terça-feira, abril 29
segunda-feira, abril 28
Viagra, Cialis, Levitra...
Uns falam de bombagem, outros que é a hidráulica, os tímidos chamam-lhe DE (Disfunção Eréctil), quem gosta de franqueza refere-se-lhe simplesmente como impotência.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…
Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…
Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.
domingo, abril 27
Almoço dominical
Já passaram os rissóis de camarão, a alheira, a chouriça grelhada, a salada de polvo, a canja de galinha.
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:
Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.
Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:
Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.
Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!
sábado, abril 26
Doutorices
Dia de feira. A farmácia é no centro da vila e no espaço acanhado há gente demais. Anciãos, a maioria. Dão a ideia de estarem ali com as esperanças, os medos e a subserviência de quem entrou no Santo Sepulcro. Acotovelam. Gesticulam.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.
Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.
Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.
quinta-feira, abril 24
Tant pis!
Se o seu Francês não chega, tant pis, mas o caso é dos que vale a pena contar, porque fala de uma elegância e de um esprit que creio já não há.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.
quarta-feira, abril 23
Boson e batatas
O céu finalmente desanuviou. Sento-me ao sol, a ler um artigo que me dá a medida do muito que ignoro e do muito que gostaria de aprender. Mas para mim a fase da escola já passou, o que me resta é a admiração pelo saber alheio.
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….
Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….
Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .
terça-feira, abril 22
Fujo? Não fujo?
Sem as facilidades da internet seria difícil saber de mim, mas ela procurou, encontrou-me e agora…
A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.
Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.
Fujo? Não fujo?
A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.
Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.
Fujo? Não fujo?
domingo, abril 20
O "sabonete" da Vodafone
Da publicidade conhecêmo-la de sobejo, a cena de raparigas dinâmicas e jovens despachados que, em esplanadas de luxo, xícara de café à mão, o portátil em frente, comunicam wireless e sorridentes com o resto do mundo.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.
sábado, abril 19
Desabafo
Estou a falar consigo. Sim, consigo. Não se assuste, de juízo vou bem. Só me pergunto em que estado de espírito se encontrava para vir até aqui. Curiosidade minha.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.
O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.
O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.
sexta-feira, abril 18
Batatas cozidas
Em 1940, quando os tempos eram simples, o meu amigo, então jovem delegado no tribunal de Mogadouro, deslocou-se um dia em serviço ao Vimioso, acompanhado de um colega.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.
quinta-feira, abril 17
Franqueza
A nossa amizade vem de longe e vou visitá-lo porque, acamado há meses, não tardará a finar-se. Entro no monólogo hipócrita que a situação pede. Que está com boa cara. Há-de passar. Cada dia aparecem medicamentos melhores, e os médicos, por muito mal que se diga deles, não há dúvida que sabem mais do ofício do que os de antigamente.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.
domingo, abril 13
Natureza
Aqui na aldeia são entre seis e oito os cães, de dez a treze os gatos a quem, uns dentro, outros em volta da casa, damos cama e mesa farta duas vezes ao dia. Roupa lavada têm-na eles da natureza. Da natureza têm também o forte instinto da caça, que os ajuda a sobreviver nos meses da nossa ausência.
A cadela apareceu por baixo da varanda a arrastar bicho grande. Cabeça já não tinha, mas a ajuizar pelo rabo e o pêlo, filhote de raposa. Comeu-o sozinha, quase inteiro. Os outros deitaram-se às sobras, e em menos de um quarto de hora desapareceu tudo.
sábado, abril 12
Viagem à Guiné
Pergunta ele:
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.
Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.
Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.
domingo, abril 6
Beijos de despedida em Beijós
No blogue de um semi-ateu (na minha idade tomam-se destas cautelas) um texto como o que segue pede explicação.
O padre José Júlio tem muitos e bons amigos e um deles, meu amigo também, quer que se conheçam urbi et orbi as excelentes qualidades deste pastor das almas.
Mensagem de despedida de Pe. José Júlio Almeida das comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós (*)
1 de Abril de 2008
Um certo dia Ele desafiou-me a O amar, depois a O reconhecer e, por fim, a O servir ... Ainda que um pouco jovem, inexperiente e nervosissimo foi assim que respondi ao desafio e cheguei às comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós. Deixei-me seduzir por este amor de Deus, que toca e inquieta os corações, que vai ao mais recôndito de nós mesmos e nos chama a servir. O serviço é uma resposta de amor ao Amor que nos sai ao encontro. Por isso mesmo, a verdadeira medida do ser humano não se mede pelas suas capacidades intelectuais, mas sim pela sua disponibilidade para escutar o chamamento e de lhe responder. Fui ordenado Sacerdote, no dia 04 de Setembro de 2005, pelo D. António Marto, em Ribolhos. Esta ordenação não foi feita para mim, mas para servir: servir a Igreja (universal); servir a Igreja de Viseu; e servir-vos a vós, comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós.
"Fiz-me tudo para todos", foi 0 lema que escolhi para a minha ordenação Sacerdotal. Este lema não foi escolhido só para aquele momento da ordenação, em que coloco todo o meu sentir e viver nas mãos de Deus, mas é o lema que me acompanhará para toda a minha vida. Cheguei sem saber o que iria encontrar, sem saber o que poderia acontecer, trazia na bagagem a expectativa, o receio, o entusiasmo, a alegria e a aventura de servir Cristo. Não conhecia as terras e muito menos as pessoas, sentia-me um desconhecido na imensidão de gente que me acolheu na tarde do dia 02 de Outubro de 2005. Depressa conheci os lugares, as casas e as pessoas, rapidamente me trataram como amigo. Aceitaram a minha maneira de ser, de estar, de sorrir, de brincar, de levar Cristo ... Agora a bagagem tornou-se bem pesada, recebi mais do que dei e levo um coração cheio de amigos que nem a distância fará esquecer. Resta-me pedir para que acolham 0 Pe. Valmor tão bem como me acolheram a mim, que o tornem da vossa família, para que ele sinta a mesma alegria e o mesmo entusiasmo que senti e vivi neste tempo que estive convosco. Um profundo abraço amigo às comunidades de Cabanas e de Beijós.
Pe. José Júlio
(*) in Farol da Nossa Terra
O padre José Júlio tem muitos e bons amigos e um deles, meu amigo também, quer que se conheçam urbi et orbi as excelentes qualidades deste pastor das almas.
Mensagem de despedida de Pe. José Júlio Almeida das comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós (*)
1 de Abril de 2008
Um certo dia Ele desafiou-me a O amar, depois a O reconhecer e, por fim, a O servir ... Ainda que um pouco jovem, inexperiente e nervosissimo foi assim que respondi ao desafio e cheguei às comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós. Deixei-me seduzir por este amor de Deus, que toca e inquieta os corações, que vai ao mais recôndito de nós mesmos e nos chama a servir. O serviço é uma resposta de amor ao Amor que nos sai ao encontro. Por isso mesmo, a verdadeira medida do ser humano não se mede pelas suas capacidades intelectuais, mas sim pela sua disponibilidade para escutar o chamamento e de lhe responder. Fui ordenado Sacerdote, no dia 04 de Setembro de 2005, pelo D. António Marto, em Ribolhos. Esta ordenação não foi feita para mim, mas para servir: servir a Igreja (universal); servir a Igreja de Viseu; e servir-vos a vós, comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós.
"Fiz-me tudo para todos", foi 0 lema que escolhi para a minha ordenação Sacerdotal. Este lema não foi escolhido só para aquele momento da ordenação, em que coloco todo o meu sentir e viver nas mãos de Deus, mas é o lema que me acompanhará para toda a minha vida. Cheguei sem saber o que iria encontrar, sem saber o que poderia acontecer, trazia na bagagem a expectativa, o receio, o entusiasmo, a alegria e a aventura de servir Cristo. Não conhecia as terras e muito menos as pessoas, sentia-me um desconhecido na imensidão de gente que me acolheu na tarde do dia 02 de Outubro de 2005. Depressa conheci os lugares, as casas e as pessoas, rapidamente me trataram como amigo. Aceitaram a minha maneira de ser, de estar, de sorrir, de brincar, de levar Cristo ... Agora a bagagem tornou-se bem pesada, recebi mais do que dei e levo um coração cheio de amigos que nem a distância fará esquecer. Resta-me pedir para que acolham 0 Pe. Valmor tão bem como me acolheram a mim, que o tornem da vossa família, para que ele sinta a mesma alegria e o mesmo entusiasmo que senti e vivi neste tempo que estive convosco. Um profundo abraço amigo às comunidades de Cabanas e de Beijós.
Pe. José Júlio
(*) in Farol da Nossa Terra
quarta-feira, abril 2
Patrioteiros
Se me não engano a palavra e o conceito foram criados por Eça na famosa carta a Pinheiro Chagas. Patrioteiros abundam, e tenho conhecido muitos, mas de todos esses o mais desvairado era o cônsul de Portugal em Amsterdam, no início dos anos 60.
A ele ouvi, mais de uma vez, esta inefável afirmação de amor à pátria lusitana:
"Quando os holandeses começam a criticar-nos.... Que somos pobres, que não temos isto, não temos aquilo... Pouca indústria... Eu atiro-lhes logo que em Portugal até os urinóis são de mármore e bebe-se lá a melhor xícara de café do mundo!"
A ele ouvi, mais de uma vez, esta inefável afirmação de amor à pátria lusitana:
"Quando os holandeses começam a criticar-nos.... Que somos pobres, que não temos isto, não temos aquilo... Pouca indústria... Eu atiro-lhes logo que em Portugal até os urinóis são de mármore e bebe-se lá a melhor xícara de café do mundo!"
terça-feira, abril 1
Zangas
“A tua preocupação é inútil. Estou habituado a cair e, de uma maneira ou doutra, sempre me levanto. É certo que me magoo na queda, mas as manchas da alma, como as do corpo, cura-as o tempo, esse eterno benfeitor. E não esqueças o que ontem te disse: segredo de dois não é segredo.”
Olhou o écrã, releu o texto do mail que ia mandar. Achou-se tolo. Apagou-o.
Tinha-se inventado uma amante virtual, mas mesmo com essa, em vez de paixão eram só zangas.
Olhou o écrã, releu o texto do mail que ia mandar. Achou-se tolo. Apagou-o.
Tinha-se inventado uma amante virtual, mas mesmo com essa, em vez de paixão eram só zangas.
segunda-feira, março 31
Para pensar
"Accept the cookies when they are offered, not when you are hungry"
Tradução livre: "Aceita os doces quando tos oferecerem, não quando te sentires esfomeado."
Tradução livre: "Aceita os doces quando tos oferecerem, não quando te sentires esfomeado."
O cliché e a descoberta
O facto primeiro, talvez o mais marcante, é o de que, ao criar o seu mundo, o holandês logo deu mostras de que a separação original das águas e da terra, descrita no Génesis, lhe parecia susceptível de melhoria.
Que essa inventividade lhe tenha cabido por graça divina, ou ele a tenha simplesmente desenvolvido por iniciativa própria, é questão menos interessante que a de considerar o emprego que, através dos tempos, ele fez de um tão inato pragmatismo.
Se nos anais escasseiam as fontes que nos informem sobre os seus tempos primevos, a evolução do holandês acha-se excelentemente documentada desde que deu início à batalha contra os elementos, tornando-se, como se sabe, mestre na prática de tirar benefício do formidável poder dos seus inimigos naturais.
Porém, como se essa luta de certo modo lhe tivesse exaurido a capacidade de combater, a partir do momento em que reteve a água com os diques, e conseguiu domar o vento com as pás dos moinhos, transformou-se ele num ser cuja preocupação dominante parece residir num permanente anseio de paz, e a incondicional mantença de harmonias.
Poucos povos se poderão orgulhar, como este, de uma história em que sejam tão poucos os ataques: uma ou duas as invasões; que no seu chão não consigam pegar as raízes daquele tipo de nacionalismo que descamba em barbárie; que talvez só no Oriente se pratique com refinamento igual a arte do compromisso e do consenso.
Contudo, no desleixado mundo em que vivemos, as virtudes e a realidade podem menos que o cliché. E o cliché retrata o holandês como um indivíduo por natureza reservado e sombrio, incapaz de paixão, incómodo no trato. O estereótipo quer também que a sua Holanda seja apenas o país onde ele, calçado de tamancos, numa mão o copo de cerveja e na outra o arenque, caminha lentamente por entre campos coloridos de tulipas.
Felizmente que contra o lugar-comum há antídotos, e o mais eficaz é por certo o de aprender a ver com o coração. O holandês e a Holanda ganham então dimensões que não suspeita quem, apressadamente, superficialmente, apenas sabe ver com os olhos.
E aqui falo por experiência. Uma época houve em que eu próprio tive do país e dos seus habitantes essa estereotipada imagem de buchos-de-cerveja, cabeças-de-queijo, vacas leiteiras atropelando-se numa paisagem feita só de horizonte, ponteada aqui e além por um vulto de moinho.
