quarta-feira, maio 2

Desânimos

Nos muitos momentos de desânimo pergunto-me o que adianta recordar, pôr em escrito as coisinhas miúdas que enchem os meus dias. Contudo, é nalgumas dessas miudezas que, mais tarde, descubro uma espécie de conforto. Ou talvez seja antes a resignação de aceitar o que sou, e não lastimar o que não cheguei a ser.

Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo - agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para dizer tradu-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo, causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a impressão de que sofro de afasia.

quarta-feira, abril 18

Memórias

Tem dez anos menos do que eu, mas sempre me pareceu precocemente velho. Desde que se reformou, cresceram nele as características do ancião: caminha curvado, fala com vagar, cultiva uma surdez imaginária, oferece bons conselhos, gosta que se faça apelo à sua “vasta experiência.”
Sem que lho pergunte, informa-me que começou a escrever as suas memórias, tendo chegado à página cento e doze. Não diz mais e encara-me, mas o comentário que ele aguarda não me ocorre.
Curiosidade pelo seu opus também não tenho, e por isso ficamos num silêncio desagradável que ele finalmente quebra, dizendo que parou por se sentir insatisfeito com o que fez. Em sua opinião um livro de memórias não deve ser apenas a listagem cronológica de recordações e acontecimentos, mas possuir sobretudo um fio condutor. O que é que acho?
Sem convicção, só para evitar que o diálogo caia no que lhe agrada e a mim aborrece, “o tom literário,” respondo-lhe que sim, que também acho. Mais tarde, recordando a conversa, digo-me que na vida, e nas memórias que sobre ela se escrevem, os fios condutores são ilusão. O caos, esse sim, é real e palpável.

domingo, abril 8

Basófias

Afirmar que nas últimas décadas o mundo encolheu, é lugar-comum. Voa-se para os antípodas em menos dum dia, a televisão transmite de toda a parte em tempo real, o telemóvel como que nos tornou a todos vizinhos.
Pessoalmente acho que a nós, humanidade, nos abona pouco o avançar com tanta rapidez na tecnologia, e deixar para trás o desenvolvimento das ideias e da sociedade, condenando a maioria a viver em situações que já em séculos longínquos eram degradantes.
Constatar isto também é lugar-comum, e de nada adianta sonhar ideais num tempo que, dito moderno, progressista, a lei ainda não é ditada pelo mais justo, mas pelo mais forte.
Estas considerações vêm-me em aparte, um desvio do raciocínio, pois o meu intento era anotar a preocupação que me causam as fotografias que mostram a Terra no espaço. Ou as dos satélites metereológicos.
Olho-as e tenho de acreditar. Naquele grão de poeira (não param os lugares-comuns), que Eça definiu como “uma bola a rebolar nos céus com basófias de astro” - vivemos, sofremos, inventamos religiões e teorias da existência, esquecidos da nossa infinita pequenez.

segunda-feira, abril 2

N' "O Artur"

Ontem, domingo, hora do almoço n’“O Artur”, em Carviçais.
Uma mulher e três homens, gente de meia idade, dão nas vistas pela gosto com que comem e o muito que riem.
Terminaram. Levantam-se. Ligeiramente toldados, mas na mesma boa disposição, esperam comigo junto da caixa que Artur júnior faça a conta.
Como se aquilo lhe ocorresse de súbito, um deles pergunta:
- Oiça lá! Você é que é o Artur?
- Sou - responde o interpelado.
- É? Tinham-me dito que era mais velho!
- Deve ser o meu pai.
- Mas quem é o Artur? É ele ou é você?
- Ambos. Temos o mesmo nome.
- Espere aí! Então ele é Artur, você é Artur, e o restaurante também é Artur?
- De facto.
- Ai que caralho! Não sabia! Nunca cá tínhamos vindo! Andamos por toda a parte, mas p’ra aqui nunca tinha calhado. Sabe quem nos disse p’ra vir? Foi aquele sujeito gordo de São João da Madeira. Conhece? Um que vem cá muitas vezes com o outro, que é magro. O que deixou a mulher. Andam sempre juntos! Não se lembra? O que antes tinha a bomba da gasolina! Veja lá se se lembra!

domingo, abril 1

sms

O seu sorriso é contagioso e, meio envergonhado, diz que não tem idade para sentimentos assim, mas não resiste e conta.
Não se conheciam. Tinham combinado encontrar-se a meio da manhã em Mirandela. Almoçaram demoradamente na Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros. Pararam depois num desvio da estrada e viram passar um rebanho, as ovelhas com uma lã cinzenta que para ambos era novidade.
Continua a sorrir, diz que no regresso a Mirandela, fazia frio, mas mesmo assim escolheram um banco na alameda junto do rio. E aí ficaram, não sabe quanto tempo.
Despediram-se. Cada um para seu lado. Mais tarde sentira o telemóvel vibrar.
Suspende a narrativa, mas o sorriso como que lhe ilumina a face quando agora liga o aparelho e me dá a mensagem a ler:
“Um dia inesquecível! Para recordar a vida inteira. Eu já cheguei. Beijinhos.”
Quer que eu comente. Ignoro os detalhes, mas digo-lhe que sim, deve ter sido lindo.

Navegação


A partir de hoje e quando o vento for de feição, durante os próximos três meses a barca retoma o navegar, agora num dos seus trajectos favoritos: entre Miranda e a Foz do Douro.

sexta-feira, março 23

Pausa

O timoneiro viaja amanhã para a terra onde nasceu, pelo que durante coisa de uma semana esta barca suspenderá a navegação.

Partida

Vou amanhã para Portugal. Desde há alguns anos a véspera de cada viagem para lá, ou de volta, tornou-se involuntariamente num momento de melancólica reflexão sobre a minha pertença a dois países, a duas línguas, a duas sensibilidades, a duas tão diferentes maneiras de existir, agir e pensar.
Umas vezes digo-me que enriqueci o espírito, noutras tenho a impressão de que me amputei. Ora me regozijo com as vantagens deste duplo pertencer, ora me amarfanha a certeza de que em parte nenhuma pertenço por inteiro. Tenho consciência de que constantemente ganho e perco, mas sem que o ganho traga satisfação ou a perda se mostre irremediável.
Talvez por isso só na língua materna encontro a estabilidade que no resto me falta. E parafraseando Pessoa - “A minha pátria é a língua portuguesa” - de verdade ela para mim não é apenas idioma, modo de expressão, mas como que um lugar, por vezes mesmo um refúgio.

quarta-feira, março 21

E-mail

Mesmo sem lhe mencionar o nome, falar dele aqui causa-me desconforto. Porque é homem bom, atencioso, prestável. Defeitos com certeza terá, mas no trato só se lhe descobre o de comer em quantidades pantagruélicas.
O que agora lhe aponto mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa.
Antigamente fazia-o por carta. Uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas desde que descobriu o correio electrónico, a sua sede de comunicar passou de bimensal a diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva eternidades a receber os megabytes.
É também estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2017 aos monges voadores do Tibet. E mais, cansativamente mais.
Depois, ou porque quer assim, a mostrar o vasto círculo dos seus corresponentes, ou porque desconhece como eliminá-la, as suas mensagens terminam com a lista de todos endereços para onde as envia.
No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que as não mandasse a mais de dois ou três. Mas o computador abriu-lhe perspectivas inesperadas. Recebido a noite passada, o seu último e-mail, alargando-se em considerações sobre a pena de morte, a economia do Irak, os livros de Paulo Coelho, os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, a eficácia da Coca-Cola no tratamento da diarréia, o escuro site de Dolce & Gabbana (http://www.dolcegabbana.it/ ), conta nada menos de sessenta e um destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com.

domingo, março 18

Cântico dos Cânticos

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.

Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.

sexta-feira, março 16

Doutores

Para mudar de assunto ou pôr fim a um silêncio insólito, às vezes para despoletar uma situação incómoda, ocasiões há em que me vejo no papel de contador (quase) compulsivo de anedotas.
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.

Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.


