terça-feira, junho 3

A realidade neerlandesa em forma de sonho (2)

Embora sem que nela me queira exceder, a minha liberdade de escritor permite-me carregar o traço, desenhar em linhas grossas para assim, ampliando a imagem, a tornar visível. E volunta­ria­mente exagero. Mas não minto ao afirmar que tantas vezes ouvi sermões desses que atrás menciono, que a certa altura comecei a preocupar-me por não ter a certeza qual de nós - os meus interlocutores ou eu - sofria da cabeça. Sobretudo se eles, à força de repetições e insistências, tentavam impor-me, não a visão que tinham do meu país - no que lhes cabia o mais pleno direito - mas a obrigação de modificar a minha própria que, não sendo "holande­sa", definitivamente lhes parecia menos válida e politicamente menos correcta.
Na sua opinião Portugal tinha de ser assim, de ser assado, proceder deste modo e do outro, regular isto e aquilo. Se não fosse capaz de fazê-lo eles, que detinham a "verdade" e as receitas mágicas do êxito político e das boas regras sociais, em vez de amanhãs risonhos prenunciavam para o meu país amanhãs chorosos.
Para mim o futuro seria também negro, pois além de surdo às suas exortações eu lhes parecia desinteressado da salvação da minha pátria e do mundo em geral.
A Holanda, essa, não somente a tinham eles salvo e feito progredir, num ciclópico esforço colectivo, mas tornado país-guia, um desses que ao longo da história, desde a Roma da antiguidade, à Rússia do comunismo e à América do capital, mostram o "bom" caminho aos incapazes, aos preguiçosos e aos desfavoreci­dos.
Exortando-me na televisão, na imprensa e em conversas particulares, a tomar a sério as suas fortes convicções sobre os modos de salvar o mundo, os meus interlocutores davam ainda, tanto em geral como em privado, mostras de uma outra curiosa característi­ca: a da franqueza rude. E nada, absolutamente nada, seria capaz de convencê-los que nos mundos mais vastos que existem fora dos limites que vão de Groningen a Maastricht e do Mar do Norte a Venlo, se usa de uma forma de trato social chamada cortesia, a qual, de modo algum é antónimo de sinceridade.
Infelizmente, no que respeitava o contacto humano, a troca de impressões ou ideias, a simples conversa de café, o holandês tendia para a falta de discernimento. Tomava por única e melhor a convicção simplista de que só se é franco quando se é rude. Que a bruteza fomenta a amizade. Que aquele a quem cruamente se apontam os erros, os defeitos, os olhos vesgos, a ignorância, deve esfregar as mãos de contente e dar graças a Deus que pôs no mundo um povo capaz de, sem considerações nem papas na língua, chamar às coisas pelo seu nome.
Da remota década de setenta ficou-me ainda a lembrança de uma Holanda céptica e sombria. Não somente porque, dum e doutro lado do Muro de Berlim, os foguetões aguardassem nas suas rampas de lançamento o comando que faria explodir o mundo num apo­calíptico fogo de artifício, mas porque o prenúncio do pior era hábito secular e generaliza­do. Sobretudo no que dizia respeito à economia e ao bem-estar.
Os bancos abarrotavam de dinheiro, o progresso era em toda a parte visível, o desenvolvimento do país não suportava uma aceleração maior, mas dentro e fora de casa o burguês mantinha o rosto sombrio. Para ele próprio, para o país, o mundo, e até Deus no céu, as coisas iam mal, muito mal, com tendência para piorar.
Os calores do Verão não se comparavam aos de antigamen­te, a neve que caía no Inverno mal cobria os prados, o gelo já não era sólido bastante para que se pudesse patinar nos canais. E os preços constantemente em alta, a qualidade de tudo a diminuir.
Ia-se de férias para o estrangeiro e, em vez de gozar e receber um valor adequado em troco do bom dinheiro que se gastava, era como se hotéis, restaurantes, as esplanadas, os guias e até as mulheres das retretes públicas, tivessem actualiza­do e refinado as técnicas clássicas dos salteadores. Por tudo se tinha de pagar demasiado, raro era o que prestava.
Para cúmulo, hordas de estrangeiros de cores e peles das mais variadas, vindos de nações sem rei nem lei, todos os dias atravessavam as fronteiras e se instalavam com a desordem das suas maneiras, e o bizarro dos seus costumes, nas ruas onde até então se tinha vivido em harmonia, com vizinhos que falavam a mesma língua, que não queriam exageros de culinária e igualmente detestavam o alho.

segunda-feira, junho 2

A realidade neerlandesa em forma de sonho (1)

Probiblio, a organização de cúpula das bibliotecas holandesas, desejando em 1997 oferecer aos seus membros um presente de fim de ano, encomendou-me um texto. A versão holandesa foi publicada em edição esmerada, o original português encontrei-o numa disquette pré-histórica.
Pode ser interessante para alguns. É também uma forma de cumprimento aos meus compatriotas holandeses que, serena e civilizadamente, sabem encarar as críticas que lhes são feitas.
Demasiado longo para o nervosismo bloguítico, vai aqui em partes.


Parecerá criancice, ou passatempo de reformado, mas actualmente, uma das minhas maneiras favoritas de olhar para a Holanda, onde há mais de quarenta anos vivo, é fingir que entrei em hibernação.
Brinco com a ideia de que, décadas atrás, me puseram numa dessas câmaras frigoríficas onde as carnes permane­cem longamente sem apodrecer e, por um dos milagres que a ciência cedo tornará corriqueiros, me fizeram agora acordar.
O que sei, o que sinto, penso, o que a minha memória guardou, as imagens da retina, os sons que me entram pelos ouvidos, as emoções, tudo isso é dos fins dos anos setenta. Da Holanda moralista, pequeno-burguesa, provinci­al, dum lado com crentes fanáticos a garantir a existência de um Deus que só amava quem pertencia à "boa" seita. Do outro com "revolucionári­os" que, incapazes de se melhorar a si próprios, tentavam com as suas frustações melhorar o mundo - de preferência longe, nos países onde o sol brilhava todos os dias e onde com centavos já se era rico.
A Holanda que assim se me apresenta, ainda aqui e além acreditava na ética do trabalho, tinha descoberto alegremen­te que a tudo se podia dar um jeito. Que nos cofres da nação havia dinheiro bastante para subsidiar os artistas, que só o eram nas visões que lhes enchiam a própria cabeça; dinheiro bastante para acomodar os descontentes; para pagar aos que iam "ajudar" o Terceiro-Mundo; para criar e manter um colossal corpo de organismos destinados a "fabricar" felicid­ade e a garantir que, à menor dor de cabeça, ao menor sinal de descontentamento consigo mesmo ou com outrem, o cidadão se podia dirigir a um guichet onde as suas preocupações, mesmo as ridículas, eram tomadas a sério, ponderadas, discutidas, relatadas, analisadas por comissões e, finalmente, resolvidas.
Desse curioso tempo em que a revolução não era somente política, histórica, religiosa e social, mas tudo agarrava com os seus tentáculos, desde o desenho das pontes à quantidade do leite nas creches, a impressão que guardo é de que então somente mesmo os cabeçudos de nascença teimavam em não querer ser felizes.
Havia, evidentemente, os grandes sustos, as ameaças de guerra, perigos inesperados. Por uma qualquer birra os russos arreganhavam os dentes, ameaçando lançar a bomba, obrigando os medrosos endinheirados a cavar nos seus jardins abrigos anti-atómicos, atulhados de latas de conversa e garrafas de água. Os árabes, esses nem sequer ameaçavam: se lhes dava na veneta fechavam as torneiras do petróleo e deixavam o holandês (e os mais) sem automóvel, o seu brinquedo preferido.
Férias de hotel ou gozadas em países exóticos - Portugal era exótico - eram entretém para ricos. A grande massa dos remedia­dos descia de saco às costas e tenda até às Ardennes, ou arrisca­va-se a explorar a França, com os ohs! e ahs! admirati­vos de Livingsto­ne ao chegar ao Zambeze.
A culinária era decepcionante, sensaborona, as reacções ao alho de uma violência que tocava o fanatismo fundamentalista. Um queixal podre, o cheiro a suor, a roupa suja, isso eram odores aceitáveis. Mas tinha você comido alho? O seu hálito fedia a alho? No café, no eléctrico, no es­critório, os bem-pensantes levantavam o dedo acusador, para de seguida protegerem demons­trativa­mente o nariz com o lenço, não fosse dar-se o caso de aspirarem a peçonha.
Aliás, todo o alimento que deitasse cheiro era suspeito, um atentado ao ideal das cozinhas e das casas inodoras. Eu morava então num quarto andar e recordo a fúria com que os vizinhos de cima, de baixo e dos lados reagiram ao churrasco que eu tinha feito na varanda. Cheiro de carne assada com alho! Aquele fumo a entrar-lhes portas adentro! Não podia ir eu fazer uma porcaria daquelas para outro lado? Tinha de ser na varanda?
Havia também o sexo. Melhor dizendo: a descoberta do sexo. Do mesmo modo que o fenómeno das férias começou pelos muito ricos e foi lentamente alastrando pelas outras classes sociais, assim a orgia sexual, que até essa data era sobretudo apanágio da aristocracia decadente, e dos meios boémios, foi nos anos setenta descoberta pelos "revolucionários" e apresentada a um povo que não sabia exacta­mente se aquilo era para gozar, se era dever, ou impres­cindível sinal de modernidade.
Pelo sim pelo não deitaram-se os holandeses à orgia, ao sexo livre e às variações eróticas, com um afã maior do que o que costumavam ter na sua clássica conquista de terra ao mar. Em ambas as actividades ganharam fama e o que já tinham feito com a hidráulica repetiram-no em seguida com a pornografia, tornando-a uma indústria florescente e justamente reputada.
Que mais vejo dessa época? Um massiço e irritante proseli­tismo, como se dentro de cada holandês habitasse então um missionário, o qual não somente pregava e apregoava as suas con­vicções religiosas, políticas, sociais, mas à viva força queria que todos escutassem também a sua maneira de salvar a África, as suas ideias sobre a América do Sul, as suas opiniões sobre os aborígenes da Austrália, o processo correcto - o seu - de plantar flores, criar porcos, de organizar e produzir.

domingo, junho 1

Remexendo nas gavetas (26)


Ciganos em Estevais de Mogadouro (2) c. 1938. Clique para aumentar.

sexta-feira, maio 30

Que faz Lisboa?

