Retoma a barca a sua navegação com uma série de textos espalhados por aqui e ali, mas que só em holandês foram publicado em livro, com o título Mazagran. São sessenta e quatro. Sairão ao ritmo de um cada dois dias, não somente para dar tempo aos que lêem devagar, mas também para que o pano renda.
P R E F Á C I O
Desde que o conheço, o tempo duma vida, o meu editor Theo Sontrop costuma afirmar de modo terminante que o público holandês não aprecia prefácios. Segundo ele, o holandês que abre um livro quer sem mais demora entrar logo no assunto do mesmo, e não perder tempo a ler explicações ou elogios.
Devo dizer que compreendo essa atitude. O prefácio é, com frequência, a abstrusa e vaidosa apresentação que o autor faz do seu próprio talento, ou então o rosário de encómios debitados por um padrinho cotado. Acontece também que o prefácio em geral é longo. Tão longo que, quem o lê, necessita de paciência e alguma boa vontade, para ler primeiro em resumo aquilo que depois irá ler in extenso.
Ora o prefácio, pelo menos em minha opinião, não deve ser outra coisa senão um convite. E, como um convite, igualmente breve. Acompanhado dum gesto que pelo simbolismo estabeleça entre o livro e o leitor um primeiro laço de simpatia.
Esse gesto é aqui o título. Mazagran, palavra que outrossim se não encontra no texto, designa uma bebida favorita no Maghreb: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelada nos dias de calor. A pequenos goles. Com aquela disposição benigna do espírito que umas vezes nos leva à rua para cavaquear com os amigos, e outras nos prende em casa a ler um livro.
terça-feira, dezembro 25
segunda-feira, dezembro 24
Surpresa no Sitemeter
domingo, outubro 21
FECHA? NÃO FECHA?
Se fosse loja punha-lhe aquele ambíguo "Volto já". Poderia dizer que entra em hibernação, mas não é bicho. Fechar de vez, também não fecha. Confessar preguiça, aborrecimento, cansaço com o mundo? Tenho disso, mas em pequenas doses.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.
Vamos então para a simplicidade: por agora "Tempo Contado" fecha, incerto se, ou quando, voltará a abrir.
quinta-feira, outubro 4
Doisneau, Stieglitz, Kudelka...
Sempre desejei saber desenhar, mas nunca pude ir além de rabiscos iguais aos que traçam os miúdos no primeiro dia de escola. Daí o ter procurado compensação na fotografia.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.
No decurso dos anos contam-se por milhares as fotografias que tirei, e uma ou outra paisagem pareceu-me que não desmerecia, de meia dúzia de retratos também não me envergonhava. Contudo, quando como hoje abro inadvertidamente um dos meus álbuns, só posso abanar a cabeça em descrença. Que falta de talento e de técnica. Que pena tanto dinheiro deitado fora.
Mas sonhar é de graça... Doisneau, Stieglitz, Bresson, Kudelka... e burro velho não toma andadura. Há sempre uma aparelho mais avançado, uma lente que realiza milagres, um livro que promete o impossível: aprender o talento com que não se nasceu.
segunda-feira, outubro 1
Resumo de tragédia
A história é real, trágica, talvez por isso me embaraça o resumi-la numas poucas linhas.
Casou ainda rapaz, deixou a mulher na aldeia e emigrou para a Alemanha. Dezenas de anos viveu lá em solidão. À custa de privações e sacrifícios, trabalhando de dia na fábrica e à noite de porteiro num prédio, conseguiu poupar uma pequena fortuna, garantia de um futuro de vida folgada, paz de espírito e descanso do corpo.
Quando vinha de férias invejavam-no, mas também o admiravam, pois nenhum deles tinha um Mercedes assim, nem conseguira construir casa tão grande e de tanto luxo.
Boa companheira, a mulher trazia tudo num brinco e, por ter instrução, era ela quem tratava com o banco e se encarregava da papelada.
Chegou o dia do regresso definitivo. Partiu da Alemanha com a euforia de ter alcançado o que queria, mas sem saudades, porque não tinha feito lá amigos, nem ninguém sente pena de deixar o degredo.
Na aldeia receberam-no com festa. No dia seguinte, contente como uma criança, perguntou à mulher quanto dinheiro tinham no banco e ela, desvairada, confessou ter perdido tudo no jogo. Nem a casa lhes pertencia, porque estava hipotecada.
Cego de raiva, matou-a. No julgamento ouviu que lhe dera mais de cinquenta golpes com uma tesoura, mas de nada se recorda, porque, como disse em lágrimas ao juiz que o condenou a prisão perpétua, nessa altura também já tinha morrido.
