
sexta-feira, fevereiro 29
Tarzan em Aveloso
Pelos vestígios arqueológicos encontrados sabe-se que Aveloso já era habitada no Megalítico. Os romanos deixaram nela a ponte de três arcos que atravessa a Ribeira de Teja. Os árabes ocuparam-na no séc. VIII, mas ficaria depois desabitada até à Reconquista, no séc. XII.
Recebeu foral em 1514 e o artístico pelourinho é também dessa data. Aveloso tinha então importância suficiente para nela habitar um bispo, de cuja residência resta uma bonita janela manuelina.
Dois outros edifícios serviram de moradia aos bispos de Lamego: um também do séc. XVI, a que o povo chama “o convento;” o outro, a Casa dos Buchos, data do séc. XVIII. Próximo desta última encontra-se uma casa que tem na parede uma figura antropomórfica, conhecida pela “Cara do Aveloso.”
Dos fins do séc. XIX às primeiras décadas do século passado, Aveloso gozou de fama mundial.
Em 1882 nascia ali Albano de Jesus Beirão, filho de pobres que, por volta dos sete anos, começou a sofrer de estranhos ataques duas vezes ao dia.
Pulava, rebolava, uivava, subia às paredes com agilidade animal, dava saltos enormes, corria como um galgo. Nesses momentos desenvolvia uma força descomunal, o que lhe valeria depois a alcunha de “Homem-Macaco”.
Foi notícia mundial. Edgar Rice Burroughs interessou-se pelo caso, e supõe-se que se tenha inspirado nele para criar a figura de Tarzan no seu romance Tarzan of the Apes (1914).
Nos anos 20 o governo nomeou uma comissão que levou o “Homem-Macaco” pela Europa, para que fosse examinado por sumidades médicas. Contudo, das pesquisas feitas então na Itália, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Espanha, Bélgica e Suíça, nunca foram publicados os resultados.
Cerca de 1932, ao completar 50 anos, os ataques cessaram subitamente, tendo Albano a partir daí levado uma vida sossegada pois, nas suas palavras, “o governo de Lisboa dá-me o que preciso; além disso, vendi a cabeça aos alemães, que a querem estudar.”
Viria a morrer aos noventa e quatro anos no hospital da Guarda em 1976 e, segundo testemunhos, “do caixão selado escorria muito sangue”.
quinta-feira, fevereiro 28
O Paço da Glória em Arcos de Valdevez
A construção do primeiro paço da Glória perde-se no tempo em que os galeões voltavam do Oriente carregados de ouro e pimenta. Do dia para a noite os fidalgos passavam de remediados a nababos, e mandar fazer um paço condigno com as suas novas posses era o menos que se esperava deles.
D. Geraldo Coutinho de Lima, senhor de Cochim - a primeira feitoria europeia da Índia - e proprietário de duas naus, tinha recebido as terras da Glória por doação de D. Manuel I em 1515, começara a casa, mas viria a falecer com ela ainda nas paredes.
O seu primogénito, D. Fernando, seguiu as pegadas do pai. A ele se deve que em Cochim se tenha feito a primeira impresão de livros na Índia. Infelizmente, no dia em que os carpinteiros terminavam o arcabouço do telhado, fulminou-o um ataque, dando corpo à lenda de que daí em diante todos os donos da Glória morreriam sem herdeiros.
Reza a crónica que essa praga lhe fora rogada por um judeu de Cochim, a quem ele tinha enganado num negócio, e que até ao fim do mundo ela cairia sobre todos os que tocassem a propriedade.
O paço e os terrenos passaram então para um D. Afonso, parente afastado. Esse, para escapar ao mau destino, tinha-se dado ao trabalho de, por volta de 1635, viajar para Cochim, na certeza de que lhe não seria difícil encontrar um judeu no meio dos indianos e da meia centena de portugueses que lá haveria. Para sua surpresa, porém, nessa altura já os holandeses tinham conquistado a feitoria, e nela não havia duas ou três famílias judias, mas milhares, a maior comunidade judaica da Índia, formada ali desde o século IV da era cristã.
Percorrendo o labirinto de ruas, seguindo pelos ribeiros e lagoas de Cochim, procurando por entre os templos indianos, as mesquitas e as igrejas, D. Afonso acabou por descobrir a sinagoga. Mas do homem que lhe interessava, nem rasto.
Passado ano e pico voltara para a Europa num galeão holandês, desembarcando em Vlissingen, onde pouco depois viria a falecer do tifo. Sem herdeiros.
Deixadas ao abandono durante anos, as terras da Glória eram um matagal, e do paço inacabado, que fora derruindo aos poucos, restavam as cantarias. Na segunda metade do século 18, a grande praga de míldio que tinha assolado os vinhedos franceses, contribuíra para uma súbita prosperidade das vinhas do Minho, e dessa altura data a construção do paço actual.
Porém, sobre quem o mandou fazer, ou quando, não há documentos. Fala-se de um nobre excêntrico, que por não ter mulher nem parentes, mantinha naquele deserto um grupo de músicos para lhe alegrar as refeições. Fala-se de um pai louco, que encarcerava as filhas num subterrâneo, por temer que elas o desonrassem. Conta-se de um galego, que fugira para ali por ter enriquecido, depois de ter feito com o diabo um pacto que o obrigava a comer gente.
Ao certo nada se sabe, a não ser que a praga do judeu ainda surtia efeito, pois de novo ficaram as terras ao abandono e o solar meio arruinado.
Comprou-o nessa altura um emigrante, que tinha voltado velho e cansado de Manaus, onde enriquecera durante o boom da borracha. Sendo de opinião que, para a sua própria felicidade, ninguém precisa mais do que pão para a boca e uma cama para dormir, o homem mandara levantar só parte do que tinha caído. Para conforto dos seus oitenta anos juntara-se com uma rapariga de dezoito, filha do caseiro.
Como era de esperar, a união não deu fruto. No começo do século XX, o novamente abandonado e meio derruído edifício passou para as mãos do filho de um lavrador abastado de Ponte de Lima. O rapaz, que tinha inclinações românticas, e nenhuma intenção de mourejar no amanho da terra, dedicou-se uns tempos à pintura. Mas pelos jeitos depressa se aborreceu da arte. Em 1907 decidiu partir para Filadélfia, onde o seu charme conquistou o coração de uma viúva. Não uma qualquer, mas a viúva de John Batterson Stetson, o famoso inventor e fabricante do chapéu do mesmo nome, que um ano antes tinha entregue a alma a Deus.
O pintor deve ter efabulado para a viúva sobre o palácio que possuía em Portugal, e a americana provavelmente se entusiasmou, e quis visitar esse domínio exótico. Só que no dia em que apareceram ambos na Glória ela não deve ter gostado do que viu, porque logo anunciou que partia.
O marido insistiu que ficasse, pois o monarca, ao corrente da colossal fortuna herdada do rei dos chapéus, o ia fazer conde. E ela seria condessa, com brasão autêntico, o que na democrática América não era para desprezar.
A ex-viúva concordou, mas mal viu as cartas de nobreza autenticadas, disse que não ficava nem mais um minuto. Ficasse ele. O conde, homem avisado, preferiu acompanhá-la e ambos desapareceram para todo o sempre, sem que se lhe conhecessem herdeiros.
Com mais de trinta anos de abandono os telhados tornaram a desabar. O que restava das paredes foi caindo pouco a pouco. A vinha, as terras de lavoura, a mata de pinheiros, de novo se tornaram um matagal. E como naquele tempo todo não aparecera ninguém a reclamar-se dono da propriedade, ou a pagar as contribuições devidas, em 1935 a Justiça pô-la a leilão.
Pouco depois apareceu em Arcos de Valdevez o lorde William Pitt, que viu a ruína, gostou dela e a comprou.
Também o lorde morreu sem herdeiros. A história que, numa tarde do Verão de 1948, ele próprio me contou, e as que depois se seguiram, embora interessantes, são longas e complicadas em demasia para tratar aqui.
D. Geraldo Coutinho de Lima, senhor de Cochim - a primeira feitoria europeia da Índia - e proprietário de duas naus, tinha recebido as terras da Glória por doação de D. Manuel I em 1515, começara a casa, mas viria a falecer com ela ainda nas paredes.
O seu primogénito, D. Fernando, seguiu as pegadas do pai. A ele se deve que em Cochim se tenha feito a primeira impresão de livros na Índia. Infelizmente, no dia em que os carpinteiros terminavam o arcabouço do telhado, fulminou-o um ataque, dando corpo à lenda de que daí em diante todos os donos da Glória morreriam sem herdeiros.
Reza a crónica que essa praga lhe fora rogada por um judeu de Cochim, a quem ele tinha enganado num negócio, e que até ao fim do mundo ela cairia sobre todos os que tocassem a propriedade.
O paço e os terrenos passaram então para um D. Afonso, parente afastado. Esse, para escapar ao mau destino, tinha-se dado ao trabalho de, por volta de 1635, viajar para Cochim, na certeza de que lhe não seria difícil encontrar um judeu no meio dos indianos e da meia centena de portugueses que lá haveria. Para sua surpresa, porém, nessa altura já os holandeses tinham conquistado a feitoria, e nela não havia duas ou três famílias judias, mas milhares, a maior comunidade judaica da Índia, formada ali desde o século IV da era cristã.
Percorrendo o labirinto de ruas, seguindo pelos ribeiros e lagoas de Cochim, procurando por entre os templos indianos, as mesquitas e as igrejas, D. Afonso acabou por descobrir a sinagoga. Mas do homem que lhe interessava, nem rasto.
Passado ano e pico voltara para a Europa num galeão holandês, desembarcando em Vlissingen, onde pouco depois viria a falecer do tifo. Sem herdeiros.
Deixadas ao abandono durante anos, as terras da Glória eram um matagal, e do paço inacabado, que fora derruindo aos poucos, restavam as cantarias. Na segunda metade do século 18, a grande praga de míldio que tinha assolado os vinhedos franceses, contribuíra para uma súbita prosperidade das vinhas do Minho, e dessa altura data a construção do paço actual.
Porém, sobre quem o mandou fazer, ou quando, não há documentos. Fala-se de um nobre excêntrico, que por não ter mulher nem parentes, mantinha naquele deserto um grupo de músicos para lhe alegrar as refeições. Fala-se de um pai louco, que encarcerava as filhas num subterrâneo, por temer que elas o desonrassem. Conta-se de um galego, que fugira para ali por ter enriquecido, depois de ter feito com o diabo um pacto que o obrigava a comer gente.
Ao certo nada se sabe, a não ser que a praga do judeu ainda surtia efeito, pois de novo ficaram as terras ao abandono e o solar meio arruinado.
Comprou-o nessa altura um emigrante, que tinha voltado velho e cansado de Manaus, onde enriquecera durante o boom da borracha. Sendo de opinião que, para a sua própria felicidade, ninguém precisa mais do que pão para a boca e uma cama para dormir, o homem mandara levantar só parte do que tinha caído. Para conforto dos seus oitenta anos juntara-se com uma rapariga de dezoito, filha do caseiro.
Como era de esperar, a união não deu fruto. No começo do século XX, o novamente abandonado e meio derruído edifício passou para as mãos do filho de um lavrador abastado de Ponte de Lima. O rapaz, que tinha inclinações românticas, e nenhuma intenção de mourejar no amanho da terra, dedicou-se uns tempos à pintura. Mas pelos jeitos depressa se aborreceu da arte. Em 1907 decidiu partir para Filadélfia, onde o seu charme conquistou o coração de uma viúva. Não uma qualquer, mas a viúva de John Batterson Stetson, o famoso inventor e fabricante do chapéu do mesmo nome, que um ano antes tinha entregue a alma a Deus.
O pintor deve ter efabulado para a viúva sobre o palácio que possuía em Portugal, e a americana provavelmente se entusiasmou, e quis visitar esse domínio exótico. Só que no dia em que apareceram ambos na Glória ela não deve ter gostado do que viu, porque logo anunciou que partia.
O marido insistiu que ficasse, pois o monarca, ao corrente da colossal fortuna herdada do rei dos chapéus, o ia fazer conde. E ela seria condessa, com brasão autêntico, o que na democrática América não era para desprezar.
A ex-viúva concordou, mas mal viu as cartas de nobreza autenticadas, disse que não ficava nem mais um minuto. Ficasse ele. O conde, homem avisado, preferiu acompanhá-la e ambos desapareceram para todo o sempre, sem que se lhe conhecessem herdeiros.
Com mais de trinta anos de abandono os telhados tornaram a desabar. O que restava das paredes foi caindo pouco a pouco. A vinha, as terras de lavoura, a mata de pinheiros, de novo se tornaram um matagal. E como naquele tempo todo não aparecera ninguém a reclamar-se dono da propriedade, ou a pagar as contribuições devidas, em 1935 a Justiça pô-la a leilão.
Pouco depois apareceu em Arcos de Valdevez o lorde William Pitt, que viu a ruína, gostou dela e a comprou.
