Amámo-nos apaixonadamente o tempo de um Verão da nossa adolescência. Esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, a beleza do liceu tinha desdenhado de todos os pretendentes e preferido a ovelha negra que eu era.
Amámo-nos apaixonadamente esse Verão, mas a diferença social entre nós era tão grande que os pais, assustados, a mandaram para um internato longínquo, com freiras e disciplina.
Usando de artifícios ainda conseguimos trocar algumas cartas, mas logo nos demos conta de que uma paixão como a nossa não tinha futuro.
Depois o acaso fez com que um dia nos encontrássemos numa estação à espera do mesmo combóio e, durante as horas que viajámos juntos, voltámos a amar-nos apaixonadamente.
Quando nos despedimos não fizemos promessas nem chorámos lágrimas. Um último beijo, um último aceno, ela desceu para o cais e, como eu lhe tinha pedido, foi-se embora sem esperar pela partida do combóio que me levava para longe.
Recebi há pouco um cartão a anunciar o seu falecimento, mas a notícia não me chocou nem fez entristecer. Quem morreu foi a mulher casada, a mãe, a avó em que ela se tinha tornado e que não conheci. A Maria Luísa, amor de um Verão, esbelta, loira, rosto oval, olhos verde-esmeralda, continua a viver na minha lembrança.
domingo, janeiro 21
sábado, janeiro 20
Cidadão supérfluo
Tais como somos, o mundo não se pode passar de governos, polícias e exércitos. Não que isso garanta seja o que for, mas porque mantém viva a ilusão de que é difícil - não impossível - comermo-nos uns aos outros.
O mundo também não se pode passar de religiões, pois só elas garantem a esperança - verdadeira ou falsa, pouco importa - de termos sempre à mão um último socorro, uma última possibilidade de indulto.
Eu, porém, sem convicção que me ajude a confiar nas instituições políticas, nem fé bastante que me embale com a existência do Além, vivo um pouco como a clássica rolha sobre a inconstância das águas: bóio calmamente aqui, sou atirado para acolá, paro, giro, cai-me a onda em cima, sopra-me a tempestade para longe, volto a boiar calmo.
Daí que consoante a hora e a disposição eu seja capaz de tudo justificar, desculpar, defender: as guerras, as violências dos regimes, a atracção das seitas, as desigualdades sociais, as consequências da opressão, as loucuras, os crimes. E de logo em seguida sentir contra tudo isso uma sincera revolta. Observo, mas não participo. Vou boiando. Tipo acabado do cidadão supérfluo.
O mundo também não se pode passar de religiões, pois só elas garantem a esperança - verdadeira ou falsa, pouco importa - de termos sempre à mão um último socorro, uma última possibilidade de indulto.
Eu, porém, sem convicção que me ajude a confiar nas instituições políticas, nem fé bastante que me embale com a existência do Além, vivo um pouco como a clássica rolha sobre a inconstância das águas: bóio calmamente aqui, sou atirado para acolá, paro, giro, cai-me a onda em cima, sopra-me a tempestade para longe, volto a boiar calmo.
Daí que consoante a hora e a disposição eu seja capaz de tudo justificar, desculpar, defender: as guerras, as violências dos regimes, a atracção das seitas, as desigualdades sociais, as consequências da opressão, as loucuras, os crimes. E de logo em seguida sentir contra tudo isso uma sincera revolta. Observo, mas não participo. Vou boiando. Tipo acabado do cidadão supérfluo.
Enredo
Conhecemo-nos na sessão de autógrafos de um amigo e simpatizámos, fomos jantar. Achei-a inteligente, vivaz.
Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus tratos, incesto, álcool, droga, prostituição. Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Mas logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um outro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada do corpo e do espírito tinha passado meses no hospital.
- E agora, como te sentes? - perguntei, a dar-me tempo de absorver aquele rosário de tragédias.
- Mais ou menos. Tomo antidepressivos,vou aguentando.
Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei do caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
- O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados... Porquê?
- É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.
Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus tratos, incesto, álcool, droga, prostituição. Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Mas logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um outro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada do corpo e do espírito tinha passado meses no hospital.
- E agora, como te sentes? - perguntei, a dar-me tempo de absorver aquele rosário de tragédias.
- Mais ou menos. Tomo antidepressivos,vou aguentando.
Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei do caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
- O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados... Porquê?
