quinta-feira, janeiro 31

quarta-feira, janeiro 30

Remexendo nas gavetas (14)




A gente apanha cada uma!

terça-feira, janeiro 29

Remexendo nas gavetas (13)



Liceu Alexandre Herculano - Porto (1939-1945)

Entre os dez e os dezasseis anos, crescemos juntos na turma C. Em 1946 fui para Viana do Castelo e, eles, com pena do meu degredo, tiraram o retrato para mo mandar.

A quinta, as camélias, a menina e o Mobutu

Filho de gente humilde, António Rodrigues Alves Faria nasceu ali perto, em Matinho de Forjões, cerca de 1860.
Aos catorze anos foi de marçano no Porto e quase logo em seguida, sem papéis nem dinheiro, abalou para o Brasil escon­dido num navio de carga.
Lá trabalhou, sofreu, poupou, comer­ciou. No começo do século XX, com o título de visconde e riqueza de mili­onário, tornou ao lugarejo donde tinha saído de pé descalço.
Comprou terras sem conta. Construiu uma escola. Comprou a Quinta de Curvos que estava ao abandono e levantou-lhe os muros arruinados, substituiu os velhos portões de madeira por outros de ferro, encimou-os quase todos, como ainda se pode ver, com as suas iniciais e a data: ARAF-1910.
Mandou fazer também uma luxuosa mansão e cercou-a de jardins, de pomares, de lagos grandes, lagos pequenos, mirantes, grutas artificiais de cimento armado a imitar cortiça, como era moda nesse tempo.
Foi infeliz nos amores. Faleceu sem completar os sessenta e uns primos afastados, seus únicos herdeiros, gente boçal, indiferente, esbanjaram a herança, venderam a quinta a um homem de Lisboa, que a revenderia a outro.
Depois, de mão em mão, de desleixo em descuido, a cerca foi derruindo, as silvas foram avançando, a madeira da casa apodreceu, as traves cede­ram, caiu parte do telhado, caíram as chaminés.
No começo dos anos sessenta, ansioso por se ver livre dum trambolho que não dava lucro que chegasse para pagar as contribuições, o prop­rietário pô-la à venda por uma migalha.
Um inglês pagou essa migalha e, tal como o brasileiro tinha feito antes dele, deu à quinta o esplendor antigo. Restaurou-se a casa, limparam-se os campos. Alargaram-se grandemente os jardins porque mister Regal, homem solitário, da infinidade de paixões humanas apenas tinha uma: a cultura das camélias. E de todas as recom­pensas do mundo apenas almejava uma que lhe coube muitas vezes: ganhar nos concursos o primeiro prémio, a Camélia de Ouro.
Na Primavera de 74, desafeito a rumores depois de tantos anos de paz, Leslie Regal assustou-se com a Revolução dos Cravos e as ameaças que a plebe vinha gritar aos portões. O seu único desejo era fugir. Se o vizinho pagasse seis mil contos - bem menos que o valor dos muros - ele entregava-lhe a propried­ade logo ali.
O vizinho achou caro. Também achou complicado que o bife quisesse o pagamento em libras ou dólar­es. Então não era o escudo uma moeda forte? E farejando a oportunidade disse que lhe parecia caro. Oferecia a metade.
O inglês teve uma reacção inesperada. Queixando-se de que se sentia cada vez mais só, cada vez mais mais cansado, se o vizinho aceitasse trocar a filhinha de quatro anos pela prop­riedade...