O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.

quinta-feira, março 8

Comadres

Dava-se-lhes o nome de cronistas. Escreviam nos jornais uns textos curtos, ora comentário, ora observação ou relato. O tom era o da seriedade, a prosa cuidada, o proveito duplo, porque o lê-los era uma aprendizagem e os seus temas obrigavam à reflexão.
Sob a influência generalizada do inglês, desde há anos que se passou a chamar-lhes colunistas. O tom agora é ligeiro, a prosa descuidada, no melhor dos casos banal a temática. No pior descem à mexeriquice, e quando a mexeriquice falta escrevem uns sobre os outros. “Como dizia fulano na sua coluna de ontem... A perspicaz análise que hoje se lê na coluna de sicrano... ” *)
Assim cavam os jornais a própria cova, servindo-nos, requentado, o noticiário que ontem à noite vimos na televisão, enchendo o resto das páginas com textos banais e fotografias inúteis.
O jornal, que no passado a opinião pública considerava um cavalheiro, tornou-se uma comadre.
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*) Interessante desenvolvimento: os bloguistas vão por caminho igual. Em bom número de blogs nota-se uma demasia de abraços, parabéns, citações, palmadinhas nas costas, com o correspondente e inconfundível cheiro a capelinha.

quarta-feira, março 7

Larachas

Exceptuando um ou outro pesadelo, os meus sonhos quase sempre me têm sido uma excitante forma de exploração psíquica, tanto mais que em geral guardo deles recordações vívidas.
Nessa muito presente lembrança reside talvez a origem do bizarro fenómeno a que por vezes me sinto sujeito. Acontece que durante certos sonhos tenho consciência de sonhar de novo sonhos anteriores, o que me transporta para uma inquietante duplicação da memória, do sentido da realidade e do eu, e ao mesmo tempo me impede de saber se, como suspeito, apenas uma parte de mim sonha, enquanto outra espreita insondáveis mistérios.
"Larachas", comenta um conhecido a quem falo disto. E embora saiba que não me convence, tenta acertar uma mocada definitiva na minha fantasia, acrescentando: "Isso provavelmente é a consequência de refeições pesadas. Uma questão de química."

domingo, março 4

Sessões de autógrafos

Nijmegen. A mesinha com os livros para autografar está à direita da entrada. Sento-me e agora é esperar. Inconfortável, a posição de manequim de vitrina. As pessoas vão chegando, olham e compram, ou só olham. Há os tímidos, que de longe observam a cena e depois de alguns rodeios se aproximam como que por acaso, afectando desinteresse.
Chega mais gente. Alguns arriscam um cumprimento, palavras de apreço, e finalmente surge o inevitável tarado. Com o ar decidido de quem sabe ao que veio, anuncia-me que quer comprar um exemplar, mas sob uma condição: que eu escreva numa das páginas em branco um comentário pessoal, de preferência irónico ou malicioso, sobre um escritor vivo.
Respondo-lhe mal humorado com um redondo não. A tentar convencer-me, o homem diz que estranha a minha atitude, pois até à data escritor nenhum recusou satisfazer o seu pedido. Atente eu que a negativa significa que não estarei presente na sua interessante, e um dia valiosa, colecção de volumes comentados.
Dá-me vontade de mandá-lo àquela parte, mas o lugar e a presença doutros obrigam a que me contenha. Repito-lhe que não e de súbito é como se estivéssemos numa feira:
- Palavra que não quer escrever? Só umas linhas? Olhe que se arrepende. Vou-me embora e não compro livro nenhum.

Uma espécie de Feira do Livro num dos canais de Amsterdam. Estou sentado entre uma parede e uma mesa com alguns livros meus. A multidão passa, ininterrupta. De vez em quando alguém pára, folheia, olha os livros, encara-me, sorri. Um diálogo de surdos-mudos.
Uma mulher agarra um livro, abana com ele a chamar a minha atenção e pergunta:
- O senhor fala holandês?
No mesmo momento em que lhe respondo ela pousa o livro e, sem me encarar nem reagir, volta-me as costas.
Um casal. Acenam de longe, sorrindo com simpatia. Aceno e sorrio também. Param, voltam atrás, o homem grita por cima das cabeças:
- Hoje de manhã comprámos um livro seu.
- Obrigado.
- E vamos lê-lo.
Que responder?

No mesmo lugar, à mesma mesa. Dois sujeitos aí duns trinta anos param, folheiam distraidamen­te os livros - que procurarão ao fazer correr assim as páginas? - pousam-nos, pegam noutros. Um deles abre um livro meu, olha a capa, revira-o e, apontando-me como se eu fosse uma figura de cera e não um ser vivo ali a metro e meio deles: - Já leste alguma coisa deste gajo?

Leiden. Imóvel e silenciosa, uma mulher observa-me há minutos. Aquilo começa a tornar-se desagradável. Levanto-me para alcançar o livro que um rapaz me entrega para autografar, e nesse momento a mulher desperta, sorri, e diz-me contente: - Enganei-me! Julguei que fosse mais alto!

Amsterdam. “Mercado das Letras” no Bijenkorf. Somos mais de cinquenta, sentados atrás de mesas onde os nossos livros se empilham. O público passa durante três longas horas. Incessante­mente. Milhares de rostos. De vez em quando alguém folheia um livro, compara o retrato do autor na contracapa com a cara da realidade, ou pede um autógrafo, tira uma fotogra­fia.
À minha direita uma senhora especializada em obras de etiqueta. À minha esquerda uma escritora americana diz que não aguenta tanto tempo sem fumar, e fuma às escondidas com uma satisfação de criança maliciosa, soprando o fumo para o soalho.
Um coleccionador não quer apenas um autógrafo, mas pede - não pede, exige! - também um desenho. Como não quero, nem sei o que desenhar, ele diz que nesse caso também não precisa do autógrafo. Assim seja.
As balaustradas dos andares superiores estão cheias de um povo que se contenta com olhar para baixo e ver tanto crâneo de literato.

- Diga-me uma coisa: aquelas peripécias dos seus contos aconteceram mesmo?
Santa inocência! Esperar que um escritor escreva a verdade, quando para ele o que mais conta é a arte. E na arte a verdade não passa de um acessório menor.

sábado, março 3

Prefácios

Se há tarefa que, garantido, me põe de mau humor, é a de escrever prefácios. Dois, desde o princípio do ano. Ambos pelo medo de parecer grosseiro ao recusar um favor a quem tão abertamente o pede. E vá de pensar frases torneadas de modo a que as opiniões pareçam objectivas e os elogios sinceros. Esforço que resulta em dores de cabeça, raivas surdas, em pontapés no vazio e promessas solenes de nunca mais.
Um álbum de pintura. Quadros que nada me dizem, quanto mais os olho, mais nevoentas se me tornam as ideias. Sentindo-me tolo e, pior, hipócrita. Alinho frases sobre a harmonia dos coloridos do artista, a tensão que soube emprestar aos volumes, “o refinado tratamento do chiaroscuro, com reminiscências de Caravaggio e Rembrandt.”
Um livro de reportagens fotográficas. Retratos. Cenas de rua. Fotografia inexpressiva, de efeitos pretensiososos. Para não cair de desespero e frustação, apoio-me em Stieglitz, Kertész, Atget, Cartier-Bresson, ao mesmo tempo que olho de lado, involuntariamente receoso de ouvir já as gargalhadas que vão dar os que por acaso lerem as minhas asneiras.
O prefaciado, esse de certeza vai gostar. Cumprimentos, merecidos ou não, comparações com os grandes, tudo lhe será bálsamo. Virá depois citado nos anúncios e nos cartazes que evitarei olhar, para que não se reacenda a vergonha do meu fingimento.

sexta-feira, março 2

Entretém

Até à data a minha memória funciona sem que dela tenha razão para me preocupar, pois mostra-se pronta a fornecer os dados, os nomes, as vivências e as recordações que lhe peço.
Tenho, contudo, a suspeita de que esta memória é diferente daquela com que nasci e durante tantos anos me serviu. Não digo que me negue serviço ou se tenha tornado lenta, mas como que se lhe acrescentou uma dimensão crítica que antes não possuía.
Assim, quando por vezes, saudosista, quero relembrar uma data, uma conversa, é como se no íntimo uma voz se interpusesse, perguntando com rispidez que necessidade tenho desssas informações. Se me tornei incapaz de separar o trigo do joio, o importante do banal. Se para mim, em vez de uma função, o recordar passou a ser um jogo, um entretém.