Casou ainda rapaz, deixou a mulher na aldeia e emigrou para a Alemanha. Dezenas de anos viveu lá em solidão. À custa de privações e sacrifícios, trabalhando de dia na fábrica e à noite de porteiro num prédio, conseguiu poupar uma pequena fortuna, garantia de um futuro de vida folgada, paz de espírito e descanso do corpo.
Quando vinha de férias invejavam-no, mas também o admiravam, pois nenhum deles tinha um Mercedes assim, nem conseguira construir casa tão grande e de tanto luxo.
Boa companheira, a mulher trazia tudo num brinco e, por ter instrução, era ela quem tratava com o banco e se encarregava da papelada.
Chegou o dia do regresso definitivo. Partiu da Alemanha com a euforia de ter alcançado o que queria, mas sem saudades, porque não tinha feito lá amigos, nem ninguém sente pena de deixar o degredo.
Na aldeia receberam-no com festa. No dia seguinte, contente como uma criança, perguntou à mulher quanto dinheiro tinham no banco e ela, desvairada, confessou ter perdido tudo no jogo. Nem a casa lhes pertencia, porque estava hipotecada.
Cego de raiva, matou-a. No julgamento ouviu que lhe dera mais de cinquenta golpes com uma tesoura, mas de nada se recorda, porque, como disse em lágrimas ao juiz que o condenou a prisão perpétua, nessa altura também já tinha morrido.
quarta-feira, setembro 26
Paragem forçada
Este blog parou misteriosamente uns quantos dias, mas contra telecoms e providers não adianta a gente queixar-se, porque são eles que seguram na mão o clássico queijo e, quando lhes apetece, o cortam com a igualmente clássica e bem afiada faca.
sexta-feira, setembro 21
Vizinhanças
Devido ao desnível do terreno, a varanda da Aida, no outro lado da rua, encontra-se muito acima do nosso telhado.
Talvez para arejar, as portas mantém-nas ela sempre abertas, e assim ficamos expostos a uma sinfonia de sons diversos: gargalhadas, conversas com as vizinhas que a visitam, discórdias com o Benjamim, o trac-trac da máquina de costura com que coze pijamas para a fábrica...
Ao fim e ao cabo barulhos aceitáveis, domésticos, que quase naturalmente se fundem com os nossos e os restantes.
Mas às cinco em ponto a Aida liga o rádio, aumenta o volume do som e, com o entusiasmo da fé profunda, junta a sua voz à dos padres que na Rádio Renascença celebram as vésperas, entoam cânticos à Virgem e ao Cristo Rei, dizem depois a missa, seguida de pregações.
O bombardeamento obriga-nos a fechar portas e janelas, mas o sossego que isso traz é relativo. Às sete, terminam os responsos, mas já a Aida liga a televisão para acompanhar a telenovela. Às oito tem o telejornal. Às nove outra telenovela.
Se fizéssemos reparo ela não compreenderia. Então não rezamos? Não gostamos da telenovela de que todos gostam? Não seguimos as notícias?
É infernal. É de pesadelo. Devido ao calor dormimos com as janelas abertas e a meio da noite acordamos em sobressalto, a rua estreita cheia de cães. Tantos e tão agitados que não consigo contá-los, as correrias, os uivos, os latidos e grunhidos a multiplicar-se em ecos de entontecer.
Atiro-lhes pedras (tenho um saco de plástico cheio delas no peitoril), mas não se assustam nem se doem, porque cuido de não acertar no alvo. Atiro-lhes bacias de água. Desesperado e ridículo grito-lhes que se calem, que parem com a barulheira.
Escanzelados, as línguas pendentes, no espaço apertado demais para tanto bicho parecem uma onda peluda, que ora vai, ora vem, ou de repente estaca na sua ondulação.
Até que dentre aquela matilha de todos os tamanhos e feitios, alguns pastores e perdigueiros, mas em maioria vira-latas de pouco porte e pata curta, se escapa a diminuta causa do burburinho: a cadela do Guilherme.
Do nariz ao rabo quatro palmos de bicho, mas um cio que faz entontecer os pretendentes, e o ar desdenhoso de quem se vai dali porque não encontra forma para o seu pé.
Talvez para arejar, as portas mantém-nas ela sempre abertas, e assim ficamos expostos a uma sinfonia de sons diversos: gargalhadas, conversas com as vizinhas que a visitam, discórdias com o Benjamim, o trac-trac da máquina de costura com que coze pijamas para a fábrica...
Ao fim e ao cabo barulhos aceitáveis, domésticos, que quase naturalmente se fundem com os nossos e os restantes.