Também o lorde morreu sem herdeiros. A história que, numa tarde do Verão de 1948, ele próprio me contou, e as que depois se seguiram, embora interessantes, são longas e complicadas em demasia para tratar aqui.
quarta-feira, fevereiro 27
terça-feira, fevereiro 26
segunda-feira, fevereiro 25
Camposancos
Camposancos. Vê-se daqui da praia, porque fica do outro lado, defronte de Caminha.
Tempo do meu passado. Quando conhecia a palmo ambas as margens do rio, que ambas tinham sido para mim o cenário das emoções memoráveis da juventude. O primeiro amor de adolescente, a primeira fuga, as travessias do rio nas noites sem lua, que fazíamos pelo gosto do perigo, sabendo que do lado espanhol, e mais por divertimento que por zelo, os homens da Guardia Civil não hesitavam a atirar a sério.
Camposancos. Ainda hoje sou capaz de ir direito à casa de Don Ignacio, o bondoso cura que nos dava maçãs do seu passal - “Se não as dou, vêm-mas roubar!”- e infalivelmente queria saber se tínhamos ido à confissão, se não esquecíamos a comunga.
Recordo também Don Francisco, o padre de Goián, mais novo, magro que nem uma garça, passeando a ler o breviário na estrada onde só de longe a longe aparecia um carro.
Açulados que nem matilha de cães com cio, quando nos cruzávamos víamo-lo fazer no ar um sinal da cruz faceto, talvez tanto para nos abençoar, como em exorcismo às tentações com que o atormentava o Demo, e mais tarde fariam dele um assassino.
A serração de Tabagón. Uma chaminé que se vê de quilómetros ao redor, e para mim era um duplo farol: na grande casa anexa viviam Don Ramón, meu herói, e Rosalia, a irmã mais nova, dezasseis anos como eu, mas infinitamente mais sabida, e que, maldosa, atiçava na minha alma e no meu corpo as grandes labaredas da paixão.
Tempo do meu passado. Quando conhecia a palmo ambas as margens do rio, que ambas tinham sido para mim o cenário das emoções memoráveis da juventude. O primeiro amor de adolescente, a primeira fuga, as travessias do rio nas noites sem lua, que fazíamos pelo gosto do perigo, sabendo que do lado espanhol, e mais por divertimento que por zelo, os homens da Guardia Civil não hesitavam a atirar a sério.
Camposancos. Ainda hoje sou capaz de ir direito à casa de Don Ignacio, o bondoso cura que nos dava maçãs do seu passal - “Se não as dou, vêm-mas roubar!”- e infalivelmente queria saber se tínhamos ido à confissão, se não esquecíamos a comunga.
Recordo também Don Francisco, o padre de Goián, mais novo, magro que nem uma garça, passeando a ler o breviário na estrada onde só de longe a longe aparecia um carro.
Açulados que nem matilha de cães com cio, quando nos cruzávamos víamo-lo fazer no ar um sinal da cruz faceto, talvez tanto para nos abençoar, como em exorcismo às tentações com que o atormentava o Demo, e mais tarde fariam dele um assassino.
A serração de Tabagón. Uma chaminé que se vê de quilómetros ao redor, e para mim era um duplo farol: na grande casa anexa viviam Don Ramón, meu herói, e Rosalia, a irmã mais nova, dezasseis anos como eu, mas infinitamente mais sabida, e que, maldosa, atiçava na minha alma e no meu corpo as grandes labaredas da paixão.
domingo, fevereiro 24
sexta-feira, fevereiro 22
Lanhelas - 1946
À chegada a Lanhelas estranhei a casa. Com os seus dois andares e arrumos, estrebaria, o pomar em volta, a nascente donde a água brotava para um tanque com rãs, pareceu-me demasiado grande para os meus pais e para mim. E soturna, como se encerrasse uma ameaça.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me. Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado, quando da minha janela em Gaia olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.
Casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encosta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso, junto da nossa, raro se ouviam sinais de gente, e era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que trabalhavam nas leiras subitamente entoavam em coro as cantigas dolentes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo, como um véu, a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, felicidades nunca sentidas.
É certo que havia o dinheiro do contrabando, mas esse infelizmente não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacrifício, gosto do risco, um traço de crueldade, e indiferenças de carácter que poucos possuíam.
Por isso a aldeia tinha a sua élite de contrabandistas e uma infantaria de carrejões, pescadores-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jornaleiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir, que levados pela fome iam emigrando em pequenos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses depois, arranjado um pecúlio e um fatinho decente, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que, poupando migalhas, lhes chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande travessia para o desconhecido do Brasil, da América, do Canadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes corresse mal.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me. Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado, quando da minha janela em Gaia olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.
Casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encosta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso, junto da nossa, raro se ouviam sinais de gente, e era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que trabalhavam nas leiras subitamente entoavam em coro as cantigas dolentes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo, como um véu, a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, felicidades nunca sentidas.
É certo que havia o dinheiro do contrabando, mas esse infelizmente não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacrifício, gosto do risco, um traço de crueldade, e indiferenças de carácter que poucos possuíam.
Por isso a aldeia tinha a sua élite de contrabandistas e uma infantaria de carrejões, pescadores-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jornaleiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir, que levados pela fome iam emigrando em pequenos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses depois, arranjado um pecúlio e um fatinho decente, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que, poupando migalhas, lhes chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande travessia para o desconhecido do Brasil, da América, do Canadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes corresse mal.
quinta-feira, fevereiro 21
O RIJOMAX (2)
quarta-feira, fevereiro 20
Viana do Castelo
Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, deixei de lhe pertencer. Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram.
Despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas, mas inúteis, as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas. Terei eu de facto sido assim?
Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.
Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro. Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que, dentro de mim, ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos. Que me culpam de não ser capaz de, duma vez para sempre, sacudir os entraves da memória. Me acusam de fraqueza, por retornar aos lugares onde sofri, com um impulso tão irreprimível como o que, dizem, leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.
Despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas, mas inúteis, as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas. Terei eu de facto sido assim?
Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.
Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro. Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que, dentro de mim, ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos. Que me culpam de não ser capaz de, duma vez para sempre, sacudir os entraves da memória. Me acusam de fraqueza, por retornar aos lugares onde sofri, com um impulso tão irreprimível como o que, dizem, leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.
terça-feira, fevereiro 19
Remexendo nas gavetas (23)
segunda-feira, fevereiro 18
Remexendo nas gavetas (22)
sábado, fevereiro 16
Ramón María del Valle-Inclán

Eduardo Malta pintou Salazar em 1933 (v. Museu do Caramulo).
Uma tarde do Verão de 1934, num café em Madrid, Joaquim Novais Teixeira (1898-1972), meu amigo e mentor, viu o retrato num jornal e mostrou-o a Valle-Inclán (1866-1936) seu companheiro de tertúlia.
O escritor galego olhou, sorriu, e foi lacónico no comentário: "El Mono Liso".
quinta-feira, fevereiro 14
Vila Nova de Cerveira - o benemérito, o hospital, a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, Sopo e o ex-abade
Depois abalei, Cerveira cresceu, tudo nela são agora artes bienais e modernidades, dos companheiros de então provavelmente não resta um.
No hospital estive uma única vez, de visita a um enfermo. Achei-o excepcional. Não conhecia a história da sua fundação, que encontrei ontem no folheto das festas de 1957.
Ponho-a aqui porque é bonita, e fala de um tempo em que a generosidade ainda era romântica. Bem haja o senhor Lebrão, a família dos (bem donados) Maldonado e o padre Parente, que nesse tempo já era ex-abade do lugar.
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quarta-feira, fevereiro 13
domingo, fevereiro 10
A Ínsua, na foz do Minho
Nessa altura o senhor Viriato andaria pelos cinquenta, mas comparado com meu pai fazia figura de ancião.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo sentava-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o garrafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe merecesse simpatia.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levantava uns olhinhos de réptil, a mostrar que seguia a conversa.
De repente resmungava frases desconexas e, sem explicação nem despedida, levantava-se, amanhava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia interessado quando falavam de tiroteios e perseguições, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondulação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar quebrava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encaminhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na muralha. Como um pirata, imaginava eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a América, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventuras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entremeando longos silêncios que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, estendendo o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.
Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantasket Beach, num momento de euforia, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o oriente, voei como num sonho para as paisagens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegrias, os entusiasmos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhecia o verdadeiro peso da nostalgia. Quando evocava recordações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longínquo, cheio de perdas irremediáveis, porque todas elas se achavam confortavelmente próximas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensamento.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo sentava-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o garrafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe merecesse simpatia.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levantava uns olhinhos de réptil, a mostrar que seguia a conversa.
De repente resmungava frases desconexas e, sem explicação nem despedida, levantava-se, amanhava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia interessado quando falavam de tiroteios e perseguições, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondulação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar quebrava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encaminhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na muralha. Como um pirata, imaginava eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a América, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventuras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entremeando longos silêncios que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, estendendo o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.
Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantasket Beach, num momento de euforia, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o oriente, voei como num sonho para as paisagens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegrias, os entusiasmos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhecia o verdadeiro peso da nostalgia. Quando evocava recordações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longínquo, cheio de perdas irremediáveis, porque todas elas se achavam confortavelmente próximas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensamento.
sábado, fevereiro 9
sexta-feira, fevereiro 8
quinta-feira, fevereiro 7
quarta-feira, fevereiro 6
Boris, o urso e a "jangada"
As palavras nem sempre bastam para retratar um personagem. No caso de Boris seria preciso juntar-lhes o olfacto e aquele poder de raios-X com que, por vezes, descobrimos em alguém uma essência que, outrossim, se mostra refractária a ser descrita ou definida.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris nasceu em Leninegrado. São Petersburgo, bem sei, mas ele próprio continua a chamar-lhe assim.
No tempo em que travámos conhecimento, havia anos que desertara do navio onde andava embarcado, e possuía em Rotterdam um café, um próspero negócio de máquinas de diversão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais distinto. Fora isso tinha ganho nome como boxeur, era agradável no trato e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do persistente cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por acaso, a viria eu a descobrir. Mas a essência do seu carácter - indescritível, indefinível - essa revelava-se sobretudo no primeiro encontro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco conforme, apoiados sobre pernas curtas e cambadas. Olhos de azeviche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pendentes, que lhe dava um ar de falsa bonomia. Um sorriso de que não era fácil discernir a qualidade, pois tanto poderia ser troça, como estupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negócios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de diversão pareciam ser uma parte diminuta que ocupava dois aprendizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casinhola de madeira no terreno das traseiras da casa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gargalhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - entre os quais também de bom gosto se incluía - telefonava, gritava com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cortesias de despedida, também era capaz de num repente saltar para a carrinha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, gatos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no anexo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leão de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À solta, preso a uma corrente que qualquer criança quebraria, deambulava o seu favorito, um urso castanho que, da primeira vez que o descobri agachado a um canto, quase me matou de susto, porque a minha miopia o confundira com um inofensivo monte de trapos.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensaiar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um forte odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possível aceitar.
Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependências da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de cantis, mochilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, telefones de campanha, pás e picaretas, antenas, holofotes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas militares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arrumado a enorme embalagem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as inscrições laterais, podia acomodar doze pessoas. Outra inscrição, sob a palavra CAUTION! pintada a vermelho, indicava que, puxando a corda, a embarcação se inflaria dentro de trinta segundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém tivera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não aconteceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha escapado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns contra, outros a favor, o dinheiro começou amontoar-se sobre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levantou-se, deu um esticão à corda. E aconteceu!
O barco começou a inchar com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidraças, a loiça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, encontrando uma navalha, a espetou várias vezes no revestimento de borracha, com a fúria de quem se defende dum monstro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o embaraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava levantar-se do chão.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris nasceu em Leninegrado. São Petersburgo, bem sei, mas ele próprio continua a chamar-lhe assim.
No tempo em que travámos conhecimento, havia anos que desertara do navio onde andava embarcado, e possuía em Rotterdam um café, um próspero negócio de máquinas de diversão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais distinto. Fora isso tinha ganho nome como boxeur, era agradável no trato e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do persistente cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por acaso, a viria eu a descobrir. Mas a essência do seu carácter - indescritível, indefinível - essa revelava-se sobretudo no primeiro encontro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco conforme, apoiados sobre pernas curtas e cambadas. Olhos de azeviche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pendentes, que lhe dava um ar de falsa bonomia. Um sorriso de que não era fácil discernir a qualidade, pois tanto poderia ser troça, como estupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negócios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de diversão pareciam ser uma parte diminuta que ocupava dois aprendizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casinhola de madeira no terreno das traseiras da casa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gargalhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - entre os quais também de bom gosto se incluía - telefonava, gritava com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cortesias de despedida, também era capaz de num repente saltar para a carrinha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, gatos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no anexo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leão de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À solta, preso a uma corrente que qualquer criança quebraria, deambulava o seu favorito, um urso castanho que, da primeira vez que o descobri agachado a um canto, quase me matou de susto, porque a minha miopia o confundira com um inofensivo monte de trapos.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensaiar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um forte odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possível aceitar.
Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependências da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de cantis, mochilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, telefones de campanha, pás e picaretas, antenas, holofotes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas militares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arrumado a enorme embalagem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as inscrições laterais, podia acomodar doze pessoas. Outra inscrição, sob a palavra CAUTION! pintada a vermelho, indicava que, puxando a corda, a embarcação se inflaria dentro de trinta segundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém tivera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não aconteceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha escapado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns contra, outros a favor, o dinheiro começou amontoar-se sobre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levantou-se, deu um esticão à corda. E aconteceu!
O barco começou a inchar com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidraças, a loiça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, encontrando uma navalha, a espetou várias vezes no revestimento de borracha, com a fúria de quem se defende dum monstro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o embaraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava levantar-se do chão.
terça-feira, fevereiro 5
domingo, fevereiro 3
sábado, fevereiro 2
O mar
Escondido no fundo do meu ser de montanhês há-de haver uma costela marinheira, herdada de algum remoto avô navegante que não deixou história, pois tanto quanto sei, nos dois últimos séculos a minha gente foi de vinhas, de rebanhos, searas e olivais.
Poucos deles terão visto o mar. Os que conheci iam na festa de Santo Antão em Agosto pescar ao Sabor, rio que só no Inverno merece esse nome, mas que os banzava por lhes parecer caudaloso, e do qual garantiam que a corrente tinha mais força que dez juntas de bois.
Compreende-se. Não conheciam força maior e, em todo o imenso ermo de montes e de vales em que mourejavam, havia apenas duas nascentes donde corriam, correm ainda, uns riachos de nada. Fios de água tão estreitos que de menino, sem tomar lanço, eu os atravessava dum salto.
Na sua imensidão o mar sempre me assustou, como os barcos sempre me enfeitiçaram. Comecei por fazê-los de papel. Mal pude segurar um canivete fi-los de cortiça, de casca de pinho, perfeitos, com mastros e velas, leme, tripulação. Construí-os depois de madeira, com quilha, cavername, porões, convés, paus-de-carga, um com caldeira de vapor e chaminé a fumegar. Infelizmente, porque me faltava ciência, esses adernavam em vez de navegar, e por fim cansei-me da minha inépcia. Mas o fascínio permaneceu. Forte. A ponto de por duas ou três vezes me ter posto a vida em perigo.
Poucos deles terão visto o mar. Os que conheci iam na festa de Santo Antão em Agosto pescar ao Sabor, rio que só no Inverno merece esse nome, mas que os banzava por lhes parecer caudaloso, e do qual garantiam que a corrente tinha mais força que dez juntas de bois.
Compreende-se. Não conheciam força maior e, em todo o imenso ermo de montes e de vales em que mourejavam, havia apenas duas nascentes donde corriam, correm ainda, uns riachos de nada. Fios de água tão estreitos que de menino, sem tomar lanço, eu os atravessava dum salto.
Na sua imensidão o mar sempre me assustou, como os barcos sempre me enfeitiçaram. Comecei por fazê-los de papel. Mal pude segurar um canivete fi-los de cortiça, de casca de pinho, perfeitos, com mastros e velas, leme, tripulação. Construí-os depois de madeira, com quilha, cavername, porões, convés, paus-de-carga, um com caldeira de vapor e chaminé a fumegar. Infelizmente, porque me faltava ciência, esses adernavam em vez de navegar, e por fim cansei-me da minha inépcia. Mas o fascínio permaneceu. Forte. A ponto de por duas ou três vezes me ter posto a vida em perigo.
sexta-feira, fevereiro 1
Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)
Tira-se da estante um livro esquecido. Sorri a gente, recordando a emoção com que descobriu a sua poesia nos anos da juventude. E um pensamento que se anotou: “Meu Deus!... Porque não fizeste os homens irracionais?...” Aprender que flor também se pode escrever “frô”, senhora passa a sinhá, e acaba em “sá”.“Sá Dona, os cabelos dela
tão preto prô chão caía
que toda frô que butava
nus cabelo, a frô murchava
pensando que anoitecia”.
(Meu Sertão - Catulo da Paixão Cearense, Rio de Janeiro, 1918)
quinta-feira, janeiro 31
quarta-feira, janeiro 30
terça-feira, janeiro 29
Remexendo nas gavetas (13)
A quinta, as camélias, a menina e o Mobutu
Filho de gente humilde, António Rodrigues Alves Faria nasceu ali perto, em Matinho de Forjões, cerca de 1860.
Aos catorze anos foi de marçano no Porto e quase logo em seguida, sem papéis nem dinheiro, abalou para o Brasil escondido num navio de carga.
Lá trabalhou, sofreu, poupou, comerciou. No começo do século XX, com o título de visconde e riqueza de milionário, tornou ao lugarejo donde tinha saído de pé descalço.
Comprou terras sem conta. Construiu uma escola. Comprou a Quinta de Curvos que estava ao abandono e levantou-lhe os muros arruinados, substituiu os velhos portões de madeira por outros de ferro, encimou-os quase todos, como ainda se pode ver, com as suas iniciais e a data: ARAF-1910.
Mandou fazer também uma luxuosa mansão e cercou-a de jardins, de pomares, de lagos grandes, lagos pequenos, mirantes, grutas artificiais de cimento armado a imitar cortiça, como era moda nesse tempo.
Foi infeliz nos amores. Faleceu sem completar os sessenta e uns primos afastados, seus únicos herdeiros, gente boçal, indiferente, esbanjaram a herança, venderam a quinta a um homem de Lisboa, que a revenderia a outro.
Depois, de mão em mão, de desleixo em descuido, a cerca foi derruindo, as silvas foram avançando, a madeira da casa apodreceu, as traves cederam, caiu parte do telhado, caíram as chaminés.
No começo dos anos sessenta, ansioso por se ver livre dum trambolho que não dava lucro que chegasse para pagar as contribuições, o proprietário pô-la à venda por uma migalha.
Um inglês pagou essa migalha e, tal como o brasileiro tinha feito antes dele, deu à quinta o esplendor antigo. Restaurou-se a casa, limparam-se os campos. Alargaram-se grandemente os jardins porque mister Regal, homem solitário, da infinidade de paixões humanas apenas tinha uma: a cultura das camélias. E de todas as recompensas do mundo apenas almejava uma que lhe coube muitas vezes: ganhar nos concursos o primeiro prémio, a Camélia de Ouro.
Na Primavera de 74, desafeito a rumores depois de tantos anos de paz, Leslie Regal assustou-se com a Revolução dos Cravos e as ameaças que a plebe vinha gritar aos portões. O seu único desejo era fugir. Se o vizinho pagasse seis mil contos - bem menos que o valor dos muros - ele entregava-lhe a propriedade logo ali.
O vizinho achou caro. Também achou complicado que o bife quisesse o pagamento em libras ou dólares. Então não era o escudo uma moeda forte? E farejando a oportunidade disse que lhe parecia caro. Oferecia a metade.
O inglês teve uma reacção inesperada. Queixando-se de que se sentia cada vez mais só, cada vez mais mais cansado, se o vizinho aceitasse trocar a filhinha de quatro anos pela propriedade...
Ao contar-me essa parte da estória a rapariga tinha sorrido com o embaraço de quem quase estivera para ser moeda de troca. Felizmente que o pai recusara a transacção e o inglês acabara por encontrar um industrial de Braga que, sabendo o que são pechinchas, lhe pagou o pedido a contado e em libras.
- E depois?
Um grupo de curiosos tinha-se juntado à nossa volta e, antes que a rapariga pudesse responder, um homem de idade travou-me o braço:
- Eu trabalhei lá. Eu é que sei.
O novo proprietário acabara com as camélias, tinha mandado fazer muito plantio de vinha e de pomar, pocilgas enormes, aumentos nas adegas, uma coelheira onde havia três mil coelhos.
- Três mil?
- Ou mais! Tendo comida à farta os coelhos não se cansam de fazer a coisa.
Houve risos brejeiros, mas o homem continuou sem se descompor. A paga era razoável e tudo tinha corrido bem até fins de 81, começos de 82.
De repente, assim sem mais nem menos, despediram o pessoal antigo, contrataram outra gente, e só quando se começou a ver a pretalhada a andar para lá e para cá em grandes Mercedes, é que se soube que o novo dono era o Mobutu. Desde então andava tudo secreto, tudo muito escondido, os que lá trabalhavam eram de longe e tinham ordens para não falar a ninguém.
Com um gesto dei a entender que compreendia o seu azedume, e o ancião agarrou-me de novo pelo braço, baixando a voz em confidência:
- Ainda outra coisa. O homem de Braga pagou seis mil contos ao inglês para lhe apanhar a quinta, não foi? Mas por quanto a vendeu ele ao Mobutu? Diga lá.
- Não faço ideia. Doze mil? Quinze mil?
- Duzentos e cinquenta mil, meu senhor! Du-zen-tos-e-cin-quen-ta-mil! E o filho da puta do preto dizem que passou logo o cheque, nem sequer regateou!
Aos catorze anos foi de marçano no Porto e quase logo em seguida, sem papéis nem dinheiro, abalou para o Brasil escondido num navio de carga.
Lá trabalhou, sofreu, poupou, comerciou. No começo do século XX, com o título de visconde e riqueza de milionário, tornou ao lugarejo donde tinha saído de pé descalço.
Comprou terras sem conta. Construiu uma escola. Comprou a Quinta de Curvos que estava ao abandono e levantou-lhe os muros arruinados, substituiu os velhos portões de madeira por outros de ferro, encimou-os quase todos, como ainda se pode ver, com as suas iniciais e a data: ARAF-1910.
Mandou fazer também uma luxuosa mansão e cercou-a de jardins, de pomares, de lagos grandes, lagos pequenos, mirantes, grutas artificiais de cimento armado a imitar cortiça, como era moda nesse tempo.
Foi infeliz nos amores. Faleceu sem completar os sessenta e uns primos afastados, seus únicos herdeiros, gente boçal, indiferente, esbanjaram a herança, venderam a quinta a um homem de Lisboa, que a revenderia a outro.
Depois, de mão em mão, de desleixo em descuido, a cerca foi derruindo, as silvas foram avançando, a madeira da casa apodreceu, as traves cederam, caiu parte do telhado, caíram as chaminés.
No começo dos anos sessenta, ansioso por se ver livre dum trambolho que não dava lucro que chegasse para pagar as contribuições, o proprietário pô-la à venda por uma migalha.
Um inglês pagou essa migalha e, tal como o brasileiro tinha feito antes dele, deu à quinta o esplendor antigo. Restaurou-se a casa, limparam-se os campos. Alargaram-se grandemente os jardins porque mister Regal, homem solitário, da infinidade de paixões humanas apenas tinha uma: a cultura das camélias. E de todas as recompensas do mundo apenas almejava uma que lhe coube muitas vezes: ganhar nos concursos o primeiro prémio, a Camélia de Ouro.
Na Primavera de 74, desafeito a rumores depois de tantos anos de paz, Leslie Regal assustou-se com a Revolução dos Cravos e as ameaças que a plebe vinha gritar aos portões. O seu único desejo era fugir. Se o vizinho pagasse seis mil contos - bem menos que o valor dos muros - ele entregava-lhe a propriedade logo ali.
O vizinho achou caro. Também achou complicado que o bife quisesse o pagamento em libras ou dólares. Então não era o escudo uma moeda forte? E farejando a oportunidade disse que lhe parecia caro. Oferecia a metade.
O inglês teve uma reacção inesperada. Queixando-se de que se sentia cada vez mais só, cada vez mais mais cansado, se o vizinho aceitasse trocar a filhinha de quatro anos pela propriedade...
Ao contar-me essa parte da estória a rapariga tinha sorrido com o embaraço de quem quase estivera para ser moeda de troca. Felizmente que o pai recusara a transacção e o inglês acabara por encontrar um industrial de Braga que, sabendo o que são pechinchas, lhe pagou o pedido a contado e em libras.
- E depois?
Um grupo de curiosos tinha-se juntado à nossa volta e, antes que a rapariga pudesse responder, um homem de idade travou-me o braço:
- Eu trabalhei lá. Eu é que sei.
O novo proprietário acabara com as camélias, tinha mandado fazer muito plantio de vinha e de pomar, pocilgas enormes, aumentos nas adegas, uma coelheira onde havia três mil coelhos.
- Três mil?
- Ou mais! Tendo comida à farta os coelhos não se cansam de fazer a coisa.
Houve risos brejeiros, mas o homem continuou sem se descompor. A paga era razoável e tudo tinha corrido bem até fins de 81, começos de 82.
De repente, assim sem mais nem menos, despediram o pessoal antigo, contrataram outra gente, e só quando se começou a ver a pretalhada a andar para lá e para cá em grandes Mercedes, é que se soube que o novo dono era o Mobutu. Desde então andava tudo secreto, tudo muito escondido, os que lá trabalhavam eram de longe e tinham ordens para não falar a ninguém.
Com um gesto dei a entender que compreendia o seu azedume, e o ancião agarrou-me de novo pelo braço, baixando a voz em confidência:
- Ainda outra coisa. O homem de Braga pagou seis mil contos ao inglês para lhe apanhar a quinta, não foi? Mas por quanto a vendeu ele ao Mobutu? Diga lá.
