sábado, fevereiro 10

No século XX Anno Domini (1)

Sentado na moleza do departamento comercial da embaixada do Brasil (Vondelstraat 10 – Amsterdam), ignorei a Holanda, fui uma vez de corrida ao Rijksmuseum, outra a Volendam, a aldeia de pescadores que passa por turística; frequentei Zandvoort, o Estoril de Amsterdam, onde nesses tempos distantes (1956) o hotel Bouwes oferecia aos domingos Thé Dansant et Variétés.
A nossa preocupação maior era a fragilidade do câmbio dos cruzeiros em dólares; as ocupações mais pesadas os jantares com o embaixador; os nossos pânicos as visitas da embaixatriz, que sabia de Arte e a quem, por turno, tínhamos de acompanhar aos antiquários e aos leilões.
Preguiçoso, desinteressado, considerando a minha estadia de pouca dura, perguntava de vez em quando aos colegas, que estavam aqui há anos e deviam saber:
- Mas afinal, como é a Holanda?
Eles, mais ingénuos do que eu supunha, explicavam, simplificando: as holandesas dividiam-se em duas categorias, as com quem se tinha ido para a cama e as que estavam para ir; os holandeses numa categoria única: a dos bananas. O país, uma maçada. A comida, um nojo.
Acrescentavam depois a Família Real - "a mais rica do mundo!"- a Shell, a Philips, a Unilever, os diques…
Temendo o frio, desconfiando da língua rebarbativa e do ar fechado dos passantes, financeiramente esfolado por senhorias que tinham elevado a arte de esfolar à suprema perfeição, limitava-me ao convívio dos colegas. Divertia-me com a basófia do chefe, contando como em Brasília o presidente Kubitschek lhe tinha batido no ombro, dizendo : ‘Éscuta, Jorge!...” Ria, como quando acompanhei o cônsul a um hotel para organizar uma festa, e ele perguntou ao homem que nos atendeu:
- Quem é você?
- Sou o recepcionista.
- Chame o director! Eu só falo de governo para governo!
Havia ainda o Cunha que, depois de vinte e cinco anos nas Águas e Esgotos de Petrópolis, tinha sido ‘empistolado’ para a embaixada em Lisboa. Mas o ‘pistolão’ enfraquecera com a mudança da política, e o seu calvário, arrastado por Madrid e Génova, ameaçava durar em Amsterdam.
Como o ministro não se condoía, nem o transferia para Lisboa, onde o esperava uma Rosa Simões, remetia ele, em cartas registadas e express, fotocópias dos atestados médicos que garantiam a veracidade de dois enfartes, acrescentando-lhes em maiúsculas a tinta vermelha: ‘V. Exa. ficará com a minha morte na consciência!’
Assim, no centro de Amsterdam, eu "vivia" de facto no Brasil, ocupando horas a escrever aos amigos, a rabiscar de longe a longe um relatório, a alinhavar romances que nunca terminaria, bebendo cafés sem conta, exausto quando por volta das cinco saía para a ronda obrigatória dos drinks, das recepções e dos jantares.

sexta-feira, fevereiro 9

Amigo perdido

São três da tarde e faço compras na vila. Ao acaso das minhas voltas passo por um desses cafés penumbrosos, tristonhos, daqueles que se pergunta a gente como conseguem sobreviver. Olho para o interior no instante da passagem. A cena grava-se-me indelével, continua a mortificar-me.
Ele é o único cliente e está sentado a uma mesa no meio da sala, meio de costas para a rua, na mão o copo de cerveja que leva à boca. Atrás do balcão o proprietário enche outro copo.
Mais tarde hei-de vê-lo na praça, num caminhar incerto, o seu rosto com a cor arroxeada dos alcoólicos inveterados. Sob o braço segura a pasta com que se dá a ilusão de que nela guarda os processos que irá levar ao tribunal.
Foi brilhante, mas agora é advogado só de nome. Causas não tem. Quem o conhece acena de longe, evita a sua companhia. Solitário, violento, vai de café para café, de copo para copo, até que ao fim do dia, comatoso, se arrasta para casa. Triste sina para um amigo de quem tanto se esperava, e aos quarenta e oito anos se tornou um farrapo humano, um fantasma de si mesmo.

quinta-feira, fevereiro 8

Corno cínico

“Os cornos são como os dentes: doem ao crescer, mas depois é com eles que se come."

