domingo, fevereiro 4

Circo

Encostaram às traseiras da capela uma roulotte caduca, as paredes enfeitadas com bonecos pintalgados. Uma fieira de lâmpadas vermelhas faz um arremedo de arco festivo. Pergunto aos vizinhos do que se trata e eles respondem-me que é um circo. Depois, com um sorriso malicioso:
- Não vá julgar que é como os de antigamente. Este é moderno. No princípio fazem um bocado de ginástica, mas depois abrem as goelas à música e ficam as gajas a cantar e a dançar. Meio nuas. Com um panito a tapar-lhes as vergonhas. Venha logo à noite e vai ver que é como na cidade.
Prefiro não ver. Quero guardar inteira a recordação de quando os saltimbancos vinham com uma caravana de burros carregados de atributos e, no mesmo lugar, espetavam os paus em que firmavam o trapézio. Depois saltavam, giravam, contorciam-se, tiravam dinheiro do nariz das pessoas, cuspiam fogo, faziam a pirâmide humana...
Não quero ver mulheres meio nuas a cantar e a dançar. O que nunca mais acontecerá, e eu gostaria de voltar a ver, era aquela menininha que teria então a minha idade e, gracil­mente, erguia um arco no ar, por onde um cão saltava cada vez que ela lhe gritava: 'Allez, hop!'

Gondarém

Gondarém. A matar saudades, vou-me hospedar na casa em que passei os anos melhores da adolescência, agora transformada em estalagem. E, como faço das outras vezes, peço que se está desocupado me dêem o quarto do torreão, que foi o meu.
Entro nele com a esperança sempre repetida de que, estando ali, verei um dia abrir-se de par em par as portas que me impedem de ver claro no meu passado. Esperança vã.

sábado, fevereiro 3

Heavy metal

… Purcell, Monteverdi, Bach, Mozart… Nomes que involuntariamente me ocorrem durante um concerto de Pergolesi.
Divago.
Desde a invenção do gramofone podemos ouvir mais concertos em dias, do que antes ouvia um músico durante a vida inteira. Mas que benesses nos vêm das imensas e esplêndidas possibilidades que entretanto criámos?
… Funk…Grunge…Hiphop… Heavy metal…

sexta-feira, fevereiro 2

Johnson

"A gentleman who had been very unhappy in marriage, married immediatly after his wife died: Johnson said, it was the triumph of hope over experience."

in Boswell's Life of Johnson

Pavilhão Chinês

Fim da tarde. Chovisca. Deixo o Jardim de Alcântara e subo até ao Pavilhão Chinês.
Sento-me perto da porta, bom lugar para melhor me entreter com a colecção de bric-à-brac. Peço uma cerveja.
Pouca gente. De ar absorto, uma encarnação de pintor boémio fuma cachimbo, faz caretas de desdém, sopra o fumo para o tecto. Num canto da sala duas lésbicas. No canto oposto uma rapariga sueca bebe Campari e fuma. Digo rapariga, porque na idade a que cheguei toda a mulher com menos de quarenta anos é rapariga; e sueca, porque o loiro dos cabelos, as suas feições, o rosto, o corpo, a maneira desenvol­ta, e o Aftonbladet aberto sobre a mesa, razoavel­mente confirmam a nacionalidade.
Olho distraído os cartazes, as vitrinas, o cubículo ao fundo donde vem o som de riso abafado. Um tilintar de copos.
A sueca vai-se embora. As lésbicas trocam carícias, indiferentes ao olhar zombeteiro do empregado. Uma delas, alta e magra, vestida com um masculino fato preto, gravata idem, cabeleira de azeviche, maquilhagem esbranquiçada, tem um ar de fantas­ma teatral. A companheira, rechonchuda e coquette, é do tipo sofredor.
Bebo outra cerveja. Dois alemães de meia idade espreitam à porta, arriscam uns passos na sala, olham em volta com o ar de quem teme ter entrado por engano num lugar de má nota, e desaparecem silenciosamente.
Pago e saio atrás deles. Parou de chover. Volto ao jardim.

quarta-feira, janeiro 31

A lei

Por vezes tenho invejo de meu pai. Circunstâncias várias fizeram com que a sua vida não fosse feliz, mas pelo menos pôde vivê-la de acordo com o carácter que tinha: o seu deus era a lei, a sua missão o fazer cumprir a lei e punir os transgresso­res, o seu gosto maior o de ver a lei cumprida.
Eu não tenho deus, não tenho missão, e quando cumpro a lei sinto-me quase sempre contraria­do.

terça-feira, janeiro 30

Jesus está vivo!

