domingo, março 18
Cântico dos Cânticos
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.
Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.
sexta-feira, março 16
Doutores
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.
Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.
O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.
quinta-feira, março 8
Comadres
Sob a influência generalizada do inglês, desde há anos que se passou a chamar-lhes colunistas. O tom agora é ligeiro, a prosa descuidada, no melhor dos casos banal a temática. No pior descem à mexeriquice, e quando a mexeriquice falta escrevem uns sobre os outros. “Como dizia fulano na sua coluna de ontem... A perspicaz análise que hoje se lê na coluna de sicrano... ” *)
Assim cavam os jornais a própria cova, servindo-nos, requentado, o noticiário que ontem à noite vimos na televisão, enchendo o resto das páginas com textos banais e fotografias inúteis.
O jornal, que no passado a opinião pública considerava um cavalheiro, tornou-se uma comadre.
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*) Interessante desenvolvimento: os bloguistas vão por caminho igual. Em bom número de blogs nota-se uma demasia de abraços, parabéns, citações, palmadinhas nas costas, com o correspondente e inconfundível cheiro a capelinha.
quarta-feira, março 7
Larachas
Nessa muito presente lembrança reside talvez a origem do bizarro fenómeno a que por vezes me sinto sujeito. Acontece que durante certos sonhos tenho consciência de sonhar de novo sonhos anteriores, o que me transporta para uma inquietante duplicação da memória, do sentido da realidade e do eu, e ao mesmo tempo me impede de saber se, como suspeito, apenas uma parte de mim sonha, enquanto outra espreita insondáveis mistérios.
"Larachas", comenta um conhecido a quem falo disto. E embora saiba que não me convence, tenta acertar uma mocada definitiva na minha fantasia, acrescentando: "Isso provavelmente é a consequência de refeições pesadas. Uma questão de química."
domingo, março 4
Sessões de autógrafos
Chega mais gente. Alguns arriscam um cumprimento, palavras de apreço, e finalmente surge o inevitável tarado. Com o ar decidido de quem sabe ao que veio, anuncia-me que quer comprar um exemplar, mas sob uma condição: que eu escreva numa das páginas em branco um comentário pessoal, de preferência irónico ou malicioso, sobre um escritor vivo.
Respondo-lhe mal humorado com um redondo não. A tentar convencer-me, o homem diz que estranha a minha atitude, pois até à data escritor nenhum recusou satisfazer o seu pedido. Atente eu que a negativa significa que não estarei presente na sua interessante, e um dia valiosa, colecção de volumes comentados.
Dá-me vontade de mandá-lo àquela parte, mas o lugar e a presença doutros obrigam a que me contenha. Repito-lhe que não e de súbito é como se estivéssemos numa feira:
- Palavra que não quer escrever? Só umas linhas? Olhe que se arrepende. Vou-me embora e não compro livro nenhum.
Uma espécie de Feira do Livro num dos canais de Amsterdam. Estou sentado entre uma parede e uma mesa com alguns livros meus. A multidão passa, ininterrupta. De vez em quando alguém pára, folheia, olha os livros, encara-me, sorri. Um diálogo de surdos-mudos.
Uma mulher agarra um livro, abana com ele a chamar a minha atenção e pergunta:
- O senhor fala holandês?
No mesmo momento em que lhe respondo ela pousa o livro e, sem me encarar nem reagir, volta-me as costas.
Um casal. Acenam de longe, sorrindo com simpatia. Aceno e sorrio também. Param, voltam atrás, o homem grita por cima das cabeças:
- Hoje de manhã comprámos um livro seu.
- Obrigado.
- E vamos lê-lo.
Que responder?
No mesmo lugar, à mesma mesa. Dois sujeitos aí duns trinta anos param, folheiam distraidamente os livros - que procurarão ao fazer correr assim as páginas? - pousam-nos, pegam noutros. Um deles abre um livro meu, olha a capa, revira-o e, apontando-me como se eu fosse uma figura de cera e não um ser vivo ali a metro e meio deles: - Já leste alguma coisa deste gajo?
Leiden. Imóvel e silenciosa, uma mulher observa-me há minutos. Aquilo começa a tornar-se desagradável. Levanto-me para alcançar o livro que um rapaz me entrega para autografar, e nesse momento a mulher desperta, sorri, e diz-me contente: - Enganei-me! Julguei que fosse mais alto!