Mas às cinco em ponto a Aida liga o rádio, aumenta o volume do som e, com o entusiasmo da fé profunda, junta a sua voz à dos padres que na Rádio Renascença celebram as vésperas, entoam cânticos à Virgem e ao Cristo Rei, dizem depois a missa, seguida de pregações.
O bombardeamento obriga-nos a fechar portas e janelas, mas o sossego que isso traz é relativo. Às sete, terminam os responsos, mas já a Aida liga a televisão para acompanhar a telenovela. Às oito tem o telejornal. Às nove outra telenovela.
Se fizéssemos reparo ela não compreenderia. Então não rezamos? Não gostamos da telenovela de que todos gostam? Não seguimos as notícias?
É infernal. É de pesadelo. Devido ao calor dormimos com as janelas abertas e a meio da noite acordamos em sobressalto, a rua estreita cheia de cães. Tantos e tão agitados que não consigo contá-los, as correrias, os uivos, os latidos e grunhidos a multiplicar-se em ecos de entontecer.
Atiro-lhes pedras (tenho um saco de plástico cheio delas no peitoril), mas não se assustam nem se doem, porque cuido de não acertar no alvo. Atiro-lhes bacias de água. Desesperado e ridículo grito-lhes que se calem, que parem com a barulheira.
Escanzelados, as línguas pendentes, no espaço apertado demais para tanto bicho parecem uma onda peluda, que ora vai, ora vem, ou de repente estaca na sua ondulação.
Até que dentre aquela matilha de todos os tamanhos e feitios, alguns pastores e perdigueiros, mas em maioria vira-latas de pouco porte e pata curta, se escapa a diminuta causa do burburinho: a cadela do Guilherme.
Do nariz ao rabo quatro palmos de bicho, mas um cio que faz entontecer os pretendentes, e o ar desdenhoso de quem se vai dali porque não encontra forma para o seu pé.
sábado, setembro 15
Pausa
Amsterdam - Estevais de Mogadouro. Daqui a umas horas. Dois dias e meio de estrada. Dois mil e duzentos quilómetros quatro vezes por ano.
Há muito que deixei de me perguntar as razões porque o faço, temeroso de que não sejam válidas, nem suficientes para justificar a canseira. Vêm menos da cabeça do que do coração, o que pouco importa, pois ambos me têm sido de fraco conselho.
A prosa entra em descanso coisa de uma semana.
Há muito que deixei de me perguntar as razões porque o faço, temeroso de que não sejam válidas, nem suficientes para justificar a canseira. Vêm menos da cabeça do que do coração, o que pouco importa, pois ambos me têm sido de fraco conselho.
A prosa entra em descanso coisa de uma semana.
quinta-feira, setembro 13
Aniónios, iónios e pré-bióticos
Volto do supermercado. Não sei bem se irritado, incomodado, ou com vontade de mandar…
A embalagem das esponjas informa-me que estas, à superfície, contêm matéria com menos de 5% de aniónios activos e menos de 5% de iónios inactivos BHT.
A embalagem do sumo de laranja, essa vem agora com pré-bióticos VIVINAL ® GOS.
Que deduzir disto? Que ladram mas não mordem? Ou mordem? Que matam aos poucos? Causam alergias? Eczemas? Comichão?
Será que em Bruxelas, donde vêm as directivas, alguém ocupa os dias a inventar tão indispensáveis informações?
A embalagem das esponjas informa-me que estas, à superfície, contêm matéria com menos de 5% de aniónios activos e menos de 5% de iónios inactivos BHT.
A embalagem do sumo de laranja, essa vem agora com pré-bióticos VIVINAL ® GOS.
Que deduzir disto? Que ladram mas não mordem? Ou mordem? Que matam aos poucos? Causam alergias? Eczemas? Comichão?
Será que em Bruxelas, donde vêm as directivas, alguém ocupa os dias a inventar tão indispensáveis informações?
terça-feira, setembro 11
O (meu) problema da oração
Desde pequeno ensinaram-me a crer em Deus, Jesus Cristo, na Virgem e nos santos. Falaram-me de mistérios, de milagres, da Santíssima Trindade, do Sagrado Coração, de Lourdes e de Fátima. Ao mesmo tempo ensinaram-me a rezar, o que durante anos fiz com o automatismo da inocência.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.
domingo, setembro 9
Tudo bem? Prazer em vê-lo!
Tempo passado, em conversa com um amigo, por coincidência alto funcionário de um ministério, estranhava eu que o Governo nada fizesse para sustar o êxodo das aldeias, do que infalivelmente resulta a desertificação das províncias e o aumento dos bairros de miséria em torno das cidades.
Homem pragmático, sossegou-me ele com uma pancadinha nas costas. Preso a um idealismo obsoleto, explicou, eu tinha parado no tempo, continuava a não querer enfrentar a realidade e, teimosamente, decidira manter-me cego.
