sexta-feira, agosto 22

Paisagem antiga

Terras de pedra, de pão, calcinadas pelo fogo de Agosto. Oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca. Abutres circulam alto, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou. Vagarosos, à espera que o rebanho se afaste. Chocalhos fúnebres. Montes sem alegria. O fumo pairando sobre as casas, sete da tarde, sol bárbaro. Um carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção de tristeza e desespero. A torre quadrangular e escura da igreja. A casa do capitão - com sentina - alvejando, casas escuras de pedra solta, palheiros cobertos de colmo, a nossa derreada na encosta, caiada de amarelo. Mais longe uma cor-de-rosa, outra de um azul deslavado. À porta do forno um saco de pinhas, um molho de estevas, cântaros de barro sem asa. Uma burra presa à argola. Uma mulher passa com um saco à cabeça.

quinta-feira, agosto 21

Confissões

Embora já me tenha ocorrido consultar ambos, ainda nunca me confessei a um padre, nem consultei um psicanalista.
Não por descrença nos seus poderes, mas por deformação profissional minha: tenho a certeza de que chegado o momento de confessar os meus pecados, ou abrir os esconsos da minha alma, eu involuntaria­mente assumiria o papel de um personagem de romance, mais interessado no espectacular da ficção, do que na banalidade do real.

quarta-feira, agosto 20

Uma vida

Herdeiro de grande fortuna, vive num majestoso prédio num dos canais nobres de Amsterdam. Dentro em pouco fará noventa anos e de si próprio diz com desinteresse , “tenho um IQ escandalosamente alto.”
Tem. Engenheiro de profissão, correu mundo, trabalhou em mais partes do que as que consegue recordar e, belo homem que foi, perdeu a conta de quantas mulheres entraram na sua vida. Dessas casou com quatro, e aquela que realmente amou, faleceu. As restantes aborrecem-no com exigências de aumento da pensão alimentar.
Conhecemo-nos por acaso em São Paulo, nos anos cinquenta, e a simpatia permanece. Une-nos também o interesse pela História, por computadores e pela internet, talvez porque ambos vimos do tempo em que mesmo o rádio era maravilha.
Encontramo-nos uma vez por outra no seu café, onde chega por volta das seis. De táxi, porque as pernas já não aguentam os trezentos metros da caminhada. Bebe ele duas ou três “cabeçadas”, fico-me eu pelo copo de tinto. (*)
Ontem, rememorando uma tumultuosa peripécia da sua vida, surpreendeu-me o modo sombrio como em certo momento disse: “No passado, quando me zangava com alguém, havia nessa zanga um certo respeito. Actualmente recuso zangar-me com quem quer que seja. É uma forma de desprezo.”
……………………………….
(*) A fotografia (©Ad Nuis) não se relaciona com o texto, ilustra apenas a maneira como se bebe a “cabeçada” (kopstoot em holandês), começando pelo cálice a trasbordar de genebra e alternando com cerveja.





terça-feira, agosto 19

Águas

Debates, teorias e controvérsias sobre o meio ambiente, o aquecimento global, etanol, biodiesel, energia eólica etc., não somente me levam a franzir o sobrolho, como aumentam o cepticismo com que sempre encarei modas, activismos, e a generalidade das manifestações de rebanho do meu semelhante.
Razões para tal encontro-as por toda a parte e a cada passo. Por exemplo esta notícia no jornal de sábado (16.08.08): “A Grã-Bretanha exporta anualmente 20.000 toneladas de água mineral para a Austrália, e da Austrália são exportadas 20.000 toneladas de água mineral para a Grã-Bretanha”.
É navio para cá, navio para lá, com a sujidade correspondente. E estou a vê-los daqui, os defensores do planeta, com a garrafinha de água pura ao alto, a gritar “Morras!” à poluição dos ares e dos mares.

segunda-feira, agosto 18

Repetições

Atento e preocupado, um jovem amigo escreve a avisar-me que ando a repetir textos. Pergunta-se ele se é a memória que me falha ou, visto os anos que já por cá ando, não serão achaques de Alzheimer ou Parkinson.
Nada disso, felizmente. Acontece sim, que muitos desses textos apareceram algures – na saudosa Periférica e nos blogs A Oeste Nada de Novo e Os Canhões de Navarone, do meu amigo Rui Ângelo Araújo. Outros apenas foram publicados em neerlandês.
Se fosse questão de comércio, poderia julgar-se que procuro o lucro, seguindo aquele princípio da Economia que aconselha “Move the product!” Mas neste caso a razão é mais simples: trata-se apenas de arrumo, vou pondo aqui o que na casa alheia e na minha andava disperso ou quase perdido.
A repetição tem ainda um outro motivo: entre a média de quarenta visitantes diários deste blog, haverá dois ou três que antes me leram. Esses por certo compreenderão que, para manter a porta aberta e não desapontar quem a ela bate, “sirvo” prosa que para eles é requentada, mas novidade para os mais.

domingo, agosto 17

A nossa vida

A nossa vida gira em torno de quê? Ponho-me a pergunta e envergonho-me de para a minha não saber onde achar a resposta.
As gerações anteriores podiam responder com a família, a pátria, o trabalho, a religião, as ideologias, mas entretanto todos esses alicerces da existência se foram esboroando.
A minha vida gira em torno de quê? De mim próprio? Acho que não, pois para isso me faltam egocentrismo e vaidade suficientes. Em torno dos meus livros? Menos ainda, porque jamais qualquer deles se me afigurou definitivo como a chegada a uma meta, antes me parecem etapas curtas num moroso e difícil percurso que não sei onde irá terminar.
Mas então? Não faço ideia. Aparentemente a minha vida não gira em torno de coisa nenhuma, talvez seja apenas uma sequência de hábitos que ficaram no lugar dos objectivos de que por vezes desdenhei, e outras vezes me esqueci de ter.

sexta-feira, agosto 15

Liberdade

É um sentimento perturbante, quando o que sempre se repudiou surge por vezes com um inesperado atractivo. Fazer parte dum exército, dum convento, duma seita, duma quadrilha. Seguir um regulamento. Aceitar um chefe. Eliminar as incertezas e as dúvidas daquele que caminha sozinho.
Cadeias? Laços? No diário faço por esquecê-los, mas nem assim pesam menos os grilhões que me acorrentam à liberdade.

quinta-feira, agosto 14

"O País de Salazar"

"O País de Salazar" - data de 1941 e pela capa ninguém diria, mas é um laudatio. Com fotografias do tempo, como estas da Casa dos Pescadores (1939) em Matosinhos e do Instituto Superior Técnico (1939).



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quarta-feira, agosto 13

"Vinho cobarde"

Ainda nunca usei drogas e com o que consumo de álcool ninguém será capaz de se embebedar. Não que eu seja assim por virtude, mas ao primeiro aviso de que me se me tolda a cabeça, o medo de deixar de ser eu próprio pode mais que a curiosidade pelos efeitos do trip ou da bebedeira.
Não é isso que me encartará como moralista e longe de mim condenar quem, levado pelas inúmeras razões que a vida oferece ou a que a vida obriga, se droga e se embebeda. É certo que me falta paciência para ouvir os longos monólogos da carraspana. Também passo de largo pelos que têm o "vinho mau." Mas esses, pelo menos, não me dão pena como os que têm o "vinho cobarde." Deus me livre de um dia procurar na bebida ou na droga a coragem de me assumir.

terça-feira, agosto 12

Remexendo nas gavetas (30)

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Remexendo nas gavetas (29)

No Diário Popular em Setembro de 1968. (Clique para aumentar )

domingo, agosto 10

O escritor

É um romântico. No jardim que tem atrás de casa, uns escassos metros quadra­dos, avulta uma tília secular. Quando o tempo o permite leva para junto da árvore uma mesita, uma cadeira da cozinha e, horas a fio, escreve o seu livro. Com uma pena de aparo de aço, um tinteiro e cadernos escolares, porque lhe repugna usar meios a que falte uma longa tradição.Escrever à máquina parecer-lhe-ia uma falta de respeito, dum computa­dor nem quer ouvir falar. Escreve, por isso, morosamente, mas diz que só desse modo consegue provocar a passagem do misterio­so fluído com que o cérebro canaliza as ideias para a mão.

O livro não é uma qualquer obra de narrativa fictícia, mas a síntese das observações e pesquisas filosóficas, intelectuais, morais e psíquicas a que se dedica desde a adolescência, e agora, na meia idade, lhe parece terem atingido o ponto de maturação. Anos atrás tinha enchido o equivalente a novecen­tas páginas dactilografadas e, quase certo de ter produzido um magnum opus, levou o manuscrito ao editor.

Este foi cruelmente sincero no seu juízo: "Ilegível, incompreensível, um desarrazoado." Com razões idênticas o editor rejeitou uma segunda versão do texto, mas a vontade que o anima de oferecer ao mundo o livro último, aquele onde se encontrem todas as perguntas e quase todas as respostas, não é das que esmorecem com um revés. Nem com dois. E à sombra da tília, diligente, imper­turbável, continua a escrever, certo e seguro de que sabe o que ninguém mais sabe, que tem para dizer aquilo que ainda nunca ninguém disse.

sexta-feira, agosto 8

Lang Lang

Lang Lang, o genial e jovem (26) pianista chinês que hoje tocará na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, recebeu tempos atrás do seu progenitor o conselho de, sobretudo, dar atenção às críticas negativas, pois “mesmo a opinião de um tolo nos pode ensinar algo.” (*)
O seu mentor americano deu-lhe um conselho mais adaptado à realidade: “Não faças caso das palavras (nos artigos críticos), mas conta as linhas. Quanto mais escreverem sobre ti, mais atenção te darão.”

O conde de Morny (1811-1865) teve o seu momento de fama ao responder do mesmo modo ao criado que, assustado, uma manhã o acordou com a má nova de que os jornais estavam cheios dos escândalos e patifarias de monsieur: “Não importa o que escrevem sobre mim, importa sim que escrevam muito”.

