sábado, março 1

sexta-feira, fevereiro 29

Nostalgia em 45 rpm (6)


Tarzan em Aveloso

Pelos vestígios arqueológicos encontrados sabe-se que Aveloso já era habitada no Megalítico. Os romanos deixaram nela a ponte de três arcos que atravessa a Ribeira de Teja. Os árabes ocuparam-na no séc. VIII, mas ficaria depois desabitada até à Reconquista, no séc. XII.
Recebeu foral em 1514 e o artístico pelourinho é também dessa data. Aveloso tinha então importância suficiente para nela habitar um bispo, de cuja residência resta uma bonita janela manuelina.
Dois outros edifícios serviram de moradia aos bispos de Lamego: um também do séc. XVI, a que o povo chama “o convento;” o outro, a Casa dos Buchos, data do séc. XVIII. Próximo desta última encontra-se uma casa que tem na parede uma figura antropomórfica, conhecida pela “Cara do Aveloso.”

Dos fins do séc. XIX às primeiras décadas do século passado, Aveloso gozou de fama mundial.
Em 1882 nascia ali Albano de Jesus Beirão, filho de pobres que, por volta dos sete anos, começou a sofrer de estranhos ataques duas vezes ao dia.
Pulava, rebolava, uivava, subia às paredes com agilidade animal, dava saltos enormes, corria como um galgo. Nesses momentos desenvolvia uma força descomunal, o que lhe valeria depois a alcunha de “Homem-Macaco”.
Foi notícia mundial. Edgar Rice Burroughs interessou-se pelo caso, e supõe-se que se tenha inspirado nele para criar a figura de Tarzan no seu romance Tarzan of the Apes (1914).
Nos anos 20 o governo nomeou uma comissão que levou o “Homem-Macaco” pela Europa, para que fosse examinado por sumidades médicas. Contudo, das pesquisas feitas então na Itália, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Espanha, Bélgica e Suíça, nunca foram publicados os resultados.
Cerca de 1932, ao completar 50 anos, os ataques cessaram subitamente, tendo Albano a partir daí levado uma vida sossegada pois, nas suas palavras, “o governo de Lisboa dá-me o que preciso; além disso, vendi a cabeça aos alemães, que a querem estudar.”
Viria a morrer aos noventa e quatro anos no hospital da Guarda em 1976 e, segundo testemunhos, “do caixão selado escorria muito sangue”.

quinta-feira, fevereiro 28

Nostalgia em 45 rpm (5)


O Paço da Glória em Arcos de Valdevez

A construção do primeiro paço da Glória perde-se no tempo em que os galeões voltavam do Oriente carrega­dos de ouro e pi­men­ta. Do dia para a noite os fidalgos passavam de remedia­dos a nababos, e mandar fazer um paço condigno com as suas novas pos­ses era o menos que se esperava deles.
D. Geral­do Coutinho de Lima, senhor de Cochim - a primeira feitoria europeia da Índi­a - e proprietário de duas naus, tinha recebido as terras da Glória por doação de D. Manuel I em 1515, começara a casa, mas viria a falecer com ela ainda nas paredes.
O seu primogénito, D. Fernando, seguiu as pegadas do pai. A ele se deve que em Cochim se tenha feito a primeira impresão de livros na Índia. Infe­lizmente, no dia em que os carpin­teiros terminavam o arca­bouço do telhado, fulminou-o um ataque, dando corpo à lenda de que daí em diante todos os donos da Glória morreriam sem herdeiros.
Reza a crónica que essa pra­ga lhe fora rogada por um judeu de Cochim, a quem ele tinha en­ganado num negócio, e que até ao fim do mundo ela cairia sobre todos os que tocassem a propriedade.
O paço e os terrenos passaram então para um D. Afonso, parente afastado. Esse, para escapar ao mau destino, tinha-se dado ao trabalho de, por volta de 1635, viajar para Cochim, na certeza de que lhe não seria difícil encontrar um judeu no meio dos india­nos e da meia centena de portugueses que lá haveria. Para sua surpresa, porém, nessa altura já os holandeses tinham conqui­stado a feitoria, e nela não havia duas ou três famílias judi­as, mas milha­res, a maior comunidade judaica da Índia, for­mada ali desde o século IV da era cristã.
Percorrendo o labirinto de ruas, seguindo pelos ribeiros e lagoas de Co­chim, procurando por entre os templos india­nos, as mesquit­as e as igrejas, D. Afonso acabou por descobrir a sinagoga. Mas do homem que lhe interessava, nem rasto.
Passado ano e pico voltara para a Europa num galeão holandês, desembarcando em Vlissingen, onde pouco depois viria a falecer do tifo. Sem her­deiros.
Deixadas ao abandono durante anos, as terras da Glória eram um matagal, e do paço inaca­bado, que fora der­ruin­do aos poucos, restavam as cantarias. Na segunda metade do século 18, a grande praga de míldio que tinha assolado os vinhedos franceses, con­tribuíra para uma súbita prosperidade das vinhas do Minho, e dessa altura data a construção do paço actual.
Porém, sobre quem o mandou fazer, ou quando, não há documentos. Fala-se de um nobre excêntrico, que por não ter mulher nem parentes, man­tinha naquele deserto um grupo de músicos para lhe alegrar ­as refeições. Fala-se de um pai louco, que encarcerava as filhas num subterrâneo, por temer que elas o desonras­sem. Con­ta-se de um galego, que fugira para ali por ter enri­que­cido, depois de ter feito com o diabo um pacto que o obriga­va a co­mer gente.
Ao certo nada se sabe, a não ser que a praga do judeu ainda surtia efeito, pois de novo ficaram as terras ao abandono e o solar meio arruin­ado.
Comprou-o nessa altura um emigrante, que tinha voltado velho e cansado de Manaus, onde enriquecera durante o boom da borra­cha. Sendo de opinião que, para a sua própria felicidade, ninguém precisa mais do que pão para a boca e uma cama para dormir, o homem mandara levantar só parte do que tinha caído. Para conforto dos seus oitenta anos juntara-se com uma rapariga de dezoito, filha do caseiro.
Como era de esperar, a união não deu fruto. No começo do século XX, o novamente abandonado e meio derruído edifício passou para as mãos do filho de um lavrador abastado de Ponte de Lima. O rapaz, que tinha inclinações românticas, e nen­huma intenção de mourejar no amanho da terra, dedicou-se uns tempos à pintura. Mas pelos jeitos depressa se aborreceu da arte. Em 1907 decidiu partir para Filadélfia, onde o seu char­me conquistou o coração de uma viúva. Não uma qual­quer, mas a viúva de John Batterson Stetson, o famoso inventor e fabri­cante do cha­péu do mesmo nome, que um ano antes tinha entregue a alma a Deus.
O pintor deve ter efabulado para a viúva sobre o palácio que possuía em Portugal, e a americana provavelmente se entusi­asmou, e quis visitar esse domínio exótico. Só que no dia em que aparece­ram ambos na Glória ela não deve ter gosta­do do que viu, porque logo anunciou que partia.
O marido insistiu que ficas­se, pois o monarca, ao corrente da colossal fortuna herda­da do rei dos chapé­us, o ia fazer conde. E ela seria condes­sa, com brasão autênti­co, o que na democrática América não era para desprezar.
A ex-viúva concordou, mas mal viu as cartas de no­breza autenticadas, disse que não ficava nem mais um minuto. Fi­casse ele. O conde, homem avisado, preferiu acompanhá-la e ambos desapareceram para todo o sempre, sem que se lhe conhe­cessem herdei­ros.
Com mais de trinta anos de abandono os telhados tornaram a desabar. O que restava das paredes foi caindo pouco a pouco. A vinha, as terras de lavoura, a mata de pinhei­ros, de novo se tornaram um matagal. E como naquele tempo todo não aparecera ninguém a reclamar-se dono da propriedade, ou a pagar as contri­buições devidas, em 1935 a Justiça pô-la a leilão.
Pouco depois apareceu em Arcos de Valdevez o lorde William Pitt, que viu a ruína, gostou dela e a comprou.