Aí duns trinta anos, alto de quase dois metros, rosto e crâneo redondos, provavelmente nativo do Ghana. Parou no passeio oposto com a bicicleta pela mão e, voltado para mim, gritou qualquer coisa que não compreendi.
Pedi-lhe que repetisse. E ele repetiu, mas de novo me escapou. Talvez quisesse perguntar o caminho. Atravessei a rua:
- Diga.
- Jesus está vivo!
- Hmm…
- Você com certeza não crê. Não tem cara de crente.
- Olhe que creio.
- Mas não vai à missa.
- Vou sim.
- Então até domingo.
- Até domingo.
A minha mulher não gostou de me ouvir dizer que era crente e ia à missa. Pareceu-lhe uma pouca-vergonha. Mas que fazer em semelhante caso? Levantar questões teológicas com um desconhe­cido, provavelmente transtorna­do? Acirrar-lhe o fundamen­talismo, ou pior : a loucura? Com uma mentira inócua foi ele em paz, fiquei eu em paz.

segunda-feira, janeiro 29

Coincidências, recordações, lugares

Quatro pessoas. Três histórias.

Ele diz: - A minha vida decidiu-se numa tarde, em Janeiro de 91, em Zurique, no bar do hotel Bauer au Lac. Durante uma conversa entre dois amigos, a que assisti pelo simples acaso de lá ter entrado nesse momento, e a qual, inicialmente, nada tinha a ver comigo. Estranho, não é?

- Vai fazer quase dez anos - conta ela. - No Hotel Tivoli, em Lisboa. Ia deitar-me quando dei conta de que tinha esquecido um recado a um colega que também lá estava hospedado. Ainda me lembro do número do quarto, o 703. Liguei umas quantas vezes, mas como o telefone continuava ocupado, resolvi bater-lhe à porta. Ele veio abrir e, ainda a falar com o aparelho na mão, acenou-me para que entrasse. Se nesse instante me tivessem dito que, passado coisa de uma hora, o meu destino estava marcado, eu acharia uma tolice.

O casal sorri, hesita. A mulher acena-lhe. Finalmente é ele quem fala:
- Deve ter sido predesti­nação. Nós mal nos conhecíamos e da primeira vez fomos castos, trocámos um beijo. Na tarde seguinte en­contrámo-nos no que então se chamava uma maison de rendez-vous. Suponho que a expressão e o fenómeno se acham ultrapassados, mas também é facto que isto aconteceu há séculos. Aí, nessa tarde, as nossas vidas levaram uma reviravolta definitiva. Lembro-me da rua e do número: Heren­gracht 341, em Amster­dam. Anos depois a casa tinha sido transformada em hotel. O quarto é fácil de reconhe­cer: fica no primeiro andar, é o único com varanda para o canal.

domingo, janeiro 28

Experiência

A sua voz aguda irrita-me. O ele insistir em que aprende muito com os jovens, irrita-me ainda mais. E acho patético, de certo modo até suspeito, o querer aprender com aqueles a quem falta a experiência.

sábado, janeiro 27

Yes. One beer, please

O lixo da memória

Porque será que certas imagens do meu passado mais remoto se gravaram na memória e constantemente vêm à tona como se tivessem um significado especial?
Um elétrico vazio num fim de linha, em Lisboa. Dois homens numa esplanada. Uma bicicleta verde encostada à parede da estação de Haarlem. A balança de uma mercearia. A porta de uma garagem em Angoulême. Um coreto. Uma ferradura gasta caída num caminho pedregoso. A lâmina de um canivete... Será possível que recor­dações tão banais encerrem uma forma de mensagem? Existirá um lixo da memória impossível de incinerar?