terça-feira, fevereiro 6

Outro aniversário

Curiosa sensação, a dos aniversários. Ver-me velho, quando tenho tão presente a memória do tempo em que os trinta e três anos que Cristo contava, quando o crucificaram, me pareciam uma idade de Matusalém.
É essa uma das poucas vantagens que a velhice tem: poder viajar no tempo. Não como o faz a juventude, com o privilégio de ansiar pelo futuro, mas ironicamente em marcha atrás. Recebendo lições de modéstia, deixando pelo caminho as certezas que o não eram, rindo de ter tomado a sério a palavra eternidade.
A caminho dos setenta. A idade que ambos os meus avós não alcançaram, e a dois passos da de meu pai quando faleceu. Contas que faço involuntariamente, e que são ao mesmo tempo temor e exorcismo, a busca de não sei que garantias de precária sobrevivência. A sopesar se me restam ainda cinco, dez, quinze anos, ou se amanhã - nunca hoje, sempre amanhã! - a Parca se canse de dobar o meu fio e o corte duma tesourada.

Que terá sido?

O estranho modo com que certa gente entra e sai da nossa vida. Não falo dos amigos que se perderam de vista, dos que se nos tornaram indiferentes ou inimigos, mas daquelas pessoas que como que nos assaltam com a sua amizade e são tudo empatias, concordâncias, atenções, carinhos. Até ao dia em que, sem razão aparente, parecem levar sumiço.
Encontrámo-nos depois por vezes numa rua, num café, ao acaso duma cerimónia. 'Há que tempos que não nos vemos!' Embrulham-se em desculpas frouxas sobre as andanças da vida, os afazeres, complicações. Mas a pergunta fica: ao que é que não correspondemos? O que é que nos quiseram dar ou queriam receber que nos escapou? O que é que não somos, e eles julgaram que éramos? O que é que em nós lhes meteu medo?

segunda-feira, fevereiro 5

Aniversário

Foi o dia em que, oficialmente, entrei na velhice, mas nem eu pranteei nem os céus trovejaram, e o dia passou como a maioria dos dias passa: corriqueiro e calmo.
Se o corpo ou o intelecto funcionassem mal, se a minha alma andasse desvairada, se um drama ou a miséria me ameaçassem, eu teria razões de queixa.
Como nada disso acontece, só tenho motivos de inquietação: o de ignorar donde venho, o de não saber quem sou, o dar-me conta de como o tempo de uma vida é um instante irrisório, a incerteza do que será o meu destino, o mistério do que fica para lá do fim.

Cigano

Poucos haverá de feições assim aristocráticas e um olhar que parece indiferente à hostilidade do mundo. A roupa também o não denuncia, porque da que lhe dão por esmola nas casas abastadas, ele escolhe infalivelmente a que, pela cor e o corte, o tornam quase elegante. Usa chapéu de aba larga debruado a couro, boas botas.
Mau grado tudo isso José Lindo é inegavelmente cigano, e o mais trágico de todos, pois vagueia sozinho desde que muitos anos atrás, por razões que nunca disse, a sua família e a tribo o expulsaram. Na nossa aldeia pára às semanas, talvez porque não precise de ir de porta em porta a pedir esmola, pois quando chega a hora há sempre uma mulher que lhe leva um prato de comida ao banco ou à soleira onde ele se senta amodorrado.
Dorme onde melhor lhe calha, ao ar livre, debaixo dos alpendres, nos palheiros; se o tempo fica mau abriga-se numa casa abandonada e acende lá uma fogueira.
A velhice e as agruras devem-no ter transtornado, com certeza a razão porque deixou de fazer os cestos com que ganhava alguma coisa. E pouco fala. Tem alturas em que nem sequer responde a quem lhe dá as boas horas.