(*) interessante em You Tube: Lang Lang gone mad.

terça-feira, agosto 5

A aldeia

Houve um tempo em que idealizei a aldeia, que me parecia uma fonte de virtudes, uma fonte de harmonia e paz. Depois veio o tempo em que a odiei, porque se assemelhava a um cárcere, e o meu desejo era um só: fugir.
Com a ausência recomecei a idealizá-la e mais tarde esforcei-me por redescobri-la. Para me embeber do sonho antigo percorri de novo todos os lugares, procurei ouvir de novo o bater do seu coração. Mas finalmente tive de me resignar ao irremediável: ela mudou, eu envelheci, somos ambos personagens secundários num romance histórico que ninguém vai escrever.

domingo, agosto 3

Mendigos (6)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, agosto 2

São gostos

Tradução: Na opinião unânime do júri, Sanae Chirar tem as pernas mais bonitas dos Países Baixos. Na final do concurso em Amsterdam, organizado por uma revista feminina e um fabricante de lâminas de barbear, participaram 25 mulheres.
(fonte: Het Parool 30.05.08)

Mistério

Será mistério ou avaria? Culpa de Google.com? Não. Microsoft.com que o diga! Hoje, durante cerca de quinze horas Tempo Contado não abriu com Internet Explorer, só com Firefox! Já abre.

sexta-feira, agosto 1

Diário (3)

Fosse eu como gostaria de ser, e não como me fizeram e me fiz!
Seria racionalista, arrojado, não sofreria insónias, nem dúvidas, nem os medos que azedam as horas do dia e tornam temerosas as da noite.
Infelizmente é grande o fosso entre o ser e o sonhar, e mais vale confessá-lo já, desmesurado o que me perturba. Para meu mal encaro o mundo como uma teia, onde várias e perigosas aranhas se penduram com o fito único de me amargurar os dias. Por isso, e à falta de defesas melhores, há muito me tornei supersticioso.
Desconfio de gatos pretos e acredito no mau olhado, em bruxedos, nos poderes maléficos do jade e da ametista, na eficiência das receitas do Livro de São Cipriano, nas más vibrações, no perigo de certas correntes de ar, nos venenos da espirradeira, do acanto...
Vem isto a propósito de um cáustico mail que anteontem recebi, no qual um desconhecido, tendo espiolhado um dos meus romances, encontrou nele tantas "erros de palmatória" e tão irritantes contradições que não resistiu a encher duas páginas de comentários.
Passada uma vista de olhos à argumentação do homem, breve me dei conta de que lhe faltava razão e que, verbalmente, pouco custaria dar-lhe a merecida sova.
Voltei a ler e de novo me subiu a mostarda ao nariz. De modo a cuidadosamente rebater a acusação, impunha-se imprimir o mail. Confesso que me sentia raivoso, possesso de uma força má ao premir “Enter”. E então aconteceu.
A impressora, que com escassos meses de uso tinha funcionado sem empeno, deu uns estalos e uns saltos, estremeceu, aquietou-se um instante, para logo de seguida, com silvos e soltando faíscas, espichar tinta de vários coloridos e disparar rodinhas de plástico.
Um racionalista dirá que foi acaso. Pessoalmemte inclino-me para a hipótese de que, não podendo atingir o homem, as minhas más vibrações destruiram a máquina.
Pense cada um o que quiser, verdade é que ao certo nunca se sabe.

quinta-feira, julho 31

Retrato doutros tempos

Curioso, o acaso que nos faz abrir um livro(*) e reler, com um sorriso triste, esta ironia antiga. Mas de certo modo consola que o retrato do Portugal de 1871 nada tenha a ver, nem de longe, com o Portugal de 2008. Só um espírito azedo pretenderá o contrário:

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso… A ruína económica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro… Não é uma existência, é uma expiação. E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: “O país está perdido!” Ninguém se ilude… E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado – e pede-se conhaque!
Assim todas as ideias certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!”
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(*) Uma Campanha Alegre (vol. I)- Eça de Queiroz.

quarta-feira, julho 30

Antigamente

Antigamente, sem hesitar, eu entregaria a defesa dos meus interesses a um advogado, o cuidado da minha saúde a um médico, a segurança da minha pessoa a um polícia. Se as circunstâncias o mandarem também hoje terei de o fazer. Mas sem ilusões. Antes como a rês que ao ser tirada do estábulo nunca sabe se a vão levar para o pasto ou para o matadouro.

terça-feira, julho 29

Mendigos (5)

Que fique a imagem para vergonha e remorso dos que rasgam os jeans por moda ou "solidariedade" para com os miseráveis.

E de novo se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)




(*) As fotografias são do começo dos anos 50. (Clique para aumentar)

segunda-feira, julho 28

Genista lydia

Nascido em comunhão com a terra, os meus conhecimentos da natureza são práticos. Diferencio um carvalho dum castanheiro, um macho dum cavalo; sei que a rama da batata não cresce alta como a do tomate; que o voo da pomba é silencioso e o da perdiz barulhento. Mas de vez em quando tenho inveja dos que sabem o nome e os detalhes das plantas, das flores, das árvores; dos que distinguem pelo pio ou pela pena a espécie dos pássaros.
O meu receio, porém, é de que, pelo menos nesse particular, a um aumento do saber corresponda uma diminuição do sentimento. Não sei se se continua a olhar com alegria ingénua para a giesta em flor quando se lhe chama Genista lydia, se lhe conhece a genealogia e se estudou a composição química do solo em que ela melhor se desenvolve.

domingo, julho 27

"O Rei da Terra"

Pelo simples gosto de apreciar mais uma vez o seu talento, releio O Rei da Terra, de Dalton Trevisan (1925-).
Grande escritor. Curioso destino o deste homem que fez de Curitiba um universo, tem passado a vida a ser director de fábrica e, nas horas vagas, se tornou um dos grandes, senão o maior dos contistas brasileiros.
No Brasil é famoso, mas pouco lido. Em Portugal poucos o conhecerão. Nos Estados Unidos terá uma mão-cheia de leitores, na Holanda outra mão-cheia. Dá pena que seja assim, mas essa é a realidade.
Do talento, como do crime, também se pode dizer que não compensa.

quinta-feira, julho 24

O fim da internet livre

Isto é consigo, comigo, com todos nós:
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9627

Mendigos (4)

Recorda-se com pena e espanto que há dias, no Porto, uma mulher de 95 anos tenha morrido de fome.
E pela quarta vez se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 22

A cara que temos

É uma dor que vai e vem, talvez ciática, por vezes tão aguda que me impede o andar.
Jovem ainda e simpática, atenta, concentrada no que faz, a neurologista manda-me que caminhe na ponta dos pés, sobre os calcanhares, diz-me que feche os olhos e ponha os indicadores no nariz, faz aqueles testes dos reflexos com o martelinho, puxa aqui, torce acolá, raspa-me a sola dos pés, pica-me as pernas...
Como não encontra o que poderia ser a causa da mazela resolve que se terá de fazer um MRI, aparelhagem em que já noutra ocasião me vi metido. E enquanto escreve o seu relatório entrega-me um folheto com perguntas a que devo responder.
Vou lendo. Se tenho um pacemaker. Se tenho uma peça dental de fixação magnética. Se no corpo tenho bomba ou aparelho que não possa ser retirado. Se em qualquer parte do corpo tenho fragmentos de metal. Se tenho válvulas metálicas no coração. Se tenho uma prótese auditiva metálica. Se sofro de claustrofobia. Se alguma vez me foi injectado líquido contrastante. Se se deram complicações. Quantos quilos peso.
Preenchi, assino. A neurologista, sorridente, parece hesitar, diz que quer fazer ainda uma pergunta, mas…
- Diga, diga.
- O senhor, por acaso, tem balas no corpo?
- Balas? Não!
Despedimo-nos. O átrio do hospital está cheio de gente e dá-me a impressão de que um ou outro me olha de modo estranho. Balas no corpo! Será que a minha cara justifica a pergunta e aqueles olhares?

segunda-feira, julho 21

Sábado à tarde

O calor da tarde era demasiado. Raquel abriu o jornal vagarosamente, sem vontade de ler. Na primeira página um ministro búlgaro abraçava Solana e, por baixo, em maiúsculas, a notícia de que o nível do Reno já baixara mais que no ano anterior.
As janelas estavam abertas, ouvia-se o ladrar dos cães, correndo uns atrás dos outros. Pegou outra vez na garrafa e pô-la à boca, sem se dar ao trabalho de usar o copo. O leite frio, quase gelado, tornara-se para ela um vício tão exigente como o fumar. A garrafa, porém, estava vazia e, durante um instante, perplexa, não conseguiu recordar-se se era a primeira ou a segunda.
Irritada, atirou com o jornal. Apoiando-se com dificuldade nos braços da cadeira, levantou-se, caminhou lentamente para a cozinha. Os dias piores eram os do fim-de-semana. Não fossem os cães teria a impressão de que se achava ali num deserto. Os vizinhos saíam para a praia de manhã cedo e quando voltavam já era noite. No Verão só raramente os via.
A casa não era grande, mas o corredor parecia aumentar de comprimento. Como era possível que a cozinha estivesse fechada? Estaria outra vez a piorar dos olhos? Tinha a certeza de que a deixara aberta e em casa não havia mais ninguém.
- Quem é?
Foi andando apoiada à parede. Empurrou a porta com cuidado, hesitando um instante antes de entrar, certa de que ouvia passos que se afastavam.Tirou outra garrafa do frigorífico, bebeu lentamente, contou as que sobravam. Nove, o bastante até segunda-feira.
Naquele momento ouviu telefone. Um tilintar desagradável e tanto mais inesperado porque só raramente lhe telefonavam. A sala parecia-lhe longe, uma distância absurda, fatigante, mas vencendo-se caminhou para lá. Ia a meio do corredor quando um dos cães passou a correr, seguido por outros dois. Como teriam entrado? Era impossível que fossem capazes de saltar pelas janelas, demasiado altas.
O telefone silenciou. Um instante depois recomeçou a tocar e levantou-o do descanso. Reconheceu a voz da irmã que vivia em Paris, aquele modo aflito de gritar "Allô! Ana? Allô!", mas não tinha vontade de conversar, nem de lhe ouvir as queixas. Pousou o aparelho, perguntando-se se teria força bastante para voltar à cozinha, onde tinha deixado a garrafa.

domingo, julho 20

Alforges (8)


