domingo, janeiro 27

Remexendo nas gavetas (10)



Lisboa, Junho 1974

Remexendo nas gavetas (9)



A praia de Moledo do Minho em 1946

sexta-feira, janeiro 25

20.000

Minutos atrás o Sitemeter registou alguém de Alcobaça como visitante 20.000 deste blogue. Para dez meses de presença, e numa blogosfera onde tudo se conta em milhões, não deve ser muito. Mas é número redondo, pelo que se anuncia o facto .

Remexendo nas gavetas (8)



Cais de Gaia (1935)

quinta-feira, janeiro 24

Frases (1)

"The first duty in life is to assume a pose. What the second duty is, no one has yet found out." - Oscar Wilde

"In physics the truth is rarely perfectly clear, and that is certainly universally the case in human affairs. Hence, what is not surrounded by uncertainity cannot be the truth." - Richard Feynman

quarta-feira, janeiro 23

Remexendo nas gavetas (7)




Texas Jack;, Yala, a Vingadora;, Sandokan, o Tigre da Malásia... (anos 40 do séc. XX)

terça-feira, janeiro 22

Remexendo nas gavetas (6)



Revista do governo americano distribuída em Portugal em 1942. Mesmo quem não é piloto
apreciará o "flight simulator".

Bichos

É geralmente sabido que, em países como em Portugal, os animais não levam uma vida fácil. Mesmo os que têm dono. O burro apanha pauladas quando se não apressa, ao cão que ladra demais é normal dar pontapés, pobre do gato que se torna incómodo ou preguiça na caça ao rato: rua com ele. E por via de regra, o pombo-correio menos capaz de bater recordes acaba simplesmente na panela. Pelo que não é preciso grande esforço para imaginar o destino dos animais vadios e os que, livres na natureza, vivem ao alcance da fisga e da caçadeira.
Com aplauso dos próprios pais, que gostam de vê-los crescer destemidos e ágeis, para os rapazes é um gosto subir ao perigoso cocuruto das árvores e tirar dos ninhos os filhotes ou quebrar os ovos.
Os caçadores, esses, se lhes faltam perdizes ou coelhos, disparam à toa contra tudo o que diante dos seus olhos voa ou corre. Passo por alto outras crueldades que, embora pertencendo aos costumes, sempre me pareceram próximas das doenças mentais.
Pessoalmente, salvo a hostilidade contra algumas ordens menores (continuo a matar moscas, mosquitos, aranhas, vespas e varejeiras) e uma repugnância congénita pelos ratos, creio que me posso apresentar sem receio diante do Criador.
Ele por certo desculpará a vez que em pequeno fui à caça, com a Flobert que meu pai me dera para de mim fazer um homem e, ao decepar com um tiro a asa dum gaio, deitei a fugir horrorizado. Nunca mais.
Na meninice tive cães e gatos, uma ovelha, um porco de olhos meigos que parecia tudo compreender e a quem, sem resultado, muitos vezes pedi que falasse.
De pássaros em gaiolas nunca gostei, nem de lagartos adormecidos no fundo de terrários, ou peixinhos descrevendo tristemente voltas lentas na pouca água dum vaso, pois só de vê-los já me faltava o ar.
Depois, homem feito, maravilhei-me com os semelhantes e esqueci os bichos. Agora, tal um barco que aos poucos se afasta do cais, ao entrar na velhice vou perdendo o interesse pelos primeiros, e os outros basta-me vê-los nos filmes sobre a natureza.
Assim se vai degradando a minha visão do mundo e, pelo menos no que respeita os animais, sinto por vezes remorso de viver na Holanda há tanto tempo, sem me ter deixado contagiar pelo amor que o holandês sente por eles.
Porque, merecido ou não o que dele se diz nas bocas do mundo, ninguém poderá negar que o holandês é exemplar no seu carinho pela bicharada. Os cães não levam aqui vida de cão, mas de gente próspera. Os gatos, de há muito habituados a ementas gastronómicas, desconhecem o sabor do rato. Vivem neste país marmotas, cobras, cágados e coelhos tão mimados que, se os donos os quisessem devolver ao elemento natural, eles diriam não, muito obrigado, e voltariam a correr para o esplêndido conforto dos seus ninhos caseiros.
Também não é preciso viver no Sahel ou nas favelas do Rio, para sonhar como seria belo poder ser aqui cão ou gato e, à hora da refeição, hesitar entre pedacinhos de carne com legumes, pâté (rico em vitamina A e B2), salmão com arroz, salsichas, empanada de mariscos...
Estou certo que no céu, onde tem a seu cargo o departamento zoológico, São Francisco de Assis olha enternecido para a Holanda, e aprova todo o bem que aqui se quer e faz aos nossos irmãos bichos.
Porque não é só o carinho, o conforto, o bom trato, mas toda uma rede de previdências que, com as suas lojas especiais para o comer e o vestir, o seguro, os cuidados veterinários, próteses, cemitérios, distrações, serviço de ambulâncias, hotéis e asilos, e até eutanásia, torna a sociedade animal quase uma réplica da nossa. Falassem eles entre si uma língua inteligível e não duvido que disporiam de telemóvel.
Tal como o bondoso São Francisco, pois, também eu me enterneço e aprovo tudo isso, mas pelos jeitos a minha natureza de português continua imperfeita, e a minha solidariedade para com os nossos irmãos bichos pouco mais é que um verniz.
Dias atrás, quando me vieram propor tomar parte num curso de reanimação de animais - "boca a focinho" - recusei horrorizado.
Como o poderia eu, que nem sequer me sinto capaz de reanimar o meu semelhante com um "boca a boca"?
Como o podem eles?!