- É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.
sexta-feira, janeiro 19
Lisboa
As horas mais amargas e melancólicas da minha vida conheci-as durante a juventude, nos meus anos de Lisboa. Há lá ruas por onde ainda hoje não passo sem sentir um baque no coração, como se continuassem presentes os temores do passado. Certos jardins e miradouros de bela paisagem só despertam em mim lembranças de desespero.
Algumas noites debrucei-me, igual a tantos outros, nos parapeitos do Terreiro do Paço, a olhar o rio, perguntando-me se valia realmente a pena voltar ao meu miserável quarto de aluguer, e à angústia de um viver sem esperança, ou se não seria melhor acabar ali mesmo, deixando-me escorregar para a escuridão da água.
Não, Lisboa não é para mim um lugar alegre nem feliz. É uma cidade onde tive medo e onde algumas vezes me senti morrer.
Algumas noites debrucei-me, igual a tantos outros, nos parapeitos do Terreiro do Paço, a olhar o rio, perguntando-me se valia realmente a pena voltar ao meu miserável quarto de aluguer, e à angústia de um viver sem esperança, ou se não seria melhor acabar ali mesmo, deixando-me escorregar para a escuridão da água.
Não, Lisboa não é para mim um lugar alegre nem feliz. É uma cidade onde tive medo e onde algumas vezes me senti morrer.
Sinfonia
Ele é poeta, mas conta-me que a ambição que sempre acarinhou e nunca realizará, foi a de um dia ser compositor.
- Que sonho, compor uma sinfonia com o silêncio nocturno das catedrais vazias! Ser capaz de traduzir em música o amarelo vibrante de certos poentes! Não achas que seria grandioso?
Aceno polidamente que sim, porque tenho a impressão de que estou a aturar um louco manso e quero-me ir embora. Sinto-me exausto do esforço que faço para não ser sarcástico.
- Que sonho, compor uma sinfonia com o silêncio nocturno das catedrais vazias! Ser capaz de traduzir em música o amarelo vibrante de certos poentes! Não achas que seria grandioso?
Aceno polidamente que sim, porque tenho a impressão de que estou a aturar um louco manso e quero-me ir embora. Sinto-me exausto do esforço que faço para não ser sarcástico.
quinta-feira, janeiro 18
Conversa
A sala onde um dia de Dezembro passado nos encontrámos, tinha o ambiente metálico que caracteriza as salas de reunião do nosso tempo. E os cartazes alegres nas paredes davam-lhe uma garridice artificial, que contrastava com a luz fria de Inverno e a melancolia da nossa conversa. Ou melhor dizendo, do meu monólogo. Sobre as misérias do meu país. Sobre a fraude moral e social que são as estatísticas, quando pretendem contradizer com números a realidade das ruas e dos casebres. Sobre a sem-vergonha com que políticos e burocratas cuidam primeiro dos seus interesses, depois se divertem, gozam, e finalmente fingem tomar a peito os cuidados do país.
Ou porque o longo rosário de desgraças a fatigasse, porque a luz triste lhe causasse outros pensamentos, ou simplesmente porque, encontrando-nos numa emissora católica, tal curiosidade de certo modo tivesse cabimento, você de repente quis saber se eu acreditava em Deus.
E eu, tal um político surpreendido em momento crítico, dei-lhe, conscientemente, uma dessas respostas sofísticas que são o equivalente verbal da cortina de fumo - e fui adiante com a história do meu povo.
Acontece que quando alguém quer saber o que penso sobre a existência do Altíssimo, a minha reacção é muito semelhante à de quem sente ameaçada a sua privacidade. Não que a pergunta não fosse legítima. Bem ao contrário. Na sociedade descontraída em que vivemos todas as curiosidades são permitidas. É mesmo pelo jogo das confissões mútuas que hoje se mede o grau de simpatia ou apreço. A formalidade, a discrição, a reserva, raro são sinónimo de um comportamento apreciado, antes surgem como qualidades de um romantismo irremediavelmente esquecido e desprezível.
A confissão, o estendal de mazelas, aberrações, os vícios, isso é o que vale a pena. E quanto maior o detalhe, mais valiosa a confissão, mais intenso o contacto. Eu suponho até que, não possuindo vício que as distinga, certas almas simples não resistem ao pecadilho de se inventar deformidades e aflições. Para não correr o risco de que as julguem menos ou desinteressantes.