De casaco e gravata

Uma fotografia tirada no dia dos meus dez anos mostra-me pela primeira vez de gravata. Recordo vagamente que minha mãe, cheia de impaciência e descontente com o resultado, várias vezes fez e desfez o nó, até que por fim lhe conseguiu dar o volume preciso. Quando lhe perguntei a razão de tanto incómodo, respondeu-me ela que nos trajes e nos modos era preciso parecer bem às pessoas.
A noção do parecer bem e as suas exteriorizações, sofreram desde essa época longínqua mudanças de tal modo radicais, que hoje só são aceitáveis quando se lhes pode acrescentar a desculpa da caricatura ou do disfarce. Como num carnaval. Ainda se vêem homenzinhos de dez anos com gravata nas festas e nos casamentos, mas com carta branca para se lambuzar e andar aos coices. Porque é só a brincar, é só disfarce. Um ministro em uniforme de grande gala, bicórnio, condecorações, é notícia de primeira página e corre o risco de ser ridicularizado. Quando nas cerimónias mais solenes os soberanos ainda reinantes deitam pelos ombros o manto de arminho, logo se recorda a cómica autocoroação do imperador Bokassa no seu efémero império africano. Ainda há quem tente vestir-se para “parecer bem às pessoas” num concerto, num jantar. Simplesmente, um pouco de elegância sóbria no traje ou apenas o decoro, logo destoam entre os jeans esgarçados e o desalinho em moda. Qual o homem que se irá barbear, quando o preceito corrente é a barba de três dias?
Ao escrever isto poderei dar a impressão de que suspiro pela formalidade do passado ou me incomoda a liberalidade do presente. Assim não é. Estou mesmo suficientemente entranhado pelo espírito do século para, de vez em quando, me permitir também liberdades com que antes não sonharia. Poucas, diga-se de passagem, e em escala modesta. Mas o que de facto me transtorna é a minha insegurança perante as regras de etiqueta vigentes ou, melhor dizendo, a subtileza dos ditames a que elas obedecem e a celeridade da sua mudança. Porque de ditames se trata, e rigorosos. O que à primeira vista aparenta ser licença, no fundo é decretado e obriga a uma estrita arregimentação. Ao observador perspicaz não escapará que as cores, os modelos, ademanes e cortesias que no passado eram válidos durante anos, agora são-no no máximo durante uma estação, e já na seguinte se tornam anátema. Que se insista em usá-los e é-se logo apontado como excêntrico ou incorrigível bota-de-elástico.
Mais perturbador ainda, a regra de hoje tem tendência para ser o contrário da de ontem. Além disso, por mais tola que a regra seja, o bom-tom actual ordena que se não exteriorize o pasmo ou a irritação que ela nos causa. O mandamento é o da anuência sem reservas. Que nos seja imposta a presença dum poeta aviltado, de camisa aberta até ao umbigo e pés fedorentos em sandálias do tipo Jesus nikes, a nossa obrigação é manter o sorriso, como se não tivéssemos opinião nem olfacto.
Uma dama insiste em chamar a atenção para as suas pernas recobertas com absurdas meias de rede representando pássaros e galhos, cabe-nos não ter opinião nem olhos. Outra dama, com inocência ou de propósito, permite-se um trajar obsceno, é nosso dever, conforme manda a regra, acharmos tudo bem, tudo aceitável.
No fundo, e mais que os exageros, que são de todos os tempos, é esse assentimento automático o que faz desesperar. Na verdade não são as modas que importam, pois por natureza são passageiras. Preocupante é, sim, o desprendimento com que elas marcam as relações mútuas. Cada um de nós torna-se uma ilha, isolado dos outros pela espessa névoa do interesse fingido e da falsa aceitação sem nenhum desejo de, para aliviar o isolamento, se dar ao trabalho de realmente querer “parecer bem”.

sábado, julho 19

Em Carviçais


Testemunho de um tempo em que o comércio e a publicidade eram mais simples.

sexta-feira, julho 18

Adeuses

Uma tarde, anos atrás, no hall do aeroporto de Lisboa, chamaram-me a atenção dois grupos de ciganos que, silenciosos, se encontravam a pequena distância um do outro.
A calcular pelo luxo do vestuário e a quantidade de ouro e jóias que os enfeitava, gente abastada. Um grupo, rodeado de malas caras, ia partir para o Brasil. O outro grupo era por certo de familiares e amigos que tinham vindo despedir-se. Uma cena fora do comum, pois de toda evidência aquela gente se pertencia e contudo não trocava palavra. O único sinal de emoção era o pranto de uma anciã no grupo que ficava, e que duas mulheres apoiavam, sussurrando-lhe palavras de conforto.
Afastei-me, receoso de ser indiscreto, mas continuei a observar a cena que tanto me intrigava. E descobri que o que primeiramente me parecera indiferença entre eles, era um ritual. Um ritual de despedida. Tão harmonioso e cheio de carinho que quase senti inveja de não lhes pertencer, e ao mesmo tempo recordei com desagrado os abraços, a excitação, o triplo beijo, as porradas nas costas e os acenos desvairados que são a marca corrente dos nossos adeuses.
Um homem de idade, com a postura e a calma do verdadeiro chefe de família, ia ao grupo que partia, segurava uma pessoa ou uma criança pela mão e levava-a gentilmente para junto dos que ficavam. Aí parecia escolher alguém, colocava nas mãos dessa pessoa as mãos do viajante e afastava-se um momento. Tive a impressão que os dois trocavam então frases idênticas numa língua desconhecida, repetiam certos gestos, se tocavam ligeiramente as faces uma única vez. Quando todos os que iam viajar tinham tomado parte na cerimónia, pegaram na sua bagagem e com um último olhar ao outro grupo, mas sem qualquer gesto ou aceno, desapareceram na multidão. Entre os que ficavam só a anciã continuava a chorar. O homem de idade tirou solenemente o chapéu e colocou-o contra o peito, num gesto reverente, enquanto os restantes permaneciam quietos e tensos, como quem guarda um minuto de silêncio.
Achei solene e bonito. Depois fui-me à vida, a remoer como me desagradam as nossas despedidas. De pequeno eram sempre enormes emoções, soluços, rios de lágrimas. Íamos já longe a caminho do comboio e ainda me parecia ouvir, ecoando pela serra, as lamentações bíblicas da minha avó, queixando-se de que aquele adeus era o último, que nunca mais nos tornaria a ver.
O resto da família e os vizinhos participavam nesse teatro. E isso, que duas vezes por ano gerava na criança que eu era uma grande aflição, tornou-se cicatriz indelével no espírito do adulto.
Talvez que por esse e outros traumas semelhantes, estações e aeroportos sejam para mim calvários. Ver num cais uma multidão que gesticula, que chora, agita lenços e atira beijos a um navio que se afasta, provoca-me uma angústia indizível.
Se vou de viagem, prefiro partir sem acenos, nem olhar para trás. Mas há os irremediáveis deveres da cortesia, e então mesmo o preparo da despedida mais simples se me torna bicho-de-sete-cabeças. Como dizer adeus de maneira sóbria, conveniente? De que modo? Com que palavras? Dantes escondia a minha perturbação atrás de saudações que, por serem estrangeiras, me pareciam neutras. De preferência dizia ciao, adiós, au revoir, goodbye... Mas procurando no mais fundo de mim próprio descubro que também isso já não é solução, porque finalmente, depois de tantos anos, continua a pesar-me o dizer adeus.

quinta-feira, julho 17

Pobres monarcas

Poder viver como um rei era a expressão consagrada nos sonhos do comum. Hoje em dia, porém, deixou de ser válida. Os mais abastados dos soberanos que ainda restam, coitados, terão umas centenas de milhões de dólares (euros ou libras), o sultão do Brunei dois ou três biliões, mas essa gente, além da constante aflição de ver os juros baixar, vive no medo ainda mais constante de que os políticos e a plebe, usando das manhas da democracia, lhes tirem os palácios e os pés-de-meia.
Assim, tal como as multinacionais têm mais poder que os governos, os negociantes da Ásia deixam atrás de si a pelintrice das monarquias. Vejam os irmãos Ambani, que juntos possuem 85 biliões de dólares. O mais novo, Anil Ambani, está a ponto de vender uma das suas empresa por uns 70 biliões. O mais velho, Mukesh, a fazer morder-se de inveja o benjamim, com quem vive em discórdia, ofereceu como presente de aniversário à mulher um Boeing de 60 milhões de dólares e vai gastar 1 bilião de dólares na construção de uma residência. Talvez para que se veja de longe, a casa terá vinte e sete andares (para a mulher e três filhos deve chegar), três pistas para helicópteros e uma garagem para cento e sessenta e cinco carros. Entre jardineiros, paquetes, camareiras, cozinheiros, porteiros, mordomos, choferes, guarda-costas e outros, andarão por ali uns seiscentos servos.
Quanto rei não gostaria de viver assim!

quarta-feira, julho 16

Diário (2)

Era daquelas amizades que não se sabe como nascem. E amizade não é bem o termo. Anos atrás aconteceu falarmos, depois houve uma vaga troca de gentilezas, dois ou três encontros, creio também que um jantar ou dois.
Esquecia-o, mas lá trazia o correio um recorte de jornal onde o mencionavam, um opúsculo com os seus poemas, maus poemas, um livrinho de contos, maus contos…
Eu agradecia a oferta e a dedicatória com palavras banais, e voltava a esquecê-lo. Depois houve um longo período em que telefonava com frequência. O intróito eram as perguntas sobre a saúde. Queria também saber se o que agora me ocupava era romance, conto ou novela. Finalmente, se eu já começara a preparar material para aquela ideia que ele tinha tido de escrever a minha biografia.
Respondia-lhe com evasivas. Ontem chegou-me a notícia de que faleceu e não posso negar o alívio que sinto.

Mendigos (3)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)

(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 15

Alforges (7)