Pois só um cego, disse, não se daria conta de que à romântica solidariedade dos anos 70 e da Revolução, tinham sucedido as duras leis da economia do mercado, onde não há lugar para tibiezas. Aliás, bem vistas as coisas, o êxodo dos aldeãos para as cidades, por certo lastimável, também tinha lados positivos. E gargalhando da boa piada, acrescentou:
- É que não há falta de operários e arranjam-se mulheres a dias muito em conta.
Não me lembro do que lhe respondi, mas a minha resposta não deve ter sido a que o seu comentário pedia. Que o fosse, ele não lhe teria dado ouvidos.
E é essa a verdade: ansiosa por parecer moderna, europeia, a nossa sociedade continua desesperadamente arcaica e bizantina. Nela os brandos costumes escondem o desespero de viver, as infindas cortesias mascaram as raivas subjacentes, a hipocrisia leva a melhor sobre a franqueza.
Homem pragmático, sossegou-me ele com uma pancadinha nas costas. Preso a um idealismo obsoleto, explicou, eu tinha parado no tempo, continuava a não querer enfrentar a realidade e, teimosamente, decidira manter-me cego.
Pois só um cego, disse, não se daria conta de que à romântica solidariedade dos anos 70 e da Revolução, tinham sucedido as duras leis da economia do mercado, onde não há lugar para tibiezas. Aliás, bem vistas as coisas, o êxodo dos aldeãos para as cidades, por certo lastimável, também tinha lados positivos. E gargalhando da boa piada, acrescentou:
- É que não há falta de operários e arranjam-se mulheres a dias muito em conta.
Não me lembro do que lhe respondi, mas a minha resposta não deve ter sido a que o seu comentário pedia. Que o fosse, ele não lhe teria dado ouvidos.
E é essa a verdade: ansiosa por parecer moderna, europeia, a nossa sociedade continua desesperadamente arcaica e bizantina. Nela os brandos costumes escondem o desespero de viver, as infindas cortesias mascaram as raivas subjacentes, a hipocrisia leva a melhor sobre a franqueza.
quarta-feira, setembro 5
Pranto
Sabia-o por vê-lo e incomodava-me sobremodo, as pessoas de idade que por um sofrimento pequenino, a ocasião de uma visita ou despedida, deixavam que os olhos se lhes marejassem.
Além de uma inconveniência, parecia-me ridículo, absurdo e, corando de vergonha recordava de, muitos anos atrás, ter chorado num cinema ao ver Limelight, de Chaplin.
Outras lágrimas, raras, já deixara cair, mas essas não tinham sido de pena ou dor, sim de raiva impotente. Chorão, eu? Jamais!
Era o que pensava, com aquela certeza sobranceira que a ignorância dá. Até que, sorrateiramente, a sentimentalidade se apoderou de mim, ou o passar do tempo enfraqueceu as comportas dos lacrimais.
Uma recordação, uma música, uma criança, um animal que sofre, dores da guerra, dores da fome e da miséria, tragédias, desastres da natureza, tudo isso me humedece os olhos.
Tento couraçar-me. Digo-me que a CNN manipula as imagens, que um filme ou o romance são ficção, que os repórters são parciais, mas pouco adianta. Hoje vêm-me as lágrimas por tudo e nada, até por saber que, para os mais novos, sou eu agora o ancião que os irrita com o seu inesperado pranto.
Além de uma inconveniência, parecia-me ridículo, absurdo e, corando de vergonha recordava de, muitos anos atrás, ter chorado num cinema ao ver Limelight, de Chaplin.
Outras lágrimas, raras, já deixara cair, mas essas não tinham sido de pena ou dor, sim de raiva impotente. Chorão, eu? Jamais!
Era o que pensava, com aquela certeza sobranceira que a ignorância dá. Até que, sorrateiramente, a sentimentalidade se apoderou de mim, ou o passar do tempo enfraqueceu as comportas dos lacrimais.
Uma recordação, uma música, uma criança, um animal que sofre, dores da guerra, dores da fome e da miséria, tragédias, desastres da natureza, tudo isso me humedece os olhos.
Tento couraçar-me. Digo-me que a CNN manipula as imagens, que um filme ou o romance são ficção, que os repórters são parciais, mas pouco adianta. Hoje vêm-me as lágrimas por tudo e nada, até por saber que, para os mais novos, sou eu agora o ancião que os irrita com o seu inesperado pranto.
terça-feira, setembro 4
Miudezas (4)
Num passado não muito distante só em circunstâncias excepcionais se via um filme baseado na história de pessoa ainda viva. Com a biografia acontecia o mesmo, e de poucos personagens se terá então espiolhado a vida antes de se saberem mortos e enterrados.