segunda-feira, janeiro 21

Remexendo nas gavetas (5)


Cartoon do artista turco Osman Thuran
(1976-)

domingo, janeiro 20

Remexendo nas gavetas (4a)



Menu do voo Amsterdam-Lisboa de 16.04.1958 - tourist class

Remexendo nas gavetas (4b)



(clique para ampliar)

sexta-feira, janeiro 18

quarta-feira, janeiro 16

Remexendo nas gavetas (2)



Luzern em 1960

O RIJOMAX

Aos sete anos tentou fazer o seu primeiro relógio. Com rodas de madeira. Aos doze foi trabalhar numa relojoaria. Em 1933, com vinte e um, estabeleceu-se em Tabuaço.
A partir desse momento tomou-o a obsessão de construir um relógio diferente. E conseguiu-o. Durante trinta anos reservou todo o seu tempo livre para o RIJOMAX. Nas palavras do folheto que ele oferece a quem o visita: "O relógio mais completo do mundo - Uma obra misteriosa - Patente nr. 12931.”
Com os seus dois metros e pouco de alto, e cerca de um de largo, o RIJOMAX à primeira vista não se impõe. E mau grado a grande quantidade de ponteiros, mostradores, mais de 16.000 algarismos e letras, não parece um relógio sério. Talvez porque o construtor o tenha enfeitado com o seu próprio retrato, brilhantes e rubis falsos, poemas, provérbios, imagens, luzes que piscam e um sem-fim de atributos. Isso é a aparência, mas a gente sem querer ri-se. Quando o senhor Ribeiro começa a explicar, a gente cala-se.
O RIJOMAX está programado para funcionar durante 10 mil séculos em ciclos de 6272 anos. Corrige as diferenças existentes entre os vários calendários antigos e modernos. Ao fim de 128 anos suprime automaticamente o dia resultante do acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto. Contabiliza a diferença diária entre o tempo solar e o tempo do calendário, de forma que ao suprimir 1 dia em cada 128 anos, registará adicionalmente 29 min. e 37 seg. Passados 6272 anos terá suprimido 49 dias, mas a adição da diferença atrás mencionada será já de 24 h 11 min. e 13 seg., razão porque o mês de Fevereiro do ano 8172 será de 27 dias.
O RIJOMAX marca também os equinócios, os solstícios, as fases da lua. Tem uma luz que se acende e apaga diariamente, no momento exacto em que o sol nasce e se põe. Claro que mostra as horas, minutos, segundos, meses e anos da era cristã (estes últimos assinalados por um velho conta-quilómetros).
Possui calendários para se saber o dia da semana de qualquer data, “desde 1 de Janeiro do ano 1 da era cristä, até ao presente e futuros.” Um dos seus ponteiros move-se de 100 em 100 anos para assinalar a passagem do século, enquanto as oscilações de outro duram meio segundo. Regista o ciclo solar e lunar, o da letra dominical, e a epacta.
- Sabe o que é a epacta? - perguntou-me o senhor Ribeiro.
Confessei que ignorava. Ele sorriu, explicou, e disse que quase ninguém sabia.
Na face posterior o RIJOMAX possui mostradores com os calendários de Juliano e Júlio César, de Nabucodonosor, das Olimpíadas, de Abraão, Moisés, Salomão, e da história de Portugal.
Tudo a girar em misteriosas sincronias. Calcula e faz muitas coisas mais: umas estranhamente complexas, outras comezinhas, como dar “a horas certas uma saudação em vocabulário religioso”.
Cumprimentei o senhor Ribeiro por demonstrar tanto engenho, tendo apenas a instrução primária. Ele agradeceu, sorriu, quis saber onde eu vivia.
Ao ouvir-me dizer Holanda, ergueu os braços, exultante. É que, explicou, ele próprio nunca tinha compreendido donde lhe viera a ciência para fazer um aparelho daqueles. Mas tempos atrás tinham entrado na loja dois desconhecidos, e um deles, assim sem mais nem menos, anunciou que o senhor Ribeiro não fizera o relógio sozinho. Emprestara as mãos e dera o trabalho. Isso sim. Mas a ciência e os cálculos eram dum matemático holandês que nele tinha reincarnado, e em certas noites se vê a passear diante da igreja da praça, ali em frente.

