domingo, abril 27

Almoço dominical

Já passaram os rissóis de camarão, a alheira, a chouriça grelhada, a salada de polvo, a canja de galinha.
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:

Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.

Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!

sábado, abril 26

Doutorices

Dia de feira. A farmácia é no centro da vila e no espaço acanhado há gente demais. Anciãos, a maioria. Dão a ideia de estarem ali com as esperanças, os medos e a subserviência de quem entrou no Santo Sepulcro. Acotovelam. Gesticulam.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.

Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos no infantário.

quinta-feira, abril 24

Tant pis!

Se o seu Francês não chega, tant pis, mas o caso é dos que vale a pena contar, porque fala de uma elegância e de um esprit que creio já não há.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.

quarta-feira, abril 23

Boson e batatas

O céu finalmente desanuviou. Sento-me ao sol, a ler um artigo que me dá a medida do muito que ignoro e do muito que gostaria de aprender. Mas para mim a fase da escola já passou, o que me resta é a admiração pelo saber alheio.
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….

Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .

terça-feira, abril 22

Fujo? Não fujo?

Sem as facilidades da internet seria difícil saber de mim, mas ela procurou, encontrou-me e agora…

A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.

Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.

Fujo? Não fujo?

domingo, abril 20

O "sabonete" da Vodafone



Da publicidade conhecêmo-la de sobejo, a cena de raparigas dinâmicas e jovens despachados que, em esplanadas de luxo, xícara de café à mão, o portátil em frente, comunicam wireless e sorridentes com o resto do mundo.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.

sábado, abril 19

Desabafo


Estou a falar consigo. Sim, consigo. Não se assuste, de juízo vou bem. Só me pergunto em que estado de espírito se encontrava para vir até aqui. Curiosidade minha.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.

O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.

sexta-feira, abril 18

Batatas cozidas

Em 1940, quando os tempos eram simples, o meu amigo, então jovem delegado no tribunal de Mogadouro, deslocou-se um dia em serviço ao Vimioso, acompanhado de um colega.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.

quinta-feira, abril 17

Franqueza

A nossa amizade vem de longe e vou visitá-lo porque, acamado há meses, não tardará a finar-se. Entro no monólogo hipócrita que a situação pede. Que está com boa cara. Há-de passar. Cada dia aparecem medicamentos melhores, e os médicos, por muito mal que se diga deles, não há dúvida que sabem mais do ofício do que os de antigamente.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.

domingo, abril 13

Natureza





Aqui na aldeia são entre seis e oito os cães, de dez a treze os gatos a quem, uns dentro, outros em volta da casa, damos cama e mesa farta duas vezes ao dia. Roupa lavada têm-na eles da natureza. Da natureza têm também o forte instinto da caça, que os ajuda a sobreviver nos meses da nossa ausência.
A cadela apareceu por baixo da varanda a arrastar bicho grande. Cabeça já não tinha, mas a ajuizar pelo rabo e o pêlo, filhote de raposa. Comeu-o sozinha, quase inteiro. Os outros deitaram-se às sobras, e em menos de um quarto de hora desapareceu tudo.

sábado, abril 12

Viagem à Guiné

Pergunta ele:
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.

Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.

domingo, abril 6

Beijos de despedida em Beijós

No blogue de um semi-ateu (na minha idade tomam-se destas cautelas) um texto como o que segue pede explicação.
O padre José Júlio tem muitos e bons amigos e um deles, meu amigo também, quer que se conheçam urbi et orbi as excelentes qualidades deste pastor das almas.