Actualmente vai-se a passo acelerado. Porque se tornou desmesurada a curiosidade pública, ou porque o comércio não tem tempo nem paciência, só ganância, há estrelinhas de vinte anos a autobiografar-se, detalhando os altos e baixos do seu passado.
Vende? Não há argumentos contra, só a favor.
Isto são provavelmente medos atávicos, ou ataques de pessimismo doentio. Aquela parte de mim que quer correr riscos, agir, participar, é sempre travada pela outra, a guardiã da memória dos desaires e das aflições impressas nos genes que recebi dos antepassados.
Assim me tornei exemplar no querer, mas sempre com receio de realizar, mais fértil em sonhos do que em iniciativas, a admirar os que são diferentes e uma vez por outra a dizer-me que se fosse mais novo...
Mas sei que me iludo, que me dou desculpas de mau pagador.
Em boa parte devido à carga genética, depois com o ambiente da criação, a escola e sabe Deus que mais, a partir de certa altura o carácter está formado e, a menos de milagre ou acontecimento de sérias consequências, não há forma de o mudar.
À força de paciência, alguma introspecção e trambolhões frequentes, ainda se pode ter a ideia de que nos conhecemos um pouco, mas na verdade as frestas desse suposto saber são bem mais estreitas do que os buracos negros da ignorância que temos de nós próprios.
Assim sendo, não adianta quebrar a cabeça a tentar a impossível mudança do que somos, mais vale divertirmo-nos a fingir o gostaríamos de ser.
Actualmente vai-se a passo acelerado. Porque se tornou desmesurada a curiosidade pública, ou porque o comércio não tem tempo nem paciência, só ganância, há estrelinhas de vinte anos a autobiografar-se, detalhando os altos e baixos do seu passado.
Vende? Não há argumentos contra, só a favor.
Isto são provavelmente medos atávicos, ou ataques de pessimismo doentio. Aquela parte de mim que quer correr riscos, agir, participar, é sempre travada pela outra, a guardiã da memória dos desaires e das aflições impressas nos genes que recebi dos antepassados.
Assim me tornei exemplar no querer, mas sempre com receio de realizar, mais fértil em sonhos do que em iniciativas, a admirar os que são diferentes e uma vez por outra a dizer-me que se fosse mais novo...
Mas sei que me iludo, que me dou desculpas de mau pagador.
Em boa parte devido à carga genética, depois com o ambiente da criação, a escola e sabe Deus que mais, a partir de certa altura o carácter está formado e, a menos de milagre ou acontecimento de sérias consequências, não há forma de o mudar.
À força de paciência, alguma introspecção e trambolhões frequentes, ainda se pode ter a ideia de que nos conhecemos um pouco, mas na verdade as frestas desse suposto saber são bem mais estreitas do que os buracos negros da ignorância que temos de nós próprios.
Assim sendo, não adianta quebrar a cabeça a tentar a impossível mudança do que somos, mais vale divertirmo-nos a fingir o gostaríamos de ser.
sexta-feira, agosto 31
Despedida
Vou abrir a porta da casa. Hesito, transtornado, a respiração a falhar, cortada pela certeza de que será a última vez.
A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentávamos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, a lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas com o fumeiro.
Restarão algumas histórias soltas, a do avô que a construiu, a dos que na sua singeleza a julgavam um palácio, dos que aqui viveram e sofreram, dos terríveis anos em que minha mãe se enterrou viva na sua solidão.
Guardarei também a lembrança dalgumas alegrias. Poucas e singelas, mas genuínas, os momentos de desafogo, quando as ameaças do mundo e do viver pareciam suspensas.
As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperado do mundo e de mim próprio.
A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta, mas falta-me o ânimo. Forço-me a entrar. Espreito, sinto-me criança, amedronta-me o eco dos próprios passos. Além do recheio, a casa parece ter-se esvaziado de algo mais, da vida que lhe pertencia e da minha própria, tornando-se sinistra, com um relento de corpo moribundo.
Avanço a passos cautelosos, olho em redor, mas de facto tento esquecer o que vejo. Vou duma janela para a outra, e sem me dar conta saio às arrecuas, talvez a maneira inconsciente e simbólica de eliminar a recordação de que estive ali, de que fui testemunha do irremediável vazio que eu próprio causei.
A partir deste momento o passado vai-se esfumar, as recordações perderão a moldura que as tornava reais, nunca mais poderei apontar onde nos sentávamos à mesa, o lugar das camas, o da escrivaninha, a lareira, os buracos na parede da cozinha onde se espetavam as varas com o fumeiro.