Nesse particular das confissões eu vivo francamente no passado: não as faço em público. Se, porque postos em letra de forma, alguns aparentes momentos do meu ser e do meu sentir dão uma impressão de confidência, isso não passa de recurso literário. A intimidade é para ser guardada e, excepcionalmente, oferecida em pequenas doses àqueles que a sabem receber e podem apreciar. O íntimo, a própria palavra o diz, é o que está nos recônditos da mente. Insistir em exteriorizá-lo, em torná-lo acessível a qualquer, toca o paradoxo. Além de ser signo de uma bem estranha ânsia.
Com estas considerações todas, quase ia esquecendo o que lhe queria dizer sobre a questão da existência do Todo Poderoso.
Pouco adianta que uns garantam que ele mora no céu e aguarde, mal humorado, o dia de nos julgar. Ou que outros afirmem, convictos, que tudo é poeira cósmica. A falar verdade, a partir do momento em que nos pomos perguntas para as quais não há resposta, caímos sem perdão sob a alçada dos dois poderes que mais eficientemente nos torturam: o medo e a dúvida.
Ou porque o longo rosário de desgraças a fatigasse, porque a luz triste lhe causasse outros pensamentos, ou simplesmente porque, encontrando-nos numa emissora católica, tal curiosidade de certo modo tivesse cabimento, você de repente quis saber se eu acreditava em Deus.
E eu, tal um político surpreendido em momento crítico, dei-lhe, conscientemente, uma dessas respostas sofísticas que são o equivalente verbal da cortina de fumo - e fui adiante com a história do meu povo.
Acontece que quando alguém quer saber o que penso sobre a existência do Altíssimo, a minha reacção é muito semelhante à de quem sente ameaçada a sua privacidade. Não que a pergunta não fosse legítima. Bem ao contrário. Na sociedade descontraída em que vivemos todas as curiosidades são permitidas. É mesmo pelo jogo das confissões mútuas que hoje se mede o grau de simpatia ou apreço. A formalidade, a discrição, a reserva, raro são sinónimo de um comportamento apreciado, antes surgem como qualidades de um romantismo irremediavelmente esquecido e desprezível.
A confissão, o estendal de mazelas, aberrações, os vícios, isso é o que vale a pena. E quanto maior o detalhe, mais valiosa a confissão, mais intenso o contacto. Eu suponho até que, não possuindo vício que as distinga, certas almas simples não resistem ao pecadilho de se inventar deformidades e aflições. Para não correr o risco de que as julguem menos ou desinteressantes.
Nesse particular das confissões eu vivo francamente no passado: não as faço em público. Se, porque postos em letra de forma, alguns aparentes momentos do meu ser e do meu sentir dão uma impressão de confidência, isso não passa de recurso literário. A intimidade é para ser guardada e, excepcionalmente, oferecida em pequenas doses àqueles que a sabem receber e podem apreciar. O íntimo, a própria palavra o diz, é o que está nos recônditos da mente. Insistir em exteriorizá-lo, em torná-lo acessível a qualquer, toca o paradoxo. Além de ser signo de uma bem estranha ânsia.
Com estas considerações todas, quase ia esquecendo o que lhe queria dizer sobre a questão da existência do Todo Poderoso.
Pouco adianta que uns garantam que ele mora no céu e aguarde, mal humorado, o dia de nos julgar. Ou que outros afirmem, convictos, que tudo é poeira cósmica. A falar verdade, a partir do momento em que nos pomos perguntas para as quais não há resposta, caímos sem perdão sob a alçada dos dois poderes que mais eficientemente nos torturam: o medo e a dúvida.
quarta-feira, janeiro 17
O exílio e o infortúnio
Li-o faz tanto tempo que releio agora, com a surpresa da novidade, o estudo biográfico que Stefan Zweig fez de Fouché, o homem totalmente destituído de carácter, o traidor e sobrevivente por excelência.
Uma citação: 'Les artistes n'ont toujours fait qu'accuser l'exil, comme une interruption apparente de l'essor, comme un intervale sans utilité, comme une cruelle rupture. Mais le rythme de la nature veut ces cesure violentes. Car celui-là seul connaît toute la vie qui connaît l'infortune.'
Pessoalmente e infelizmente conheci-os ambos, o exílio e o infortúnio, mas não creio que nem um nem outro me tenham ensinado a conhecer a vida. O mais que sei dela aprendi-o comparando-me aos meus semelhantes, descobrindo que nasci com os mesmos aleijões que a maioria também tem. Com uma diferença: eles parece que são capazes de ignorar os seus, mas os meus como que me doem a dobrar.