Mas os deuses foram benévolos comigo e deram-me tempo. Cinquenta anos. Tempo bastante para que aprendesse a ver e me curasse da insensibilidade. Para deixar que o que aos meus olhos parecera informe ganhasse contorno, o aparentemente vulgar desvendasse um refinamento. Para que eu fosse capaz de discernir a sabedoria por detrás do tédio, e de descobrir que as emoções profundas não necessitam, forçosamente, de grandes gestos ou palavras ribombantes.
Claro que Rembrandt, o genial Van Gogh, sempre tinham sido para mim mais que simples nomes ou referências. Esses e outros, porém, colocava-os eu fora do contexto a que pertenciam: eram mundiais, demasiado grandes para a Holanda da deformada imagem de leite, queijo e chateza que eu então me fazia dela. Mas também aí a força da realidade se foi sobrepondo à ignorância, ou melhor: à minha descuidada maneira de ver. Até ao dia em que a visão, ajustando-se, conseguiu finalmente tornar nítido o que até então lhe aparecera difuso e de pouco interesse.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem foi como nos milagres ou nas grandes revelações: em parte nenhuma soaram trombetas, não houve relâmpagos a iluminar o céu, não apareceram vultos a fazer anúncios. Mas com uma satisfação igual à que devem ter ressentido os navegadores do passado, gradualmente dei-me conta de que conseguira “descobrir” outra Holanda, a verdadeira. Que entre mim e ela se estreitavam os laços que tanto tempo tinham permanecido frouxos. Nesse momento, fosse eu poeta, tê-la-ia cantado numa ode.
Que essa inventividade lhe tenha cabido por graça divina, ou ele a tenha simplesmente desenvolvido por iniciativa própria, é questão menos interessante que a de considerar o emprego que, através dos tempos, ele fez de um tão inato pragmatismo.
Se nos anais escasseiam as fontes que nos informem sobre os seus tempos primevos, a evolução do holandês acha-se excelentemente documentada desde que deu início à batalha contra os elementos, tornando-se, como se sabe, mestre na prática de tirar benefício do formidável poder dos seus inimigos naturais.
Porém, como se essa luta de certo modo lhe tivesse exaurido a capacidade de combater, a partir do momento em que reteve a água com os diques, e conseguiu domar o vento com as pás dos moinhos, transformou-se ele num ser cuja preocupação dominante parece residir num permanente anseio de paz, e a incondicional mantença de harmonias.
Poucos povos se poderão orgulhar, como este, de uma história em que sejam tão poucos os ataques: uma ou duas as invasões; que no seu chão não consigam pegar as raízes daquele tipo de nacionalismo que descamba em barbárie; que talvez só no Oriente se pratique com refinamento igual a arte do compromisso e do consenso.
Contudo, no desleixado mundo em que vivemos, as virtudes e a realidade podem menos que o cliché. E o cliché retrata o holandês como um indivíduo por natureza reservado e sombrio, incapaz de paixão, incómodo no trato. O estereótipo quer também que a sua Holanda seja apenas o país onde ele, calçado de tamancos, numa mão o copo de cerveja e na outra o arenque, caminha lentamente por entre campos coloridos de tulipas.
Felizmente que contra o lugar-comum há antídotos, e o mais eficaz é por certo o de aprender a ver com o coração. O holandês e a Holanda ganham então dimensões que não suspeita quem, apressadamente, superficialmente, apenas sabe ver com os olhos.
E aqui falo por experiência. Uma época houve em que eu próprio tive do país e dos seus habitantes essa estereotipada imagem de buchos-de-cerveja, cabeças-de-queijo, vacas leiteiras atropelando-se numa paisagem feita só de horizonte, ponteada aqui e além por um vulto de moinho.
Mas os deuses foram benévolos comigo e deram-me tempo. Cinquenta anos. Tempo bastante para que aprendesse a ver e me curasse da insensibilidade. Para deixar que o que aos meus olhos parecera informe ganhasse contorno, o aparentemente vulgar desvendasse um refinamento. Para que eu fosse capaz de discernir a sabedoria por detrás do tédio, e de descobrir que as emoções profundas não necessitam, forçosamente, de grandes gestos ou palavras ribombantes.
Claro que Rembrandt, o genial Van Gogh, sempre tinham sido para mim mais que simples nomes ou referências. Esses e outros, porém, colocava-os eu fora do contexto a que pertenciam: eram mundiais, demasiado grandes para a Holanda da deformada imagem de leite, queijo e chateza que eu então me fazia dela. Mas também aí a força da realidade se foi sobrepondo à ignorância, ou melhor: à minha descuidada maneira de ver. Até ao dia em que a visão, ajustando-se, conseguiu finalmente tornar nítido o que até então lhe aparecera difuso e de pouco interesse.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem foi como nos milagres ou nas grandes revelações: em parte nenhuma soaram trombetas, não houve relâmpagos a iluminar o céu, não apareceram vultos a fazer anúncios. Mas com uma satisfação igual à que devem ter ressentido os navegadores do passado, gradualmente dei-me conta de que conseguira “descobrir” outra Holanda, a verdadeira. Que entre mim e ela se estreitavam os laços que tanto tempo tinham permanecido frouxos. Nesse momento, fosse eu poeta, tê-la-ia cantado numa ode.
quinta-feira, março 27
Fado, Fátima, Futebol e Figo
Uma recordação de Fevereiro de 2004
Grande descanso dá a ignorância. Vivia eu pouco mais sabendo de Luís Figo que o que apanhava na leitura breve e desinteressada dos cabeçalhos dos jornais. Que era talentoso na sua arte. Que ganhava com os pés as quantias mirabolantes que nem se atreve a sonhar quem, por instrumento, só tem a cabeça. Que quase causara uma revolta quando, com mais proveito do que Judas o fez a Cristo, atraiçoara Barcelona, mudando-se para Madrid.
Recordo também ter visto uma fotografia que o mostrava cercado de banqueiros sorridentes. Numa outra sorria ele a uma beldade que, informava a legenda, era sueca, loira e sua companheira.
Salvo uma outra aparição em cartazes publicitários, ou em fugidias imagens da tv, breve e distante como tinha entrado na minha vida, assim Luís Figo saiu dela. Pelo menos era o que eu julgava, quando de súbito, uma manhã de Dezembro passado, a sua presença se me impôs. De forma indirecta, é facto, mas nem por isso menos contundente.
Quem até há um ano ou dois atrás frequentou o aeroporto do Porto - aquele que, um pouco antes da aterragem dos aviões, as hospedeiras anunciam com o seu oficial e longo nome de “aeroporto Francisco Sá Carneiro” - recordará um edifício de dimensões modestas e ambiente provinciano, com um parque de estacionamento fronteiro às “Partidas e Chegadas” onde pouco mais caberia que uma centena de carros.
Com os preparativos para o Euro 2004 tudo isso mudou. O edifício, renovado, transformado, largamente aumentado, não ficaria mal numa metrópole, e no seu subsolo foi construída uma garagem para talvez mil carros, tão gigantesca que se perde a gente nela.
Numa manhã de Dezembro passado, pois, cheguei eu em grande pressa ao aeroporto do Porto, porque os meus netos corriam o risco de perder o avião que os levaria para Amsterdam.
Parei, expliquei a um dos polícias que rondavam por ali a minha aflição, esperançado, quase certo, de que ele compreenderia a urgência e a necessidade de, apenas por minutos, estacionar o carro junto da entrada, o tempo de levar as crianças e as malas até ao balcão.
Esperança vã. Cheio de autoridade, não me deu resposta nem sequer me encarou, e ainda eu não tinha acabado a explicação já ele fazia girar o cassetete para que me despachasse. Sem outro remédio despachei-me, dei a volta e, mudo de assombro, penetrei pela primeira vez na garagem subterrânea que desconhecia.
Com o choque quase esqueci a urgência que tinha e, olhando em redor, a primeira comparação que me ocorreu foi a de uma catedral. Mas uma catedral vista por olhos de criança. Dimensões esmagadoras.
O tempo, infelizmente, urgia, e eu não estava ali para me embasbacar, sim para o mais depressa possível estacionar o carro. Dei voltas sem conta, estonteado a ponto de em certos momentos não saber onde me encontrava. Vaga não havia nenhuma, das poucas vezes que, perto ou longe, apercebia uma, já alguém mais feliz do que eu se apressava a ocupá-la.
Desesperado como me sentia, julguei que fosse alucinação, mas era realidade: defronte de mim, num chão de ladrilhos luxuosos, junto de um muro onde se abria a porta azul de um ascensor, havia cinco ou seis lugares vagos.
Parei o carro, suspirei de alívio, saí e dei de caras com um polícia que parecia ter-se materializado por milagre.
- É proibido estacionar aqui.
- Mas porquê? Não vejo sinal nenhum!
- E estes cordões?
Na minha agitação eu não tinha reparado nos cordões de veludo vermelho que, sustentados por varas de metal cromado, faziam uma espécie de cerca.
- Dentro deste cordões - explicou ele - é reservado para os VIPs.
E depois, severo, para que eu me desse conta do sacrilégio: - Na semana passada esteve cá o Figo, e estacionou exactamente aqui. Até ouvi dizer que é o lugar dele.
Os netos apanharam o avião, que felizmente se atrasara , e eu, livre de encargos e de pressas, comprei um jornal, fui tomar café.
Grande descanso dá a ignorância, afirmei antes. Mas assim não é. Talvez por ser sábado o jornal trazia um grosso suplemento desportivo, dezenas de páginas a detalhar o que, mau grado a sua importância, escapara à minha atenção. Fui lendo, com o sentimento de estranheza que talvez ressintam os animais quando acordam da hibernação, um sentimento de estar no mundo sem me aperceber do que acontecia em redor.
O aumento do aeroporto, aquelas obras que me tinham parecido grandiosas, tornavam-se uma ninharia se comparadas com o que acontecia no resto do país. Nada menos de dez estádios, dois dos maiores em Lisboa, achavam-se em fase de acabamento, e o jornal, trombeteando, falava de construções gigantescas, ciclópicas. Nenhum país europeu se podia orgulhar de semelhantes obras-primas da arquitectura, de estádios com tanto luxo, ou tecnicamente mais avançados.
A respeito do novo estádio de Braga, projectado por um arquitecto de renome, era um desvario de qualificações: aquilo não era estádio, era uma jóia, uma preciosidade, uma maravilha que, ao ver-se, fazia perder o fôlego. Elegância igual à das suas linhas só talvez existisse nos templos da antiga Grécia. E o jornalista tornava-se ligeiramente libidinoso, ao afirmar que, para encontrar proporções de tão sublime perfeição, seria necessário recorrer ao feminino, sugerindo que, para resultado que se lhe assemelhasse, se teriam de fundir num só os corpos de Nancy Crawford, Kate Moss e Naomi Campbell.
De volta à minha aldeia transmontana contei numa roda de amigos o que me tinha acontecido, o que tinha lido, mas eles, em vez do ar de comiseração que eu esperava, riram-se com azedume da minha falta de interesse e de conhecimentos.
Que não morresse de amores pelo desporto, ainda era de aceitar, mas estava eu pelo menos ao corrente que Portugal tinha recebido o privilégio de organizar no Verão o Euro 2004?
Acenei que sim, julgando apaziguá-los, mas de pouco valeu. Uns mal humorados, outros marcando as palavras com um exagerado gesticular, submeteram a um furioso libelo o meu suposto desamor pela Pátria.
Tinha eu ideia de quantos dezenas de milhões, centenas de milhões de euros, o acontecimento faria entrar nos cofres do Estado? Era eu capaz de calcular o que tão gigantescas obras significavam em postos de trabalho, salários, melhoramento das infraestruturas? Os benefícios que daí viriam, e permaneceriam, para enriquecimento do país? Seria a minha candura tão desmesurada que me impedia de ver o enorme impulso que as centenas de milhar de visitantes, talvez milhões, iriam dar à indústria, ao comércio, à hotelaria, aos restaurantes e aos transportes?
De certeza tinha as suas vantagens o ser-se escritor, continuaram os mais embirrentos. Ao escritor era fácil desdenhar do mundo, e ironizar lá do alto da torre de marfim, mas a dureza da vida, o ter de lutar pelo pão, não se compadece com finezas e sensibilidades.
Que queria eu? Zonas verdes em vez de estádios? Criava isso riqueza? Dava trabalho? Era sinal de progresso? Sabia eu que, por exemplo na Inglaterra, um clube como o Manchester United, tinha um valor muito superior ao de grandes companhias mundiais? Não seria bom se um dos clubes portugueses atingisse iguais pináculos?
Lembro-me vagamente que ainda se falou de que, com bons estádios, forçosamente se geravam condições favoráveis ao aparecimento de novos Figos. Que, de tão fora do comum, seria impossível cifrar o valor da publicidade que, através do mundo, o Euro 2004 ia dar a Portugal.
O mais entusiasta dos meus amigos concluiu dizendo que, não somente semelhante empresa merecia aplauso, mas que os investimentos agora feitos, mesmo sendo de imediato onerosos para as débeis finanças do país, certamente iam render, sabia-se lá?... Duzentos? Quinhentos? Mil porcento?
Despedimo-nos com gracejos, minimizando as nossas diferenças, mas, de cansaço ou exaspero, essa noite foi para mim de insónia.
