quinta-feira, julho 17

Pobres monarcas

Poder viver como um rei era a expressão consagrada nos sonhos do comum. Hoje em dia, porém, deixou de ser válida. Os mais abastados dos soberanos que ainda restam, coitados, terão umas centenas de milhões de dólares (euros ou libras), o sultão do Brunei dois ou três biliões, mas essa gente, além da constante aflição de ver os juros baixar, vive no medo ainda mais constante de que os políticos e a plebe, usando das manhas da democracia, lhes tirem os palácios e os pés-de-meia.
Assim, tal como as multinacionais têm mais poder que os governos, os negociantes da Ásia deixam atrás de si a pelintrice das monarquias. Vejam os irmãos Ambani, que juntos possuem 85 biliões de dólares. O mais novo, Anil Ambani, está a ponto de vender uma das suas empresa por uns 70 biliões. O mais velho, Mukesh, a fazer morder-se de inveja o benjamim, com quem vive em discórdia, ofereceu como presente de aniversário à mulher um Boeing de 60 milhões de dólares e vai gastar 1 bilião de dólares na construção de uma residência. Talvez para que se veja de longe, a casa terá vinte e sete andares (para a mulher e três filhos deve chegar), três pistas para helicópteros e uma garagem para cento e sessenta e cinco carros. Entre jardineiros, paquetes, camareiras, cozinheiros, porteiros, mordomos, choferes, guarda-costas e outros, andarão por ali uns seiscentos servos.
Quanto rei não gostaria de viver assim!

quarta-feira, julho 16

Diário (2)

Era daquelas amizades que não se sabe como nascem. E amizade não é bem o termo. Anos atrás aconteceu falarmos, depois houve uma vaga troca de gentilezas, dois ou três encontros, creio também que um jantar ou dois.
Esquecia-o, mas lá trazia o correio um recorte de jornal onde o mencionavam, um opúsculo com os seus poemas, maus poemas, um livrinho de contos, maus contos…
Eu agradecia a oferta e a dedicatória com palavras banais, e voltava a esquecê-lo. Depois houve um longo período em que telefonava com frequência. O intróito eram as perguntas sobre a saúde. Queria também saber se o que agora me ocupava era romance, conto ou novela. Finalmente, se eu já começara a preparar material para aquela ideia que ele tinha tido de escrever a minha biografia.
Respondia-lhe com evasivas. Ontem chegou-me a notícia de que faleceu e não posso negar o alívio que sinto.

Mendigos (3)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)

(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

terça-feira, julho 15

Alforges (7)

A Praga

Por vezes penso que ainda há esperança e que o bom senso levará a melhor. Mas ao ler que este ano, em torno de mundo, mais de seiscentos milhões de turistas terão atravessado as fronteiras e ido de praia para museu, de catedral para ruínas romanas, de parque de campismo para parque de atracções, de porto típico para gruta pré-histórica, mergulho em desalento. Perseguem-me as imagens que todos conhecemos dos monstruosos ajuntamentos. Meio milhão de corpos numa praia, meio milhão ou mais na seguinte. Filas de automóveis com dezenas de quilómetros. Os doze milhões de basbaques que anualmente passam as portas da catedral de Notre Dame em Paris. Doze milhões! Para ir ver e dizer que viram. Para poderem escrever para casa o postal com as palavras imortais: 'Esplêndidas férias. Vamos bem.'
Mas Notre Dame e milhares de outros monumentos, reservas naturais, praias e florestas, não vão bem. Por toda a parte são visíveis os estragos que lhes causa a desenfreada “admiração” do turista. As estátuas enegrecem de ser tocadas por centenas de milhar de mãos gordurosas, soalhos históricos cedem sob o peso das massas de gente, as praias tomam a desolação de lixeiras, vitrais e pinturas sofrem com o suor condensado de milhões de corpos. Os mesmos milhões que se julgam conscientes da necessidade de melhorar o meio ambiente, da urgência de salvar as espécies raras da fauna e manter límpida a água dos rios e dos mares.
Contudo, nenhuma força contrariará o instinto poderoso de rebanho que os leva a procurar na Costa Brava o mesmo sol que brilha nos seus quintais. Nenhum sermão os convencerá de que o seu comportamento não é o dos indivíduos que eles próprios julgam ser, mas o de eternos carneiros, tão dóceis que nem sequer precisam pastor: vão porque os outros vão ou porque os outros foram.
Nessa ânsia de movimento e imitação, de ver e palpar, pela simples força do seu número conseguem destruir o que tinha resistido aos séculos. O granito das escadarias romanas quebra, o mármore dos templos gregos esboroa, as estátuas da Renascença vêem o seu bronze corroído. Tão inconscientemente perigosos se tornam, que já ouvi aldeãos dizer “Vêm aí os turistas”, no mesmo tom preocupado com que falam das pragas que lhes ameaçam as colheitas.
Felizmente nem tudo ainda está perdido. Pelo menos na Itália - a Itália de quem sempre se diz que é desleixada, que não sabe cuidar - as autoridades tomaram a sábia medida de pôr a bom recato as obras de arte mais frágeis, substituindo-as por réplicas. Os franceses fizeram o mesmo com as grutas de Lascaux, cujas pinturas rupestres conseguiram sobreviver dezassete mil anos, mas por pouco escaparam à curiosidade dos basbaques. Para eles, que nada respeitam e com tudo se contentam, foi criada a ilusão de Lascaux II. E eles acorrem de longe às dezenas de milhar nos seus uniformes de veraneante, a máquina fotográfica a pendular sobre a barriga, o vídeo a tiracolo, a mulher e a filharada a reboque, para nas grutas, nas praças e nas igrejas se embasbacarem diante do pechisbeque.
Quando li essas boas notícias, tomou-me um sentimento metade malícia, metade tristeza. Eu sei que nada exterminará o turista: ele procria, associa-se, faz prosélitos. Oiço dizer que os seiscentos milhões deste ano serão mais de seiscentos e cincoenta milhões em 2010. Os próprios governos aliciam-no para que viage mais e mais. Porque viajando deixa lucro. (Os danos causados? Quem então viver que cuide.) A indústria e o comércio enfeitiçam-no com folhetos sobre paragens exóticas, onde o sol brilha em permanência e todos os dias são de festa. Onde o mar é sempre calmo, o bosque sempre verde, o amor, a amizade e o sexo sempre à mão. E ele, crédulo, só sonha em partir.
Por isso não há esperança, o que entristece. Mas há um prazer malicioso em imaginar o turista, macaqueador por excelência, caminhando em massa para os museus de réplicas num mundo de pacotilha.