Este tempo põe-me azedo. Dias atrás fui a Lisboa em visita relâmpago. Falei com este e aquele, vi isto, ouvi aquilo, dei umas voltas…
Da chuva, dos encontros, ou do que vi e ouvi, certo é que retornei mais azedo do que tinha ido e, vingança de escritor, deitei-me a escrever com fel. Infelizmente, como nem a prosa saía direita, nem os raciocínios me satisfaziam, fui ler as Prosas Bárbaras do então jovem Eça de Queiroz. E lá encontrei as palavras para o meu azedume.

“Lisboa que faz?
Antigamente a cidade, urbs, era o lugar que pensava e que falava, que tinha o verbo e a luz. Roma criou a justiça, Atenas idealizou a carne, Jerusalém crucificou a alma... Paris, Londres, New York, Berlim, suam e trabalham, em espírito. Ela (Lisboa) não tem que semear: por isso ressona ao sol.
Às vezes, porém, comete o mal, enterrando as ideias. Onde? Na escuridão, no silêncio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas! ..... Como Roma, ela tem sete colinas; como Atenas, tem um céu tão transparente que poderia viver nele o povo dos deuses; como Tyro, é aventureira do mar; como Jerusalém, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come... Lisboa nem cria, nem inicia; vai.... Em política copia Sancho Pança... No vício é tímida: copia desajeitadamente as Babilónias distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés; apara as unhas ao Diabo; é o banho tépido dos pecados mortais... Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quase se sente o crescer da erva que a há-de cobrir no dia das ruínas.
É tão triste, que à noite parece um arrependimento da vida!... Nas belas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraias, em farrapos, em palhas, por toda a parte, há um vasto sono inerte e vegetal.
Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a família Vício, a gente crepuscular, os herdeiros terríveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio?
Compram, na penumbra doméstica, o amor fuliginoso das cozinheiras; comem melancolicamente mexilhões nas tavernas; os mais pobres encostam-se às esquinas, esfarrapados e doentes, cariátides sonolentas do tédio... Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações de um peito desmaiado. Não há ambições explosivas; não há ruas resplandecentes cheias de tropéis de cavalgadas, de tempestades de ouro, de veludos lascivos: não há amores melodramáticos: não há as luminosas eflorescências das almas namoradas da arte: não há as festas feéricas, e as convulsões dos cérebros industriais...
Atenas produziu a escultura, Roma fez o Direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou?
O fado.
Fatum era um Deus do Olimpo; nestes bairros é uma comédia. Tem uma orquestra de guitarras e uma iluminação de cigarros... Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, ressona, soluça e cachimba... Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos... Os que têm coração não querem a carícia das tuas mãos... Tu tens a beleza, a força, a luz, a graça, a plástica, a água resplandecente, a linha magnífica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce Lisboa coroada de céu, resigna-te - a não ter alma!”

quinta-feira, maio 29

Remexendo nas gavetas (25)

Ciganos em Estevais de Mogadouro (1) c. 1938. Clique para aumentar.

quarta-feira, maio 28

Pedantice

Porque será que a entrevista de Clara Ferreira Alves a António Damásio no Expresso da semana passada me interessou e aborreceu?
Interessou-me pelos raciocínios e opiniões do cientista. Aborreceu-me pelo tom de familiaridade da jornalista – “Ao criares este instituto… Vives num lugar central do mundo… Uma vez falámos dos macacos há uns anos, num jantar em Chicago… Vinha a propósito de um estudo que a Hanna estava a fazer…”.
A você e a mim, que lemos, é-nos implicitamente dito que não pertencemos ali, nem ao círculo. Não somos dos que tratam António Damásio por tu, jantam com ele em Chicago ou, en passant, sabem quem é a Hanna.
A sublinhar essa não-pertença, a legenda da fotografia na página 3 informa-nos que “Damásio foi fotografado no Hotel Ritz”.
É que me contive a tempo, pois quase se me abriu a boca. De inveja? Não. De aborrecimento pela pedantice.

segunda-feira, maio 26

Veados e corças

(Clique para aumentar)
Fosse ele nas autoestradas de oito pistas ou noutras mais modestas, sempre me fez rir o aviso de que, dum momento para o outro, um veado poderia aparecer pela frente.
Em mais de cinco décadas a conduzir por Seca e Meca (aos olivais de Santarém nunca fui), tem-me calhado encontrar rebanhos de ovelhas e cabras, vacas, uma ou outra carroça parada na curva, mas veado…
Desde ontem à tarde deixei de rir. Na estrada que vai de Estevais às Quintas das Quebradas, onde não há avisos nem sinalização, pela primeira vez na vida saltou-me à frente do carro uma corça. Perseguida por uma raposa.
Estivesse eu sozinho, talvez duvidasse da aparição, mas tenho testemunhas: éramos três.

domingo, maio 25

Namoro

Interessante e curiosa, a forma de namoro praticada durante séculos na ilha de Texel e nalgumas localidades do nordeste da Holanda.
O pretendente entrava em casa da rapariga e os pais retiravam-se, deixando-os sozinhos. Se ela se mantinha sentada era sinal de recusa e o rapaz saía, mas se ao contrário se levantava, envolvendo-se no xaile, era porque aceitava o namoro.
Seguia-se então, durante muitas noites, uma visita que duraria horas, as mais das vezes sem qualquer troca de palavras ou de gestos. Em determinado momento a visita passava a ter lugar no quarto da rapariga, a qual se deitava na cama, cobrindo-se com um lençol, tendo à mão umas tenazes e uma panela de cobre.
O rapaz entrava e, vestido, estendia-se na cama, agasalhava-se com um cobertor, o lençol a servir de divisória entre os dois corpos. Na eventualidade do namorado se mostrar brejeiro e a rapariga não gostar, bastava-lhe bater com as tenazes na panela para que a família acudisse.

sábado, maio 24

Ladrar à Lua

Jorge Carvalheira sabe de palavras e sentimentos. Andou por desvairadas partes, mas estabeleceu-se agora com oficina em http://ladraralua.blogspot.com/.
Quem gosta de ler encontrará aí grande satisfação, e os que se querem apurar na arte da escrita terão vantagem em aprender com ele.

quinta-feira, maio 22

Corpo de Deus 2008


Para os que gostariam de estar connosco, mas estão longe. (Clique para aumentar)

quarta-feira, maio 21

Pesadelo

Era a quarta ou quinta vez que acontecia. Em geral a meio da noite, nas ocasiões em que, fisicamente exausto, caía num sono profundo.
De repente sufocava, horrorizado com as formas silenciosas que esvoaçavam à sua volta. Escapar-lhes era impossível. As rampas que tentava subir transformavam-se em muros, o que pareciam portas eram fendas, e cada passo que dava, tudo o que fazia para se defender ou fugir, apenas aumentava a insegurança e o terror.
Ouvia-se a gritar, sentindo que se despenhava, mas o que se seguia não era queda, antes algo como um desfazer, acompanhado de um profundo sentimento de desespero.
Acordava a tremer, o ambiente demorando a tornar-se-lhe familiar, saía da cama inquieto de que, se tinha gritado como supunha, alguém aparecesse a acudir.
Suspendeu a respiração e fechou os olhos, a concentrar-se, supondo ouvir passos que se afastavam, ao mesmo tempo a dizer-se que era improvável, pois naquela parte da casa só dormia ele.
Acendeu um cigarro, abriu a porta da varanda e puxou uma cadeira, sentou-se, a calma a voltar pouco a pouco, o coração menos fremente. Noite fresca, a brisa a sobrepor o cheiro da maresia longínqua ao das flores do jardim.
O porquê continuava uma incógnita, certo era que o pesadelo e a recordação se achavam como que entrançados. Terminado o horror do sonho recomeçava a tortura imparável da memória, as cenas a desenrolar-se em cronologia, vívidas, como se em vez de pertencer a um passado remoto fossem do dia anterior.

Morreu o vizinho...

Morreu o vizinho, moram lá agora os cactos.

terça-feira, maio 20

"A VERDADE!"

A pergunta de certeza é mais antiga, mas foi Pilatos que a tornou clássica.
Para mal dos meus pecados meti-me eu, em tempos, a escrever sobre paços e quintas. Agora são proprietários, descendentes, gente que sabe de genealogia, gente que sabe de História, vizinhos dessas propriedades, simples curiosos, sujeitos que informam “há anos li sobre isso no Notícias” que, sugerem uns, exigem outros com azedume, que eu escreva “a verdade”.
Fora que nem todos eles têm pé seguro na gramática, outros se embrulham nos seus próprios argumentos, e os desatinados atiram com maiúsculas e querem “A VERDADE”, facto é que essa gente me obriga a perder tempo.
Seria um alívio se alguém – não eu, a quem falta a paciência e tem o dia cheio – os pusesse ao corrente do que é a ficção literária, e os informasse também da pergunta que Pilatos fez a Jesus Cristo, e à qual Ele preferiu não responder.

domingo, maio 18

Domingo

Mulher, homem,, adolescente, idoso, jovem na força da vida: este é para você que, mesmo se o Sol hoje brilha, encara sombrio o domingo.
Domingo. O dia parado, o dia da superficialidade, das festas em que só os outros tomam parte. Dos silêncios que nenhuma música, nenhum ruído, nenhuma fala amiga enche. O dia em que se caminha sem rumo, fingindo mal um destino, pressas, encontros que não temos, companhias que inventamos. O dia da solidão que nenhuma missa conforta. O dia das xícaras de café em esplanadas cheias de alegres e ruidosos desconhecidos. O dia em que a volta a casa é uma queda no vazio.
Não se sinta só. Todos por lá passamos. As mais das vezes até conseguimos escapar às sombras, quanto mais não seja senão pela esperança que nos dá a segunda-feira.

