigência intuitiva de autenticidade que pressente, de longe, a impostura de um texto. Lançar ao papel uma só linha que seja que não obedeça àquele imperativo que faz a honra da literatura parece-me um atrevimento sacrílego e um ultraje à vocação. Imagino sempre o autor diante da página vazia numa atitude recolhida de professo, à espera da graça do verbo. Ora, no caso vertente, trata-se de um daqueles bem-aventurados que, seguros do seu talento, nem perdem tempo a merecê-lo nem ocasião de o exibir. Apenas sensíveis às variações do gosto e aos favores do aplauso, pouco lhes importa a essencialidade e a têmpera da obra. Mundanos das letras, tanto no oportunismo como no impudor, agentes de si próprios, não há promoção a que resistam. Dão-me sempre a impressão de que escrevem os livros na montra das livrarias.”

Não importa saber a quem terá servido a carapuça, sim que são muitos aqueles a quem ela serve.


(*) V. post de 10/07

domingo, julho 13

Mendigos (2)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, julho 12

iPod




Compreende-se a excitação, compreende-se o hype gerado pelo comércio, compreende-se a tontura dos jovens e menos jovens pelo brinquedo.
Mas tudo sofre se recordo a compra, no Verão de 1996, do meu primeiro telemóvel, um Nokia tipo NHE-4NX (Made in Germany) com 17 cm de comprimento, 5,5 cm de largura, 3.3 cm de espessura e 314 gr de peso. Esse Nokia era uma formidável novidade. O iPod, desculpem lá, é apenas um melhoramento.

sexta-feira, julho 11

O "Janeiro"

Saudades do tempo em que o "Janeiro" era a minha janela para o mundo. (Clique para aumentar)

quinta-feira, julho 10

A mulher

Porque me acontece pisar alguns dos carreiros transmontanos por onde também ele andou, e a sua prosa às vezes faz eco aos meus sentimentos, releio o Diário de Miguel Torga. Copio do volume XIII:

“Coimbra, 12 de Outubro de 1978 – A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da Criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer paradigmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos, sem perceber que é ela o cordão umbilical da História.”

quarta-feira, julho 9

Festa de casamento

Cena banal, mas cheia de humor, e que noutra altura, com disposição diferente, talvez me passasse despercebida. Mais tarde, o que depois se quer descrever: quadro, luz, personagens, gestos, sai vago e baço, truncado. Os acrescentos, os arranjos, a busca de um equilíbrio nas palavras, aumentam a distorção, carregam a banalidade. Só os olhos registam. E o momento de humor, tão breve, ao acontecer já é lembrança.
Três mulheres de idade. Paradas diante da porta como ovelhas que hesitam em atravessar um fosso. Agarrada à ombreira, arfando, a equilibrar o peso sobre o joelho, a primeira iça-se – não sobe, iça-se – sobre o degrau que separa o restaurante da sala e, dando meia volta, espera que as outras se icem também.
Dão-se os braços em apoio, vejo-as encaminhar-se para a minha mesa, o meu interesse tornado desagrado e irritação. Vozes descontroladas, meias frases, o riso desconexo, a lentidão cambaleante de quem já bebeu e se vai embebedar.
Avançam inclinadas para a frente, navios a atacar ondas imaginárias, popa ao alto, as saias repuxadas. Bustos, ventres e nádegas de dimensões alheias à magreza descarnada das pernas. Blusas de floreados e, a transparecer, cingindo mal as regueifas, o correame com que se apertaram.
Direitas a mim, como se as outras mesas, quase todas vazias, lhes fossem invisíveis. Flacidez, pregas, encorrilhas da carne que os decotes domingueiros levianamente mostram. Todas três assim, nem que tivessem combinado, ou procurando talvez a segurança que a igualdade dá. Sorriem-me. Sorrio.
Se se podiam sentar? Pois podiam, claro. Não, eu não esperava mais ninguém. Estivessem à vontade. Realmente era cedo ainda. Não, não tínhamos sido os primeiros a chegar. Mas quase. O senhor de cabelo branco? Eu não conhecia. Elas também não. E vá de rir com a grande piada.
- Importa-se? Podia chegar a mesa para este lado?
O contacto desagradável e mole da mão pousada no meu braço. Anéis a mais, pulseiras desirmanadas, um verniz das unhas do tempo da rumba.
Aproveitei para empurar discretamente a cadeira e pôr-me de través. Não fazia ideia quem fossem. Família da noiva. Talvez vizinhas.
A empregada veio com uma bandeja cheia de copos e pôs-me diante a cerveja que eu tinha pedido, a espuma a derramar.
- Olhe! Faz favor…
A velha estendeu o braço, mas a rapariga não quis ouvir, desaparecendo por entre os que chegavam, a bandeja erguida acima da cabeça, profissional e desinteressada.