Restarão algumas histórias soltas, a do avô que a construiu, a dos que na sua singeleza a julgavam um palácio, dos que aqui viveram e sofreram, dos terríveis anos em que minha mãe se enterrou viva na sua solidão.
Guardarei também a lembrança dalgumas alegrias. Poucas e singelas, mas genuínas, os momentos de desafogo, quando as ameaças do mundo e do viver pareciam suspensas.
As imagens que me pertencem surgem confusas, em turbilhão, são as duma vida inteira. Vejo-me defronte da mesma porta, mas noutros momentos e noutras idades, ora feliz, mas também desesperado do mundo e de mim próprio.
A chave roda na fechadura com um som diferente e empurro a porta, mas falta-me o ânimo. Forço-me a entrar. Espreito, sinto-me criança, amedronta-me o eco dos próprios passos. Além do recheio, a casa parece ter-se esvaziado de algo mais, da vida que lhe pertencia e da minha própria, tornando-se sinistra, com um relento de corpo moribundo.
Avanço a passos cautelosos, olho em redor, mas de facto tento esquecer o que vejo. Vou duma janela para a outra, e sem me dar conta saio às arrecuas, talvez a maneira inconsciente e simbólica de eliminar a recordação de que estive ali, de que fui testemunha do irremediável vazio que eu próprio causei.
quinta-feira, agosto 30
Vaidade
Para alguém como ele o espelho de nada adianta, porque o ego só lhe deixa ver a imagem que criou de si próprio.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebrilham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanalmente a cabeleira. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexicano. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquilha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausadamente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorriso, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebrilham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanalmente a cabeleira. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexicano. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquilha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausadamente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorriso, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.
domingo, agosto 26
Tomem nota:
domingo, agosto 19
O escritor
Ganhou nome logo desde os primeiros escritos e, por razões de política, amizades e simpatias, tornou-se figura emblemática da literatura da oposição.
Pessoalmente correspondia a um certo retrato do escritor boémio, noctívago, forte nos copos, brilhante no chalacear, com relações por todo o lado.
Cada livro seu era acolhido em certos círculos como um acontecimento de importância invulgar, e embora nem o interesse do público nem as vendas correspondessem à expectativa, ao longo dos anos tornou-se personagem importante.
A franqueza manda dizer que nunca apreciei o seu estilo, nem os temas que tratava. Ao avesso da opinião corrente, tãopouco descobri nos seus livros daquelas centelhas que denunciam, senão o génio, pelo menos um grande talento. A sua prosa surgia-me corriqueira, os diálogos artificiais, os personagens anémicos, os seus símbolos de uma dolorosa simplicidade.
No correr dos anos, por intermédio de amigos comuns, encontrámo-nos duas vezes - uma terceira não conta, porque apenas trocámos um distraído “Está bom?" - não simpatizámos, e de ambas guardo recordações desagradáveis.
Não fazia dúvida que o homem era inteligente, narrava com verve, e possuía uma excepcional capacidade de se manter no centro da atenção. Mas se o interrompiam, logo o seu rosto parecia esvaziar-se do entusiasmo e, impaciente, puxava fumaças ao cigarro até reganhar a vez.
À mesa era companheiro jovial, só que o vinho e o uísque de pronto lhe faziam perder a bonomia, transformando-o num personagem intratável.
Em ambos os nossos encontros estávamos na companhia doutros, e de ambas as vezes me despedi antes do tempo, temendo que o seu modo se tornasse mais penoso do que o que já era.
Faleceu. Foi um nunca acabar de odes e panegíricos, ditirambos, coroas de louro. Como frequentemente acontece, julgando talvez que ao fazer-lhe honra partilhariam da fama, os admiradores prestaram um mau serviço ao homem e à sua obra, afirmando que com ele desaparecera “um dos maiores, senão o maior escritor do século.”
Pessoalmente correspondia a um certo retrato do escritor boémio, noctívago, forte nos copos, brilhante no chalacear, com relações por todo o lado.
Cada livro seu era acolhido em certos círculos como um acontecimento de importância invulgar, e embora nem o interesse do público nem as vendas correspondessem à expectativa, ao longo dos anos tornou-se personagem importante.
A franqueza manda dizer que nunca apreciei o seu estilo, nem os temas que tratava. Ao avesso da opinião corrente, tãopouco descobri nos seus livros daquelas centelhas que denunciam, senão o génio, pelo menos um grande talento. A sua prosa surgia-me corriqueira, os diálogos artificiais, os personagens anémicos, os seus símbolos de uma dolorosa simplicidade.