sábado, maio 17

Para recordar

Em Estevais de Mogadouro malhava-se assim o "pão" (o cereal), que depois se amontoava na eira. Dez anos separam as fotografias (06.1930 - 06.1940), mas esse era um tempo em que nada mudava. (Clique para aumentar)

sexta-feira, maio 16

Homenagem


Longe de mim o querer brincar com coisas sérias. A minha compreensão é grande, o meu respeito maior ainda, mas por razões várias, nem todas explicáveis, há fenómenos a que sou alérgico. A cultura, por exemplo. Não a Cultura com maiúscula, que eleva os humanos e os povos, mas a cultura abusada, a de pechisbeque, a baratinha, a que dá a ilusão de enriquecimento intelectual, e é negócio da China para habilidosos.
Sobre essa alergia conversava eu com um velho amigo, quase centenário, mas lúcido de inteligência, pragmático e, velha raposa jurídica, muito capaz em rebater argumentos. Desta vez, porém, para comum surpresa, achámo-nos de acordo. Espalham-se pelo país Casas da Cultura, Centros de Memória, teatros ao ar livre, museus… Os empreiteiros sabem de há muito o que é uma pechincha, e os pobres autarcas, assustados com a leviandade do eleitorado, fazem do seu melhor para mostrar que empurram os concelhos na marcha da modernidade.
Uma vez construídos os templos culturais, e atingida a quota limite de rotundas, monumentos e fontes luminosas, chega a ocasião de procurar uma figura nativa que se preste a ser homenageada em festividades de “índole cultural”. Há sempre alguém, mas para evitar raivas e inimizades dá-se preferência aos mortos.
O meu amigo e eu falávamos de um que será homenageado dentro em pouco. Porque ninguém nos ouvia, nem era necessário respeitar conveniências, repetimos o que já noutras ocasiões tínhamos concluído: como figura certamente era respeitável (poucas o não são), mas fraquito na prosa, com umas historietas meladas e personagens toscos. Aquilo a que os ingleses elegantemente chamam “a minor writer”, um escritor menor. Na verdade, porém, comparado a outros do seu tempo, mesmo esse qualificativo nos pareceu exagerado.
Deixando em paz a modesta arte do defunto, o meu amigo contou um saboroso episódio. Em 1961, no centenário do seu nascimento, a Câmara mandou erguer-lhe uma estátua. Porém, como sempre acontece, logo essa iniciativa dividiu os notáveis da terra em campos: os que aprovavam a beleza da obra e os que, misturando razões políticas, pessoais, outras ainda, eram ferozmente contra e a achavam feia. Acenderam-se os ânimos, geraram-se inimizades. Mas não tardou a que acalmassem, levados talvez pela necessidade de enfrentar um adversário comum: “a populaça inculta”.
Essa gente rude, com um inconfundível sentido do humor e ignorante de quem seria o homenageado, atentando apenas na figura e na cor do bronze, chamava-lhe simplesmente “O Preto”.

quinta-feira, maio 15

Ficção

Logo de miúdo me descobri uma excepcional capacidade para fantasiar. Chamavam-me mentiroso e era-o, na opinião dos que não sabiam melhor, nem desejavam outras vivências, conhecer outros mundos.
Na realidade não mentia, inventava ambientes coloridos, paisagens diferentes, liberdade no ar, as praias que nunca veria. Mais tarde, com a escrita, descobri que a mentira se chamava ficção.
Curiosamente, quanto mais ficciono, mais frequente se torna a pergunta: “Oiça lá! Aquilo aconteceu mesmo, não aconteceu?”
Embora a contragosto, mas para satisfazer o desejo implícito na curiosidade, digo-lhes que sim, aconteceu. E a ficção torna-se verdade.

quarta-feira, maio 14

Encontro em Amsterdam

Da primeira vez só me apercebi que o homem sorria. Que me sorria. Da segunda, encontrando-o noutro lugar, sorriu de novo, fez um pequeno gesto como se nos conhecêssemos e eu, reconhecendo-o, sorri-lhe também.
De longe a longe cruzávamo-nos na rua, ele sorria, fazia aquele aceno amigável e passava. Um sujeito gorducho, atarracado, de idade indefinida, vestido com um sobretudo verde, dando nas vistas devido ao exíguo chapéu que parecia não ter outro propósito senão estar prestes a cair-lhe da cabeça.
Um dia veio do outro passeio a correr, direito a mim, a acenar-me que esperasse. Acelerei o passo, receoso de que tivesse começado a funcionar de novo o magnetismo com que, infalivelmente e contra vontade, atraio bêbedos e fracos de espírito.
Ele deteve-se para deixar passar um eléctrico e pôs-se ao meu lado, acertando o passo. A sorrir. E eu sorri-lhe. Caminhámos assim uns instantes, até que de repente desapareceu por entre a multidão que enchia a rua.
- É tarado - disse comigo.
Devia ser, porque uns dias mais tarde, ao tirar o porta-moedas do bolso para pagar o jornal, senti que alguém me tocava o braço. Era ele, mas sem sorriso, só com aquele modo que tinha de levantar o queixo e franzir os lábios, talvez um « Boa-tarde » sem palavras.
Aparecia, desaparecia. Aconteceu-me encontrá-lo acompanhado de uma mulher alta e gorda, em cujo braço ela parecia pendurar-se. Nessas ocasiões olhava-me de lado, como que receoso de que eu lhe falasse.
Um sábado, no largo fronteiro à estação, atravessou-se diante de mim, fazendo um grande esforço para dizer quelquer coisa. Parei e esperei, paciente, sem receio, certo de que não se tratava dum furioso.
- Chama-se Samuel?
- Não.
- Palavra que não?
- Palavra.
- Traidor! - gritou ele, antes de deitar a correr.
Houve gente que parou, suspeitando zaragata. Outros olharam com desprezo, como quem testemunha uma inconveniência.
Anteontem encontrei-o de novo. Sorridente, acertou o passo pelo meu, outra vez com aquele seu modo silencioso de levantar o queixo e franzir os lábios.

segunda-feira, maio 12

Giestas em flor

Esta tarde, entre Mós e Moncorvo (clique para aumentar)

quinta-feira, maio 8

"A Última Ceia"


Mal vai àquele a quem o mundo não surpreende. A esse respeito devo dizer que tenho sido um bafejado da sorte, pois raro é o dia em que não me maravilho com o inesperado.
Assim, ao abrir dias atrás a revista do jornal holandês de Volkskrant, e iludido pela fotografia da capa, mal cuidava eu da surpresa que me esperava.
Para quem não estiver ao corrente saiba-se que vivo entre os holandeses há mais de meio século. Como todos os povos, gozam eles de várias famas, boas e más, umas e outras nem sempre merecidas. Eu próprio confesso não ser isento de preconceitos, sendo um dos meus favoritos o de que, de modo muito geral, o holandês é o oposto do gourmet.
Nos anos mais recentes nota-se certa evolução nos hábitos. O país inteiro envaidece-se com o facto de, desde há pouco, nele haver dois restaurantes a que o Michelin atribuiu três estrelas, o que evidentemente nada diz sobre a monotonia culinária dos Países Baixos.
Pondo de lado as considerações, entremos no que interessa. Thérèse Boer (36), fotografada na capa, e o marido, são proprietários de um dos dois restaurantes citados. Ele chefe famoso, ela como anfitriã famosa também. Levam a vida que se espera dos ricos e famosos, cada um com o seu Porsche e a sua Harley-Davidson, viagens assim, festas assado…
Li a entrevista por alto, achei Thérèse Boer simpática. Dispensaria os detalhes sobre a sua vida sexual, mas ri com a cena (muito holandesa) do casal que, pelo menos uma vez, queria jantar num restaurante de três estrelas. Quando chegou a conta abriram um saco onde traziam o mealheiro e, calmamente, passaram meia hora a contar moedas. Thérèse, good sport, ofereceu-lhes o champanhe.
Mas logo depois abriu-se-me a boca. Nos últimos meses Thérèse tem notado, e o marido confirma, um bizarro fenómeno: o número crescente de pessoas que, sofrendo de doenças terminais, têm como último desejo um jantar no restaurante De Librije, em Zwolle.
Vem a família, vem o moribundo, comem, degustam, e depois choram eles, chora a Thérèse… “São momentos de muita emoção!” acrescenta ela na entrevista.
Não duvido. Para mim foi grande surpresa, esta versão moderna, mas pelos jeitos já corrente, de “A Última Ceia” .
-----------------------------------

PS. Apropriadamente, De Librije é um arcaísmo com o significado de velha igreja.

quarta-feira, maio 7

Começo do dia

Levantei-me às seis, como de costume. Fiz a higiene que o corpo pede e fui-me a dar de comer aos gatos e aos cães. O sol nasceu. Tomei um pequeno almoço que é nada coisa nenhuma: copo de água, outro de sumo de laranja, xícara de café, tosta com uma fatia de queijo, tosta barrada de mel.
Liguei o computador. Mensagens? Zero. Spam? Duzentas e doze. Limpei. Uma oferta de “Webcam Girls for only $1 a day” que tinha escapado ao filtro, foi também para o lixo.
Alípio, o vizinho, setenta e sete anos como eu, atrela a carroça velha a uma burra mais velha ainda. Dou-lhe os bons-dias, falamos do tempo, olhamos o céu, despedimo-nos com um aceno.
Ninguém me espera. Não preciso de matar o bey de Tunis (quem ignora o que isso significa, que aprenda). Vai haver visita e almoço em família, o que preencherá duas ou três horas, mas sinceramente me pergunto o que vou fazer nas restantes. Porque tudo me desanima, e ainda nem são as nove da manhã.

