Levantei-me às seis, como de costume. Fiz a higiene que o corpo pede e fui-me a dar de comer aos gatos e aos cães. O sol nasceu. Tomei um pequeno almoço que é nada coisa nenhuma: copo de água, outro de sumo de laranja, xícara de café, tosta com uma fatia de queijo, tosta barrada de mel.
Liguei o computador. Mensagens? Zero. Spam? Duzentas e doze. Limpei. Uma oferta de “Webcam Girls for only $1 a day” que tinha escapado ao filtro, foi também para o lixo.
Alípio, o vizinho, setenta e sete anos como eu, atrela a carroça velha a uma burra mais velha ainda. Dou-lhe os bons-dias, falamos do tempo, olhamos o céu, despedimo-nos com um aceno.
Ninguém me espera. Não preciso de matar o bey de Tunis (quem ignora o que isso significa, que aprenda). Vai haver visita e almoço em família, o que preencherá duas ou três horas, mas sinceramente me pergunto o que vou fazer nas restantes. Porque tudo me desanima, e ainda nem são as nove da manhã.
quarta-feira, maio 7
terça-feira, maio 6
Verdades
Uma vez não são vezes, por isso abro a excepção, mesmo sendo o caso exemplar do que os ingleses referem como much ado about nothing, que é como quem diz: muito vento e pouco movimento.
De facto este blog teve, mas já não tem, caixa de comentários. A experiência mostrou-me as desvantagens da dita caixa, sobretudo a de dar livre entrada a tolos. Gente bem intencionada faz como o senhor Manuel de Queiroz: manda um mail e é logo atendido pela volta da internet.
Tomou ele sombra com um texto –“O Paço da Glória em Arcos de Valdevez”- que aqui publiquei em 28 de Fevereiro passado, texto esse “cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor”. Curiosamente apenas contesta o que se refere ao seu parente. É essa a sua “verdade”. A minha “verdade”é a que ouvi a lord William Pitt. A verdadeira verdade encontra-se provavelmente numa ranhura entre as duas anteriores.
Como acima digo, uma vez não são vezes. Pelo que não haverá réplica, nem discussão.
===================
Onderwerp:
Paço da Glória
Van:
"Manuel de Queiroz"
Datum:
Di, 6 mei, 2008 13:27
Aan:
jrentes@xs4all.nl
CC:
"Luiz Azeredo Vaz Pinto" (meer)
Opties:
Bekijk volledige berichtinformatie Bekijk printervriendelijke versie Download dit als een bestand Voeg toe aan adresboek HTML weergave
Toevoegen aan Greenlist Dit is Spam
Caro Senhor:
O actual proprietário do Paço da Glória, Sr. Robert Illing, fez-me chegar um post,publicado no seu blogue em Fevereiro deste ano (que infelizmente ao contrário do quecostuma acontecer, não permite fazer comentários aos textos), sobre o dito Paço.
Porque esse texto está cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor, decidi escrever-lhe para o esclarecer e aos seus leitores, em particular em relação à figura do meu tio-avô Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor,Conde de Santa Eulália, que foi um dos proprietários da casa.
Segundo informação recolhida por Robert Illing na Conservatória do Registo Predial dos Arcos de Valdevez, o primeiro registo que há da Quinta da Glória é de 1730,sendo seu proprietário Francisco de Araújo e Amorim, sem filhos. Desde então até 1909 esteve esta entregue a caseiros, altura em que, sendo seu proprietário Francisco Pereira de Castro e estando hipotecada, a hipoteca foi comprada por Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor, consul de Portugal em Chicago, Conde de Santa Eulália.
Sobre a extraordinária figura deste artista e homem do mundo, acabo de publicar o romance "Os Passos da Glória", editado pela Bertrand. Para o escrever levei a cabo uma investigação aprofundada sobre a sua vida e o seu percurso artístico que permitiu esclarecer muitos dos equívocos e controvérsias que rodeavam o seu nome.