Amsterdam. “Mercado das Letras” no Bijenkorf. Somos mais de cinquenta, sentados atrás de mesas onde os nossos livros se empilham. O público passa durante três longas horas. Incessantemente. Milhares de rostos. De vez em quando alguém folheia um livro, compara o retrato do autor na contracapa com a cara da realidade, ou pede um autógrafo, tira uma fotografia.
À minha direita uma senhora especializada em obras de etiqueta. À minha esquerda uma escritora americana diz que não aguenta tanto tempo sem fumar, e fuma às escondidas com uma satisfação de criança maliciosa, soprando o fumo para o soalho.
Um coleccionador não quer apenas um autógrafo, mas pede - não pede, exige! - também um desenho. Como não quero, nem sei o que desenhar, ele diz que nesse caso também não precisa do autógrafo. Assim seja.
As balaustradas dos andares superiores estão cheias de um povo que se contenta com olhar para baixo e ver tanto crâneo de literato.
- Diga-me uma coisa: aquelas peripécias dos seus contos aconteceram mesmo?
Santa inocência! Esperar que um escritor escreva a verdade, quando para ele o que mais conta é a arte. E na arte a verdade não passa de um acessório menor.
sábado, março 3
Prefácios
Um álbum de pintura. Quadros que nada me dizem, quanto mais os olho, mais nevoentas se me tornam as ideias. Sentindo-me tolo e, pior, hipócrita. Alinho frases sobre a harmonia dos coloridos do artista, a tensão que soube emprestar aos volumes, “o refinado tratamento do chiaroscuro, com reminiscências de Caravaggio e Rembrandt.”
Um livro de reportagens fotográficas. Retratos. Cenas de rua. Fotografia inexpressiva, de efeitos pretensiososos. Para não cair de desespero e frustação, apoio-me em Stieglitz, Kertész, Atget, Cartier-Bresson, ao mesmo tempo que olho de lado, involuntariamente receoso de ouvir já as gargalhadas que vão dar os que por acaso lerem as minhas asneiras.
O prefaciado, esse de certeza vai gostar. Cumprimentos, merecidos ou não, comparações com os grandes, tudo lhe será bálsamo. Virá depois citado nos anúncios e nos cartazes que evitarei olhar, para que não se reacenda a vergonha do meu fingimento.
sexta-feira, março 2
Entretém
Tenho, contudo, a suspeita de que esta memória é diferente daquela com que nasci e durante tantos anos me serviu. Não digo que me negue serviço ou se tenha tornado lenta, mas como que se lhe acrescentou uma dimensão crítica que antes não possuía.
Assim, quando por vezes, saudosista, quero relembrar uma data, uma conversa, é como se no íntimo uma voz se interpusesse, perguntando com rispidez que necessidade tenho desssas informações. Se me tornei incapaz de separar o trigo do joio, o importante do banal. Se para mim, em vez de uma função, o recordar passou a ser um jogo, um entretém.
quarta-feira, fevereiro 28
Diários
O meu, suponho, cabe mal nas categorias acima, pois menos que uma anotação de factos e pensamentos, o vejo, sobretudo, como um anseio de conversa.
A conversa que me imagino a ter com alguém de carne e osso, numa dessas amizades com empatias sincrónicas e harmonias duradouras. Amizades ideais que de certeza alguns ressentem e mantêm a vida inteira, mas que a mim não couberam. E nesta altura é improvável que me venham a caber, pois a idade - pelo menos no meu caso - à medida que aumenta a impaciência e o sentido crítico, vai reduzindo a capacidade de desculpar.
Que isto é meio caminho andado para a solidão, sei-o de há muito. Mas tanto quanto dela tenho experiência, também aprendi que os males da solidão são relativos, pois com livros e fantasia é que se criam mundos à medida do nosso sonho. O que não impede que o sonho seja faca de dois gumes: nas satisfações que dá pesa sempre a impossibilidade e, ao acordarmos dele, a ânsia do que se não possui ou se não alcançou dói ainda mais fundo.
sábado, fevereiro 24
Ingenuidade e igualdade
Outros, porém, vêem na simpatia que inesperadamente recebem uma tibieza e, talvez por instinto animal, logo em coisas diminutas dão mostras de nos quererem torcer, dominar.