segunda-feira, julho 14

Remexendo nas gavetas (28)

A fotografia é de Agnès Varda, o lugar a Póvoa de Varzim, o ano 1956, Sophia Loren no cartaz. Se não houve mise-en-scène foi uma bela coincidência.

Miguel Torga

Ainda do volume XIII do Diário de Miguel Torga (*)

“Coimbra, 15 de Agosto de 1980 – Não consigo lê-lo sem forçar a natureza. Há em mim uma exigência intuitiva de autenticidade que pressente, de longe, a impostura de um texto. Lançar ao papel uma só linha que seja que não obedeça àquele imperativo que faz a honra da literatura parece-me um atrevimento sacrílego e um ultraje à vocação. Imagino sempre o autor diante da página vazia numa atitude recolhida de professo, à espera da graça do verbo. Ora, no caso vertente, trata-se de um daqueles bem-aventurados que, seguros do seu talento, nem perdem tempo a merecê-lo nem ocasião de o exibir. Apenas sensíveis às variações do gosto e aos favores do aplauso, pouco lhes importa a essencialidade e a têmpera da obra. Mundanos das letras, tanto no oportunismo como no impudor, agentes de si próprios, não há promoção a que resistam. Dão-me sempre a impressão de que escrevem os livros na montra das livrarias.”

Não importa saber a quem terá servido a carapuça, sim que são muitos aqueles a quem ela serve.


(*) V. post de 10/07

domingo, julho 13

Mendigos (2)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)


(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, julho 12

iPod




Compreende-se a excitação, compreende-se o hype gerado pelo comércio, compreende-se a tontura dos jovens e menos jovens pelo brinquedo.
Mas tudo sofre se recordo a compra, no Verão de 1996, do meu primeiro telemóvel, um Nokia tipo NHE-4NX (Made in Germany) com 17 cm de comprimento, 5,5 cm de largura, 3.3 cm de espessura e 314 gr de peso. Esse Nokia era uma formidável novidade. O iPod, desculpem lá, é apenas um melhoramento.

sexta-feira, julho 11

O "Janeiro"

Saudades do tempo em que o "Janeiro" era a minha janela para o mundo. (Clique para aumentar)

quinta-feira, julho 10

A mulher

Porque me acontece pisar alguns dos carreiros transmontanos por onde também ele andou, e a sua prosa às vezes faz eco aos meus sentimentos, releio o Diário de Miguel Torga. Copio do volume XIII:

“Coimbra, 12 de Outubro de 1978 – A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da Criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer paradigmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos, sem perceber que é ela o cordão umbilical da História.”