Por isso posso afirmar com segurança que tudo o que sobre ele diz no seu texto é falso, fantasioso e sem qualquer correspondência nos factos. Senão, vejamos:
Ao contrário do que diz, ele foi escultor e não pintor, actividade que manteve toda a sua vida com paixão, tendo estudado em Paris nas melhores escolas a sua arte durante quase dez anos . Dessa actividade resultou uma obra interessantíssima,embora hoje quase desconhecida, tanto em Paris como em Portugal e nos Estados Unidos da América, a qual vai de resto vai ser alvo de uma exposição no início do próximo ano em Viana do Castelo. Como exemplos da arte de Queiroz Ribeiro em Portugal,pode ser vista a belíssima estátua do Sagrado Coração de Jesus junto ao Templo de Santa
Luzia, em Viana do Castelo, e a estátua de Vasco da Gama nos jardins do Mosteiro de Refóios, embora esta esteja actualmente em muito mau estado de conservação.
Foi em 1902 e não em 1907 como refere, que Queiroz Ribeiro partiu para os EUA, para trabalhar na exposição de St. Louis Missouri, realizada em 1904. Em 1905 foi nomeado consul de Portugal em Chicago e em 1906 foi-lhe atribuído pelo Rei D. Carlos o título de Conde de Santa Eulália. O seu casamento com Sarah Elizabeth Stetson, viúva do multimilionário e filantropo John B. Stetson, dono da maior fábrica de chapéus do
mundo, a Stetson Hats& Company, teve lugar em 1908. A compra da Quinta da Glória,que então passou a designar-se como Paço da Glória, ocorreu em 1909, um ano depois do casamento, tendo a casa sido toda restaurada por Aleixo para aí receber condignamente a sua mulher sempre que vinha a Portugal, o que, ao contrário do que diz, aconteceu por diversas vezes, quer antes quer depois da morte do marido,ocorrida em 1917.
Elizabeth tinha dois filhos do seu primeiro casamento, os quais, após a morte dela,em 1929, herdaram as suas propriedades em Portugal, John Stetson o Mosteiro de Refóios e G. Henry o Paço da Glória. Este último, no entanto, desinteressou-se por completo da propriedade, deixando de pagar os impostos devidos, pelo que esta acabou por ir a hasta pública, tendo sido arrematada em 1937 por William Pitt.
Esta é, resumidamente, a verdade dos factos sobre o Paço da Glória e sobre Aleixo de Queiroz Ribeiro. Agradecia pois que incluisse esta nota no Blogue como rectificação ao seu texto, esclarecendo assim devidamente os leitores.
Com os melhores cumprimentos
Manuel de Queiroz
De facto este blog teve, mas já não tem, caixa de comentários. A experiência mostrou-me as desvantagens da dita caixa, sobretudo a de dar livre entrada a tolos. Gente bem intencionada faz como o senhor Manuel de Queiroz: manda um mail e é logo atendido pela volta da internet.
Tomou ele sombra com um texto –“O Paço da Glória em Arcos de Valdevez”- que aqui publiquei em 28 de Fevereiro passado, texto esse “cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor”. Curiosamente apenas contesta o que se refere ao seu parente. É essa a sua “verdade”. A minha “verdade”é a que ouvi a lord William Pitt. A verdadeira verdade encontra-se provavelmente numa ranhura entre as duas anteriores.
Como acima digo, uma vez não são vezes. Pelo que não haverá réplica, nem discussão.
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Onderwerp:
Paço da Glória
Van:
"Manuel de Queiroz"
Datum:
Di, 6 mei, 2008 13:27
Aan:
jrentes@xs4all.nl
CC:
"Luiz Azeredo Vaz Pinto"
Opties:
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Caro Senhor:
O actual proprietário do Paço da Glória, Sr. Robert Illing, fez-me chegar um post,publicado no seu blogue em Fevereiro deste ano (que infelizmente ao contrário do quecostuma acontecer, não permite fazer comentários aos textos), sobre o dito Paço.
Porque esse texto está cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor, decidi escrever-lhe para o esclarecer e aos seus leitores, em particular em relação à figura do meu tio-avô Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor,Conde de Santa Eulália, que foi um dos proprietários da casa.
Segundo informação recolhida por Robert Illing na Conservatória do Registo Predial dos Arcos de Valdevez, o primeiro registo que há da Quinta da Glória é de 1730,sendo seu proprietário Francisco de Araújo e Amorim, sem filhos. Desde então até 1909 esteve esta entregue a caseiros, altura em que, sendo seu proprietário Francisco Pereira de Castro e estando hipotecada, a hipoteca foi comprada por Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor, consul de Portugal em Chicago, Conde de Santa Eulália.