segunda-feira, janeiro 14

Remexendo nas gavetas (1)


A pousada de Miranda do Douro em 1968

sexta-feira, janeiro 11

Ménage à quatre

Pensa em divórcio?
O problema tem a ver com sexo? Insatisfação de ambas as partes? Você com quenturas de cão vadio e a senhora sofrendo da clássica dor de cabeça, ou descontente com a modéstia do membro viril?
Leia Love and Sex with Robots. The Evolution of Human-Robot Relationships, de David Levy. €28.99
Ou melhor: encomende para a senhora um andróide e para si um(a) ginóide (*).
O aspecto é atraente e ambos, para além das funções correntes – abraços, beijos, sorrisos, mexer das mãos, pés, pernas, ancas – podem ser programados para fornecer um blow job de características excepcionais e cópulas como só se imaginam no paraíso. Interessante também é a possibilidade de dotar a (o) ginóide com um pénis, e programar ambos para extraordinárias técnicas sexuais, inclusive um manual para principiantes.

O Prof. Hiroshi Ishiguro com "Repliee Q1" Ela pisca os olhos, respira, reage ao contacto humano e, como nos sonhos da adolescência, "faz tudo !..."

(*) Para os interessados:
http://www.spiegel.de/fotostrecke/0,5538,27272,00.html
http://www.reuters.com/article/newsOne/idUSSP10422420070718
http://www.weirdasianews.com/2007/05/22/japan-life-like-customized-sex-dolls-6500-adult/

PS. Muito se aprende! Sem melhor alternativa, os navegantes holandeses que no séc. XVII e depois iam até ao Japão, levavam consigo uma boneca de couro. Os japoneses devem ter apreciado e desde então chamam "esposa holandesa" às bonecas destinadas ao efeito.
Tudo isto pode ser conhecimento corrente, mas para mim, que venho de tempos longínquos, foi novidade.

quinta-feira, janeiro 10

Poxa!

Tempo Contado, além de links para pistola Mauser 6.35, girls gone wild, perdigueiros e camel toe ... faz agora de Livro de São Cipriano:

Last Page View
Jan 10 2008 1:26:11 pm
Visit Length
0 seconds
Page Views
1
Referring URL
http://www.google.co... deixar em paz&meta=
Search Engine
google.com.br
Search Words
quero um feitiço muito forte para fazer alguem mudar da minha cidade ou acabar com seu comercio pra ela me deixar em paz
Visit Entry Page
http://tempocontado....7_08_01_archive.html
Visit Exit Page
http://tempocontado....7_08_01_archive.html

terça-feira, janeiro 8

Calores

Sexo. Séculos de moral, bons costumes e polícia fizeram-nos perder o natural que, nesse particular, alegra ainda a vida dos animais e dos insectos. Felizmente que assim é. O mundo andaria às avessas se na vida social se mantivesse nas coisas do sexo o desregramento da bicharada. Imagine-se um maquinista a abandonar o comboio para, tal um gato, ir copular num fosso com uma dama benevolente. Imagine-se um presidente dando largas ao cio no decurso dum desfile. Ou a menina da caixa no supermercado... Os políticos que nos governam também o não tolerariam, e os sacerdotes dos vários credos acenderiam de imediato as fogueiras das suas inquisições. Mesmo muitos de nós se levantariam para protestar contra os riscos e desconfortos que traria o copular público e inesperado. Por isso aceitamos o jugo da lei, fingimos desinteresse pelo grande motor da existência e, com uns resmungos pro forma, sacrificamos o alegre caos do instinto à monotonia da civilização. O que todavia não impede que em certos lugares, certos dias, pairem no ar eflúvios misteriosos. O bicho que permanecemos reconhece então, por momentos, a mensagem dos odores, descobre o significado dos modos de andar, sabe por intuição o que escondem os olhares e os gestos.