A Praga

Por vezes penso que ainda há esperança e que o bom senso levará a melhor. Mas ao ler que este ano, em torno de mundo, mais de seiscentos milhões de turistas terão atravessado as fronteiras e ido de praia para museu, de catedral para ruínas romanas, de parque de campismo para parque de atracções, de porto típico para gruta pré-histórica, mergulho em desalento. Perseguem-me as imagens que todos conhecemos dos monstruosos ajuntamentos. Meio milhão de corpos numa praia, meio milhão ou mais na seguinte. Filas de automóveis com dezenas de quilómetros. Os doze milhões de basbaques que anualmente passam as portas da catedral de Notre Dame em Paris. Doze milhões! Para ir ver e dizer que viram. Para poderem escrever para casa o postal com as palavras imortais: 'Esplêndidas férias. Vamos bem.'
Mas Notre Dame e milhares de outros monumentos, reservas naturais, praias e florestas, não vão bem. Por toda a parte são visíveis os estragos que lhes causa a desenfreada “admiração” do turista. As estátuas enegrecem de ser tocadas por centenas de milhar de mãos gordurosas, soalhos históricos cedem sob o peso das massas de gente, as praias tomam a desolação de lixeiras, vitrais e pinturas sofrem com o suor condensado de milhões de corpos. Os mesmos milhões que se julgam conscientes da necessidade de melhorar o meio ambiente, da urgência de salvar as espécies raras da fauna e manter límpida a água dos rios e dos mares.
Contudo, nenhuma força contrariará o instinto poderoso de rebanho que os leva a procurar na Costa Brava o mesmo sol que brilha nos seus quintais. Nenhum sermão os convencerá de que o seu comportamento não é o dos indivíduos que eles próprios julgam ser, mas o de eternos carneiros, tão dóceis que nem sequer precisam pastor: vão porque os outros vão ou porque os outros foram.
Nessa ânsia de movimento e imitação, de ver e palpar, pela simples força do seu número conseguem destruir o que tinha resistido aos séculos. O granito das escadarias romanas quebra, o mármore dos templos gregos esboroa, as estátuas da Renascença vêem o seu bronze corroído. Tão inconscientemente perigosos se tornam, que já ouvi aldeãos dizer “Vêm aí os turistas”, no mesmo tom preocupado com que falam das pragas que lhes ameaçam as colheitas.
Felizmente nem tudo ainda está perdido. Pelo menos na Itália - a Itália de quem sempre se diz que é desleixada, que não sabe cuidar - as autoridades tomaram a sábia medida de pôr a bom recato as obras de arte mais frágeis, substituindo-as por réplicas. Os franceses fizeram o mesmo com as grutas de Lascaux, cujas pinturas rupestres conseguiram sobreviver dezassete mil anos, mas por pouco escaparam à curiosidade dos basbaques. Para eles, que nada respeitam e com tudo se contentam, foi criada a ilusão de Lascaux II. E eles acorrem de longe às dezenas de milhar nos seus uniformes de veraneante, a máquina fotográfica a pendular sobre a barriga, o vídeo a tiracolo, a mulher e a filharada a reboque, para nas grutas, nas praças e nas igrejas se embasbacarem diante do pechisbeque.
Quando li essas boas notícias, tomou-me um sentimento metade malícia, metade tristeza. Eu sei que nada exterminará o turista: ele procria, associa-se, faz prosélitos. Oiço dizer que os seiscentos milhões deste ano serão mais de seiscentos e cincoenta milhões em 2010. Os próprios governos aliciam-no para que viage mais e mais. Porque viajando deixa lucro. (Os danos causados? Quem então viver que cuide.) A indústria e o comércio enfeitiçam-no com folhetos sobre paragens exóticas, onde o sol brilha em permanência e todos os dias são de festa. Onde o mar é sempre calmo, o bosque sempre verde, o amor, a amizade e o sexo sempre à mão. E ele, crédulo, só sonha em partir.
Por isso não há esperança, o que entristece. Mas há um prazer malicioso em imaginar o turista, macaqueador por excelência, caminhando em massa para os museus de réplicas num mundo de pacotilha.

segunda-feira, julho 14

Remexendo nas gavetas (28)

A fotografia é de Agnès Varda, o lugar a Póvoa de Varzim, o ano 1956, Sophia Loren no cartaz. Se não houve mise-en-scène foi uma bela coincidência.

Miguel Torga

Ainda do volume XIII do Diário de Miguel Torga (*)

“Coimbra, 15 de Agosto de 1980 – Não consigo lê-lo sem forçar a natureza. Há em mim uma exigência intuitiva de autenticidade que pressente, de longe, a impostura de um texto. Lançar ao papel uma só linha que seja que não obedeça àquele imperativo que faz a honra da literatura parece-me um atrevimento sacrílego e um ultraje à vocação. Imagino sempre o autor diante da página vazia numa atitude recolhida de professo, à espera da graça do verbo. Ora, no caso vertente, trata-se de um daqueles bem-aventurados que, seguros do seu talento, nem perdem tempo a merecê-lo nem ocasião de o exibir. Apenas sensíveis às variações do gosto e aos favores do aplauso, pouco lhes importa a essencialidade e a têmpera da obra. Mundanos das letras, tanto no oportunismo como no impudor, agentes de si próprios, não há promoção a que resistam. Dão-me sempre a impressão de que escrevem os livros na montra das livrarias.”

Não importa saber a quem terá servido a carapuça, sim que são muitos aqueles a quem ela serve.


(*) V. post de 10/07

domingo, julho 13

Mendigos (2)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, julho 12

iPod




Compreende-se a excitação, compreende-se o hype gerado pelo comércio, compreende-se a tontura dos jovens e menos jovens pelo brinquedo.
Mas tudo sofre se recordo a compra, no Verão de 1996, do meu primeiro telemóvel, um Nokia tipo NHE-4NX (Made in Germany) com 17 cm de comprimento, 5,5 cm de largura, 3.3 cm de espessura e 314 gr de peso. Esse Nokia era uma formidável novidade. O iPod, desculpem lá, é apenas um melhoramento.

sexta-feira, julho 11

O "Janeiro"

Saudades do tempo em que o "Janeiro" era a minha janela para o mundo. (Clique para aumentar)

quinta-feira, julho 10

A mulher

Porque me acontece pisar alguns dos carreiros transmontanos por onde também ele andou, e a sua prosa às vezes faz eco aos meus sentimentos, releio o Diário de Miguel Torga. Copio do volume XIII:

“Coimbra, 12 de Outubro de 1978 – A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da Criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer paradigmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos, sem perceber que é ela o cordão umbilical da História.”

quarta-feira, julho 9

Festa de casamento

Cena banal, mas cheia de humor, e que noutra altura, com disposição diferente, talvez me passasse despercebida. Mais tarde, o que depois se quer descrever: quadro, luz, personagens, gestos, sai vago e baço, truncado. Os acrescentos, os arranjos, a busca de um equilíbrio nas palavras, aumentam a distorção, carregam a banalidade. Só os olhos registam. E o momento de humor, tão breve, ao acontecer já é lembrança.
Três mulheres de idade. Paradas diante da porta como ovelhas que hesitam em atravessar um fosso. Agarrada à ombreira, arfando, a equilibrar o peso sobre o joelho, a primeira iça-se – não sobe, iça-se – sobre o degrau que separa o restaurante da sala e, dando meia volta, espera que as outras se icem também.
Dão-se os braços em apoio, vejo-as encaminhar-se para a minha mesa, o meu interesse tornado desagrado e irritação. Vozes descontroladas, meias frases, o riso desconexo, a lentidão cambaleante de quem já bebeu e se vai embebedar.
Avançam inclinadas para a frente, navios a atacar ondas imaginárias, popa ao alto, as saias repuxadas. Bustos, ventres e nádegas de dimensões alheias à magreza descarnada das pernas. Blusas de floreados e, a transparecer, cingindo mal as regueifas, o correame com que se apertaram.
Direitas a mim, como se as outras mesas, quase todas vazias, lhes fossem invisíveis. Flacidez, pregas, encorrilhas da carne que os decotes domingueiros levianamente mostram. Todas três assim, nem que tivessem combinado, ou procurando talvez a segurança que a igualdade dá. Sorriem-me. Sorrio.
Se se podiam sentar? Pois podiam, claro. Não, eu não esperava mais ninguém. Estivessem à vontade. Realmente era cedo ainda. Não, não tínhamos sido os primeiros a chegar. Mas quase. O senhor de cabelo branco? Eu não conhecia. Elas também não. E vá de rir com a grande piada.
- Importa-se? Podia chegar a mesa para este lado?
O contacto desagradável e mole da mão pousada no meu braço. Anéis a mais, pulseiras desirmanadas, um verniz das unhas do tempo da rumba.
Aproveitei para empurar discretamente a cadeira e pôr-me de través. Não fazia ideia quem fossem. Família da noiva. Talvez vizinhas.
A empregada veio com uma bandeja cheia de copos e pôs-me diante a cerveja que eu tinha pedido, a espuma a derramar.
- Olhe! Faz favor…
A velha estendeu o braço, mas a rapariga não quis ouvir, desaparecendo por entre os que chegavam, a bandeja erguida acima da cabeça, profissional e desinteressada.

terça-feira, julho 8

Mendigos (1)

A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)



(*) As fotografias são do começo dos anos 50

domingo, julho 6

Alforges (6)

Tempestade

De manhã cedo, antes de sairem de casa, ele tinha dito que era melhor levarem guarda-chuvas, porque o dia não passava sem chover. Uma olhadela ao céu fora bastante para o seu instinto de marinheiro. Aqueles pontinhos cinzentos e negros a acumular-se no horizonte não eram barcos, como tinha dito a sogra a olhar pelo binóculo, mas as nuvens que agora, empurradas pelo vendaval, descarregavam aguaceiros sobre a praia.
O sogro, a vizinha e os miúdos, tinham-se abrigado dentro da barraca. Os outros correram para uma taberna que havia ali perto. Ele e a mulher, por teimosia, como se a chuva os não molhasse, e não fazendo caso da cunhada, que de longe berrava para que se abrigassem, permaneciam sentados na areia, imóveis, encarando-se, tal como se achavam quando a zanga e a tempestade tinham começado.
Nos últimos tempos as brigas eram para eles prato diário, regular e fatal como a acção e reacção das leis da natureza. Uma palavra, às vezes só um gesto, uma toalha caída no chão, um palito numa xícara, um pouco de cinza de cigarro deitada por desleixo num prato - e pronto! - rebentava a zaragata.
Os insultos explodiam. Deitavam-se à cara pecados velhos julgados esquecidos, culpas remotas, birras que datavam da juventude em que se tinham namorado. Mesmo as palavras ternas doutras ocasiões lhes serviam para magoar.
- Não te atrevas, Maria! Olha que um dia mato-te!
Da primeira vez a ameaça teatral a tinha assustado, chegou mesmo a fugir para a rua. Mas daí em diante, mal ele começava aos pulos, a gritar que a esfaqueava, ela ia ao guarda-loiça da cozinha, pegava na faca de cortar o peixe e punha-lha na mão:
- Toma lá!
- Não me tentes, mulher! Não me faças perder a cabeça!
Exagerando o tremor pousava a faca sobre a mesa. Depois as mãos, tensas, a hesitar, remexiam nos bolsos à procura dos cigarros e do isqueiro.
Em geral as desavenças terminavam assim. Ele, em silêncio, oferecia-lhe um cigarro que ela aceitava, acendia-lho, e às vezes iam depois juntos ao café beber uma cerveja: o cessar-fogo entre duas batalhas.
De longe a longe tinha sucedido serem aquelas cenas a causa indirecta de inesquecíveis jantares, e o filho do meio talvez nunca viesse a saber que fora gerado por descuido, depois de uma dessas refeições copiosas, cheias de promessas, de nunca mais, de votos de paz para o futuro.
Continuavam sentados e não parava de chover. Ambos teimosos, ele de calção de banho, a tiritar, ela com um biquíni fora de moda. Ainda se ouvia o trovão, mas os relâmpagos tinham cessado e, no horizonte, o céu mostrava já uma aberta azul.
- Tens lume? - perguntou ele, mostrando os cigarros encharcados.
Ela desatou às gargalhadas e deitou-lhe o braço pelos ombros.

sábado, julho 5

Blogroll

Num mail cheio de pontos de interrogação, a amiga, preocupada, quis saber o que tinha eu feito ao Diogo.
- Nada! Nem o conheço. Mas porquê?
- É que ele tirou o título do teu blogue do blogroll do dele.
- E isso importa?
Ela achava que sim, pois blogue a sério tem lugar cativo nos blogrolls do Eduardo, do João, e do Francisco, da Ana, do Pedro, do Zé Mário, do Fernando…
Senti-me tentado a responder com a desculpa de Eça a Ramalho, dizendo como ele: “É que eu estou longe! Não sei dessas coisas!...”
Mas o longe deixou de existir, os tempos são outros, a única explicação que lhe pude dar é que continuo fraco no que respeita contactos e etiqueta.

sexta-feira, julho 4

Novidade?