terça-feira, maio 6

Verdades

Uma vez não são vezes, por isso abro a excepção, mesmo sendo o caso exemplar do que os ingleses referem como much ado about nothing, que é como quem diz: muito vento e pouco movimento.
De facto este blog teve, mas já não tem, caixa de comentários. A experiência mostrou-me as desvantagens da dita caixa, sobretudo a de dar livre entrada a tolos. Gente bem intencionada faz como o senhor Manuel de Queiroz: manda um mail e é logo atendido pela volta da internet.
Tomou ele sombra com um texto –“O Paço da Glória em Arcos de Valdevez”- que aqui publiquei em 28 de Fevereiro passado, texto esse “cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor”. Curiosamente apenas contesta o que se refere ao seu parente. É essa a sua “verdade”. A minha “verdade”é a que ouvi a lord William Pitt. A verdadeira verdade encontra-se provavelmente numa ranhura entre as duas anteriores.
Como acima digo, uma vez não são vezes. Pelo que não haverá réplica, nem discussão.
===================
Onderwerp:
Paço da Glória
Van:
"Manuel de Queiroz"
Datum:
Di, 6 mei, 2008 13:27
Aan:
jrentes@xs4all.nl

CC:
"Luiz Azeredo Vaz Pinto" (meer)
Opties:
Bekijk volledige berichtinformatie Bekijk printervriendelijke versie Download dit als een bestand Voeg toe aan adresboek HTML weergave
Toevoegen aan Greenlist Dit is Spam


Caro Senhor:

O actual proprietário do Paço da Glória, Sr. Robert Illing, fez-me chegar um post,publicado no seu blogue em Fevereiro deste ano (que infelizmente ao contrário do quecostuma acontecer, não permite fazer comentários aos textos), sobre o dito Paço.
Porque esse texto está cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor, decidi escrever-lhe para o esclarecer e aos seus leitores, em particular em relação à figura do meu tio-avô Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor,Conde de Santa Eulália, que foi um dos proprietários da casa.
Segundo informação recolhida por Robert Illing na Conservatória do Registo Predial dos Arcos de Valdevez, o primeiro registo que há da Quinta da Glória é de 1730,sendo seu proprietário Francisco de Araújo e Amorim, sem filhos. Desde então até 1909 esteve esta entregue a caseiros, altura em que, sendo seu proprietário Francisco Pereira de Castro e estando hipotecada, a hipoteca foi comprada por Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor, consul de Portugal em Chicago, Conde de Santa Eulália.
Sobre a extraordinária figura deste artista e homem do mundo, acabo de publicar o romance "Os Passos da Glória", editado pela Bertrand. Para o escrever levei a cabo uma investigação aprofundada sobre a sua vida e o seu percurso artístico que permitiu esclarecer muitos dos equívocos e controvérsias que rodeavam o seu nome.
Por isso posso afirmar com segurança que tudo o que sobre ele diz no seu texto é falso, fantasioso e sem qualquer correspondência nos factos. Senão, vejamos:
Ao contrário do que diz, ele foi escultor e não pintor, actividade que manteve toda a sua vida com paixão, tendo estudado em Paris nas melhores escolas a sua arte durante quase dez anos . Dessa actividade resultou uma obra interessantíssima,embora hoje quase desconhecida, tanto em Paris como em Portugal e nos Estados Unidos da América, a qual vai de resto vai ser alvo de uma exposição no início do próximo ano em Viana do Castelo. Como exemplos da arte de Queiroz Ribeiro em Portugal,pode ser vista a belíssima estátua do Sagrado Coração de Jesus junto ao Templo de Santa
Luzia, em Viana do Castelo, e a estátua de Vasco da Gama nos jardins do Mosteiro de Refóios, embora esta esteja actualmente em muito mau estado de conservação.
Foi em 1902 e não em 1907 como refere, que Queiroz Ribeiro partiu para os EUA, para trabalhar na exposição de St. Louis Missouri, realizada em 1904. Em 1905 foi nomeado consul de Portugal em Chicago e em 1906 foi-lhe atribuído pelo Rei D. Carlos o título de Conde de Santa Eulália. O seu casamento com Sarah Elizabeth Stetson, viúva do multimilionário e filantropo John B. Stetson, dono da maior fábrica de chapéus do
mundo, a Stetson Hats& Company, teve lugar em 1908. A compra da Quinta da Glória,que então passou a designar-se como Paço da Glória, ocorreu em 1909, um ano depois do casamento, tendo a casa sido toda restaurada por Aleixo para aí receber condignamente a sua mulher sempre que vinha a Portugal, o que, ao contrário do que diz, aconteceu por diversas vezes, quer antes quer depois da morte do marido,ocorrida em 1917.
Elizabeth tinha dois filhos do seu primeiro casamento, os quais, após a morte dela,em 1929, herdaram as suas propriedades em Portugal, John Stetson o Mosteiro de Refóios e G. Henry o Paço da Glória. Este último, no entanto, desinteressou-se por completo da propriedade, deixando de pagar os impostos devidos, pelo que esta acabou por ir a hasta pública, tendo sido arrematada em 1937 por William Pitt.
Esta é, resumidamente, a verdade dos factos sobre o Paço da Glória e sobre Aleixo de Queiroz Ribeiro. Agradecia pois que incluisse esta nota no Blogue como rectificação ao seu texto, esclarecendo assim devidamente os leitores.

Com os melhores cumprimentos

Manuel de Queiroz

Fechos

Passo em frente desta porta desde que comecei a caminhar pelo meu pé, mas só há dias me dei conta que ela testemunha de um tempo em que nem tudo precisava fechadura.

domingo, maio 4

Os "Incontornáveis"

Em muitos aspectos fui precoce. Aos quatro anos apanharam-me deitado com a Marta, também de quatro. Para que aprendêssemos, humilharam-nos com palmadas no rabo, mas ambos descobrimos que era melhor repetir. E continuámos a fazer “porcarias”.
Aos cinco comecei a ler o jornal e teria sete ou oito quando resolvi fazer um: quatro páginas de rabiscos. Montei quiosque nas escadas de casa, a Marta e os outros esperavam vez, compravam-no, pagavam com uma pedrinha, "liam" e devolviam-mo, para que o seguinte também conhecesse o gosto da compra e da "leitura".

Fui precoce, mas devo ter ficado criança (atrasado, se quiserem) e este blog é como que a continuação do jornalzinho da meninice. Digo isto a sério, porque me dou conta de que há regras e civilidades que desconheço, e nunca aprenderei.
Nos blogs de nome, os seus autores e colaboradores atentam nos aniversários, nas efemérides, registam que o blog X alcançou o milhão de visitas, informam que o blog Y se tornou “incontornável”. Dizem-nos, com urgência, que é imprescindível tomar nota do que escreveram o Jorge, a Teresa, o Francisco, a Susana… Que a Margarida cada dia se torna mais “acutilante”. Põem-nos ao corrente de que houve jantares, jantares onde o Francisco, a Manuela, o Diogo, o Eduardo foram “absolutamente brilhantes”.
Deveria mortificar-me a ignorância das regras, o sentir que me são alheios os mundos onde as ideias esfusiam e as personalidades se tornam “incontornáveis”. Deveria mortificar-me, mas não sofro. Vale-me o ter ficado criança.

sábado, maio 3

Olá!

As formas de tratamento são, julgo eu, um interessante indicativo do desarrazoado de uma sociedade. Na nossa misturam-se o V. Exa, que se lê em facturas e na correspondência oficial, com o você com que estranhos, insensíveis às diferenças de anos, ou ao grau de familiaridade, julgam fazer moderno.
Há também os curiosos “Olá” e “Viva”, que encabeçam alguns mails de gente que nunca vimos mais gorda nem mais magra, e as bizantinices tolas do “senhor doutor”, da “senhora dona fulana” e outras assim.
Creio que foi no final dos anos 70 que Lindley Cintra escreveu um livrinho sobre as nossas formas de tratamento. Seria uma boa ideia se alguém se debruçasse de novo sobre o assunto. E boa ideia também se nos interrogássemos sobre o que se esconde atrás da bizarria das nossas maneiras.

quinta-feira, maio 1

Feliz aquele...

Feliz aquele a quem mostram um caminho e obediente o segue.
Feliz também o convicto de que foi ungido pelas forças do Alto, e que o seu destino é o de guia. Bem-aventurado o que não duvida, nem se interroga.
Ditoso o que, da nascença à sepultura, só pisa terra estranha pelo gosto de ver outros horizontes, e se apressa a retornar à sua antes que a nostalgia o mortifique.
Duas vezes malfadado o que deitou raiz em chão alheio, mas não quer, nem pode, desprender-se das que o prendem àquele onde nasceu.

quarta-feira, abril 30

A fonte

Era a fonte que, desde séculos remotos até há uns cinquenta anos, dava água para as quase trezentas almas que então contava Estevais de Mogadouro.
Mau grado as lindas frases de património, protecção, cultura e semelhantes, é facto que o dinheiro só se pode gastar uma vez, e um Mercedes, um BMW, sempre brilham doutra forma.
A fonte, velhinha, pobrezinha, dentro em breve ruirá. Fica o retrato. Guardo os cântaros que os meus antepassados lá iam encher.

terça-feira, abril 29

Mil palavras




São frases que se assemelham aos cabides: pendura-se nelas o que se quer, e quem as usa passa por refinado. "Uma imagem vale mil palavras" é dessas.
Quantas palavras valerá um arado? E uma vassoura de giesta?

segunda-feira, abril 28

Viagra, Cialis, Levitra...

Uns falam de bombagem, outros que é a hidráulica, os tímidos chamam-lhe DE (Disfunção Eréctil), quem gosta de franqueza refere-se-lhe simplesmente como impotência.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…

Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.

domingo, abril 27

Almoço dominical

Já passaram os rissóis de camarão, a alheira, a chouriça grelhada, a salada de polvo, a canja de galinha.
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:

Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.

Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!

sábado, abril 26

Doutorices

Dia de feira. A farmácia é no centro da vila e no espaço acanhado há gente demais. Anciãos, a maioria. Dão a ideia de estarem ali com as esperanças, os medos e a subserviência de quem entrou no Santo Sepulcro. Acotovelam. Gesticulam.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.

Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.

quinta-feira, abril 24

Tant pis!