Num momento a reprovar a minha falta de consideração pelas simpatias e os entusiasmos dos meus amigos, no momento seguinte a tratá-los de alarves, por darem tão desproporcionada importância a um desporto que, mau grado as centenas de milhões dos seus adeptos e os colossais rendimentos, não se me afigura, embora geralmente se afirme o contrário, como sendo uma actividade tendente a elevar a natureza humana, ou a criar harmonia entre as nações.
No dia seguinte, em busca de contra-argumentos de mais peso que o meu desinteresse, liguei o computador, procurei “Luís Figo” na internet, e logo Google me apresentou nada menos de setenta e cinco páginas, cada página com dez hits, cada um destes subdividindo-se num sem número de outras páginas, links, sites, albuns fotográficos, vídeos, cartazes, impressões, artigos, biografias... Um emaranhado que demoraria meses a destrinçar, além de que, fora as línguas mais correntes, se teriam de conhecer outras exóticas, como o coreano, o usbeque, o baasa indonesia, o urdu, e sabe Deus quantas mais.
De pouca dúvida era o facto de que, provavelmente todas esses sites - os que li de certeza ecoavam aqueles de que só pude apreciar as ilustrações - eram um rosário de ditirambos e superlativos, descreviam com minúcia as excepcionais qualidade de Luís Figo como desportista, como futebolista, avançado, português, homem, filho, camarada, filantropo, protector da infância...
Contra-argumentos para rebater o entusiasmo dos amigos não encontrei, e animosidade contra o futebol em geral, ou as suas estrelas em particular, também não sinto. E nessa noite, num momento de mais serenidade, metendo a mão na consciência, tive de concordar que a minha indiferença em relação ao desporto-rei estava longe de ser tão fundamental como pretendia.
Pois não tinha eu, na infância, idolatrado Artur de Sousa, o “Pinga” do F.C. do Porto que, ressalvadas as diferenças dos ganhos, era o Figo desse tempo remoto?
Uma recordação foi trazendo outra, e lá me revi uma tarde de Verão de 53 (ou terá sido 54?), no Parc des Princes, em Paris, a assistir a um Racing-Benfica. Às lembranças esfumadas de outros jogos, talvez ouvidos na rádio, seguiu-se uma muito viva de um Porto-Ajax, em Dezembro de 1987. Depois outra, três ou quatro anos passados, de um Portugal-Turquia na Arena de Amsterdam.
Confuso, e quase descrente de que se me tivesse tornado tão selectiva a memória, revi as horas passadas defronte da televisão, a seguir desafios em que Portugal e a Holanda se defrontavam, hesitando sobre qual a equipa a que deveria dar a minha simpatia.
Mas ao perguntar-me se esses arroubos momentâneos, e tão largamente espaçados, fariam de mim um tifoso, vi-me obrigado a responder pela negativa, pois o futebol só muito esporadicamente entra na minha vida, sempre com o aspecto de uma ligeira febre que pouco mais dura que os noventa minutos do jogo.
Contudo, passada a excitação e retomando os sentidos, devo confessar que o futebol me preocupa. Não como desporto, fenómeno social, ou espectáculo que em redor do mundo diverte e emociona centenas de milhões. O futebol preocupa-me, sim, muito egoisticamente, no que ele em Portugal, a minha outra pátria, tem de comum com a situação de Panem et circenses, que já no séc. II da nossa era o poeta Juvenal criticava em Roma.
Não me regozijo no papel de pisse-vinaigre, e parecerá extemporâneo, deslocadamente azedo, mesmo inconveniente, tocar semelhantes assuntos num tempo de tão grande euforia. Mas certo e seguro chegará o momento em que os jogos terminam, a euforia passa e, encerrado o Euro 2004, ao fazer-se as contas, bem aleatória se tornará a certeza de que haja pão para todos.
Que se me perdoe o desabafo, mas estonteia-me o facto que num país tão necessitado, neste momento e de novo o mais pobre da Europa, se tenha gasto um bilião de euros na construção e na renovação de dez estádios.
Isso com a benção de um governo risonho e optimista que, com o primeiro-ministro à frente, foi a um desses estádios e, na presença de 50.000 almas, ignorantes ou preferindo esquecer a miséria de que já sofrem, e aquela que as espera, deu o pontapé de saída ao Euro 2004.
Perdoe-se-me ainda esta ladainha de misérias, infelizmente tão bem expressa na secura dos números. Em 2003 a economia portuguesa diminuiu de 1.1% , ocupando o último lugar que, desde 1986 a 2001 coubera à Grécia. No que respeita a inflacção e o desemprego constatam-se em Portugal os maiores aumentos entre os dos países membros da UE. Enquanto na UE os preços dos bens de consumo aumentaram em média 1.8%, em Portugal a subida foi de 4.4% , e o desemprego passou de 4.1 para 7.2 porcento.
Felizmente, nem tudo são más notícias, pelo menos para alguns: os executivos portugueses recebem os honorários mais elevados da UE. O salário dos directores das empresas públicas é três vezes maior que o dos seus colegas espanhóis ou franceses, e os jornalistas mais importantes da televisão pública auferem ordenados quatro vezes maiores que o mais reputado anchor man da RAI italiana.
Por sua vez o salário mínimo é de apenas 365 euros mensais, enquanto o salário médio dos trabalhadores industriais é de 828 euros, o que equivale a 53% do salário industrial médio que recebe um espanhol, e metade do que ganha um irlandês, um sueco ou um italiano. Os docentes nas escolas e universidades, funcionários públicos, recebem em média o dobro dos seus colegas da EU.
Seria fácil deitar as culpas ao actual governo, conservador e direitista, por dissipar os dinheiros públicos. Acontece, porém, que o esbanjamento já vem do governo anterior, socialista e dito de esquerda, o qual, eleito com a promessa de que terminaria com o favoritismo, e apoiado no slogan optimista “no jobs for the boys”, logo elevou o número de burocratas para mais de 700.000, extraordinária sobrecarga para uma população de 10 milhões.
Ao governo socialista se deve também aquilo a que os analistas chamam the Latin America-style gap da economia portuguesa, com as enormes diferenças que se constantam entre ricos e pobres. E essas não dizem apenas respeito às abismais diferenças dos rendimentos, mas reflectem-se nas comparações com os restantes países da EU, no que concerne o número de horas de trabalho e o acesso aos serviços de saúde pública, à educação e à cultura.
Enquanto que a média de trabalho anual nos outros países da UE é de 1.620 horas, a média portuguesa eleva-se a 1.730. Nos hospitais públicos a lista de espera para operações de cirurgia é de seis anos, e por ser exorbitante o custo dos cuidados dentários, apenas 35% da população se pode permitir o luxo de recorrer ao dentista.
No seu relatório Employment in Europe, a Comissão Europeia aponta que 20% da população portuguesa tem problemas de saúde, enquanto que a média europeia é de 10%. É também em Portugal que se constatam os níveis europeus mais elevados de reumatismo, tensão arterial e diabetes.
Tudo isso já seria mau, mas a lista alonga-se a outros campos de desgraça. Portugal é nr. 1 europeu no número de mortos em acidentes rodoviários. A proporção de acidentes no trabalho alcança 7.214 por cada 100.000 habitantes, triste resultado quando comparado com a média europeia de 4.450. Portugal acusa ainda os níveis europeus mais elevados no consumo de soft drugs, nos casos de SIDA, e de brutalidade policial, este último mantendo-o na lista negra da Amnesty International.
Nas estatísticas oficiais a percentagem de analfabetos aparece como alcançando uns meros 11.8% , mas no relatório antes mencionado o número de portugueses que se podem considerar como funcionalmente iletrados sobe a um assustador 48%, mais do que o dobro do nível verificado na Grã-Bretanha.
Confrontado com estas estatísticas, um comentador escrevia recentemente: “Portugal já tocou no fundo, mas era um fundo falso. Por isso continuamos a cair, desconhecendo o que nos vai acontecer quando chegarmos ao verdadeiro fundo.”
O acesso à UE de dez novos países membros, todos eles com níveis quase-zero de analfabetismo, amplo acesso à cultura e excelente capacidade técnica, resultará para um país economicamente, culturalmente e técnicamente fraco, como Portugal, num inevitável retrocesso e num, igualmente inevitável, desinteresse dos investidores.
Tal como já tantas vezes aconteceu na sua longa história, o país encontra-se de novo à beira de um precipício. Em 1986 salvou-o a adesão à CEE, mas logo, como um doidivanas, em vez de investir sabiamente os desproporcionados subsídios que recebeu, desbaratou-os ele em luxos de novo-rico. Agora talvez tenha de o salvar a Espanha, de que economicamente já depende.
Após um tão longo rosário de misérias e maus presságios, é justo que o leitor se pergunte o que é que isto tem a ver com Figo em particular, e o futebol em geral.
Em minha opinião tem muito, pois não somente o futebolismo é desde há décadas a religião oficiosa dos portugueses, como fez com que no país se erguessem as gigantescas basílicas onde figuras como Luís Figo recebem uma adoração que, em fervor, nada fica a dever à que nos altares cabe aos santos. E será redundante lembrar aqui a frase de Lenine sobre a religião como ópio do povo, mas não é menos certo que, pelo menos o espaço de um Verão, a euforia do campeonato fará esquecer as nuvens negras que se acumulam a prenunciar um tempestuoso futuro.
Os portugueses - extraordinária gente, 10 milhões de almas que possuem mais de 11 milhões de telemóveis, e gastam em telecomunicações três vezes mais no que na educação - continuam a exprimir no fado a sua inata e intensa melancolia, e ainda vão de romagem a Fátima. Verdadeiro e apaixonado fervor, porém, só o mostram no estádio, revendo-se extasiados nas piruetas dos seus futebolistas.
Isto foi o desabafo, mas a consciência e a verdade mandam que se lhe siga a confissão. Estarei em Portugal logo desde o começo do Euro 2004, e não vou perder a abertura, nem aqueles jogos que, um eventual Portugal-Holanda por exemplo, provarão a dificuldade de manter o espírito escorreito em alguém que, como eu, vive em simultâneo duas vidas, possui duas sensibilidades diferentes, se exprime em duas línguas discordantes, se sente dilacerado por interesses contraditórios e visões opostas da realidade.
Não irei aos estádios, porque sempre me assustaram os grandes ajuntamentos, mas sozinho ou com os amigos assistirei na televisão, o entusiasmo há-de contagiar-me, também vou aplaudir. E enquanto o jogo durar vou esquecer.
Grande descanso dá a ignorância. Vivia eu pouco mais sabendo de Luís Figo que o que apanhava na leitura breve e desinteressada dos cabeçalhos dos jornais. Que era talentoso na sua arte. Que ganhava com os pés as quantias mirabolantes que nem se atreve a sonhar quem, por instrumento, só tem a cabeça. Que quase causara uma revolta quando, com mais proveito do que Judas o fez a Cristo, atraiçoara Barcelona, mudando-se para Madrid.
Recordo também ter visto uma fotografia que o mostrava cercado de banqueiros sorridentes. Numa outra sorria ele a uma beldade que, informava a legenda, era sueca, loira e sua companheira.
Salvo uma outra aparição em cartazes publicitários, ou em fugidias imagens da tv, breve e distante como tinha entrado na minha vida, assim Luís Figo saiu dela. Pelo menos era o que eu julgava, quando de súbito, uma manhã de Dezembro passado, a sua presença se me impôs. De forma indirecta, é facto, mas nem por isso menos contundente.
Quem até há um ano ou dois atrás frequentou o aeroporto do Porto - aquele que, um pouco antes da aterragem dos aviões, as hospedeiras anunciam com o seu oficial e longo nome de “aeroporto Francisco Sá Carneiro” - recordará um edifício de dimensões modestas e ambiente provinciano, com um parque de estacionamento fronteiro às “Partidas e Chegadas” onde pouco mais caberia que uma centena de carros.
Com os preparativos para o Euro 2004 tudo isso mudou. O edifício, renovado, transformado, largamente aumentado, não ficaria mal numa metrópole, e no seu subsolo foi construída uma garagem para talvez mil carros, tão gigantesca que se perde a gente nela.
Numa manhã de Dezembro passado, pois, cheguei eu em grande pressa ao aeroporto do Porto, porque os meus netos corriam o risco de perder o avião que os levaria para Amsterdam.
Parei, expliquei a um dos polícias que rondavam por ali a minha aflição, esperançado, quase certo, de que ele compreenderia a urgência e a necessidade de, apenas por minutos, estacionar o carro junto da entrada, o tempo de levar as crianças e as malas até ao balcão.
Esperança vã. Cheio de autoridade, não me deu resposta nem sequer me encarou, e ainda eu não tinha acabado a explicação já ele fazia girar o cassetete para que me despachasse. Sem outro remédio despachei-me, dei a volta e, mudo de assombro, penetrei pela primeira vez na garagem subterrânea que desconhecia.
Com o choque quase esqueci a urgência que tinha e, olhando em redor, a primeira comparação que me ocorreu foi a de uma catedral. Mas uma catedral vista por olhos de criança. Dimensões esmagadoras.