Leio que estão à venda portáteis que medem pouco e pesam quase nada. Claro que são formidáveis no volume da memória e na velocidade dos cálculos. Este meu IBM PS/note de 1992, ainda vivo, pouco disso tem, mas mede tanto como uma folha A4, 5 cm de espessura e 1.8 kg. de peso. O ecrã é a preto e branco.






Alforges (5)

A vida do campo

“O lavrador não necessita de relógio. Regulado pelo ritmo do sol, pela terra, pelas estações do ano, a sua vida desenrola-se harmoniosamente. Ao contrário do que acontece com o citadino, a família do lavrador não inclui somente a mulher, os filhos, os pais e os primos, mas também os pomares, os prados, os animais. Ele é capaz de falar seriamente com um cão, uma vaca, um castanheiro, pois a sua sensibilidade é idêntica para uma árvore, um bicho, um parente ou um vizinho. Infelizmente, porém, a maior parte dos benefícios que saem da terra não pertencem ao lavrador. Os bancos e os intermediários exploram o seu trabalho e são eles que, finalmente, sem esforço, recebem a parte maior.”

Rafael, vinte e quatro anos, solteiro, desempregado, morador num quarto de águas-furtadas, leu duas vezes o artigo do jornal. Lavrador. Tinha a impressão de que lhe agradaria ser lavrador. Já por várias vezes tinha fantasiado como seria agradável viver no campo. A luminosidade do céu! Os cheiros!... Via-se a sair de manhã cedo, acompanhado por dois (ou três?) cães.
A mulher - supunha-se casado, sem filhos, preparava o almoço, depois de ter colhido na horta os legumes que ele cuidadosamente plantara. Tudo natural, puro, segundo as velhas leis da natureza que garantiam a saúde e a sobrevivência.Ao meio-dia regressaria a casa. A pé? A cavalo? A falar verdade a sua preferência ia para o cavalo, se pudesse ser um baio como os da polícia.
Dormiria a sesta. Depois, aí por volta das quatro da tarde, voltaria para a montanha. Se chovesse ficaria em casa, na sala, diante da lareira acesa. A mulher - era extraordinário não ser capaz de imaginar o timbre de voz que ela teria, como também ainda estava indeciso se os olhos seriam castanhos ou azuis - a mulher, pois, continuava na cozinha, agora a lavar a loiça.
Talvez lesse um bocado, os cães e os gatos (dois) estirados diante do lume. A chuva continuaria a cair grossa, mesmo depois do anoitecer, só mais tarde é que a lua banharia as vertentes com a sua luz pálida.
Fantasiava ver-se a caminho da feira numa manhã de sol, o camião carregado de ovelhas, os cães sentados ao seu lado. A seguir à venda dos animais iria ao café beber com os amigos.
Certas noites seriam de tempestade e trovão, os relâmpagos iluminando a aldeia com estranhos clarões. A mulher, assustada e a tremer, agarrava-se a ele.

Alguém batia à porta . Foi abrir. Era a Teresa, o “esqueleto” do andar de baixo que há meses o não deixava em paz, aparecendo às horas menos convenientes.
- Estavas a ler? - perguntou ela, apontando o jornal.
- Um artigo.
- Sobre quê?
Não respondeu, incomodado com aquela curiosidade, mas também porque inconscientemente detestava mulheres magras. A sua, mulher de lavrador, teria a postura da gente do campo, cheia sem ser gorda, de peitos repletos.
- De que trata? - insistiu ela.
- O quê?
- O artigo.
- Da miséria dos lavradores. É uma vergonha. O lavrador é um escravo da banca e do comércio.
- Achas?
- Acho - disse ele, irritado.
Ela sorriu e começou a despir-se.

quinta-feira, julho 3

Disposição


Disposição como a que neste momento sinto não é boa conselheira para tratar do que, também neste momento, me incomoda ou aborrece. Um pouco mais de meia hora de “passeio” pela blogosfera portuguesa, uma vista de olhos a uns quantos jornais, e pronto, a boa disposição matinal levou um pontapé. Azedei. Ele é um não-acabar de pedantices e gastronomias, análises políticas de um partidarismo tonto, análises económicas idem, elitismo bacoco, referências a filósofos obscuros mas "geniais", pareceres sobre George W. Bush cum suis, vaidades que me pergunto se aquilo não está a pedir manicómio…
Em forma de exorcismo deixo aqui esta fotografia,(*) tirada num tempo em que era maior a minha esperança na simplicidade do mundo e na do meu semelhante.

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Feira do gado em Moncorvo, 09-1972.
(Clique para aumentar)

segunda-feira, junho 30

Veneza



A culpa é de Goethe, Thomas Mann e uns quantos ricos. Atrás deles revoadas de pintores, bandos de fotógrafos. Depois destes, milhões e mais milhões de basbaques que, no correr do ano, chegam a Veneza e, aos ‘Ohs!’ e ‘Ahs!’ na praça de San Marco, na Basílica, no Canal Grande, na Ponte dos Suspiros, no palácio dos Doges, ressentem coisas que, pelos jeitos, só lá se ressentem. Ah! As gôndolas! Ah! O Rialto! Ah! O Caffé Florian!...
Acontece que, Verão ou Inverno, sol ou névoa, na quase meia dúzia de vezes que, por razões várias, fui a Veneza, nem me emocionei, nem se me afinou a sensibilidade, não tive êxtases.
Levo isso à conta do meu embotamento. Das más experiências que lá tive é melhor não falar.
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As fotografias são de F. Ferruccio Leiss (1892-1968).

Feira em Moncorvo, 12-1972

Feira em Moncorvo, Dezembro de 1972. Os cravos da revolução e os subsídios da Europa estavam ainda num futuro improvável. (Clique para aumentar).

Diário (1)

Trintão, preto retinto, físico de atleta, sorriso pronto, cordial no trato, o vizinho é o que se chama uma simpatia. E se a elegância do vestuário, a abundância de anéis e o modelo do seu Mercedes valem de testemunho, provavelmente homem de negócios que lhe correm de feição. Circunspecto no que refere a sua origem, nunca referiu de que partes da África veio parar aqui, e fundamentalista não será, mas é muçulmano devoto, cumpridor, pontual na mesquita.
Tempos atrás quis saber se eu tinha filhos.
- Tenho.Três filhas.
Como se fosse importante o detalhe, acrescentei que todas três eram mais velhas do que ele.
Sorridente, informou-me do que eu já sabia, que também tinha três filhas.
Este diálogo passou-se há coisa de meio ano. Ontem surpreendeu-me vê-lo vir apressado direito a mim, mão estendida, o sorriso mais largo que o costumeiro, quase engasgado a anunciar que vinha do hospital, onde a mulher dera à luz outra criança. Um rapaz.
- A boy! The joy of my life!
Felicitei-o, trocámos as amabilidades habituais, mas de súbito vi-o tomar um ar sombrio. Sabia eu que, em árabe, ‘pai de filhas’ era insulto grave?
Respondi-lhe que ignorava, mas tão-pouco me afligia.
Sorrimos, fomos cada um para seu lado. Só depois me ocorreu se a informação não traria água no bico: é que continuo ‘pai de filhas’, e ele deixou de o ser.

sábado, junho 28

Céline

Mort à crédit. Recordação de um livro que para mim foi importante. Mostrar aqui a capa talvez provoque noutros igual nostalgia. O que de certeza acontece - já aconteceu antes - é que, dentro de minutos, a simples menção do nome Céline faz disparar o número de hits deste blog para as centenas. Não que ande o mundo sequioso de Céline, o escritor, mas de Céline Dion.

sexta-feira, junho 27

Alforges (4)

O desaparecer de Lisboa

Recordações de Lisboa tenho eu de sobra, tantas que não preci­so de visitá-la para me sentir transportado das ruas largas do Areeiro que, em meados da década de 40, quando pela primei­ra vez a vi, era um extremo da cidade, para as ruas ricas e sombrea­das do Restelo, um outro extremo.
Guardo recor­dações de Alcân­tara e do Rato, da Praça do Chile; dos becos da Moura­ria por onde andei de patru­lha; das casas de fado em Alcântara e no Bairro Alto onde toquei guit­arra; do quartel na colina da Graça, onde éramos talvez trezentos a dormir na enorme caserna que fora alojamento de frades. Para minha sorte tinha-me cabido lugar junto de uma janela, e quando o clarim tocava à alvorada, às cinco e meia da manhã, ao abrir dos olhos logo a cidade se me oferecia em panorama.
Ficaram-me memórias do Campo de Santana e do Campo Gran­de, da Lapa, da Estufa Fria. Do Parque Meyer, do Saldanha. Do Jardim Zoológico não tenho recordações de animais, mas dos amores furtivos a que obrigava a moralidade de então. E quando vejo a Torre de Belém lembro que nesse tempo o guarda, a troco de cem escudos, emprestava a chave do terraço do monumento. Aí ao ar livre, vendo passar os navios no Tejo, faziam-se cópu­las que, devido à solenidade do lugar e aos nervos da ocasião, se tornavam duplamente históri­cas. Uma hora depois - raro as horas voltariam a ser tão curtas! - o guarda batia impiedosa­mente à porta, e era pagar de novo ou sair. Modelo de dis­creção, quando a dama descia a escada ele volta­va as costas, 'para não ver'.
Fui a touradas no Campo Pequeno. Com lampiões e manjeri­cos festejei Santo António. Conheci as tertúlias literárias do Café Gelo, do Nicola, d'A Brasileira. Com o respeito que nesse tempo me mereciam os mais velhos, baixava os olhos ao cruzar com Aqui­lino Ribeiro ou João Gaspar Simões por entre as mesas da livraria Bertrand. Marchei em paradas marciais na festa do primeiro de Dezembro, clamei em arrua­ças de futebol. No ecrã do Tivoli Humphrey Bogart ensinou-me o seu modo de fumar e o tom sarcasticamente nasalado de dizer a propósito e a despropósito: 'Stop it, baby!'
Nos dias ruins comi nas tabernas da Rua da Graça e no João do Grão da Rua dos Correeiros, a casa de pasto que ao contrário de hoje não conhecia luxos. Sentava-se a gente em bancos corridos de madeira rude, mesas comuns idem, para meia dose do prato único de bacalhau e grão-de-bico acompanhado de cebola crua, um papo-seco e um quar­tilho de carrascão do Cartaxo. A clien­tela? Soldados em dia de pré, putas em hora de sorte, mendigos a quem à porta das igrejas tinha caído esmola abonada.