Se o seu Francês não chega, tant pis, mas o caso é dos que vale a pena contar, porque fala de uma elegância e de um esprit que creio já não há.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.

quarta-feira, abril 23

Boson e batatas

O céu finalmente desanuviou. Sento-me ao sol, a ler um artigo que me dá a medida do muito que ignoro e do muito que gostaria de aprender. Mas para mim a fase da escola já passou, o que me resta é a admiração pelo saber alheio.
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….

Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .

terça-feira, abril 22

Fujo? Não fujo?

Sem as facilidades da internet seria difícil saber de mim, mas ela procurou, encontrou-me e agora…

A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.

Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.

Fujo? Não fujo?

domingo, abril 20

O "sabonete" da Vodafone



Da publicidade conhecêmo-la de sobejo, a cena de raparigas dinâmicas e jovens despachados que, em esplanadas de luxo, xícara de café à mão, o portátil em frente, comunicam wireless e sorridentes com o resto do mundo.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.

sábado, abril 19

Desabafo


Estou a falar consigo. Sim, consigo. Não se assuste, de juízo vou bem. Só me pergunto em que estado de espírito se encontrava para vir até aqui. Curiosidade minha.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.

O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.

sexta-feira, abril 18

Batatas cozidas

Em 1940, quando os tempos eram simples, o meu amigo, então jovem delegado no tribunal de Mogadouro, deslocou-se um dia em serviço ao Vimioso, acompanhado de um colega.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.

quinta-feira, abril 17

Franqueza

A nossa amizade vem de longe e vou visitá-lo porque, acamado há meses, não tardará a finar-se. Entro no monólogo hipócrita que a situação pede. Que está com boa cara. Há-de passar. Cada dia aparecem medicamentos melhores, e os médicos, por muito mal que se diga deles, não há dúvida que sabem mais do ofício do que os de antigamente.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.

domingo, abril 13

Natureza





Aqui na aldeia são entre seis e oito os cães, de dez a treze os gatos a quem, uns dentro, outros em volta da casa, damos cama e mesa farta duas vezes ao dia. Roupa lavada têm-na eles da natureza. Da natureza têm também o forte instinto da caça, que os ajuda a sobreviver nos meses da nossa ausência.
A cadela apareceu por baixo da varanda a arrastar bicho grande. Cabeça já não tinha, mas a ajuizar pelo rabo e o pêlo, filhote de raposa. Comeu-o sozinha, quase inteiro. Os outros deitaram-se às sobras, e em menos de um quarto de hora desapareceu tudo.

sábado, abril 12

Viagem à Guiné

Pergunta ele:
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.

Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.

domingo, abril 6

Beijos de despedida em Beijós

No blogue de um semi-ateu (na minha idade tomam-se destas cautelas) um texto como o que segue pede explicação.
O padre José Júlio tem muitos e bons amigos e um deles, meu amigo também, quer que se conheçam urbi et orbi as excelentes qualidades deste pastor das almas.

Mensagem de despedida de Pe. José Júlio Almeida das comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós (*)

1 de Abril de 2008

Um certo dia Ele desafiou-me a O amar, depois a O reconhecer e, por fim, a O servir ... Ainda que um pouco jovem, inexperiente e nervosissimo foi assim que respondi ao desafio e cheguei às comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós. Deixei-me seduzir por este amor de Deus, que toca e inquieta os corações, que vai ao mais recôndito de nós mesmos e nos chama a servir. O serviço é uma resposta de amor ao Amor que nos sai ao encontro. Por isso mesmo, a verdadeira medida do ser humano não se mede pelas suas capacidades intelectuais, mas sim pela sua disponibilidade para escutar o chamamento e de lhe responder. Fui ordenado Sacerdote, no dia 04 de Setembro de 2005, pelo D. António Marto, em Ribolhos. Esta ordenação não foi feita para mim, mas para servir: servir a Igreja (universal); servir a Igreja de Viseu; e servir-vos a vós, comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós.
"Fiz-me tudo para todos", foi 0 lema que escolhi para a minha ordenação Sacerdotal. Este lema não foi escolhido só para aquele momento da ordenação, em que coloco todo o meu sentir e viver nas mãos de Deus, mas é o lema que me acompanhará para toda a minha vida. Cheguei sem saber o que iria encontrar, sem saber o que poderia acontecer, trazia na bagagem a expectativa, o receio, o entusiasmo, a alegria e a aventura de servir Cristo. Não conhecia as terras e muito menos as pessoas, sentia-me um desconhecido na imensidão de gente que me acolheu na tarde do dia 02 de Outubro de 2005. Depressa conheci os lugares, as casas e as pessoas, rapidamente me trataram como amigo. Aceitaram a minha maneira de ser, de estar, de sorrir, de brincar, de levar Cristo ... Agora a bagagem tornou-se bem pesada, recebi mais do que dei e levo um coração cheio de amigos que nem a distância fará esquecer. Resta-me pedir para que acolham 0 Pe. Valmor tão bem como me acolheram a mim, que o tornem da vossa família, para que ele sinta a mesma alegria e o mesmo entusiasmo que senti e vivi neste tempo que estive convosco. Um profundo abraço amigo às comunidades de Cabanas e de Beijós.

Pe. José Júlio

(*) in Farol da Nossa Terra

quarta-feira, abril 2

Patrioteiros

Se me não engano a palavra e o conceito foram criados por Eça na famosa carta a Pinheiro Chagas. Patrioteiros abundam, e tenho conhecido muitos, mas de todos esses o mais desvairado era o cônsul de Portugal em Amsterdam, no início dos anos 60.
A ele ouvi, mais de uma vez, esta inefável afirmação de amor à pátria lusitana:
"Quando os holandeses começam a criticar-nos.... Que somos pobres, que não temos isto, não temos aquilo... Pouca indústria... Eu atiro-lhes logo que em Portugal até os urinóis são de mármore e bebe-se lá a melhor xícara de café do mundo!"

terça-feira, abril 1

Zangas

“A tua preocupação é inútil. Estou habituado a cair e, de uma maneira ou doutra, sempre me levanto. É certo que me magoo na queda, mas as manchas da alma, como as do corpo, cura-as o tempo, esse eterno benfeitor. E não esqueças o que ontem te disse: segredo de dois não é segredo.”

Olhou o écrã, releu o texto do mail que ia mandar. Achou-se tolo. Apagou-o.
Tinha-se inventado uma amante virtual, mas mesmo com essa, em vez de paixão eram só zangas.

segunda-feira, março 31

Para pensar

"Accept the cookies when they are offered, not when you are hungry"

Tradução livre: "Aceita os doces quando tos oferecerem, não quando te sentires esfomeado."

O cliché e a descoberta

O facto primeiro, talvez o mais marcante, é o de que, ao criar o seu mundo, o holandês logo deu mostras de que a separação original das águas e da terra, descrita no Génesis, lhe parecia sus­ceptível de melhoria.
Que essa inventividade lhe tenha cabido por graça divina, ou ele a tenha simplesmente desenvolvido por iniciativa própria, é questão menos interes­sante que a de consider­ar o emprego que, através dos tempos, ele fez de um tão inato pragmatis­mo.
Se nos anais escasseiam as fontes que nos informem sobre os seus tempos primevos, a evolução do holandês acha-se excelente­mente documenta­da desde que deu início à batalha contra os elementos, tornando-se, como se sabe, mestre na prática de tirar benefício do formidável poder dos seus inimigos naturais.
Porém, como se essa luta de certo modo lhe tivesse exaurido a capacidade de combater, a partir do momento em que reteve a água com os diques, e conseguiu domar o vento com as pás dos moinhos, transformou-se ele num ser cuja preocu­pação dominante parece residir num permanente anseio de paz, e a incondicional mantença de harmonias.
Poucos povos se poderão orgulhar, como este, de uma história em que sejam tão poucos os ataques: uma ou duas as invasões; que no seu chão não consigam pegar as raízes daquele tipo de nacionalismo que descamba em barbárie; que talvez só no Oriente se pratique com refinamento igual a arte do compromisso e do consenso.
Contudo, no desleixado mundo em que vivemos, as virtudes e a realidade podem menos que o cliché. E o cliché retrata o holandês como um indivíduo por natureza reservado e sombrio, incapaz de paixão, incómodo no trato. O estereótipo quer também que a sua Holanda seja apenas o país onde ele, calçado de tamancos, numa mão o copo de cerveja e na outra o arenque, caminha lentamen­te por entre campos coloridos de tulipas.
Felizmente que contra o lugar-comum há antídotos, e o mais eficaz é por certo o de aprender a ver com o coração. O holandês e a Holanda ganham então dimensões que não suspei­ta quem, apressadamente, superficialmente, apenas sabe ver com os olhos.
E aqui falo por experiência. Uma época houve em que eu próprio tive do país e dos seus habitantes essa estereotipada imagem de buchos-de-cerveja, cabeças-de-queijo, vacas leiteiras atropelan­do-se numa paisagem feita só de horizonte, ponteada aqui e além por um vulto de moinho.
Mas os deuses foram benévolos comigo e deram-me tempo. Cinquenta anos. Tempo bastante para que aprendesse a ver e me curasse da insensibilidade. Para deixar que o que aos meus olhos parecera informe ganhasse contorno, o aparente­mente vulgar desvendasse um refinamento. Para que eu fosse capaz de discernir a sabedoria por detrás do tédio, e de descobrir que as emoções profundas não necessitam, forçosamente, de grandes gestos ou palavras ribombantes.
Claro que Rembrandt, o genial Van Gogh, sempre tinham sido para mim mais que simples nomes ou referências. Esses e outros, porém, colocava-os eu fora do contexto a que pertenciam: eram mundiais, demasiado grandes para a Holanda da deformada imagem de leite, queijo e chateza que eu então me fazia dela. Mas também aí a força da realidade se foi sobrepondo à ignorância, ou melhor: à minha descuida­da maneira de ver. Até ao dia em que a visão, ajustando-se, conseguiu finalmente tornar nítido o que até então lhe aparecera difuso e de pouco interesse.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem foi como nos milagres ou nas grandes revelações: em parte nenhuma soaram trombetas, não houve relâmpagos a iluminar o céu, não apareceram vultos a fazer anúncios. Mas com uma satisfação igual à que devem ter ressentido os navegadores do passado, gradualmente dei-me conta de que conseguira “descobrir” outra Holanda, a verdadeira. Que entre mim e ela se estreitavam os laços que tanto tempo tinham permaneci­do frouxos. Nesse momento, fosse eu poeta, tê-la-ia cantado numa ode.