- Não faço ideia. Doze mil? Quinze mil?
- Duzentos e cinquenta mil, meu senhor! Du-zen-tos-e-cin-quen-ta-mil! E o filho da puta do preto dizem que passou logo o cheque, nem sequer regateou!
segunda-feira, janeiro 28
O Rei-da-Terra
Hospedei-me por uma noite num hotel da praça da Batalha, contente de ver em redor quase todos os cinemas e cafés doutrora, a sua presença a confirmar que nem tudo se estiola, que nem tudo morre.
Desço para o rio, atravesso a ponte, refaço o que foi o caminho para casa. Centenas ou milhares de vezes palmilhado, pouco importa a conta.
Por um instante, com sede, quase me deixo tentar pelos pára-sóis coloridos das esplanadas, mas continuo em frente, como se fosse inconveniência ou traição ir-me sentar entre estranhos no mesmo lugar onde antes brinquei, onde sonhei. Onde meu pai ia e voltava na sua ronda, vigiando o rio, assestando o binóculo nos vapores quando um movimento lhe parecia suspeito, ou quando os tripulantes desciam pelo portaló.
Frustrado por ter de apreender o pequeno contrabando da meia dúzia de maços de cigarros presos dentro das calças, ou da garrafa de uísque apertada no sovaco, e ao mesmo tempo assistir impotente ao tráfico do vinho, do volfrâmio, das mercadorias, que os seus chefes e alguns colegas acobertavam.
Vira-os ganhar fortunas com o contrabando no começo da guerra, construir casas apalaçadas, subir de posto, receber medalhas por bons serviços, enquanto ele - que por natureza e educação tinha a lei por dogma - se gastava a pedir inquéritos urgentes, a apresentar queixas, a fazer listas, a escrever relatórios.
Papelada que desaparecia sem efeito nos recônditos da Alfândega, o sombrio e imenso edifício de granito que eu espiava interessado das nossas janelas, desde que ouvira dizer que, nos seus armazéns, se guardavam ainda tesouros do tempo em que os galeões vinham da Índia e do Brasil.
Meu pai, que até então tinha bebido moderadamente, começou a intoxicar-se. Dizer que se embebedava não seria a expressão justa, porque nunca ninguém o viu bêbedo, mas logo de manhã bebia como possesso, num estado segundo, apressado em atingir aquele momento em que, embotada a sensibilidade, podia considerar tudo com absoluta indiferença.
Se por qualquer razão se mantinha sóbrio tornava-se irascível. Um dia, por uma bagatela, maltratou de tal jeito um colega a soco e pontapé que foi condenado a ficar detido no quartel o tempo que o outro passasse no hospital. Três semanas.
Nas horas de visita eu levava-lhe jornais, perguntava-lhe se estava bem, e mais não tinha para dizer, perturbado como me sentia pelas desencontradas emoções da adolescência.
Doía-me o vê-lo sombrio, agastado, a caminhar absorto em volta do quarto, esquecido da minha presença. Mas é verdade que entre nós nunca tinha havido, nem nunca haveria, intimidade.
Não recordo que jamais tenhamos trocado uma palavra de encorajamento ou conforto, e mesmo depois dos anos terem embotado algumas arestas dos nossos caracteres, permanecemos dois pólos, tão intensamente opostos que nem sequer a paixão comum dos livros e do cinema conseguíamos partilhar.
Em Junho ou Julho de 45, uma noite, ao fim da ceia - vejo-o de olhos baixos a cortar a casca de uma laranja em gomos regulares,vagarosamente, como era seu hábito, - anunciou que tinha pedido que o transferissem para a fronteira do Minho.
- É melhor ir-me embora daqui, antes que um dia perca a cabeça e mate alguém. É melhor ir-me embora - repetira ele depois de uma pausa, a sublinhar a sua decisão.
Minha mãe e eu ainda nos olhámos, surpreendidos, mas o Rei-da-Terra decidira, era caso acabado. Ele timoneava o Destino e nós, seus meros apêndices, sem opinião própria nem voto na matéria, tínhamos de nos resignar e acompanhá-lo.
Desço para o rio, atravesso a ponte, refaço o que foi o caminho para casa. Centenas ou milhares de vezes palmilhado, pouco importa a conta.
Por um instante, com sede, quase me deixo tentar pelos pára-sóis coloridos das esplanadas, mas continuo em frente, como se fosse inconveniência ou traição ir-me sentar entre estranhos no mesmo lugar onde antes brinquei, onde sonhei. Onde meu pai ia e voltava na sua ronda, vigiando o rio, assestando o binóculo nos vapores quando um movimento lhe parecia suspeito, ou quando os tripulantes desciam pelo portaló.
Frustrado por ter de apreender o pequeno contrabando da meia dúzia de maços de cigarros presos dentro das calças, ou da garrafa de uísque apertada no sovaco, e ao mesmo tempo assistir impotente ao tráfico do vinho, do volfrâmio, das mercadorias, que os seus chefes e alguns colegas acobertavam.
Vira-os ganhar fortunas com o contrabando no começo da guerra, construir casas apalaçadas, subir de posto, receber medalhas por bons serviços, enquanto ele - que por natureza e educação tinha a lei por dogma - se gastava a pedir inquéritos urgentes, a apresentar queixas, a fazer listas, a escrever relatórios.
Papelada que desaparecia sem efeito nos recônditos da Alfândega, o sombrio e imenso edifício de granito que eu espiava interessado das nossas janelas, desde que ouvira dizer que, nos seus armazéns, se guardavam ainda tesouros do tempo em que os galeões vinham da Índia e do Brasil.
Meu pai, que até então tinha bebido moderadamente, começou a intoxicar-se. Dizer que se embebedava não seria a expressão justa, porque nunca ninguém o viu bêbedo, mas logo de manhã bebia como possesso, num estado segundo, apressado em atingir aquele momento em que, embotada a sensibilidade, podia considerar tudo com absoluta indiferença.
Se por qualquer razão se mantinha sóbrio tornava-se irascível. Um dia, por uma bagatela, maltratou de tal jeito um colega a soco e pontapé que foi condenado a ficar detido no quartel o tempo que o outro passasse no hospital. Três semanas.
Nas horas de visita eu levava-lhe jornais, perguntava-lhe se estava bem, e mais não tinha para dizer, perturbado como me sentia pelas desencontradas emoções da adolescência.
Doía-me o vê-lo sombrio, agastado, a caminhar absorto em volta do quarto, esquecido da minha presença. Mas é verdade que entre nós nunca tinha havido, nem nunca haveria, intimidade.
Não recordo que jamais tenhamos trocado uma palavra de encorajamento ou conforto, e mesmo depois dos anos terem embotado algumas arestas dos nossos caracteres, permanecemos dois pólos, tão intensamente opostos que nem sequer a paixão comum dos livros e do cinema conseguíamos partilhar.
Em Junho ou Julho de 45, uma noite, ao fim da ceia - vejo-o de olhos baixos a cortar a casca de uma laranja em gomos regulares,vagarosamente, como era seu hábito, - anunciou que tinha pedido que o transferissem para a fronteira do Minho.
- É melhor ir-me embora daqui, antes que um dia perca a cabeça e mate alguém. É melhor ir-me embora - repetira ele depois de uma pausa, a sublinhar a sua decisão.
Minha mãe e eu ainda nos olhámos, surpreendidos, mas o Rei-da-Terra decidira, era caso acabado. Ele timoneava o Destino e nós, seus meros apêndices, sem opinião própria nem voto na matéria, tínhamos de nos resignar e acompanhá-lo.
domingo, janeiro 27
sexta-feira, janeiro 25
20.000
Minutos atrás o Sitemeter registou alguém de Alcobaça como visitante 20.000 deste blogue. Para dez meses de presença, e numa blogosfera onde tudo se conta em milhões, não deve ser muito. Mas é número redondo, pelo que se anuncia o facto .
quinta-feira, janeiro 24
Frases (1)
"The first duty in life is to assume a pose. What the second duty is, no one has yet found out." - Oscar Wilde
"In physics the truth is rarely perfectly clear, and that is certainly universally the case in human affairs. Hence, what is not surrounded by uncertainity cannot be the truth." - Richard Feynman
"In physics the truth is rarely perfectly clear, and that is certainly universally the case in human affairs. Hence, what is not surrounded by uncertainity cannot be the truth." - Richard Feynman
quarta-feira, janeiro 23
terça-feira, janeiro 22
Remexendo nas gavetas (6)
Bichos
É geralmente sabido que, em países como em Portugal, os animais não levam uma vida fácil. Mesmo os que têm dono. O burro apanha pauladas quando se não apressa, ao cão que ladra demais é normal dar pontapés, pobre do gato que se torna incómodo ou preguiça na caça ao rato: rua com ele. E por via de regra, o pombo-correio menos capaz de bater recordes acaba simplesmente na panela. Pelo que não é preciso grande esforço para imaginar o destino dos animais vadios e os que, livres na natureza, vivem ao alcance da fisga e da caçadeira.
Com aplauso dos próprios pais, que gostam de vê-los crescer destemidos e ágeis, para os rapazes é um gosto subir ao perigoso cocuruto das árvores e tirar dos ninhos os filhotes ou quebrar os ovos.
Os caçadores, esses, se lhes faltam perdizes ou coelhos, disparam à toa contra tudo o que diante dos seus olhos voa ou corre. Passo por alto outras crueldades que, embora pertencendo aos costumes, sempre me pareceram próximas das doenças mentais.
Pessoalmente, salvo a hostilidade contra algumas ordens menores (continuo a matar moscas, mosquitos, aranhas, vespas e varejeiras) e uma repugnância congénita pelos ratos, creio que me posso apresentar sem receio diante do Criador.
Ele por certo desculpará a vez que em pequeno fui à caça, com a Flobert que meu pai me dera para de mim fazer um homem e, ao decepar com um tiro a asa dum gaio, deitei a fugir horrorizado. Nunca mais.
Na meninice tive cães e gatos, uma ovelha, um porco de olhos meigos que parecia tudo compreender e a quem, sem resultado, muitos vezes pedi que falasse.
De pássaros em gaiolas nunca gostei, nem de lagartos adormecidos no fundo de terrários, ou peixinhos descrevendo tristemente voltas lentas na pouca água dum vaso, pois só de vê-los já me faltava o ar.
Depois, homem feito, maravilhei-me com os semelhantes e esqueci os bichos. Agora, tal um barco que aos poucos se afasta do cais, ao entrar na velhice vou perdendo o interesse pelos primeiros, e os outros basta-me vê-los nos filmes sobre a natureza.
Assim se vai degradando a minha visão do mundo e, pelo menos no que respeita os animais, sinto por vezes remorso de viver na Holanda há tanto tempo, sem me ter deixado contagiar pelo amor que o holandês sente por eles.
Porque, merecido ou não o que dele se diz nas bocas do mundo, ninguém poderá negar que o holandês é exemplar no seu carinho pela bicharada. Os cães não levam aqui vida de cão, mas de gente próspera. Os gatos, de há muito habituados a ementas gastronómicas, desconhecem o sabor do rato. Vivem neste país marmotas, cobras, cágados e coelhos tão mimados que, se os donos os quisessem devolver ao elemento natural, eles diriam não, muito obrigado, e voltariam a correr para o esplêndido conforto dos seus ninhos caseiros.
Também não é preciso viver no Sahel ou nas favelas do Rio, para sonhar como seria belo poder ser aqui cão ou gato e, à hora da refeição, hesitar entre pedacinhos de carne com legumes, pâté (rico em vitamina A e B2), salmão com arroz, salsichas, empanada de mariscos...
Estou certo que no céu, onde tem a seu cargo o departamento zoológico, São Francisco de Assis olha enternecido para a Holanda, e aprova todo o bem que aqui se quer e faz aos nossos irmãos bichos.
Porque não é só o carinho, o conforto, o bom trato, mas toda uma rede de previdências que, com as suas lojas especiais para o comer e o vestir, o seguro, os cuidados veterinários, próteses, cemitérios, distrações, serviço de ambulâncias, hotéis e asilos, e até eutanásia, torna a sociedade animal quase uma réplica da nossa. Falassem eles entre si uma língua inteligível e não duvido que disporiam de telemóvel.
Tal como o bondoso São Francisco, pois, também eu me enterneço e aprovo tudo isso, mas pelos jeitos a minha natureza de português continua imperfeita, e a minha solidariedade para com os nossos irmãos bichos pouco mais é que um verniz.
Dias atrás, quando me vieram propor tomar parte num curso de reanimação de animais - "boca a focinho" - recusei horrorizado.
Como o poderia eu, que nem sequer me sinto capaz de reanimar o meu semelhante com um "boca a boca"?
Como o podem eles?!
Com aplauso dos próprios pais, que gostam de vê-los crescer destemidos e ágeis, para os rapazes é um gosto subir ao perigoso cocuruto das árvores e tirar dos ninhos os filhotes ou quebrar os ovos.
Os caçadores, esses, se lhes faltam perdizes ou coelhos, disparam à toa contra tudo o que diante dos seus olhos voa ou corre. Passo por alto outras crueldades que, embora pertencendo aos costumes, sempre me pareceram próximas das doenças mentais.