No correr dos anos, por intermédio de amigos comuns, encontrámo-nos duas vezes - uma terceira não conta, porque apenas trocámos um distraído “Está bom?" - não simpatizámos, e de ambas guardo recordações desagradáveis.
Não fazia dúvida que o homem era inteligente, narrava com verve, e possuía uma excepcional capacidade de se manter no centro da atenção. Mas se o interrompiam, logo o seu rosto parecia esvaziar-se do entusiasmo e, impaciente, puxava fumaças ao cigarro até reganhar a vez.
À mesa era companheiro jovial, só que o vinho e o uísque de pronto lhe faziam perder a bonomia, transformando-o num personagem intratável.
Em ambos os nossos encontros estávamos na companhia doutros, e de ambas as vezes me despedi antes do tempo, temendo que o seu modo se tornasse mais penoso do que o que já era.
Faleceu. Foi um nunca acabar de odes e panegíricos, ditirambos, coroas de louro. Como frequentemente acontece, julgando talvez que ao fazer-lhe honra partilhariam da fama, os admiradores prestaram um mau serviço ao homem e à sua obra, afirmando que com ele desaparecera “um dos maiores, senão o maior escritor do século.”
quarta-feira, agosto 15
Tempo quente
O casal conhecíamo-lo há uns meses, aquele género de pessoas educadas, com um verniz de cultura, as ideias e maneiras correntes na burguesia endinheirada. Ele era notário, ela ocupava uma posição mais honorífica que profissional num qualquer instituto que tinha a ver com arte e subsídios.
Vieram para jantar e a surpresa deu-se logo à entrada. Embora ainda sem exagero, ele deixara crescer o cabelo, usava agora uns óculo diminutos e, em vez do vestuário costumeiro - fato escuro de cheviote, camisa branca, gravata de seda - vinha de hawaiana, jeans, e umas sandálias abertas donde saíam, grossos e calejados, os dedos dos pés.
Ela, que sempre víramos de deux-pièces, lenço Hermès e tacão alto, vestia uma túnica informe, colorida, de decote fundo. Nos braços nus usava umas pulseiras aparentemente feitas de bolotas. Os brincos eram umas florzinhas. Segurava o que eu supus ser um alforge, de cânhamo grosseiro e desenhos de misteriosa geometria que, disse, comprara em Cuernavaca a um índio tlahuica. As sandálias, como as do marido, eram mexicanas e iguais às dos campesinos.
Provavelmente esperavam o nosso espanto, porque logo explicaram que só se vestiam assim nos fins-de-semana. Mas era engraçado, não era? Brincadeira inocente. Se bem que devêssemos concordar que havia muito a aprender com a juventude. Para nossa vergonha, essa seguia um caminho diferente, progressista, zombando das convenções e dos valores tradicionais, alegremente disposta a demolir o carunchoso edifício social.
Comemos em paz, se bem que vindas de tal gente as afirmações causassem um certo embaraço. Diziam aquilo a sério? Éramos nós irremediáveis botas-de-elástico?
A conversa prosseguiu no mesmo tom, mas em certo momento reparei que, pelo vinho ou confusão das ideias, o notário sorria esquisito e enredava-se na fala, deitando em redor um olho concuspicente.
A mulher, que tinha o desagradável hábito de comer e fumar em simultâneo, essa afastara a cadeira da mesa, cruzara as pernas e, queixando-se do calor, arregaçara a túnica bem acima das coxas. Voluntário ou não, a cada movimento os seios nus debruçavam-se-lhe no decote, e ela, ora os recolhia com um sorriso maroto, ora dava a impressão de que, pendurados, lhe não pertenciam.
Devido talvez a que a discordância das opiniões nos travasse o entusiasmo ou a vontade de reagir, a sobremesa passou-se num silêncio quebrado apenas pelos costumeiros resmungos de satisfação. Mas bebido o café, saboreado o primeiro golo de conhaque, o homem pareceu endireitar-se, pôs uma expressão séria e, sem mais nem menos, quis saber o que pensávamos da troca de pares.
Além de caber na assustadora concepção holandesa de que há virtude em ser-se directo, e debitar sem freio o que nos passa pela cabeça, depois das piscadelas, das alusões brejeiras, e aqueles seios que iam e vinham, a pergunta não era de todo inesperada. Mesmo assim fez-me engolir em seco, se bem que consegui sorrir e encolher os ombros, no íntimo a perguntar-me se, sem ferir susceptibilidades, seria possível conciliar a hospitalidade com a ironia.
Daquele embaraço salvou-me o hóspede que, do mesmo modo abrupto em que tinha entrado no assunto, igualmente lhe pôs fim. Não com palavras ou explicações, mas baixando os olhos e, um pouco depois, quando o seu mutismo começava a tornar-se penoso, com a observação de que o tempo andava excepcionalmente quente.