Quando numa tarde quente de Agosto entrei no Sheraton, em Lisboa, surpreendeu-me a frescura do ar condicionado e a agitação do ambiente. No hall havia um grande número de mulheres, e os homens presentes pareciam executar em torno delas um bailado sem ritmo nem fito certo.
O recepcionista ia entregar-me a ficha do quarto quando uma senhora de idade o interrompeu:
- Ó senhor Abílio, isto é congresso?
- Não, Dona Maria, são tudo hóspedes. O hotel está um bocadinho cheio.
- Hóspedes uma gaita! - replicou a senhora com inesperada vivacidade. E voltando-se para mim:
- Isto está a ficar como Bangkok. Conhece Bangkok?
- Não conheço, mas faço ideia.
No ascensor - por simples acaso íamos ambos para o mesmo andar - ela achou uma pouca-vergonha que um hotel de luxo se abandalhasse assim. Porque se eu não sabia ficava a saber, aquilo eram tudo mulheres da vida.
Fiz-me surpreso e retorqui que não. Uma ou outra, talvez, mas a maioria via-se-lhes pela cara que eram senhoras de respeito.
Ela riu: - Pobre de si se ainda vai pelas caras! Senhoras de respeito uma fava. As que parecem sérias são as do part-time.
Achei exagero, mas não a contradisse. Mais tarde, quando voltei a descer, notei que de facto no hall havia um ambiente de extrema tensão erótica, menos devido aos ademanes das três ou quatro prostitutas de serviço, do que à indefinível electricidade que parecia faiscar entre os presentes.
Nenhum gesto era inocente, nos olhares havia espectativa, liam-se nos rostos desejos insanos, sentia-se que a virtude e a fidelidade, mesmo a decência, estavam ali por um fio.
- É do calor - disse-me o porteiro, habituado a ler pensamentos.

Quando ao fim da noite regressei ao hotel, cansado e de mau humor, o hall estava em penumbra, quase deserto. A única algazarra era a de uma tripulação sul-africana, à espera do ascensor para o bar no último piso. Subimos juntos. Entre si trocavam gracejos sem malícia, dum picante infantil, a exuberância que vem depois de muitas horas de voo e tensão. Por minha parte achei curioso que não me custasse a compreender o afrikaans que falavam, zumbando de uma das hospedeiras, que se destacava pelos seus quase dois metros, a excessiva timidez e o modo como corava.
Os outros aperreavam-na, criticavam-lhe a falta de líbido, instavam que confessasse a sua virgindade. Ela sorria e corava. Mas de súbito, com a leviandade comum aos grandes tímidos, certa de que fora os colegas ninguém a compreenderia, e no ascensor do hotel português só se encontrava um estranho com cara de português, ousou mostrar-se atrevida:
- Virgem ou não é cá comigo, mas se este velhote careca quisesse, não me importava de ir para a cama com ele.
No meu melhor neerlandês, sem me descompor, respondi-lhe que me custava a crer que falasse a sério, mas enfim...
Foi um pandemónio. Poucas vezes terei testemunhado semelhante explodir de riso, ou vi alguém em tão profundo embaraço baixar os olhos e enrubescer assim.
O ascensor parou, mas eles não queriam que eu saísse, insistiam que os acompanhasse, coincidências daquelas mereciam festejo. Além disso gostavam que lhes contasse onde aprendera a língua.
Desculpei-me dizendo que a história era longa e a hora tardia. Depois, no quarto, ainda sobre a impressão de que, em certos lugares e certos dias, como que pairam no ar eflúvios estranhos, sentei-me a escrever este relato.