Também o lorde morreu sem herdeiros. A história que, numa tarde do Verão de 1948, ele próprio me contou, e as que depois se seguiram, embora interessantes, são longas e complicadas em demasia para tratar aqui.

quarta-feira, fevereiro 27

terça-feira, fevereiro 26

Remexendo nas gavetas (25)

Paris, 1966. Jogos Florais ? Tudo passa! Até a expressão.
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segunda-feira, fevereiro 25

Nostalgia em 45 rpm (3)


Camposancos

Camposancos. Vê-se daqui da praia, porque fica do outro lado, defronte de Caminha.
Tempo do meu passado. Quando conhecia a palmo ambas as margens do rio, que ambas tinham sido para mim o cenário das emoções memoráveis da juventude. O primeiro amor de adolescen­te, a pri­meira fuga, as travessias do rio nas noites sem lua, que fazíamos pelo gosto do perigo, sabendo que do lado espanhol, e mais por divertimen­to que por zelo, os homens da Guardia Civil não hesitavam a atirar a sério.
Campo­sancos. Ainda hoje sou capaz de ir direito à casa de Don Ignaci­o, o bondoso cura que nos dava maçãs do seu passal - “Se não as dou, vêm-mas rou­bar!”- e infalivel­mente queria saber se tínhamos ido à con­fissão, se não esquecíamos a comun­ga.
Recordo também Don Fran­cisco, o padre de Goián, mais novo, magro que nem uma garça, passean­do a ler o bre­viário na estra­da onde só de longe a longe aparecia um carro.
Açulados que nem matilha de cães com cio, quando nos cruzáva­mos víamo-lo fazer no ar um sinal da cruz facet­o, talvez tanto para nos abençoar, como em exor­cismo às ten­tações com que o atormentava o Demo, e mais tarde fariam dele um assas­sino.
A serração de Tabagón. Uma chaminé que se vê de quiló­met­ros ao redor, e para mim era um duplo farol: na grande casa anexa viviam Don Ramón, meu herói, e Rosalia, a irmã mais nova, dezasseis anos como eu, mas infinitamente mais sabida, e que, maldosa, atiçava na minha alma e no meu corpo as grandes labaredas da paixão.

domingo, fevereiro 24

Nostalgia em 45 rpm (2)




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sexta-feira, fevereiro 22

Nostalgia em 45 rpm (1)


Lanhelas - 1946

À chegada a Lanhelas estranhei a casa. Com os seus dois anda­res e arrumos, estrebaria, o pomar em volta, a nascente donde a água brotava para um tanque com rãs, pareceu-me demasiado grande para os meus pais e para mim. E soturna, como se encerrasse uma ameaça.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serra­ni­as, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto sedu­ziu-me. Mas era sere­nidade demais, beleza demais, um equilíb­rio tão perfeito que logo me faltou a desor­dem e o bulício a que me tinha habituado, quando da minha janela em Gaia olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomo­tivas e o matra­quear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, dimi­nuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instan­tes na quie­tude do ar.
Casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encos­ta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso, junto da nossa, raro se ouviam sinais de gente, e era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que tra­balha­vam nas leiras subitamente entoavam em coro as canti­gas dolen­tes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo, como um véu, a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, felicidades nunca sentidas.
É certo que havia o dinheiro do contra­bando, mas esse infe­lizme­nte não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacr­ifíci­o, gosto do risco, um traço de crueldade, e indiferenças de carác­ter que poucos pos­suíam.
Por isso a aldeia tinha a sua élite de con­trabandis­tas e uma infantaria de carrejões, pescado­res-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jorna­leiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir, que levados pela fome iam emigran­do em peque­nos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses de­pois, arranjado um pecúlio e um fatin­ho decen­te, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que, poupando migalhas, lhes chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande tra­vessia para o desconhe­cido do Bra­sil, da Améri­ca, do Ca­nadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes cor­resse mal.

quinta-feira, fevereiro 21

O RIJOMAX (2)







Tabuaço 1991. O Sr. Ribeiro, inventor do RIJOMAX, e o seu invento - v. post de 16.01.2008.
(clique para aumentar; note o conta-quilómetros)

quarta-feira, fevereiro 20

Viana do Castelo

Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, deixei de lhe per­tencer. Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram.
Desper­tan­do negru­mes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas, mas inúteis, as dores de então, passageiras as alegrias, parali­santes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram cons­tantes e harmoni­osas. Terei eu de facto sido assim?
Melancólico, deixo que o passa­do desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painé­is desbotados num panora­ma de ar­tifício.
Não me inte­ressam as ruas, as gen­tes, as casas, as vibrações do dia soa­lhei­ro. Vou ensimesma­do, desco­brindo que nem a experiência dos anos me ajuda­rá a conci­liar as vozes desen­contradas que, dentro de mim, ora animam a agir, ora me censu­ram os actos, as palavras, os desejos. Que me culpam de não ser capaz de, duma vez para sempre, sacudir os entra­ves da memór­ia. Me acusam de fraqueza, por retornar aos lugares onde sofri, com um impulso tão irreprimível como o que, dizem, leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.

terça-feira, fevereiro 19

Remexendo nas gavetas (24)


(Edição de 1956)

Remexendo nas gavetas (23)


Louis-Ferdinand Destouches
Louis-Ferdinand Céline
Céline
(1894-1961)
Aqui em uniforme de gala de quartel-mestre de Cavalaria (1915)

segunda-feira, fevereiro 18

Remexendo nas gavetas (22)