quarta-feira, fevereiro 28

Diários

Há diários importantes, e os que são apenas interessantes. Há-os íntimos, alguns dolorosamente francos, outros mascarados. Os que são escritos para ferir, e os que são escritos para recordar.
O meu, suponho, cabe mal nas categorias acima, pois menos que uma anotação de factos e pensamentos, o vejo, sobretudo, como um anseio de conversa.
A conversa que me imagino a ter com alguém de carne e osso, numa dessas amizades com empatias sincrónicas e harmonias duradouras. Amizades ideais que de certeza alguns ressentem e mantêm a vida inteira, mas que a mim não couberam. E nesta altura é improvável que me venham a caber, pois a idade - pelo menos no meu caso - à medida que aumenta a impaciência e o sentido crítico, vai reduzindo a capacidade de desculpar.
Que isto é meio caminho andado para a solidão, sei-o de há muito. Mas tanto quanto dela tenho experiência, também aprendi que os males da solidão são relativos, pois com livros e fantasia é que se criam mundos à medida do nosso sonho. O que não impede que o sonho seja faca de dois gumes: nas satisfações que dá pesa sempre a impossibilidade e, ao acordarmos dele, a ânsia do que se não possui ou se não alcançou dói ainda mais fundo.

sábado, fevereiro 24

Ingenuidade e igualdade

Questão de boas maneiras, empatia, concordância de opiniões, num primeiro contacto oferece-se-lhes aquele intimidade espontânea que vem do coração. Alguns compreendem-no, reagem do mesmo modo, e assim nascem, senão amizades, pelo menos aquelas relações que tornam agradável a vida em sociedade.
Outros, porém, vêem na simpatia que inesperadamente recebem uma tibieza e, talvez por instinto animal, logo em coisas diminutas dão mostras de nos quererem torcer, dominar.
De começo envolvem as suas manipulações em sorrisos e cortesias, mas à medida que avançam permitem-se umas gotas de veneno, uns toques de sarcasmo, um arranhar de unhas. Até que ousam passadas mais largas: escreveste isto, era melhor teres escrito aquilo; fizeste assim, devias ter feito assado... É o momento de travar e, porque sempre vão longe demais, da irremediável separação.
- Mas vocês eram amigos!
- Penso que não. A verdadeira amizade pressupõe ingenuidade e igualdade.

sexta-feira, fevereiro 23

Amar menos

Ela diz:
- Sinto que o amo menos agora do que há três anos, quando voltámos para a Holanda.
Aceno compreensivo, mas no íntimo pergunto-me: entre amar menos e já não amar, qual é a diferença?

quinta-feira, fevereiro 15

Pessoa? Personagem?

O que foi alegria, excitação, entusiasmo, tornou-se aborrecimento e desânimo. Hoje detesto viajar. Entro nos aeroportos com a fúria impotente de quem se vê obrigado a ser do rebanho.
As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente.
Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras.
A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos.
Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que, pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.

quarta-feira, fevereiro 14

Dois momentos

Ele aperta os lábios, como quem fala em itálico, e lecciona que no blog e no post são elementos essenciais a rapidez, a concisão, o punch. Com a minha idade eu deveria saber isso. Textos como os que aqui ponho são demasiado longos, dum conteúdo irremediavelmente arcaico.
Respondo-lhe, frouxo, que não está no meu poder rejuvenescer-me. Esqueci-me de acrescentar que cada pássaro canta conforme o bico que Deus lhe deu.
…………………..

Imre Kertész (Nobel 2002) entrevistado na TIME desta semana:
"What is your workday as a writer like? If you recorded the day in a life of a writer you would be disappointed. He makes coffee, he looks out the window, he does everything but write. But despite these everyday failures, something still comes out of it."

sábado, fevereiro 10

No século XX Anno Domini (1)

Sentado na moleza do departamento comercial da embaixada do Brasil (Vondelstraat 10 – Amsterdam), ignorei a Holanda, fui uma vez de corrida ao Rijksmuseum, outra a Volendam, a aldeia de pescadores que passa por turística; frequentei Zandvoort, o Estoril de Amsterdam, onde nesses tempos distantes (1956) o hotel Bouwes oferecia aos domingos Thé Dansant et Variétés.
A nossa preocupação maior era a fragilidade do câmbio dos cruzeiros em dólares; as ocupações mais pesadas os jantares com o embaixador; os nossos pânicos as visitas da embaixatriz, que sabia de Arte e a quem, por turno, tínhamos de acompanhar aos antiquários e aos leilões.
Preguiçoso, desinteressado, considerando a minha estadia de pouca dura, perguntava de vez em quando aos colegas, que estavam aqui há anos e deviam saber:
- Mas afinal, como é a Holanda?
Eles, mais ingénuos do que eu supunha, explicavam, simplificando: as holandesas dividiam-se em duas categorias, as com quem se tinha ido para a cama e as que estavam para ir; os holandeses numa categoria única: a dos bananas. O país, uma maçada. A comida, um nojo.
Acrescentavam depois a Família Real - "a mais rica do mundo!"- a Shell, a Philips, a Unilever, os diques…
Temendo o frio, desconfiando da língua rebarbativa e do ar fechado dos passantes, financeiramente esfolado por senhorias que tinham elevado a arte de esfolar à suprema perfeição, limitava-me ao convívio dos colegas. Divertia-me com a basófia do chefe, contando como em Brasília o presidente Kubitschek lhe tinha batido no ombro, dizendo : ‘Éscuta, Jorge!...” Ria, como quando acompanhei o cônsul a um hotel para organizar uma festa, e ele perguntou ao homem que nos atendeu:
- Quem é você?
- Sou o recepcionista.
- Chame o director! Eu só falo de governo para governo!
Havia ainda o Cunha que, depois de vinte e cinco anos nas Águas e Esgotos de Petrópolis, tinha sido ‘empistolado’ para a embaixada em Lisboa. Mas o ‘pistolão’ enfraquecera com a mudança da política, e o seu calvário, arrastado por Madrid e Génova, ameaçava durar em Amsterdam.
Como o ministro não se condoía, nem o transferia para Lisboa, onde o esperava uma Rosa Simões, remetia ele, em cartas registadas e express, fotocópias dos atestados médicos que garantiam a veracidade de dois enfartes, acrescentando-lhes em maiúsculas a tinta vermelha: ‘V. Exa. ficará com a minha morte na consciência!’
Assim, no centro de Amsterdam, eu "vivia" de facto no Brasil, ocupando horas a escrever aos amigos, a rabiscar de longe a longe um relatório, a alinhavar romances que nunca terminaria, bebendo cafés sem conta, exausto quando por volta das cinco saía para a ronda obrigatória dos drinks, das recepções e dos jantares.

sexta-feira, fevereiro 9

Amigo perdido

São três da tarde e faço compras na vila. Ao acaso das minhas voltas passo por um desses cafés penumbrosos, tristonhos, daqueles que se pergunta a gente como conseguem sobreviver. Olho para o interior no instante da passagem. A cena grava-se-me indelével, continua a mortificar-me.
Ele é o único cliente e está sentado a uma mesa no meio da sala, meio de costas para a rua, na mão o copo de cerveja que leva à boca. Atrás do balcão o proprietário enche outro copo.
Mais tarde hei-de vê-lo na praça, num caminhar incerto, o seu rosto com a cor arroxeada dos alcoólicos inveterados. Sob o braço segura a pasta com que se dá a ilusão de que nela guarda os processos que irá levar ao tribunal.
Foi brilhante, mas agora é advogado só de nome. Causas não tem. Quem o conhece acena de longe, evita a sua companhia. Solitário, violento, vai de café para café, de copo para copo, até que ao fim do dia, comatoso, se arrasta para casa. Triste sina para um amigo de quem tanto se esperava, e aos quarenta e oito anos se tornou um farrapo humano, um fantasma de si mesmo.

quinta-feira, fevereiro 8

Corno cínico

“Os cornos são como os dentes: doem ao crescer, mas depois é com eles que se come."

terça-feira, fevereiro 6

Outro aniversário

Curiosa sensação, a dos aniversários. Ver-me velho, quando tenho tão presente a memória do tempo em que os trinta e três anos que Cristo contava, quando o crucificaram, me pareciam uma idade de Matusalém.
É essa uma das poucas vantagens que a velhice tem: poder viajar no tempo. Não como o faz a juventude, com o privilégio de ansiar pelo futuro, mas ironicamente em marcha atrás. Recebendo lições de modéstia, deixando pelo caminho as certezas que o não eram, rindo de ter tomado a sério a palavra eternidade.
A caminho dos setenta. A idade que ambos os meus avós não alcançaram, e a dois passos da de meu pai quando faleceu. Contas que faço involuntariamente, e que são ao mesmo tempo temor e exorcismo, a busca de não sei que garantias de precária sobrevivência. A sopesar se me restam ainda cinco, dez, quinze anos, ou se amanhã - nunca hoje, sempre amanhã! - a Parca se canse de dobar o meu fio e o corte duma tesourada.