Uma citação: 'Les artistes n'ont toujours fait qu'accuser l'exil, comme une interruption apparente de l'essor, comme un intervale sans utilité, comme une cruelle rupture. Mais le rythme de la nature veut ces cesure violentes. Car celui-là seul connaît toute la vie qui connaît l'infortune.'
Pessoalmente e infelizmente conheci-os ambos, o exílio e o infortúnio, mas não creio que nem um nem outro me tenham ensinado a conhecer a vida. O mais que sei dela aprendi-o comparando-me aos meus semelhantes, descobrindo que nasci com os mesmos aleijões que a maioria também tem. Com uma diferença: eles parece que são capazes de ignorar os seus, mas os meus como que me doem a dobrar.
Calendário
Provavelmente existe noutras partes, mas há na Holanda um objecto que sempre me fascinou : o chamado calendário de aniversários. Em geral é uma folha de cartolina que, em cada lado, assinala os dias de um semestre, reservando para cada dia um pequeno espaço onde se anotam os aniversários que convém recordar.
Bizarro, mas pragmático, o hábito generalizado é de o pendurar na porta da retrete. O meu foge à regra. Por desleixo, não tem sítio certo, do que resulta que quando o arrumo, como há instantes, por vezes os olhos se fixam numa data e trazem a recordação.
Ela tinha vinte anos, escolheu a Itália para as suas primeiras férias sozinha e, sem que o tivesse premeditado, deixou o combóio em Milão.
O taxista levou-a ao hotel, fez-lhe a corte, desvirginou-a, deu-lhe quinze dias de carinho, de sexo e atenções. Jurou-lhe amor eterno, mas infelizmente, casado, cheio de filhos, não a poderia acompanhar a Amsterdam.
Se voltasse no ano seguinte haveria de ver que a sua paixão não tinha diminuído. E ela voltou. Doze Verões a fio. Para quinze dias de carinho e de sexo. Até que ele lhe confessou que não podiam continuar. Tinha sido bom, mas tudo tem fim. Cruamente, confessou-lhe que eram tantas as estrangeiras que o cobiçavam, e cada vez mais jovens, que se via mal para atender a todas.
Contou-me, e eu acredito, que nesse momento teve a sensação de que tudo desmoronava: a sua vida, o mundo, as ilusões, o passado e o futuro. Não chorou nem se queixou. Deu-lhe um último beijo e acenou da janela quando o viu entrar no táxi.
Voltou a Amsterdam e ao escritório. Fez do trabalho o único fito da sua vida e dedicou-se à pintura para encher as horas vagas. Nunca conheceu outro homem. Faleceu anteontem dum ataque de coração. Tinha quarenta e quatro anos.
Bizarro, mas pragmático, o hábito generalizado é de o pendurar na porta da retrete. O meu foge à regra. Por desleixo, não tem sítio certo, do que resulta que quando o arrumo, como há instantes, por vezes os olhos se fixam numa data e trazem a recordação.
Ela tinha vinte anos, escolheu a Itália para as suas primeiras férias sozinha e, sem que o tivesse premeditado, deixou o combóio em Milão.
O taxista levou-a ao hotel, fez-lhe a corte, desvirginou-a, deu-lhe quinze dias de carinho, de sexo e atenções. Jurou-lhe amor eterno, mas infelizmente, casado, cheio de filhos, não a poderia acompanhar a Amsterdam.
Se voltasse no ano seguinte haveria de ver que a sua paixão não tinha diminuído. E ela voltou. Doze Verões a fio. Para quinze dias de carinho e de sexo. Até que ele lhe confessou que não podiam continuar. Tinha sido bom, mas tudo tem fim. Cruamente, confessou-lhe que eram tantas as estrangeiras que o cobiçavam, e cada vez mais jovens, que se via mal para atender a todas.
Contou-me, e eu acredito, que nesse momento teve a sensação de que tudo desmoronava: a sua vida, o mundo, as ilusões, o passado e o futuro. Não chorou nem se queixou. Deu-lhe um último beijo e acenou da janela quando o viu entrar no táxi.
