terça-feira, fevereiro 19

Remexendo nas gavetas (23)


Louis-Ferdinand Destouches
Louis-Ferdinand Céline
Céline
(1894-1961)
Aqui em uniforme de gala de quartel-mestre de Cavalaria (1915)

segunda-feira, fevereiro 18

Remexendo nas gavetas (22)


Comprei-o em 1946, em segunda mão, no dia dos meus anos. Gostei. Achei estranho que não tivesse autor, só tradutor, mas Sir Henry Rider Haggard deve ter sorrido e desculpado a Livraria Lello.

sábado, fevereiro 16

Ramón María del Valle-Inclán


Eduardo Malta pintou Salazar em 1933 (v. Museu do Caramulo).
Uma tarde do Verão de 1934, num café em Madrid, Joaquim Novais Teixeira (1898-1972), meu amigo e mentor, viu o retrato num jornal e mostrou-o a Valle-Inclán (1866-1936) seu companheiro de tertúlia.
O escritor galego olhou, sorriu, e foi lacónico no comentário: "El Mono Liso".

quinta-feira, fevereiro 14

Vila Nova de Cerveira - o benemérito, o hospital, a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, Sopo e o ex-abade


Do Verão de 1946 até fins de 1950 V. N. de Cerveira foi para mim lugar de amores e alegrias, inesquecíveis tardes de remo, festas, saltos clandestinos para Goián e Tabagón. Nesta última havia uma Carmina, por quem corri o risco de me tornar galego.
Depois abalei, Cerveira cresceu, tudo nela são agora artes bienais e modernidades, dos companheiros de então provavelmente não resta um.
No hospital estive uma única vez, de visita a um enfermo. Achei-o excepcional. Não conhecia a história da sua fundação, que encontrei ontem no folheto das festas de 1957.
Ponho-a aqui porque é bonita, e fala de um tempo em que a generosidade ainda era romântica. Bem haja o senhor Lebrão, a família dos (bem donados) Maldonado e o padre Parente, que nesse tempo já era ex-abade do lugar.
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quarta-feira, fevereiro 13

domingo, fevereiro 10



Ínsua e Santa Tecla, 1988

Molêdo, Ínsua e Santa Tecla, 1988

A Ínsua, na foz do Minho

Nessa altura o senhor Viriato andaria pelos cinquenta, mas comparado com meu pai fazia figura de ancião.
Estatura mediana, encorpado, mãos desmesuradas, vestido de remendos, nas tardes de domingo senta­va-se connosco no areal e aceitava um copo de vinho, ou ele próprio ia buscar o gar­rafão que trazia sempre na masseira, para oferecer uma pinga a quem lhe mereces­se simpati­a.
Mais amigo de ouvir que de falar, entretinha-se na vistoria dos apetrechos da pesca e, de quando em quando, levan­tava uns olhinhos de réptil, a mos­trar que seguia a con­versa.
De repen­te resmungava frases des­conexas e, sem expli­cação nem despe­dida, levantava-se, aman­hava a rede, pegava nos remos e metia-se no barco de volta à Ínsua.
Eu, que só os ouvia inte­ressado quando falavam de tiro­teios e perse­guiçõe­s, subia ao alto da duna a acompanhar o progresso lento do barco. Via-o passar da calma do rio para a ligeira ondu­lação da foz, acavalar-se depois nas ondas, até que chegava à língua de areia da ilha, onde o mar que­brava.
Seguia-lhe a manobra, via o senhor Viriato curvado no esforço de puxar o barco para seco, retirar a rede, estendê-la entre os remos, encami­nhar-se lentamente para o forte, e desaparecer na mural­ha. Como um pirata, imagi­na­va eu.
Em rapaz tinha andado embarcado. Conhecera o Brasil, a Améri­ca, a costa de África, os ciclones, os trabalhos do Cabo Horn. Um dia em que eu o fora ajudar na apanha dos mexilhões nos penedos, pusera-se a contar as suas aventu­ras, como que tomado por um irresistível desejo de confissão. Entre­me­ando longos silê­nci­os que me faziam sentir culpado, porque talvez lhe não prestasse atenção bastante, ou a minha pouca idade me não permitisse avaliar tanta confidência. De súbito, num dos seus repentes, tinha-se virado para o mar e, esten­den­do o braço, assegurou-me que quem fosse capaz de seguir por ali fora, como por uma corda esticada, chegava a Boston.

