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Ainda nunca usei drogas e com o que consumo de álcool ninguém será capaz de se embebedar. Não que eu seja assim por virtude, mas ao primeiro aviso de que me se me tolda a cabeça, o medo de deixar de ser eu próprio pode mais que a curiosidade pelos efeitos do trip ou da bebedeira.
Não é isso que me encartará como moralista e longe de mim condenar quem, levado pelas inúmeras razões que a vida oferece ou a que a vida obriga, se droga e se embebeda. É certo que me falta paciência para ouvir os longos monólogos da carraspana. Também passo de largo pelos que têm o "vinho mau." Mas esses, pelo menos, não me dão pena como os que têm o "vinho cobarde." Deus me livre de um dia procurar na bebida ou na droga a coragem de me assumir.
É um romântico. No jardim que tem atrás de casa, uns escassos metros quadrados, avulta uma tília secular. Quando o tempo o permite leva para junto da árvore uma mesita, uma cadeira da cozinha e, horas a fio, escreve o seu livro. Com uma pena de aparo de aço, um tinteiro e cadernos escolares, porque lhe repugna usar meios a que falte uma longa tradição.Escrever à máquina parecer-lhe-ia uma falta de respeito, dum computador nem quer ouvir falar. Escreve, por isso, morosamente, mas diz que só desse modo consegue provocar a passagem do misterioso fluído com que o cérebro canaliza as ideias para a mão.
O livro não é uma qualquer obra de narrativa fictícia, mas a síntese das observações e pesquisas filosóficas, intelectuais, morais e psíquicas a que se dedica desde a adolescência, e agora, na meia idade, lhe parece terem atingido o ponto de maturação. Anos atrás tinha enchido o equivalente a novecentas páginas dactilografadas e, quase certo de ter produzido um magnum opus, levou o manuscrito ao editor.
Este foi cruelmente sincero no seu juízo: "Ilegível, incompreensível, um desarrazoado." Com razões idênticas o editor rejeitou uma segunda versão do texto, mas a vontade que o anima de oferecer ao mundo o livro último, aquele onde se encontrem todas as perguntas e quase todas as respostas, não é das que esmorecem com um revés. Nem com dois. E à sombra da tília, diligente, imperturbável, continua a escrever, certo e seguro de que sabe o que ninguém mais sabe, que tem para dizer aquilo que ainda nunca ninguém disse.
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.
(*) As fotografias são do começo dos anos 50. (Clique para aumentar)
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.
É uma dor que vai e vem, talvez ciática, por vezes tão aguda que me impede o andar.