O tempo, infelizmente, urgia, e eu não estava ali para me embasbacar, sim para o mais depressa possível estacionar o carro. Dei voltas sem conta, estonteado a ponto de em certos momentos não saber onde me encontrava. Vaga não havia nenhuma, das poucas vezes que, perto ou longe, apercebia uma, já alguém mais feliz do que eu se apressava a ocupá-la.
Desesperado como me sentia, julguei que fosse alucinação, mas era realidade: defronte de mim, num chão de ladrilhos luxuosos, junto de um muro onde se abria a porta azul de um ascensor, havia cinco ou seis lugares vagos.
Parei o carro, suspirei de alívio, saí e dei de caras com um polícia que parecia ter-se materializado por milagre.
- É proibido estacionar aqui.
- Mas porquê? Não vejo sinal nenhum!
- E estes cordões?
Na minha agitação eu não tinha reparado nos cordões de veludo vermelho que, sustentados por varas de metal cromado, faziam uma espécie de cerca.
- Dentro deste cordões - explicou ele - é reservado para os VIPs.
E depois, severo, para que eu me desse conta do sacrilégio: - Na semana passada esteve cá o Figo, e estacionou exactamente aqui. Até ouvi dizer que é o lugar dele.
Os netos apanharam o avião, que felizmente se atrasara , e eu, livre de encargos e de pressas, comprei um jornal, fui tomar café.
Grande descanso dá a ignorância, afirmei antes. Mas assim não é. Talvez por ser sábado o jornal trazia um grosso suplemento desportivo, dezenas de páginas a detalhar o que, mau grado a sua importância, escapara à minha atenção. Fui lendo, com o sentimento de estranheza que talvez ressintam os animais quando acordam da hibernação, um sentimento de estar no mundo sem me aperceber do que acontecia em redor.
O aumento do aeroporto, aquelas obras que me tinham parecido grandiosas, tornavam-se uma ninharia se comparadas com o que acontecia no resto do país. Nada menos de dez estádios, dois dos maiores em Lisboa, achavam-se em fase de acabamento, e o jornal, trombeteando, falava de construções gigantescas, ciclópicas. Nenhum país europeu se podia orgulhar de semelhantes obras-primas da arquitectura, de estádios com tanto luxo, ou tecnicamente mais avançados.
A respeito do novo estádio de Braga, projectado por um arquitecto de renome, era um desvario de qualificações: aquilo não era estádio, era uma jóia, uma preciosidade, uma maravilha que, ao ver-se, fazia perder o fôlego. Elegância igual à das suas linhas só talvez existisse nos templos da antiga Grécia. E o jornalista tornava-se ligeiramente libidinoso, ao afirmar que, para encontrar proporções de tão sublime perfeição, seria necessário recorrer ao feminino, sugerindo que, para resultado que se lhe assemelhasse, se teriam de fundir num só os corpos de Nancy Crawford, Kate Moss e Naomi Campbell.
De volta à minha aldeia transmontana contei numa roda de amigos o que me tinha acontecido, o que tinha lido, mas eles, em vez do ar de comiseração que eu esperava, riram-se com azedume da minha falta de interesse e de conhecimentos.
Que não morresse de amores pelo desporto, ainda era de aceitar, mas estava eu pelo menos ao corrente que Portugal tinha recebido o privilégio de organizar no Verão o Euro 2004?
Acenei que sim, julgando apaziguá-los, mas de pouco valeu. Uns mal humorados, outros marcando as palavras com um exagerado gesticular, submeteram a um furioso libelo o meu suposto desamor pela Pátria.
Tinha eu ideia de quantos dezenas de milhões, centenas de milhões de euros, o acontecimento faria entrar nos cofres do Estado? Era eu capaz de calcular o que tão gigantescas obras significavam em postos de trabalho, salários, melhoramento das infraestruturas? Os benefícios que daí viriam, e permaneceriam, para enriquecimento do país? Seria a minha candura tão desmesurada que me impedia de ver o enorme impulso que as centenas de milhar de visitantes, talvez milhões, iriam dar à indústria, ao comércio, à hotelaria, aos restaurantes e aos transportes?
De certeza tinha as suas vantagens o ser-se escritor, continuaram os mais embirrentos. Ao escritor era fácil desdenhar do mundo, e ironizar lá do alto da torre de marfim, mas a dureza da vida, o ter de lutar pelo pão, não se compadece com finezas e sensibilidades.
Que queria eu? Zonas verdes em vez de estádios? Criava isso riqueza? Dava trabalho? Era sinal de progresso? Sabia eu que, por exemplo na Inglaterra, um clube como o Manchester United, tinha um valor muito superior ao de grandes companhias mundiais? Não seria bom se um dos clubes portugueses atingisse iguais pináculos?
Lembro-me vagamente que ainda se falou de que, com bons estádios, forçosamente se geravam condições favoráveis ao aparecimento de novos Figos. Que, de tão fora do comum, seria impossível cifrar o valor da publicidade que, através do mundo, o Euro 2004 ia dar a Portugal.
O mais entusiasta dos meus amigos concluiu dizendo que, não somente semelhante empresa merecia aplauso, mas que os investimentos agora feitos, mesmo sendo de imediato onerosos para as débeis finanças do país, certamente iam render, sabia-se lá?... Duzentos? Quinhentos? Mil porcento?
Despedimo-nos com gracejos, minimizando as nossas diferenças, mas, de cansaço ou exaspero, essa noite foi para mim de insónia.
Num momento a reprovar a minha falta de consideração pelas simpatias e os entusiasmos dos meus amigos, no momento seguinte a tratá-los de alarves, por darem tão desproporcionada importância a um desporto que, mau grado as centenas de milhões dos seus adeptos e os colossais rendimentos, não se me afigura, embora geralmente se afirme o contrário, como sendo uma actividade tendente a elevar a natureza humana, ou a criar harmonia entre as nações.
No dia seguinte, em busca de contra-argumentos de mais peso que o meu desinteresse, liguei o computador, procurei “Luís Figo” na internet, e logo Google me apresentou nada menos de setenta e cinco páginas, cada página com dez hits, cada um destes subdividindo-se num sem número de outras páginas, links, sites, albuns fotográficos, vídeos, cartazes, impressões, artigos, biografias... Um emaranhado que demoraria meses a destrinçar, além de que, fora as línguas mais correntes, se teriam de conhecer outras exóticas, como o coreano, o usbeque, o baasa indonesia, o urdu, e sabe Deus quantas mais.
De pouca dúvida era o facto de que, provavelmente todas esses sites - os que li de certeza ecoavam aqueles de que só pude apreciar as ilustrações - eram um rosário de ditirambos e superlativos, descreviam com minúcia as excepcionais qualidade de Luís Figo como desportista, como futebolista, avançado, português, homem, filho, camarada, filantropo, protector da infância...
Contra-argumentos para rebater o entusiasmo dos amigos não encontrei, e animosidade contra o futebol em geral, ou as suas estrelas em particular, também não sinto. E nessa noite, num momento de mais serenidade, metendo a mão na consciência, tive de concordar que a minha indiferença em relação ao desporto-rei estava longe de ser tão fundamental como pretendia.
Pois não tinha eu, na infância, idolatrado Artur de Sousa, o “Pinga” do F.C. do Porto que, ressalvadas as diferenças dos ganhos, era o Figo desse tempo remoto?
Uma recordação foi trazendo outra, e lá me revi uma tarde de Verão de 53 (ou terá sido 54?), no Parc des Princes, em Paris, a assistir a um Racing-Benfica. Às lembranças esfumadas de outros jogos, talvez ouvidos na rádio, seguiu-se uma muito viva de um Porto-Ajax, em Dezembro de 1987. Depois outra, três ou quatro anos passados, de um Portugal-Turquia na Arena de Amsterdam.
Confuso, e quase descrente de que se me tivesse tornado tão selectiva a memória, revi as horas passadas defronte da televisão, a seguir desafios em que Portugal e a Holanda se defrontavam, hesitando sobre qual a equipa a que deveria dar a minha simpatia.
Mas ao perguntar-me se esses arroubos momentâneos, e tão largamente espaçados, fariam de mim um tifoso, vi-me obrigado a responder pela negativa, pois o futebol só muito esporadicamente entra na minha vida, sempre com o aspecto de uma ligeira febre que pouco mais dura que os noventa minutos do jogo.
Contudo, passada a excitação e retomando os sentidos, devo confessar que o futebol me preocupa. Não como desporto, fenómeno social, ou espectáculo que em redor do mundo diverte e emociona centenas de milhões. O futebol preocupa-me, sim, muito egoisticamente, no que ele em Portugal, a minha outra pátria, tem de comum com a situação de Panem et circenses, que já no séc. II da nossa era o poeta Juvenal criticava em Roma.
Não me regozijo no papel de pisse-vinaigre, e parecerá extemporâneo, deslocadamente azedo, mesmo inconveniente, tocar semelhantes assuntos num tempo de tão grande euforia. Mas certo e seguro chegará o momento em que os jogos terminam, a euforia passa e, encerrado o Euro 2004, ao fazer-se as contas, bem aleatória se tornará a certeza de que haja pão para todos.
Que se me perdoe o desabafo, mas estonteia-me o facto que num país tão necessitado, neste momento e de novo o mais pobre da Europa, se tenha gasto um bilião de euros na construção e na renovação de dez estádios.
Isso com a benção de um governo risonho e optimista que, com o primeiro-ministro à frente, foi a um desses estádios e, na presença de 50.000 almas, ignorantes ou preferindo esquecer a miséria de que já sofrem, e aquela que as espera, deu o pontapé de saída ao Euro 2004.
Perdoe-se-me ainda esta ladainha de misérias, infelizmente tão bem expressa na secura dos números. Em 2003 a economia portuguesa diminuiu de 1.1% , ocupando o último lugar que, desde 1986 a 2001 coubera à Grécia. No que respeita a inflacção e o desemprego constatam-se em Portugal os maiores aumentos entre os dos países membros da UE. Enquanto na UE os preços dos bens de consumo aumentaram em média 1.8%, em Portugal a subida foi de 4.4% , e o desemprego passou de 4.1 para 7.2 porcento.
Felizmente, nem tudo são más notícias, pelo menos para alguns: os executivos portugueses recebem os honorários mais elevados da UE. O salário dos directores das empresas públicas é três vezes maior que o dos seus colegas espanhóis ou franceses, e os jornalistas mais importantes da televisão pública auferem ordenados quatro vezes maiores que o mais reputado anchor man da RAI italiana.
Por sua vez o salário mínimo é de apenas 365 euros mensais, enquanto o salário médio dos trabalhadores industriais é de 828 euros, o que equivale a 53% do salário industrial médio que recebe um espanhol, e metade do que ganha um irlandês, um sueco ou um italiano. Os docentes nas escolas e universidades, funcionários públicos, recebem em média o dobro dos seus colegas da EU.
Seria fácil deitar as culpas ao actual governo, conservador e direitista, por dissipar os dinheiros públicos. Acontece, porém, que o esbanjamento já vem do governo anterior, socialista e dito de esquerda, o qual, eleito com a promessa de que terminaria com o favoritismo, e apoiado no slogan optimista “no jobs for the boys”, logo elevou o número de burocratas para mais de 700.000, extraordinária sobrecarga para uma população de 10 milhões.
Ao governo socialista se deve também aquilo a que os analistas chamam the Latin America-style gap da economia portuguesa, com as enormes diferenças que se constantam entre ricos e pobres. E essas não dizem apenas respeito às abismais diferenças dos rendimentos, mas reflectem-se nas comparações com os restantes países da EU, no que concerne o número de horas de trabalho e o acesso aos serviços de saúde pública, à educação e à cultura.
Enquanto que a média de trabalho anual nos outros países da UE é de 1.620 horas, a média portuguesa eleva-se a 1.730. Nos hospitais públicos a lista de espera para operações de cirurgia é de seis anos, e por ser exorbitante o custo dos cuidados dentários, apenas 35% da população se pode permitir o luxo de recorrer ao dentista.
No seu relatório Employment in Europe, a Comissão Europeia aponta que 20% da população portuguesa tem problemas de saúde, enquanto que a média europeia é de 10%. É também em Portugal que se constatam os níveis europeus mais elevados de reumatismo, tensão arterial e diabetes.
Tudo isso já seria mau, mas a lista alonga-se a outros campos de desgraça. Portugal é nr. 1 europeu no número de mortos em acidentes rodoviários. A proporção de acidentes no trabalho alcança 7.214 por cada 100.000 habitantes, triste resultado quando comparado com a média europeia de 4.450. Portugal acusa ainda os níveis europeus mais elevados no consumo de soft drugs, nos casos de SIDA, e de brutalidade policial, este último mantendo-o na lista negra da Amnesty International.
Nas estatísticas oficiais a percentagem de analfabetos aparece como alcançando uns meros 11.8% , mas no relatório antes mencionado o número de portugueses que se podem considerar como funcionalmente iletrados sobe a um assustador 48%, mais do que o dobro do nível verificado na Grã-Bretanha.
Confrontado com estas estatísticas, um comentador escrevia recentemente: “Portugal já tocou no fundo, mas era um fundo falso. Por isso continuamos a cair, desconhecendo o que nos vai acontecer quando chegarmos ao verdadeiro fundo.”