Eu próprio chegaria a Boston anos mais tarde, por vias bem travessas. Em Nantas­ket Beach, num momento de eufo­ria, iria surpreender-me a recordar a corda mítica com que o senhor Viriato unira a América ao forte da Ínsua.
Sentado na areia fitando o orien­te, voei como num sonho para as paisa­gens e os rostos da minha adolescência. A reviver as alegri­as, os entu­sias­mos, os amores, como se tudo fosse intemporal e infindo, meu para sempre.
Só depois me viria a dar conta que, nessa altura, eu desconhe­cia o verdadei­ro peso da nos­talgia. Quando evoca­va recor­dações, não precisava como agora de ir buscá-las a um passado longín­quo, cheio de perdas irreme­diávei­s, porque todas elas se achavam confort­avel­mente próxi­mas.
Então, o avivá-las, ainda não era dor, apenas distração do pensa­men­to.

sábado, fevereiro 9

quarta-feira, fevereiro 6

Homenagem a Ton Smits (1921-1981) - 1


Boris, o urso e a "jangada"

As palavras nem sempre bastam para retratar um personagem. No caso de Boris seria preciso juntar-lhes o olfacto e aquele po­der de raios-X com que, por vezes, descobrimos em al­guém uma es­sência que, outrossim, se mostra refractária a ser descrita ou definida.
Filho duma russa e dum comunista basco, que por voltas de 1937 se tinha exilado na União Soviética, Boris na­sceu em Leni­negra­do. São Petersburgo, bem sei, mas ele pró­prio conti­nua a cha­mar-lhe assim.
No tempo em que travá­mos conhe­cimen­to, ha­via anos que desertara do navio onde andava em­barcado, e pos­suía em Rot­terdam um café, um próspero negócio de máquinas de di­versão, e uma rede de relações tão vasta que, no seu dizer, lhe permitia tratar de tudo e com todos, do mais baixo ao mais dis­tinto. Fora isso tinha ganho nome como boxe­ur, era agradá­vel no tra­to e diziam-no correcto em questões de contas.
A razão do per­sisten­te cheiro a fera que o rodeava, só mais tarde e por aca­so, a viria eu a des­cobrir. Mas a essência do seu carácter - indes­critív­el, inde­finível - essa revelava-se sobre­tudo no primei­ro en­contro, ao ver-se surgir aquela cabeça de gigante e tronco con­forme, apoiados so­bre pernas curtas e cambadas. Olhos de aze­viche, irrequietos. Bigode mexicano, de pontas pen­dentes, que lhe da­va um ar de falsa bonomia. Um sorri­so de que não era fácil dis­cernir a qualidade, pois tanto pode­ria ser troça, como es­tupidez ou ameaça. Em geral era ameaça.
Cada vez que me acontecia ir a Rotterdam, criei o hábito de o visitar, fascinado pela extraordinária amálgama de negó­cios que o ocupavam, entre os quais as máquinas de di­versão pareci­am ser uma parte diminuta que ocupava dois apren­dizes numa garagem. O resto era como nos romances: duma casin­hola de madeira no terreno das traseiras da ca­sa, Boris traficava, manipulava, arranjava, alugava, vendia, ria às gar­galhadas dos 'anjinhos' que havia no mundo - en­tre os quais também de bom gosto se incluía - telefona­va, grita­va com a mulher, e bebia litros de chá. Sem anúncio nem cor­te­sias de des­pe­dida, também era capaz de num repente saltar para a car­rin­ha e desaparecer por dias ou semanas.
O seu fraco eram os animais. Mas nada de cães, ga­tos ou bicharada miúda. Só o contentavam os grandes e por isso, no ane­xo que ligava a casa à garagem, tinha construído um verdadeiro jardim zoológico clandestino com jaulas em que eu, com suspresa e alguma preocupação, um dia descobri um leã­o de meio ano, uma hiena, uma onça, jibóias, macacos vários.
À sol­ta, preso a uma cor­rente que qual­quer criança quebraria, deam­bulava o seu favo­rito, um urso cas­tanho que, da primeira vez que o descobri aga­chado a um can­to, quase me matou de susto, porque a min­ha mio­pia o con­fun­dira com um inofensivo monte de trap­os.
Falando-lhe russo, abraçado a ele a ensai­ar passos de dança cada vez que entrava no anexo, Boris espalhava um for­te odor a urso, que só com o tempo e muita simpatia era possí­vel acei­tar.