Vieram para jantar e a surpresa deu-se logo à entrada. Embora ainda sem exagero, ele deixara crescer o cabelo, usava agora uns óculo diminutos e, em vez do vestuário costumeiro - fato escuro de cheviote, camisa branca, gravata de seda - vinha de hawaiana, jeans, e umas sandálias abertas donde saíam, grossos e calejados, os dedos dos pés.
Ela, que sempre víramos de deux-pièces, lenço Hermès e tacão alto, vestia uma túnica informe, colorida, de decote fundo. Nos braços nus usava umas pulseiras aparentemente feitas de bolotas. Os brincos eram umas florzinhas. Segurava o que eu supus ser um alforge, de cânhamo grosseiro e desenhos de misteriosa geometria que, disse, comprara em Cuernavaca a um índio tlahuica. As sandálias, como as do marido, eram mexicanas e iguais às dos campesinos.
Provavelmente esperavam o nosso espanto, porque logo explicaram que só se vestiam assim nos fins-de-semana. Mas era engraçado, não era? Brincadeira inocente. Se bem que devêssemos concordar que havia muito a aprender com a juventude. Para nossa vergonha, essa seguia um caminho diferente, progressista, zombando das convenções e dos valores tradicionais, alegremente disposta a demolir o carunchoso edifício social.
Comemos em paz, se bem que vindas de tal gente as afirmações causassem um certo embaraço. Diziam aquilo a sério? Éramos nós irremediáveis botas-de-elástico?
A conversa prosseguiu no mesmo tom, mas em certo momento reparei que, pelo vinho ou confusão das ideias, o notário sorria esquisito e enredava-se na fala, deitando em redor um olho concuspicente.
A mulher, que tinha o desagradável hábito de comer e fumar em simultâneo, essa afastara a cadeira da mesa, cruzara as pernas e, queixando-se do calor, arregaçara a túnica bem acima das coxas. Voluntário ou não, a cada movimento os seios nus debruçavam-se-lhe no decote, e ela, ora os recolhia com um sorriso maroto, ora dava a impressão de que, pendurados, lhe não pertenciam.
Devido talvez a que a discordância das opiniões nos travasse o entusiasmo ou a vontade de reagir, a sobremesa passou-se num silêncio quebrado apenas pelos costumeiros resmungos de satisfação. Mas bebido o café, saboreado o primeiro golo de conhaque, o homem pareceu endireitar-se, pôs uma expressão séria e, sem mais nem menos, quis saber o que pensávamos da troca de pares.
Além de caber na assustadora concepção holandesa de que há virtude em ser-se directo, e debitar sem freio o que nos passa pela cabeça, depois das piscadelas, das alusões brejeiras, e aqueles seios que iam e vinham, a pergunta não era de todo inesperada. Mesmo assim fez-me engolir em seco, se bem que consegui sorrir e encolher os ombros, no íntimo a perguntar-me se, sem ferir susceptibilidades, seria possível conciliar a hospitalidade com a ironia.
Daquele embaraço salvou-me o hóspede que, do mesmo modo abrupto em que tinha entrado no assunto, igualmente lhe pôs fim. Não com palavras ou explicações, mas baixando os olhos e, um pouco depois, quando o seu mutismo começava a tornar-se penoso, com a observação de que o tempo andava excepcionalmente quente.
domingo, agosto 5
"Camel toe"
Ignorava que tivesse nome, e como fenómeno natural sempre o tinha achado deselegante, de certo modo até obsceno.
Por uma conversa entre duas desconhecidas, ouvida ontem numa esplanada, fiquei a saber que é moda, talvez no próximo Verão seja já tão corrente como as tatuagens e os piercings. Consegue-se avantajá-lo com injecções de Botox. Victoria Beckham, dezenas de stars e dezenas de topmodels todas o fizeram, basta vê-las de biquíni.
As desconhecidas gargalhavam, folheavam uma revista, de vez em quando repetiam o nome que, de tão bizarro, facilmente memorizei.
Em casa Google informou-me do que eu ainda não sabia sobre Camel toe.
Por uma conversa entre duas desconhecidas, ouvida ontem numa esplanada, fiquei a saber que é moda, talvez no próximo Verão seja já tão corrente como as tatuagens e os piercings. Consegue-se avantajá-lo com injecções de Botox. Victoria Beckham, dezenas de stars e dezenas de topmodels todas o fizeram, basta vê-las de biquíni.
As desconhecidas gargalhavam, folheavam uma revista, de vez em quando repetiam o nome que, de tão bizarro, facilmente memorizei.
Em casa Google informou-me do que eu ainda não sabia sobre Camel toe.
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