Sobre a extraordinária figura deste artista e homem do mundo, acabo de publicar o romance "Os Passos da Glória", editado pela Bertrand. Para o escrever levei a cabo uma investigação aprofundada sobre a sua vida e o seu percurso artístico que permitiu esclarecer muitos dos equívocos e controvérsias que rodeavam o seu nome.
Por isso posso afirmar com segurança que tudo o que sobre ele diz no seu texto é falso, fantasioso e sem qualquer correspondência nos factos. Senão, vejamos:
Ao contrário do que diz, ele foi escultor e não pintor, actividade que manteve toda a sua vida com paixão, tendo estudado em Paris nas melhores escolas a sua arte durante quase dez anos . Dessa actividade resultou uma obra interessantíssima,embora hoje quase desconhecida, tanto em Paris como em Portugal e nos Estados Unidos da América, a qual vai de resto vai ser alvo de uma exposição no início do próximo ano em Viana do Castelo. Como exemplos da arte de Queiroz Ribeiro em Portugal,pode ser vista a belíssima estátua do Sagrado Coração de Jesus junto ao Templo de Santa
Luzia, em Viana do Castelo, e a estátua de Vasco da Gama nos jardins do Mosteiro de Refóios, embora esta esteja actualmente em muito mau estado de conservação.
Foi em 1902 e não em 1907 como refere, que Queiroz Ribeiro partiu para os EUA, para trabalhar na exposição de St. Louis Missouri, realizada em 1904. Em 1905 foi nomeado consul de Portugal em Chicago e em 1906 foi-lhe atribuído pelo Rei D. Carlos o título de Conde de Santa Eulália. O seu casamento com Sarah Elizabeth Stetson, viúva do multimilionário e filantropo John B. Stetson, dono da maior fábrica de chapéus do
mundo, a Stetson Hats& Company, teve lugar em 1908. A compra da Quinta da Glória,que então passou a designar-se como Paço da Glória, ocorreu em 1909, um ano depois do casamento, tendo a casa sido toda restaurada por Aleixo para aí receber condignamente a sua mulher sempre que vinha a Portugal, o que, ao contrário do que diz, aconteceu por diversas vezes, quer antes quer depois da morte do marido,ocorrida em 1917.
Elizabeth tinha dois filhos do seu primeiro casamento, os quais, após a morte dela,em 1929, herdaram as suas propriedades em Portugal, John Stetson o Mosteiro de Refóios e G. Henry o Paço da Glória. Este último, no entanto, desinteressou-se por completo da propriedade, deixando de pagar os impostos devidos, pelo que esta acabou por ir a hasta pública, tendo sido arrematada em 1937 por William Pitt.
Esta é, resumidamente, a verdade dos factos sobre o Paço da Glória e sobre Aleixo de Queiroz Ribeiro. Agradecia pois que incluisse esta nota no Blogue como rectificação ao seu texto, esclarecendo assim devidamente os leitores.
Com os melhores cumprimentos
Manuel de Queiroz
Fechos
domingo, maio 4
Os "Incontornáveis"
Em muitos aspectos fui precoce. Aos quatro anos apanharam-me deitado com a Marta, também de quatro. Para que aprendêssemos, humilharam-nos com palmadas no rabo, mas ambos descobrimos que era melhor repetir. E continuámos a fazer “porcarias”.
Aos cinco comecei a ler o jornal e teria sete ou oito quando resolvi fazer um: quatro páginas de rabiscos. Montei quiosque nas escadas de casa, a Marta e os outros esperavam vez, compravam-no, pagavam com uma pedrinha, "liam" e devolviam-mo, para que o seguinte também conhecesse o gosto da compra e da "leitura".
Fui precoce, mas devo ter ficado criança (atrasado, se quiserem) e este blog é como que a continuação do jornalzinho da meninice. Digo isto a sério, porque me dou conta de que há regras e civilidades que desconheço, e nunca aprenderei.