O acesso à UE de dez novos países membros, todos eles com níveis quase-zero de analfabetismo, amplo acesso à cultura e excelente capacidade técnica, resultará para um país economicamente, culturalmente e técnicamente fraco, como Portugal, num inevitável retrocesso e num, igualmente inevitável, desinteresse dos investidores.
Tal como já tantas vezes aconteceu na sua longa história, o país encontra-se de novo à beira de um precipício. Em 1986 salvou-o a adesão à CEE, mas logo, como um doidivanas, em vez de investir sabiamente os desproporcionados subsídios que recebeu, desbaratou-os ele em luxos de novo-rico. Agora talvez tenha de o salvar a Espanha, de que economicamente já depende.
Após um tão longo rosário de misérias e maus presságios, é justo que o leitor se pergunte o que é que isto tem a ver com Figo em particular, e o futebol em geral.
Em minha opinião tem muito, pois não somente o futebolismo é desde há décadas a religião oficiosa dos portugueses, como fez com que no país se erguessem as gigantescas basílicas onde figuras como Luís Figo recebem uma adoração que, em fervor, nada fica a dever à que nos altares cabe aos santos. E será redundante lembrar aqui a frase de Lenine sobre a religião como ópio do povo, mas não é menos certo que, pelo menos o espaço de um Verão, a euforia do campeonato fará esquecer as nuvens negras que se acumulam a prenunciar um tempestuoso futuro.
Os portugueses - extraordinária gente, 10 milhões de almas que possuem mais de 11 milhões de telemóveis, e gastam em telecomunicações três vezes mais no que na educação - continuam a exprimir no fado a sua inata e intensa melancolia, e ainda vão de romagem a Fátima. Verdadeiro e apaixonado fervor, porém, só o mostram no estádio, revendo-se extasiados nas piruetas dos seus futebolistas.
Isto foi o desabafo, mas a consciência e a verdade mandam que se lhe siga a confissão. Estarei em Portugal logo desde o começo do Euro 2004, e não vou perder a abertura, nem aqueles jogos que, um eventual Portugal-Holanda por exemplo, provarão a dificuldade de manter o espírito escorreito em alguém que, como eu, vive em simultâneo duas vidas, possui duas sensibilidades diferentes, se exprime em duas línguas discordantes, se sente dilacerado por interesses contraditórios e visões opostas da realidade.
Não irei aos estádios, porque sempre me assustaram os grandes ajuntamentos, mas sozinho ou com os amigos assistirei na televisão, o entusiasmo há-de contagiar-me, também vou aplaudir. E enquanto o jogo durar vou esquecer.
segunda-feira, março 24
Anedota
Contaram-mo como verdadeiro, parece anedota. Eu gostaria que fosse anedota.
Num colégio americano, desses para filhos dos super-ricos, um docente achou útil que os seus pupilos testemunhassem sobre as desigualdades sociais, e mandou que redigissem um texto sobre as circunstâncias de uma família pobre.
Uma das “pérolas” rezava assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. As criadas eram pobres e a cozinheira também era pobre. O chofer era pobre. O jardineiro era pobre. A piscina estava sempre suja e não tinha água."
Num colégio americano, desses para filhos dos super-ricos, um docente achou útil que os seus pupilos testemunhassem sobre as desigualdades sociais, e mandou que redigissem um texto sobre as circunstâncias de uma família pobre.
Uma das “pérolas” rezava assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. As criadas eram pobres e a cozinheira também era pobre. O chofer era pobre. O jardineiro era pobre. A piscina estava sempre suja e não tinha água."
quinta-feira, março 20
ESTÁ PARA BREVE!
O Arturzinho quer saber quando é que a loja reabre, ou a barca recomeça a navegação. Está para breve, mas primeiro há que festejar as Páscoas!
sexta-feira, março 14
Recordações do vinho (4)
O “vinho americano” vendia-se então às escondidas. E porque era ilegal, sabia bem. Os lavradores faziam-no com as uvas das castas importadas da América nos fins do séc. 19 e resistentes à filoxera.
Nos anos remotos da minha infância a posse dessas videiras era proibida (a Guarda Republicana tinha ordem de as arrancar, mas quase sempre fechava os olhos) a feitura do vinho idem, a venda do mesmo sujeita a fortes multas.
Por isso o negócio do “vinho americano” florescia. Creio que hoje a proibição continua, e as leis de Bruxelas são mais estritas, além de que, ao que parece, o “vinho americano” é mau para a saúde. Mas se um destes dias você passar pelas terras do vinho verde, informe-se discretamente sobre o “vinho americano”. Se o conseguir encontrar, prove-o, e apreciará o que, além do atractivo de fruto proibido, sempre tornou esse vinho tão distinto e peculiar: o seu incontestável cheiro a percevejo. *)
Como era de tradição, uns dias antes do Natal começavam a chegar a nossa casa os presentes oferecidos pelas firmas do Vinho do Porto. Regra geral uma ou duas caixas com garrafas de boa qualidade, e sempre algumas de “vintage”.
As caixas eram de madeira fina, as garrafas protegidas por uma capa de palha. Mas a mim não interessava o vinho, interessavam os brindes escondidos no fundo: saca-rolhas engenhosos, miniaturas de faiança, soberbas navalhas com cabo de osso. Dessas fiz colecção, mas um dia troquei-as estupidamente por um livro intitulado Orgias no Convento, de leitura decepcionante e com gravuras que nada acrescentaram à ciência que eu já então possuía.
Hoje os fortificantes compram-se na farmácia e têm o sabor artificial que lhes dão na fábrica. In illo tempore a gemada era o fortificante ideal e universal. Dava-se aos bébés, às crianças, aos convalescentes, aos velhos, às grávidas, aos tuberculosos e aos que sofriam de humores sombrios.
Se a desconhece não perderá nada em experimentar a receita, modelar na sua simplicidade: bata quatro gemas de ovo com quatro colheres de açúcar, junte dois cálices cheios até à borda de vinho fino, remexa e beba.
------------
*) Haverá ainda quem reconheça o cheiro do percevejo?
Nos anos remotos da minha infância a posse dessas videiras era proibida (a Guarda Republicana tinha ordem de as arrancar, mas quase sempre fechava os olhos) a feitura do vinho idem, a venda do mesmo sujeita a fortes multas.
Por isso o negócio do “vinho americano” florescia. Creio que hoje a proibição continua, e as leis de Bruxelas são mais estritas, além de que, ao que parece, o “vinho americano” é mau para a saúde. Mas se um destes dias você passar pelas terras do vinho verde, informe-se discretamente sobre o “vinho americano”. Se o conseguir encontrar, prove-o, e apreciará o que, além do atractivo de fruto proibido, sempre tornou esse vinho tão distinto e peculiar: o seu incontestável cheiro a percevejo. *)
Como era de tradição, uns dias antes do Natal começavam a chegar a nossa casa os presentes oferecidos pelas firmas do Vinho do Porto. Regra geral uma ou duas caixas com garrafas de boa qualidade, e sempre algumas de “vintage”.
As caixas eram de madeira fina, as garrafas protegidas por uma capa de palha. Mas a mim não interessava o vinho, interessavam os brindes escondidos no fundo: saca-rolhas engenhosos, miniaturas de faiança, soberbas navalhas com cabo de osso. Dessas fiz colecção, mas um dia troquei-as estupidamente por um livro intitulado Orgias no Convento, de leitura decepcionante e com gravuras que nada acrescentaram à ciência que eu já então possuía.
Hoje os fortificantes compram-se na farmácia e têm o sabor artificial que lhes dão na fábrica. In illo tempore a gemada era o fortificante ideal e universal. Dava-se aos bébés, às crianças, aos convalescentes, aos velhos, às grávidas, aos tuberculosos e aos que sofriam de humores sombrios.
Se a desconhece não perderá nada em experimentar a receita, modelar na sua simplicidade: bata quatro gemas de ovo com quatro colheres de açúcar, junte dois cálices cheios até à borda de vinho fino, remexa e beba.
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*) Haverá ainda quem reconheça o cheiro do percevejo?
quinta-feira, março 13
Recordações do vinho (3)
Porque o trabalho era muito e os braços poucos, o monte de mosto seco ficava tempos à espera de ser distilado. Finalmente uma manhã - na minha recordação manhãs em que o ar tinha já uma frescura de Outono - o alambique era instalado e atestado, as caldeiras preparadas, a fogueira acesa, o garrafão posto na ponta do cano.
Os homens traziam banquinhos para se sentar e esperavam pacientes, enquanto as gotas de aguardente caíam uma a uma, límpidas como chuva de Inverno. Depois vinha a prova. Para a maioria em jejum. O copo passava de mão em mão, e dele bebiam grandes, pequenos, as mulheres que adregavam passar, os anciãos que tinham fé no poder da aguardente nova.
De facto a aguardente conta por muito na cura das minhas constipações da infância. De cada vez que começava a tossir e a ficar ranhoso, metiam-me na cama e na mesinha de cabeceira, num prato fundo de esmalte, era deitada uma generosa quantidade de aguardente.
Aquecia-se o prato à luz duma vela e o líquido era de seguida incendiado com um fósforo.À medida que ardia juntavam-lhe lentamente, mexendo com uma colher, algumas gotas de sumo de limão e umas cinco ou seis colheres grandes de açúcar. Assim que a chama começava a diminuir tapavam-na com outro prato para que se apagasse. O líquido, amarelado, licoroso, deliciosamente doce, era depois deitado numa xícara e bebido devagar. Daí resultavam fortes suores e um longo sono reparador a que nenhuma constipação resistia.
O largo onde nasci, em Vila Nova de Gaia, tinha a vantagem de se situar num montículo com um esplêndido panorama. Ao mesmo tempo dir-se-ia uma ilha rodeada por um mar de telhados, os dos grandes armazéns onde envelheciam, envelhecem ainda, milhões de garrafas do Vinho do Porto. Em muitos desses telhados achavam-se escritos em letras desmesuradas os nomes das firmas proprietárias. Eu, criança, soletrava-os mesmerizado, supondo mágica na estranheza das suas grafias: Kopke, Cálem, Cokburn, Ramos Pinto, Ferreirinha, Gonzalez Byass, Delaforce, Morgan, Niepoort...
Muitas das mulheres pobres da vizinhança ganhavam o pão como engarrafadeiras, trabalho que só parecia leve porque passavam o dia sentadas a arrolhar numa maquineta as garrafas que lhes iam pondo diante. Para que nenhuma caísse na tentação de beber da garrafa antes de a arrolhar, envolvê-la em palha e metê-la na caixa, o controle era estrito e o castigo o mais pesado: olho da rua sem perdão, nenhuma esperança de encontrar de novo trabalho semelhante.
Os capatazes concediam-lhes, contudo, um privilégio: garrafa que quebrasse no arrolhamento podia ser bebida. E pelo dia adiante quebravam-se umas quantas. Por isso ao fim da tarde, quando saíam do trabalho, na calçda que levava dos armazéns ao nosso largo só se viam mulheres bêbadas. Caminhavam aos bordos, davam gargalhadas insanas, iam de braço dado, disfarçando a tontura da bebedeira com passos de dança.
De vez em quando uma tropeçava, estatelava-se, erguia-se dando palavrões. Algumas sentavam-se um momento no passeio, sem decoro, as pernas abertas, a cabeça pendente, até que uma companheira mais sóbria as vinha puxar.
Eu, que a essa hora voltava sozinho da escola, caminhava fascinado e temeroso rente à parede.
Os homens traziam banquinhos para se sentar e esperavam pacientes, enquanto as gotas de aguardente caíam uma a uma, límpidas como chuva de Inverno. Depois vinha a prova. Para a maioria em jejum. O copo passava de mão em mão, e dele bebiam grandes, pequenos, as mulheres que adregavam passar, os anciãos que tinham fé no poder da aguardente nova.
De facto a aguardente conta por muito na cura das minhas constipações da infância. De cada vez que começava a tossir e a ficar ranhoso, metiam-me na cama e na mesinha de cabeceira, num prato fundo de esmalte, era deitada uma generosa quantidade de aguardente.
Aquecia-se o prato à luz duma vela e o líquido era de seguida incendiado com um fósforo.À medida que ardia juntavam-lhe lentamente, mexendo com uma colher, algumas gotas de sumo de limão e umas cinco ou seis colheres grandes de açúcar. Assim que a chama começava a diminuir tapavam-na com outro prato para que se apagasse. O líquido, amarelado, licoroso, deliciosamente doce, era depois deitado numa xícara e bebido devagar. Daí resultavam fortes suores e um longo sono reparador a que nenhuma constipação resistia.
O largo onde nasci, em Vila Nova de Gaia, tinha a vantagem de se situar num montículo com um esplêndido panorama. Ao mesmo tempo dir-se-ia uma ilha rodeada por um mar de telhados, os dos grandes armazéns onde envelheciam, envelhecem ainda, milhões de garrafas do Vinho do Porto. Em muitos desses telhados achavam-se escritos em letras desmesuradas os nomes das firmas proprietárias. Eu, criança, soletrava-os mesmerizado, supondo mágica na estranheza das suas grafias: Kopke, Cálem, Cokburn, Ramos Pinto, Ferreirinha, Gonzalez Byass, Delaforce, Morgan, Niepoort...