Que terá sido?

O estranho modo com que certa gente entra e sai da nossa vida. Não falo dos amigos que se perderam de vista, dos que se nos tornaram indiferentes ou inimigos, mas daquelas pessoas que como que nos assaltam com a sua amizade e são tudo empatias, concordâncias, atenções, carinhos. Até ao dia em que, sem razão aparente, parecem levar sumiço.
Encontrámo-nos depois por vezes numa rua, num café, ao acaso duma cerimónia. 'Há que tempos que não nos vemos!' Embrulham-se em desculpas frouxas sobre as andanças da vida, os afazeres, complicações. Mas a pergunta fica: ao que é que não correspondemos? O que é que nos quiseram dar ou queriam receber que nos escapou? O que é que não somos, e eles julgaram que éramos? O que é que em nós lhes meteu medo?

segunda-feira, fevereiro 5

Aniversário

Foi o dia em que, oficialmente, entrei na velhice, mas nem eu pranteei nem os céus trovejaram, e o dia passou como a maioria dos dias passa: corriqueiro e calmo.
Se o corpo ou o intelecto funcionassem mal, se a minha alma andasse desvairada, se um drama ou a miséria me ameaçassem, eu teria razões de queixa.
Como nada disso acontece, só tenho motivos de inquietação: o de ignorar donde venho, o de não saber quem sou, o dar-me conta de como o tempo de uma vida é um instante irrisório, a incerteza do que será o meu destino, o mistério do que fica para lá do fim.

Cigano

Poucos haverá de feições assim aristocráticas e um olhar que parece indiferente à hostilidade do mundo. A roupa também o não denuncia, porque da que lhe dão por esmola nas casas abastadas, ele escolhe infalivelmente a que, pela cor e o corte, o tornam quase elegante. Usa chapéu de aba larga debruado a couro, boas botas.
Mau grado tudo isso José Lindo é inegavelmente cigano, e o mais trágico de todos, pois vagueia sozinho desde que muitos anos atrás, por razões que nunca disse, a sua família e a tribo o expulsaram. Na nossa aldeia pára às semanas, talvez porque não precise de ir de porta em porta a pedir esmola, pois quando chega a hora há sempre uma mulher que lhe leva um prato de comida ao banco ou à soleira onde ele se senta amodorrado.
Dorme onde melhor lhe calha, ao ar livre, debaixo dos alpendres, nos palheiros; se o tempo fica mau abriga-se numa casa abandonada e acende lá uma fogueira.
A velhice e as agruras devem-no ter transtornado, com certeza a razão porque deixou de fazer os cestos com que ganhava alguma coisa. E pouco fala. Tem alturas em que nem sequer responde a quem lhe dá as boas horas.

domingo, fevereiro 4

Circo

Encostaram às traseiras da capela uma roulotte caduca, as paredes enfeitadas com bonecos pintalgados. Uma fieira de lâmpadas vermelhas faz um arremedo de arco festivo. Pergunto aos vizinhos do que se trata e eles respondem-me que é um circo. Depois, com um sorriso malicioso:
- Não vá julgar que é como os de antigamente. Este é moderno. No princípio fazem um bocado de ginástica, mas depois abrem as goelas à música e ficam as gajas a cantar e a dançar. Meio nuas. Com um panito a tapar-lhes as vergonhas. Venha logo à noite e vai ver que é como na cidade.
Prefiro não ver. Quero guardar inteira a recordação de quando os saltimbancos vinham com uma caravana de burros carregados de atributos e, no mesmo lugar, espetavam os paus em que firmavam o trapézio. Depois saltavam, giravam, contorciam-se, tiravam dinheiro do nariz das pessoas, cuspiam fogo, faziam a pirâmide humana...
Não quero ver mulheres meio nuas a cantar e a dançar. O que nunca mais acontecerá, e eu gostaria de voltar a ver, era aquela menininha que teria então a minha idade e, gracil­mente, erguia um arco no ar, por onde um cão saltava cada vez que ela lhe gritava: 'Allez, hop!'

Gondarém

Gondarém. A matar saudades, vou-me hospedar na casa em que passei os anos melhores da adolescência, agora transformada em estalagem. E, como faço das outras vezes, peço que se está desocupado me dêem o quarto do torreão, que foi o meu.
Entro nele com a esperança sempre repetida de que, estando ali, verei um dia abrir-se de par em par as portas que me impedem de ver claro no meu passado. Esperança vã.

sábado, fevereiro 3

Heavy metal

… Purcell, Monteverdi, Bach, Mozart… Nomes que involuntariamente me ocorrem durante um concerto de Pergolesi.
Divago.
Desde a invenção do gramofone podemos ouvir mais concertos em dias, do que antes ouvia um músico durante a vida inteira. Mas que benesses nos vêm das imensas e esplêndidas possibilidades que entretanto criámos?
… Funk…Grunge…Hiphop… Heavy metal…

sexta-feira, fevereiro 2

Johnson

"A gentleman who had been very unhappy in marriage, married immediatly after his wife died: Johnson said, it was the triumph of hope over experience."

in Boswell's Life of Johnson

Pavilhão Chinês

Fim da tarde. Chovisca. Deixo o Jardim de Alcântara e subo até ao Pavilhão Chinês.
Sento-me perto da porta, bom lugar para melhor me entreter com a colecção de bric-à-brac. Peço uma cerveja.
Pouca gente. De ar absorto, uma encarnação de pintor boémio fuma cachimbo, faz caretas de desdém, sopra o fumo para o tecto. Num canto da sala duas lésbicas. No canto oposto uma rapariga sueca bebe Campari e fuma. Digo rapariga, porque na idade a que cheguei toda a mulher com menos de quarenta anos é rapariga; e sueca, porque o loiro dos cabelos, as suas feições, o rosto, o corpo, a maneira desenvol­ta, e o Aftonbladet aberto sobre a mesa, razoavel­mente confirmam a nacionalidade.
Olho distraído os cartazes, as vitrinas, o cubículo ao fundo donde vem o som de riso abafado. Um tilintar de copos.
A sueca vai-se embora. As lésbicas trocam carícias, indiferentes ao olhar zombeteiro do empregado. Uma delas, alta e magra, vestida com um masculino fato preto, gravata idem, cabeleira de azeviche, maquilhagem esbranquiçada, tem um ar de fantas­ma teatral. A companheira, rechonchuda e coquette, é do tipo sofredor.
Bebo outra cerveja. Dois alemães de meia idade espreitam à porta, arriscam uns passos na sala, olham em volta com o ar de quem teme ter entrado por engano num lugar de má nota, e desaparecem silenciosamente.
Pago e saio atrás deles. Parou de chover. Volto ao jardim.

quarta-feira, janeiro 31

A lei

Por vezes tenho invejo de meu pai. Circunstâncias várias fizeram com que a sua vida não fosse feliz, mas pelo menos pôde vivê-la de acordo com o carácter que tinha: o seu deus era a lei, a sua missão o fazer cumprir a lei e punir os transgresso­res, o seu gosto maior o de ver a lei cumprida.
Eu não tenho deus, não tenho missão, e quando cumpro a lei sinto-me quase sempre contraria­do.

terça-feira, janeiro 30

Jesus está vivo!