Pessoalmente, salvo a hostilidade contra algumas ordens menores (continuo a matar moscas, mosquitos, aranhas, vespas e varejeiras) e uma repugnância congénita pelos ratos, creio que me posso apresentar sem receio diante do Criador.
Ele por certo desculpará a vez que em pequeno fui à caça, com a Flobert que meu pai me dera para de mim fazer um homem e, ao decepar com um tiro a asa dum gaio, deitei a fugir horrorizado. Nunca mais.
Na meninice tive cães e gatos, uma ovelha, um porco de olhos meigos que parecia tudo compreender e a quem, sem resultado, muitos vezes pedi que falasse.
De pássaros em gaiolas nunca gostei, nem de lagartos adormecidos no fundo de terrários, ou peixinhos descrevendo tristemente voltas lentas na pouca água dum vaso, pois só de vê-los já me faltava o ar.
Depois, homem feito, maravilhei-me com os semelhantes e esqueci os bichos. Agora, tal um barco que aos poucos se afasta do cais, ao entrar na velhice vou perdendo o interesse pelos primeiros, e os outros basta-me vê-los nos filmes sobre a natureza.
Assim se vai degradando a minha visão do mundo e, pelo menos no que respeita os animais, sinto por vezes remorso de viver na Holanda há tanto tempo, sem me ter deixado contagiar pelo amor que o holandês sente por eles.
Porque, merecido ou não o que dele se diz nas bocas do mundo, ninguém poderá negar que o holandês é exemplar no seu carinho pela bicharada. Os cães não levam aqui vida de cão, mas de gente próspera. Os gatos, de há muito habituados a ementas gastronómicas, desconhecem o sabor do rato. Vivem neste país marmotas, cobras, cágados e coelhos tão mimados que, se os donos os quisessem devolver ao elemento natural, eles diriam não, muito obrigado, e voltariam a correr para o esplêndido conforto dos seus ninhos caseiros.
Também não é preciso viver no Sahel ou nas favelas do Rio, para sonhar como seria belo poder ser aqui cão ou gato e, à hora da refeição, hesitar entre pedacinhos de carne com legumes, pâté (rico em vitamina A e B2), salmão com arroz, salsichas, empanada de mariscos...
Estou certo que no céu, onde tem a seu cargo o departamento zoológico, São Francisco de Assis olha enternecido para a Holanda, e aprova todo o bem que aqui se quer e faz aos nossos irmãos bichos.
Porque não é só o carinho, o conforto, o bom trato, mas toda uma rede de previdências que, com as suas lojas especiais para o comer e o vestir, o seguro, os cuidados veterinários, próteses, cemitérios, distrações, serviço de ambulâncias, hotéis e asilos, e até eutanásia, torna a sociedade animal quase uma réplica da nossa. Falassem eles entre si uma língua inteligível e não duvido que disporiam de telemóvel.
Tal como o bondoso São Francisco, pois, também eu me enterneço e aprovo tudo isso, mas pelos jeitos a minha natureza de português continua imperfeita, e a minha solidariedade para com os nossos irmãos bichos pouco mais é que um verniz.
Dias atrás, quando me vieram propor tomar parte num curso de reanimação de animais - "boca a focinho" - recusei horrorizado.
Como o poderia eu, que nem sequer me sinto capaz de reanimar o meu semelhante com um "boca a boca"?
Como o podem eles?!
segunda-feira, janeiro 21
domingo, janeiro 20
sexta-feira, janeiro 18
quarta-feira, janeiro 16
O RIJOMAX
Aos sete anos tentou fazer o seu primeiro relógio. Com rodas de madeira. Aos doze foi trabalhar numa relojoaria. Em 1933, com vinte e um, estabeleceu-se em Tabuaço.
A partir desse momento tomou-o a obsessão de construir um relógio diferente. E conseguiu-o. Durante trinta anos reservou todo o seu tempo livre para o RIJOMAX. Nas palavras do folheto que ele oferece a quem o visita: "O relógio mais completo do mundo - Uma obra misteriosa - Patente nr. 12931.”
Com os seus dois metros e pouco de alto, e cerca de um de largo, o RIJOMAX à primeira vista não se impõe. E mau grado a grande quantidade de ponteiros, mostradores, mais de 16.000 algarismos e letras, não parece um relógio sério. Talvez porque o construtor o tenha enfeitado com o seu próprio retrato, brilhantes e rubis falsos, poemas, provérbios, imagens, luzes que piscam e um sem-fim de atributos. Isso é a aparência, mas a gente sem querer ri-se. Quando o senhor Ribeiro começa a explicar, a gente cala-se.
O RIJOMAX está programado para funcionar durante 10 mil séculos em ciclos de 6272 anos. Corrige as diferenças existentes entre os vários calendários antigos e modernos. Ao fim de 128 anos suprime automaticamente o dia resultante do acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto. Contabiliza a diferença diária entre o tempo solar e o tempo do calendário, de forma que ao suprimir 1 dia em cada 128 anos, registará adicionalmente 29 min. e 37 seg. Passados 6272 anos terá suprimido 49 dias, mas a adição da diferença atrás mencionada será já de 24 h 11 min. e 13 seg., razão porque o mês de Fevereiro do ano 8172 será de 27 dias.
O RIJOMAX marca também os equinócios, os solstícios, as fases da lua. Tem uma luz que se acende e apaga diariamente, no momento exacto em que o sol nasce e se põe. Claro que mostra as horas, minutos, segundos, meses e anos da era cristã (estes últimos assinalados por um velho conta-quilómetros).
Possui calendários para se saber o dia da semana de qualquer data, “desde 1 de Janeiro do ano 1 da era cristä, até ao presente e futuros.” Um dos seus ponteiros move-se de 100 em 100 anos para assinalar a passagem do século, enquanto as oscilações de outro duram meio segundo. Regista o ciclo solar e lunar, o da letra dominical, e a epacta.
- Sabe o que é a epacta? - perguntou-me o senhor Ribeiro.
Confessei que ignorava. Ele sorriu, explicou, e disse que quase ninguém sabia.
Na face posterior o RIJOMAX possui mostradores com os calendários de Juliano e Júlio César, de Nabucodonosor, das Olimpíadas, de Abraão, Moisés, Salomão, e da história de Portugal.
Tudo a girar em misteriosas sincronias. Calcula e faz muitas coisas mais: umas estranhamente complexas, outras comezinhas, como dar “a horas certas uma saudação em vocabulário religioso”.
Cumprimentei o senhor Ribeiro por demonstrar tanto engenho, tendo apenas a instrução primária. Ele agradeceu, sorriu, quis saber onde eu vivia.
Ao ouvir-me dizer Holanda, ergueu os braços, exultante. É que, explicou, ele próprio nunca tinha compreendido donde lhe viera a ciência para fazer um aparelho daqueles. Mas tempos atrás tinham entrado na loja dois desconhecidos, e um deles, assim sem mais nem menos, anunciou que o senhor Ribeiro não fizera o relógio sozinho. Emprestara as mãos e dera o trabalho. Isso sim. Mas a ciência e os cálculos eram dum matemático holandês que nele tinha reincarnado, e em certas noites se vê a passear diante da igreja da praça, ali em frente.
A partir desse momento tomou-o a obsessão de construir um relógio diferente. E conseguiu-o. Durante trinta anos reservou todo o seu tempo livre para o RIJOMAX. Nas palavras do folheto que ele oferece a quem o visita: "O relógio mais completo do mundo - Uma obra misteriosa - Patente nr. 12931.”
Com os seus dois metros e pouco de alto, e cerca de um de largo, o RIJOMAX à primeira vista não se impõe. E mau grado a grande quantidade de ponteiros, mostradores, mais de 16.000 algarismos e letras, não parece um relógio sério. Talvez porque o construtor o tenha enfeitado com o seu próprio retrato, brilhantes e rubis falsos, poemas, provérbios, imagens, luzes que piscam e um sem-fim de atributos. Isso é a aparência, mas a gente sem querer ri-se. Quando o senhor Ribeiro começa a explicar, a gente cala-se.
O RIJOMAX está programado para funcionar durante 10 mil séculos em ciclos de 6272 anos. Corrige as diferenças existentes entre os vários calendários antigos e modernos. Ao fim de 128 anos suprime automaticamente o dia resultante do acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto. Contabiliza a diferença diária entre o tempo solar e o tempo do calendário, de forma que ao suprimir 1 dia em cada 128 anos, registará adicionalmente 29 min. e 37 seg. Passados 6272 anos terá suprimido 49 dias, mas a adição da diferença atrás mencionada será já de 24 h 11 min. e 13 seg., razão porque o mês de Fevereiro do ano 8172 será de 27 dias.
O RIJOMAX marca também os equinócios, os solstícios, as fases da lua. Tem uma luz que se acende e apaga diariamente, no momento exacto em que o sol nasce e se põe. Claro que mostra as horas, minutos, segundos, meses e anos da era cristã (estes últimos assinalados por um velho conta-quilómetros).
Possui calendários para se saber o dia da semana de qualquer data, “desde 1 de Janeiro do ano 1 da era cristä, até ao presente e futuros.” Um dos seus ponteiros move-se de 100 em 100 anos para assinalar a passagem do século, enquanto as oscilações de outro duram meio segundo. Regista o ciclo solar e lunar, o da letra dominical, e a epacta.
- Sabe o que é a epacta? - perguntou-me o senhor Ribeiro.
Confessei que ignorava. Ele sorriu, explicou, e disse que quase ninguém sabia.
Na face posterior o RIJOMAX possui mostradores com os calendários de Juliano e Júlio César, de Nabucodonosor, das Olimpíadas, de Abraão, Moisés, Salomão, e da história de Portugal.
Tudo a girar em misteriosas sincronias. Calcula e faz muitas coisas mais: umas estranhamente complexas, outras comezinhas, como dar “a horas certas uma saudação em vocabulário religioso”.
Cumprimentei o senhor Ribeiro por demonstrar tanto engenho, tendo apenas a instrução primária. Ele agradeceu, sorriu, quis saber onde eu vivia.
Ao ouvir-me dizer Holanda, ergueu os braços, exultante. É que, explicou, ele próprio nunca tinha compreendido donde lhe viera a ciência para fazer um aparelho daqueles. Mas tempos atrás tinham entrado na loja dois desconhecidos, e um deles, assim sem mais nem menos, anunciou que o senhor Ribeiro não fizera o relógio sozinho. Emprestara as mãos e dera o trabalho. Isso sim. Mas a ciência e os cálculos eram dum matemático holandês que nele tinha reincarnado, e em certas noites se vê a passear diante da igreja da praça, ali em frente.
segunda-feira, janeiro 14
sexta-feira, janeiro 11
Ménage à quatre
Pensa em divórcio?O problema tem a ver com sexo? Insatisfação de ambas as partes? Você com quenturas de cão vadio e a senhora sofrendo da clássica dor de cabeça, ou descontente com a modéstia do membro viril?
Leia Love and Sex with Robots. The Evolution of Human-Robot Relationships, de David Levy. €28.99
Ou melhor: encomende para a senhora um andróide e para si um(a) ginóide (*).
O aspecto é atraente e ambos, para além das funções correntes – abraços, beijos, sorrisos, mexer das mãos, pés, pernas, ancas – podem ser programados para fornecer um blow job de características excepcionais e cópulas como só se imaginam no paraíso. Interessante também é a possibilidade de dotar a (o) ginóide com um pénis, e programar ambos para extraordinárias técnicas sexuais, inclusive um manual para principiantes.
O Prof. Hiroshi Ishiguro com "Repliee Q1" Ela pisca os olhos, respira, reage ao contacto humano e, como nos sonhos da adolescência, "faz tudo !..."
(*) Para os interessados:
http://www.spiegel.de/fotostrecke/0,5538,27272,00.html
http://www.reuters.com/article/newsOne/idUSSP10422420070718
http://www.weirdasianews.com/2007/05/22/japan-life-like-customized-sex-dolls-6500-adult/
PS. Muito se aprende! Sem melhor alternativa, os navegantes holandeses que no séc. XVII e depois iam até ao Japão, levavam consigo uma boneca de couro. Os japoneses devem ter apreciado e desde então chamam "esposa holandesa" às bonecas destinadas ao efeito.
Tudo isto pode ser conhecimento corrente, mas para mim, que venho de tempos longínquos, foi novidade.
quinta-feira, janeiro 10
Poxa!