Nos blogs de nome, os seus autores e colaboradores atentam nos aniversários, nas efemérides, registam que o blog X alcançou o milhão de visitas, informam que o blog Y se tornou “incontornável”. Dizem-nos, com urgência, que é imprescindível tomar nota do que escreveram o Jorge, a Teresa, o Francisco, a Susana… Que a Margarida cada dia se torna mais “acutilante”. Põem-nos ao corrente de que houve jantares, jantares onde o Francisco, a Manuela, o Diogo, o Eduardo foram “absolutamente brilhantes”.
Deveria mortificar-me a ignorância das regras, o sentir que me são alheios os mundos onde as ideias esfusiam e as personalidades se tornam “incontornáveis”. Deveria mortificar-me, mas não sofro. Vale-me o ter ficado criança.
Aos cinco comecei a ler o jornal e teria sete ou oito quando resolvi fazer um: quatro páginas de rabiscos. Montei quiosque nas escadas de casa, a Marta e os outros esperavam vez, compravam-no, pagavam com uma pedrinha, "liam" e devolviam-mo, para que o seguinte também conhecesse o gosto da compra e da "leitura".
Fui precoce, mas devo ter ficado criança (atrasado, se quiserem) e este blog é como que a continuação do jornalzinho da meninice. Digo isto a sério, porque me dou conta de que há regras e civilidades que desconheço, e nunca aprenderei.
Nos blogs de nome, os seus autores e colaboradores atentam nos aniversários, nas efemérides, registam que o blog X alcançou o milhão de visitas, informam que o blog Y se tornou “incontornável”. Dizem-nos, com urgência, que é imprescindível tomar nota do que escreveram o Jorge, a Teresa, o Francisco, a Susana… Que a Margarida cada dia se torna mais “acutilante”. Põem-nos ao corrente de que houve jantares, jantares onde o Francisco, a Manuela, o Diogo, o Eduardo foram “absolutamente brilhantes”.
Deveria mortificar-me a ignorância das regras, o sentir que me são alheios os mundos onde as ideias esfusiam e as personalidades se tornam “incontornáveis”. Deveria mortificar-me, mas não sofro. Vale-me o ter ficado criança.
sábado, maio 3
Olá!
As formas de tratamento são, julgo eu, um interessante indicativo do desarrazoado de uma sociedade. Na nossa misturam-se o V. Exa, que se lê em facturas e na correspondência oficial, com o você com que estranhos, insensíveis às diferenças de anos, ou ao grau de familiaridade, julgam fazer moderno.
Há também os curiosos “Olá” e “Viva”, que encabeçam alguns mails de gente que nunca vimos mais gorda nem mais magra, e as bizantinices tolas do “senhor doutor”, da “senhora dona fulana” e outras assim.
Creio que foi no final dos anos 70 que Lindley Cintra escreveu um livrinho sobre as nossas formas de tratamento. Seria uma boa ideia se alguém se debruçasse de novo sobre o assunto. E boa ideia também se nos interrogássemos sobre o que se esconde atrás da bizarria das nossas maneiras.
Há também os curiosos “Olá” e “Viva”, que encabeçam alguns mails de gente que nunca vimos mais gorda nem mais magra, e as bizantinices tolas do “senhor doutor”, da “senhora dona fulana” e outras assim.
Creio que foi no final dos anos 70 que Lindley Cintra escreveu um livrinho sobre as nossas formas de tratamento. Seria uma boa ideia se alguém se debruçasse de novo sobre o assunto. E boa ideia também se nos interrogássemos sobre o que se esconde atrás da bizarria das nossas maneiras.
quinta-feira, maio 1
Feliz aquele...
Feliz aquele a quem mostram um caminho e obediente o segue.
Feliz também o convicto de que foi ungido pelas forças do Alto, e que o seu destino é o de guia. Bem-aventurado o que não duvida, nem se interroga.
Ditoso o que, da nascença à sepultura, só pisa terra estranha pelo gosto de ver outros horizontes, e se apressa a retornar à sua antes que a nostalgia o mortifique.
Duas vezes malfadado o que deitou raiz em chão alheio, mas não quer, nem pode, desprender-se das que o prendem àquele onde nasceu.
Feliz também o convicto de que foi ungido pelas forças do Alto, e que o seu destino é o de guia. Bem-aventurado o que não duvida, nem se interroga.
Ditoso o que, da nascença à sepultura, só pisa terra estranha pelo gosto de ver outros horizontes, e se apressa a retornar à sua antes que a nostalgia o mortifique.