Aí duns trinta anos, alto de quase dois metros, rosto e crâneo redondos, provavelmente nativo do Ghana. Parou no passeio oposto com a bicicleta pela mão e, voltado para mim, gritou qualquer coisa que não compreendi.
Pedi-lhe que repetisse. E ele repetiu, mas de novo me escapou. Talvez quisesse perguntar o caminho. Atravessei a rua:
- Diga.
- Jesus está vivo!
- Hmm…
- Você com certeza não crê. Não tem cara de crente.
- Olhe que creio.
- Mas não vai à missa.
- Vou sim.
- Então até domingo.
- Até domingo.
A minha mulher não gostou de me ouvir dizer que era crente e ia à missa. Pareceu-lhe uma pouca-vergonha. Mas que fazer em semelhante caso? Levantar questões teológicas com um desconhe­cido, provavelmente transtorna­do? Acirrar-lhe o fundamen­talismo, ou pior : a loucura? Com uma mentira inócua foi ele em paz, fiquei eu em paz.

segunda-feira, janeiro 29

Coincidências, recordações, lugares

Quatro pessoas. Três histórias.

Ele diz: - A minha vida decidiu-se numa tarde, em Janeiro de 91, em Zurique, no bar do hotel Bauer au Lac. Durante uma conversa entre dois amigos, a que assisti pelo simples acaso de lá ter entrado nesse momento, e a qual, inicialmente, nada tinha a ver comigo. Estranho, não é?

- Vai fazer quase dez anos - conta ela. - No Hotel Tivoli, em Lisboa. Ia deitar-me quando dei conta de que tinha esquecido um recado a um colega que também lá estava hospedado. Ainda me lembro do número do quarto, o 703. Liguei umas quantas vezes, mas como o telefone continuava ocupado, resolvi bater-lhe à porta. Ele veio abrir e, ainda a falar com o aparelho na mão, acenou-me para que entrasse. Se nesse instante me tivessem dito que, passado coisa de uma hora, o meu destino estava marcado, eu acharia uma tolice.

O casal sorri, hesita. A mulher acena-lhe. Finalmente é ele quem fala:
- Deve ter sido predesti­nação. Nós mal nos conhecíamos e da primeira vez fomos castos, trocámos um beijo. Na tarde seguinte en­contrámo-nos no que então se chamava uma maison de rendez-vous. Suponho que a expressão e o fenómeno se acham ultrapassados, mas também é facto que isto aconteceu há séculos. Aí, nessa tarde, as nossas vidas levaram uma reviravolta definitiva. Lembro-me da rua e do número: Heren­gracht 341, em Amster­dam. Anos depois a casa tinha sido transformada em hotel. O quarto é fácil de reconhe­cer: fica no primeiro andar, é o único com varanda para o canal.

domingo, janeiro 28

Experiência

A sua voz aguda irrita-me. O ele insistir em que aprende muito com os jovens, irrita-me ainda mais. E acho patético, de certo modo até suspeito, o querer aprender com aqueles a quem falta a experiência.

sábado, janeiro 27

Yes. One beer, please

O lixo da memória

Porque será que certas imagens do meu passado mais remoto se gravaram na memória e constantemente vêm à tona como se tivessem um significado especial?
Um elétrico vazio num fim de linha, em Lisboa. Dois homens numa esplanada. Uma bicicleta verde encostada à parede da estação de Haarlem. A balança de uma mercearia. A porta de uma garagem em Angoulême. Um coreto. Uma ferradura gasta caída num caminho pedregoso. A lâmina de um canivete... Será possível que recor­dações tão banais encerrem uma forma de mensagem? Existirá um lixo da memória impossível de incinerar?

sexta-feira, janeiro 26

O espírito do tempo

Embora saiba que não me dá novidade, mas numa tentativa de me tirar do que considera uma excessiva letargia, ela diz:
- Podes discordar, mas olha à tua volta. O escritor tem de se promover a si próprio, promover os seus livros, a sua imagem de marca. Não quero exagerar, mas a imagem do escritor tornou-se mais importante do que a qualidade daquilo que ele escreve. Essencial é que se mostre, participe, se distinga como personagem.
De facto assim é e ela tem razão. Cafés, tertúlias, as manifestações e os encontros, as amizades, os contactos, os jornais, as revistas literárias, a televisão : em todos esses lugares e meios o escritor deve estar presente a vender o seu peixe. Excentricidade no comportamento também ajuda.
Mas que fazer quando, como a mim, faltam as qualidades precisas? E que não faltassem, para assustar basta ver aqueles que, ano após ano de promoção, não conseguem vender um livro nem criar um nome e, em vez dos escritores e poetas que julgam ser, são simples figurantes nos shows patrocinados pelo espírito do tempo.

quinta-feira, janeiro 25

Sorrir, e depois votar SIM

Heróis

Nunca soube mandar, nem nasci com carácter para obedecer, mas houve um tempo em que tive heróis - ou devo dizer ídolos? Homens que aos meus olhos, pela sua inteligência e arte, a firmeza das convicções, se colocavam tão acima do comum que eu me sentia privilegiado de poder admirá-los.
Talvez porque morreram num momento em que a minha admiração era inabalável, a imagem dalguns deles permanece quase intocada. As estátuas que me fiz dos outros, expostas à passagem do tempo e à mudança do meu ver, foram aos poucos minguando em tamanho.
Hoje em dia ainda me vêm acessos de admiração, ainda me maravilho, mas sem ter quem me mostre o caminho, ou me conforte com a esperança de certezas, a jornada perdeu o mistério de antigamente. Também já não corro, ansioso por descobrir. Vou sozinho e a passo, com o sentimento de que os dias se repetem numa infinda monotonia.

quarta-feira, janeiro 24

Wrong dreams

Talvez como compensação para um dia-a-dia em que são escassos os acontecimentos dignos de nota, quase todas as noites sonho. Mas os meus sonhos raramente são calmos e felizes, povoam-nos medos, perigos, abismos vorazes.
No sonho desloco-me para paragens onde nada se acomoda aos padrões da realidade: nem as gentes, nem os animais, as plantas, a paisagem ou as circunstâncias. E contudo, mau grado os medos e a estranhe­za, nesse mundo deformado sinto-me mais completamen­te eu, mais alerta e senhor de mim, do que quando ao acordar me vejo de retorno ao mundo real.

A minha vida costumo dividi-la em antes e depois da Holanda. Os primeiros vinte e seis anos do antes foram indubitavelmente os mais ricos, os da aprendizagem de mim mesmo e do mundo, os das viagens, das descobertas, do enriquecimento do espírito - mas também anos infelizes.
Os anos do depois foram sobretudo de sedimentação. Sentimentos, conhecimentos, ideias, sensações, tudo se foi lentamente acamando na formação do eu adulto.
E porque me sei mais feliz agora do que o fui na juventu­de, ou melhor, porque a felicidade veio quando eu já desistira da esperança dela, tenho por vezes a impressão de que, por um desleixo do destino, a minha existência se desenro­la às avessas­. O que ardentemente desejei quando tudo me parecia uma ascensão, foi-me negado. O que em seguida recebi, e não considero pouco, veio tarde demais para que o soubesse e pudesse gozar em pleno. Assim, embora de mãos cheias, quando olho para a vida que até agora tive sinto-me the wrong man in the right place, at the right time, with the wrong dreams.

segunda-feira, janeiro 22

Boa notícia

Carta de minha mãe (*) o ano passado. Que estava à noite a ver a televisão e de repente teve a surpresa de lhe aparecer o filho no ecrã.
Eu não lho tinha dito, para que, no caso do programa não ser transmitido, lhe evitar a desilusão. Mas alegrou-se ela, alegrou-se o povoado. Só que, de tão confundida com o ver-me inesperada­mente, não foi capaz de ouvir tudo o que falei. Contaram-lho depois os vizinhos.
Todavia, como por milagre, ouviu perfeitamente que eu disse que queria ser enterrado na aldeia. E num inconscien­te acesso de humor negro, acrescenta esta novidade: 'Por acaso andam a aumentar o cemitério'.
..............
(*) Quase centenária, continua em seu juízo, lê sem óculos.

Inveja

Invejo os que se marcam um destino, escolhem uma carreira, os que têm na vida um fito. Invejo os que são capazes de dedicar anos a uma única tarefa, seja ela a construção de um veleiro miniatura dentro de uma garrafa, a pesquisa dos abismos do oceano ou a contagem das espécies de borboletas.
Invejo-os porque suponho neles uma força que não tenho, uma estabilidade do ser que não conheço. Mesmo os livros que escrevi não me dão a ideia de obra acabada, antes me parecem espasmos de um espírito que não sabe como exprimir a sua inquietude.