Mensagem de despedida de Pe. José Júlio Almeida das comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós (*)

1 de Abril de 2008

Um certo dia Ele desafiou-me a O amar, depois a O reconhecer e, por fim, a O servir ... Ainda que um pouco jovem, inexperiente e nervosissimo foi assim que respondi ao desafio e cheguei às comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós. Deixei-me seduzir por este amor de Deus, que toca e inquieta os corações, que vai ao mais recôndito de nós mesmos e nos chama a servir. O serviço é uma resposta de amor ao Amor que nos sai ao encontro. Por isso mesmo, a verdadeira medida do ser humano não se mede pelas suas capacidades intelectuais, mas sim pela sua disponibilidade para escutar o chamamento e de lhe responder. Fui ordenado Sacerdote, no dia 04 de Setembro de 2005, pelo D. António Marto, em Ribolhos. Esta ordenação não foi feita para mim, mas para servir: servir a Igreja (universal); servir a Igreja de Viseu; e servir-vos a vós, comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós.
"Fiz-me tudo para todos", foi 0 lema que escolhi para a minha ordenação Sacerdotal. Este lema não foi escolhido só para aquele momento da ordenação, em que coloco todo o meu sentir e viver nas mãos de Deus, mas é o lema que me acompanhará para toda a minha vida. Cheguei sem saber o que iria encontrar, sem saber o que poderia acontecer, trazia na bagagem a expectativa, o receio, o entusiasmo, a alegria e a aventura de servir Cristo. Não conhecia as terras e muito menos as pessoas, sentia-me um desconhecido na imensidão de gente que me acolheu na tarde do dia 02 de Outubro de 2005. Depressa conheci os lugares, as casas e as pessoas, rapidamente me trataram como amigo. Aceitaram a minha maneira de ser, de estar, de sorrir, de brincar, de levar Cristo ... Agora a bagagem tornou-se bem pesada, recebi mais do que dei e levo um coração cheio de amigos que nem a distância fará esquecer. Resta-me pedir para que acolham 0 Pe. Valmor tão bem como me acolheram a mim, que o tornem da vossa família, para que ele sinta a mesma alegria e o mesmo entusiasmo que senti e vivi neste tempo que estive convosco. Um profundo abraço amigo às comunidades de Cabanas e de Beijós.

Pe. José Júlio

(*) in Farol da Nossa Terra

quarta-feira, abril 2

Patrioteiros

Se me não engano a palavra e o conceito foram criados por Eça na famosa carta a Pinheiro Chagas. Patrioteiros abundam, e tenho conhecido muitos, mas de todos esses o mais desvairado era o cônsul de Portugal em Amsterdam, no início dos anos 60.
A ele ouvi, mais de uma vez, esta inefável afirmação de amor à pátria lusitana:
"Quando os holandeses começam a criticar-nos.... Que somos pobres, que não temos isto, não temos aquilo... Pouca indústria... Eu atiro-lhes logo que em Portugal até os urinóis são de mármore e bebe-se lá a melhor xícara de café do mundo!"

terça-feira, abril 1

Zangas

“A tua preocupação é inútil. Estou habituado a cair e, de uma maneira ou doutra, sempre me levanto. É certo que me magoo na queda, mas as manchas da alma, como as do corpo, cura-as o tempo, esse eterno benfeitor. E não esqueças o que ontem te disse: segredo de dois não é segredo.”

Olhou o écrã, releu o texto do mail que ia mandar. Achou-se tolo. Apagou-o.
Tinha-se inventado uma amante virtual, mas mesmo com essa, em vez de paixão eram só zangas.

segunda-feira, março 31

Para pensar

"Accept the cookies when they are offered, not when you are hungry"

Tradução livre: "Aceita os doces quando tos oferecerem, não quando te sentires esfomeado."