Muitas das mulheres pobres da vizinhança ganhavam o pão como engarrafadeiras, trabalho que só parecia leve porque passavam o dia sentadas a arrolhar numa maquineta as garrafas que lhes iam pondo diante. Para que nenhuma caísse na tentação de beber da garrafa antes de a arrolhar, envolvê-la em palha e metê-la na caixa, o controle era estrito e o castigo o mais pesado: olho da rua sem perdão, nenhuma esperança de encontrar de novo trabalho semelhante.
Os capatazes concediam-lhes, contudo, um privilégio: garrafa que quebrasse no arrolhamento podia ser bebida. E pelo dia adiante quebravam-se umas quantas. Por isso ao fim da tarde, quando saíam do trabalho, na calçda que levava dos armazéns ao nosso largo só se viam mulheres bêbadas. Caminhavam aos bordos, davam gargalhadas insanas, iam de braço dado, disfarçando a tontura da bebedeira com passos de dança.
De vez em quando uma tropeçava, estatelava-se, erguia-se dando palavrões. Algumas sentavam-se um momento no passeio, sem decoro, as pernas abertas, a cabeça pendente, até que uma companheira mais sóbria as vinha puxar.
Eu, que a essa hora voltava sozinho da escola, caminhava fascinado e temeroso rente à parede.
quarta-feira, março 12
Recordações do vinho (2)
O lagar, feito de pedras de granito, parecia-me então colossal. Ficava no rés-do-chão, com uma só janela, numa casa que servia para arrumações e onde, de longe a longe, morava algum casal jovem no aguardo de melhor pouso.
As uvas eram atiradas pela janela directamente para o lagar, que não demorava a ficar cheio. Começava então a pisa. Nesse tempo trabalho só para homens e feito à noite. As calças arregaçadas, caminhavam lentamente em redor, num ritmo monótono. De vez em quando aparecia alguém com uma guitarra, mas em geral, exaustos pelas horas que tinham passado curvados ao sol na vindima, moviam-se em silêncio. Fumavam muito e aparavam na mão a cinza do cigarro.
Nós, a garotada, ficávamos sentados no muro do lagar, depenicando as uvas que ainda havia nos cestos, fazendo sombras chinesas à luz dos lampiões. Mal havia sumo empanturrávamo-nos com canecadas dele.
Ao terceiro ou quarto dia da pisa o mosto começava a “ferver”. Então – “com a força que tem, o mosto a ferver cura tudo” - enquanto os homens o remexiam com pás de madeira, as mães alinhavam no lagar os pequenitos mais fracos, ou os que andavam cobertos de borbulhas e, nus em pêlo, depois de uma lavadela eram passados por cima do muro aos homens que os mergulhavam no lagar. Uma vez, duas vezes, três vezes. Só a cabeça ficava de fora. Uns choravam. Outros, com o susto, abriam a boca que se lhes enchia de engaços, cascas e grainhas.
A minha hora também chegou. Num ano em que à família pareceu que me viam amarelado e escrofuloso, despiram-me, lavaram-me e passaram-me para as mãos dum tio-avô que, carinhosamente, me fez mergulhar até ao pescoço.
Eu, que ao vê-los chorar os tinha tratado de “cagões” e “maricas”, mal me dei conta de ter ao rés dos olhos aquela imensidão de líquido pegajoso, que borbulhava como coisa viva e me ia engolir, soltei gritos tão lancinantes e esperneei de tal modo que não me deram o terceiro mergulho. Mesmo assim o remédio teve efeito.
As uvas eram atiradas pela janela directamente para o lagar, que não demorava a ficar cheio. Começava então a pisa. Nesse tempo trabalho só para homens e feito à noite. As calças arregaçadas, caminhavam lentamente em redor, num ritmo monótono. De vez em quando aparecia alguém com uma guitarra, mas em geral, exaustos pelas horas que tinham passado curvados ao sol na vindima, moviam-se em silêncio. Fumavam muito e aparavam na mão a cinza do cigarro.
Nós, a garotada, ficávamos sentados no muro do lagar, depenicando as uvas que ainda havia nos cestos, fazendo sombras chinesas à luz dos lampiões. Mal havia sumo empanturrávamo-nos com canecadas dele.
Ao terceiro ou quarto dia da pisa o mosto começava a “ferver”. Então – “com a força que tem, o mosto a ferver cura tudo” - enquanto os homens o remexiam com pás de madeira, as mães alinhavam no lagar os pequenitos mais fracos, ou os que andavam cobertos de borbulhas e, nus em pêlo, depois de uma lavadela eram passados por cima do muro aos homens que os mergulhavam no lagar. Uma vez, duas vezes, três vezes. Só a cabeça ficava de fora. Uns choravam. Outros, com o susto, abriam a boca que se lhes enchia de engaços, cascas e grainhas.
A minha hora também chegou. Num ano em que à família pareceu que me viam amarelado e escrofuloso, despiram-me, lavaram-me e passaram-me para as mãos dum tio-avô que, carinhosamente, me fez mergulhar até ao pescoço.
Eu, que ao vê-los chorar os tinha tratado de “cagões” e “maricas”, mal me dei conta de ter ao rés dos olhos aquela imensidão de líquido pegajoso, que borbulhava como coisa viva e me ia engolir, soltei gritos tão lancinantes e esperneei de tal modo que não me deram o terceiro mergulho. Mesmo assim o remédio teve efeito.
terça-feira, março 11
segunda-feira, março 10
Casos do dia (3)
É um convite que recebi a semana passada para, em Junho próximo, com setenta e quatro outros, festejar os quarenta anos do matrimónio de um casal milionário. Casal amigo, evidentemente. E holandês. Dou este detalhe para que se compreenda que, noutras latitudes, talvez seja outro o sentido da hospitalidade e da organização.
Convite chique, em papel vergê. Traduzo e resumo o essencial.
Será no château X..., situado no centro do país, de modo a que nenhum dos convidados tenha de fazer mais que uma hora de estrada.
Continua o texto: “A minha esposa e eu, estaremos presentes a partir das 10.00 horas em ponto no jardim de inverno do château, onde daremos as boas-vindas aos convidados, e haverá serviço de café, chá e pastelaria. Os que chegarem a tempo poderão dar uma volta pelo jardim com estatuária, pela horta de ervas medicinais, ou ir visitar o poiso das cegonhas. Contudo, às 11.30 espera-se que todos estejam presentes, pois às 12.00 em ponto será servido champanhe, e tirada uma fotografia do grupo, para que fique a recordação.
Cerca das 13.00 será servido um almoço de quatro pratos, seguido de, como cada um desejar, café, chá, digestivos ou bebidas cordiais.
Certamente haverá oportunidade para convívio, mas às 16.00 horas a minha esposa e eu agradeceremos a vossa presença, desejando a todos boa viagem de retorno.
Para aqueles que quiserem oferecer-nos um presente, sugerimos que o façam na forma de um envelope com dinheiro. É que no próximo ano temos a intenção de dar a volta ao mundo, e toda a ajuda financeira será bem-vinda.”
Convite chique, em papel vergê. Traduzo e resumo o essencial.
Será no château X..., situado no centro do país, de modo a que nenhum dos convidados tenha de fazer mais que uma hora de estrada.
Continua o texto: “A minha esposa e eu, estaremos presentes a partir das 10.00 horas em ponto no jardim de inverno do château, onde daremos as boas-vindas aos convidados, e haverá serviço de café, chá e pastelaria. Os que chegarem a tempo poderão dar uma volta pelo jardim com estatuária, pela horta de ervas medicinais, ou ir visitar o poiso das cegonhas. Contudo, às 11.30 espera-se que todos estejam presentes, pois às 12.00 em ponto será servido champanhe, e tirada uma fotografia do grupo, para que fique a recordação.
Cerca das 13.00 será servido um almoço de quatro pratos, seguido de, como cada um desejar, café, chá, digestivos ou bebidas cordiais.
Certamente haverá oportunidade para convívio, mas às 16.00 horas a minha esposa e eu agradeceremos a vossa presença, desejando a todos boa viagem de retorno.
Para aqueles que quiserem oferecer-nos um presente, sugerimos que o façam na forma de um envelope com dinheiro. É que no próximo ano temos a intenção de dar a volta ao mundo, e toda a ajuda financeira será bem-vinda.”
sábado, março 8
Casos do dia (2)
Amsterdam, ontem à tarde. Beethovenstraat. Rua chique. A senhora, chique também, entra com os filhos no eléctrico. Crianças irrequietas. A rapariga parece ter oito anos, o rapaz será um pouco mais novo. A mãe, fazendo boquinhas, ora os repreende em holandês, ora em inglês, impecável em ambas as línguas.
Minutos depois o eléctrico pára. Demora. Finalmente o condutor informa que mais adiante houve um acidente, e a linha está impedida.
Abrem-se as portas. A maioria dos passageiros sai. Os que vão para longe, como eu, esperam.
A senhora muda de lugar, senta-se defronte de mim e sorri. Sorrio também. As crianças acomodam-se entre nós.
- Em Julho, quando estivermos em New York – diz a mãe, momentos depois, num tom um nadinha exagerado – vamos visitar o senhor Gandolfini. Já vos contei que ele se mudou para New Jersey?
Os outros passageiros olham distraídos, como quem não ouviu, os filhos dão-se empurrões, ela encara-me com um sorriso que pede a minha reação.
- James Gandolfini? Tony Soprano?
- Sim! Sim! É nosso amigo!
Faço um aceno de apreço. Ela sorri, como que aliviada não sei de quê. De que alguém a acredita? De que se inventou uma amizade importante? De que de facto é amiga dos Sopranos e quer que o mundo o saiba?
O condutor anuncia que a linha está desimpedida. A campainha tilinta, as portas fecham-se, o eléctrico retoma o andamento.
Minutos depois o eléctrico pára. Demora. Finalmente o condutor informa que mais adiante houve um acidente, e a linha está impedida.
Abrem-se as portas. A maioria dos passageiros sai. Os que vão para longe, como eu, esperam.
A senhora muda de lugar, senta-se defronte de mim e sorri. Sorrio também. As crianças acomodam-se entre nós.
- Em Julho, quando estivermos em New York – diz a mãe, momentos depois, num tom um nadinha exagerado – vamos visitar o senhor Gandolfini. Já vos contei que ele se mudou para New Jersey?
Os outros passageiros olham distraídos, como quem não ouviu, os filhos dão-se empurrões, ela encara-me com um sorriso que pede a minha reação.
- James Gandolfini? Tony Soprano?
- Sim! Sim! É nosso amigo!
Faço um aceno de apreço. Ela sorri, como que aliviada não sei de quê. De que alguém a acredita? De que se inventou uma amizade importante? De que de facto é amiga dos Sopranos e quer que o mundo o saiba?
O condutor anuncia que a linha está desimpedida. A campainha tilinta, as portas fecham-se, o eléctrico retoma o andamento.
sexta-feira, março 7
Casos do dia (1)
Personagem importante que é, de cada uma das (poucas) ocasiões em que me tem contactado, primeiro telefona a secretária, depois há uma espera suficientemente longa a marcar a sua importância, depois ouvem-se umas tossidelas, finalmente entra ele com a afabilidade e as cortesias.
Ontem de manhã foi diferente. No momento em que por acaso olhei para o relógio, passava um quarto das nove, o telefone tocou.
Não era a secretária, não houve tossidelas, era o próprio, a entrar directamente no assunto logo depois dos bons-dias.
- Já lhe deram alguma condecoração?
- Já. Dezasseis anos atrás fizeram-me comendador.
- Ah! Em 1992?
- De facto.
- Quer dizer que já tem. Mas podia-se talvez arranjar outra…
- Muito obrigado. Uma chega.
- É pena. Então.. Bom-dia…
- Bom-dia.
Ontem de manhã foi diferente. No momento em que por acaso olhei para o relógio, passava um quarto das nove, o telefone tocou.
Não era a secretária, não houve tossidelas, era o próprio, a entrar directamente no assunto logo depois dos bons-dias.
- Já lhe deram alguma condecoração?
- Já. Dezasseis anos atrás fizeram-me comendador.
- Ah! Em 1992?
- De facto.
- Quer dizer que já tem. Mas podia-se talvez arranjar outra…
- Muito obrigado. Uma chega.
- É pena. Então.. Bom-dia…
- Bom-dia.
quinta-feira, março 6
terça-feira, março 4
segunda-feira, março 3
domingo, março 2
sábado, março 1
sexta-feira, fevereiro 29
Tarzan em Aveloso
Pelos vestígios arqueológicos encontrados sabe-se que Aveloso já era habitada no Megalítico. Os romanos deixaram nela a ponte de três arcos que atravessa a Ribeira de Teja. Os árabes ocuparam-na no séc. VIII, mas ficaria depois desabitada até à Reconquista, no séc. XII.
Recebeu foral em 1514 e o artístico pelourinho é também dessa data. Aveloso tinha então importância suficiente para nela habitar um bispo, de cuja residência resta uma bonita janela manuelina.