terça-feira, julho 8

Mendigos (1)

A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)



(*) As fotografias são do começo dos anos 50

domingo, julho 6

Alforges (6)

Tempestade

De manhã cedo, antes de sairem de casa, ele tinha dito que era melhor levarem guarda-chuvas, porque o dia não passava sem chover. Uma olhadela ao céu fora bastante para o seu instinto de marinheiro. Aqueles pontinhos cinzentos e negros a acumular-se no horizonte não eram barcos, como tinha dito a sogra a olhar pelo binóculo, mas as nuvens que agora, empurradas pelo vendaval, descarregavam aguaceiros sobre a praia.
O sogro, a vizinha e os miúdos, tinham-se abrigado dentro da barraca. Os outros correram para uma taberna que havia ali perto. Ele e a mulher, por teimosia, como se a chuva os não molhasse, e não fazendo caso da cunhada, que de longe berrava para que se abrigassem, permaneciam sentados na areia, imóveis, encarando-se, tal como se achavam quando a zanga e a tempestade tinham começado.
Nos últimos tempos as brigas eram para eles prato diário, regular e fatal como a acção e reacção das leis da natureza. Uma palavra, às vezes só um gesto, uma toalha caída no chão, um palito numa xícara, um pouco de cinza de cigarro deitada por desleixo num prato - e pronto! - rebentava a zaragata.
Os insultos explodiam. Deitavam-se à cara pecados velhos julgados esquecidos, culpas remotas, birras que datavam da juventude em que se tinham namorado. Mesmo as palavras ternas doutras ocasiões lhes serviam para magoar.
- Não te atrevas, Maria! Olha que um dia mato-te!
Da primeira vez a ameaça teatral a tinha assustado, chegou mesmo a fugir para a rua. Mas daí em diante, mal ele começava aos pulos, a gritar que a esfaqueava, ela ia ao guarda-loiça da cozinha, pegava na faca de cortar o peixe e punha-lha na mão:
- Toma lá!
- Não me tentes, mulher! Não me faças perder a cabeça!
Exagerando o tremor pousava a faca sobre a mesa. Depois as mãos, tensas, a hesitar, remexiam nos bolsos à procura dos cigarros e do isqueiro.
Em geral as desavenças terminavam assim. Ele, em silêncio, oferecia-lhe um cigarro que ela aceitava, acendia-lho, e às vezes iam depois juntos ao café beber uma cerveja: o cessar-fogo entre duas batalhas.
De longe a longe tinha sucedido serem aquelas cenas a causa indirecta de inesquecíveis jantares, e o filho do meio talvez nunca viesse a saber que fora gerado por descuido, depois de uma dessas refeições copiosas, cheias de promessas, de nunca mais, de votos de paz para o futuro.
Continuavam sentados e não parava de chover. Ambos teimosos, ele de calção de banho, a tiritar, ela com um biquíni fora de moda. Ainda se ouvia o trovão, mas os relâmpagos tinham cessado e, no horizonte, o céu mostrava já uma aberta azul.
- Tens lume? - perguntou ele, mostrando os cigarros encharcados.
Ela desatou às gargalhadas e deitou-lhe o braço pelos ombros.

sábado, julho 5

Blogroll

Num mail cheio de pontos de interrogação, a amiga, preocupada, quis saber o que tinha eu feito ao Diogo.
- Nada! Nem o conheço. Mas porquê?
- É que ele tirou o título do teu blogue do blogroll do dele.
- E isso importa?
Ela achava que sim, pois blogue a sério tem lugar cativo nos blogrolls do Eduardo, do João, e do Francisco, da Ana, do Pedro, do Zé Mário, do Fernando…
Senti-me tentado a responder com a desculpa de Eça a Ramalho, dizendo como ele: “É que eu estou longe! Não sei dessas coisas!...”
Mas o longe deixou de existir, os tempos são outros, a única explicação que lhe pude dar é que continuo fraco no que respeita contactos e etiqueta.

sexta-feira, julho 4

Novidade?