O cliché e a descoberta

O facto primeiro, talvez o mais marcante, é o de que, ao criar o seu mundo, o holandês logo deu mostras de que a separação original das águas e da terra, descrita no Génesis, lhe parecia sus­ceptível de melhoria.
Que essa inventividade lhe tenha cabido por graça divina, ou ele a tenha simplesmente desenvolvido por iniciativa própria, é questão menos interes­sante que a de consider­ar o emprego que, através dos tempos, ele fez de um tão inato pragmatis­mo.
Se nos anais escasseiam as fontes que nos informem sobre os seus tempos primevos, a evolução do holandês acha-se excelente­mente documenta­da desde que deu início à batalha contra os elementos, tornando-se, como se sabe, mestre na prática de tirar benefício do formidável poder dos seus inimigos naturais.
Porém, como se essa luta de certo modo lhe tivesse exaurido a capacidade de combater, a partir do momento em que reteve a água com os diques, e conseguiu domar o vento com as pás dos moinhos, transformou-se ele num ser cuja preocu­pação dominante parece residir num permanente anseio de paz, e a incondicional mantença de harmonias.
Poucos povos se poderão orgulhar, como este, de uma história em que sejam tão poucos os ataques: uma ou duas as invasões; que no seu chão não consigam pegar as raízes daquele tipo de nacionalismo que descamba em barbárie; que talvez só no Oriente se pratique com refinamento igual a arte do compromisso e do consenso.
Contudo, no desleixado mundo em que vivemos, as virtudes e a realidade podem menos que o cliché. E o cliché retrata o holandês como um indivíduo por natureza reservado e sombrio, incapaz de paixão, incómodo no trato. O estereótipo quer também que a sua Holanda seja apenas o país onde ele, calçado de tamancos, numa mão o copo de cerveja e na outra o arenque, caminha lentamen­te por entre campos coloridos de tulipas.
Felizmente que contra o lugar-comum há antídotos, e o mais eficaz é por certo o de aprender a ver com o coração. O holandês e a Holanda ganham então dimensões que não suspei­ta quem, apressadamente, superficialmente, apenas sabe ver com os olhos.
E aqui falo por experiência. Uma época houve em que eu próprio tive do país e dos seus habitantes essa estereotipada imagem de buchos-de-cerveja, cabeças-de-queijo, vacas leiteiras atropelan­do-se numa paisagem feita só de horizonte, ponteada aqui e além por um vulto de moinho.
Mas os deuses foram benévolos comigo e deram-me tempo. Cinquenta anos. Tempo bastante para que aprendesse a ver e me curasse da insensibilidade. Para deixar que o que aos meus olhos parecera informe ganhasse contorno, o aparente­mente vulgar desvendasse um refinamento. Para que eu fosse capaz de discernir a sabedoria por detrás do tédio, e de descobrir que as emoções profundas não necessitam, forçosamente, de grandes gestos ou palavras ribombantes.
Claro que Rembrandt, o genial Van Gogh, sempre tinham sido para mim mais que simples nomes ou referências. Esses e outros, porém, colocava-os eu fora do contexto a que pertenciam: eram mundiais, demasiado grandes para a Holanda da deformada imagem de leite, queijo e chateza que eu então me fazia dela. Mas também aí a força da realidade se foi sobrepondo à ignorância, ou melhor: à minha descuida­da maneira de ver. Até ao dia em que a visão, ajustando-se, conseguiu finalmente tornar nítido o que até então lhe aparecera difuso e de pouco interesse.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem foi como nos milagres ou nas grandes revelações: em parte nenhuma soaram trombetas, não houve relâmpagos a iluminar o céu, não apareceram vultos a fazer anúncios. Mas com uma satisfação igual à que devem ter ressentido os navegadores do passado, gradualmente dei-me conta de que conseguira “descobrir” outra Holanda, a verdadeira. Que entre mim e ela se estreitavam os laços que tanto tempo tinham permaneci­do frouxos. Nesse momento, fosse eu poeta, tê-la-ia cantado numa ode.