quarta-feira, julho 9

Festa de casamento

Cena banal, mas cheia de humor, e que noutra altura, com disposição diferente, talvez me passasse despercebida. Mais tarde, o que depois se quer descrever: quadro, luz, personagens, gestos, sai vago e baço, truncado. Os acrescentos, os arranjos, a busca de um equilíbrio nas palavras, aumentam a distorção, carregam a banalidade. Só os olhos registam. E o momento de humor, tão breve, ao acontecer já é lembrança.
Três mulheres de idade. Paradas diante da porta como ovelhas que hesitam em atravessar um fosso. Agarrada à ombreira, arfando, a equilibrar o peso sobre o joelho, a primeira iça-se – não sobe, iça-se – sobre o degrau que separa o restaurante da sala e, dando meia volta, espera que as outras se icem também.
Dão-se os braços em apoio, vejo-as encaminhar-se para a minha mesa, o meu interesse tornado desagrado e irritação. Vozes descontroladas, meias frases, o riso desconexo, a lentidão cambaleante de quem já bebeu e se vai embebedar.
Avançam inclinadas para a frente, navios a atacar ondas imaginárias, popa ao alto, as saias repuxadas. Bustos, ventres e nádegas de dimensões alheias à magreza descarnada das pernas. Blusas de floreados e, a transparecer, cingindo mal as regueifas, o correame com que se apertaram.
Direitas a mim, como se as outras mesas, quase todas vazias, lhes fossem invisíveis. Flacidez, pregas, encorrilhas da carne que os decotes domingueiros levianamente mostram. Todas três assim, nem que tivessem combinado, ou procurando talvez a segurança que a igualdade dá. Sorriem-me. Sorrio.
Se se podiam sentar? Pois podiam, claro. Não, eu não esperava mais ninguém. Estivessem à vontade. Realmente era cedo ainda. Não, não tínhamos sido os primeiros a chegar. Mas quase. O senhor de cabelo branco? Eu não conhecia. Elas também não. E vá de rir com a grande piada.
- Importa-se? Podia chegar a mesa para este lado?
O contacto desagradável e mole da mão pousada no meu braço. Anéis a mais, pulseiras desirmanadas, um verniz das unhas do tempo da rumba.
Aproveitei para empurar discretamente a cadeira e pôr-me de través. Não fazia ideia quem fossem. Família da noiva. Talvez vizinhas.
A empregada veio com uma bandeja cheia de copos e pôs-me diante a cerveja que eu tinha pedido, a espuma a derramar.
- Olhe! Faz favor…
A velha estendeu o braço, mas a rapariga não quis ouvir, desaparecendo por entre os que chegavam, a bandeja erguida acima da cabeça, profissional e desinteressada.

terça-feira, julho 8

Mendigos (1)

A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)



(*) As fotografias são do começo dos anos 50

domingo, julho 6

Alforges (6)

Tempestade

De manhã cedo, antes de sairem de casa, ele tinha dito que era melhor levarem guarda-chuvas, porque o dia não passava sem chover. Uma olhadela ao céu fora bastante para o seu instinto de marinheiro. Aqueles pontinhos cinzentos e negros a acumular-se no horizonte não eram barcos, como tinha dito a sogra a olhar pelo binóculo, mas as nuvens que agora, empurradas pelo vendaval, descarregavam aguaceiros sobre a praia.
O sogro, a vizinha e os miúdos, tinham-se abrigado dentro da barraca. Os outros correram para uma taberna que havia ali perto. Ele e a mulher, por teimosia, como se a chuva os não molhasse, e não fazendo caso da cunhada, que de longe berrava para que se abrigassem, permaneciam sentados na areia, imóveis, encarando-se, tal como se achavam quando a zanga e a tempestade tinham começado.
Nos últimos tempos as brigas eram para eles prato diário, regular e fatal como a acção e reacção das leis da natureza. Uma palavra, às vezes só um gesto, uma toalha caída no chão, um palito numa xícara, um pouco de cinza de cigarro deitada por desleixo num prato - e pronto! - rebentava a zaragata.
Os insultos explodiam. Deitavam-se à cara pecados velhos julgados esquecidos, culpas remotas, birras que datavam da juventude em que se tinham namorado. Mesmo as palavras ternas doutras ocasiões lhes serviam para magoar.
- Não te atrevas, Maria! Olha que um dia mato-te!
Da primeira vez a ameaça teatral a tinha assustado, chegou mesmo a fugir para a rua. Mas daí em diante, mal ele começava aos pulos, a gritar que a esfaqueava, ela ia ao guarda-loiça da cozinha, pegava na faca de cortar o peixe e punha-lha na mão:
- Toma lá!
- Não me tentes, mulher! Não me faças perder a cabeça!
Exagerando o tremor pousava a faca sobre a mesa. Depois as mãos, tensas, a hesitar, remexiam nos bolsos à procura dos cigarros e do isqueiro.
Em geral as desavenças terminavam assim. Ele, em silêncio, oferecia-lhe um cigarro que ela aceitava, acendia-lho, e às vezes iam depois juntos ao café beber uma cerveja: o cessar-fogo entre duas batalhas.
De longe a longe tinha sucedido serem aquelas cenas a causa indirecta de inesquecíveis jantares, e o filho do meio talvez nunca viesse a saber que fora gerado por descuido, depois de uma dessas refeições copiosas, cheias de promessas, de nunca mais, de votos de paz para o futuro.
Continuavam sentados e não parava de chover. Ambos teimosos, ele de calção de banho, a tiritar, ela com um biquíni fora de moda. Ainda se ouvia o trovão, mas os relâmpagos tinham cessado e, no horizonte, o céu mostrava já uma aberta azul.
- Tens lume? - perguntou ele, mostrando os cigarros encharcados.
Ela desatou às gargalhadas e deitou-lhe o braço pelos ombros.