No Areeiro e nas avenidas novas de Alvalade começavam a apare­cer os prédios de dez andares, duma arquitectura fascisante e triunfalista. Mas no resto a cidade permane­cia harmoniosa e baixa, como no século dezoito a tinham deixado os arquitectos de D. João V e do Marquês de Pom­bal. As mansões luxuosas rodeadas de jardins, construídas pelos mili­onários dos fins do século dezanove, enfeita­vam as aveni­das, e lembro-me de por vezes ter parado diante das graciosas cercas de ferro fundido, a fantasiar a vida que levariam os vultos que, por vezes, se aper­cebiam num desvão de janela ou no alto das escadarias.
Palmilhei a cidade de ponta a ponta. Por curiosidade e pelo gosto de ver ao vivo o que para mim, até à primeira visita, tinha sido apenas uma cidade 'literári­a'. As ruas, os monumentos, a agitação da vida e a largura do Tejo, só os conhecia dos livros em que Fernão Lopes, Eça , Camilo, Oliveira Mart­ins, Pessoa, outros meno­res, me tinham fornecido a moldu­ra em que eu 'so­nhara' a minha própria Lisboa. E quando pela primeira vez pude con­fron­tar o sonho com a realidade, a capi­tal não me desiludiu, mas curiosa­mente também me não maravil­hou. As dimensões, o caste­lo, o Rossio, o fausto do Chiado, o Mar de Palha, as perpendicula­res da Baixa, os becos da Mouraria, tudo isso era como eu tinha lido.
Assim, talvez porque o quadro real tão bem se sobrepun­ha às linhas da imaginação, o espírito inquieto da minha juventu­de queria emoções fortes. Encontrei-as na noite. No Texas-Bar do Cais do Sodré, onde eram tão violentas as zaragatas que, para sua segurança, os músicos tocavam perto do tecto, num estrado que figurava a metade dum caí­que. Encontrei-as nos bordéis das ruas do Loreto, da Misericórdia e da Glória, principalmen­te nesta última, onde Madame Blanche tinha conse­guido dar ao seu esta­belecimento uma fama que se estendia pelos continentes.
Emoções fortes também, mas daquelas que não se mostram, tão fundo penetram elas na alma, descobri-as primeiro no Estribo, taberna na traves­sa da Queimada, diminu­ta a ponto que os fadistas tinham de cantar à porta da cozin­ha. Depois as amizades levaram-me para a Parreirinha de Alfama, a mais antiga das casas de fado do bairro, onde também se comia, e que nessa altura, à semelhança do João do Grão, não passava duma tasca de bancos corridos e mesas de pinho tosco.
O público eram os homens duros, emi­grados dos campos das Beiras para a estiva das docas da Marin­ha e do Terrei­ro do Trigo, ambas logo ali do outro lado da rua.
No tempo dos muçulmanos Alfama tinha sido o bairro aris­tocrático da cidade, mas pouco demorara a tornar-se popular e marítimo. Os judeus instalaram-se nela, expulsos depois pelos cristãos, a gente miúda, os 'manéis do mar', as varinas que no tempo em que as conheci corriam a cidade de pé descalço a vender peixe. Quando a pesca não dava rua iam para ‘o'car­vão' - porque a descarga nos navios car­voeiros faziam-na elas com cestos de cinquenta quilos à ca­beça, prancha acima, pran­cha abaixo, a correr dos porões para o cais. Nas noites quen­tes juntavam-se a ouvir o fado. Não na Parreirin­ha, que para elas e os 'mané­is' era cara demais, mas nos pátios, onde os que tinham jeito cantavam o 'fado vadio'. Vadio por não ter re­gras, e porque às vezes nem de instrumen­tos precisava. Fado es­pontâneo, nascido das dores do íntimo e das misérias do dia, cantado com pouca arte e muito alma. Mas sempre aparecia uma viola, alguém ia pedir emprestado uma guitar­ra, e quando os fadistas para­vam, exaustos de emoção, comiam-se fraternalmente as sardin­has assadas nos fogareiros acesos no passeio.
Na Parreirinha, quando o público se despedia e os fadistas bebiam um último copo, entravam por vezes vultos discretos de homens. Alguns conhecidos da casa, outros estran­hos que, sós ou aos pares, pareciam ter recebido qual­quer palavra de passe e se acomodavam murmurando, como no aguardo de um ritual secreto. Apagavam-se as lâmpadas, ficava apenas um bruxulear de velas, e as mulheres presentes, cria­das, cantadeiras, pareciam diluir-se na sombra dos recantos.
Os tocadores retomavam os instrumentos, um fadista des­conhecido saía do público e o seu cantar, cheio de emoção, apunhalava até ao mais fundo da alma. Seguia-se-lhe outro, outro ainda, e nenhum deles recebia palmas. Porque aquele era o fado secreto, proibido, o fado do amor maldito dos homens que ali na penumbra entrelaçavam os dedos, trocavam carícias furtivas, que a tremer de paixão juntavam os lábios num beijo.
Uma madrugada, em meio de um fado, quando a porta se abriu deixando passar um homem alto e magro, senti que pelos presen­tes perpassava como que um tremor. Perguntei. Disseram-me que era António Botto, o poeta que Pessoa tinha admirado, de quem fora amigo e sobre quem escrevera revelar-se ele 'no seu livro Canções (1922) um dos tipos mais perfeitos e mais íntegros do esteta que se podem imaginar.'
Nos meus verdes anos eu tinha lido os seus poemas, sem de facto os compreender, ressentindo neles mistérios sombrios que ora se me afiguravam da carne, ora da mente. Finalmente puse­ra-os de parte e, para sossego do meu entendimento, copiara num cader­no a parte do prefácio de Pessoa que me parecia sintetizar o livro.
António Botto, o poeta que em 1959 iria morrer em São Paulo, abandonado e pobre, fora sentar-se a dois passos de mim, e recordo que num daqueles entusiasmos excessivos que a juven­tude tem, me deu vontade de lhe pedir que me explicasse a sua poesia. Desse faux pas, felizmente, salvaram-me por certo em partes iguais a timidez da minha natureza e a solenidade quase religiosa que parecia envolver tudo ali.
Ouviam-se os fadis­tas, mal se distinguiam os vultos em redor das mesas, curiosa­mente não se bebia nem comia. Mais tarde, como que obedecendo ao sinal de um régisseur invisível, um a um os presentes tinham começado a sair, deixando algum dinheiro na caixinha perto da porta.

Nessas madrugadas, quando eu próprio saía, surpreen­dia-me sempre a luminosidade da alvorada, surpreendiam-me os ruídos e os pregões da cidade, que acor­dava para uma vida triste mas orde­nada, de passeios limpos, um polícia a cada esquina, de varredores que ao longo do dia incessante varriam, incessante­mente refrescavam a rua onde o sol iria queimar.
Na minha ingenuidade e ignorância passava-se o mesmo em toda a parte. Lisboa era uma metrópole, a minha. Paris, Lon­dres, Madrid, Berlim e Moscovo seriam maiores, mas com certeza também nessas cidades longínquas se cantava uma forma de fado. E nelas outros jo­vens, meus irmãos descon­he­cidos, iam pelas ruas iluminadas por outras alvoradas, sonhando um mundo em que só haveria alegria, onde tudo e todos seriam unos, onde os poetas não precisari­am de se esconder para amar.

A nossa separação durou catorze anos. Quando voltei a vê-la, umas horas à noite entre dois aviões, não a achei mudada. De dentro do táxi ia enchendo os olhos de certezas. Tudo me parecia igualmente limpo, igualmente triste. A guerra nas colónias só existia num ou noutro cartaz, onde soldados afaga­vam crianças negras e os slogans garantiam a vitória próxima sobre o Mal e uma paz duradoura. Em cada esquina havia agora dois polícias e os varredores continuavam a fazer a limpeza com intenso zelo.
Na visita seguinte, quatro anos mais tarde, com tempo para palmilhá-la, Lisboa sur­preendeu-me. Ainda limpa, mas desolada, quase vazia de gente. Aqui e ali um prédio em ruín­as, aqui e ali um café fechado, a ponto que em vez de avivar recordações, me tomava a impressão de as ir perdendo a cada passo. O Estribo mudara de nome, frequentavam-no sobre­tudo americanos vozeirentos bêbedos de uísque. A Par­reirinha de Alfama era doutros donos, tinha toalhas na mesa e ar condici­o­nado. O horizonte norte da cidade era maculado pela torre do hotel Sheraton, que do alto dos seus vinte e três andares trompete­ava a chegada e a vitória do novo-riquismo.

A revolução, o caos que se lhe seguiu e a democra­cia, transformaram Lisboa radicalmente, e ela surge-me hoje apenas como um esqueleto de lembranças. O castelo e o quartel da Graça são dois marcos que permanecem. A torre de Belém com certeza resistirá outros quatrocentos anos. Nascidos do terra­moto, o Ter­reiro do Paço, o Rossio, e as ruas da Baixa conti­nuam símbo­los imperecíveis da cidade. Mas por culpa das mu­danças, dos sonhos que vivi e dos muitos mais sonhos com que me enganei, ela tor­nou-se para mim um lugar vazio, um lugar que me roubaram.
Passo pelas ruas e praças que me foram queridas com o senti­men­to de me encontrar em locais que perderam a alma, ou que o correr do tempo dessacralizou. E embora esse sentimento verda­deiramente me magoe, simultaneamente sei que assim não é. O que mudou tinha de mudar. Os monstros arquitectónicos dos centros comerciais e das sedes dos bancos, infalivelmente teriam de chegar, como expressões de uma actualidade que só toma conhecimento do romance, da nostalgia, da beleza e da ilusão como facto­res de comércio.
O sujo e a banalidade das ruas são o espelho da época em que vivemos e nada têm a ver com os sonhos que eu e outros julgá­mos realizar. Nem com os sonhos que a juventude de agora sonha. E quando Lisboa me desespe­ra revejo-me nos mais moços, consolo-me dizendo-me que sempre foi assim. Que eles vêem o que eu não já não sei ver, porque para as gerações que passam toda a mudança é um drama e para as gerações que nascem a esperança é eterna.