quinta-feira, março 27

Fado, Fátima, Futebol e Figo

Uma recordação de Fevereiro de 2004

Grande descanso dá a ignorância. Vivia eu pouco mais sabendo de Luís Figo que o que apanhava na leitura breve e desinteressada dos cabeçalhos dos jornais. Que era talentoso na sua arte. Que ganhava com os pés as quantias mirabolantes que nem se atreve a sonhar quem, por instrumento, só tem a cabeça. Que quase causara uma revolta quando, com mais proveito do que Judas o fez a Cristo, atraiçoara Barcelona, mudando-se para Madrid.
Recordo também ter visto uma fotografia que o mostrava cercado de banqueiros sorridentes. Numa outra sorria ele a uma beldade que, informava a legenda, era sueca, loira e sua companheira.
Salvo uma outra aparição em cartazes publicitários, ou em fugidias imagens da tv, breve e distante como tinha entrado na minha vida, assim Luís Figo saiu dela. Pelo menos era o que eu julgava, quando de súbito, uma manhã de Dezembro passado, a sua presença se me impôs. De forma indirecta, é facto, mas nem por isso menos contundente.
Quem até há um ano ou dois atrás frequentou o aeroporto do Porto - aquele que, um pouco antes da aterragem dos aviões, as hospedeiras anunciam com o seu oficial e longo nome de “aeroporto Francisco Sá Carneiro” - recordará um edifício de dimensões modestas e ambiente provinciano, com um parque de estacionamento fronteiro às “Partidas e Chegadas” onde pouco mais caberia que uma centena de carros.
Com os preparativos para o Euro 2004 tudo isso mudou. O edifício, renovado, transformado, largamente aumentado, não ficaria mal numa metrópole, e no seu subsolo foi construída uma garagem para talvez mil carros, tão gigantesca que se perde a gente nela.
Numa manhã de Dezembro passado, pois, cheguei eu em grande pressa ao aeroporto do Porto, porque os meus netos corriam o risco de perder o avião que os levaria para Amsterdam.
Parei, expliquei a um dos polícias que rondavam por ali a minha aflição, esperançado, quase certo, de que ele compreenderia a urgência e a necessidade de, apenas por minutos, estacionar o carro junto da entrada, o tempo de levar as crianças e as malas até ao balcão.
Esperança vã. Cheio de autoridade, não me deu resposta nem sequer me encarou, e ainda eu não tinha acabado a explicação já ele fazia girar o cassetete para que me despachasse. Sem outro remédio despachei-me, dei a volta e, mudo de assombro, penetrei pela primeira vez na garagem subterrânea que desconhecia.
Com o choque quase esqueci a urgência que tinha e, olhando em redor, a primeira comparação que me ocorreu foi a de uma catedral. Mas uma catedral vista por olhos de criança. Dimensões esmagadoras.
O tempo, infelizmente, urgia, e eu não estava ali para me embasbacar, sim para o mais depressa possível estacionar o carro. Dei voltas sem conta, estonteado a ponto de em certos momentos não saber onde me encontrava. Vaga não havia nenhuma, das poucas vezes que, perto ou longe, apercebia uma, já alguém mais feliz do que eu se apressava a ocupá-la.
Desesperado como me sentia, julguei que fosse alucinação, mas era realidade: defronte de mim, num chão de ladrilhos luxuosos, junto de um muro onde se abria a porta azul de um ascensor, havia cinco ou seis lugares vagos.
Parei o carro, suspirei de alívio, saí e dei de caras com um polícia que parecia ter-se materializado por milagre.
- É proibido estacionar aqui.
- Mas porquê? Não vejo sinal nenhum!
- E estes cordões?
Na minha agitação eu não tinha reparado nos cordões de veludo vermelho que, sustentados por varas de metal cromado, faziam uma espécie de cerca.
- Dentro deste cordões - explicou ele - é reservado para os VIPs.
E depois, severo, para que eu me desse conta do sacrilégio: - Na semana passada esteve cá o Figo, e estacionou exactamente aqui. Até ouvi dizer que é o lugar dele.

Os netos apanharam o avião, que felizmente se atrasara , e eu, livre de encargos e de pressas, comprei um jornal, fui tomar café.
Grande descanso dá a ignorância, afirmei antes. Mas assim não é. Talvez por ser sábado o jornal trazia um grosso suplemento desportivo, dezenas de páginas a detalhar o que, mau grado a sua importância, escapara à minha atenção. Fui lendo, com o sentimento de estranheza que talvez ressintam os animais quando acordam da hibernação, um sentimento de estar no mundo sem me aperceber do que acontecia em redor.
O aumento do aeroporto, aquelas obras que me tinham parecido grandiosas, tornavam-se uma ninharia se comparadas com o que acontecia no resto do país. Nada menos de dez estádios, dois dos maiores em Lisboa, achavam-se em fase de acabamento, e o jornal, trombeteando, falava de construções gigantescas, ciclópicas. Nenhum país europeu se podia orgulhar de semelhantes obras-primas da arquitectura, de estádios com tanto luxo, ou tecnicamente mais avançados.
A respeito do novo estádio de Braga, projectado por um arquitecto de renome, era um desvario de qualificações: aquilo não era estádio, era uma jóia, uma preciosidade, uma maravilha que, ao ver-se, fazia perder o fôlego. Elegância igual à das suas linhas só talvez existisse nos templos da antiga Grécia. E o jornalista tornava-se ligeiramente libidinoso, ao afirmar que, para encontrar proporções de tão sublime perfeição, seria necessário recorrer ao feminino, sugerindo que, para resultado que se lhe assemelhasse, se teriam de fundir num só os corpos de Nancy Crawford, Kate Moss e Naomi Campbell.

De volta à minha aldeia transmontana contei numa roda de amigos o que me tinha acontecido, o que tinha lido, mas eles, em vez do ar de comiseração que eu esperava, riram-se com azedume da minha falta de interesse e de conhecimentos.
Que não morresse de amores pelo desporto, ainda era de aceitar, mas estava eu pelo menos ao corrente que Portugal tinha recebido o privilégio de organizar no Verão o Euro 2004?
Acenei que sim, julgando apaziguá-los, mas de pouco valeu. Uns mal humorados, outros marcando as palavras com um exagerado gesticular, submeteram a um furioso libelo o meu suposto desamor pela Pátria.
Tinha eu ideia de quantos dezenas de milhões, centenas de milhões de euros, o acontecimento faria entrar nos cofres do Estado? Era eu capaz de calcular o que tão gigantescas obras significavam em postos de trabalho, salários, melhoramento das infraestruturas? Os benefícios que daí viriam, e permaneceriam, para enriquecimento do país? Seria a minha candura tão desmesurada que me impedia de ver o enorme impulso que as centenas de milhar de visitantes, talvez milhões, iriam dar à indústria, ao comércio, à hotelaria, aos restaurantes e aos transportes?
De certeza tinha as suas vantagens o ser-se escritor, continuaram os mais embirrentos. Ao escritor era fácil desdenhar do mundo, e ironizar lá do alto da torre de marfim, mas a dureza da vida, o ter de lutar pelo pão, não se compadece com finezas e sensibilidades.
Que queria eu? Zonas verdes em vez de estádios? Criava isso riqueza? Dava trabalho? Era sinal de progresso? Sabia eu que, por exemplo na Inglaterra, um clube como o Manchester United, tinha um valor muito superior ao de grandes companhias mundiais? Não seria bom se um dos clubes portugueses atingisse iguais pináculos?
Lembro-me vagamente que ainda se falou de que, com bons estádios, forçosamente se geravam condições favoráveis ao aparecimento de novos Figos. Que, de tão fora do comum, seria impossível cifrar o valor da publicidade que, através do mundo, o Euro 2004 ia dar a Portugal.
O mais entusiasta dos meus amigos concluiu dizendo que, não somente semelhante empresa merecia aplauso, mas que os investimentos agora feitos, mesmo sendo de imediato onerosos para as débeis finanças do país, certamente iam render, sabia-se lá?... Duzentos? Quinhentos? Mil porcento?

Despedimo-nos com gracejos, minimizando as nossas diferenças, mas, de cansaço ou exaspero, essa noite foi para mim de insónia.
Num momento a reprovar a minha falta de consideração pelas simpatias e os entusiasmos dos meus amigos, no momento seguinte a tratá-los de alarves, por darem tão desproporcionada importância a um desporto que, mau grado as centenas de milhões dos seus adeptos e os colossais rendimentos, não se me afigura, embora geralmente se afirme o contrário, como sendo uma actividade tendente a elevar a natureza humana, ou a criar harmonia entre as nações.
No dia seguinte, em busca de contra-argumentos de mais peso que o meu desinteresse, liguei o computador, procurei “Luís Figo” na internet, e logo Google me apresentou nada menos de setenta e cinco páginas, cada página com dez hits, cada um destes subdividindo-se num sem número de outras páginas, links, sites, albuns fotográficos, vídeos, cartazes, impressões, artigos, biografias... Um emaranhado que demoraria meses a destrinçar, além de que, fora as línguas mais correntes, se teriam de conhecer outras exóticas, como o coreano, o usbeque, o baasa indonesia, o urdu, e sabe Deus quantas mais.
De pouca dúvida era o facto de que, provavelmente todas esses sites - os que li de certeza ecoavam aqueles de que só pude apreciar as ilustrações - eram um rosário de ditirambos e superlativos, descreviam com minúcia as excepcionais qualidade de Luís Figo como desportista, como futebolista, avançado, português, homem, filho, camarada, filantropo, protector da infância...