Dois outros edifícios serviram de moradia aos bispos de Lamego: um também do séc. XVI, a que o povo chama “o convento;” o outro, a Casa dos Buchos, data do séc. XVIII. Próximo desta última encontra-se uma casa que tem na parede uma figura antropomórfica, conhecida pela “Cara do Aveloso.”
Dos fins do séc. XIX às primeiras décadas do século passado, Aveloso gozou de fama mundial.
Em 1882 nascia ali Albano de Jesus Beirão, filho de pobres que, por volta dos sete anos, começou a sofrer de estranhos ataques duas vezes ao dia.
Pulava, rebolava, uivava, subia às paredes com agilidade animal, dava saltos enormes, corria como um galgo. Nesses momentos desenvolvia uma força descomunal, o que lhe valeria depois a alcunha de “Homem-Macaco”.
Foi notícia mundial. Edgar Rice Burroughs interessou-se pelo caso, e supõe-se que se tenha inspirado nele para criar a figura de Tarzan no seu romance Tarzan of the Apes (1914).
Nos anos 20 o governo nomeou uma comissão que levou o “Homem-Macaco” pela Europa, para que fosse examinado por sumidades médicas. Contudo, das pesquisas feitas então na Itália, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Espanha, Bélgica e Suíça, nunca foram publicados os resultados.
Cerca de 1932, ao completar 50 anos, os ataques cessaram subitamente, tendo Albano a partir daí levado uma vida sossegada pois, nas suas palavras, “o governo de Lisboa dá-me o que preciso; além disso, vendi a cabeça aos alemães, que a querem estudar.”
Viria a morrer aos noventa e quatro anos no hospital da Guarda em 1976 e, segundo testemunhos, “do caixão selado escorria muito sangue”.
quinta-feira, fevereiro 28
O Paço da Glória em Arcos de Valdevez
A construção do primeiro paço da Glória perde-se no tempo em que os galeões voltavam do Oriente carregados de ouro e pimenta. Do dia para a noite os fidalgos passavam de remediados a nababos, e mandar fazer um paço condigno com as suas novas posses era o menos que se esperava deles.
D. Geraldo Coutinho de Lima, senhor de Cochim - a primeira feitoria europeia da Índia - e proprietário de duas naus, tinha recebido as terras da Glória por doação de D. Manuel I em 1515, começara a casa, mas viria a falecer com ela ainda nas paredes.
O seu primogénito, D. Fernando, seguiu as pegadas do pai. A ele se deve que em Cochim se tenha feito a primeira impresão de livros na Índia. Infelizmente, no dia em que os carpinteiros terminavam o arcabouço do telhado, fulminou-o um ataque, dando corpo à lenda de que daí em diante todos os donos da Glória morreriam sem herdeiros.
Reza a crónica que essa praga lhe fora rogada por um judeu de Cochim, a quem ele tinha enganado num negócio, e que até ao fim do mundo ela cairia sobre todos os que tocassem a propriedade.
O paço e os terrenos passaram então para um D. Afonso, parente afastado. Esse, para escapar ao mau destino, tinha-se dado ao trabalho de, por volta de 1635, viajar para Cochim, na certeza de que lhe não seria difícil encontrar um judeu no meio dos indianos e da meia centena de portugueses que lá haveria. Para sua surpresa, porém, nessa altura já os holandeses tinham conquistado a feitoria, e nela não havia duas ou três famílias judias, mas milhares, a maior comunidade judaica da Índia, formada ali desde o século IV da era cristã.
Percorrendo o labirinto de ruas, seguindo pelos ribeiros e lagoas de Cochim, procurando por entre os templos indianos, as mesquitas e as igrejas, D. Afonso acabou por descobrir a sinagoga. Mas do homem que lhe interessava, nem rasto.
Passado ano e pico voltara para a Europa num galeão holandês, desembarcando em Vlissingen, onde pouco depois viria a falecer do tifo. Sem herdeiros.
Deixadas ao abandono durante anos, as terras da Glória eram um matagal, e do paço inacabado, que fora derruindo aos poucos, restavam as cantarias. Na segunda metade do século 18, a grande praga de míldio que tinha assolado os vinhedos franceses, contribuíra para uma súbita prosperidade das vinhas do Minho, e dessa altura data a construção do paço actual.
Porém, sobre quem o mandou fazer, ou quando, não há documentos. Fala-se de um nobre excêntrico, que por não ter mulher nem parentes, mantinha naquele deserto um grupo de músicos para lhe alegrar as refeições. Fala-se de um pai louco, que encarcerava as filhas num subterrâneo, por temer que elas o desonrassem. Conta-se de um galego, que fugira para ali por ter enriquecido, depois de ter feito com o diabo um pacto que o obrigava a comer gente.
Ao certo nada se sabe, a não ser que a praga do judeu ainda surtia efeito, pois de novo ficaram as terras ao abandono e o solar meio arruinado.
Comprou-o nessa altura um emigrante, que tinha voltado velho e cansado de Manaus, onde enriquecera durante o boom da borracha. Sendo de opinião que, para a sua própria felicidade, ninguém precisa mais do que pão para a boca e uma cama para dormir, o homem mandara levantar só parte do que tinha caído. Para conforto dos seus oitenta anos juntara-se com uma rapariga de dezoito, filha do caseiro.
Como era de esperar, a união não deu fruto. No começo do século XX, o novamente abandonado e meio derruído edifício passou para as mãos do filho de um lavrador abastado de Ponte de Lima. O rapaz, que tinha inclinações românticas, e nenhuma intenção de mourejar no amanho da terra, dedicou-se uns tempos à pintura. Mas pelos jeitos depressa se aborreceu da arte. Em 1907 decidiu partir para Filadélfia, onde o seu charme conquistou o coração de uma viúva. Não uma qualquer, mas a viúva de John Batterson Stetson, o famoso inventor e fabricante do chapéu do mesmo nome, que um ano antes tinha entregue a alma a Deus.
O pintor deve ter efabulado para a viúva sobre o palácio que possuía em Portugal, e a americana provavelmente se entusiasmou, e quis visitar esse domínio exótico. Só que no dia em que apareceram ambos na Glória ela não deve ter gostado do que viu, porque logo anunciou que partia.
O marido insistiu que ficasse, pois o monarca, ao corrente da colossal fortuna herdada do rei dos chapéus, o ia fazer conde. E ela seria condessa, com brasão autêntico, o que na democrática América não era para desprezar.
A ex-viúva concordou, mas mal viu as cartas de nobreza autenticadas, disse que não ficava nem mais um minuto. Ficasse ele. O conde, homem avisado, preferiu acompanhá-la e ambos desapareceram para todo o sempre, sem que se lhe conhecessem herdeiros.
Com mais de trinta anos de abandono os telhados tornaram a desabar. O que restava das paredes foi caindo pouco a pouco. A vinha, as terras de lavoura, a mata de pinheiros, de novo se tornaram um matagal. E como naquele tempo todo não aparecera ninguém a reclamar-se dono da propriedade, ou a pagar as contribuições devidas, em 1935 a Justiça pô-la a leilão.
Pouco depois apareceu em Arcos de Valdevez o lorde William Pitt, que viu a ruína, gostou dela e a comprou.
Também o lorde morreu sem herdeiros. A história que, numa tarde do Verão de 1948, ele próprio me contou, e as que depois se seguiram, embora interessantes, são longas e complicadas em demasia para tratar aqui.
D. Geraldo Coutinho de Lima, senhor de Cochim - a primeira feitoria europeia da Índia - e proprietário de duas naus, tinha recebido as terras da Glória por doação de D. Manuel I em 1515, começara a casa, mas viria a falecer com ela ainda nas paredes.
O seu primogénito, D. Fernando, seguiu as pegadas do pai. A ele se deve que em Cochim se tenha feito a primeira impresão de livros na Índia. Infelizmente, no dia em que os carpinteiros terminavam o arcabouço do telhado, fulminou-o um ataque, dando corpo à lenda de que daí em diante todos os donos da Glória morreriam sem herdeiros.
Reza a crónica que essa praga lhe fora rogada por um judeu de Cochim, a quem ele tinha enganado num negócio, e que até ao fim do mundo ela cairia sobre todos os que tocassem a propriedade.
O paço e os terrenos passaram então para um D. Afonso, parente afastado. Esse, para escapar ao mau destino, tinha-se dado ao trabalho de, por volta de 1635, viajar para Cochim, na certeza de que lhe não seria difícil encontrar um judeu no meio dos indianos e da meia centena de portugueses que lá haveria. Para sua surpresa, porém, nessa altura já os holandeses tinham conquistado a feitoria, e nela não havia duas ou três famílias judias, mas milhares, a maior comunidade judaica da Índia, formada ali desde o século IV da era cristã.
Percorrendo o labirinto de ruas, seguindo pelos ribeiros e lagoas de Cochim, procurando por entre os templos indianos, as mesquitas e as igrejas, D. Afonso acabou por descobrir a sinagoga. Mas do homem que lhe interessava, nem rasto.
Passado ano e pico voltara para a Europa num galeão holandês, desembarcando em Vlissingen, onde pouco depois viria a falecer do tifo. Sem herdeiros.
Deixadas ao abandono durante anos, as terras da Glória eram um matagal, e do paço inacabado, que fora derruindo aos poucos, restavam as cantarias. Na segunda metade do século 18, a grande praga de míldio que tinha assolado os vinhedos franceses, contribuíra para uma súbita prosperidade das vinhas do Minho, e dessa altura data a construção do paço actual.
Porém, sobre quem o mandou fazer, ou quando, não há documentos. Fala-se de um nobre excêntrico, que por não ter mulher nem parentes, mantinha naquele deserto um grupo de músicos para lhe alegrar as refeições. Fala-se de um pai louco, que encarcerava as filhas num subterrâneo, por temer que elas o desonrassem. Conta-se de um galego, que fugira para ali por ter enriquecido, depois de ter feito com o diabo um pacto que o obrigava a comer gente.
Ao certo nada se sabe, a não ser que a praga do judeu ainda surtia efeito, pois de novo ficaram as terras ao abandono e o solar meio arruinado.
Comprou-o nessa altura um emigrante, que tinha voltado velho e cansado de Manaus, onde enriquecera durante o boom da borracha. Sendo de opinião que, para a sua própria felicidade, ninguém precisa mais do que pão para a boca e uma cama para dormir, o homem mandara levantar só parte do que tinha caído. Para conforto dos seus oitenta anos juntara-se com uma rapariga de dezoito, filha do caseiro.
Como era de esperar, a união não deu fruto. No começo do século XX, o novamente abandonado e meio derruído edifício passou para as mãos do filho de um lavrador abastado de Ponte de Lima. O rapaz, que tinha inclinações românticas, e nenhuma intenção de mourejar no amanho da terra, dedicou-se uns tempos à pintura. Mas pelos jeitos depressa se aborreceu da arte. Em 1907 decidiu partir para Filadélfia, onde o seu charme conquistou o coração de uma viúva. Não uma qualquer, mas a viúva de John Batterson Stetson, o famoso inventor e fabricante do chapéu do mesmo nome, que um ano antes tinha entregue a alma a Deus.
O pintor deve ter efabulado para a viúva sobre o palácio que possuía em Portugal, e a americana provavelmente se entusiasmou, e quis visitar esse domínio exótico. Só que no dia em que apareceram ambos na Glória ela não deve ter gostado do que viu, porque logo anunciou que partia.
O marido insistiu que ficasse, pois o monarca, ao corrente da colossal fortuna herdada do rei dos chapéus, o ia fazer conde. E ela seria condessa, com brasão autêntico, o que na democrática América não era para desprezar.
A ex-viúva concordou, mas mal viu as cartas de nobreza autenticadas, disse que não ficava nem mais um minuto. Ficasse ele. O conde, homem avisado, preferiu acompanhá-la e ambos desapareceram para todo o sempre, sem que se lhe conhecessem herdeiros.
Com mais de trinta anos de abandono os telhados tornaram a desabar. O que restava das paredes foi caindo pouco a pouco. A vinha, as terras de lavoura, a mata de pinheiros, de novo se tornaram um matagal. E como naquele tempo todo não aparecera ninguém a reclamar-se dono da propriedade, ou a pagar as contribuições devidas, em 1935 a Justiça pô-la a leilão.
Pouco depois apareceu em Arcos de Valdevez o lorde William Pitt, que viu a ruína, gostou dela e a comprou.
Também o lorde morreu sem herdeiros. A história que, numa tarde do Verão de 1948, ele próprio me contou, e as que depois se seguiram, embora interessantes, são longas e complicadas em demasia para tratar aqui.
quarta-feira, fevereiro 27
terça-feira, fevereiro 26
segunda-feira, fevereiro 25
Camposancos
Camposancos. Vê-se daqui da praia, porque fica do outro lado, defronte de Caminha.
Tempo do meu passado. Quando conhecia a palmo ambas as margens do rio, que ambas tinham sido para mim o cenário das emoções memoráveis da juventude. O primeiro amor de adolescente, a primeira fuga, as travessias do rio nas noites sem lua, que fazíamos pelo gosto do perigo, sabendo que do lado espanhol, e mais por divertimento que por zelo, os homens da Guardia Civil não hesitavam a atirar a sério.