Boa companhia (2)

Durante a sua existência, quase meio século (1953-1999), ultrapassando por vezes os quatro mil assinantes, Maatstaf (Padrão) foi a revista literária holandesa de mais nome. O nr. 9 de 1994 teve por tema Lisboa.(*) Cesário Verde e Gomes Leal estão no índice, mas não "couberam" na capa. (Clique para aumentar).

(*) O texto que lá publiquei Het verdwijnen van Lissabon (O desaparecer de Lisboa) lê-se acima.

quinta-feira, junho 26

Boa companhia (1)


Quem por lá não passou, ou sabe pouco da vida, poderá achar que pôr isto aqui é vaidade. Não é.
Escreve-se uma história sobre determinado tema, o editor resolve fazer uma antologia, o compilador apreciou, e aí se vê a gente em boa companhia.
Hotel in Holland (l987) não trata de hotéis, mas de vários aspectos dos Países Baixos. Hoger dan de blauwe luchten (1997 - em tradução livre: mais alto que o azul dos céus) inclui textos sobre o Corão, Prometeu, Poséidon, Jesus, e uns mais. (Clique para aumentar).

terça-feira, junho 24

Vencelhos

Vencelhos. Já ninguém os faz, ninguém os precisa. A fotografia é do Verão de 1964, mas nos anos setenta as mulheres de Estevais de Mogadouro ainda os faziam.
Por curiosidade procurei a palavra no dicionário, e lá descobri que anda na nossa língua desde o séc. XIII. Anda, é modo de dizer. Andou. E o mencioná-la não a vai ressuscitar.

segunda-feira, junho 23

Alforges (2)

Os becos do meu inferno

Os becos do meu inferno vão quase todos dar ao largo da fantasia, e de lá, tortuosos e íngremes, descem para o cais da desilusão. Num vaivém de correrias, tropeçando, empurrando, fazendo um burburinho de ensurdecer, agita-se neles o povo das recordações, esgueiram-se os muitos eus que criei para existir e que depois, para sobreviver, tive de ir descartando. Por vezes com a indiferença de quem abandona um disfarce inútil, outras com pressas de malfeitor.
Nas paredes, cintilando coloridos, multiplicam-se os ecrãs onde revivem os lugares e os rostos, dores minhas, dores alheias. Os momentos que pareceram felizes e que o passar do tempo recobriu de incerteza e dúvida. Horas de suplício. Horas de morte. Angústias de ontem, medos da infância, vergonhas da mocidade, tudo se emaranha em simultâneo, o passado indistinto do presente e do futuro, porque a tortura não conhece limites, e assim se nos impõe, omnipotente.
As ondas da mesquinhez do dia-a-dia embatem contra a muralha do cais, iluminadas às vezes pela claridade fugaz de uma esperança, enquanto no céu opaco ecoam trovões longínquos. Menos temerosos, esses, do que a ameaça da espessa névoa que de súbito tudo pode afogar: os sonhos, o marulho dos pensamentos, as résteas de luz.
Para escapar à iminência do martírio, fecho a porta atrás de mim, saio para o mundo envolto nas aparências do que não sou. E contudo, força de hábito ou fascínio do abismo, é para o negrume dos becos do meu inferno que infalivelmente retorno. Umas quantas vezes ao dia. Todas as noites. Sem que me lembre excepção.

sábado, junho 21

Acaba mesmo... em 2012

Porque um foguetão os viria buscar, um profeta lhes disse, os cálculos os convenceram, ou uma voz segredou ao guru que o fim estava próximo, perdi a conta das vezes em que os suicídios colectivos me surpreenderam.
Surpresa tive-a também nos anos 70, quando vizinhos e amigos, gente de juízo e aparentemente equilibrada, se puseram a cavar abrigos anti-atómicos nos quintais, achando pouca graça a que eu zombasse da seriedade com que se abasteciam de pilhas para o rádio, água mineral, comprimidos de vitaminas, foguetões e roupa quente.
A novidade escapou-me, pois pelos jeitos a notícia é de há tempos e eu só soube dela pelo jornal de hoje: o mundo vai acabar em 2012, e desta vez não é ilusão, falsa promessa ou tolice: acaba mesmo. Há cálculos e provas irrefutáveis: o calendário dos Mayas termina a 21 de Dezembro de 2012 e os egípcios da antiguidade fizeram previsões idênticas. Além disso parece que está também na Bíblia: “o número 666 refere-se a uma irregularidade do ciclo solar, a qual será causa do apocalipse que se aproxima.”
Vamos ter tsunamis com quilómetros de altura; o nosso planeta rebolará, invertendo os pólos; por toda a parte explodirão vulcões; na crosta terrestre vão abrir-se fendas… Só escaparão aqueles que tiverem dinheiro bastante para se juntar ao grupo, já existente, que procura um território montanhoso, sem centrais nucleares na vizinhança.
A senhora na fotografia vêmo-la sentada sobre a jangada que comprou para se salvar, dentro da qual há um “saco para sobrevivência, composto de pacotes de água mineral, foguetões e fatos-macaco de material isolante". (*)
Sabia lá eu! Há sites para adquirir o necessário, por exemplo http://www.2012supplies.com/. Fui ver e encontrei nele o calendário que vai descontando o tempo, e me pôs ao corrente de que faltam 1643 dias e 15 horas para o fim do mundo. Nem mais, nem menos.

(*) A novidade (para mim), alguns dos detalhes e a fotografia devem-se ao jornal holandês de Volkskrant, de 21.06.2008.

quinta-feira, junho 19

"Laptop" Hermes Baby

Pensar que durante mais de um quarto de século foram assim os meus "laptops"! A última de uma série de cinco ou seis, passou jovem à reforma quando no início dos anos 90 comprei um Sanyo com um ecrã de 20 x 8 cm e letras roxas sobre fundo esverdeado. Um traste que não deixou saudades quando se escangalhou. Ao contrário desta, que continua funcional e quase merece redoma.

quarta-feira, junho 18

O Mercedes e a mula

“A corrupção desvirtuara todas as qualidades do carácter nacional. A justiça era um mercado, no reino e na Índia; e a nobreza ingénita, que além se traduzia em ferocidade, traduzia-se em Portugal num luxo impertinente e miserável. Era uma ostentação, já não era um orgulho ingénuo… O tipo de fidalgo pobre era tão comum e ridículo, que andava nas comédias, conforme se vê em Gil Vicente… Para satisfazer a vaidade dava tratos aos estômago. E a carestia dos víveres reduzia-o a pão e água, e rabanetes, quando os havia na praça…
O pobre mordia-se de inveja, diante do luxo insultante do que tornava da Índia rico, e se passeava na Rua Nova com um estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de pano de linho para limpar o suor da besta, à porta da igreja, enquanto o amo ouvia missa. Eram todos, oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores agaloadas de ouro ou prata.”

De tempos a tempos releio a “História de Portugal”, de Oliveira Martins, e não escapo à associação de ideias. Felizmente já não há escravos, a União Europeia é para muitos uma razoável Índia e o Mercedes suplanta a mula.

terça-feira, junho 17

Eça, Huxley, Stravinsky, Isherwood...

Agrada ler a quem, como eu, admira o senhor Eça de Queiroz.

Christopher Isherwood anotou num dos seus diários (*) que em 28 de Abril de 1958, em Los Angeles, num jantar com Igor Stravinsky e Aldous Huxley, este último lhes recomendou a leitura de A Relíquia de Eça de Queiroz.
Isherwood seguiu o conselho e a 11 de Maio anota: "Julguei que queria escrever aqui mais alguma coisa, mas acho que não. Fora dizer que acabei de ler um romance de que realmente gosto: A Relíquia, de Eça de Queiroz. É preciso ser-se verdadeiro artista para escrever um romance maldoso que não seja maldoso em demasia. (Pode dizer-se que) é um caso de quase perfeito equilíbrio." (**)

(*) Diaries - Volume One: 1939 - 1960
(**) "Well - I thought I wanted to write something here but I find I don't. Except that I just finished a novel I really like: The Relic by Eça de Queiroz. It takes a real artist to write a bitchy novel which is not too bitchy. This is almost perfect tightrope walking".

quinta-feira, junho 12

Descanso

Durante uns dias, talvez a semana inteira, não se conta o tempo, nem o tempo conta.

quarta-feira, junho 11

Alforges(1)

Nestes "Alforges", vão ser metidos uns quantos textos, alguns já publicados, outros inéditos. Aqui gozarão uma forma de arrumo e permanência que a barafunda das minhas gaveta não pode garantir.