Ao contar-me essa parte da estória a rapariga tinha sorrido com o embaraço de quem quase estivera para ser moeda de troca. Felizmente que o pai recusara a transacção e o inglês acabara por encontrar um industrial de Braga que, sabendo o que são pechinchas, lhe pagou o pedido a contado e em libras.
- E depois?
Um grupo de curiosos tinha-se juntado à nossa volta e, antes que a rapariga pudesse responder, um homem de idade travou-me o braço:
- Eu trabalhei lá. Eu é que sei.
O novo proprietário acabara com as camélias, tinha manda­do fazer muito plantio de vinha e de pomar, pocilgas enormes, aumentos nas adegas, uma coelheira onde havia três mil coel­hos.
- Três mil?
- Ou mais! Tendo comida à farta os coelhos não se cansam de fazer a coisa.
Houve risos brejeiros, mas o homem continuou sem se descompor. A paga era razoável e tudo tinha corrido bem até fins de 81, começos de 82.
De repente, assim sem mais nem menos, despediram o pessoal antigo, contrataram outra gente, e só quando se começou a ver a pretalhada a andar para lá e para cá em grandes Mercedes, é que se soube que o novo dono era o Mobutu. Desde então andava tudo secreto, tudo muito escondido, os que lá trabalhavam eram de longe e tinham ordens para não falar a ninguém.
Com um gesto dei a entender que compreendia o seu azedume, e o ancião agarrou-me de novo pelo braço, baixando a voz em confidência:
- Ainda outra coisa. O homem de Braga pagou seis mil contos ao inglês para lhe apanhar a quinta, não foi? Mas por quanto a vendeu ele ao Mobutu? Diga lá.
- Não faço ideia. Doze mil? Quinze mil?
- Duzentos e cinquenta mil, meu senhor! Du-zen-tos-e-cin-­quen-ta-mil! E o filho da puta do preto dizem que passou logo o cheque, nem sequer regateou!

segunda-feira, janeiro 28

Remexendo nas gavetas (12)



"Olha o pai!"

Lisboa, Maio 1974

Remexendo nas gavetas (11)


"Olha a mãe!"
Lisboa, Maio 1974

O Rei-da-Terra

Hospedei-me por uma noite num hotel da praça da Batalha, contente de ver em redor quase todos os cinemas e cafés dout­rora, a sua presença a confirmar que nem tudo se estiola, que nem tudo morre.
Desço para o rio, atravesso a ponte, refaço o que foi o caminho para casa. Centenas ou milhares de vezes palmilhado, pouco importa a conta.
Por um instante, com sede, quase me deixo tentar pelos pára-sóis coloridos das esplana­das, mas continuo em frente, como se fosse inconveniência ou traição ir-me sentar entre estranhos no mesmo lugar onde antes brinque­i, onde sonhei. Onde meu pai ia e voltava na sua ronda, vigian­do o rio, assestando o binóculo nos vapores quando um movimento lhe parecia suspeito, ou quando os tripulantes desciam pelo portaló.
Frustrado por ter de apreender o pequeno contrabando da meia dúzia de maços de cigarros presos dentro das calças, ou da garrafa de uísque apertada no sovaco, e ao mesmo tempo assistir impotente ao tráfico do vinho, do volfrâ­mio, das mercadorias, que os seus chefes e alguns colegas acobertavam.
Vira-os ganhar fortunas com o contrabando no começo da guerra, construir casas apalaça­das, subir de posto, receber medalhas por bons serviços, enquanto ele - que por natureza e educação tinha a lei por dogma - se gastava a pedir inquéritos urgentes, a apresentar queixas, a fazer listas, a escrever relatórios.
Papelada que desaparecia sem efeito nos recônditos da Alfânde­ga, o sombrio e imenso edifício de grani­to que eu espiava interessado das nossas janelas, desde que ouvira dizer que, nos seus armazéns, se guarda­vam ainda tesouros do tempo em que os galeões vinham da Índia e do Brasil.
Meu pai, que até então tinha bebido moderadamente, co­meçou a intoxicar-se. Dizer que se embebedava não seria a expressão justa, porque nunca ninguém o viu bêbedo, mas logo de manhã bebia como possesso, num estado segundo, apressado em atingir aquele momento em que, embotada a sensibilidade, podia consi­derar tudo com absoluta indife­rença.
Se por qualquer razão se mantinha sóbrio tornava-se irascível. Um dia, por uma bagate­la, maltratou de tal jeito um colega a soco e pon­tapé que foi condena­do a ficar detido no quartel o tempo que o outro passas­se no hospital. Três semanas.
Nas horas de visita eu levava-lhe jornais, perguntava-lhe se estava bem, e mais não tinha para dizer, perturbado como me sentia pelas desencontradas emoções da adolescência.
Doía-me o vê-lo sombrio, agastado, a caminhar absorto em volta do quarto, esquecido da minha presença. Mas é verdade que entre nós nunca tinha havido, nem nunca haveria, intimidade.
Não recordo que jamais tenhamos trocado uma palavra de encoraja­mento ou con­forto, e mesmo depois dos anos terem embotado algumas arestas dos nossos caracteres, permanecemos dois pólos, tão intensa­mente opostos que nem sequer a paixão comum dos livros e do cinema conseguíamos partilhar.
Em Junho ou Julho de 45, uma noite, ao fim da ceia - vejo-o de olhos baixos a cortar a casca de uma laranja em gomos regulares,vagarosamente, como era seu hábito, - anunciou que tinha pedido que o transferissem para a fronteira do Minho.
- É melhor ir-me embora daqui, antes que um dia perca a cabeça e mate alguém. É melhor ir-me embora - repetira ele depois de uma pausa, a sublinhar a sua decisão.
Minha mãe e eu ainda nos olhámos, surpreendidos, mas o Rei-da-Terra decidira, era caso acabado. Ele timoneava o Destino e nós, seus meros apêndices, sem opinião própria nem voto na matéria, tínhamos de nos resignar e acompanhá-lo.