sábado, julho 5

Blogroll

Num mail cheio de pontos de interrogação, a amiga, preocupada, quis saber o que tinha eu feito ao Diogo.
- Nada! Nem o conheço. Mas porquê?
- É que ele tirou o título do teu blogue do blogroll do dele.
- E isso importa?
Ela achava que sim, pois blogue a sério tem lugar cativo nos blogrolls do Eduardo, do João, e do Francisco, da Ana, do Pedro, do Zé Mário, do Fernando…
Senti-me tentado a responder com a desculpa de Eça a Ramalho, dizendo como ele: “É que eu estou longe! Não sei dessas coisas!...”
Mas o longe deixou de existir, os tempos são outros, a única explicação que lhe pude dar é que continuo fraco no que respeita contactos e etiqueta.

sexta-feira, julho 4

Novidade?

Leio que estão à venda portáteis que medem pouco e pesam quase nada. Claro que são formidáveis no volume da memória e na velocidade dos cálculos. Este meu IBM PS/note de 1992, ainda vivo, pouco disso tem, mas mede tanto como uma folha A4, 5 cm de espessura e 1.8 kg. de peso. O ecrã é a preto e branco.






Alforges (5)

A vida do campo

“O lavrador não necessita de relógio. Regulado pelo ritmo do sol, pela terra, pelas estações do ano, a sua vida desenrola-se harmoniosamente. Ao contrário do que acontece com o citadino, a família do lavrador não inclui somente a mulher, os filhos, os pais e os primos, mas também os pomares, os prados, os animais. Ele é capaz de falar seriamente com um cão, uma vaca, um castanheiro, pois a sua sensibilidade é idêntica para uma árvore, um bicho, um parente ou um vizinho. Infelizmente, porém, a maior parte dos benefícios que saem da terra não pertencem ao lavrador. Os bancos e os intermediários exploram o seu trabalho e são eles que, finalmente, sem esforço, recebem a parte maior.”

Rafael, vinte e quatro anos, solteiro, desempregado, morador num quarto de águas-furtadas, leu duas vezes o artigo do jornal. Lavrador. Tinha a impressão de que lhe agradaria ser lavrador. Já por várias vezes tinha fantasiado como seria agradável viver no campo. A luminosidade do céu! Os cheiros!... Via-se a sair de manhã cedo, acompanhado por dois (ou três?) cães.
A mulher - supunha-se casado, sem filhos, preparava o almoço, depois de ter colhido na horta os legumes que ele cuidadosamente plantara. Tudo natural, puro, segundo as velhas leis da natureza que garantiam a saúde e a sobrevivência.Ao meio-dia regressaria a casa. A pé? A cavalo? A falar verdade a sua preferência ia para o cavalo, se pudesse ser um baio como os da polícia.
Dormiria a sesta. Depois, aí por volta das quatro da tarde, voltaria para a montanha. Se chovesse ficaria em casa, na sala, diante da lareira acesa. A mulher - era extraordinário não ser capaz de imaginar o timbre de voz que ela teria, como também ainda estava indeciso se os olhos seriam castanhos ou azuis - a mulher, pois, continuava na cozinha, agora a lavar a loiça.
Talvez lesse um bocado, os cães e os gatos (dois) estirados diante do lume. A chuva continuaria a cair grossa, mesmo depois do anoitecer, só mais tarde é que a lua banharia as vertentes com a sua luz pálida.
Fantasiava ver-se a caminho da feira numa manhã de sol, o camião carregado de ovelhas, os cães sentados ao seu lado. A seguir à venda dos animais iria ao café beber com os amigos.
Certas noites seriam de tempestade e trovão, os relâmpagos iluminando a aldeia com estranhos clarões. A mulher, assustada e a tremer, agarrava-se a ele.