Voltou a Amsterdam e ao escritório. Fez do trabalho o único fito da sua vida e dedicou-se à pintura para encher as horas vagas. Nunca conheceu outro homem. Faleceu anteontem dum ataque de coração. Tinha quarenta e quatro anos.
terça-feira, janeiro 16
Pena pendente
No começo do ano passado fui operado a um cancro, ao que se seguiu um longo período de radioterapia. Meses depois vi-me defronte de um radioterapeuta que me queria dar a boa-nova de que tudo - quase tudo, para ser franco - se desenvolvia a contento.
- Há a possibilidade de que, em cerca de dois porcento dos casos, o cancro reapareça após uns dez anos. Mas como você já tem setenta e seis…
Dei uma gargalhada e ele, perplexo, quis saber porque me ria.
- Não é pela possibilidade, nem tãopouco pelo prazo. Diverte-me, sim, o que o seu comentário trai de franqueza e insensibilidade juvenil.
- Há a possibilidade de que, em cerca de dois porcento dos casos, o cancro reapareça após uns dez anos. Mas como você já tem setenta e seis…
Dei uma gargalhada e ele, perplexo, quis saber porque me ria.
- Não é pela possibilidade, nem tãopouco pelo prazo. Diverte-me, sim, o que o seu comentário trai de franqueza e insensibilidade juvenil.
segunda-feira, janeiro 15
Procissão
É texto de muito atrás. De vez em quando vejo-o citado anónimo. Para pôr as coisas em ordem: escrevi-o em 1982, uma manhã de Abril em que me achava indisposto com o meu povo e comigo próprio.
PROCISSÃO
Os tolinhos.
Os bufos.
Os convencidos.
Os pategos.
Os membros e as suas esposas.
Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e que não é sério.
Os fanáticos.
Os sinceros.
Os que foram maoístas.
As bruxas.
Os inimigos do povo.
As irmãs do Salazar.
Os compadres.
Os hesitantes.
O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina.
Os que comem peixe à sexta-feira.
Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis.
O médico dos Raios-X.
A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime.
O clarim de Caçadores 9.
Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (marquês de Leça, irmão da Ordem Terceira, diplomé des Palmes du Mérite Agricole).
O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga.
Os heróis do mar.
Os gloriosos combatentes antifascistas.
Os gaseados de 1914-1918 (Flandres).
A tia da D. Amália Rodrigues.
O cauteleiro de Cinfães.
Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300 Lisboa.
Os que só gostam de cerveja.
O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952.
A mulher do filho do vizinho do Marcelo.
As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas.
O emigrante que construiu aquela casa.
Os visitantes do Jardim da Estrela.
Os dez mais elegantes.
Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados.
Os manetas e os gagos.
O locutor da Rádio Renascença.
O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria.
O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada.
Os três da panelinha.
Os três.
Os que dizem trinta e três.
A Trindade.
O senhor Pimpim.
Os que leram Marx.
O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver.
O eléctrico dos Anjos.
Os senhores guardas.
As senhoras guardas.
As gentes da autoridade.
Os defensores da ordem.
A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas.
Os tocadores de violoncelo.
Os fascinados pelo destino do proletariado.
Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve.
O ex-ministro.
A Rosa que gosta muito de crianças.
Os enfermeiros.
As calistas a domicílio.
A menina do quiosque.
O bispo de Aveiro.
Você e eu.
PROCISSÃO
Os tolinhos.
Os bufos.
Os convencidos.
Os pategos.
Os membros e as suas esposas.
Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e que não é sério.
Os fanáticos.
Os sinceros.
Os que foram maoístas.
As bruxas.
Os inimigos do povo.
As irmãs do Salazar.
Os compadres.
Os hesitantes.
O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina.
Os que comem peixe à sexta-feira.
Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis.
O médico dos Raios-X.
A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime.
O clarim de Caçadores 9.
Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (marquês de Leça, irmão da Ordem Terceira, diplomé des Palmes du Mérite Agricole).
O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga.
Os heróis do mar.
Os gloriosos combatentes antifascistas.
Os gaseados de 1914-1918 (Flandres).
A tia da D. Amália Rodrigues.
O cauteleiro de Cinfães.
Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300 Lisboa.
Os que só gostam de cerveja.
O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952.
A mulher do filho do vizinho do Marcelo.
As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas.
O emigrante que construiu aquela casa.
Os visitantes do Jardim da Estrela.
Os dez mais elegantes.
Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados.
Os manetas e os gagos.
O locutor da Rádio Renascença.
O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria.
O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada.
Os três da panelinha.
Os três.
Os que dizem trinta e três.
A Trindade.
O senhor Pimpim.
