quarta-feira, janeiro 31
A lei
Eu não tenho deus, não tenho missão, e quando cumpro a lei sinto-me quase sempre contrariado.
terça-feira, janeiro 30
Jesus está vivo!
Pedi-lhe que repetisse. E ele repetiu, mas de novo me escapou. Talvez quisesse perguntar o caminho. Atravessei a rua:
- Diga.
- Jesus está vivo!
- Hmm…
- Você com certeza não crê. Não tem cara de crente.
- Olhe que creio.
- Mas não vai à missa.
- Vou sim.
- Então até domingo.
- Até domingo.
A minha mulher não gostou de me ouvir dizer que era crente e ia à missa. Pareceu-lhe uma pouca-vergonha. Mas que fazer em semelhante caso? Levantar questões teológicas com um desconhecido, provavelmente transtornado? Acirrar-lhe o fundamentalismo, ou pior : a loucura? Com uma mentira inócua foi ele em paz, fiquei eu em paz.
segunda-feira, janeiro 29
Coincidências, recordações, lugares
Quatro pessoas. Três histórias.
Ele diz: - A minha vida decidiu-se numa tarde, em Janeiro de 91, em Zurique, no bar do hotel Bauer au Lac. Durante uma conversa entre dois amigos, a que assisti pelo simples acaso de lá ter entrado nesse momento, e a qual, inicialmente, nada tinha a ver comigo. Estranho, não é?
- Vai fazer quase dez anos - conta ela. - No Hotel Tivoli, em Lisboa. Ia deitar-me quando dei conta de que tinha esquecido um recado a um colega que também lá estava hospedado. Ainda me lembro do número do quarto, o 703. Liguei umas quantas vezes, mas como o telefone continuava ocupado, resolvi bater-lhe à porta. Ele veio abrir e, ainda a falar com o aparelho na mão, acenou-me para que entrasse. Se nesse instante me tivessem dito que, passado coisa de uma hora, o meu destino estava marcado, eu acharia uma tolice.
O casal sorri, hesita. A mulher acena-lhe. Finalmente é ele quem fala:
- Deve ter sido predestinação. Nós mal nos conhecíamos e da primeira vez fomos castos, trocámos um beijo. Na tarde seguinte encontrámo-nos no que então se chamava uma maison de rendez-vous. Suponho que a expressão e o fenómeno se acham ultrapassados, mas também é facto que isto aconteceu há séculos. Aí, nessa tarde, as nossas vidas levaram uma reviravolta definitiva. Lembro-me da rua e do número: Herengracht 341, em Amsterdam. Anos depois a casa tinha sido transformada em hotel. O quarto é fácil de reconhecer: fica no primeiro andar, é o único com varanda para o canal.
domingo, janeiro 28
Experiência
sábado, janeiro 27
O lixo da memória
Um elétrico vazio num fim de linha, em Lisboa. Dois homens numa esplanada. Uma bicicleta verde encostada à parede da estação de Haarlem. A balança de uma mercearia. A porta de uma garagem em Angoulême. Um coreto. Uma ferradura gasta caída num caminho pedregoso. A lâmina de um canivete... Será possível que recordações tão banais encerrem uma forma de mensagem? Existirá um lixo da memória impossível de incinerar?
sexta-feira, janeiro 26
O espírito do tempo
- Podes discordar, mas olha à tua volta. O escritor tem de se promover a si próprio, promover os seus livros, a sua imagem de marca. Não quero exagerar, mas a imagem do escritor tornou-se mais importante do que a qualidade daquilo que ele escreve. Essencial é que se mostre, participe, se distinga como personagem.
De facto assim é e ela tem razão. Cafés, tertúlias, as manifestações e os encontros, as amizades, os contactos, os jornais, as revistas literárias, a televisão : em todos esses lugares e meios o escritor deve estar presente a vender o seu peixe. Excentricidade no comportamento também ajuda.
Mas que fazer quando, como a mim, faltam as qualidades precisas? E que não faltassem, para assustar basta ver aqueles que, ano após ano de promoção, não conseguem vender um livro nem criar um nome e, em vez dos escritores e poetas que julgam ser, são simples figurantes nos shows patrocinados pelo espírito do tempo.
quinta-feira, janeiro 25
Heróis
Talvez porque morreram num momento em que a minha admiração era inabalável, a imagem dalguns deles permanece quase intocada. As estátuas que me fiz dos outros, expostas à passagem do tempo e à mudança do meu ver, foram aos poucos minguando em tamanho.
Hoje em dia ainda me vêm acessos de admiração, ainda me maravilho, mas sem ter quem me mostre o caminho, ou me conforte com a esperança de certezas, a jornada perdeu o mistério de antigamente. Também já não corro, ansioso por descobrir. Vou sozinho e a passo, com o sentimento de que os dias se repetem numa infinda monotonia.
quarta-feira, janeiro 24
Wrong dreams
No sonho desloco-me para paragens onde nada se acomoda aos padrões da realidade: nem as gentes, nem os animais, as plantas, a paisagem ou as circunstâncias. E contudo, mau grado os medos e a estranheza, nesse mundo deformado sinto-me mais completamente eu, mais alerta e senhor de mim, do que quando ao acordar me vejo de retorno ao mundo real.