sexta-feira, janeiro 26

O espírito do tempo

Embora saiba que não me dá novidade, mas numa tentativa de me tirar do que considera uma excessiva letargia, ela diz:
- Podes discordar, mas olha à tua volta. O escritor tem de se promover a si próprio, promover os seus livros, a sua imagem de marca. Não quero exagerar, mas a imagem do escritor tornou-se mais importante do que a qualidade daquilo que ele escreve. Essencial é que se mostre, participe, se distinga como personagem.
De facto assim é e ela tem razão. Cafés, tertúlias, as manifestações e os encontros, as amizades, os contactos, os jornais, as revistas literárias, a televisão : em todos esses lugares e meios o escritor deve estar presente a vender o seu peixe. Excentricidade no comportamento também ajuda.
Mas que fazer quando, como a mim, faltam as qualidades precisas? E que não faltassem, para assustar basta ver aqueles que, ano após ano de promoção, não conseguem vender um livro nem criar um nome e, em vez dos escritores e poetas que julgam ser, são simples figurantes nos shows patrocinados pelo espírito do tempo.

quinta-feira, janeiro 25

Sorrir, e depois votar SIM

Heróis

Nunca soube mandar, nem nasci com carácter para obedecer, mas houve um tempo em que tive heróis - ou devo dizer ídolos? Homens que aos meus olhos, pela sua inteligência e arte, a firmeza das convicções, se colocavam tão acima do comum que eu me sentia privilegiado de poder admirá-los.
Talvez porque morreram num momento em que a minha admiração era inabalável, a imagem dalguns deles permanece quase intocada. As estátuas que me fiz dos outros, expostas à passagem do tempo e à mudança do meu ver, foram aos poucos minguando em tamanho.
Hoje em dia ainda me vêm acessos de admiração, ainda me maravilho, mas sem ter quem me mostre o caminho, ou me conforte com a esperança de certezas, a jornada perdeu o mistério de antigamente. Também já não corro, ansioso por descobrir. Vou sozinho e a passo, com o sentimento de que os dias se repetem numa infinda monotonia.

quarta-feira, janeiro 24

Wrong dreams

Talvez como compensação para um dia-a-dia em que são escassos os acontecimentos dignos de nota, quase todas as noites sonho. Mas os meus sonhos raramente são calmos e felizes, povoam-nos medos, perigos, abismos vorazes.
No sonho desloco-me para paragens onde nada se acomoda aos padrões da realidade: nem as gentes, nem os animais, as plantas, a paisagem ou as circunstâncias. E contudo, mau grado os medos e a estranhe­za, nesse mundo deformado sinto-me mais completamen­te eu, mais alerta e senhor de mim, do que quando ao acordar me vejo de retorno ao mundo real.

A minha vida costumo dividi-la em antes e depois da Holanda. Os primeiros vinte e seis anos do antes foram indubitavelmente os mais ricos, os da aprendizagem de mim mesmo e do mundo, os das viagens, das descobertas, do enriquecimento do espírito - mas também anos infelizes.
Os anos do depois foram sobretudo de sedimentação. Sentimentos, conhecimentos, ideias, sensações, tudo se foi lentamente acamando na formação do eu adulto.
E porque me sei mais feliz agora do que o fui na juventu­de, ou melhor, porque a felicidade veio quando eu já desistira da esperança dela, tenho por vezes a impressão de que, por um desleixo do destino, a minha existência se desenro­la às avessas­. O que ardentemente desejei quando tudo me parecia uma ascensão, foi-me negado. O que em seguida recebi, e não considero pouco, veio tarde demais para que o soubesse e pudesse gozar em pleno. Assim, embora de mãos cheias, quando olho para a vida que até agora tive sinto-me the wrong man in the right place, at the right time, with the wrong dreams.

segunda-feira, janeiro 22

Boa notícia

Carta de minha mãe (*) o ano passado. Que estava à noite a ver a televisão e de repente teve a surpresa de lhe aparecer o filho no ecrã.
Eu não lho tinha dito, para que, no caso do programa não ser transmitido, lhe evitar a desilusão. Mas alegrou-se ela, alegrou-se o povoado. Só que, de tão confundida com o ver-me inesperada­mente, não foi capaz de ouvir tudo o que falei. Contaram-lho depois os vizinhos.
Todavia, como por milagre, ouviu perfeitamente que eu disse que queria ser enterrado na aldeia. E num inconscien­te acesso de humor negro, acrescenta esta novidade: 'Por acaso andam a aumentar o cemitério'.
..............
(*) Quase centenária, continua em seu juízo, lê sem óculos.