Comprei-o em 1946, em segunda mão, no dia dos meus anos. Gostei. Achei estranho que não tivesse autor, só tradutor, mas Sir Henry Rider Haggard deve ter sorrido e desculpado a Livraria Lello.

sábado, fevereiro 16

Ramón María del Valle-Inclán


Eduardo Malta pintou Salazar em 1933 (v. Museu do Caramulo).
Uma tarde do Verão de 1934, num café em Madrid, Joaquim Novais Teixeira (1898-1972), meu amigo e mentor, viu o retrato num jornal e mostrou-o a Valle-Inclán (1866-1936) seu companheiro de tertúlia.
O escritor galego olhou, sorriu, e foi lacónico no comentário: "El Mono Liso".

quinta-feira, fevereiro 14

Vila Nova de Cerveira - o benemérito, o hospital, a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, Sopo e o ex-abade


Do Verão de 1946 até fins de 1950 V. N. de Cerveira foi para mim lugar de amores e alegrias, inesquecíveis tardes de remo, festas, saltos clandestinos para Goián e Tabagón. Nesta última havia uma Carmina, por quem corri o risco de me tornar galego.
Depois abalei, Cerveira cresceu, tudo nela são agora artes bienais e modernidades, dos companheiros de então provavelmente não resta um.
No hospital estive uma única vez, de visita a um enfermo. Achei-o excepcional. Não conhecia a história da sua fundação, que encontrei ontem no folheto das festas de 1957.
Ponho-a aqui porque é bonita, e fala de um tempo em que a generosidade ainda era romântica. Bem haja o senhor Lebrão, a família dos (bem donados) Maldonado e o padre Parente, que nesse tempo já era ex-abade do lugar.
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quarta-feira, fevereiro 13

domingo, fevereiro 10



Ínsua e Santa Tecla, 1988

Molêdo, Ínsua e Santa Tecla, 1988

A Ínsua, na foz do Minho

Nessa altura o senhor Viriato andaria pelos cinquenta, mas comparado com meu pai fazia figura de ancião.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo senta­va-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o gar­rafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe mereces­se simpati­a.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levan­tava uns olhinhos de réptil, a mos­trar que seguia a con­versa.
De repen­te resmungava frases des­conexas e, sem expli­cação nem despe­dida, levantava-se, aman­hava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia inte­ressado quando falavam de tiro­teios e perse­guiçõe­s, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondu­lação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar que­brava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encami­nhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na mural­ha. Como um pirata, imagi­na­va eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a Améri­ca, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventu­ras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entre­me­ando longos silê­nci­os que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, esten­den­do o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.

Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantas­ket Beach, num momento de eufo­ria, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o orien­te, voei como num sonho para as paisa­gens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegri­as, os entu­sias­mos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhe­cia o verdadei­ro peso da nos­talgia. Quando evoca­va recor­dações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longín­quo, cheio de perdas irreme­diávei­s, porque todas elas se achavam confort­avel­mente próxi­mas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensa­men­to.

sábado, fevereiro 9

quarta-feira, fevereiro 6

Homenagem a Ton Smits (1921-1981) - 1


Boris, o urso e a "jangada"

As palavras nem sempre bastam para retratar um personagem. No caso de Boris seria preciso juntar-lhes o olfacto e aquele po­der de raios-X com que, por vezes, descobrimos em al­guém uma es­sência que, outrossim, se mostra refractária a ser descrita ou definida.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris na­sceu em Leni­negra­do. São Petersburgo, bem sei, mas ele pró­prio conti­nua a cha­mar-lhe assim.
No tempo em que travá­mos conhe­cimen­to, ha­via anos que desertara do navio onde andava em­barcado, e pos­suía em Rot­terdam um café, um próspero negócio de máquinas de di­versão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais dis­tinto. Fora isso tinha ganho nome como boxe­ur, era agradá­vel no tra­to e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do per­sisten­te cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por aca­so, a viria eu a des­cobrir. Mas a essência do seu carácter - indes­critív­el, inde­finível - essa revelava-se sobre­tudo no primei­ro en­contro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco con­forme, apoiados so­bre pernas curtas e cambadas. Olhos de aze­viche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pen­dentes, que lhe da­va um ar de falsa bonomia. Um sorri­so de que não era fácil dis­cernir a qualidade, pois tanto pode­ria ser troça, como es­tupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negó­cios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de di­versão pareci­am ser uma parte diminuta que ocupava dois apren­dizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casin­hola de madeira no terreno das traseiras da ca­sa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gar­galhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - en­tre os quais também de bom gosto se incluía - telefona­va, grita­va com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cor­te­sias de des­pe­dida, também era capaz de num repente saltar para a car­rin­ha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, ga­tos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no ane­xo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leã­o de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À sol­ta, preso a uma cor­rente que qual­quer criança quebraria, deam­bulava o seu favo­rito, um urso cas­tanho que, da primeira vez que o descobri aga­chado a um can­to, quase me matou de susto, porque a min­ha mio­pia o con­fun­dira com um inofensivo monte de trap­os.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensai­ar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um for­te odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possí­vel acei­tar.

Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependênci­as da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de can­tis, mo­chilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, tele­fones de campanha, pás e picaretas, ante­nas, holofo­tes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas mili­tares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arru­mado a enorme embala­gem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as in­scrições late­rais, po­dia acomodar doze pesso­as. Outra inscri­ção, sob a pala­vra CAUTION! pintada a vermelho, in­dicava que, puxando a corda, a embar­cação se inflaria dentro de trinta se­gundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém ti­vera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não acon­teceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha es­capado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns con­tra, outros a favor, o dinhei­ro começou am­on­toar-se so­bre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levan­tou-se, deu um esticão à corda. E aco­nteceu!
O barco co­meçou a in­char com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidra­ças, a loi­ça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, en­cont­rando uma navalha, a espetou várias vezes no re­ves­timento de borracha, com a fúria de quem se defende dum mons­tro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o em­baraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava le­van­tar-se do chão.

terça-feira, fevereiro 5

domingo, fevereiro 3

Remexendo nas gavetas (18)


Moga-
douro (Maio, 1974)

sábado, fevereiro 2

Remexendo nas gavetas (17)



Em Alvites (Macedo de Cavaleiros)

Remexendo nas gavetas (16)


Em Estevais de Mogadouro.
Há cinquenta e oito anos na mesma porta.