quinta-feira, março 27

Fado, Fátima, Futebol e Figo

Uma recordação de Fevereiro de 2004

Grande descanso dá a ignorância. Vivia eu pouco mais sabendo de Luís Figo que o que apanhava na leitura breve e desinteressada dos cabeçalhos dos jornais. Que era talentoso na sua arte. Que ganhava com os pés as quantias mirabolantes que nem se atreve a sonhar quem, por instrumento, só tem a cabeça. Que quase causara uma revolta quando, com mais proveito do que Judas o fez a Cristo, atraiçoara Barcelona, mudando-se para Madrid.
Recordo também ter visto uma fotografia que o mostrava cercado de banqueiros sorridentes. Numa outra sorria ele a uma beldade que, informava a legenda, era sueca, loira e sua companheira.
Salvo uma outra aparição em cartazes publicitários, ou em fugidias imagens da tv, breve e distante como tinha entrado na minha vida, assim Luís Figo saiu dela. Pelo menos era o que eu julgava, quando de súbito, uma manhã de Dezembro passado, a sua presença se me impôs. De forma indirecta, é facto, mas nem por isso menos contundente.
Quem até há um ano ou dois atrás frequentou o aeroporto do Porto - aquele que, um pouco antes da aterragem dos aviões, as hospedeiras anunciam com o seu oficial e longo nome de “aeroporto Francisco Sá Carneiro” - recordará um edifício de dimensões modestas e ambiente provinciano, com um parque de estacionamento fronteiro às “Partidas e Chegadas” onde pouco mais caberia que uma centena de carros.
Com os preparativos para o Euro 2004 tudo isso mudou. O edifício, renovado, transformado, largamente aumentado, não ficaria mal numa metrópole, e no seu subsolo foi construída uma garagem para talvez mil carros, tão gigantesca que se perde a gente nela.
Numa manhã de Dezembro passado, pois, cheguei eu em grande pressa ao aeroporto do Porto, porque os meus netos corriam o risco de perder o avião que os levaria para Amsterdam.
Parei, expliquei a um dos polícias que rondavam por ali a minha aflição, esperançado, quase certo, de que ele compreenderia a urgência e a necessidade de, apenas por minutos, estacionar o carro junto da entrada, o tempo de levar as crianças e as malas até ao balcão.
Esperança vã. Cheio de autoridade, não me deu resposta nem sequer me encarou, e ainda eu não tinha acabado a explicação já ele fazia girar o cassetete para que me despachasse. Sem outro remédio despachei-me, dei a volta e, mudo de assombro, penetrei pela primeira vez na garagem subterrânea que desconhecia.
Com o choque quase esqueci a urgência que tinha e, olhando em redor, a primeira comparação que me ocorreu foi a de uma catedral. Mas uma catedral vista por olhos de criança. Dimensões esmagadoras.
O tempo, infelizmente, urgia, e eu não estava ali para me embasbacar, sim para o mais depressa possível estacionar o carro. Dei voltas sem conta, estonteado a ponto de em certos momentos não saber onde me encontrava. Vaga não havia nenhuma, das poucas vezes que, perto ou longe, apercebia uma, já alguém mais feliz do que eu se apressava a ocupá-la.
Desesperado como me sentia, julguei que fosse alucinação, mas era realidade: defronte de mim, num chão de ladrilhos luxuosos, junto de um muro onde se abria a porta azul de um ascensor, havia cinco ou seis lugares vagos.
Parei o carro, suspirei de alívio, saí e dei de caras com um polícia que parecia ter-se materializado por milagre.
- É proibido estacionar aqui.
- Mas porquê? Não vejo sinal nenhum!
- E estes cordões?
Na minha agitação eu não tinha reparado nos cordões de veludo vermelho que, sustentados por varas de metal cromado, faziam uma espécie de cerca.
- Dentro deste cordões - explicou ele - é reservado para os VIPs.
E depois, severo, para que eu me desse conta do sacrilégio: - Na semana passada esteve cá o Figo, e estacionou exactamente aqui. Até ouvi dizer que é o lugar dele.