De começo envolvem as suas manipulações em sorrisos e cortesias, mas à medida que avançam permitem-se umas gotas de veneno, uns toques de sarcasmo, um arranhar de unhas. Até que ousam passadas mais largas: escreveste isto, era melhor teres escrito aquilo; fizeste assim, devias ter feito assado... É o momento de travar e, porque sempre vão longe demais, da irremediável separação.
- Mas vocês eram amigos!
- Penso que não. A verdadeira amizade pressupõe ingenuidade e igualdade.
sexta-feira, fevereiro 23
Amar menos
- Sinto que o amo menos agora do que há três anos, quando voltámos para a Holanda.
Aceno compreensivo, mas no íntimo pergunto-me: entre amar menos e já não amar, qual é a diferença?
quinta-feira, fevereiro 15
Pessoa? Personagem?
As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente.
Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras.
A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos.
Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que, pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.
quarta-feira, fevereiro 14
Dois momentos
Respondo-lhe, frouxo, que não está no meu poder rejuvenescer-me. Esqueci-me de acrescentar que cada pássaro canta conforme o bico que Deus lhe deu.
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Imre Kertész (Nobel 2002) entrevistado na TIME desta semana:
"What is your workday as a writer like? If you recorded the day in a life of a writer you would be disappointed. He makes coffee, he looks out the window, he does everything but write. But despite these everyday failures, something still comes out of it."
sábado, fevereiro 10
No século XX Anno Domini (1)
A nossa preocupação maior era a fragilidade do câmbio dos cruzeiros em dólares; as ocupações mais pesadas os jantares com o embaixador; os nossos pânicos as visitas da embaixatriz, que sabia de Arte e a quem, por turno, tínhamos de acompanhar aos antiquários e aos leilões.
Preguiçoso, desinteressado, considerando a minha estadia de pouca dura, perguntava de vez em quando aos colegas, que estavam aqui há anos e deviam saber:
- Mas afinal, como é a Holanda?
Eles, mais ingénuos do que eu supunha, explicavam, simplificando: as holandesas dividiam-se em duas categorias, as com quem se tinha ido para a cama e as que estavam para ir; os holandeses numa categoria única: a dos bananas. O país, uma maçada. A comida, um nojo.
Acrescentavam depois a Família Real - "a mais rica do mundo!"- a Shell, a Philips, a Unilever, os diques…
Temendo o frio, desconfiando da língua rebarbativa e do ar fechado dos passantes, financeiramente esfolado por senhorias que tinham elevado a arte de esfolar à suprema perfeição, limitava-me ao convívio dos colegas. Divertia-me com a basófia do chefe, contando como em Brasília o presidente Kubitschek lhe tinha batido no ombro, dizendo : ‘Éscuta, Jorge!...” Ria, como quando acompanhei o cônsul a um hotel para organizar uma festa, e ele perguntou ao homem que nos atendeu:
- Quem é você?
- Sou o recepcionista.
- Chame o director! Eu só falo de governo para governo!
Havia ainda o Cunha que, depois de vinte e cinco anos nas Águas e Esgotos de Petrópolis, tinha sido ‘empistolado’ para a embaixada em Lisboa. Mas o ‘pistolão’ enfraquecera com a mudança da política, e o seu calvário, arrastado por Madrid e Génova, ameaçava durar em Amsterdam.
Como o ministro não se condoía, nem o transferia para Lisboa, onde o esperava uma Rosa Simões, remetia ele, em cartas registadas e express, fotocópias dos atestados médicos que garantiam a veracidade de dois enfartes, acrescentando-lhes em maiúsculas a tinta vermelha: ‘V. Exa. ficará com a minha morte na consciência!’
Assim, no centro de Amsterdam, eu "vivia" de facto no Brasil, ocupando horas a escrever aos amigos, a rabiscar de longe a longe um relatório, a alinhavar romances que nunca terminaria, bebendo cafés sem conta, exausto quando por volta das cinco saía para a ronda obrigatória dos drinks, das recepções e dos jantares.
sexta-feira, fevereiro 9
Amigo perdido
Ele é o único cliente e está sentado a uma mesa no meio da sala, meio de costas para a rua, na mão o copo de cerveja que leva à boca. Atrás do balcão o proprietário enche outro copo.
Mais tarde hei-de vê-lo na praça, num caminhar incerto, o seu rosto com a cor arroxeada dos alcoólicos inveterados. Sob o braço segura a pasta com que se dá a ilusão de que nela guarda os processos que irá levar ao tribunal.