O mar

Escondido no fundo do meu ser de montanhês há-de haver uma costela marinheira, herdada de algum remoto avô navegante que não deixou história, pois tanto quanto sei, nos dois últimos séculos a minha gente foi de vinhas, de rebanhos, searas e olivais.
Poucos deles terão visto o mar. Os que conheci iam na festa de Santo Antão em Agosto pescar ao Sabor, rio que só no Inverno merece esse nome, mas que os banzava por lhes parecer caudaloso, e do qual garan­tiam que a corrente tinha mais força que dez juntas de bois.
Compreende-se. Não conheciam força maior e, em todo o imenso ermo de montes e de vales em que mourejavam, havia apenas duas nascentes donde corriam, correm ainda, uns riachos de nada. Fios de água tão estreitos que de menino, sem tomar lanço, eu os atravessava dum salto.
Na sua imensidão o mar sempre me assustou, como os barcos sempre me enfeitiça­ram. Comecei por fazê-los de papel. Mal pude segurar um canivete fi-los de cortiça, de casca de pinho, perfeitos, com mastros e velas, leme, tripulação. Construí-os depois de madeira, com quilha, cavername, porões, convés, paus-de-carga, um com caldeira de vapor e chaminé a fumegar. Infe­lizmente, porque me faltava ciência, esses ader­navam em vez de navegar, e por fim cansei-me da minha inépcia. Mas o fascínio permaneceu. Forte. A ponto de por duas ou três vezes me ter posto a vida em perigo.

sexta-feira, fevereiro 1

Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)

Tira-se da estante um livro esquecido. Sorri a gente, recordando a emoção com que descobriu a sua poesia nos anos da juventude. E um pensamento que se anotou: “Meu Deus!... Porque não fizeste os homens irracionais?...” Aprender que flor também se pode escrever “frô”, senhora passa a sinhá, e acaba em “sá”.




“Sá Dona, os cabelos dela
tão preto prô chão caía
que toda frô que butava
nus cabelo, a frô murchava
pensando que anoitecia”.

(Meu Sertão - Catulo da Paixão Cearense, Rio de Janeiro, 1918)

quinta-feira, janeiro 31

quarta-feira, janeiro 30

Remexendo nas gavetas (14)




A gente apanha cada uma!

terça-feira, janeiro 29

Remexendo nas gavetas (13)



Liceu Alexandre Herculano - Porto (1939-1945)

Entre os dez e os dezasseis anos, crescemos juntos na turma C. Em 1946 fui para Viana do Castelo e, eles, com pena do meu degredo, tiraram o retrato para mo mandar.

A quinta, as camélias, a menina e o Mobutu

Filho de gente humilde, António Rodrigues Alves Faria nasceu ali perto, em Matinho de Forjões, cerca de 1860.
Aos catorze anos foi de marçano no Porto e quase logo em seguida, sem papéis nem dinheiro, abalou para o Brasil escon­dido num navio de carga.
Lá trabalhou, sofreu, poupou, comer­ciou. No começo do século XX, com o título de visconde e riqueza de mili­onário, tornou ao lugarejo donde tinha saído de pé descalço.
Comprou terras sem conta. Construiu uma escola. Comprou a Quinta de Curvos que estava ao abandono e levantou-lhe os muros arruinados, substituiu os velhos portões de madeira por outros de ferro, encimou-os quase todos, como ainda se pode ver, com as suas iniciais e a data: ARAF-1910.
Mandou fazer também uma luxuosa mansão e cercou-a de jardins, de pomares, de lagos grandes, lagos pequenos, mirantes, grutas artificiais de cimento armado a imitar cortiça, como era moda nesse tempo.
Foi infeliz nos amores. Faleceu sem completar os sessenta e uns primos afastados, seus únicos herdeiros, gente boçal, indiferente, esbanjaram a herança, venderam a quinta a um homem de Lisboa, que a revenderia a outro.
Depois, de mão em mão, de desleixo em descuido, a cerca foi derruindo, as silvas foram avançando, a madeira da casa apodreceu, as traves cede­ram, caiu parte do telhado, caíram as chaminés.
No começo dos anos sessenta, ansioso por se ver livre dum trambolho que não dava lucro que chegasse para pagar as contribuições, o prop­rietário pô-la à venda por uma migalha.
Um inglês pagou essa migalha e, tal como o brasileiro tinha feito antes dele, deu à quinta o esplendor antigo. Restaurou-se a casa, limparam-se os campos. Alargaram-se grandemente os jardins porque mister Regal, homem solitário, da infinidade de paixões humanas apenas tinha uma: a cultura das camélias. E de todas as recom­pensas do mundo apenas almejava uma que lhe coube muitas vezes: ganhar nos concursos o primeiro prémio, a Camélia de Ouro.
Na Primavera de 74, desafeito a rumores depois de tantos anos de paz, Leslie Regal assustou-se com a Revolução dos Cravos e as ameaças que a plebe vinha gritar aos portões. O seu único desejo era fugir. Se o vizinho pagasse seis mil contos - bem menos que o valor dos muros - ele entregava-lhe a propried­ade logo ali.
O vizinho achou caro. Também achou complicado que o bife quisesse o pagamento em libras ou dólar­es. Então não era o escudo uma moeda forte? E farejando a oportunidade disse que lhe parecia caro. Oferecia a metade.
O inglês teve uma reacção inesperada. Queixando-se de que se sentia cada vez mais só, cada vez mais mais cansado, se o vizinho aceitasse trocar a filhinha de quatro anos pela prop­riedade...

Ao contar-me essa parte da estória a rapariga tinha sorrido com o embaraço de quem quase estivera para ser moeda de troca. Felizmente que o pai recusara a transacção e o inglês acabara por encontrar um industrial de Braga que, sabendo o que são pechinchas, lhe pagou o pedido a contado e em libras.
- E depois?
Um grupo de curiosos tinha-se juntado à nossa volta e, antes que a rapariga pudesse responder, um homem de idade travou-me o braço:
- Eu trabalhei lá. Eu é que sei.
O novo proprietário acabara com as camélias, tinha manda­do fazer muito plantio de vinha e de pomar, pocilgas enormes, aumentos nas adegas, uma coelheira onde havia três mil coel­hos.
- Três mil?
- Ou mais! Tendo comida à farta os coelhos não se cansam de fazer a coisa.
Houve risos brejeiros, mas o homem continuou sem se descompor. A paga era razoável e tudo tinha corrido bem até fins de 81, começos de 82.
De repente, assim sem mais nem menos, despediram o pessoal antigo, contrataram outra gente, e só quando se começou a ver a pretalhada a andar para lá e para cá em grandes Mercedes, é que se soube que o novo dono era o Mobutu. Desde então andava tudo secreto, tudo muito escondido, os que lá trabalhavam eram de longe e tinham ordens para não falar a ninguém.
Com um gesto dei a entender que compreendia o seu azedume, e o ancião agarrou-me de novo pelo braço, baixando a voz em confidência:
- Ainda outra coisa. O homem de Braga pagou seis mil contos ao inglês para lhe apanhar a quinta, não foi? Mas por quanto a vendeu ele ao Mobutu? Diga lá.
- Não faço ideia. Doze mil? Quinze mil?
- Duzentos e cinquenta mil, meu senhor! Du-zen-tos-e-cin-­quen-ta-mil! E o filho da puta do preto dizem que passou logo o cheque, nem sequer regateou!

segunda-feira, janeiro 28

Remexendo nas gavetas (12)



"Olha o pai!"