Tempo Contado, além de links para pistola Mauser 6.35, girls gone wild, perdigueiros e camel toe ... faz agora de Livro de São Cipriano:
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quero um feitiço muito forte para fazer alguem mudar da minha cidade ou acabar com seu comercio pra ela me deixar em paz
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terça-feira, janeiro 8
Calores
Sexo. Séculos de moral, bons costumes e polícia fizeram-nos perder o natural que, nesse particular, alegra ainda a vida dos animais e dos insectos. Felizmente que assim é. O mundo andaria às avessas se na vida social se mantivesse nas coisas do sexo o desregramento da bicharada. Imagine-se um maquinista a abandonar o comboio para, tal um gato, ir copular num fosso com uma dama benevolente. Imagine-se um presidente dando largas ao cio no decurso dum desfile. Ou a menina da caixa no supermercado... Os políticos que nos governam também o não tolerariam, e os sacerdotes dos vários credos acenderiam de imediato as fogueiras das suas inquisições. Mesmo muitos de nós se levantariam para protestar contra os riscos e desconfortos que traria o copular público e inesperado. Por isso aceitamos o jugo da lei, fingimos desinteresse pelo grande motor da existência e, com uns resmungos pro forma, sacrificamos o alegre caos do instinto à monotonia da civilização. O que todavia não impede que em certos lugares, certos dias, pairem no ar eflúvios misteriosos. O bicho que permanecemos reconhece então, por momentos, a mensagem dos odores, descobre o significado dos modos de andar, sabe por intuição o que escondem os olhares e os gestos.
Quando numa tarde quente de Agosto entrei no Sheraton, em Lisboa, surpreendeu-me a frescura do ar condicionado e a agitação do ambiente. No hall havia um grande número de mulheres, e os homens presentes pareciam executar em torno delas um bailado sem ritmo nem fito certo.
O recepcionista ia entregar-me a ficha do quarto quando uma senhora de idade o interrompeu:
- Ó senhor Abílio, isto é congresso?
- Não, Dona Maria, são tudo hóspedes. O hotel está um bocadinho cheio.
- Hóspedes uma gaita! - replicou a senhora com inesperada vivacidade. E voltando-se para mim:
- Isto está a ficar como Bangkok. Conhece Bangkok?
- Não conheço, mas faço ideia.
No ascensor - por simples acaso íamos ambos para o mesmo andar - ela achou uma pouca-vergonha que um hotel de luxo se abandalhasse assim. Porque se eu não sabia ficava a saber, aquilo eram tudo mulheres da vida.
Fiz-me surpreso e retorqui que não. Uma ou outra, talvez, mas a maioria via-se-lhes pela cara que eram senhoras de respeito.
Ela riu: - Pobre de si se ainda vai pelas caras! Senhoras de respeito uma fava. As que parecem sérias são as do part-time.
Achei exagero, mas não a contradisse. Mais tarde, quando voltei a descer, notei que de facto no hall havia um ambiente de extrema tensão erótica, menos devido aos ademanes das três ou quatro prostitutas de serviço, do que à indefinível electricidade que parecia faiscar entre os presentes.
Nenhum gesto era inocente, nos olhares havia espectativa, liam-se nos rostos desejos insanos, sentia-se que a virtude e a fidelidade, mesmo a decência, estavam ali por um fio.
- É do calor - disse-me o porteiro, habituado a ler pensamentos.
Quando ao fim da noite regressei ao hotel, cansado e de mau humor, o hall estava em penumbra, quase deserto. A única algazarra era a de uma tripulação sul-africana, à espera do ascensor para o bar no último piso. Subimos juntos. Entre si trocavam gracejos sem malícia, dum picante infantil, a exuberância que vem depois de muitas horas de voo e tensão. Por minha parte achei curioso que não me custasse a compreender o afrikaans que falavam, zumbando de uma das hospedeiras, que se destacava pelos seus quase dois metros, a excessiva timidez e o modo como corava.
Os outros aperreavam-na, criticavam-lhe a falta de líbido, instavam que confessasse a sua virgindade. Ela sorria e corava. Mas de súbito, com a leviandade comum aos grandes tímidos, certa de que fora os colegas ninguém a compreenderia, e no ascensor do hotel português só se encontrava um estranho com cara de português, ousou mostrar-se atrevida:
- Virgem ou não é cá comigo, mas se este velhote careca quisesse, não me importava de ir para a cama com ele.
No meu melhor neerlandês, sem me descompor, respondi-lhe que me custava a crer que falasse a sério, mas enfim...
Foi um pandemónio. Poucas vezes terei testemunhado semelhante explodir de riso, ou vi alguém em tão profundo embaraço baixar os olhos e enrubescer assim.
O ascensor parou, mas eles não queriam que eu saísse, insistiam que os acompanhasse, coincidências daquelas mereciam festejo. Além disso gostavam que lhes contasse onde aprendera a língua.
Desculpei-me dizendo que a história era longa e a hora tardia. Depois, no quarto, ainda sobre a impressão de que, em certos lugares e certos dias, como que pairam no ar eflúvios estranhos, sentei-me a escrever este relato.
Quando numa tarde quente de Agosto entrei no Sheraton, em Lisboa, surpreendeu-me a frescura do ar condicionado e a agitação do ambiente. No hall havia um grande número de mulheres, e os homens presentes pareciam executar em torno delas um bailado sem ritmo nem fito certo.
O recepcionista ia entregar-me a ficha do quarto quando uma senhora de idade o interrompeu:
- Ó senhor Abílio, isto é congresso?
- Não, Dona Maria, são tudo hóspedes. O hotel está um bocadinho cheio.
- Hóspedes uma gaita! - replicou a senhora com inesperada vivacidade. E voltando-se para mim:
- Isto está a ficar como Bangkok. Conhece Bangkok?
- Não conheço, mas faço ideia.
No ascensor - por simples acaso íamos ambos para o mesmo andar - ela achou uma pouca-vergonha que um hotel de luxo se abandalhasse assim. Porque se eu não sabia ficava a saber, aquilo eram tudo mulheres da vida.
Fiz-me surpreso e retorqui que não. Uma ou outra, talvez, mas a maioria via-se-lhes pela cara que eram senhoras de respeito.
Ela riu: - Pobre de si se ainda vai pelas caras! Senhoras de respeito uma fava. As que parecem sérias são as do part-time.
Achei exagero, mas não a contradisse. Mais tarde, quando voltei a descer, notei que de facto no hall havia um ambiente de extrema tensão erótica, menos devido aos ademanes das três ou quatro prostitutas de serviço, do que à indefinível electricidade que parecia faiscar entre os presentes.
Nenhum gesto era inocente, nos olhares havia espectativa, liam-se nos rostos desejos insanos, sentia-se que a virtude e a fidelidade, mesmo a decência, estavam ali por um fio.
- É do calor - disse-me o porteiro, habituado a ler pensamentos.
Quando ao fim da noite regressei ao hotel, cansado e de mau humor, o hall estava em penumbra, quase deserto. A única algazarra era a de uma tripulação sul-africana, à espera do ascensor para o bar no último piso. Subimos juntos. Entre si trocavam gracejos sem malícia, dum picante infantil, a exuberância que vem depois de muitas horas de voo e tensão. Por minha parte achei curioso que não me custasse a compreender o afrikaans que falavam, zumbando de uma das hospedeiras, que se destacava pelos seus quase dois metros, a excessiva timidez e o modo como corava.
Os outros aperreavam-na, criticavam-lhe a falta de líbido, instavam que confessasse a sua virgindade. Ela sorria e corava. Mas de súbito, com a leviandade comum aos grandes tímidos, certa de que fora os colegas ninguém a compreenderia, e no ascensor do hotel português só se encontrava um estranho com cara de português, ousou mostrar-se atrevida:
- Virgem ou não é cá comigo, mas se este velhote careca quisesse, não me importava de ir para a cama com ele.
No meu melhor neerlandês, sem me descompor, respondi-lhe que me custava a crer que falasse a sério, mas enfim...
Foi um pandemónio. Poucas vezes terei testemunhado semelhante explodir de riso, ou vi alguém em tão profundo embaraço baixar os olhos e enrubescer assim.
O ascensor parou, mas eles não queriam que eu saísse, insistiam que os acompanhasse, coincidências daquelas mereciam festejo. Além disso gostavam que lhes contasse onde aprendera a língua.
Desculpei-me dizendo que a história era longa e a hora tardia. Depois, no quarto, ainda sobre a impressão de que, em certos lugares e certos dias, como que pairam no ar eflúvios estranhos, sentei-me a escrever este relato.
domingo, janeiro 6
Música
João Cabral de Melo Neto (1920-1999) fez em tempos numa entrevista afirmações que, fosse ele conhecido na Holanda, certamente prejudicariam a sua nomeada. Se havia coisa que o fatigasse, era a música. Um concerto com Bach e Debussy, uma festa com samba, uma sessão de jazz, e logo o poeta caía num estado de sonolência e apatia.
Porque, explicou ele, para quem vivia e desejava viver constantemente no mais agudo dos estados de consciência, como era o seu caso, a música não passava de um hipnótico, inimigo da actividade criadora.
Ao ler essas afirmações, e ao dar-me conta duma certa concordância com elas, fui tomado por um sentimento de confusão e alarme.
Um grande poeta como Melo Neto pode dar-se ao luxo de, em Portugal ou no Brasil, expressar opiniões contrariantes. Porém, entre holandeses, com a sua incondicional e quase religiosa devoção pela música e a cultura, um alóctone como eu tem de pensar duas vezes antes de se arriscar a parecer burro ou bárbaro.
A verdade é que concerto nenhum, ária, sinfonia, ou cantata, me causou jamais arroubo igual ao das grandes obras da literatura. O que está longe de significar que o poeta brasileiro, e os que sentem como ele, tenham razão. Além disso, porque todos somos diferentes, talvez seja apenas um caso como o da matemática ou do atletismo: compreende-se e gosta-se, pode-se ou não se pode.
Um matemático defronte duma equação diofantina, um atleta que executa um salto ou corre a milha, por certo se sentirão em êxtase, enquanto que a mim e a outros qualquer dessas actividades deixa insensível.
Mas na música, confesso, há um aspecto que me desagrada: o seu lado público. Se aprecio e aplaudo a passagem dum banda numa rua de aldeia, pessoalmente sofro mal concertos. Não compreendo, e com certeza jamais compreenderei, que centenas de pessoas numa sala sejam capazes de atingir um alto grau de deleite sem que, como a mim, as não incomodem ou distraiam comichões e cãibras, a dureza das cadeiras, o perfume de uns, a tosse dos outros. Para não falar das piruetas dos maestros, e das faces perspirantes e torturadas dos solistas.
Sem partilhar por inteiro a sua fobia devo, pois, conceder que as palavras do poeta me inquietaram. Talvez porque me julgava rebelde nato, e elas me abriram os olhos para a realidade de que existe uma vasta área de campos da cultura a cuja tirania cobardemente me tenho sujeitado.
E é agora que, amparado nessa muleta de uma opinião alheia, me sinto com forças de confessar que detesto o ambiente de devoção religiosa que se respira nos museus. Que não posso com galerias de arte, nem reuniões de escritores ou conferências de letrados. Que a ópera me aflige. Que me dão febre os convites para espectáculos culturais. Que vai longe o tempo em que o cinema me parecia uma arte. Que é prudente calar o que penso da dança.
Alienado de tudo isso, que faz o prazer e é a vida e paixão de tão grandes multidões, que me resta então? Os livros, a escrita, alguns amigos, uma paisagem aqui, uma memória além. Na aparência pouco, na realidade mais que o bastante para ocupar os meus dias.
Mas quando a melancolia me ataca, aí, como quem comete um pecado, fecho-me onde ninguém me veja, ponho auscultadores para que ninguém oiça e, durante horas, deixo-me embalar por Bach e Pergolesi, Sibelius, Brahms...
Fora a do talento, é essa a grande diferença que me separa do poeta brasileiro. Eu daria em louco se, exausto pelos estados de consciência agudos, não tivesse à mão a música: a mais perfeita das drogas, o mais eficaz dos analgésicos.
Porque, explicou ele, para quem vivia e desejava viver constantemente no mais agudo dos estados de consciência, como era o seu caso, a música não passava de um hipnótico, inimigo da actividade criadora.
Ao ler essas afirmações, e ao dar-me conta duma certa concordância com elas, fui tomado por um sentimento de confusão e alarme.
Um grande poeta como Melo Neto pode dar-se ao luxo de, em Portugal ou no Brasil, expressar opiniões contrariantes. Porém, entre holandeses, com a sua incondicional e quase religiosa devoção pela música e a cultura, um alóctone como eu tem de pensar duas vezes antes de se arriscar a parecer burro ou bárbaro.
A verdade é que concerto nenhum, ária, sinfonia, ou cantata, me causou jamais arroubo igual ao das grandes obras da literatura. O que está longe de significar que o poeta brasileiro, e os que sentem como ele, tenham razão. Além disso, porque todos somos diferentes, talvez seja apenas um caso como o da matemática ou do atletismo: compreende-se e gosta-se, pode-se ou não se pode.
Um matemático defronte duma equação diofantina, um atleta que executa um salto ou corre a milha, por certo se sentirão em êxtase, enquanto que a mim e a outros qualquer dessas actividades deixa insensível.
Mas na música, confesso, há um aspecto que me desagrada: o seu lado público. Se aprecio e aplaudo a passagem dum banda numa rua de aldeia, pessoalmente sofro mal concertos. Não compreendo, e com certeza jamais compreenderei, que centenas de pessoas numa sala sejam capazes de atingir um alto grau de deleite sem que, como a mim, as não incomodem ou distraiam comichões e cãibras, a dureza das cadeiras, o perfume de uns, a tosse dos outros. Para não falar das piruetas dos maestros, e das faces perspirantes e torturadas dos solistas.