A minha vida costumo dividi-la em antes e depois da Holanda. Os primeiros vinte e seis anos do antes foram indubitavelmente os mais ricos, os da aprendizagem de mim mesmo e do mundo, os das viagens, das descobertas, do enriquecimento do espírito - mas também anos infelizes.
Os anos do depois foram sobretudo de sedimentação. Sentimentos, conhecimentos, ideias, sensações, tudo se foi lentamente acamando na formação do eu adulto.
E porque me sei mais feliz agora do que o fui na juventude, ou melhor, porque a felicidade veio quando eu já desistira da esperança dela, tenho por vezes a impressão de que, por um desleixo do destino, a minha existência se desenrola às avessas. O que ardentemente desejei quando tudo me parecia uma ascensão, foi-me negado. O que em seguida recebi, e não considero pouco, veio tarde demais para que o soubesse e pudesse gozar em pleno. Assim, embora de mãos cheias, quando olho para a vida que até agora tive sinto-me the wrong man in the right place, at the right time, with the wrong dreams.
segunda-feira, janeiro 22
Boa notícia
Eu não lho tinha dito, para que, no caso do programa não ser transmitido, lhe evitar a desilusão. Mas alegrou-se ela, alegrou-se o povoado. Só que, de tão confundida com o ver-me inesperadamente, não foi capaz de ouvir tudo o que falei. Contaram-lho depois os vizinhos.
Todavia, como por milagre, ouviu perfeitamente que eu disse que queria ser enterrado na aldeia. E num inconsciente acesso de humor negro, acrescenta esta novidade: 'Por acaso andam a aumentar o cemitério'.
..............
(*) Quase centenária, continua em seu juízo, lê sem óculos.
Inveja
Invejo-os porque suponho neles uma força que não tenho, uma estabilidade do ser que não conheço. Mesmo os livros que escrevi não me dão a ideia de obra acabada, antes me parecem espasmos de um espírito que não sabe como exprimir a sua inquietude.
Orgulho
A do orgulho, por exemplo. Há o orgulho clássico de quem gerou um filho, plantou uma árvore ou escreveu um livro. O orgulho dos generais que venceram no campo de batalha e o orgulho dos que venceram na vida, dos que fizeram descobertas essenciais, dos que realizaram os seus sonhos. O orgulho dos heróis e dos capitães de indústria. O orgulho dos campiões, dos que aprenderam sozinhos a tocar trombone, dos especuladores, dos confeiteiros...
A senhora foi deputada. Boa ou má, competente ou nulidade, pouco interessa. O que me maravilha é a sua repetida afirmação de que se orgulha de que, no parlamento holandês, ninguém antes dela tenha proferido a palavra “cona”.
domingo, janeiro 21
O tempo de um Verão
Amámo-nos apaixonadamente esse Verão, mas a diferença social entre nós era tão grande que os pais, assustados, a mandaram para um internato longínquo, com freiras e disciplina.
Usando de artifícios ainda conseguimos trocar algumas cartas, mas logo nos demos conta de que uma paixão como a nossa não tinha futuro.
Depois o acaso fez com que um dia nos encontrássemos numa estação à espera do mesmo combóio e, durante as horas que viajámos juntos, voltámos a amar-nos apaixonadamente.
Quando nos despedimos não fizemos promessas nem chorámos lágrimas. Um último beijo, um último aceno, ela desceu para o cais e, como eu lhe tinha pedido, foi-se embora sem esperar pela partida do combóio que me levava para longe.
Recebi há pouco um cartão a anunciar o seu falecimento, mas a notícia não me chocou nem fez entristecer. Quem morreu foi a mulher casada, a mãe, a avó em que ela se tinha tornado e que não conheci. A Maria Luísa, amor de um Verão, esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, continua a viver na minha lembrança.
sábado, janeiro 20
Cidadão supérfluo
O mundo também não se pode passar de religiões, pois só elas garantem a esperança - verdadeira ou falsa, pouco importa - de termos sempre à mão um último socorro, uma última possibilidade de indulto.
Eu, porém, sem convicção que me ajude a confiar nas instituições políticas, nem fé bastante que me embale com a existência do Além, vivo um pouco como a clássica rolha sobre a inconstância das águas: bóio calmamente aqui, sou atirado para acolá, paro, giro, cai-me a onda em cima, sopra-me a tempestade para longe, volto a boiar calmo.