Camposancos. Ainda hoje sou capaz de ir direito à casa de Don Ignacio, o bondoso cura que nos dava maçãs do seu passal - “Se não as dou, vêm-mas roubar!”- e infalivelmente queria saber se tínhamos ido à confissão, se não esquecíamos a comunga.
Recordo também Don Francisco, o padre de Goián, mais novo, magro que nem uma garça, passeando a ler o breviário na estrada onde só de longe a longe aparecia um carro.
Açulados que nem matilha de cães com cio, quando nos cruzávamos víamo-lo fazer no ar um sinal da cruz faceto, talvez tanto para nos abençoar, como em exorcismo às tentações com que o atormentava o Demo, e mais tarde fariam dele um assassino.
A serração de Tabagón. Uma chaminé que se vê de quilómetros ao redor, e para mim era um duplo farol: na grande casa anexa viviam Don Ramón, meu herói, e Rosalia, a irmã mais nova, dezasseis anos como eu, mas infinitamente mais sabida, e que, maldosa, atiçava na minha alma e no meu corpo as grandes labaredas da paixão.
Tempo do meu passado. Quando conhecia a palmo ambas as margens do rio, que ambas tinham sido para mim o cenário das emoções memoráveis da juventude. O primeiro amor de adolescente, a primeira fuga, as travessias do rio nas noites sem lua, que fazíamos pelo gosto do perigo, sabendo que do lado espanhol, e mais por divertimento que por zelo, os homens da Guardia Civil não hesitavam a atirar a sério.
Camposancos. Ainda hoje sou capaz de ir direito à casa de Don Ignacio, o bondoso cura que nos dava maçãs do seu passal - “Se não as dou, vêm-mas roubar!”- e infalivelmente queria saber se tínhamos ido à confissão, se não esquecíamos a comunga.
Recordo também Don Francisco, o padre de Goián, mais novo, magro que nem uma garça, passeando a ler o breviário na estrada onde só de longe a longe aparecia um carro.
Açulados que nem matilha de cães com cio, quando nos cruzávamos víamo-lo fazer no ar um sinal da cruz faceto, talvez tanto para nos abençoar, como em exorcismo às tentações com que o atormentava o Demo, e mais tarde fariam dele um assassino.
A serração de Tabagón. Uma chaminé que se vê de quilómetros ao redor, e para mim era um duplo farol: na grande casa anexa viviam Don Ramón, meu herói, e Rosalia, a irmã mais nova, dezasseis anos como eu, mas infinitamente mais sabida, e que, maldosa, atiçava na minha alma e no meu corpo as grandes labaredas da paixão.
domingo, fevereiro 24
sexta-feira, fevereiro 22
Lanhelas - 1946
À chegada a Lanhelas estranhei a casa. Com os seus dois andares e arrumos, estrebaria, o pomar em volta, a nascente donde a água brotava para um tanque com rãs, pareceu-me demasiado grande para os meus pais e para mim. E soturna, como se encerrasse uma ameaça.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me. Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado, quando da minha janela em Gaia olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.
Casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encosta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso, junto da nossa, raro se ouviam sinais de gente, e era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que trabalhavam nas leiras subitamente entoavam em coro as cantigas dolentes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo, como um véu, a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, felicidades nunca sentidas.
É certo que havia o dinheiro do contrabando, mas esse infelizmente não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacrifício, gosto do risco, um traço de crueldade, e indiferenças de carácter que poucos possuíam.
Por isso a aldeia tinha a sua élite de contrabandistas e uma infantaria de carrejões, pescadores-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jornaleiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir, que levados pela fome iam emigrando em pequenos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses depois, arranjado um pecúlio e um fatinho decente, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que, poupando migalhas, lhes chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande travessia para o desconhecido do Brasil, da América, do Canadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes corresse mal.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me. Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado, quando da minha janela em Gaia olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.
Casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encosta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso, junto da nossa, raro se ouviam sinais de gente, e era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que trabalhavam nas leiras subitamente entoavam em coro as cantigas dolentes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo, como um véu, a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, felicidades nunca sentidas.
É certo que havia o dinheiro do contrabando, mas esse infelizmente não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacrifício, gosto do risco, um traço de crueldade, e indiferenças de carácter que poucos possuíam.
Por isso a aldeia tinha a sua élite de contrabandistas e uma infantaria de carrejões, pescadores-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jornaleiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir, que levados pela fome iam emigrando em pequenos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses depois, arranjado um pecúlio e um fatinho decente, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que, poupando migalhas, lhes chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande travessia para o desconhecido do Brasil, da América, do Canadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes corresse mal.
quinta-feira, fevereiro 21
O RIJOMAX (2)
quarta-feira, fevereiro 20
Viana do Castelo
Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, deixei de lhe pertencer. Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram.
Despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas, mas inúteis, as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas. Terei eu de facto sido assim?
Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.
Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro. Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que, dentro de mim, ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos. Que me culpam de não ser capaz de, duma vez para sempre, sacudir os entraves da memória. Me acusam de fraqueza, por retornar aos lugares onde sofri, com um impulso tão irreprimível como o que, dizem, leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.
Despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas, mas inúteis, as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas. Terei eu de facto sido assim?
Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.
Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro. Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que, dentro de mim, ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos. Que me culpam de não ser capaz de, duma vez para sempre, sacudir os entraves da memória. Me acusam de fraqueza, por retornar aos lugares onde sofri, com um impulso tão irreprimível como o que, dizem, leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.
terça-feira, fevereiro 19
Remexendo nas gavetas (23)
segunda-feira, fevereiro 18
Remexendo nas gavetas (22)
sábado, fevereiro 16
Ramón María del Valle-Inclán

Eduardo Malta pintou Salazar em 1933 (v. Museu do Caramulo).
Uma tarde do Verão de 1934, num café em Madrid, Joaquim Novais Teixeira (1898-1972), meu amigo e mentor, viu o retrato num jornal e mostrou-o a Valle-Inclán (1866-1936) seu companheiro de tertúlia.
O escritor galego olhou, sorriu, e foi lacónico no comentário: "El Mono Liso".
quinta-feira, fevereiro 14
Vila Nova de Cerveira - o benemérito, o hospital, a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, Sopo e o ex-abade
Depois abalei, Cerveira cresceu, tudo nela são agora artes bienais e modernidades, dos companheiros de então provavelmente não resta um.
No hospital estive uma única vez, de visita a um enfermo. Achei-o excepcional. Não conhecia a história da sua fundação, que encontrei ontem no folheto das festas de 1957.
Ponho-a aqui porque é bonita, e fala de um tempo em que a generosidade ainda era romântica. Bem haja o senhor Lebrão, a família dos (bem donados) Maldonado e o padre Parente, que nesse tempo já era ex-abade do lugar.
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quarta-feira, fevereiro 13
domingo, fevereiro 10
A Ínsua, na foz do Minho
Nessa altura o senhor Viriato andaria pelos cinquenta, mas comparado com meu pai fazia figura de ancião.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo sentava-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o garrafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe merecesse simpatia.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levantava uns olhinhos de réptil, a mostrar que seguia a conversa.
De repente resmungava frases desconexas e, sem explicação nem despedida, levantava-se, amanhava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia interessado quando falavam de tiroteios e perseguições, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondulação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar quebrava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encaminhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na muralha. Como um pirata, imaginava eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a América, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventuras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entremeando longos silêncios que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, estendendo o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.
Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantasket Beach, num momento de euforia, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o oriente, voei como num sonho para as paisagens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegrias, os entusiasmos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhecia o verdadeiro peso da nostalgia. Quando evocava recordações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longínquo, cheio de perdas irremediáveis, porque todas elas se achavam confortavelmente próximas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensamento.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo sentava-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o garrafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe merecesse simpatia.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levantava uns olhinhos de réptil, a mostrar que seguia a conversa.
De repente resmungava frases desconexas e, sem explicação nem despedida, levantava-se, amanhava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia interessado quando falavam de tiroteios e perseguições, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondulação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar quebrava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encaminhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na muralha. Como um pirata, imaginava eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a América, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventuras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entremeando longos silêncios que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, estendendo o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.
Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantasket Beach, num momento de euforia, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o oriente, voei como num sonho para as paisagens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegrias, os entusiasmos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhecia o verdadeiro peso da nostalgia. Quando evocava recordações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longínquo, cheio de perdas irremediáveis, porque todas elas se achavam confortavelmente próximas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensamento.
sábado, fevereiro 9
sexta-feira, fevereiro 8
quinta-feira, fevereiro 7
quarta-feira, fevereiro 6
Boris, o urso e a "jangada"
As palavras nem sempre bastam para retratar um personagem. No caso de Boris seria preciso juntar-lhes o olfacto e aquele poder de raios-X com que, por vezes, descobrimos em alguém uma essência que, outrossim, se mostra refractária a ser descrita ou definida.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris nasceu em Leninegrado. São Petersburgo, bem sei, mas ele próprio continua a chamar-lhe assim.
No tempo em que travámos conhecimento, havia anos que desertara do navio onde andava embarcado, e possuía em Rotterdam um café, um próspero negócio de máquinas de diversão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais distinto. Fora isso tinha ganho nome como boxeur, era agradável no trato e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do persistente cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por acaso, a viria eu a descobrir. Mas a essência do seu carácter - indescritível, indefinível - essa revelava-se sobretudo no primeiro encontro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco conforme, apoiados sobre pernas curtas e cambadas. Olhos de azeviche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pendentes, que lhe dava um ar de falsa bonomia. Um sorriso de que não era fácil discernir a qualidade, pois tanto poderia ser troça, como estupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negócios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de diversão pareciam ser uma parte diminuta que ocupava dois aprendizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casinhola de madeira no terreno das traseiras da casa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gargalhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - entre os quais também de bom gosto se incluía - telefonava, gritava com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cortesias de despedida, também era capaz de num repente saltar para a carrinha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, gatos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no anexo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leão de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À solta, preso a uma corrente que qualquer criança quebraria, deambulava o seu favorito, um urso castanho que, da primeira vez que o descobri agachado a um canto, quase me matou de susto, porque a minha miopia o confundira com um inofensivo monte de trapos.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensaiar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um forte odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possível aceitar.
Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependências da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de cantis, mochilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, telefones de campanha, pás e picaretas, antenas, holofotes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas militares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arrumado a enorme embalagem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as inscrições laterais, podia acomodar doze pessoas. Outra inscrição, sob a palavra CAUTION! pintada a vermelho, indicava que, puxando a corda, a embarcação se inflaria dentro de trinta segundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém tivera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não aconteceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha escapado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns contra, outros a favor, o dinheiro começou amontoar-se sobre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levantou-se, deu um esticão à corda. E aconteceu!
O barco começou a inchar com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidraças, a loiça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, encontrando uma navalha, a espetou várias vezes no revestimento de borracha, com a fúria de quem se defende dum monstro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o embaraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava levantar-se do chão.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris nasceu em Leninegrado. São Petersburgo, bem sei, mas ele próprio continua a chamar-lhe assim.
No tempo em que travámos conhecimento, havia anos que desertara do navio onde andava embarcado, e possuía em Rotterdam um café, um próspero negócio de máquinas de diversão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais distinto. Fora isso tinha ganho nome como boxeur, era agradável no trato e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do persistente cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por acaso, a viria eu a descobrir. Mas a essência do seu carácter - indescritível, indefinível - essa revelava-se sobretudo no primeiro encontro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco conforme, apoiados sobre pernas curtas e cambadas. Olhos de azeviche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pendentes, que lhe dava um ar de falsa bonomia. Um sorriso de que não era fácil discernir a qualidade, pois tanto poderia ser troça, como estupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negócios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de diversão pareciam ser uma parte diminuta que ocupava dois aprendizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casinhola de madeira no terreno das traseiras da casa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gargalhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - entre os quais também de bom gosto se incluía - telefonava, gritava com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cortesias de despedida, também era capaz de num repente saltar para a carrinha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, gatos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no anexo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leão de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À solta, preso a uma corrente que qualquer criança quebraria, deambulava o seu favorito, um urso castanho que, da primeira vez que o descobri agachado a um canto, quase me matou de susto, porque a minha miopia o confundira com um inofensivo monte de trapos.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensaiar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um forte odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possível aceitar.
Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependências da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de cantis, mochilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, telefones de campanha, pás e picaretas, antenas, holofotes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas militares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arrumado a enorme embalagem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as inscrições laterais, podia acomodar doze pessoas. Outra inscrição, sob a palavra CAUTION! pintada a vermelho, indicava que, puxando a corda, a embarcação se inflaria dentro de trinta segundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém tivera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não aconteceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha escapado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns contra, outros a favor, o dinheiro começou amontoar-se sobre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levantou-se, deu um esticão à corda. E aconteceu!
O barco começou a inchar com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidraças, a loiça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, encontrando uma navalha, a espetou várias vezes no revestimento de borracha, com a fúria de quem se defende dum monstro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o embaraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava levantar-se do chão.
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