Leio que estão à venda portáteis que medem pouco e pesam quase nada. Claro que são formidáveis no volume da memória e na velocidade dos cálculos. Este meu IBM PS/note de 1992, ainda vivo, pouco disso tem, mas mede tanto como uma folha A4, 5 cm de espessura e 1.8 kg. de peso. O ecrã é a preto e branco.






Alforges (5)

A vida do campo

“O lavrador não necessita de relógio. Regulado pelo ritmo do sol, pela terra, pelas estações do ano, a sua vida desenrola-se harmoniosamente. Ao contrário do que acontece com o citadino, a família do lavrador não inclui somente a mulher, os filhos, os pais e os primos, mas também os pomares, os prados, os animais. Ele é capaz de falar seriamente com um cão, uma vaca, um castanheiro, pois a sua sensibilidade é idêntica para uma árvore, um bicho, um parente ou um vizinho. Infelizmente, porém, a maior parte dos benefícios que saem da terra não pertencem ao lavrador. Os bancos e os intermediários exploram o seu trabalho e são eles que, finalmente, sem esforço, recebem a parte maior.”

Rafael, vinte e quatro anos, solteiro, desempregado, morador num quarto de águas-furtadas, leu duas vezes o artigo do jornal. Lavrador. Tinha a impressão de que lhe agradaria ser lavrador. Já por várias vezes tinha fantasiado como seria agradável viver no campo. A luminosidade do céu! Os cheiros!... Via-se a sair de manhã cedo, acompanhado por dois (ou três?) cães.
A mulher - supunha-se casado, sem filhos, preparava o almoço, depois de ter colhido na horta os legumes que ele cuidadosamente plantara. Tudo natural, puro, segundo as velhas leis da natureza que garantiam a saúde e a sobrevivência.Ao meio-dia regressaria a casa. A pé? A cavalo? A falar verdade a sua preferência ia para o cavalo, se pudesse ser um baio como os da polícia.
Dormiria a sesta. Depois, aí por volta das quatro da tarde, voltaria para a montanha. Se chovesse ficaria em casa, na sala, diante da lareira acesa. A mulher - era extraordinário não ser capaz de imaginar o timbre de voz que ela teria, como também ainda estava indeciso se os olhos seriam castanhos ou azuis - a mulher, pois, continuava na cozinha, agora a lavar a loiça.
Talvez lesse um bocado, os cães e os gatos (dois) estirados diante do lume. A chuva continuaria a cair grossa, mesmo depois do anoitecer, só mais tarde é que a lua banharia as vertentes com a sua luz pálida.
Fantasiava ver-se a caminho da feira numa manhã de sol, o camião carregado de ovelhas, os cães sentados ao seu lado. A seguir à venda dos animais iria ao café beber com os amigos.
Certas noites seriam de tempestade e trovão, os relâmpagos iluminando a aldeia com estranhos clarões. A mulher, assustada e a tremer, agarrava-se a ele.