Os netos apanharam o avião, que felizmente se atrasara , e eu, livre de encargos e de pressas, comprei um jornal, fui tomar café.
Grande descanso dá a ignorância, afirmei antes. Mas assim não é. Talvez por ser sábado o jornal trazia um grosso suplemento desportivo, dezenas de páginas a detalhar o que, mau grado a sua importância, escapara à minha atenção. Fui lendo, com o sentimento de estranheza que talvez ressintam os animais quando acordam da hibernação, um sentimento de estar no mundo sem me aperceber do que acontecia em redor.
O aumento do aeroporto, aquelas obras que me tinham parecido grandiosas, tornavam-se uma ninharia se comparadas com o que acontecia no resto do país. Nada menos de dez estádios, dois dos maiores em Lisboa, achavam-se em fase de acabamento, e o jornal, trombeteando, falava de construções gigantescas, ciclópicas. Nenhum país europeu se podia orgulhar de semelhantes obras-primas da arquitectura, de estádios com tanto luxo, ou tecnicamente mais avançados.
A respeito do novo estádio de Braga, projectado por um arquitecto de renome, era um desvario de qualificações: aquilo não era estádio, era uma jóia, uma preciosidade, uma maravilha que, ao ver-se, fazia perder o fôlego. Elegância igual à das suas linhas só talvez existisse nos templos da antiga Grécia. E o jornalista tornava-se ligeiramente libidinoso, ao afirmar que, para encontrar proporções de tão sublime perfeição, seria necessário recorrer ao feminino, sugerindo que, para resultado que se lhe assemelhasse, se teriam de fundir num só os corpos de Nancy Crawford, Kate Moss e Naomi Campbell.

De volta à minha aldeia transmontana contei numa roda de amigos o que me tinha acontecido, o que tinha lido, mas eles, em vez do ar de comiseração que eu esperava, riram-se com azedume da minha falta de interesse e de conhecimentos.
Que não morresse de amores pelo desporto, ainda era de aceitar, mas estava eu pelo menos ao corrente que Portugal tinha recebido o privilégio de organizar no Verão o Euro 2004?
Acenei que sim, julgando apaziguá-los, mas de pouco valeu. Uns mal humorados, outros marcando as palavras com um exagerado gesticular, submeteram a um furioso libelo o meu suposto desamor pela Pátria.
Tinha eu ideia de quantos dezenas de milhões, centenas de milhões de euros, o acontecimento faria entrar nos cofres do Estado? Era eu capaz de calcular o que tão gigantescas obras significavam em postos de trabalho, salários, melhoramento das infraestruturas? Os benefícios que daí viriam, e permaneceriam, para enriquecimento do país? Seria a minha candura tão desmesurada que me impedia de ver o enorme impulso que as centenas de milhar de visitantes, talvez milhões, iriam dar à indústria, ao comércio, à hotelaria, aos restaurantes e aos transportes?
De certeza tinha as suas vantagens o ser-se escritor, continuaram os mais embirrentos. Ao escritor era fácil desdenhar do mundo, e ironizar lá do alto da torre de marfim, mas a dureza da vida, o ter de lutar pelo pão, não se compadece com finezas e sensibilidades.
Que queria eu? Zonas verdes em vez de estádios? Criava isso riqueza? Dava trabalho? Era sinal de progresso? Sabia eu que, por exemplo na Inglaterra, um clube como o Manchester United, tinha um valor muito superior ao de grandes companhias mundiais? Não seria bom se um dos clubes portugueses atingisse iguais pináculos?
Lembro-me vagamente que ainda se falou de que, com bons estádios, forçosamente se geravam condições favoráveis ao aparecimento de novos Figos. Que, de tão fora do comum, seria impossível cifrar o valor da publicidade que, através do mundo, o Euro 2004 ia dar a Portugal.
O mais entusiasta dos meus amigos concluiu dizendo que, não somente semelhante empresa merecia aplauso, mas que os investimentos agora feitos, mesmo sendo de imediato onerosos para as débeis finanças do país, certamente iam render, sabia-se lá?... Duzentos? Quinhentos? Mil porcento?