Orgulho

Mesmo os gémeos nunca são idênticos, e ainda bem, pois a menos que um meteorito esbarre com o planeta, ou uma catástrofe semelhante nos varra definitivamente dele, nunca faltarão razões de nos maravilharmos com o género humano e a infinita variedade dos seus sentimentos.
A do orgulho, por exemplo. Há o orgulho clássico de quem gerou um filho, plantou uma árvore ou escreveu um livro. O orgulho dos generais que venceram no campo de batalha e o orgulho dos que venceram na vida, dos que fizeram descobertas essenciais, dos que realizaram os seus sonhos. O orgulho dos heróis e dos capitães de indústria. O orgulho dos campiões, dos que aprenderam sozinhos a tocar trombone, dos especuladores, dos confeiteiros...
A senhora foi deputada. Boa ou má, competente ou nulidade, pouco interessa. O que me maravilha é a sua repetida afirmação de que se orgulha de que, no parlamento holandês, ninguém antes dela tenha proferido a palavra “cona”.

domingo, janeiro 21

O tempo de um Verão

Amámo-nos apaixonadamente o tempo de um Verão da nossa adolescência. Esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, a beleza do liceu tinha desdenhado de todos os preten­dentes e preferido a ovelha negra que eu era.
Amámo-nos apaixonadamen­te esse Verão, mas a diferença social entre nós era tão grande que os pais, assustados, a mandaram para um internato longínquo, com freiras e disciplina.
Usando de artifícios ainda conse­guimos trocar algumas cartas, mas logo nos demos conta de que uma paixão como a nossa não tinha futuro.
Depois o acaso fez com que um dia nos encontrássemos numa estação à espera do mesmo combóio e, durante as horas que viajámos juntos, voltámos a amar-nos apaixona­damente.
Quando nos despedimos não fizemos promessas nem chorámos lágrimas. Um último beijo, um último aceno, ela desceu para o cais e, como eu lhe tinha pedido, foi-se embora sem esperar pela partida do combóio que me levava para longe.
Recebi há pouco um cartão a anunciar o seu falecimento, mas a notícia não me chocou nem fez entristecer. Quem morreu foi a mulher casada, a mãe, a avó em que ela se tinha tornado e que não conheci. A Maria Luísa, amor de um Verão, esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, continua a viver na minha lembrança.

sábado, janeiro 20

Cidadão supérfluo

Tais como somos, o mundo não se pode passar de governos, polícias e exércitos. Não que isso garanta seja o que for, mas porque mantém viva a ilusão de que é difícil - não impossível - comermo-nos uns aos outros.
O mundo também não se pode passar de religiões, pois só elas garantem a esperança - verdadeira ou falsa, pouco importa - de termos sempre à mão um último socorro, uma última possibilidade de indulto.
Eu, porém, sem convicção que me ajude a confiar nas instituições políticas, nem fé bastante que me embale com a existência do Além, vivo um pouco como a clássica rolha sobre a inconstância das águas: bóio calmamente aqui, sou atirado para acolá, paro, giro, cai-me a onda em cima, sopra-me a tempestade para longe, volto a boiar calmo.
Daí que consoante a hora e a disposição eu seja capaz de tudo justificar, desculpar, defender: as guerras, as violências dos regimes, a atracção das seitas, as desigualdades sociais, as consequências da opressão, as loucuras, os crimes. E de logo em seguida sentir contra tudo isso uma sincera revolta. Observo, mas não participo. Vou boiando. Tipo acabado do cidadão supérfluo.

Enredo

Conhecemo-nos na sessão de autógrafos de um amigo e simpatizámos, fomos jantar. Achei-a inteligente, vivaz.
Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus tratos, incesto, álcool, droga, prostituição. Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Mas logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um outro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada do corpo e do espírito tinha passado meses no hospital.
- E agora, como te sentes? - perguntei, a dar-me tempo de absorver aquele rosário de tragédias.
- Mais ou menos. Tomo antidepressivos,vou aguentando.
Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei do caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
- O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados... Porquê?
- É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.

sexta-feira, janeiro 19

Lisboa

As horas mais amargas e melancólicas da minha vida conheci-as durante a juventude, nos meus anos de Lisboa. Há lá ruas por onde ainda hoje não passo sem sentir um baque no coração, como se continuassem presentes os temores do passado. Certos jardins e miradouros de bela paisagem só despertam em mim lembranças de desespero.
Algumas noites debrucei-me, igual a tantos outros, nos parapeitos do Terreiro do Paço, a olhar o rio, perguntando-me se valia realmente a pena voltar ao meu miserável quarto de aluguer, e à angústia de um viver sem esperança, ou se não seria melhor acabar ali mesmo, deixando-me escorregar para a escuridão da água.
Não, Lisboa não é para mim um lugar alegre nem feliz. É uma cidade onde tive medo e onde algumas vezes me senti morrer.

Sinfonia

Ele é poeta, mas conta-me que a ambição que sempre acarinhou e nunca realizará, foi a de um dia ser compositor.
- Que sonho, compor uma sinfonia com o silêncio nocturno das catedrais vazias! Ser capaz de traduzir em música o amarelo vibrante de certos poentes! Não achas que seria grandioso?
Aceno polidamente que sim, porque tenho a impressão de que estou a aturar um louco manso e quero-me ir embora. Sinto-me exausto do esforço que faço para não ser sarcástico.

quinta-feira, janeiro 18

Conversa

A sala onde um dia de Dezembro passado nos encontrámos, tinha o ambiente metálico que caracteriza as salas de reunião do nosso tempo. E os cartazes alegres nas paredes davam-lhe uma garridice artificial, que contrastava com a luz fria de Inverno e a melancolia da nossa conversa. Ou melhor dizendo, do meu monólogo. Sobre as misérias do meu país. Sobre a fraude moral e social que são as estatísticas, quando pretendem contradizer com números a realidade das ruas e dos casebres. Sobre a sem-vergonha com que políticos e burocratas cuidam primeiro dos seus interesses, depois se divertem, gozam, e finalmente fingem tomar a peito os cuidados do país.
Ou porque o longo rosário de desgraças a fatigasse, porque a luz triste lhe causasse outros pensamentos, ou simplesmente porque, encontrando-nos numa emissora católica, tal curiosidade de certo modo tivesse cabimento, você de repente quis saber se eu acreditava em Deus.
E eu, tal um político surpreendido em momento crítico, dei-lhe, conscientemente, uma dessas respostas sofísticas que são o equivalente verbal da cortina de fumo - e fui adiante com a história do meu povo.
Acontece que quando alguém quer saber o que penso sobre a existência do Altíssimo, a minha reacção é muito semelhante à de quem sente ameaçada a sua privacidade. Não que a pergunta não fosse legítima. Bem ao contrário. Na sociedade descontraída em que vivemos todas as curiosidades são permitidas. É mesmo pelo jogo das confissões mútuas que hoje se mede o grau de simpatia ou apreço. A formalidade, a discrição, a reserva, raro são sinónimo de um comportamento apreciado, antes surgem como qualidades de um romantismo irremediavelmente esquecido e desprezível.
A confissão, o estendal de mazelas, aberrações, os vícios, isso é o que vale a pena. E quanto maior o detalhe, mais valiosa a confissão, mais intenso o contacto. Eu suponho até que, não possuindo vício que as distinga, certas almas simples não resistem ao pecadilho de se inventar deformidades e aflições. Para não correr o risco de que as julguem menos ou desinteressantes.
Nesse particular das confissões eu vivo francamente no passado: não as faço em público. Se, porque postos em letra de forma, alguns aparentes momentos do meu ser e do meu sentir dão uma impressão de confidência, isso não passa de recurso literário. A intimidade é para ser guardada e, excepcionalmente, oferecida em pequenas doses àqueles que a sabem receber e podem apreciar. O íntimo, a própria palavra o diz, é o que está nos recônditos da mente. Insistir em exteriorizá-lo, em torná-lo acessível a qualquer, toca o paradoxo. Além de ser signo de uma bem estranha ânsia.
Com estas considerações todas, quase ia esquecendo o que lhe queria dizer sobre a questão da existência do Todo Poderoso.
Pouco adianta que uns garantam que ele mora no céu e aguarde, mal humorado, o dia de nos julgar. Ou que outros afirmem, convictos, que tudo é poeira cósmica. A falar verdade, a partir do momento em que nos pomos perguntas para as quais não há resposta, caímos sem perdão sob a alçada dos dois poderes que mais eficientemente nos torturam: o medo e a dúvida.