domingo, fevereiro 4

Circo

Encostaram às traseiras da capela uma roulotte caduca, as paredes enfeitadas com bonecos pintalgados. Uma fieira de lâmpadas vermelhas faz um arremedo de arco festivo. Pergunto aos vizinhos do que se trata e eles respondem-me que é um circo. Depois, com um sorriso malicioso:
- Não vá julgar que é como os de antigamente. Este é moderno. No princípio fazem um bocado de ginástica, mas depois abrem as goelas à música e ficam as gajas a cantar e a dançar. Meio nuas. Com um panito a tapar-lhes as vergonhas. Venha logo à noite e vai ver que é como na cidade.
Prefiro não ver. Quero guardar inteira a recordação de quando os saltimbancos vinham com uma caravana de burros carregados de atributos e, no mesmo lugar, espetavam os paus em que firmavam o trapézio. Depois saltavam, giravam, contorciam-se, tiravam dinheiro do nariz das pessoas, cuspiam fogo, faziam a pirâmide humana...
Não quero ver mulheres meio nuas a cantar e a dançar. O que nunca mais acontecerá, e eu gostaria de voltar a ver, era aquela menininha que teria então a minha idade e, gracil­mente, erguia um arco no ar, por onde um cão saltava cada vez que ela lhe gritava: 'Allez, hop!'

Gondarém

Gondarém. A matar saudades, vou-me hospedar na casa em que passei os anos melhores da adolescência, agora transformada em estalagem. E, como faço das outras vezes, peço que se está desocupado me dêem o quarto do torreão, que foi o meu.
Entro nele com a esperança sempre repetida de que, estando ali, verei um dia abrir-se de par em par as portas que me impedem de ver claro no meu passado. Esperança vã.

sábado, fevereiro 3

Heavy metal

… Purcell, Monteverdi, Bach, Mozart… Nomes que involuntariamente me ocorrem durante um concerto de Pergolesi.
Divago.
Desde a invenção do gramofone podemos ouvir mais concertos em dias, do que antes ouvia um músico durante a vida inteira. Mas que benesses nos vêm das imensas e esplêndidas possibilidades que entretanto criámos?
… Funk…Grunge…Hiphop… Heavy metal…

sexta-feira, fevereiro 2

Johnson

"A gentleman who had been very unhappy in marriage, married immediatly after his wife died: Johnson said, it was the triumph of hope over experience."

in Boswell's Life of Johnson

Pavilhão Chinês

Fim da tarde. Chovisca. Deixo o Jardim de Alcântara e subo até ao Pavilhão Chinês.
Sento-me perto da porta, bom lugar para melhor me entreter com a colecção de bric-à-brac. Peço uma cerveja.
Pouca gente. De ar absorto, uma encarnação de pintor boémio fuma cachimbo, faz caretas de desdém, sopra o fumo para o tecto. Num canto da sala duas lésbicas. No canto oposto uma rapariga sueca bebe Campari e fuma. Digo rapariga, porque na idade a que cheguei toda a mulher com menos de quarenta anos é rapariga; e sueca, porque o loiro dos cabelos, as suas feições, o rosto, o corpo, a maneira desenvol­ta, e o Aftonbladet aberto sobre a mesa, razoavel­mente confirmam a nacionalidade.
Olho distraído os cartazes, as vitrinas, o cubículo ao fundo donde vem o som de riso abafado. Um tilintar de copos.
A sueca vai-se embora. As lésbicas trocam carícias, indiferentes ao olhar zombeteiro do empregado. Uma delas, alta e magra, vestida com um masculino fato preto, gravata idem, cabeleira de azeviche, maquilhagem esbranquiçada, tem um ar de fantas­ma teatral. A companheira, rechonchuda e coquette, é do tipo sofredor.
Bebo outra cerveja. Dois alemães de meia idade espreitam à porta, arriscam uns passos na sala, olham em volta com o ar de quem teme ter entrado por engano num lugar de má nota, e desaparecem silenciosamente.
Pago e saio atrás deles. Parou de chover. Volto ao jardim.

quarta-feira, janeiro 31

A lei

Por vezes tenho invejo de meu pai. Circunstâncias várias fizeram com que a sua vida não fosse feliz, mas pelo menos pôde vivê-la de acordo com o carácter que tinha: o seu deus era a lei, a sua missão o fazer cumprir a lei e punir os transgresso­res, o seu gosto maior o de ver a lei cumprida.
Eu não tenho deus, não tenho missão, e quando cumpro a lei sinto-me quase sempre contraria­do.

terça-feira, janeiro 30

Jesus está vivo!