Lisboa, Maio 1974

Remexendo nas gavetas (11)


"Olha a mãe!"
Lisboa, Maio 1974

O Rei-da-Terra

Hospedei-me por uma noite num hotel da praça da Batalha, contente de ver em redor quase todos os cinemas e cafés dout­rora, a sua presença a confirmar que nem tudo se estiola, que nem tudo morre.
Desço para o rio, atravesso a ponte, refaço o que foi o caminho para casa. Centenas ou milhares de vezes palmilhado, pouco importa a conta.
Por um instante, com sede, quase me deixo tentar pelos pára-sóis coloridos das esplana­das, mas continuo em frente, como se fosse inconveniência ou traição ir-me sentar entre estranhos no mesmo lugar onde antes brinque­i, onde sonhei. Onde meu pai ia e voltava na sua ronda, vigian­do o rio, assestando o binóculo nos vapores quando um movimento lhe parecia suspeito, ou quando os tripulantes desciam pelo portaló.
Frustrado por ter de apreender o pequeno contrabando da meia dúzia de maços de cigarros presos dentro das calças, ou da garrafa de uísque apertada no sovaco, e ao mesmo tempo assistir impotente ao tráfico do vinho, do volfrâ­mio, das mercadorias, que os seus chefes e alguns colegas acobertavam.
Vira-os ganhar fortunas com o contrabando no começo da guerra, construir casas apalaça­das, subir de posto, receber medalhas por bons serviços, enquanto ele - que por natureza e educação tinha a lei por dogma - se gastava a pedir inquéritos urgentes, a apresentar queixas, a fazer listas, a escrever relatórios.
Papelada que desaparecia sem efeito nos recônditos da Alfânde­ga, o sombrio e imenso edifício de grani­to que eu espiava interessado das nossas janelas, desde que ouvira dizer que, nos seus armazéns, se guarda­vam ainda tesouros do tempo em que os galeões vinham da Índia e do Brasil.
Meu pai, que até então tinha bebido moderadamente, co­meçou a intoxicar-se. Dizer que se embebedava não seria a expressão justa, porque nunca ninguém o viu bêbedo, mas logo de manhã bebia como possesso, num estado segundo, apressado em atingir aquele momento em que, embotada a sensibilidade, podia consi­derar tudo com absoluta indife­rença.
Se por qualquer razão se mantinha sóbrio tornava-se irascível. Um dia, por uma bagate­la, maltratou de tal jeito um colega a soco e pon­tapé que foi condena­do a ficar detido no quartel o tempo que o outro passas­se no hospital. Três semanas.
Nas horas de visita eu levava-lhe jornais, perguntava-lhe se estava bem, e mais não tinha para dizer, perturbado como me sentia pelas desencontradas emoções da adolescência.
Doía-me o vê-lo sombrio, agastado, a caminhar absorto em volta do quarto, esquecido da minha presença. Mas é verdade que entre nós nunca tinha havido, nem nunca haveria, intimidade.
Não recordo que jamais tenhamos trocado uma palavra de encoraja­mento ou con­forto, e mesmo depois dos anos terem embotado algumas arestas dos nossos caracteres, permanecemos dois pólos, tão intensa­mente opostos que nem sequer a paixão comum dos livros e do cinema conseguíamos partilhar.
Em Junho ou Julho de 45, uma noite, ao fim da ceia - vejo-o de olhos baixos a cortar a casca de uma laranja em gomos regulares,vagarosamente, como era seu hábito, - anunciou que tinha pedido que o transferissem para a fronteira do Minho.
- É melhor ir-me embora daqui, antes que um dia perca a cabeça e mate alguém. É melhor ir-me embora - repetira ele depois de uma pausa, a sublinhar a sua decisão.
Minha mãe e eu ainda nos olhámos, surpreendidos, mas o Rei-da-Terra decidira, era caso acabado. Ele timoneava o Destino e nós, seus meros apêndices, sem opinião própria nem voto na matéria, tínhamos de nos resignar e acompanhá-lo.

domingo, janeiro 27

Remexendo nas gavetas (10)



Lisboa, Junho 1974

Remexendo nas gavetas (9)



A praia de Moledo do Minho em 1946

sexta-feira, janeiro 25

20.000

Minutos atrás o Sitemeter registou alguém de Alcobaça como visitante 20.000 deste blogue. Para dez meses de presença, e numa blogosfera onde tudo se conta em milhões, não deve ser muito. Mas é número redondo, pelo que se anuncia o facto .

Remexendo nas gavetas (8)



Cais de Gaia (1935)

quinta-feira, janeiro 24

Frases (1)

"The first duty in life is to assume a pose. What the second duty is, no one has yet found out." - Oscar Wilde

"In physics the truth is rarely perfectly clear, and that is certainly universally the case in human affairs. Hence, what is not surrounded by uncertainity cannot be the truth." - Richard Feynman

quarta-feira, janeiro 23

Remexendo nas gavetas (7)




Texas Jack;, Yala, a Vingadora;, Sandokan, o Tigre da Malásia... (anos 40 do séc. XX)

terça-feira, janeiro 22

Remexendo nas gavetas (6)



Revista do governo americano distribuída em Portugal em 1942. Mesmo quem não é piloto
apreciará o "flight simulator".