quarta-feira, janeiro 17

O exílio e o infortúnio

Li-o faz tanto tempo que releio agora, com a surpresa da novidade, o estudo biográfico que Stefan Zweig fez de Fouché, o homem totalmente destituído de carácter, o traidor e sobrevivente por excelência.
Uma citação: 'Les artistes n'ont toujours fait qu'accuser l'exil, comme une interruption apparente de l'essor, comme un intervale sans utilité, comme une cruelle rupture. Mais le rythme de la nature veut ces cesure violentes. Car celui-là seul connaît toute la vie qui connaît l'infortune.'
Pessoalmente e infelizmente conheci-os ambos, o exílio e o infortúnio, mas não creio que nem um nem outro me tenham ensinado a conhecer a vida. O mais que sei dela aprendi-o comparando-me aos meus semelhantes, descobrindo que nasci com os mesmos aleijões que a maioria também tem. Com uma diferença: eles parece que são capazes de ignorar os seus, mas os meus como que me doem a dobrar.

Calendário

Provavelmente existe noutras partes, mas há na Holanda um objecto que sempre me fascinou : o chamado calendário de aniversários. Em geral é uma folha de cartolina que, em cada lado, assinala os dias de um semestre, reservando para cada dia um pequeno espaço onde se anotam os aniversários que convém recordar.
Bizarro, mas pragmático, o hábito generalizado é de o pendurar na porta da retrete. O meu foge à regra. Por desleixo, não tem sítio certo, do que resulta que quando o arrumo, como há instantes, por vezes os olhos se fixam numa data e trazem a recordação.

Ela tinha vinte anos, escolheu a Itália para as suas primeiras férias sozinha e, sem que o tivesse premeditado, deixou o combóio em Milão.
O taxista levou-a ao hotel, fez-lhe a corte, desvirginou-a, deu-lhe quinze dias de carinho, de sexo e atenções. Jurou-lhe amor eterno, mas infelizmente, casado, cheio de filhos, não a poderia acompanhar a Amsterdam.
Se voltasse no ano seguinte haveria de ver que a sua paixão não tinha diminuído. E ela voltou. Doze Verões a fio. Para quinze dias de carinho e de sexo. Até que ele lhe confessou que não podiam continuar. Tinha sido bom, mas tudo tem fim. Cruamente, confessou-lhe que eram tantas as estrangeiras que o cobiçavam, e cada vez mais jovens, que se via mal para atender a todas.
Contou-me, e eu acredito, que nesse momento teve a sensação de que tudo desmoronava: a sua vida, o mundo, as ilusões, o passado e o futuro. Não chorou nem se queixou. Deu-lhe um último beijo e acenou da janela quando o viu entrar no táxi.
Voltou a Amsterdam e ao escritório. Fez do trabalho o único fito da sua vida e dedicou-se à pintura para encher as horas vagas. Nunca conheceu outro homem. Faleceu anteontem dum ataque de coração. Tinha quarenta e quatro anos.

terça-feira, janeiro 16

Pena pendente

No começo do ano passado fui operado a um cancro, ao que se seguiu um longo período de radioterapia. Meses depois vi-me defronte de um radioterapeuta que me queria dar a boa-nova de que tudo - quase tudo, para ser franco - se desenvolvia a contento.
- Há a possibilidade de que, em cerca de dois porcento dos casos, o cancro reapareça após uns dez anos. Mas como você já tem setenta e seis…
Dei uma gargalhada e ele, perplexo, quis saber porque me ria.
- Não é pela possibilidade, nem tãopouco pelo prazo. Diverte-me, sim, o que o seu comentário trai de franqueza e insensibilidade juvenil.

segunda-feira, janeiro 15

Procissão

É texto de muito atrás. De vez em quando vejo-o citado anónimo. Para pôr as coisas em ordem: escrevi-o em 1982, uma manhã de Abril em que me achava indisposto com o meu povo e comigo próprio.

PROCISSÃO

Os tolinhos.
Os bufos.
Os convencidos.
Os pategos.
Os membros e as suas esposas.
Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e que não é sério.
Os fanáticos.
Os sinceros.
Os que foram maoístas.
As bruxas.
Os inimigos do povo.
As irmãs do Salazar.
Os compadres.
Os hesitantes.
O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina.
Os que comem peixe à sexta-feira.
Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis.
O médico dos Raios-X.
A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime.
O clarim de Caçadores 9.
Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (marquês de Leça, irmão da Ordem Terceira, diplomé des Palmes du Mérite Agricole).
O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga.
Os heróis do mar.
Os gloriosos combatentes antifascistas.
Os gaseados de 1914-1918 (Flandres).
A tia da D. Amália Rodrigues.
O cauteleiro de Cinfães.
Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300 Lisboa.
Os que só gostam de cerveja.
O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952.
A mulher do filho do vizinho do Marcelo.
As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas.
O emigrante que construiu aquela casa.
Os visitantes do Jardim da Estrela.
Os dez mais elegantes.
Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados.
Os manetas e os gagos.
O locutor da Rádio Renascença.
O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria.
O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada.
Os três da panelinha.
Os três.
Os que dizem trinta e três.
A Trindade.
O senhor Pimpim.
Os que leram Marx.
O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver.
O eléctrico dos Anjos.
Os senhores guardas.
As senhoras guardas.
As gentes da autoridade.
Os defensores da ordem.
A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas.
Os tocadores de violoncelo.
Os fascinados pelo destino do proletariado.
Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve.
O ex-ministro.
A Rosa que gosta muito de crianças.
Os enfermeiros.
As calistas a domicílio.
A menina do quiosque.
O bispo de Aveiro.
Você e eu.

domingo, janeiro 14

Andanças

Uns vão à Índia, outros partem para a Califórnia, o Peru, a Patagónia. Viajam para o Alaska, a Austrália e as Aleutas. Os que no ano passado estiveram em Bangkok vão passar o próximo Verão em New York e o Inverno seguinte em Miami.
Num mundo transformado em perpetuum mobile a minha existência é quase estática. Nunca vi as pirâmides de Gizeh nem o Kremlin, nunca fui a Atenas, nunca fui ao Japão, nem sequer a Londres ou à Escócia, não viajei no Transiberi­ano. De facto pouco mais conheço do planeta do que o que me mostra a televisão e, no Outono da vida, é isso que melhor me convém: em vez de me incomodar com as cruezas e os desconfortos da realidade, posso, quando quero, manter inteiras as ilusões da meninice.

Convite

A instituição, ligada a uma universidade, se bem compreendi é cultural, intelectual, artística, interessada nos temas europeus, terceiro-mundistas, mundiais, universais, filosóficos e outras coisas assim elevadas.
O presidente telefona-me, explica que prepara uma semana europeia, e quer convidar para um congresso um certo número de artistas, escritores e intelectuais europeus. Para falar na abertura das sessões lembraram-se de mim, e dado o nome e a importância dos mais participantes, ele não duvida que vou aceitar. Mas há um ponto que quer esclarecer:
- Só sei que o senhor é português e escritor, mas gostava que me dissesse o que é que escreve, porque não faço a mínima ideia.
Que resposta se pode dar a semelhante bacoco senão mandá-lo sem mais àquela parte? Não mandei. Disse-lhe que estava indisponível.

sábado, janeiro 13

17.000 páginas

Não, nunca serei capaz, como H.F. Amiel (1821-1881) no seu Journal intime (17.000 páginas!), de mergulhar numa introspecção dolorosa até às profundidades do 'eu' e concluir: 'Je suis fluide, négatif, indécis, infixable, et par conséquent je ne suis rien.'
No mais fundo que consigo mergulhar no meu íntimo não encontro, como Amiel, a água límpida dum panteísmo idealista, mas a turvação em que os meus raciocínios, memórias e sensações se agitam com a turbulência de larvas num lamaçal. Fosse eu nada, e teria paz; as preocupações nascem da incerteza, e de não descobrir quem verdadeiramente sou.