Despedimo-nos com gracejos, minimizando as nossas diferenças, mas, de cansaço ou exaspero, essa noite foi para mim de insónia.
Num momento a reprovar a minha falta de consideração pelas simpatias e os entusiasmos dos meus amigos, no momento seguinte a tratá-los de alarves, por darem tão desproporcionada importância a um desporto que, mau grado as centenas de milhões dos seus adeptos e os colossais rendimentos, não se me afigura, embora geralmente se afirme o contrário, como sendo uma actividade tendente a elevar a natureza humana, ou a criar harmonia entre as nações.
No dia seguinte, em busca de contra-argumentos de mais peso que o meu desinteresse, liguei o computador, procurei “Luís Figo” na internet, e logo Google me apresentou nada menos de setenta e cinco páginas, cada página com dez hits, cada um destes subdividindo-se num sem número de outras páginas, links, sites, albuns fotográficos, vídeos, cartazes, impressões, artigos, biografias... Um emaranhado que demoraria meses a destrinçar, além de que, fora as línguas mais correntes, se teriam de conhecer outras exóticas, como o coreano, o usbeque, o baasa indonesia, o urdu, e sabe Deus quantas mais.
De pouca dúvida era o facto de que, provavelmente todas esses sites - os que li de certeza ecoavam aqueles de que só pude apreciar as ilustrações - eram um rosário de ditirambos e superlativos, descreviam com minúcia as excepcionais qualidade de Luís Figo como desportista, como futebolista, avançado, português, homem, filho, camarada, filantropo, protector da infância...