Bichos

É geralmente sabido que, em países como em Portugal, os animais não levam uma vida fácil. Mesmo os que têm dono. O burro apanha pauladas quando se não apressa, ao cão que ladra demais é normal dar pontapés, pobre do gato que se torna incómodo ou preguiça na caça ao rato: rua com ele. E por via de regra, o pombo-correio menos capaz de bater recordes acaba simplesmente na panela. Pelo que não é preciso grande esforço para imaginar o destino dos animais vadios e os que, livres na natureza, vivem ao alcance da fisga e da caçadeira.
Com aplauso dos próprios pais, que gostam de vê-los crescer destemidos e ágeis, para os rapazes é um gosto subir ao perigoso cocuruto das árvores e tirar dos ninhos os filhotes ou quebrar os ovos.
Os caçadores, esses, se lhes faltam perdizes ou coelhos, disparam à toa contra tudo o que diante dos seus olhos voa ou corre. Passo por alto outras crueldades que, embora pertencendo aos costumes, sempre me pareceram próximas das doenças mentais.
Pessoalmente, salvo a hostilidade contra algumas ordens menores (continuo a matar moscas, mosquitos, aranhas, vespas e varejeiras) e uma repugnância congénita pelos ratos, creio que me posso apresentar sem receio diante do Criador.
Ele por certo desculpará a vez que em pequeno fui à caça, com a Flobert que meu pai me dera para de mim fazer um homem e, ao decepar com um tiro a asa dum gaio, deitei a fugir horrorizado. Nunca mais.
Na meninice tive cães e gatos, uma ovelha, um porco de olhos meigos que parecia tudo compreender e a quem, sem resultado, muitos vezes pedi que falasse.
De pássaros em gaiolas nunca gostei, nem de lagartos adormecidos no fundo de terrários, ou peixinhos descrevendo tristemente voltas lentas na pouca água dum vaso, pois só de vê-los já me faltava o ar.
Depois, homem feito, maravilhei-me com os semelhantes e esqueci os bichos. Agora, tal um barco que aos poucos se afasta do cais, ao entrar na velhice vou perdendo o interesse pelos primeiros, e os outros basta-me vê-los nos filmes sobre a natureza.
Assim se vai degradando a minha visão do mundo e, pelo menos no que respeita os animais, sinto por vezes remorso de viver na Holanda há tanto tempo, sem me ter deixado contagiar pelo amor que o holandês sente por eles.
Porque, merecido ou não o que dele se diz nas bocas do mundo, ninguém poderá negar que o holandês é exemplar no seu carinho pela bicharada. Os cães não levam aqui vida de cão, mas de gente próspera. Os gatos, de há muito habituados a ementas gastronómicas, desconhecem o sabor do rato. Vivem neste país marmotas, cobras, cágados e coelhos tão mimados que, se os donos os quisessem devolver ao elemento natural, eles diriam não, muito obrigado, e voltariam a correr para o esplêndido conforto dos seus ninhos caseiros.
Também não é preciso viver no Sahel ou nas favelas do Rio, para sonhar como seria belo poder ser aqui cão ou gato e, à hora da refeição, hesitar entre pedacinhos de carne com legumes, pâté (rico em vitamina A e B2), salmão com arroz, salsichas, empanada de mariscos...
Estou certo que no céu, onde tem a seu cargo o departamento zoológico, São Francisco de Assis olha enternecido para a Holanda, e aprova todo o bem que aqui se quer e faz aos nossos irmãos bichos.
Porque não é só o carinho, o conforto, o bom trato, mas toda uma rede de previdências que, com as suas lojas especiais para o comer e o vestir, o seguro, os cuidados veterinários, próteses, cemitérios, distrações, serviço de ambulâncias, hotéis e asilos, e até eutanásia, torna a sociedade animal quase uma réplica da nossa. Falassem eles entre si uma língua inteligível e não duvido que disporiam de telemóvel.
Tal como o bondoso São Francisco, pois, também eu me enterneço e aprovo tudo isso, mas pelos jeitos a minha natureza de português continua imperfeita, e a minha solidariedade para com os nossos irmãos bichos pouco mais é que um verniz.
Dias atrás, quando me vieram propor tomar parte num curso de reanimação de animais - "boca a focinho" - recusei horrorizado.
Como o poderia eu, que nem sequer me sinto capaz de reanimar o meu semelhante com um "boca a boca"?
Como o podem eles?!

segunda-feira, janeiro 21

Remexendo nas gavetas (5)


Cartoon do artista turco Osman Thuran
(1976-)

domingo, janeiro 20

Remexendo nas gavetas (4a)



Menu do voo Amsterdam-Lisboa de 16.04.1958 - tourist class

Remexendo nas gavetas (4b)



(clique para ampliar)

sexta-feira, janeiro 18

quarta-feira, janeiro 16

Remexendo nas gavetas (2)



Luzern em 1960

O RIJOMAX

Aos sete anos tentou fazer o seu primeiro relógio. Com rodas de madeira. Aos doze foi trabalhar numa relojoaria. Em 1933, com vinte e um, estabeleceu-se em Tabuaço.
A partir desse momento tomou-o a obsessão de construir um relógio diferente. E conseguiu-o. Durante trinta anos reservou todo o seu tempo livre para o RIJOMAX. Nas palavras do folheto que ele oferece a quem o visita: "O relógio mais completo do mundo - Uma obra misteriosa - Patente nr. 12931.”
Com os seus dois metros e pouco de alto, e cerca de um de largo, o RIJOMAX à primeira vista não se impõe. E mau grado a grande quantidade de ponteiros, mostradores, mais de 16.000 algarismos e letras, não parece um relógio sério. Talvez porque o construtor o tenha enfeitado com o seu próprio retrato, brilhantes e rubis falsos, poemas, provérbios, imagens, luzes que piscam e um sem-fim de atributos. Isso é a aparência, mas a gente sem querer ri-se. Quando o senhor Ribeiro começa a explicar, a gente cala-se.
O RIJOMAX está programado para funcionar durante 10 mil séculos em ciclos de 6272 anos. Corrige as diferenças existentes entre os vários calendários antigos e modernos. Ao fim de 128 anos suprime automaticamente o dia resultante do acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto. Contabiliza a diferença diária entre o tempo solar e o tempo do calendário, de forma que ao suprimir 1 dia em cada 128 anos, registará adicionalmente 29 min. e 37 seg. Passados 6272 anos terá suprimido 49 dias, mas a adição da diferença atrás mencionada será já de 24 h 11 min. e 13 seg., razão porque o mês de Fevereiro do ano 8172 será de 27 dias.
O RIJOMAX marca também os equinócios, os solstícios, as fases da lua. Tem uma luz que se acende e apaga diariamente, no momento exacto em que o sol nasce e se põe. Claro que mostra as horas, minutos, segundos, meses e anos da era cristã (estes últimos assinalados por um velho conta-quilómetros).
Possui calendários para se saber o dia da semana de qualquer data, “desde 1 de Janeiro do ano 1 da era cristä, até ao presente e futuros.” Um dos seus ponteiros move-se de 100 em 100 anos para assinalar a passagem do século, enquanto as oscilações de outro duram meio segundo. Regista o ciclo solar e lunar, o da letra dominical, e a epacta.
- Sabe o que é a epacta? - perguntou-me o senhor Ribeiro.
Confessei que ignorava. Ele sorriu, explicou, e disse que quase ninguém sabia.
Na face posterior o RIJOMAX possui mostradores com os calendários de Juliano e Júlio César, de Nabucodonosor, das Olimpíadas, de Abraão, Moisés, Salomão, e da história de Portugal.
Tudo a girar em misteriosas sincronias. Calcula e faz muitas coisas mais: umas estranhamente complexas, outras comezinhas, como dar “a horas certas uma saudação em vocabulário religioso”.
Cumprimentei o senhor Ribeiro por demonstrar tanto engenho, tendo apenas a instrução primária. Ele agradeceu, sorriu, quis saber onde eu vivia.
Ao ouvir-me dizer Holanda, ergueu os braços, exultante. É que, explicou, ele próprio nunca tinha compreendido donde lhe viera a ciência para fazer um aparelho daqueles. Mas tempos atrás tinham entrado na loja dois desconhecidos, e um deles, assim sem mais nem menos, anunciou que o senhor Ribeiro não fizera o relógio sozinho. Emprestara as mãos e dera o trabalho. Isso sim. Mas a ciência e os cálculos eram dum matemático holandês que nele tinha reincarnado, e em certas noites se vê a passear diante da igreja da praça, ali em frente.