domingo, janeiro 27

Remexendo nas gavetas (10)



Lisboa, Junho 1974

Remexendo nas gavetas (9)



A praia de Moledo do Minho em 1946

sexta-feira, janeiro 25

20.000

Minutos atrás o Sitemeter registou alguém de Alcobaça como visitante 20.000 deste blogue. Para dez meses de presença, e numa blogosfera onde tudo se conta em milhões, não deve ser muito. Mas é número redondo, pelo que se anuncia o facto .

Remexendo nas gavetas (8)



Cais de Gaia (1935)

quinta-feira, janeiro 24

Frases (1)

"The first duty in life is to assume a pose. What the second duty is, no one has yet found out." - Oscar Wilde

"In physics the truth is rarely perfectly clear, and that is certainly universally the case in human affairs. Hence, what is not surrounded by uncertainity cannot be the truth." - Richard Feynman

quarta-feira, janeiro 23

Remexendo nas gavetas (7)




Texas Jack;, Yala, a Vingadora;, Sandokan, o Tigre da Malásia... (anos 40 do séc. XX)

terça-feira, janeiro 22

Remexendo nas gavetas (6)



Revista do governo americano distribuída em Portugal em 1942. Mesmo quem não é piloto
apreciará o "flight simulator".

Bichos

É geralmente sabido que, em países como em Portugal, os animais não levam uma vida fácil. Mesmo os que têm dono. O burro apanha pauladas quando se não apressa, ao cão que ladra demais é normal dar pontapés, pobre do gato que se torna incómodo ou preguiça na caça ao rato: rua com ele. E por via de regra, o pombo-correio menos capaz de bater recordes acaba simplesmente na panela. Pelo que não é preciso grande esforço para imaginar o destino dos animais vadios e os que, livres na natureza, vivem ao alcance da fisga e da caçadeira.
Com aplauso dos próprios pais, que gostam de vê-los crescer destemidos e ágeis, para os rapazes é um gosto subir ao perigoso cocuruto das árvores e tirar dos ninhos os filhotes ou quebrar os ovos.
Os caçadores, esses, se lhes faltam perdizes ou coelhos, disparam à toa contra tudo o que diante dos seus olhos voa ou corre. Passo por alto outras crueldades que, embora pertencendo aos costumes, sempre me pareceram próximas das doenças mentais.
Pessoalmente, salvo a hostilidade contra algumas ordens menores (continuo a matar moscas, mosquitos, aranhas, vespas e varejeiras) e uma repugnância congénita pelos ratos, creio que me posso apresentar sem receio diante do Criador.
Ele por certo desculpará a vez que em pequeno fui à caça, com a Flobert que meu pai me dera para de mim fazer um homem e, ao decepar com um tiro a asa dum gaio, deitei a fugir horrorizado. Nunca mais.
Na meninice tive cães e gatos, uma ovelha, um porco de olhos meigos que parecia tudo compreender e a quem, sem resultado, muitos vezes pedi que falasse.