Alguém batia à porta . Foi abrir. Era a Teresa, o “esqueleto” do andar de baixo que há meses o não deixava em paz, aparecendo às horas menos convenientes.
- Estavas a ler? - perguntou ela, apontando o jornal.
- Um artigo.
- Sobre quê?
Não respondeu, incomodado com aquela curiosidade, mas também porque inconscientemente detestava mulheres magras. A sua, mulher de lavrador, teria a postura da gente do campo, cheia sem ser gorda, de peitos repletos.
- De que trata? - insistiu ela.
- O quê?
- O artigo.
- Da miséria dos lavradores. É uma vergonha. O lavrador é um escravo da banca e do comércio.
- Achas?
- Acho - disse ele, irritado.
Ela sorriu e começou a despir-se.

quinta-feira, julho 3

Disposição


Disposição como a que neste momento sinto não é boa conselheira para tratar do que, também neste momento, me incomoda ou aborrece. Um pouco mais de meia hora de “passeio” pela blogosfera portuguesa, uma vista de olhos a uns quantos jornais, e pronto, a boa disposição matinal levou um pontapé. Azedei. Ele é um não-acabar de pedantices e gastronomias, análises políticas de um partidarismo tonto, análises económicas idem, elitismo bacoco, referências a filósofos obscuros mas "geniais", pareceres sobre George W. Bush cum suis, vaidades que me pergunto se aquilo não está a pedir manicómio…
Em forma de exorcismo deixo aqui esta fotografia,(*) tirada num tempo em que era maior a minha esperança na simplicidade do mundo e na do meu semelhante.

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Feira do gado em Moncorvo, 09-1972.
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segunda-feira, junho 30

Veneza



A culpa é de Goethe, Thomas Mann e uns quantos ricos. Atrás deles revoadas de pintores, bandos de fotógrafos. Depois destes, milhões e mais milhões de basbaques que, no correr do ano, chegam a Veneza e, aos ‘Ohs!’ e ‘Ahs!’ na praça de San Marco, na Basílica, no Canal Grande, na Ponte dos Suspiros, no palácio dos Doges, ressentem coisas que, pelos jeitos, só lá se ressentem. Ah! As gôndolas! Ah! O Rialto! Ah! O Caffé Florian!...
Acontece que, Verão ou Inverno, sol ou névoa, na quase meia dúzia de vezes que, por razões várias, fui a Veneza, nem me emocionei, nem se me afinou a sensibilidade, não tive êxtases.
Levo isso à conta do meu embotamento. Das más experiências que lá tive é melhor não falar.
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As fotografias são de F. Ferruccio Leiss (1892-1968).

Feira em Moncorvo, 12-1972

Feira em Moncorvo, Dezembro de 1972. Os cravos da revolução e os subsídios da Europa estavam ainda num futuro improvável. (Clique para aumentar).

Diário (1)

Trintão, preto retinto, físico de atleta, sorriso pronto, cordial no trato, o vizinho é o que se chama uma simpatia. E se a elegância do vestuário, a abundância de anéis e o modelo do seu Mercedes valem de testemunho, provavelmente homem de negócios que lhe correm de feição. Circunspecto no que refere a sua origem, nunca referiu de que partes da África veio parar aqui, e fundamentalista não será, mas é muçulmano devoto, cumpridor, pontual na mesquita.
Tempos atrás quis saber se eu tinha filhos.
- Tenho.Três filhas.
Como se fosse importante o detalhe, acrescentei que todas três eram mais velhas do que ele.
Sorridente, informou-me do que eu já sabia, que também tinha três filhas.
Este diálogo passou-se há coisa de meio ano. Ontem surpreendeu-me vê-lo vir apressado direito a mim, mão estendida, o sorriso mais largo que o costumeiro, quase engasgado a anunciar que vinha do hospital, onde a mulher dera à luz outra criança. Um rapaz.
- A boy! The joy of my life!
Felicitei-o, trocámos as amabilidades habituais, mas de súbito vi-o tomar um ar sombrio. Sabia eu que, em árabe, ‘pai de filhas’ era insulto grave?
Respondi-lhe que ignorava, mas tão-pouco me afligia.
Sorrimos, fomos cada um para seu lado. Só depois me ocorreu se a informação não traria água no bico: é que continuo ‘pai de filhas’, e ele deixou de o ser.