Contra-argumentos para rebater o entusiasmo dos amigos não encontrei, e animosidade contra o futebol em geral, ou as suas estrelas em particular, também não sinto. E nessa noite, num momento de mais serenidade, metendo a mão na consciência, tive de concordar que a minha indiferença em relação ao desporto-rei estava longe de ser tão fundamental como pretendia.
Pois não tinha eu, na infância, idolatrado Artur de Sousa, o “Pinga” do F.C. do Porto que, ressalvadas as diferenças dos ganhos, era o Figo desse tempo remoto?
Uma recordação foi trazendo outra, e lá me revi uma tarde de Verão de 53 (ou terá sido 54?), no Parc des Princes, em Paris, a assistir a um Racing-Benfica. Às lembranças esfumadas de outros jogos, talvez ouvidos na rádio, seguiu-se uma muito viva de um Porto-Ajax, em Dezembro de 1987. Depois outra, três ou quatro anos passados, de um Portugal-Turquia na Arena de Amsterdam.
Confuso, e quase descrente de que se me tivesse tornado tão selectiva a memória, revi as horas passadas defronte da televisão, a seguir desafios em que Portugal e a Holanda se defrontavam, hesitando sobre qual a equipa a que deveria dar a minha simpatia.
Mas ao perguntar-me se esses arroubos momentâneos, e tão largamente espaçados, fariam de mim um tifoso, vi-me obrigado a responder pela negativa, pois o futebol só muito esporadicamente entra na minha vida, sempre com o aspecto de uma ligeira febre que pouco mais dura que os noventa minutos do jogo.
Contudo, passada a excitação e retomando os sentidos, devo confessar que o futebol me preocupa. Não como desporto, fenómeno social, ou espectáculo que em redor do mundo diverte e emociona centenas de milhões. O futebol preocupa-me, sim, muito egoisticamente, no que ele em Portugal, a minha outra pátria, tem de comum com a situação de Panem et circenses, que já no séc. II da nossa era o poeta Juvenal criticava em Roma.
Não me regozijo no papel de pisse-vinaigre, e parecerá extemporâneo, deslocadamente azedo, mesmo inconveniente, tocar semelhantes assuntos num tempo de tão grande euforia. Mas certo e seguro chegará o momento em que os jogos terminam, a euforia passa e, encerrado o Euro 2004, ao fazer-se as contas, bem aleatória se tornará a certeza de que haja pão para todos.
Que se me perdoe o desabafo, mas estonteia-me o facto que num país tão necessitado, neste momento e de novo o mais pobre da Europa, se tenha gasto um bilião de euros na construção e na renovação de dez estádios.
Isso com a benção de um governo risonho e optimista que, com o primeiro-ministro à frente, foi a um desses estádios e, na presença de 50.000 almas, ignorantes ou preferindo esquecer a miséria de que já sofrem, e aquela que as espera, deu o pontapé de saída ao Euro 2004.
Perdoe-se-me ainda esta ladainha de misérias, infelizmente tão bem expressa na secura dos números. Em 2003 a economia portuguesa diminuiu de 1.1% , ocupando o último lugar que, desde 1986 a 2001 coubera à Grécia. No que respeita a inflacção e o desemprego constatam-se em Portugal os maiores aumentos entre os dos países membros da UE. Enquanto na UE os preços dos bens de consumo aumentaram em média 1.8%, em Portugal a subida foi de 4.4% , e o desemprego passou de 4.1 para 7.2 porcento.
Felizmente, nem tudo são más notícias, pelo menos para alguns: os executivos portugueses recebem os honorários mais elevados da UE. O salário dos directores das empresas públicas é três vezes maior que o dos seus colegas espanhóis ou franceses, e os jornalistas mais importantes da televisão pública auferem ordenados quatro vezes maiores que o mais reputado anchor man da RAI italiana.
Por sua vez o salário mínimo é de apenas 365 euros mensais, enquanto o salário médio dos trabalhadores industriais é de 828 euros, o que equivale a 53% do salário industrial médio que recebe um espanhol, e metade do que ganha um irlandês, um sueco ou um italiano. Os docentes nas escolas e universidades, funcionários públicos, recebem em média o dobro dos seus colegas da EU.
Seria fácil deitar as culpas ao actual governo, conservador e direitista, por dissipar os dinheiros públicos. Acontece, porém, que o esbanjamento já vem do governo anterior, socialista e dito de esquerda, o qual, eleito com a promessa de que terminaria com o favoritismo, e apoiado no slogan optimista “no jobs for the boys”, logo elevou o número de burocratas para mais de 700.000, extraordinária sobrecarga para uma população de 10 milhões.
Ao governo socialista se deve também aquilo a que os analistas chamam the Latin America-style gap da economia portuguesa, com as enormes diferenças que se constantam entre ricos e pobres. E essas não dizem apenas respeito às abismais diferenças dos rendimentos, mas reflectem-se nas comparações com os restantes países da EU, no que concerne o número de horas de trabalho e o acesso aos serviços de saúde pública, à educação e à cultura.
Enquanto que a média de trabalho anual nos outros países da UE é de 1.620 horas, a média portuguesa eleva-se a 1.730. Nos hospitais públicos a lista de espera para operações de cirurgia é de seis anos, e por ser exorbitante o custo dos cuidados dentários, apenas 35% da população se pode permitir o luxo de recorrer ao dentista.
No seu relatório Employment in Europe, a Comissão Europeia aponta que 20% da população portuguesa tem problemas de saúde, enquanto que a média europeia é de 10%. É também em Portugal que se constatam os níveis europeus mais elevados de reumatismo, tensão arterial e diabetes.
Tudo isso já seria mau, mas a lista alonga-se a outros campos de desgraça. Portugal é nr. 1 europeu no número de mortos em acidentes rodoviários. A proporção de acidentes no trabalho alcança 7.214 por cada 100.000 habitantes, triste resultado quando comparado com a média europeia de 4.450. Portugal acusa ainda os níveis europeus mais elevados no consumo de soft drugs, nos casos de SIDA, e de brutalidade policial, este último mantendo-o na lista negra da Amnesty International.
Nas estatísticas oficiais a percentagem de analfabetos aparece como alcançando uns meros 11.8% , mas no relatório antes mencionado o número de portugueses que se podem considerar como funcionalmente iletrados sobe a um assustador 48%, mais do que o dobro do nível verificado na Grã-Bretanha.
Confrontado com estas estatísticas, um comentador escrevia recentemente: “Portugal já tocou no fundo, mas era um fundo falso. Por isso continuamos a cair, desconhecendo o que nos vai acontecer quando chegarmos ao verdadeiro fundo.”
O acesso à UE de dez novos países membros, todos eles com níveis quase-zero de analfabetismo, amplo acesso à cultura e excelente capacidade técnica, resultará para um país economicamente, culturalmente e técnicamente fraco, como Portugal, num inevitável retrocesso e num, igualmente inevitável, desinteresse dos investidores.
Tal como já tantas vezes aconteceu na sua longa história, o país encontra-se de novo à beira de um precipício. Em 1986 salvou-o a adesão à CEE, mas logo, como um doidivanas, em vez de investir sabiamente os desproporcionados subsídios que recebeu, desbaratou-os ele em luxos de novo-rico. Agora talvez tenha de o salvar a Espanha, de que economicamente já depende.