De pássaros em gaiolas nunca gostei, nem de lagartos adormecidos no fundo de terrários, ou peixinhos descrevendo tristemente voltas lentas na pouca água dum vaso, pois só de vê-los já me faltava o ar.
Depois, homem feito, maravilhei-me com os semelhantes e esqueci os bichos. Agora, tal um barco que aos poucos se afasta do cais, ao entrar na velhice vou perdendo o interesse pelos primeiros, e os outros basta-me vê-los nos filmes sobre a natureza.
Assim se vai degradando a minha visão do mundo e, pelo menos no que respeita os animais, sinto por vezes remorso de viver na Holanda há tanto tempo, sem me ter deixado contagiar pelo amor que o holandês sente por eles.
Porque, merecido ou não o que dele se diz nas bocas do mundo, ninguém poderá negar que o holandês é exemplar no seu carinho pela bicharada. Os cães não levam aqui vida de cão, mas de gente próspera. Os gatos, de há muito habituados a ementas gastronómicas, desconhecem o sabor do rato. Vivem neste país marmotas, cobras, cágados e coelhos tão mimados que, se os donos os quisessem devolver ao elemento natural, eles diriam não, muito obrigado, e voltariam a correr para o esplêndido conforto dos seus ninhos caseiros.
Também não é preciso viver no Sahel ou nas favelas do Rio, para sonhar como seria belo poder ser aqui cão ou gato e, à hora da refeição, hesitar entre pedacinhos de carne com legumes, pâté (rico em vitamina A e B2), salmão com arroz, salsichas, empanada de mariscos...
Estou certo que no céu, onde tem a seu cargo o departamento zoológico, São Francisco de Assis olha enternecido para a Holanda, e aprova todo o bem que aqui se quer e faz aos nossos irmãos bichos.
Porque não é só o carinho, o conforto, o bom trato, mas toda uma rede de previdências que, com as suas lojas especiais para o comer e o vestir, o seguro, os cuidados veterinários, próteses, cemitérios, distrações, serviço de ambulâncias, hotéis e asilos, e até eutanásia, torna a sociedade animal quase uma réplica da nossa. Falassem eles entre si uma língua inteligível e não duvido que disporiam de telemóvel.
Tal como o bondoso São Francisco, pois, também eu me enterneço e aprovo tudo isso, mas pelos jeitos a minha natureza de português continua imperfeita, e a minha solidariedade para com os nossos irmãos bichos pouco mais é que um verniz.
Dias atrás, quando me vieram propor tomar parte num curso de reanimação de animais - "boca a focinho" - recusei horrorizado.
Como o poderia eu, que nem sequer me sinto capaz de reanimar o meu semelhante com um "boca a boca"?
Como o podem eles?!

segunda-feira, janeiro 21

Remexendo nas gavetas (5)


Cartoon do artista turco Osman Thuran
(1976-)

domingo, janeiro 20

Remexendo nas gavetas (4a)



Menu do voo Amsterdam-Lisboa de 16.04.1958 - tourist class

Remexendo nas gavetas (4b)



(clique para ampliar)

sexta-feira, janeiro 18

quarta-feira, janeiro 16