domingo, janeiro 6

Música

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) fez em tempos numa entrevista afirmações que, fosse ele conhecido na Holanda, certamente prejudicariam a sua nomeada. Se havia coisa que o fatigasse, era a música. Um concerto com Bach e Debussy, uma festa com samba, uma sessão de jazz, e logo o poeta caía num estado de sonolência e apatia.
Porque, explicou ele, para quem vivia e desejava viver constantemente no mais agudo dos estados de consciência, como era o seu caso, a música não passava de um hipnótico, inimigo da actividade criadora.
Ao ler essas afirmações, e ao dar-me conta duma certa concordância com elas, fui tomado por um sentimento de confusão e alarme.
Um grande poeta como Melo Neto pode dar-se ao luxo de, em Portugal ou no Brasil, expressar opiniões contrariantes. Porém, entre holandeses, com a sua incondicional e quase religiosa devoção pela música e a cultura, um alóctone como eu tem de pensar duas vezes antes de se arriscar a parecer burro ou bárbaro.
A verdade é que concerto nenhum, ária, sinfonia, ou cantata, me causou jamais arroubo igual ao das grandes obras da literatura. O que está longe de significar que o poeta brasileiro, e os que sentem como ele, tenham razão. Além disso, porque todos somos diferentes, talvez seja apenas um caso como o da matemática ou do atletismo: compreende-se e gosta-se, pode-se ou não se pode.
Um matemático defronte duma equação diofantina, um atleta que executa um salto ou corre a milha, por certo se sentirão em êxtase, enquanto que a mim e a outros qualquer dessas actividades deixa insensível.
Mas na música, confesso, há um aspecto que me desagrada: o seu lado público. Se aprecio e aplaudo a passagem dum banda numa rua de aldeia, pessoalmente sofro mal concertos. Não compreendo, e com certeza jamais compreenderei, que centenas de pessoas numa sala sejam capazes de atingir um alto grau de deleite sem que, como a mim, as não incomodem ou distraiam comichões e cãibras, a dureza das cadeiras, o perfume de uns, a tosse dos outros. Para não falar das piruetas dos maestros, e das faces perspirantes e torturadas dos solistas.
Sem partilhar por inteiro a sua fobia devo, pois, conceder que as palavras do poeta me inquietaram. Talvez porque me julgava rebelde nato, e elas me abriram os olhos para a realidade de que existe uma vasta área de campos da cultura a cuja tirania cobardemente me tenho sujeitado.
E é agora que, amparado nessa muleta de uma opinião alheia, me sinto com forças de confessar que detesto o ambiente de devoção religiosa que se respira nos museus. Que não posso com galerias de arte, nem reuniões de escritores ou conferências de letrados. Que a ópera me aflige. Que me dão febre os convites para espectáculos culturais. Que vai longe o tempo em que o cinema me parecia uma arte. Que é prudente calar o que penso da dança.
Alienado de tudo isso, que faz o prazer e é a vida e paixão de tão grandes multidões, que me resta então? Os livros, a escrita, alguns amigos, uma paisagem aqui, uma memória além. Na aparência pouco, na realidade mais que o bastante para ocupar os meus dias.
Mas quando a melancolia me ataca, aí, como quem comete um pecado, fecho-me onde ninguém me veja, ponho auscultadores para que ninguém oiça e, durante horas, deixo-me embalar por Bach e Pergolesi, Sibelius, Brahms...
Fora a do talento, é essa a grande diferença que me separa do poeta brasileiro. Eu daria em louco se, exausto pelos estados de consciência agudos, não tivesse à mão a música: a mais perfeita das drogas, o mais eficaz dos analgésicos.

terça-feira, dezembro 25

ABERTO!

Retoma a barca a sua navegação com uma série de textos espalhados por aqui e ali, mas que só em holandês foram publicado em livro, com o título Mazagran. São sessenta e quatro. Sairão ao ritmo de um cada dois dias, não somente para dar tempo aos que lêem devagar, mas também para que o pano renda.


P R E F Á C I O

Desde que o conheço, o tempo duma vida, o meu editor Theo Sontrop costuma afirmar de modo terminante que o público holandês não aprecia prefácios. Segundo ele, o holandês que abre um livro quer sem mais demora entrar logo no assunto do mesmo, e não perder tempo a ler expli­cações ou elogios.
Devo dizer que compreendo essa atitude. O prefácio é, com frequência, a abstrusa e vaidosa apresentação que o autor faz do seu próprio talento, ou então o rosário de encómios debitados por um padrinho cotado. Acontece também que o prefácio em geral é longo. Tão longo que, quem o lê, necessita de paciência e alguma boa vontade, para ler primeiro em resumo aquilo que depois irá ler in extenso.
Ora o prefácio, pelo menos em minha opinião, não deve ser outra coisa senão um convite. E, como um convite, igualmente breve. Acompanhado dum gesto que pelo simbolismo estabeleça entre o livro e o leitor um primeiro laço de simpatia.
Esse gesto é aqui o título. Mazagran, palavra que outrossim se não encontra no texto, designa uma bebida favorita no Maghreb: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelada nos dias de calor. A pequenos goles. Com aquela disposição benigna do espírito que umas vezes nos leva à rua para cavaquear com os ami­gos, e outras nos prende em casa a ler um livro.