Sem partilhar por inteiro a sua fobia devo, pois, conceder que as palavras do poeta me inquietaram. Talvez porque me julgava rebelde nato, e elas me abriram os olhos para a realidade de que existe uma vasta área de campos da cultura a cuja tirania cobardemente me tenho sujeitado.
E é agora que, amparado nessa muleta de uma opinião alheia, me sinto com forças de confessar que detesto o ambiente de devoção religiosa que se respira nos museus. Que não posso com galerias de arte, nem reuniões de escritores ou conferências de letrados. Que a ópera me aflige. Que me dão febre os convites para espectáculos culturais. Que vai longe o tempo em que o cinema me parecia uma arte. Que é prudente calar o que penso da dança.
Alienado de tudo isso, que faz o prazer e é a vida e paixão de tão grandes multidões, que me resta então? Os livros, a escrita, alguns amigos, uma paisagem aqui, uma memória além. Na aparência pouco, na realidade mais que o bastante para ocupar os meus dias.
Mas quando a melancolia me ataca, aí, como quem comete um pecado, fecho-me onde ninguém me veja, ponho auscultadores para que ninguém oiça e, durante horas, deixo-me embalar por Bach e Pergolesi, Sibelius, Brahms...
Fora a do talento, é essa a grande diferença que me separa do poeta brasileiro. Eu daria em louco se, exausto pelos estados de consciência agudos, não tivesse à mão a música: a mais perfeita das drogas, o mais eficaz dos analgésicos.
terça-feira, dezembro 25
ABERTO!
Retoma a barca a sua navegação com uma série de textos espalhados por aqui e ali, mas que só em holandês foram publicado em livro, com o título Mazagran. São sessenta e quatro. Sairão ao ritmo de um cada dois dias, não somente para dar tempo aos que lêem devagar, mas também para que o pano renda.
P R E F Á C I O
Desde que o conheço, o tempo duma vida, o meu editor Theo Sontrop costuma afirmar de modo terminante que o público holandês não aprecia prefácios. Segundo ele, o holandês que abre um livro quer sem mais demora entrar logo no assunto do mesmo, e não perder tempo a ler explicações ou elogios.
Devo dizer que compreendo essa atitude. O prefácio é, com frequência, a abstrusa e vaidosa apresentação que o autor faz do seu próprio talento, ou então o rosário de encómios debitados por um padrinho cotado. Acontece também que o prefácio em geral é longo. Tão longo que, quem o lê, necessita de paciência e alguma boa vontade, para ler primeiro em resumo aquilo que depois irá ler in extenso.
Ora o prefácio, pelo menos em minha opinião, não deve ser outra coisa senão um convite. E, como um convite, igualmente breve. Acompanhado dum gesto que pelo simbolismo estabeleça entre o livro e o leitor um primeiro laço de simpatia.
Esse gesto é aqui o título. Mazagran, palavra que outrossim se não encontra no texto, designa uma bebida favorita no Maghreb: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelada nos dias de calor. A pequenos goles. Com aquela disposição benigna do espírito que umas vezes nos leva à rua para cavaquear com os amigos, e outras nos prende em casa a ler um livro.
P R E F Á C I O
Desde que o conheço, o tempo duma vida, o meu editor Theo Sontrop costuma afirmar de modo terminante que o público holandês não aprecia prefácios. Segundo ele, o holandês que abre um livro quer sem mais demora entrar logo no assunto do mesmo, e não perder tempo a ler explicações ou elogios.
Devo dizer que compreendo essa atitude. O prefácio é, com frequência, a abstrusa e vaidosa apresentação que o autor faz do seu próprio talento, ou então o rosário de encómios debitados por um padrinho cotado. Acontece também que o prefácio em geral é longo. Tão longo que, quem o lê, necessita de paciência e alguma boa vontade, para ler primeiro em resumo aquilo que depois irá ler in extenso.
Ora o prefácio, pelo menos em minha opinião, não deve ser outra coisa senão um convite. E, como um convite, igualmente breve. Acompanhado dum gesto que pelo simbolismo estabeleça entre o livro e o leitor um primeiro laço de simpatia.
Esse gesto é aqui o título. Mazagran, palavra que outrossim se não encontra no texto, designa uma bebida favorita no Maghreb: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelada nos dias de calor. A pequenos goles. Com aquela disposição benigna do espírito que umas vezes nos leva à rua para cavaquear com os amigos, e outras nos prende em casa a ler um livro.
segunda-feira, dezembro 24
Surpresa no Sitemeter
domingo, outubro 21
FECHA? NÃO FECHA?
Se fosse loja punha-lhe aquele ambíguo "Volto já". Poderia dizer que entra em hibernação, mas não é bicho. Fechar de vez, também não fecha. Confessar preguiça, aborrecimento, cansaço com o mundo? Tenho disso, mas em pequenas doses.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.
quinta-feira, outubro 4
Doisneau, Stieglitz, Kudelka...
Sempre desejei saber desenhar, mas nunca pude ir além de rabiscos iguais aos que traçam os miúdos no primeiro dia de escola. Daí o ter procurado compensação na fotografia.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.
segunda-feira, outubro 1
Resumo de tragédia
A história é real, trágica, talvez por isso me embaraça o resumi-la numas poucas linhas.
Casou ainda rapaz, deixou a mulher na aldeia e emigrou para a Alemanha. Dezenas de anos viveu lá em solidão. À custa de privações e sacrifícios, trabalhando de dia na fábrica e à noite de porteiro num prédio, conseguiu poupar uma pequena fortuna, garantia de um futuro de vida folgada, paz de espírito e descanso do corpo.
Quando vinha de férias invejavam-no, mas também o admiravam, pois nenhum deles tinha um Mercedes assim, nem conseguira construir casa tão grande e de tanto luxo.
Boa companheira, a mulher trazia tudo num brinco e, por ter instrução, era ela quem tratava com o banco e se encarregava da papelada.
Chegou o dia do regresso definitivo. Partiu da Alemanha com a euforia de ter alcançado o que queria, mas sem saudades, porque não tinha feito lá amigos, nem ninguém sente pena de deixar o degredo.
Na aldeia receberam-no com festa. No dia seguinte, contente como uma criança, perguntou à mulher quanto dinheiro tinham no banco e ela, desvairada, confessou ter perdido tudo no jogo. Nem a casa lhes pertencia, porque estava hipotecada.
Cego de raiva, matou-a. No julgamento ouviu que lhe dera mais de cinquenta golpes com uma tesoura, mas de nada se recorda, porque, como disse em lágrimas ao juiz que o condenou a prisão perpétua, nessa altura também já tinha morrido.
Casou ainda rapaz, deixou a mulher na aldeia e emigrou para a Alemanha. Dezenas de anos viveu lá em solidão. À custa de privações e sacrifícios, trabalhando de dia na fábrica e à noite de porteiro num prédio, conseguiu poupar uma pequena fortuna, garantia de um futuro de vida folgada, paz de espírito e descanso do corpo.
Quando vinha de férias invejavam-no, mas também o admiravam, pois nenhum deles tinha um Mercedes assim, nem conseguira construir casa tão grande e de tanto luxo.
Boa companheira, a mulher trazia tudo num brinco e, por ter instrução, era ela quem tratava com o banco e se encarregava da papelada.
Chegou o dia do regresso definitivo. Partiu da Alemanha com a euforia de ter alcançado o que queria, mas sem saudades, porque não tinha feito lá amigos, nem ninguém sente pena de deixar o degredo.
Na aldeia receberam-no com festa. No dia seguinte, contente como uma criança, perguntou à mulher quanto dinheiro tinham no banco e ela, desvairada, confessou ter perdido tudo no jogo. Nem a casa lhes pertencia, porque estava hipotecada.
Cego de raiva, matou-a. No julgamento ouviu que lhe dera mais de cinquenta golpes com uma tesoura, mas de nada se recorda, porque, como disse em lágrimas ao juiz que o condenou a prisão perpétua, nessa altura também já tinha morrido.
quarta-feira, setembro 26
Paragem forçada
Este blog parou misteriosamente uns quantos dias, mas contra telecoms e providers não adianta a gente queixar-se, porque são eles que seguram na mão o clássico queijo e, quando lhes apetece, o cortam com a igualmente clássica e bem afiada faca.
sexta-feira, setembro 21
Vizinhanças
Devido ao desnível do terreno, a varanda da Aida, no outro lado da rua, encontra-se muito acima do nosso telhado.
Talvez para arejar, as portas mantém-nas ela sempre abertas, e assim ficamos expostos a uma sinfonia de sons diversos: gargalhadas, conversas com as vizinhas que a visitam, discórdias com o Benjamim, o trac-trac da máquina de costura com que coze pijamas para a fábrica...
Ao fim e ao cabo barulhos aceitáveis, domésticos, que quase naturalmente se fundem com os nossos e os restantes.
Mas às cinco em ponto a Aida liga o rádio, aumenta o volume do som e, com o entusiasmo da fé profunda, junta a sua voz à dos padres que na Rádio Renascença celebram as vésperas, entoam cânticos à Virgem e ao Cristo Rei, dizem depois a missa, seguida de pregações.
O bombardeamento obriga-nos a fechar portas e janelas, mas o sossego que isso traz é relativo. Às sete, terminam os responsos, mas já a Aida liga a televisão para acompanhar a telenovela. Às oito tem o telejornal. Às nove outra telenovela.
Se fizéssemos reparo ela não compreenderia. Então não rezamos? Não gostamos da telenovela de que todos gostam? Não seguimos as notícias?
É infernal. É de pesadelo. Devido ao calor dormimos com as janelas abertas e a meio da noite acordamos em sobressalto, a rua estreita cheia de cães. Tantos e tão agitados que não consigo contá-los, as correrias, os uivos, os latidos e grunhidos a multiplicar-se em ecos de entontecer.
Atiro-lhes pedras (tenho um saco de plástico cheio delas no peitoril), mas não se assustam nem se doem, porque cuido de não acertar no alvo. Atiro-lhes bacias de água. Desesperado e ridículo grito-lhes que se calem, que parem com a barulheira.
Escanzelados, as línguas pendentes, no espaço apertado demais para tanto bicho parecem uma onda peluda, que ora vai, ora vem, ou de repente estaca na sua ondulação.
Até que dentre aquela matilha de todos os tamanhos e feitios, alguns pastores e perdigueiros, mas em maioria vira-latas de pouco porte e pata curta, se escapa a diminuta causa do burburinho: a cadela do Guilherme.
Do nariz ao rabo quatro palmos de bicho, mas um cio que faz entontecer os pretendentes, e o ar desdenhoso de quem se vai dali porque não encontra forma para o seu pé.
Talvez para arejar, as portas mantém-nas ela sempre abertas, e assim ficamos expostos a uma sinfonia de sons diversos: gargalhadas, conversas com as vizinhas que a visitam, discórdias com o Benjamim, o trac-trac da máquina de costura com que coze pijamas para a fábrica...
Ao fim e ao cabo barulhos aceitáveis, domésticos, que quase naturalmente se fundem com os nossos e os restantes.
Mas às cinco em ponto a Aida liga o rádio, aumenta o volume do som e, com o entusiasmo da fé profunda, junta a sua voz à dos padres que na Rádio Renascença celebram as vésperas, entoam cânticos à Virgem e ao Cristo Rei, dizem depois a missa, seguida de pregações.
O bombardeamento obriga-nos a fechar portas e janelas, mas o sossego que isso traz é relativo. Às sete, terminam os responsos, mas já a Aida liga a televisão para acompanhar a telenovela. Às oito tem o telejornal. Às nove outra telenovela.
Se fizéssemos reparo ela não compreenderia. Então não rezamos? Não gostamos da telenovela de que todos gostam? Não seguimos as notícias?
É infernal. É de pesadelo. Devido ao calor dormimos com as janelas abertas e a meio da noite acordamos em sobressalto, a rua estreita cheia de cães. Tantos e tão agitados que não consigo contá-los, as correrias, os uivos, os latidos e grunhidos a multiplicar-se em ecos de entontecer.
Atiro-lhes pedras (tenho um saco de plástico cheio delas no peitoril), mas não se assustam nem se doem, porque cuido de não acertar no alvo. Atiro-lhes bacias de água. Desesperado e ridículo grito-lhes que se calem, que parem com a barulheira.
Escanzelados, as línguas pendentes, no espaço apertado demais para tanto bicho parecem uma onda peluda, que ora vai, ora vem, ou de repente estaca na sua ondulação.
Até que dentre aquela matilha de todos os tamanhos e feitios, alguns pastores e perdigueiros, mas em maioria vira-latas de pouco porte e pata curta, se escapa a diminuta causa do burburinho: a cadela do Guilherme.
Do nariz ao rabo quatro palmos de bicho, mas um cio que faz entontecer os pretendentes, e o ar desdenhoso de quem se vai dali porque não encontra forma para o seu pé.
sábado, setembro 15
Pausa
Amsterdam - Estevais de Mogadouro. Daqui a umas horas. Dois dias e meio de estrada. Dois mil e duzentos quilómetros quatro vezes por ano.