segunda-feira, janeiro 14

Remexendo nas gavetas (1)


A pousada de Miranda do Douro em 1968

sexta-feira, janeiro 11

Ménage à quatre

Pensa em divórcio?
O problema tem a ver com sexo? Insatisfação de ambas as partes? Você com quenturas de cão vadio e a senhora sofrendo da clássica dor de cabeça, ou descontente com a modéstia do membro viril?
Leia Love and Sex with Robots. The Evolution of Human-Robot Relationships, de David Levy. €28.99
Ou melhor: encomende para a senhora um andróide e para si um(a) ginóide (*).
O aspecto é atraente e ambos, para além das funções correntes – abraços, beijos, sorrisos, mexer das mãos, pés, pernas, ancas – podem ser programados para fornecer um blow job de características excepcionais e cópulas como só se imaginam no paraíso. Interessante também é a possibilidade de dotar a (o) ginóide com um pénis, e programar ambos para extraordinárias técnicas sexuais, inclusive um manual para principiantes.

O Prof. Hiroshi Ishiguro com "Repliee Q1" Ela pisca os olhos, respira, reage ao contacto humano e, como nos sonhos da adolescência, "faz tudo !..."

(*) Para os interessados:
http://www.spiegel.de/fotostrecke/0,5538,27272,00.html
http://www.reuters.com/article/newsOne/idUSSP10422420070718
http://www.weirdasianews.com/2007/05/22/japan-life-like-customized-sex-dolls-6500-adult/

PS. Muito se aprende! Sem melhor alternativa, os navegantes holandeses que no séc. XVII e depois iam até ao Japão, levavam consigo uma boneca de couro. Os japoneses devem ter apreciado e desde então chamam "esposa holandesa" às bonecas destinadas ao efeito.
Tudo isto pode ser conhecimento corrente, mas para mim, que venho de tempos longínquos, foi novidade.

quinta-feira, janeiro 10

Poxa!

Tempo Contado, além de links para pistola Mauser 6.35, girls gone wild, perdigueiros e camel toe ... faz agora de Livro de São Cipriano:

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terça-feira, janeiro 8

Calores

Sexo. Séculos de moral, bons costumes e polícia fizeram-nos perder o natural que, nesse particular, alegra ainda a vida dos animais e dos insectos. Felizmente que assim é. O mundo andaria às avessas se na vida social se mantivesse nas coisas do sexo o desregramento da bicharada. Imagine-se um maquinista a abandonar o comboio para, tal um gato, ir copular num fosso com uma dama benevolente. Imagine-se um presidente dando largas ao cio no decurso dum desfile. Ou a menina da caixa no supermercado... Os políticos que nos governam também o não tolerariam, e os sacerdotes dos vários credos acenderiam de imediato as fogueiras das suas inquisições. Mesmo muitos de nós se levantariam para protestar contra os riscos e desconfortos que traria o copular público e inesperado. Por isso aceitamos o jugo da lei, fingimos desinteresse pelo grande motor da existência e, com uns resmungos pro forma, sacrificamos o alegre caos do instinto à monotonia da civilização. O que todavia não impede que em certos lugares, certos dias, pairem no ar eflúvios misteriosos. O bicho que permanecemos reconhece então, por momentos, a mensagem dos odores, descobre o significado dos modos de andar, sabe por intuição o que escondem os olhares e os gestos.

Quando numa tarde quente de Agosto entrei no Sheraton, em Lisboa, surpreendeu-me a frescura do ar condicionado e a agitação do ambiente. No hall havia um grande número de mulheres, e os homens presentes pareciam executar em torno delas um bailado sem ritmo nem fito certo.
O recepcionista ia entregar-me a ficha do quarto quando uma senhora de idade o interrompeu:
- Ó senhor Abílio, isto é congresso?
- Não, Dona Maria, são tudo hóspedes. O hotel está um bocadinho cheio.
- Hóspedes uma gaita! - replicou a senhora com inesperada vivacidade. E voltando-se para mim:
- Isto está a ficar como Bangkok. Conhece Bangkok?
- Não conheço, mas faço ideia.
No ascensor - por simples acaso íamos ambos para o mesmo andar - ela achou uma pouca-vergonha que um hotel de luxo se abandalhasse assim. Porque se eu não sabia ficava a saber, aquilo eram tudo mulheres da vida.
Fiz-me surpreso e retorqui que não. Uma ou outra, talvez, mas a maioria via-se-lhes pela cara que eram senhoras de respeito.
Ela riu: - Pobre de si se ainda vai pelas caras! Senhoras de respeito uma fava. As que parecem sérias são as do part-time.
Achei exagero, mas não a contradisse. Mais tarde, quando voltei a descer, notei que de facto no hall havia um ambiente de extrema tensão erótica, menos devido aos ademanes das três ou quatro prostitutas de serviço, do que à indefinível electricidade que parecia faiscar entre os presentes.
Nenhum gesto era inocente, nos olhares havia espectativa, liam-se nos rostos desejos insanos, sentia-se que a virtude e a fidelidade, mesmo a decência, estavam ali por um fio.
- É do calor - disse-me o porteiro, habituado a ler pensamentos.

Quando ao fim da noite regressei ao hotel, cansado e de mau humor, o hall estava em penumbra, quase deserto. A única algazarra era a de uma tripulação sul-africana, à espera do ascensor para o bar no último piso. Subimos juntos. Entre si trocavam gracejos sem malícia, dum picante infantil, a exuberância que vem depois de muitas horas de voo e tensão. Por minha parte achei curioso que não me custasse a compreender o afrikaans que falavam, zumbando de uma das hospedeiras, que se destacava pelos seus quase dois metros, a excessiva timidez e o modo como corava.
Os outros aperreavam-na, criticavam-lhe a falta de líbido, instavam que confessasse a sua virgindade. Ela sorria e corava. Mas de súbito, com a leviandade comum aos grandes tímidos, certa de que fora os colegas ninguém a compreenderia, e no ascensor do hotel português só se encontrava um estranho com cara de português, ousou mostrar-se atrevida:
- Virgem ou não é cá comigo, mas se este velhote careca quisesse, não me importava de ir para a cama com ele.
No meu melhor neerlandês, sem me descompor, respondi-lhe que me custava a crer que falasse a sério, mas enfim...
Foi um pandemónio. Poucas vezes terei testemunhado semelhante explodir de riso, ou vi alguém em tão profundo embaraço baixar os olhos e enrubescer assim.
O ascensor parou, mas eles não queriam que eu saísse, insistiam que os acompanhasse, coincidências daquelas mereciam festejo. Além disso gostavam que lhes contasse onde aprendera a língua.
Desculpei-me dizendo que a história era longa e a hora tardia. Depois, no quarto, ainda sobre a impressão de que, em certos lugares e certos dias, como que pairam no ar eflúvios estranhos, sentei-me a escrever este relato.