sexta-feira, janeiro 12

Pose

Só o conheço de vista e, talvez por isso, quando o encontro sempre tenho de sorrir, tão visível é o esforço que faz para que o tomem pelo que quer aparentar. E o que ele quer aparentar é o professor inglês de meia idade, ligeira­mente desleixado, usando fatos dum tweed tirante a verde, pullovers de lã grossa à moda dos anos trinta, sapatos daquele vermelho que hesita entre o roxo e o sangue de boi. Num fingimen­to de excentricidade que se lhe tornou natural, ao caminhar olha vagamente em frente e sorri, ao mesmo tempo que mexe os queixos como quem masca. De vez em quando tropeça. Se alguém de repente se lhe dirige, dá a impressão de não ter ainda acordado.
Já mo quiseram apresentar, mas não aceitei, porque se o conhecesse pessoalmente com certeza compreenderia os seus tiques e acabaria por matá-lo : não como pessoa, mas como personagem.

quinta-feira, janeiro 11

Urbe

Se as raízes da minha existência e da minha sensibilidade estão na aldeia, na essência sou homem da cidade e só nela me sinto viver plenamente.
Talvez pelo isolamento, é na aldeia que conheço instantes em que os sentimentos e as sensações parecem vir do mais íntimo; mas o que existe em mim de entusiasmo, força, vontade de criar, somente acorda ao contacto da maravilhosa diversidade da urbe.

Conversas

Eles conversam, dizem coisas filosóficas, põem a máscara da inteligência, a do espírito, e de súbito apercebemos a caveira da realidade no riso sem queixais, naquela ponta de cáries, na pedra que lhes borda as gengivas.
Cobrem-se com o fato apropriado, mas deixam-se trair pelo sapato que camba. Preocupam-se com a metafísica, os dramas da fome, e usam botinas frívolas com embutidos e correias, ponta em bico, tacão gasto.
O calçado e o estado da dentadura - dois fascinantes reveladores da personalidade.

quarta-feira, janeiro 10

Incertezas

Certezas não tenho, só suposições. Ou talvez nem sequer suposições, apenas a vaga esperança de que os nossos olhos sejam incapazes de ver tudo e a mente não passe de uma espécie de scanner pouco sofisticado.
Por isso me acho tão aberto à existência dos ultra-terrestres, como a aceitar desaparecer sem rasto na poeira cósmica ; a no momento seguinte ao da morte voar pelo túnel luminoso que leva ao Além, ou ir-me lentamente transformando na podridão pegajosa de que se alimentam os vermes.
A certeza de morrer não me assusta, nem as questões teológicas perturbam o meu descanso, sim a impossibilidade de conciliar o sonho com o comezinho da vida.

terça-feira, janeiro 9

Cara ou coroa?

Dias atrás. Programa da televisão belga de língua neerlandesa. Uma rua de Bruxelas.
Escolhido entre os que passam, o casal burguês, meia idade, simpático, cara de gente estudada, ganha um fim-de-semana em Paris se responder de forma idêntica à mesma pergunta.
A mulher afastou-se. O marido, interrogado, baixa os olhos, hesita, sorri frouxo, engasga-se.
O homem da TV repete: - Quando é que fizeram sexo pela última vez? E como foi?
- Bem… Ontem à tarde… É um bocado embaraçoso… Na mesa da cozinha.
Chega a vez da mulher. Arregalam-se-lhe os olhos, torce as mãos, abana umas quantas vezes com a cabeça que não… Finalmente decide-se:
- Ontem.
- Mas como foi? Olhe que é um fim-de-semana em Paris! Ida-e-volta no TGV, hotel cinco estrelas, limousine, restaurantes de luxo!...
O marido sorri, o entrevistador insiste, ela, atenazada entre a vitória e a vergonha, parece encolher e confessa num murmúrio:
- Foi no meu cu.
- Perdeeeuuu!!!

segunda-feira, janeiro 8

Três capítulos e um posfácio

Festejamos o nosso reencontro com um jantar. A terceira garrafa de Saint-Emlion vai meada e ele conta.
Pela primeira mulher apaixonou-se com o entusiasmo romântico da juventude, imaginando tesouros onde só havia vazio, descobrin­do depois como a incompa­tibilidade dos caracteres e dos corpos se transmuda lentamente em ódio.
A segunda traía-o. Sem malquerença, só porque tinha o adultério no sangue. Quis aceitar, compreender, esperançado de que um dia mudasse, mas em vão: ela era a borboleta da fábula, esvoaçando ao acaso, colhendo gota aqui gota ali.
Desesperado, lembrava-lhe que era preciso criar alicerces, pensar no futuro. Por vezes nessas ocasiões ela segurava-lhe as mãos, levava-as aos lábios, e no dia em que se divorciaram surpreendeu-o ao dizer-lhe numa repreensão terna:
- Não é culpa tua, mas nunca serás capaz de compreender.
Conheceu depois a domesticidade. A vida regular da casa arranjada, da mesa posta, das compras ao sábado, do sexo ao domingo. Do gato e do jardim. Das férias na praia. Das visi­tas, dos aniversários. Dos jantares com os sogros.
Cerrava os olhos com os punhos, no desejo inconsciente de fazer parar o tempo. Para onde foram os meus sonhos? Que aconteceu à aventura? Deus de misericórdia, é isto a vida?
Ela morreu como tinha vivido, calma e insignificante, e ele surpreendeu-se de não sentir dor, nem saudade, nem sequer pena. Mesmo a lembrança que se pegava aos móveis e aos objectos desvaneceu ao mudar de casa.
Quando julgava tudo perdido, tudo acabado, o sonho inespera­damente realizou-se e a aventura veio. Com a embriaguez dos sentidos e as loucuras de que nunca poderia ter gozado tão intensamente se por acaso as tivesse conhecido na mocidade.
Tentou tudo para que ela ficasse: prendê-la com afecto, seduzi-la com promes­sas, comprá-la com luxos. Mas também esta era borboleta e, além disso, jovem de mais para se sujeitar a prisões. No dia em que pela última vez a apertou nos seus braços, não se conteve e chorou lágrimas de raiva. As lágrimas de melancolia vieram mais tarde, com a certeza de que o curto ano de felicid­ade nunca se viria a repetir.
- É como lhe disse há bocado e você, escritor, de certeza concorda: a minha vida conta-se em quatro mulheres. Três capítulos e um posfácio.

domingo, janeiro 7

Caducando e engelhando

O envelhecimento físico é misericordioso: vamos caducando e engelhando, mas tão gradualmente que o espelho todas as manhãs nos devolve uma imagem que não difere da do dia anterior.
A surpresa, a má surpresa, vem quando distraídos folheamos um álbum e encontramos nele a imagem do que fomos no passado ou nos longes da juventude. Mas a hipocrisia defende-nos contra o choque. Eu fui assim? Tive aquela cara? Francamente, antes a de agora.

História de amor

Às vezes julgo que o que eu gostaria mesmo de escrever seria uma história de amor. Daquelas em que os amantes vão lentamente descobrindo a sua paixão. Uma história com fintas, obstáculos desmesurados, viagens a terras exóticas e abraços, noites de lua, beijos castos, famílias que se opõem mas acabam por se reconciliar. E finalmente o grande momento.
Penso isto, mas no fundo sei que jamais escreverei histórias de amor, aventuras, ou enredos complicados. O meu grande e inconsciente anseio também não é de facto o de escrever, mas de um dia recuperar a inocência com que antigamente lia.

sábado, janeiro 6

Vizinhos

Há quem afirme que os galegos são enigmáticos e têm por vezes um comportamento bizarro. “Cruza a gente com um galego numa escada e nunca se sabe se ele está a subir ou se vai descer.”

Visão celestial

No seu livro Homage to Barcelona, Colm Tóibín conta o caso de um bispo que, de visita à Catedral da Santa Família, quis saber de Gaudí porque razão tinha este decorado o topo das torres, uma vez que ninguém jamais poderia ver os enfeites.
- Vêem-nos os anjos – respondeu-lhe o arquitecto.