Após um tão longo rosário de misérias e maus presságios, é justo que o leitor se pergunte o que é que isto tem a ver com Figo em particular, e o futebol em geral.
Em minha opinião tem muito, pois não somente o futebolismo é desde há décadas a religião oficiosa dos portugueses, como fez com que no país se erguessem as gigantescas basílicas onde figuras como Luís Figo recebem uma adoração que, em fervor, nada fica a dever à que nos altares cabe aos santos. E será redundante lembrar aqui a frase de Lenine sobre a religião como ópio do povo, mas não é menos certo que, pelo menos o espaço de um Verão, a euforia do campeonato fará esquecer as nuvens negras que se acumulam a prenunciar um tempestuoso futuro.
Os portugueses - extraordinária gente, 10 milhões de almas que possuem mais de 11 milhões de telemóveis, e gastam em telecomunicações três vezes mais no que na educação - continuam a exprimir no fado a sua inata e intensa melancolia, e ainda vão de romagem a Fátima. Verdadeiro e apaixonado fervor, porém, só o mostram no estádio, revendo-se extasiados nas piruetas dos seus futebolistas.

Isto foi o desabafo, mas a consciência e a verdade mandam que se lhe siga a confissão. Estarei em Portugal logo desde o começo do Euro 2004, e não vou perder a abertura, nem aqueles jogos que, um eventual Portugal-Holanda por exemplo, provarão a dificuldade de manter o espírito escorreito em alguém que, como eu, vive em simultâneo duas vidas, possui duas sensibilidades diferentes, se exprime em duas línguas discordantes, se sente dilacerado por interesses contraditórios e visões opostas da realidade.
Não irei aos estádios, porque sempre me assustaram os grandes ajuntamentos, mas sozinho ou com os amigos assistirei na televisão, o entusiasmo há-de contagiar-me, também vou aplaudir. E enquanto o jogo durar vou esquecer.

segunda-feira, março 24

Anedota

Contaram-mo como verdadeiro, parece anedota. Eu gostaria que fosse anedota.
Num colégio americano, desses para filhos dos super-ricos, um docente achou útil que os seus pupilos testemunhassem sobre as desigualdades sociais, e mandou que redigissem um texto sobre as circunstâncias de uma família pobre.
Uma das “pérolas” rezava assim: “Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. As criadas eram pobres e a cozinheira também era pobre. O chofer era pobre. O jardineiro era pobre. A piscina estava sempre suja e não tinha água."

quinta-feira, março 20

ESTÁ PARA BREVE!

O Arturzinho quer saber quando é que a loja reabre, ou a barca recomeça a navegação. Está para breve, mas primeiro há que festejar as Páscoas!

sexta-feira, março 14

PAUSA

Este estabelecimento estará encerrado durantes uns dias.