Contra-argumentos para rebater o entusiasmo dos amigos não encontrei, e animosidade contra o futebol em geral, ou as suas estrelas em particular, também não sinto. E nessa noite, num momento de mais serenidade, metendo a mão na consciência, tive de concordar que a minha indiferença em relação ao desporto-rei estava longe de ser tão fundamental como pretendia.
Pois não tinha eu, na infância, idolatrado Artur de Sousa, o “Pinga” do F.C. do Porto que, ressalvadas as diferenças dos ganhos, era o Figo desse tempo remoto?
Uma recordação foi trazendo outra, e lá me revi uma tarde de Verão de 53 (ou terá sido 54?), no Parc des Princes, em Paris, a assistir a um Racing-Benfica. Às lembranças esfumadas de outros jogos, talvez ouvidos na rádio, seguiu-se uma muito viva de um Porto-Ajax, em Dezembro de 1987. Depois outra, três ou quatro anos passados, de um Portugal-Turquia na Arena de Amsterdam.
Confuso, e quase descrente de que se me tivesse tornado tão selectiva a memória, revi as horas passadas defronte da televisão, a seguir desafios em que Portugal e a Holanda se defrontavam, hesitando sobre qual a equipa a que deveria dar a minha simpatia.
Mas ao perguntar-me se esses arroubos momentâneos, e tão largamente espaçados, fariam de mim um tifoso, vi-me obrigado a responder pela negativa, pois o futebol só muito esporadicamente entra na minha vida, sempre com o aspecto de uma ligeira febre que pouco mais dura que os noventa minutos do jogo.
Contudo, passada a excitação e retomando os sentidos, devo confessar que o futebol me preocupa. Não como desporto, fenómeno social, ou espectáculo que em redor do mundo diverte e emociona centenas de milhões. O futebol preocupa-me, sim, muito egoisticamente, no que ele em Portugal, a minha outra pátria, tem de comum com a situação de Panem et circenses, que já no séc. II da nossa era o poeta Juvenal criticava em Roma.
Não me regozijo no papel de pisse-vinaigre, e parecerá extemporâneo, deslocadamente azedo, mesmo inconveniente, tocar semelhantes assuntos num tempo de tão grande euforia. Mas certo e seguro chegará o momento em que os jogos terminam, a euforia passa e, encerrado o Euro 2004, ao fazer-se as contas, bem aleatória se tornará a certeza de que haja pão para todos.
Que se me perdoe o desabafo, mas estonteia-me o facto que num país tão necessitado, neste momento e de novo o mais pobre da Europa, se tenha gasto um bilião de euros na construção e na renovação de dez estádios.
Isso com a benção de um governo risonho e optimista que, com o primeiro-ministro à frente, foi a um desses estádios e, na presença de 50.000 almas, ignorantes ou preferindo esquecer a miséria de que já sofrem, e aquela que as espera, deu o pontapé de saída ao Euro 2004.
Perdoe-se-me ainda esta ladainha de misérias, infelizmente tão bem expressa na secura dos números. Em 2003 a economia portuguesa diminuiu de 1.1% , ocupando o último lugar que, desde 1986 a 2001 coubera à Grécia. No que respeita a inflacção e o desemprego constatam-se em Portugal os maiores aumentos entre os dos países membros da UE. Enquanto na UE os preços dos bens de consumo aumentaram em média 1.8%, em Portugal a subida foi de 4.4% , e o desemprego passou de 4.1 para 7.2 porcento.
Felizmente, nem tudo são más notícias, pelo menos para alguns: os executivos portugueses recebem os honorários mais elevados da UE. O salário dos directores das empresas públicas é três vezes maior que o dos seus colegas espanhóis ou franceses, e os jornalistas mais importantes da televisão pública auferem ordenados quatro vezes maiores que o mais reputado anchor man da RAI italiana.
Por sua vez o salário mínimo é de apenas 365 euros mensais, enquanto o salário médio dos trabalhadores industriais é de 828 euros, o que equivale a 53% do salário industrial médio que recebe um espanhol, e metade do que ganha um irlandês, um sueco ou um italiano. Os docentes nas escolas e universidades, funcionários públicos, recebem em média o dobro dos seus colegas da EU.
Seria fácil deitar as culpas ao actual governo, conservador e direitista, por dissipar os dinheiros públicos. Acontece, porém, que o esbanjamento já vem do governo anterior, socialista e dito de esquerda, o qual, eleito com a promessa de que terminaria com o favoritismo, e apoiado no slogan optimista “no jobs for the boys”, logo elevou o número de burocratas para mais de 700.000, extraordinária sobrecarga para uma população de 10 milhões.
Ao governo socialista se deve também aquilo a que os analistas chamam the Latin America-style gap da economia portuguesa, com as enormes diferenças que se constantam entre ricos e pobres. E essas não dizem apenas respeito às abismais diferenças dos rendimentos, mas reflectem-se nas comparações com os restantes países da EU, no que concerne o número de horas de trabalho e o acesso aos serviços de saúde pública, à educação e à cultura.
Enquanto que a média de trabalho anual nos outros países da UE é de 1.620 horas, a média portuguesa eleva-se a 1.730. Nos hospitais públicos a lista de espera para operações de cirurgia é de seis anos, e por ser exorbitante o custo dos cuidados dentários, apenas 35% da população se pode permitir o luxo de recorrer ao dentista.
No seu relatório Employment in Europe, a Comissão Europeia aponta que 20% da população portuguesa tem problemas de saúde, enquanto que a média europeia é de 10%. É também em Portugal que se constatam os níveis europeus mais elevados de reumatismo, tensão arterial e diabetes.
Tudo isso já seria mau, mas a lista alonga-se a outros campos de desgraça. Portugal é nr. 1 europeu no número de mortos em acidentes rodoviários. A proporção de acidentes no trabalho alcança 7.214 por cada 100.000 habitantes, triste resultado quando comparado com a média europeia de 4.450. Portugal acusa ainda os níveis europeus mais elevados no consumo de soft drugs, nos casos de SIDA, e de brutalidade policial, este último mantendo-o na lista negra da Amnesty International.
Nas estatísticas oficiais a percentagem de analfabetos aparece como alcançando uns meros 11.8% , mas no relatório antes mencionado o número de portugueses que se podem considerar como funcionalmente iletrados sobe a um assustador 48%, mais do que o dobro do nível verificado na Grã-Bretanha.
Confrontado com estas estatísticas, um comentador escrevia recentemente: “Portugal já tocou no fundo, mas era um fundo falso. Por isso continuamos a cair, desconhecendo o que nos vai acontecer quando chegarmos ao verdadeiro fundo.”
O acesso à UE de dez novos países membros, todos eles com níveis quase-zero de analfabetismo, amplo acesso à cultura e excelente capacidade técnica, resultará para um país economicamente, culturalmente e técnicamente fraco, como Portugal, num inevitável retrocesso e num, igualmente inevitável, desinteresse dos investidores.
Tal como já tantas vezes aconteceu na sua longa história, o país encontra-se de novo à beira de um precipício. Em 1986 salvou-o a adesão à CEE, mas logo, como um doidivanas, em vez de investir sabiamente os desproporcionados subsídios que recebeu, desbaratou-os ele em luxos de novo-rico. Agora talvez tenha de o salvar a Espanha, de que economicamente já depende.

Após um tão longo rosário de misérias e maus presságios, é justo que o leitor se pergunte o que é que isto tem a ver com Figo em particular, e o futebol em geral.
Em minha opinião tem muito, pois não somente o futebolismo é desde há décadas a religião oficiosa dos portugueses, como fez com que no país se erguessem as gigantescas basílicas onde figuras como Luís Figo recebem uma adoração que, em fervor, nada fica a dever à que nos altares cabe aos santos. E será redundante lembrar aqui a frase de Lenine sobre a religião como ópio do povo, mas não é menos certo que, pelo menos o espaço de um Verão, a euforia do campeonato fará esquecer as nuvens negras que se acumulam a prenunciar um tempestuoso futuro.
Os portugueses - extraordinária gente, 10 milhões de almas que possuem mais de 11 milhões de telemóveis, e gastam em telecomunicações três vezes mais no que na educação - continuam a exprimir no fado a sua inata e intensa melancolia, e ainda vão de romagem a Fátima. Verdadeiro e apaixonado fervor, porém, só o mostram no estádio, revendo-se extasiados nas piruetas dos seus futebolistas.

Isto foi o desabafo, mas a consciência e a verdade mandam que se lhe siga a confissão. Estarei em Portugal logo desde o começo do Euro 2004, e não vou perder a abertura, nem aqueles jogos que, um eventual Portugal-Holanda por exemplo, provarão a dificuldade de manter o espírito escorreito em alguém que, como eu, vive em simultâneo duas vidas, possui duas sensibilidades diferentes, se exprime em duas línguas discordantes, se sente dilacerado por interesses contraditórios e visões opostas da realidade.
Não irei aos estádios, porque sempre me assustaram os grandes ajuntamentos, mas sozinho ou com os amigos assistirei na televisão, o entusiasmo há-de contagiar-me, também vou aplaudir. E enquanto o jogo durar vou esquecer.

segunda-feira, março 24

Anedota

Contaram-mo como verdadeiro, parece anedota. Eu gostaria que fosse anedota.
Num colégio americano, desses para filhos dos super-ricos, um docente achou útil que os seus pupilos testemunhassem sobre as desigualdades sociais, e mandou que redigissem um texto sobre as circunstâncias de uma família pobre.
Uma das “pérolas” rezava assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. As criadas eram pobres e a cozinheira também era pobre. O chofer era pobre. O jardineiro era pobre. A piscina estava sempre suja e não tinha água."

quinta-feira, março 20

ESTÁ PARA BREVE!

O Arturzinho quer saber quando é que a loja reabre, ou a barca recomeça a navegação. Está para breve, mas primeiro há que festejar as Páscoas!

sexta-feira, março 14

PAUSA

Este estabelecimento estará encerrado durantes uns dias.