Os que leram Marx.
O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver.
O eléctrico dos Anjos.
Os senhores guardas.
As senhoras guardas.
As gentes da autoridade.
Os defensores da ordem.
A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas.
Os tocadores de violoncelo.
Os fascinados pelo destino do proletariado.
Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve.
O ex-ministro.
A Rosa que gosta muito de crianças.
Os enfermeiros.
As calistas a domicílio.
A menina do quiosque.
O bispo de Aveiro.
Você e eu.
domingo, janeiro 14
Andanças
Uns vão à Índia, outros partem para a Califórnia, o Peru, a Patagónia. Viajam para o Alaska, a Austrália e as Aleutas. Os que no ano passado estiveram em Bangkok vão passar o próximo Verão em New York e o Inverno seguinte em Miami.
Num mundo transformado em perpetuum mobile a minha existência é quase estática. Nunca vi as pirâmides de Gizeh nem o Kremlin, nunca fui a Atenas, nunca fui ao Japão, nem sequer a Londres ou à Escócia, não viajei no Transiberiano. De facto pouco mais conheço do planeta do que o que me mostra a televisão e, no Outono da vida, é isso que melhor me convém: em vez de me incomodar com as cruezas e os desconfortos da realidade, posso, quando quero, manter inteiras as ilusões da meninice.
Num mundo transformado em perpetuum mobile a minha existência é quase estática. Nunca vi as pirâmides de Gizeh nem o Kremlin, nunca fui a Atenas, nunca fui ao Japão, nem sequer a Londres ou à Escócia, não viajei no Transiberiano. De facto pouco mais conheço do planeta do que o que me mostra a televisão e, no Outono da vida, é isso que melhor me convém: em vez de me incomodar com as cruezas e os desconfortos da realidade, posso, quando quero, manter inteiras as ilusões da meninice.
Convite
A instituição, ligada a uma universidade, se bem compreendi é cultural, intelectual, artística, interessada nos temas europeus, terceiro-mundistas, mundiais, universais, filosóficos e outras coisas assim elevadas.
O presidente telefona-me, explica que prepara uma semana europeia, e quer convidar para um congresso um certo número de artistas, escritores e intelectuais europeus. Para falar na abertura das sessões lembraram-se de mim, e dado o nome e a importância dos mais participantes, ele não duvida que vou aceitar. Mas há um ponto que quer esclarecer:
- Só sei que o senhor é português e escritor, mas gostava que me dissesse o que é que escreve, porque não faço a mínima ideia.
Que resposta se pode dar a semelhante bacoco senão mandá-lo sem mais àquela parte? Não mandei. Disse-lhe que estava indisponível.
O presidente telefona-me, explica que prepara uma semana europeia, e quer convidar para um congresso um certo número de artistas, escritores e intelectuais europeus. Para falar na abertura das sessões lembraram-se de mim, e dado o nome e a importância dos mais participantes, ele não duvida que vou aceitar. Mas há um ponto que quer esclarecer:
- Só sei que o senhor é português e escritor, mas gostava que me dissesse o que é que escreve, porque não faço a mínima ideia.
Que resposta se pode dar a semelhante bacoco senão mandá-lo sem mais àquela parte? Não mandei. Disse-lhe que estava indisponível.
sábado, janeiro 13
17.000 páginas
Não, nunca serei capaz, como H.F. Amiel (1821-1881) no seu Journal intime (17.000 páginas!), de mergulhar numa introspecção dolorosa até às profundidades do 'eu' e concluir: 'Je suis fluide, négatif, indécis, infixable, et par conséquent je ne suis rien.'
No mais fundo que consigo mergulhar no meu íntimo não encontro, como Amiel, a água límpida dum panteísmo idealista, mas a turvação em que os meus raciocínios, memórias e sensações se agitam com a turbulência de larvas num lamaçal. Fosse eu nada, e teria paz; as preocupações nascem da incerteza, e de não descobrir quem verdadeiramente sou.
