quinta-feira, agosto 14

"O País de Salazar"

"O País de Salazar" - data de 1941 e pela capa ninguém diria, mas é um laudatio. Com fotografias do tempo, como estas da Casa dos Pescadores (1939) em Matosinhos e do Instituto Superior Técnico (1939).



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quarta-feira, agosto 13

"Vinho cobarde"

Ainda nunca usei drogas e com o que consumo de álcool ninguém será capaz de se embebedar. Não que eu seja assim por virtude, mas ao primeiro aviso de que me se me tolda a cabeça, o medo de deixar de ser eu próprio pode mais que a curiosidade pelos efeitos do trip ou da bebedeira.
Não é isso que me encartará como moralista e longe de mim condenar quem, levado pelas inúmeras razões que a vida oferece ou a que a vida obriga, se droga e se embebeda. É certo que me falta paciência para ouvir os longos monólogos da carraspana. Também passo de largo pelos que têm o "vinho mau." Mas esses, pelo menos, não me dão pena como os que têm o "vinho cobarde." Deus me livre de um dia procurar na bebida ou na droga a coragem de me assumir.

terça-feira, agosto 12

Remexendo nas gavetas (30)

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Remexendo nas gavetas (29)

No Diário Popular em Setembro de 1968. (Clique para aumentar )

domingo, agosto 10

O escritor

É um romântico. No jardim que tem atrás de casa, uns escassos metros quadra­dos, avulta uma tília secular. Quando o tempo o permite leva para junto da árvore uma mesita, uma cadeira da cozinha e, horas a fio, escreve o seu livro. Com uma pena de aparo de aço, um tinteiro e cadernos escolares, porque lhe repugna usar meios a que falte uma longa tradição.Escrever à máquina parecer-lhe-ia uma falta de respeito, dum computa­dor nem quer ouvir falar. Escreve, por isso, morosamente, mas diz que só desse modo consegue provocar a passagem do misterio­so fluído com que o cérebro canaliza as ideias para a mão.

O livro não é uma qualquer obra de narrativa fictícia, mas a síntese das observações e pesquisas filosóficas, intelectuais, morais e psíquicas a que se dedica desde a adolescência, e agora, na meia idade, lhe parece terem atingido o ponto de maturação. Anos atrás tinha enchido o equivalente a novecen­tas páginas dactilografadas e, quase certo de ter produzido um magnum opus, levou o manuscrito ao editor.

Este foi cruelmente sincero no seu juízo: "Ilegível, incompreensível, um desarrazoado." Com razões idênticas o editor rejeitou uma segunda versão do texto, mas a vontade que o anima de oferecer ao mundo o livro último, aquele onde se encontrem todas as perguntas e quase todas as respostas, não é das que esmorecem com um revés. Nem com dois. E à sombra da tília, diligente, imper­turbável, continua a escrever, certo e seguro de que sabe o que ninguém mais sabe, que tem para dizer aquilo que ainda nunca ninguém disse.

sexta-feira, agosto 8

Lang Lang

Lang Lang, o genial e jovem (26) pianista chinês que hoje tocará na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, recebeu tempos atrás do seu progenitor o conselho de, sobretudo, dar atenção às críticas negativas, pois “mesmo a opinião de um tolo nos pode ensinar algo.” (*)
O seu mentor americano deu-lhe um conselho mais adaptado à realidade: “Não faças caso das palavras (nos artigos críticos), mas conta as linhas. Quanto mais escreverem sobre ti, mais atenção te darão.”

O conde de Morny (1811-1865) teve o seu momento de fama ao responder do mesmo modo ao criado que, assustado, uma manhã o acordou com a má nova de que os jornais estavam cheios dos escândalos e patifarias de monsieur: “Não importa o que escrevem sobre mim, importa sim que escrevam muito”.

(*) interessante em You Tube: Lang Lang gone mad.

terça-feira, agosto 5

A aldeia

Houve um tempo em que idealizei a aldeia, que me parecia uma fonte de virtudes, uma fonte de harmonia e paz. Depois veio o tempo em que a odiei, porque se assemelhava a um cárcere, e o meu desejo era um só: fugir.
Com a ausência recomecei a idealizá-la e mais tarde esforcei-me por redescobri-la. Para me embeber do sonho antigo percorri de novo todos os lugares, procurei ouvir de novo o bater do seu coração. Mas finalmente tive de me resignar ao irremediável: ela mudou, eu envelheci, somos ambos personagens secundários num romance histórico que ninguém vai escrever.

domingo, agosto 3

Mendigos (6)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, agosto 2

São gostos

Tradução: Na opinião unânime do júri, Sanae Chirar tem as pernas mais bonitas dos Países Baixos. Na final do concurso em Amsterdam, organizado por uma revista feminina e um fabricante de lâminas de barbear, participaram 25 mulheres.
(fonte: Het Parool 30.05.08)