Aí duns trinta anos, alto de quase dois metros, rosto e crâneo redondos, provavelmente nativo do Ghana. Parou no passeio oposto com a bicicleta pela mão e, voltado para mim, gritou qualquer coisa que não compreendi.
Pedi-lhe que repetisse. E ele repetiu, mas de novo me escapou. Talvez quisesse perguntar o caminho. Atravessei a rua:
- Diga.
- Jesus está vivo!
- Hmm…
- Você com certeza não crê. Não tem cara de crente.
- Olhe que creio.
- Mas não vai à missa.
- Vou sim.
- Então até domingo.
- Até domingo.
A minha mulher não gostou de me ouvir dizer que era crente e ia à missa. Pareceu-lhe uma pouca-vergonha. Mas que fazer em semelhante caso? Levantar questões teológicas com um desconhe­cido, provavelmente transtorna­do? Acirrar-lhe o fundamen­talismo, ou pior : a loucura? Com uma mentira inócua foi ele em paz, fiquei eu em paz.

segunda-feira, janeiro 29

Coincidências, recordações, lugares

Quatro pessoas. Três histórias.

Ele diz: - A minha vida decidiu-se numa tarde, em Janeiro de 91, em Zurique, no bar do hotel Bauer au Lac. Durante uma conversa entre dois amigos, a que assisti pelo simples acaso de lá ter entrado nesse momento, e a qual, inicialmente, nada tinha a ver comigo. Estranho, não é?

- Vai fazer quase dez anos - conta ela. - No Hotel Tivoli, em Lisboa. Ia deitar-me quando dei conta de que tinha esquecido um recado a um colega que também lá estava hospedado. Ainda me lembro do número do quarto, o 703. Liguei umas quantas vezes, mas como o telefone continuava ocupado, resolvi bater-lhe à porta. Ele veio abrir e, ainda a falar com o aparelho na mão, acenou-me para que entrasse. Se nesse instante me tivessem dito que, passado coisa de uma hora, o meu destino estava marcado, eu acharia uma tolice.

O casal sorri, hesita. A mulher acena-lhe. Finalmente é ele quem fala:
- Deve ter sido predesti­nação. Nós mal nos conhecíamos e da primeira vez fomos castos, trocámos um beijo. Na tarde seguinte en­contrámo-nos no que então se chamava uma maison de rendez-vous. Suponho que a expressão e o fenómeno se acham ultrapassados, mas também é facto que isto aconteceu há séculos. Aí, nessa tarde, as nossas vidas levaram uma reviravolta definitiva. Lembro-me da rua e do número: Heren­gracht 341, em Amster­dam. Anos depois a casa tinha sido transformada em hotel. O quarto é fácil de reconhe­cer: fica no primeiro andar, é o único com varanda para o canal.

domingo, janeiro 28

Experiência

A sua voz aguda irrita-me. O ele insistir em que aprende muito com os jovens, irrita-me ainda mais. E acho patético, de certo modo até suspeito, o querer aprender com aqueles a quem falta a experiência.

sábado, janeiro 27

Yes. One beer, please

O lixo da memória

Porque será que certas imagens do meu passado mais remoto se gravaram na memória e constantemente vêm à tona como se tivessem um significado especial?
Um elétrico vazio num fim de linha, em Lisboa. Dois homens numa esplanada. Uma bicicleta verde encostada à parede da estação de Haarlem. A balança de uma mercearia. A porta de uma garagem em Angoulême. Um coreto. Uma ferradura gasta caída num caminho pedregoso. A lâmina de um canivete... Será possível que recor­dações tão banais encerrem uma forma de mensagem? Existirá um lixo da memória impossível de incinerar?

sexta-feira, janeiro 26

O espírito do tempo

Embora saiba que não me dá novidade, mas numa tentativa de me tirar do que considera uma excessiva letargia, ela diz:
- Podes discordar, mas olha à tua volta. O escritor tem de se promover a si próprio, promover os seus livros, a sua imagem de marca. Não quero exagerar, mas a imagem do escritor tornou-se mais importante do que a qualidade daquilo que ele escreve. Essencial é que se mostre, participe, se distinga como personagem.
De facto assim é e ela tem razão. Cafés, tertúlias, as manifestações e os encontros, as amizades, os contactos, os jornais, as revistas literárias, a televisão : em todos esses lugares e meios o escritor deve estar presente a vender o seu peixe. Excentricidade no comportamento também ajuda.
Mas que fazer quando, como a mim, faltam as qualidades precisas? E que não faltassem, para assustar basta ver aqueles que, ano após ano de promoção, não conseguem vender um livro nem criar um nome e, em vez dos escritores e poetas que julgam ser, são simples figurantes nos shows patrocinados pelo espírito do tempo.

quinta-feira, janeiro 25