Duas vezes malfadado o que deitou raiz em chão alheio, mas não quer, nem pode, desprender-se das que o prendem àquele onde nasceu.
quarta-feira, abril 30
A fonte
Era a fonte que, desde séculos remotos até há uns cinquenta anos, dava água para as quase trezentas almas que então contava Estevais de Mogadouro.Mau grado as lindas frases de património, protecção, cultura e semelhantes, é facto que o dinheiro só se pode gastar uma vez, e um Mercedes, um BMW, sempre brilham doutra forma.
A fonte, velhinha, pobrezinha, dentro em breve ruirá. Fica o retrato. Guardo os cântaros que os meus antepassados lá iam encher.
terça-feira, abril 29
segunda-feira, abril 28
Viagra, Cialis, Levitra...
Uns falam de bombagem, outros que é a hidráulica, os tímidos chamam-lhe DE (Disfunção Eréctil), quem gosta de franqueza refere-se-lhe simplesmente como impotência.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…
Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…
Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.
domingo, abril 27
Almoço dominical
Já passaram os rissóis de camarão, a alheira, a chouriça grelhada, a salada de polvo, a canja de galinha.
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:
Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.
Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:
Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.
Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!
sábado, abril 26
Doutorices
Dia de feira. A farmácia é no centro da vila e no espaço acanhado há gente demais. Anciãos, a maioria. Dão a ideia de estarem ali com as esperanças, os medos e a subserviência de quem entrou no Santo Sepulcro. Acotovelam. Gesticulam.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.
Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.
Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.
quinta-feira, abril 24
Tant pis!
Se o seu Francês não chega, tant pis, mas o caso é dos que vale a pena contar, porque fala de uma elegância e de um esprit que creio já não há.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.
quarta-feira, abril 23
Boson e batatas
O céu finalmente desanuviou. Sento-me ao sol, a ler um artigo que me dá a medida do muito que ignoro e do muito que gostaria de aprender. Mas para mim a fase da escola já passou, o que me resta é a admiração pelo saber alheio.
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….
Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….
Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .
terça-feira, abril 22
Fujo? Não fujo?
Sem as facilidades da internet seria difícil saber de mim, mas ela procurou, encontrou-me e agora…
A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.
Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.
Fujo? Não fujo?
A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.
Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.
Fujo? Não fujo?
domingo, abril 20
O "sabonete" da Vodafone
Da publicidade conhecêmo-la de sobejo, a cena de raparigas dinâmicas e jovens despachados que, em esplanadas de luxo, xícara de café à mão, o portátil em frente, comunicam wireless e sorridentes com o resto do mundo.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.
sábado, abril 19
Desabafo
Estou a falar consigo. Sim, consigo. Não se assuste, de juízo vou bem. Só me pergunto em que estado de espírito se encontrava para vir até aqui. Curiosidade minha.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.
O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.
O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.
sexta-feira, abril 18
Batatas cozidas
Em 1940, quando os tempos eram simples, o meu amigo, então jovem delegado no tribunal de Mogadouro, deslocou-se um dia em serviço ao Vimioso, acompanhado de um colega.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.
quinta-feira, abril 17
Franqueza
A nossa amizade vem de longe e vou visitá-lo porque, acamado há meses, não tardará a finar-se. Entro no monólogo hipócrita que a situação pede. Que está com boa cara. Há-de passar. Cada dia aparecem medicamentos melhores, e os médicos, por muito mal que se diga deles, não há dúvida que sabem mais do ofício do que os de antigamente.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.
domingo, abril 13
Natureza
Aqui na aldeia são entre seis e oito os cães, de dez a treze os gatos a quem, uns dentro, outros em volta da casa, damos cama e mesa farta duas vezes ao dia. Roupa lavada têm-na eles da natureza. Da natureza têm também o forte instinto da caça, que os ajuda a sobreviver nos meses da nossa ausência.
A cadela apareceu por baixo da varanda a arrastar bicho grande. Cabeça já não tinha, mas a ajuizar pelo rabo e o pêlo, filhote de raposa. Comeu-o sozinha, quase inteiro. Os outros deitaram-se às sobras, e em menos de um quarto de hora desapareceu tudo.
sábado, abril 12
Viagem à Guiné
Pergunta ele:
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.
Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.
Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.
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