Mistério

Será mistério ou avaria? Culpa de Google.com? Não. Microsoft.com que o diga! Hoje, durante cerca de quinze horas Tempo Contado não abriu com Internet Explorer, só com Firefox! Já abre.

sexta-feira, agosto 1

Diário (3)

Fosse eu como gostaria de ser, e não como me fizeram e me fiz!
Seria racionalista, arrojado, não sofreria insónias, nem dúvidas, nem os medos que azedam as horas do dia e tornam temerosas as da noite.
Infelizmente é grande o fosso entre o ser e o sonhar, e mais vale confessá-lo já, desmesurado o que me perturba. Para meu mal encaro o mundo como uma teia, onde várias e perigosas aranhas se penduram com o fito único de me amargurar os dias. Por isso, e à falta de defesas melhores, há muito me tornei supersticioso.
Desconfio de gatos pretos e acredito no mau olhado, em bruxedos, nos poderes maléficos do jade e da ametista, na eficiência das receitas do Livro de São Cipriano, nas más vibrações, no perigo de certas correntes de ar, nos venenos da espirradeira, do acanto...
Vem isto a propósito de um cáustico mail que anteontem recebi, no qual um desconhecido, tendo espiolhado um dos meus romances, encontrou nele tantas "erros de palmatória" e tão irritantes contradições que não resistiu a encher duas páginas de comentários.
Passada uma vista de olhos à argumentação do homem, breve me dei conta de que lhe faltava razão e que, verbalmente, pouco custaria dar-lhe a merecida sova.
Voltei a ler e de novo me subiu a mostarda ao nariz. De modo a cuidadosamente rebater a acusação, impunha-se imprimir o mail. Confesso que me sentia raivoso, possesso de uma força má ao premir “Enter”. E então aconteceu.
A impressora, que com escassos meses de uso tinha funcionado sem empeno, deu uns estalos e uns saltos, estremeceu, aquietou-se um instante, para logo de seguida, com silvos e soltando faíscas, espichar tinta de vários coloridos e disparar rodinhas de plástico.
Um racionalista dirá que foi acaso. Pessoalmemte inclino-me para a hipótese de que, não podendo atingir o homem, as minhas más vibrações destruiram a máquina.
Pense cada um o que quiser, verdade é que ao certo nunca se sabe.

quinta-feira, julho 31

Retrato doutros tempos

Curioso, o acaso que nos faz abrir um livro(*) e reler, com um sorriso triste, esta ironia antiga. Mas de certo modo consola que o retrato do Portugal de 1871 nada tenha a ver, nem de longe, com o Portugal de 2008. Só um espírito azedo pretenderá o contrário:

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso… A ruína económica cresce, cresce, cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro… Não é uma existência, é uma expiação. E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: “O país está perdido!” Ninguém se ilude… E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado – e pede-se conhaque!
Assim todas as ideias certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!”
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(*) Uma Campanha Alegre (vol. I)- Eça de Queiroz.

quarta-feira, julho 30

Antigamente

Antigamente, sem hesitar, eu entregaria a defesa dos meus interesses a um advogado, o cuidado da minha saúde a um médico, a segurança da minha pessoa a um polícia. Se as circunstâncias o mandarem também hoje terei de o fazer. Mas sem ilusões. Antes como a rês que ao ser tirada do estábulo nunca sabe se a vão levar para o pasto ou para o matadouro.

terça-feira, julho 29

Mendigos (5)

Que fique a imagem para vergonha e remorso dos que rasgam os jeans por moda ou "solidariedade" para com os miseráveis.

E de novo se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)




(*) As fotografias são do começo dos anos 50. (Clique para aumentar)

segunda-feira, julho 28

Genista lydia

Nascido em comunhão com a terra, os meus conhecimentos da natureza são práticos. Diferencio um carvalho dum castanheiro, um macho dum cavalo; sei que a rama da batata não cresce alta como a do tomate; que o voo da pomba é silencioso e o da perdiz barulhento. Mas de vez em quando tenho inveja dos que sabem o nome e os detalhes das plantas, das flores, das árvores; dos que distinguem pelo pio ou pela pena a espécie dos pássaros.
O meu receio, porém, é de que, pelo menos nesse particular, a um aumento do saber corresponda uma diminuição do sentimento. Não sei se se continua a olhar com alegria ingénua para a giesta em flor quando se lhe chama Genista lydia, se lhe conhece a genealogia e se estudou a composição química do solo em que ela melhor se desenvolve.

domingo, julho 27

"O Rei da Terra"