Fora os animais tinha ainda outra paixão: o equipamento militar. As armas com certeza as guardava em segredo nalgum armazém, porque nunca lhas vi, mas os recantos e dependênci­as da casa eram um verdadeiro empório de tendas, de can­tis, mo­chilas, botas e barretes, uniformes, cinturões, emissores de rádio, tele­fones de campanha, pás e picaretas, ante­nas, holofo­tes...
Dando gargalhadas, Boris gostava de repetir a estória de como a sua mania de acumular coisas mili­tares quase tinha resultado em desastre para a família.
Na sala, único lugar onde o tropeço cabia, e à espera de mais tarde lhe dar destino, tinha ele arru­mado a enorme embala­gem de um salva-vidas de borracha, relíquia proveniente de um destroyer britânico da Segunda Guerra Mundial, e o qual, segundo as in­scrições late­rais, po­dia acomodar doze pesso­as. Outra inscri­ção, sob a pala­vra CAUTION! pintada a vermelho, in­dicava que, puxando a corda, a embar­cação se inflaria dentro de trinta se­gundos.
Com o correr dos anos a “jangada”, como ele lhe chamava, passara a fazer parte da mobília e, quando alguém curioso como eu perguntava o que era aquilo, Boris parecia ter dificuldade em recordar a utilidade do trambolho. Até ao dia em que uma festa de aniversário lhe tinha enchido a sala com familiares.
A certa altura, esvaziadas muitas garrafas de vodka, alguém ti­vera a má ideia de afirmar que, puxando a corda, não acon­teceria nada. Depois de tantos anos o gás há muito que tinha es­capado. Ai não? Queriam apostar? Era só trinta e um de boca?
Uns con­tra, outros a favor, o dinhei­ro começou am­on­toar-se so­bre a mesa. Quando mais ninguém quis apostar, Boris levan­tou-se, deu um esticão à corda. E aco­nteceu!
O barco co­meçou a in­char com extraordinária força, quebrando a mobília, as vidra­ças, a loi­ça, semeando pânico, sufocando as pessoas que, aos gritos, se arrastavam pelo soalho à procura da porta. Até que Boris, en­cont­rando uma navalha, a espetou várias vezes no re­ves­timento de borracha, com a fúria de quem se defende dum mons­tro vivo.
Ao contar a cena não parava de rir, lembrando o em­baraço do cunhado que, por ter borrado as calças, recusava le­van­tar-se do chão.

terça-feira, fevereiro 5

domingo, fevereiro 3

Remexendo nas gavetas (18)


Moga-
douro (Maio, 1974)

sábado, fevereiro 2

Remexendo nas gavetas (17)



Em Alvites (Macedo de Cavaleiros)

Remexendo nas gavetas (16)


Em Estevais de Mogadouro.
Há cinquenta e oito anos na mesma porta.

O mar

Escondido no fundo do meu ser de montanhês há-de haver uma costela marinheira, herdada de algum remoto avô navegante que não deixou história, pois tanto quanto sei, nos dois últimos séculos a minha gente foi de vinhas, de rebanhos, searas e olivais.
Poucos deles terão visto o mar. Os que conheci iam na festa de Santo Antão em Agosto pescar ao Sabor, rio que só no Inverno merece esse nome, mas que os banzava por lhes parecer caudaloso, e do qual garan­tiam que a corrente tinha mais força que dez juntas de bois.
Compreende-se. Não conheciam força maior e, em todo o imenso ermo de montes e de vales em que mourejavam, havia apenas duas nascentes donde corriam, correm ainda, uns riachos de nada. Fios de água tão estreitos que de menino, sem tomar lanço, eu os atravessava dum salto.
Na sua imensidão o mar sempre me assustou, como os barcos sempre me enfeitiça­ram. Comecei por fazê-los de papel. Mal pude segurar um canivete fi-los de cortiça, de casca de pinho, perfeitos, com mastros e velas, leme, tripulação. Construí-os depois de madeira, com quilha, cavername, porões, convés, paus-de-carga, um com caldeira de vapor e chaminé a fumegar. Infe­lizmente, porque me faltava ciência, esses ader­navam em vez de navegar, e por fim cansei-me da minha inépcia. Mas o fascínio permaneceu. Forte. A ponto de por duas ou três vezes me ter posto a vida em perigo.

sexta-feira, fevereiro 1

Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)

Tira-se da estante um livro esquecido. Sorri a gente, recordando a emoção com que descobriu a sua poesia nos anos da juventude. E um pensamento que se anotou: “Meu Deus!... Porque não fizeste os homens irracionais?...” Aprender que flor também se pode escrever “frô”, senhora passa a sinhá, e acaba em “sá”.




“Sá Dona, os cabelos dela
tão preto prô chão caía
que toda frô que butava
nus cabelo, a frô murchava
pensando que anoitecia”.

(Meu Sertão - Catulo da Paixão Cearense, Rio de Janeiro, 1918)