Daí que consoante a hora e a disposição eu seja capaz de tudo justificar, desculpar, defender: as guerras, as violências dos regimes, a atracção das seitas, as desigualdades sociais, as consequências da opressão, as loucuras, os crimes. E de logo em seguida sentir contra tudo isso uma sincera revolta. Observo, mas não participo. Vou boiando. Tipo acabado do cidadão supérfluo.
Enredo
Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus tratos, incesto, álcool, droga, prostituição. Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Mas logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um outro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada do corpo e do espírito tinha passado meses no hospital.
- E agora, como te sentes? - perguntei, a dar-me tempo de absorver aquele rosário de tragédias.
- Mais ou menos. Tomo antidepressivos,vou aguentando.
Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei do caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
- O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados... Porquê?
- É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.
sexta-feira, janeiro 19
Lisboa
Algumas noites debrucei-me, igual a tantos outros, nos parapeitos do Terreiro do Paço, a olhar o rio, perguntando-me se valia realmente a pena voltar ao meu miserável quarto de aluguer, e à angústia de um viver sem esperança, ou se não seria melhor acabar ali mesmo, deixando-me escorregar para a escuridão da água.
Não, Lisboa não é para mim um lugar alegre nem feliz. É uma cidade onde tive medo e onde algumas vezes me senti morrer.
Sinfonia
- Que sonho, compor uma sinfonia com o silêncio nocturno das catedrais vazias! Ser capaz de traduzir em música o amarelo vibrante de certos poentes! Não achas que seria grandioso?
Aceno polidamente que sim, porque tenho a impressão de que estou a aturar um louco manso e quero-me ir embora. Sinto-me exausto do esforço que faço para não ser sarcástico.
quinta-feira, janeiro 18
Conversa
Ou porque o longo rosário de desgraças a fatigasse, porque a luz triste lhe causasse outros pensamentos, ou simplesmente porque, encontrando-nos numa emissora católica, tal curiosidade de certo modo tivesse cabimento, você de repente quis saber se eu acreditava em Deus.
E eu, tal um político surpreendido em momento crítico, dei-lhe, conscientemente, uma dessas respostas sofísticas que são o equivalente verbal da cortina de fumo - e fui adiante com a história do meu povo.
Acontece que quando alguém quer saber o que penso sobre a existência do Altíssimo, a minha reacção é muito semelhante à de quem sente ameaçada a sua privacidade. Não que a pergunta não fosse legítima. Bem ao contrário. Na sociedade descontraída em que vivemos todas as curiosidades são permitidas. É mesmo pelo jogo das confissões mútuas que hoje se mede o grau de simpatia ou apreço. A formalidade, a discrição, a reserva, raro são sinónimo de um comportamento apreciado, antes surgem como qualidades de um romantismo irremediavelmente esquecido e desprezível.
A confissão, o estendal de mazelas, aberrações, os vícios, isso é o que vale a pena. E quanto maior o detalhe, mais valiosa a confissão, mais intenso o contacto. Eu suponho até que, não possuindo vício que as distinga, certas almas simples não resistem ao pecadilho de se inventar deformidades e aflições. Para não correr o risco de que as julguem menos ou desinteressantes.
Nesse particular das confissões eu vivo francamente no passado: não as faço em público. Se, porque postos em letra de forma, alguns aparentes momentos do meu ser e do meu sentir dão uma impressão de confidência, isso não passa de recurso literário. A intimidade é para ser guardada e, excepcionalmente, oferecida em pequenas doses àqueles que a sabem receber e podem apreciar. O íntimo, a própria palavra o diz, é o que está nos recônditos da mente. Insistir em exteriorizá-lo, em torná-lo acessível a qualquer, toca o paradoxo. Além de ser signo de uma bem estranha ânsia.
Com estas considerações todas, quase ia esquecendo o que lhe queria dizer sobre a questão da existência do Todo Poderoso.
Pouco adianta que uns garantam que ele mora no céu e aguarde, mal humorado, o dia de nos julgar. Ou que outros afirmem, convictos, que tudo é poeira cósmica. A falar verdade, a partir do momento em que nos pomos perguntas para as quais não há resposta, caímos sem perdão sob a alçada dos dois poderes que mais eficientemente nos torturam: o medo e a dúvida.
quarta-feira, janeiro 17
O exílio e o infortúnio
Uma citação: 'Les artistes n'ont toujours fait qu'accuser l'exil, comme une interruption apparente de l'essor, comme un intervale sans utilité, comme une cruelle rupture. Mais le rythme de la nature veut ces cesure violentes. Car celui-là seul connaît toute la vie qui connaît l'infortune.'
Pessoalmente e infelizmente conheci-os ambos, o exílio e o infortúnio, mas não creio que nem um nem outro me tenham ensinado a conhecer a vida. O mais que sei dela aprendi-o comparando-me aos meus semelhantes, descobrindo que nasci com os mesmos aleijões que a maioria também tem. Com uma diferença: eles parece que são capazes de ignorar os seus, mas os meus como que me doem a dobrar.