Foi brilhante, mas agora é advogado só de nome. Causas não tem. Quem o conhece acena de longe, evita a sua companhia. Solitário, violento, vai de café para café, de copo para copo, até que ao fim do dia, comatoso, se arrasta para casa. Triste sina para um amigo de quem tanto se esperava, e aos quarenta e oito anos se tornou um farrapo humano, um fantasma de si mesmo.
quinta-feira, fevereiro 8
terça-feira, fevereiro 6
Outro aniversário
É essa uma das poucas vantagens que a velhice tem: poder viajar no tempo. Não como o faz a juventude, com o privilégio de ansiar pelo futuro, mas ironicamente em marcha atrás. Recebendo lições de modéstia, deixando pelo caminho as certezas que o não eram, rindo de ter tomado a sério a palavra eternidade.
A caminho dos setenta. A idade que ambos os meus avós não alcançaram, e a dois passos da de meu pai quando faleceu. Contas que faço involuntariamente, e que são ao mesmo tempo temor e exorcismo, a busca de não sei que garantias de precária sobrevivência. A sopesar se me restam ainda cinco, dez, quinze anos, ou se amanhã - nunca hoje, sempre amanhã! - a Parca se canse de dobar o meu fio e o corte duma tesourada.
Que terá sido?
Encontrámo-nos depois por vezes numa rua, num café, ao acaso duma cerimónia. 'Há que tempos que não nos vemos!' Embrulham-se em desculpas frouxas sobre as andanças da vida, os afazeres, complicações. Mas a pergunta fica: ao que é que não correspondemos? O que é que nos quiseram dar ou queriam receber que nos escapou? O que é que não somos, e eles julgaram que éramos? O que é que em nós lhes meteu medo?
segunda-feira, fevereiro 5
Aniversário
Se o corpo ou o intelecto funcionassem mal, se a minha alma andasse desvairada, se um drama ou a miséria me ameaçassem, eu teria razões de queixa.
Como nada disso acontece, só tenho motivos de inquietação: o de ignorar donde venho, o de não saber quem sou, o dar-me conta de como o tempo de uma vida é um instante irrisório, a incerteza do que será o meu destino, o mistério do que fica para lá do fim.
Cigano
Poucos haverá de feições assim aristocráticas e um olhar que parece indiferente à hostilidade do mundo. A roupa também o não denuncia, porque da que lhe dão por esmola nas casas abastadas, ele escolhe infalivelmente a que, pela cor e o corte, o tornam quase elegante. Usa chapéu de aba larga debruado a couro, boas botas.
Mau grado tudo isso José Lindo é inegavelmente cigano, e o mais trágico de todos, pois vagueia sozinho desde que muitos anos atrás, por razões que nunca disse, a sua família e a tribo o expulsaram. Na nossa aldeia pára às semanas, talvez porque não precise de ir de porta em porta a pedir esmola, pois quando chega a hora há sempre uma mulher que lhe leva um prato de comida ao banco ou à soleira onde ele se senta amodorrado.
Dorme onde melhor lhe calha, ao ar livre, debaixo dos alpendres, nos palheiros; se o tempo fica mau abriga-se numa casa abandonada e acende lá uma fogueira.
A velhice e as agruras devem-no ter transtornado, com certeza a razão porque deixou de fazer os cestos com que ganhava alguma coisa. E pouco fala. Tem alturas em que nem sequer responde a quem lhe dá as boas horas.
domingo, fevereiro 4
Circo
- Não vá julgar que é como os de antigamente. Este é moderno. No princípio fazem um bocado de ginástica, mas depois abrem as goelas à música e ficam as gajas a cantar e a dançar. Meio nuas. Com um panito a tapar-lhes as vergonhas. Venha logo à noite e vai ver que é como na cidade.
Prefiro não ver. Quero guardar inteira a recordação de quando os saltimbancos vinham com uma caravana de burros carregados de atributos e, no mesmo lugar, espetavam os paus em que firmavam o trapézio. Depois saltavam, giravam, contorciam-se, tiravam dinheiro do nariz das pessoas, cuspiam fogo, faziam a pirâmide humana...
Não quero ver mulheres meio nuas a cantar e a dançar. O que nunca mais acontecerá, e eu gostaria de voltar a ver, era aquela menininha que teria então a minha idade e, gracilmente, erguia um arco no ar, por onde um cão saltava cada vez que ela lhe gritava: 'Allez, hop!'