Alguém batia à porta . Foi abrir. Era a Teresa, o “esqueleto” do andar de baixo que há meses o não deixava em paz, aparecendo às horas menos convenientes.
- Estavas a ler? - perguntou ela, apontando o jornal.
- Um artigo.
- Sobre quê?
Não respondeu, incomodado com aquela curiosidade, mas também porque inconscientemente detestava mulheres magras. A sua, mulher de lavrador, teria a postura da gente do campo, cheia sem ser gorda, de peitos repletos.
- De que trata? - insistiu ela.
- O quê?
- O artigo.
- Da miséria dos lavradores. É uma vergonha. O lavrador é um escravo da banca e do comércio.
- Achas?
- Acho - disse ele, irritado.
Ela sorriu e começou a despir-se.

quinta-feira, julho 3

Disposição


Disposição como a que neste momento sinto não é boa conselheira para tratar do que, também neste momento, me incomoda ou aborrece. Um pouco mais de meia hora de “passeio” pela blogosfera portuguesa, uma vista de olhos a uns quantos jornais, e pronto, a boa disposição matinal levou um pontapé. Azedei. Ele é um não-acabar de pedantices e gastronomias, análises políticas de um partidarismo tonto, análises económicas idem, elitismo bacoco, referências a filósofos obscuros mas "geniais", pareceres sobre George W. Bush cum suis, vaidades que me pergunto se aquilo não está a pedir manicómio…
Em forma de exorcismo deixo aqui esta fotografia,(*) tirada num tempo em que era maior a minha esperança na simplicidade do mundo e na do meu semelhante.

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Feira do gado em Moncorvo, 09-1972.
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segunda-feira, junho 30

Veneza



A culpa é de Goethe, Thomas Mann e uns quantos ricos. Atrás deles revoadas de pintores, bandos de fotógrafos. Depois destes, milhões e mais milhões de basbaques que, no correr do ano, chegam a Veneza e, aos ‘Ohs!’ e ‘Ahs!’ na praça de San Marco, na Basílica, no Canal Grande, na Ponte dos Suspiros, no palácio dos Doges, ressentem coisas que, pelos jeitos, só lá se ressentem. Ah! As gôndolas! Ah! O Rialto! Ah! O Caffé Florian!...
Acontece que, Verão ou Inverno, sol ou névoa, na quase meia dúzia de vezes que, por razões várias, fui a Veneza, nem me emocionei, nem se me afinou a sensibilidade, não tive êxtases.
Levo isso à conta do meu embotamento. Das más experiências que lá tive é melhor não falar.
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As fotografias são de F. Ferruccio Leiss (1892-1968).

Feira em Moncorvo, 12-1972

Feira em Moncorvo, Dezembro de 1972. Os cravos da revolução e os subsídios da Europa estavam ainda num futuro improvável. (Clique para aumentar).

Diário (1)

Trintão, preto retinto, físico de atleta, sorriso pronto, cordial no trato, o vizinho é o que se chama uma simpatia. E se a elegância do vestuário, a abundância de anéis e o modelo do seu Mercedes valem de testemunho, provavelmente homem de negócios que lhe correm de feição. Circunspecto no que refere a sua origem, nunca referiu de que partes da África veio parar aqui, e fundamentalista não será, mas é muçulmano devoto, cumpridor, pontual na mesquita.
Tempos atrás quis saber se eu tinha filhos.
- Tenho.Três filhas.
Como se fosse importante o detalhe, acrescentei que todas três eram mais velhas do que ele.
Sorridente, informou-me do que eu já sabia, que também tinha três filhas.
Este diálogo passou-se há coisa de meio ano. Ontem surpreendeu-me vê-lo vir apressado direito a mim, mão estendida, o sorriso mais largo que o costumeiro, quase engasgado a anunciar que vinha do hospital, onde a mulher dera à luz outra criança. Um rapaz.
- A boy! The joy of my life!
Felicitei-o, trocámos as amabilidades habituais, mas de súbito vi-o tomar um ar sombrio. Sabia eu que, em árabe, ‘pai de filhas’ era insulto grave?
Respondi-lhe que ignorava, mas tão-pouco me afligia.
Sorrimos, fomos cada um para seu lado. Só depois me ocorreu se a informação não traria água no bico: é que continuo ‘pai de filhas’, e ele deixou de o ser.

sábado, junho 28

Céline

Mort à crédit. Recordação de um livro que para mim foi importante. Mostrar aqui a capa talvez provoque noutros igual nostalgia. O que de certeza acontece - já aconteceu antes - é que, dentro de minutos, a simples menção do nome Céline faz disparar o número de hits deste blog para as centenas. Não que ande o mundo sequioso de Céline, o escritor, mas de Céline Dion.