Inveja

Invejo os que se marcam um destino, escolhem uma carreira, os que têm na vida um fito. Invejo os que são capazes de dedicar anos a uma única tarefa, seja ela a construção de um veleiro miniatura dentro de uma garrafa, a pesquisa dos abismos do oceano ou a contagem das espécies de borboletas.
Invejo-os porque suponho neles uma força que não tenho, uma estabilidade do ser que não conheço. Mesmo os livros que escrevi não me dão a ideia de obra acabada, antes me parecem espasmos de um espírito que não sabe como exprimir a sua inquietude.

Orgulho

Mesmo os gémeos nunca são idênticos, e ainda bem, pois a menos que um meteorito esbarre com o planeta, ou uma catástrofe semelhante nos varra definitivamente dele, nunca faltarão razões de nos maravilharmos com o género humano e a infinita variedade dos seus sentimentos.
A do orgulho, por exemplo. Há o orgulho clássico de quem gerou um filho, plantou uma árvore ou escreveu um livro. O orgulho dos generais que venceram no campo de batalha e o orgulho dos que venceram na vida, dos que fizeram descobertas essenciais, dos que realizaram os seus sonhos. O orgulho dos heróis e dos capitães de indústria. O orgulho dos campiões, dos que aprenderam sozinhos a tocar trombone, dos especuladores, dos confeiteiros...
A senhora foi deputada. Boa ou má, competente ou nulidade, pouco interessa. O que me maravilha é a sua repetida afirmação de que se orgulha de que, no parlamento holandês, ninguém antes dela tenha proferido a palavra “cona”.

domingo, janeiro 21

O tempo de um Verão

Amámo-nos apaixonadamente o tempo de um Verão da nossa adolescência. Esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, a beleza do liceu tinha desdenhado de todos os preten­dentes e preferido a ovelha negra que eu era.
Amámo-nos apaixonadamen­te esse Verão, mas a diferença social entre nós era tão grande que os pais, assustados, a mandaram para um internato longínquo, com freiras e disciplina.
Usando de artifícios ainda conse­guimos trocar algumas cartas, mas logo nos demos conta de que uma paixão como a nossa não tinha futuro.
Depois o acaso fez com que um dia nos encontrássemos numa estação à espera do mesmo combóio e, durante as horas que viajámos juntos, voltámos a amar-nos apaixona­damente.
Quando nos despedimos não fizemos promessas nem chorámos lágrimas. Um último beijo, um último aceno, ela desceu para o cais e, como eu lhe tinha pedido, foi-se embora sem esperar pela partida do combóio que me levava para longe.
Recebi há pouco um cartão a anunciar o seu falecimento, mas a notícia não me chocou nem fez entristecer. Quem morreu foi a mulher casada, a mãe, a avó em que ela se tinha tornado e que não conheci. A Maria Luísa, amor de um Verão, esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, continua a viver na minha lembrança.

sábado, janeiro 20

Cidadão supérfluo

Tais como somos, o mundo não se pode passar de governos, polícias e exércitos. Não que isso garanta seja o que for, mas porque mantém viva a ilusão de que é difícil - não impossível - comermo-nos uns aos outros.
O mundo também não se pode passar de religiões, pois só elas garantem a esperança - verdadeira ou falsa, pouco importa - de termos sempre à mão um último socorro, uma última possibilidade de indulto.
Eu, porém, sem convicção que me ajude a confiar nas instituições políticas, nem fé bastante que me embale com a existência do Além, vivo um pouco como a clássica rolha sobre a inconstância das águas: bóio calmamente aqui, sou atirado para acolá, paro, giro, cai-me a onda em cima, sopra-me a tempestade para longe, volto a boiar calmo.
Daí que consoante a hora e a disposição eu seja capaz de tudo justificar, desculpar, defender: as guerras, as violências dos regimes, a atracção das seitas, as desigualdades sociais, as consequências da opressão, as loucuras, os crimes. E de logo em seguida sentir contra tudo isso uma sincera revolta. Observo, mas não participo. Vou boiando. Tipo acabado do cidadão supérfluo.