Os Cegos de Manoa


Nos confins da Amazónia, entre o Brasil e a Bolívia, lá onde o rio Madeira começa a ganhar maje­stade, Manoa seria o último lugar onde se esperaria encon­trar alguém como John T. Aldrich III.
Com umas cinquenta cabanas, meia dúzia de barra­cos a que chama­vam casas, e o posto fron­tei­riço onde os soldados de guarda dormitavam apoiados a fusis da guerra da Crimeia, nos fins de 1967 Manoa era o que com razão se podia chamar um fim do mundo.
Para oriente o barco levava dois dias a alcançar Porto Velho, outra Manoa. Para ocidente dizia-se, mas sem certeza, que ficavam umas montanhas de picos cober­tos de neve. A poucos metros de cada margem, densa a ponto de tornar o dia um crepúsculo­, a selva era um inferno húmido.
Irregular, e por isso sempre surpreendente como um milag­re, a chega­da do barco que de Porto Velho trazia mercadorias, o correio, e alguma autoridade ou viajante desgar­rado, era a maior diversão das duzentas e pico almas a quem tinha cabido o destino de que ali haveriam de nascer, morrer, e no meio tempo multiplicar-se. E multiplicavam-se. A ponto de que quando o barco atracava e corriam todos a ver, pareciam uma multidão.
John T. chegara a Manoa com a vaga ideia de, durante um tempo, gozar ali uma forma extática e exótica de felicidade. Filho de ricos, tinha viajado, tinha visto, vivido, gozado, mas continuava a sentir na alma um indefinível vácuo, e enquan­to aguardava a reve­lação do seu verda­deiro futuro, a Amaz­ónia parecia-lhe um lugar de espera melhor que Connecticut.
Ficou. Agradava-lhe o isolamen­to do lugar e apenas o surpreen­dera o es­pectáculo dos cegos, às vezes dois, às vezes três ou quatro, que se sentavam à borda d'água, e a quem os garotos molestavam aos gritos de "Ca-pa-dos! Ca-pa-­dos!"
O missionário tinha-lhe confessado que achava o costu­me bárbaro, mas conhecen­do-os de há muito, ele próprio nunca se atreve­ria a ir contra os sentimentos de honra dos seus paro­quianos. O assassinato era para as questões miú­das, as dife­renças de opinião, o castigo dum roubo. Mas homem desonrado por infide­lidade de mulher ou sem-vergonha de filha, só tinha uma saída: capar o malfeitor e arrancar-lhe os olhos. Ultima­men­te, aliás, começava a ser costume cegar também as mulheres.
Deitado na rede estendida entre os dois troncos que suportavam a choça, John T. balouçava lentamente, recordando as alucinações do peyotl que tinha experimentado no México, a suave euforia da maconha brasileira, a loucura furiosa causada pelo chinchonete seco que bebera em Barcelona.
­Sentia-se intensamente feliz naquele fim da tarde, mascando folhas de coca, saboreando em golos fundos a cachaça da garrafa que Simona deixava ali à mão, na caixa ao pé da rede.
Nome pouco corrente num lugar daqueles, Simona. Tinha conheci­do uma Simone em Yale, outra em Paris, uma Simo­netta em Bari, e guardara delas deli­ciosas recordações. Mas Simona, com os seus catorze ou quinze anos a mais jovem de todas, na cama levava-lhes de longe a palma. Que corpo! Que fogo naque­les olhos negros! Ao fim de experiências sem conta, e pen­sasse cada um o que quisesse, em sua opinião o sexo era ainda a droga supe­rior.
Meteu na boca outra folha de coca, bebeu mais um golo. O missionário com as suas histórias de honor e horror! O que é que por cinco ou dez dólares se não comprava em Manoa?
Tomou-o um torpor delici­oso, voltou a acordar, bebeu outro golo, atentou vaga­mente no vulto que de pés des­calços se recortava contra a clarid­ade da porta.
- Hi! Pedrito!
Por facilidade tratava-os a todos por Pedrito. Homem ou irmão de Simona, talvez primo, não sabia ao certo. Em todo o caso parente.
John T. escorregou para o chão de terra batida e pegou na garra­fa, esten­deu-a ao visitan­te que diante dele se mantinha imóvel.
- Bebe, hombre!
Silencioso, o homem sentou-se no chão, bebeu, pousou a garrafa, e sacando da navalha passou-a lentamente pela unha do polegar, a experimentar-lhe o fio.


Remexendo nas gavetas (27)

Ciganos em Estevais de Mogadouro (3) c. 1938.



terça-feira, junho 10

A realidade neerlandesa em forma de sonho (5)

A questão premente, todavia, seria a que se põe em relação ao interesse de tal livro. De mais um livro sobre o país que, consultadas as estatísticas, provavelmente é daqueles que no mundo têm sido mais analisados, dissecados e estudados.
Como se ela exerça uma espécie de mágica, mal o viajante estrangeiro põe pé na Holanda e contacta, intimamente ou à distância, com a gente que a povoa, o primeiro impulso a que cede é o de escrever sobre ambos.
Pode talvez adivinhar-se nisso o fascínio que causa o saber a terra abaixo do nível do mar - facto, aliás, em que muitos não acreditam e supõem propaganda turística - ou a paisagem plana, a estranheza de alguns hábitos, as tulipas, os moinhos, o génio de Rembrandt.
Mas como explicação não basta. Existem pintores geniais, moinhos e tulipas noutras nações. Planas como o pólder são-no as estepes da Hungria, as pampas da Argentina. E aqui e além no globo deve haver mais pontos onde os diques evitam que o mar inunde as terras. Fora de que os usos e costumes dos uzbeques ou dos índios tupi serão aos olhos do comum ainda mais exóticos.
Contudo é sobre a Holanda e os holandeses que os viajantes obstinadamen­te escrevem, numa série que, começada por Júlio César nos tempos em que Roma era império, se mantém nos nossos dias, cada um dos escritores dando-se a ilusão de que descobre novos aspectos no país e novas bizarrias nos costumes da sua gente.
É de uma ingenuidade igual à de querer reinventar a roda, e tanto mais surpreendente porque as críticas são idênticas às que a este povo foram feitas ao longo dos séculos. Eu próprio de boa vontade confesso aqui mea culpa, e quanto mais leio o que antes de mim foi escrito sobre os holandeses, maior se torna o meu acanhamento de, por ignorância, embora francamen­te, ter repetido o que muitos já tinham constatado.
A questão, porém, continua em pé, de saber donde virá esse fascínio multisecular e internacional que leva a afogar os holandeses em críticas acerca das suas maneiras e costumes, e ao mesmo tempo gabar-lhes as indiscutíveis qualidades de organi­zação, de persistência, e do seu génio para o negócio. Em ambos os casos com uma exaltação que fatalmente resulta em que se criem mitos bons para o comércio e desastrosos para a fama. Mitos esses, aliás, que os holandeses, com o génio comercial atrás mencionado, se esforçam por manter vivos, estando-se nas tintas para a boa ou má reputação que possam ter aos olhos de outrem.
Assim o turismo, para só citar essa importante actividadde, desenvolve-se sobretudo em torno do mito de que o país inteiro é um campo semeado de tulipas e moinhos, com lavradores de tamancos que, vestidos como os pescadores de Volendam, criam vacas e andam de pá na mão a levantar diques contra a água.
Da má fama não vale a pena falar, pois devido ao excesso de atenção que se lhes vota, os defeitos dos holandeses, que aliás são os mesmos de que padece o resto do mundo, surgem grosseira­mente ampliados, dando a impressão de que a cada esquina se topam monstros de rapacidade, de avareza ou vício.
Mais de uma vez me tem sido perguntado se não receio andar pelas ruas de Amsterdam, e como respondo pela negativa o olhar dos meus interlocutores traduz em geral uma forte descrença, pois o mito tem isso, exige a todo o preço que a realidade se lhe conforme.

Fora as centenas de artigos, comunicações e ensaios que no correr do tempo devo ter lido sobre a Holanda e os holandeses, na minha estante alinham-se umas quatro dezenas de livros sobre o mesmo tema. E é olhando-os que me ocorre que, a resposta à questão que antes me pus, talvez se não deva procurar no espanto dos estrangeiros, que chegando aos Países-Baixos logo desatam a escrever, mas naquilo a que hoje é moda chamar interacção.
Porque ao maníaco afã de escrita a que os estrangei­ros se dão, indubitavel­mente corresponde, por parte dos holandeses, uma não menos doentia curiosd­ade para saber o que deles se conta. E se sobre poucos povos se terá escrito com semelhante profusão, também é facto que nenhum outro, como o holandês, gosta tanto de ler as invectivas que lhe atiram e os cumprimentos que lhe fazem. Desde que isso não afecte o bom andamento dos seus negócios - e de que modo o poderia afectar? - ele delicia-se com a atenção que lhe dão, saboreando os cumprimentos com uma alegria infantil, sofrendo as invectivas com insensibilidades de masoquista.
Será isso uma fraqueza? Uma virtude? Provavelmente nem uma coisa nem outra. Apenas um modo de reagir decorrente de cir­cunstâncias não exclusivamente humanas, mas sociais, históri­cas, geográficas, e Deus sabe quantas ainda. Porque não se é impunemen­te país pequeno rodeado de outros bem mais vastos. Nem impunemen­te se vive junto de um mar que, ora é benesse e salvação, ora sem aviso se torna perigo mortal. Ainda menos impunemente se é desenvolvido e rico sem medida, quando em volta surgem focos de atraso e de pobreza.
E assim retorno aos paralelos e diferenças que atrás esbocei. Portugal é também pequeno, escondido num canto da Europa, mas outrossim amarfanhado pelo tamanho territorial e o poderio económico da Espanha. O mar quase sempre lhe foi ameaça e no séc. XVI motivo de riqueza e glória. Só que de maneira fugaz, sem que a riqueza adquirida fosse utilmente aplicada.
Por si própria, a glória passada nada garante no presente ou no futuro. É um bem res­peitável, mas defunto, que no máximo empresta certo cachet aos monumentos e aos poemas históricos. Sabendo não ser rico e pouco desenvol­vido, é talvez por essa razão que em Portugal se sofre tão mal a crítica, mesmo quando ela é justa e bem intenciona­da.

De longe a longe, em vez de fingir que hiberno sonho acordado. Belos sonhos em que me dou a omnipotência de Deus e a paz dos homens de boa vontade.
Elimino verdadeira e definitivamente as frontei­ras do continente. Todas. Repetindo De Gaulle faço uma Europa que vai de Lisboa aos Urais e nela uno alegremente os povos, cuidando que ao espírito libertário de um se misture o romantismo doutro e a sensibi­lidade dum terceiro. No mesmo cadinho fundo a argúcia que estes mostram, o talento que aqueles têm para criar e organizar, a arte serena com que alguns sabem gozar a vida.
O bom Deus permite-me que, descartando as diferentes versões da moral e da hipocrisia, eu espalhe, também de Lisboa aos Urais, a franca liberdade que sem entraves permite gozar do sexo.
Enriqueço as escolas. Diminuo as diferenças que separam os abastados dos pobres. Nessa Europa que sonho, ninguém terá de sofrer que lhe falte o comer ou o tecto, ou que a doença o obrigue a uma existência indigna. A polícia e as ambulânci­as acorrerão no momento em que for pedida a sua ajuda. Velhos, doentes, solitários, todos receberão os cuidados e os conchegos de que necessitam. As comunicações serão quase instantâneas. Os jornalistas escreverão livremente, à televisão ninguém porá peias. Os escrito­res e os artistas serão acarinha­dos. Por toda a parte se ouvirão orques­tras e não haverá domingo sem festival.
Querem os povos viajar, embora o que daí lhes advem seja mais ilusão do que outra coisa? Se isso os torna felizes, pois que viajem! Se encontrem! E encontrando-se se amem e multipli­quem.

Quando me passa a onda de megalomania e aterro com ambos os pés no dia-a-dia, dou-me conta que essa Europa com que sonho já se realizou. Existe na Holanda e um pouco também por aqui e por ali. Infelizmente, quase tenho a certeza de que a morte me levará antes que ela alastre até Lisboa. E aos Urais, se alguma vez lá chegar, será mais tarde ainda. Por isso a ninguém deverá fazer espécie que, dilacerado por sentimentos contrários, gozando de um bem-estar que não posso repartir com os outros a que também pertenço, eu, em vez de criticar ou de louvar, tenha optado pela fantasia e nela me refugie, ora a fingir que hiberno, ora a sonhar o im­possível.

FIM