domingo, janeiro 6

Música

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) fez em tempos numa entrevista afirmações que, fosse ele conhecido na Holanda, certamente prejudicariam a sua nomeada. Se havia coisa que o fatigasse, era a música. Um concerto com Bach e Debussy, uma festa com samba, uma sessão de jazz, e logo o poeta caía num estado de sonolência e apatia.
Porque, explicou ele, para quem vivia e desejava viver constantemente no mais agudo dos estados de consciência, como era o seu caso, a música não passava de um hipnótico, inimigo da actividade criadora.
Ao ler essas afirmações, e ao dar-me conta duma certa concordância com elas, fui tomado por um sentimento de confusão e alarme.
Um grande poeta como Melo Neto pode dar-se ao luxo de, em Portugal ou no Brasil, expressar opiniões contrariantes. Porém, entre holandeses, com a sua incondicional e quase religiosa devoção pela música e a cultura, um alóctone como eu tem de pensar duas vezes antes de se arriscar a parecer burro ou bárbaro.
A verdade é que concerto nenhum, ária, sinfonia, ou cantata, me causou jamais arroubo igual ao das grandes obras da literatura. O que está longe de significar que o poeta brasileiro, e os que sentem como ele, tenham razão. Além disso, porque todos somos diferentes, talvez seja apenas um caso como o da matemática ou do atletismo: compreende-se e gosta-se, pode-se ou não se pode.
Um matemático defronte duma equação diofantina, um atleta que executa um salto ou corre a milha, por certo se sentirão em êxtase, enquanto que a mim e a outros qualquer dessas actividades deixa insensível.
Mas na música, confesso, há um aspecto que me desagrada: o seu lado público. Se aprecio e aplaudo a passagem dum banda numa rua de aldeia, pessoalmente sofro mal concertos. Não compreendo, e com certeza jamais compreenderei, que centenas de pessoas numa sala sejam capazes de atingir um alto grau de deleite sem que, como a mim, as não incomodem ou distraiam comichões e cãibras, a dureza das cadeiras, o perfume de uns, a tosse dos outros. Para não falar das piruetas dos maestros, e das faces perspirantes e torturadas dos solistas.
Sem partilhar por inteiro a sua fobia devo, pois, conceder que as palavras do poeta me inquietaram. Talvez porque me julgava rebelde nato, e elas me abriram os olhos para a realidade de que existe uma vasta área de campos da cultura a cuja tirania cobardemente me tenho sujeitado.
E é agora que, amparado nessa muleta de uma opinião alheia, me sinto com forças de confessar que detesto o ambiente de devoção religiosa que se respira nos museus. Que não posso com galerias de arte, nem reuniões de escritores ou conferências de letrados. Que a ópera me aflige. Que me dão febre os convites para espectáculos culturais. Que vai longe o tempo em que o cinema me parecia uma arte. Que é prudente calar o que penso da dança.
Alienado de tudo isso, que faz o prazer e é a vida e paixão de tão grandes multidões, que me resta então? Os livros, a escrita, alguns amigos, uma paisagem aqui, uma memória além. Na aparência pouco, na realidade mais que o bastante para ocupar os meus dias.
Mas quando a melancolia me ataca, aí, como quem comete um pecado, fecho-me onde ninguém me veja, ponho auscultadores para que ninguém oiça e, durante horas, deixo-me embalar por Bach e Pergolesi, Sibelius, Brahms...
Fora a do talento, é essa a grande diferença que me separa do poeta brasileiro. Eu daria em louco se, exausto pelos estados de consciência agudos, não tivesse à mão a música: a mais perfeita das drogas, o mais eficaz dos analgésicos.

terça-feira, dezembro 25

ABERTO!

Retoma a barca a sua navegação com uma série de textos espalhados por aqui e ali, mas que só em holandês foram publicado em livro, com o título Mazagran. São sessenta e quatro. Sairão ao ritmo de um cada dois dias, não somente para dar tempo aos que lêem devagar, mas também para que o pano renda.


P R E F Á C I O

Desde que o conheço, o tempo duma vida, o meu editor Theo Sontrop costuma afirmar de modo terminante que o público holandês não aprecia prefácios. Segundo ele, o holandês que abre um livro quer sem mais demora entrar logo no assunto do mesmo, e não perder tempo a ler expli­cações ou elogios.
Devo dizer que compreendo essa atitude. O prefácio é, com frequência, a abstrusa e vaidosa apresentação que o autor faz do seu próprio talento, ou então o rosário de encómios debitados por um padrinho cotado. Acontece também que o prefácio em geral é longo. Tão longo que, quem o lê, necessita de paciência e alguma boa vontade, para ler primeiro em resumo aquilo que depois irá ler in extenso.
Ora o prefácio, pelo menos em minha opinião, não deve ser outra coisa senão um convite. E, como um convite, igualmente breve. Acompanhado dum gesto que pelo simbolismo estabeleça entre o livro e o leitor um primeiro laço de simpatia.
Esse gesto é aqui o título. Mazagran, palavra que outrossim se não encontra no texto, designa uma bebida favorita no Maghreb: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelada nos dias de calor. A pequenos goles. Com aquela disposição benigna do espírito que umas vezes nos leva à rua para cavaquear com os ami­gos, e outras nos prende em casa a ler um livro.

segunda-feira, dezembro 24

Surpresa no Sitemeter

Domain Name
(Unknown)
IP Address
.................# (OPTIMUS Portugal)
ISP Optimus, Telecomunicagues S.A.
Location
Continent: Europe
Country :Portugal (Facts)
State/Region:Aveiro

Telecomunicagues?

REABRE UM DIA DESTES



Só para fazer concorrência a You Tube (O postal é de c. 1944)

domingo, outubro 21

FECHA? NÃO FECHA?

Se fosse loja punha-lhe aquele ambíguo "Volto já". Poderia dizer que entra em hibernação, mas não é bicho. Fechar de vez, também não fecha. Confessar preguiça, aborrecimento, cansaço com o mundo? Tenho disso, mas em pequenas doses.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.

quinta-feira, outubro 4

Doisneau, Stieglitz, Kudelka...

Sempre desejei saber desenhar, mas nunca pude ir além de rabiscos iguais aos que traçam os miúdos no primeiro dia de escola. Daí o ter procurado compensação na fotografia.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.