(Clique para aumentar)

Recordações do vinho (4)

O “vinho americano” vendia-se então às escondidas. E porque era ilegal, sabia bem. Os lavradores faziam-no com as uvas das castas importadas da América nos fins do séc. 19 e resistentes à filoxera.
Nos anos remotos da minha infância a posse dessas videiras era proibida (a Guarda Republicana tinha ordem de as arrancar, mas quase sempre fechava os olhos) a feitura do vinho idem, a venda do mesmo sujeita a fortes multas.
Por isso o negócio do “vinho americano” florescia. Creio que hoje a proibição continua, e as leis de Bruxelas são mais estritas, além de que, ao que parece, o “vinho americano” é mau para a saúde. Mas se um destes dias você passar pelas terras do vinho verde, informe-se discretamente sobre o “vinho americano”. Se o conseguir encontrar, prove-o, e apreciará o que, além do atractivo de fruto proibido, sempre tornou esse vinho tão distinto e peculiar: o seu incontestável cheiro a percevejo. *)

Como era de tradição, uns dias antes do Natal começavam a chegar a nossa casa os presentes oferecidos pelas firmas do Vinho do Porto. Regra geral uma ou duas caixas com garrafas de boa qualidade, e sempre algumas de “vintage”.
As caixas eram de madeira fina, as garrafas protegidas por uma capa de palha. Mas a mim não interessava o vinho, interessavam os brindes escondidos no fundo: saca-rolhas engenhosos, miniaturas de faiança, soberbas navalhas com cabo de osso. Dessas fiz colecção, mas um dia troquei-as estupidamente por um livro intitulado Orgias no Convento, de leitura decepcionante e com gravuras que nada acrescentaram à ciência que eu já então possuía.

Hoje os fortificantes compram-se na farmácia e têm o sabor artificial que lhes dão na fábrica. In illo tempore a gemada era o fortificante ideal e universal. Dava-se aos bébés, às crianças, aos convalescentes, aos velhos, às grávidas, aos tuberculosos e aos que sofriam de humores sombrios.
Se a desconhece não perderá nada em experimentar a receita, modelar na sua simplicidade: bata quatro gemas de ovo com quatro colheres de açúcar, junte dois cálices cheios até à borda de vinho fino, remexa e beba.
------------
*) Haverá ainda quem reconheça o cheiro do percevejo?

quinta-feira, março 13



O meu amigo Mário Cascalho com o seu alambique. Estevais de Mogadouro. Out. 1996. (Clique para ampliar).

Recordações do vinho (3)

Porque o trabalho era muito e os braços poucos, o monte de mosto seco ficava tempos à espera de ser distilado. Finalmente uma manhã - na minha recordação manhãs em que o ar tinha já uma frescura de Outono - o alambique era instalado e atestado, as caldeiras preparadas, a fogueira acesa, o garrafão posto na ponta do cano.
Os homens traziam banquinhos para se sentar e esperavam pacientes, enquanto as gotas de aguardente caíam uma a uma, límpidas como chuva de Inverno. Depois vinha a prova. Para a maioria em jejum. O copo passava de mão em mão, e dele bebiam grandes, pequenos, as mulheres que adregavam passar, os anciãos que tinham fé no poder da aguardente nova.
De facto a aguardente conta por muito na cura das minhas constipações da infância. De cada vez que começava a tossir e a ficar ranhoso, metiam-me na cama e na mesinha de cabeceira, num prato fundo de esmalte, era deitada uma generosa quantidade de aguardente.
Aquecia-se o prato à luz duma vela e o líquido era de seguida incendiado com um fósforo.À medida que ardia juntavam-lhe lentamente, mexendo com uma colher, algumas gotas de sumo de limão e umas cinco ou seis colheres grandes de açúcar. Assim que a chama começava a diminuir tapavam-na com outro prato para que se apagasse. O líquido, amarelado, licoroso, deliciosamente doce, era depois deitado numa xícara e bebido devagar. Daí resultavam fortes suores e um longo sono reparador a que nenhuma constipação resistia.

O largo onde nasci, em Vila Nova de Gaia, tinha a vantagem de se situar num montículo com um esplêndido panorama. Ao mesmo tempo dir-se-ia uma ilha rodeada por um mar de telhados, os dos grandes armazéns onde envelheciam, envelhecem ainda, milhões de garrafas do Vinho do Porto. Em muitos desses telhados achavam-se escritos em letras desmesuradas os nomes das firmas proprietárias. Eu, criança, soletrava-os mesmerizado, supondo mágica na estranheza das suas grafias: Kopke, Cálem, Cokburn, Ramos Pinto, Ferreirinha, Gonzalez Byass, Delaforce, Morgan, Niepoort...
Muitas das mulheres pobres da vizinhança ganhavam o pão como engarrafadeiras, trabalho que só parecia leve porque passavam o dia sentadas a arrolhar numa maquineta as garrafas que lhes iam pondo diante. Para que nenhuma caísse na tentação de beber da garrafa antes de a arrolhar, envolvê-la em palha e metê-la na caixa, o controle era estrito e o castigo o mais pesado: olho da rua sem perdão, nenhuma esperança de encontrar de novo trabalho semelhante.
Os capatazes concediam-lhes, contudo, um privilégio: garrafa que quebrasse no arrolhamento podia ser bebida. E pelo dia adiante quebravam-se umas quantas. Por isso ao fim da tarde, quando saíam do trabalho, na calçda que levava dos armazéns ao nosso largo só se viam mulheres bêbadas. Caminhavam aos bordos, davam gargalhadas insanas, iam de braço dado, disfarçando a tontura da bebedeira com passos de dança.
De vez em quando uma tropeçava, estatelava-se, erguia-se dando palavrões. Algumas sentavam-se um momento no passeio, sem decoro, as pernas abertas, a cabeça pendente, até que uma companheira mais sóbria as vinha puxar.
Eu, que a essa hora voltava sozinho da escola, caminhava fascinado e temeroso rente à parede.

quarta-feira, março 12



(Clique para aumentar)

Recordações do vinho (2)

O lagar, feito de pedras de granito, parecia-me então colossal. Ficava no rés-do-chão, com uma só janela, numa casa que servia para arrumações e onde, de longe a longe, morava algum casal jovem no aguardo de melhor pouso.
As uvas eram atiradas pela janela directamente para o lagar, que não demorava a ficar cheio. Começava então a pisa. Nesse tempo trabalho só para homens e feito à noite. As calças arregaçadas, caminhavam lentamente em redor, num ritmo monótono. De vez em quando aparecia alguém com uma guitarra, mas em geral, exaustos pelas horas que tinham passado curvados ao sol na vindima, moviam-se em silêncio. Fumavam muito e aparavam na mão a cinza do cigarro.
Nós, a garotada, ficávamos sentados no muro do lagar, depenicando as uvas que ainda havia nos cestos, fazendo sombras chinesas à luz dos lampiões. Mal havia sumo empanturrávamo-nos com canecadas dele.
Ao terceiro ou quarto dia da pisa o mosto começava a “ferver”. Então – “com a força que tem, o mosto a ferver cura tudo” - enquanto os homens o remexiam com pás de madeira, as mães alinhavam no lagar os pequenitos mais fracos, ou os que andavam cobertos de borbulhas e, nus em pêlo, depois de uma lavadela eram passados por cima do muro aos homens que os mergulhavam no lagar. Uma vez, duas vezes, três vezes. Só a cabeça ficava de fora. Uns choravam. Outros, com o susto, abriam a boca que se lhes enchia de engaços, cascas e grainhas.
A minha hora também chegou. Num ano em que à família pareceu que me viam amarelado e escrofuloso, despiram-me, lavaram-me e passaram-me para as mãos dum tio-avô que, carinhosamente, me fez mergulhar até ao pescoço.
Eu, que ao vê-los chorar os tinha tratado de “cagões” e “maricas”, mal me dei conta de ter ao rés dos olhos aquela imensidão de líquido pegajoso, que borbulhava como coisa viva e me ia engolir, soltei gritos tão lancinantes e esperneei de tal modo que não me deram o terceiro mergulho. Mesmo assim o remédio teve efeito.

terça-feira, março 11



















Joaquim Simão, meu pai, os cestos de uvas e, ao fundo, a entrada do lagar. Estevais de Mogadouro, 09.1964.
(clique para aumentar)

segunda-feira, março 10


















A colorida é da Albânia (© Hektor Pustina/AP), recortei-a de um jornal em 2005; a outra tirei-a na estrada de Mogadouro, um dia de Outubro de 1972 (clique para aumentar).

Casos do dia (3)

É um convite que recebi a semana passada para, em Junho próximo, com setenta e quatro outros, festejar os quarenta anos do matrimónio de um casal milionário. Casal amigo, evidentemente. E holandês. Dou este detalhe para que se compreenda que, noutras latitudes, talvez seja outro o sentido da hospitalidade e da organização.
Convite chique, em papel vergê. Traduzo e resumo o essencial.
Será no château X..., situado no centro do país, de modo a que nenhum dos convidados tenha de fazer mais que uma hora de estrada.
Continua o texto: “A minha esposa e eu, estaremos presentes a partir das 10.00 horas em ponto no jardim de inverno do château, onde daremos as boas-vindas aos convidados, e haverá serviço de café, chá e pastelaria. Os que chegarem a tempo poderão dar uma volta pelo jardim com estatuária, pela horta de ervas medicinais, ou ir visitar o poiso das cegonhas. Contudo, às 11.30 espera-se que todos estejam presentes, pois às 12.00 em ponto será servido champanhe, e tirada uma fotografia do grupo, para que fique a recordação.
Cerca das 13.00 será servido um almoço de quatro pratos, seguido de, como cada um desejar, café, chá, digestivos ou bebidas cordiais.
Certamente haverá oportunidade para convívio, mas às 16.00 horas a minha esposa e eu agradeceremos a vossa presença, desejando a todos boa viagem de retorno.
Para aqueles que quiserem oferecer-nos um presente, sugerimos que o façam na forma de um envelope com dinheiro. É que no próximo ano temos a intenção de dar a volta ao mundo, e toda a ajuda financeira será bem-vinda.”