No mais fundo que consigo mergulhar no meu íntimo não encontro, como Amiel, a água límpida dum panteísmo idealista, mas a turvação em que os meus raciocínios, memórias e sensações se agitam com a turbulência de larvas num lamaçal. Fosse eu nada, e teria paz; as preocupações nascem da incerteza, e de não descobrir quem verdadeiramente sou.
sexta-feira, janeiro 12
Pose
Só o conheço de vista e, talvez por isso, quando o encontro sempre tenho de sorrir, tão visível é o esforço que faz para que o tomem pelo que quer aparentar. E o que ele quer aparentar é o professor inglês de meia idade, ligeiramente desleixado, usando fatos dum tweed tirante a verde, pullovers de lã grossa à moda dos anos trinta, sapatos daquele vermelho que hesita entre o roxo e o sangue de boi. Num fingimento de excentricidade que se lhe tornou natural, ao caminhar olha vagamente em frente e sorri, ao mesmo tempo que mexe os queixos como quem masca. De vez em quando tropeça. Se alguém de repente se lhe dirige, dá a impressão de não ter ainda acordado.
Já mo quiseram apresentar, mas não aceitei, porque se o conhecesse pessoalmente com certeza compreenderia os seus tiques e acabaria por matá-lo : não como pessoa, mas como personagem.
Já mo quiseram apresentar, mas não aceitei, porque se o conhecesse pessoalmente com certeza compreenderia os seus tiques e acabaria por matá-lo : não como pessoa, mas como personagem.
quinta-feira, janeiro 11
Urbe
Se as raízes da minha existência e da minha sensibilidade estão na aldeia, na essência sou homem da cidade e só nela me sinto viver plenamente.
Talvez pelo isolamento, é na aldeia que conheço instantes em que os sentimentos e as sensações parecem vir do mais íntimo; mas o que existe em mim de entusiasmo, força, vontade de criar, somente acorda ao contacto da maravilhosa diversidade da urbe.
Talvez pelo isolamento, é na aldeia que conheço instantes em que os sentimentos e as sensações parecem vir do mais íntimo; mas o que existe em mim de entusiasmo, força, vontade de criar, somente acorda ao contacto da maravilhosa diversidade da urbe.
Conversas
Eles conversam, dizem coisas filosóficas, põem a máscara da inteligência, a do espírito, e de súbito apercebemos a caveira da realidade no riso sem queixais, naquela ponta de cáries, na pedra que lhes borda as gengivas.
Cobrem-se com o fato apropriado, mas deixam-se trair pelo sapato que camba. Preocupam-se com a metafísica, os dramas da fome, e usam botinas frívolas com embutidos e correias, ponta em bico, tacão gasto.
O calçado e o estado da dentadura - dois fascinantes reveladores da personalidade.
Cobrem-se com o fato apropriado, mas deixam-se trair pelo sapato que camba. Preocupam-se com a metafísica, os dramas da fome, e usam botinas frívolas com embutidos e correias, ponta em bico, tacão gasto.
O calçado e o estado da dentadura - dois fascinantes reveladores da personalidade.
quarta-feira, janeiro 10
Incertezas
Certezas não tenho, só suposições. Ou talvez nem sequer suposições, apenas a vaga esperança de que os nossos olhos sejam incapazes de ver tudo e a mente não passe de uma espécie de scanner pouco sofisticado.
Por isso me acho tão aberto à existência dos ultra-terrestres, como a aceitar desaparecer sem rasto na poeira cósmica ; a no momento seguinte ao da morte voar pelo túnel luminoso que leva ao Além, ou ir-me lentamente transformando na podridão pegajosa de que se alimentam os vermes.
A certeza de morrer não me assusta, nem as questões teológicas perturbam o meu descanso, sim a impossibilidade de conciliar o sonho com o comezinho da vida.
Por isso me acho tão aberto à existência dos ultra-terrestres, como a aceitar desaparecer sem rasto na poeira cósmica ; a no momento seguinte ao da morte voar pelo túnel luminoso que leva ao Além, ou ir-me lentamente transformando na podridão pegajosa de que se alimentam os vermes.
A certeza de morrer não me assusta, nem as questões teológicas perturbam o meu descanso, sim a impossibilidade de conciliar o sonho com o comezinho da vida.
terça-feira, janeiro 9
Cara ou coroa?
Dias atrás. Programa da televisão belga de língua neerlandesa. Uma rua de Bruxelas.
Escolhido entre os que passam, o casal burguês, meia idade, simpático, cara de gente estudada, ganha um fim-de-semana em Paris se responder de forma idêntica à mesma pergunta.
A mulher afastou-se. O marido, interrogado, baixa os olhos, hesita, sorri frouxo, engasga-se.
O homem da TV repete: - Quando é que fizeram sexo pela última vez? E como foi?
- Bem… Ontem à tarde… É um bocado embaraçoso… Na mesa da cozinha.