Pelo simples gosto de apreciar mais uma vez o seu talento, releio O Rei da Terra, de Dalton Trevisan (1925-).
Grande escritor. Curioso destino o deste homem que fez de Curitiba um universo, tem passado a vida a ser director de fábrica e, nas horas vagas, se tornou um dos grandes, senão o maior dos contistas brasileiros.
No Brasil é famoso, mas pouco lido. Em Portugal poucos o conhecerão. Nos Estados Unidos terá uma mão-cheia de leitores, na Holanda outra mão-cheia. Dá pena que seja assim, mas essa é a realidade.
Do talento, como do crime, também se pode dizer que não compensa.

quinta-feira, julho 24

O fim da internet livre

Isto é consigo, comigo, com todos nós:
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=9627

Mendigos (4)

Recorda-se com pena e espanto que há dias, no Porto, uma mulher de 95 anos tenha morrido de fome.
E pela quarta vez se repete o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 22

A cara que temos

É uma dor que vai e vem, talvez ciática, por vezes tão aguda que me impede o andar.
Jovem ainda e simpática, atenta, concentrada no que faz, a neurologista manda-me que caminhe na ponta dos pés, sobre os calcanhares, diz-me que feche os olhos e ponha os indicadores no nariz, faz aqueles testes dos reflexos com o martelinho, puxa aqui, torce acolá, raspa-me a sola dos pés, pica-me as pernas...
Como não encontra o que poderia ser a causa da mazela resolve que se terá de fazer um MRI, aparelhagem em que já noutra ocasião me vi metido. E enquanto escreve o seu relatório entrega-me um folheto com perguntas a que devo responder.
Vou lendo. Se tenho um pacemaker. Se tenho uma peça dental de fixação magnética. Se no corpo tenho bomba ou aparelho que não possa ser retirado. Se em qualquer parte do corpo tenho fragmentos de metal. Se tenho válvulas metálicas no coração. Se tenho uma prótese auditiva metálica. Se sofro de claustrofobia. Se alguma vez me foi injectado líquido contrastante. Se se deram complicações. Quantos quilos peso.
Preenchi, assino. A neurologista, sorridente, parece hesitar, diz que quer fazer ainda uma pergunta, mas…
- Diga, diga.
- O senhor, por acaso, tem balas no corpo?
- Balas? Não!
Despedimo-nos. O átrio do hospital está cheio de gente e dá-me a impressão de que um ou outro me olha de modo estranho. Balas no corpo! Será que a minha cara justifica a pergunta e aqueles olhares?

segunda-feira, julho 21

Sábado à tarde

O calor da tarde era demasiado. Raquel abriu o jornal vagarosamente, sem vontade de ler. Na primeira página um ministro búlgaro abraçava Solana e, por baixo, em maiúsculas, a notícia de que o nível do Reno já baixara mais que no ano anterior.
As janelas estavam abertas, ouvia-se o ladrar dos cães, correndo uns atrás dos outros. Pegou outra vez na garrafa e pô-la à boca, sem se dar ao trabalho de usar o copo. O leite frio, quase gelado, tornara-se para ela um vício tão exigente como o fumar. A garrafa, porém, estava vazia e, durante um instante, perplexa, não conseguiu recordar-se se era a primeira ou a segunda.
Irritada, atirou com o jornal. Apoiando-se com dificuldade nos braços da cadeira, levantou-se, caminhou lentamente para a cozinha. Os dias piores eram os do fim-de-semana. Não fossem os cães teria a impressão de que se achava ali num deserto. Os vizinhos saíam para a praia de manhã cedo e quando voltavam já era noite. No Verão só raramente os via.
A casa não era grande, mas o corredor parecia aumentar de comprimento. Como era possível que a cozinha estivesse fechada? Estaria outra vez a piorar dos olhos? Tinha a certeza de que a deixara aberta e em casa não havia mais ninguém.
- Quem é?
Foi andando apoiada à parede. Empurrou a porta com cuidado, hesitando um instante antes de entrar, certa de que ouvia passos que se afastavam.Tirou outra garrafa do frigorífico, bebeu lentamente, contou as que sobravam. Nove, o bastante até segunda-feira.
Naquele momento ouviu telefone. Um tilintar desagradável e tanto mais inesperado porque só raramente lhe telefonavam. A sala parecia-lhe longe, uma distância absurda, fatigante, mas vencendo-se caminhou para lá. Ia a meio do corredor quando um dos cães passou a correr, seguido por outros dois. Como teriam entrado? Era impossível que fossem capazes de saltar pelas janelas, demasiado altas.
O telefone silenciou. Um instante depois recomeçou a tocar e levantou-o do descanso. Reconheceu a voz da irmã que vivia em Paris, aquele modo aflito de gritar "Allô! Ana? Allô!", mas não tinha vontade de conversar, nem de lhe ouvir as queixas. Pousou o aparelho, perguntando-se se teria força bastante para voltar à cozinha, onde tinha deixado a garrafa.