Há muito que deixei de me perguntar as razões porque o faço, temeroso de que não sejam válidas, nem suficientes para justificar a canseira. Vêm menos da cabeça do que do coração, o que pouco importa, pois ambos me têm sido de fraco conselho.
A prosa entra em descanso coisa de uma semana.
Há muito que deixei de me perguntar as razões porque o faço, temeroso de que não sejam válidas, nem suficientes para justificar a canseira. Vêm menos da cabeça do que do coração, o que pouco importa, pois ambos me têm sido de fraco conselho.
A prosa entra em descanso coisa de uma semana.
quinta-feira, setembro 13
Aniónios, iónios e pré-bióticos
Volto do supermercado. Não sei bem se irritado, incomodado, ou com vontade de mandar…
A embalagem das esponjas informa-me que estas, à superfície, contêm matéria com menos de 5% de aniónios activos e menos de 5% de iónios inactivos BHT.
A embalagem do sumo de laranja, essa vem agora com pré-bióticos VIVINAL ® GOS.
Que deduzir disto? Que ladram mas não mordem? Ou mordem? Que matam aos poucos? Causam alergias? Eczemas? Comichão?
Será que em Bruxelas, donde vêm as directivas, alguém ocupa os dias a inventar tão indispensáveis informações?
A embalagem das esponjas informa-me que estas, à superfície, contêm matéria com menos de 5% de aniónios activos e menos de 5% de iónios inactivos BHT.
A embalagem do sumo de laranja, essa vem agora com pré-bióticos VIVINAL ® GOS.
Que deduzir disto? Que ladram mas não mordem? Ou mordem? Que matam aos poucos? Causam alergias? Eczemas? Comichão?
Será que em Bruxelas, donde vêm as directivas, alguém ocupa os dias a inventar tão indispensáveis informações?
terça-feira, setembro 11
O (meu) problema da oração
Desde pequeno ensinaram-me a crer em Deus, Jesus Cristo, na Virgem e nos santos. Falaram-me de mistérios, de milagres, da Santíssima Trindade, do Sagrado Coração, de Lourdes e de Fátima. Ao mesmo tempo ensinaram-me a rezar, o que durante anos fiz com o automatismo da inocência.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.
domingo, setembro 9
Tudo bem? Prazer em vê-lo!
Tempo passado, em conversa com um amigo, por coincidência alto funcionário de um ministério, estranhava eu que o Governo nada fizesse para sustar o êxodo das aldeias, do que infalivelmente resulta a desertificação das províncias e o aumento dos bairros de miséria em torno das cidades.
Homem pragmático, sossegou-me ele com uma pancadinha nas costas. Preso a um idealismo obsoleto, explicou, eu tinha parado no tempo, continuava a não querer enfrentar a realidade e, teimosamente, decidira manter-me cego.
Pois só um cego, disse, não se daria conta de que à romântica solidariedade dos anos 70 e da Revolução, tinham sucedido as duras leis da economia do mercado, onde não há lugar para tibiezas. Aliás, bem vistas as coisas, o êxodo dos aldeãos para as cidades, por certo lastimável, também tinha lados positivos. E gargalhando da boa piada, acrescentou:
- É que não há falta de operários e arranjam-se mulheres a dias muito em conta.
Não me lembro do que lhe respondi, mas a minha resposta não deve ter sido a que o seu comentário pedia. Que o fosse, ele não lhe teria dado ouvidos.
E é essa a verdade: ansiosa por parecer moderna, europeia, a nossa sociedade continua desesperadamente arcaica e bizantina. Nela os brandos costumes escondem o desespero de viver, as infindas cortesias mascaram as raivas subjacentes, a hipocrisia leva a melhor sobre a franqueza.
Homem pragmático, sossegou-me ele com uma pancadinha nas costas. Preso a um idealismo obsoleto, explicou, eu tinha parado no tempo, continuava a não querer enfrentar a realidade e, teimosamente, decidira manter-me cego.
Pois só um cego, disse, não se daria conta de que à romântica solidariedade dos anos 70 e da Revolução, tinham sucedido as duras leis da economia do mercado, onde não há lugar para tibiezas. Aliás, bem vistas as coisas, o êxodo dos aldeãos para as cidades, por certo lastimável, também tinha lados positivos. E gargalhando da boa piada, acrescentou:
- É que não há falta de operários e arranjam-se mulheres a dias muito em conta.
Não me lembro do que lhe respondi, mas a minha resposta não deve ter sido a que o seu comentário pedia. Que o fosse, ele não lhe teria dado ouvidos.
E é essa a verdade: ansiosa por parecer moderna, europeia, a nossa sociedade continua desesperadamente arcaica e bizantina. Nela os brandos costumes escondem o desespero de viver, as infindas cortesias mascaram as raivas subjacentes, a hipocrisia leva a melhor sobre a franqueza.
quarta-feira, setembro 5
Pranto
Sabia-o por vê-lo e incomodava-me sobremodo, as pessoas de idade que por um sofrimento pequenino, a ocasião de uma visita ou despedida, deixavam que os olhos se lhes marejassem.
Além de uma inconveniência, parecia-me ridículo, absurdo e, corando de vergonha recordava de, muitos anos atrás, ter chorado num cinema ao ver Limelight, de Chaplin.
Outras lágrimas, raras, já deixara cair, mas essas não tinham sido de pena ou dor, sim de raiva impotente. Chorão, eu? Jamais!
Era o que pensava, com aquela certeza sobranceira que a ignorância dá. Até que, sorrateiramente, a sentimentalidade se apoderou de mim, ou o passar do tempo enfraqueceu as comportas dos lacrimais.
Uma recordação, uma música, uma criança, um animal que sofre, dores da guerra, dores da fome e da miséria, tragédias, desastres da natureza, tudo isso me humedece os olhos.
Tento couraçar-me. Digo-me que a CNN manipula as imagens, que um filme ou o romance são ficção, que os repórters são parciais, mas pouco adianta. Hoje vêm-me as lágrimas por tudo e nada, até por saber que, para os mais novos, sou eu agora o ancião que os irrita com o seu inesperado pranto.
Além de uma inconveniência, parecia-me ridículo, absurdo e, corando de vergonha recordava de, muitos anos atrás, ter chorado num cinema ao ver Limelight, de Chaplin.
Outras lágrimas, raras, já deixara cair, mas essas não tinham sido de pena ou dor, sim de raiva impotente. Chorão, eu? Jamais!
Era o que pensava, com aquela certeza sobranceira que a ignorância dá. Até que, sorrateiramente, a sentimentalidade se apoderou de mim, ou o passar do tempo enfraqueceu as comportas dos lacrimais.
Uma recordação, uma música, uma criança, um animal que sofre, dores da guerra, dores da fome e da miséria, tragédias, desastres da natureza, tudo isso me humedece os olhos.
Tento couraçar-me. Digo-me que a CNN manipula as imagens, que um filme ou o romance são ficção, que os repórters são parciais, mas pouco adianta. Hoje vêm-me as lágrimas por tudo e nada, até por saber que, para os mais novos, sou eu agora o ancião que os irrita com o seu inesperado pranto.
terça-feira, setembro 4
Miudezas (4)
Num passado não muito distante só em circunstâncias excepcionais se via um filme baseado na história de pessoa ainda viva. Com a biografia acontecia o mesmo, e de poucos personagens se terá então espiolhado a vida antes de se saberem mortos e enterrados.
Actualmente vai-se a passo acelerado. Porque se tornou desmesurada a curiosidade pública, ou porque o comércio não tem tempo nem paciência, só ganância, há estrelinhas de vinte anos a autobiografar-se, detalhando os altos e baixos do seu passado.
Vende? Não há argumentos contra, só a favor.
Isto são provavelmente medos atávicos, ou ataques de pessimismo doentio. Aquela parte de mim que quer correr riscos, agir, participar, é sempre travada pela outra, a guardiã da memória dos desaires e das aflições impressas nos genes que recebi dos antepassados.
Assim me tornei exemplar no querer, mas sempre com receio de realizar, mais fértil em sonhos do que em iniciativas, a admirar os que são diferentes e uma vez por outra a dizer-me que se fosse mais novo...
Mas sei que me iludo, que me dou desculpas de mau pagador.
Em boa parte devido à carga genética, depois com o ambiente da criação, a escola e sabe Deus que mais, a partir de certa altura o carácter está formado e, a menos de milagre ou acontecimento de sérias consequências, não há forma de o mudar.
À força de paciência, alguma introspecção e trambolhões frequentes, ainda se pode ter a ideia de que nos conhecemos um pouco, mas na verdade as frestas desse suposto saber são bem mais estreitas do que os buracos negros da ignorância que temos de nós próprios.
Assim sendo, não adianta quebrar a cabeça a tentar a impossível mudança do que somos, mais vale divertirmo-nos a fingir o gostaríamos de ser.
Actualmente vai-se a passo acelerado. Porque se tornou desmesurada a curiosidade pública, ou porque o comércio não tem tempo nem paciência, só ganância, há estrelinhas de vinte anos a autobiografar-se, detalhando os altos e baixos do seu passado.
Vende? Não há argumentos contra, só a favor.
Isto são provavelmente medos atávicos, ou ataques de pessimismo doentio. Aquela parte de mim que quer correr riscos, agir, participar, é sempre travada pela outra, a guardiã da memória dos desaires e das aflições impressas nos genes que recebi dos antepassados.
Assim me tornei exemplar no querer, mas sempre com receio de realizar, mais fértil em sonhos do que em iniciativas, a admirar os que são diferentes e uma vez por outra a dizer-me que se fosse mais novo...
Mas sei que me iludo, que me dou desculpas de mau pagador.
Em boa parte devido à carga genética, depois com o ambiente da criação, a escola e sabe Deus que mais, a partir de certa altura o carácter está formado e, a menos de milagre ou acontecimento de sérias consequências, não há forma de o mudar.
À força de paciência, alguma introspecção e trambolhões frequentes, ainda se pode ter a ideia de que nos conhecemos um pouco, mas na verdade as frestas desse suposto saber são bem mais estreitas do que os buracos negros da ignorância que temos de nós próprios.
Assim sendo, não adianta quebrar a cabeça a tentar a impossível mudança do que somos, mais vale divertirmo-nos a fingir o gostaríamos de ser.
sexta-feira, agosto 31
Despedida
Vou abrir a porta da casa. Hesito, transtornado, a respiração a falhar, cortada pela certeza de que será a última vez.
A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentávamos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, a lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas com o fumeiro.
Restarão algumas histórias soltas, a do avô que a construiu, a dos que na sua singeleza a julgavam um palácio, dos que aqui viveram e sofreram, dos terríveis anos em que minha mãe se enterrou viva na sua solidão.
Guardarei também a lembrança dalgumas alegrias. Poucas e singelas, mas genuínas, os momentos de desafogo, quando as ameaças do mundo e do viver pareciam suspensas.
As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperado do mundo e de mim próprio.
A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta, mas falta-me o ânimo. Forço-me a entrar. Espreito, sinto-me criança, amedronta-me o eco dos próprios passos. Além do recheio, a casa parece ter-se esvaziado de algo mais, da vida que lhe pertencia e da minha própria, tornando-se sinistra, com um relento de corpo moribundo.
Avanço a passos cautelosos, olho em redor, mas de facto tento esquecer o que vejo. Vou duma janela para a outra, e sem me dar conta saio às arrecuas, talvez a maneira inconsciente e simbólica de eliminar a recordação de que estive ali, de que fui testemunha do irremediável vazio que eu próprio causei.
A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentávamos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, a lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas com o fumeiro.
Restarão algumas histórias soltas, a do avô que a construiu, a dos que na sua singeleza a julgavam um palácio, dos que aqui viveram e sofreram, dos terríveis anos em que minha mãe se enterrou viva na sua solidão.
Guardarei também a lembrança dalgumas alegrias. Poucas e singelas, mas genuínas, os momentos de desafogo, quando as ameaças do mundo e do viver pareciam suspensas.
As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperado do mundo e de mim próprio.
A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta, mas falta-me o ânimo. Forço-me a entrar. Espreito, sinto-me criança, amedronta-me o eco dos próprios passos. Além do recheio, a casa parece ter-se esvaziado de algo mais, da vida que lhe pertencia e da minha própria, tornando-se sinistra, com um relento de corpo moribundo.
Avanço a passos cautelosos, olho em redor, mas de facto tento esquecer o que vejo. Vou duma janela para a outra, e sem me dar conta saio às arrecuas, talvez a maneira inconsciente e simbólica de eliminar a recordação de que estive ali, de que fui testemunha do irremediável vazio que eu próprio causei.
quinta-feira, agosto 30
Vaidade
Para alguém como ele o espelho de nada adianta, porque o ego só lhe deixa ver a imagem que criou de si próprio.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebrilham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanalmente a cabeleira. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexicano. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquilha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausadamente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorriso, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebrilham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanalmente a cabeleira. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexicano. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquilha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausadamente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorriso, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.
domingo, agosto 26
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