Chega a vez da mulher. Arregalam-se-lhe os olhos, torce as mãos, abana umas quantas vezes com a cabeça que não… Finalmente decide-se:
- Ontem.
- Mas como foi? Olhe que é um fim-de-semana em Paris! Ida-e-volta no TGV, hotel cinco estrelas, limousine, restaurantes de luxo!...
O marido sorri, o entrevistador insiste, ela, atenazada entre a vitória e a vergonha, parece encolher e confessa num murmúrio:
- Foi no meu cu.
- Perdeeeuuu!!!
Escolhido entre os que passam, o casal burguês, meia idade, simpático, cara de gente estudada, ganha um fim-de-semana em Paris se responder de forma idêntica à mesma pergunta.
A mulher afastou-se. O marido, interrogado, baixa os olhos, hesita, sorri frouxo, engasga-se.
O homem da TV repete: - Quando é que fizeram sexo pela última vez? E como foi?
- Bem… Ontem à tarde… É um bocado embaraçoso… Na mesa da cozinha.
Chega a vez da mulher. Arregalam-se-lhe os olhos, torce as mãos, abana umas quantas vezes com a cabeça que não… Finalmente decide-se:
- Ontem.
- Mas como foi? Olhe que é um fim-de-semana em Paris! Ida-e-volta no TGV, hotel cinco estrelas, limousine, restaurantes de luxo!...
O marido sorri, o entrevistador insiste, ela, atenazada entre a vitória e a vergonha, parece encolher e confessa num murmúrio:
- Foi no meu cu.
- Perdeeeuuu!!!
segunda-feira, janeiro 8
Três capítulos e um posfácio
Festejamos o nosso reencontro com um jantar. A terceira garrafa de Saint-Emlion vai meada e ele conta.
Pela primeira mulher apaixonou-se com o entusiasmo romântico da juventude, imaginando tesouros onde só havia vazio, descobrindo depois como a incompatibilidade dos caracteres e dos corpos se transmuda lentamente em ódio.
A segunda traía-o. Sem malquerença, só porque tinha o adultério no sangue. Quis aceitar, compreender, esperançado de que um dia mudasse, mas em vão: ela era a borboleta da fábula, esvoaçando ao acaso, colhendo gota aqui gota ali.
Desesperado, lembrava-lhe que era preciso criar alicerces, pensar no futuro. Por vezes nessas ocasiões ela segurava-lhe as mãos, levava-as aos lábios, e no dia em que se divorciaram surpreendeu-o ao dizer-lhe numa repreensão terna:
- Não é culpa tua, mas nunca serás capaz de compreender.
Conheceu depois a domesticidade. A vida regular da casa arranjada, da mesa posta, das compras ao sábado, do sexo ao domingo. Do gato e do jardim. Das férias na praia. Das visitas, dos aniversários. Dos jantares com os sogros.
Cerrava os olhos com os punhos, no desejo inconsciente de fazer parar o tempo. Para onde foram os meus sonhos? Que aconteceu à aventura? Deus de misericórdia, é isto a vida?
Ela morreu como tinha vivido, calma e insignificante, e ele surpreendeu-se de não sentir dor, nem saudade, nem sequer pena. Mesmo a lembrança que se pegava aos móveis e aos objectos desvaneceu ao mudar de casa.
Quando julgava tudo perdido, tudo acabado, o sonho inesperadamente realizou-se e a aventura veio. Com a embriaguez dos sentidos e as loucuras de que nunca poderia ter gozado tão intensamente se por acaso as tivesse conhecido na mocidade.
Tentou tudo para que ela ficasse: prendê-la com afecto, seduzi-la com promessas, comprá-la com luxos. Mas também esta era borboleta e, além disso, jovem de mais para se sujeitar a prisões. No dia em que pela última vez a apertou nos seus braços, não se conteve e chorou lágrimas de raiva. As lágrimas de melancolia vieram mais tarde, com a certeza de que o curto ano de felicidade nunca se viria a repetir.
- É como lhe disse há bocado e você, escritor, de certeza concorda: a minha vida conta-se em quatro mulheres. Três capítulos e um posfácio.
Pela primeira mulher apaixonou-se com o entusiasmo romântico da juventude, imaginando tesouros onde só havia vazio, descobrindo depois como a incompatibilidade dos caracteres e dos corpos se transmuda lentamente em ódio.
A segunda traía-o. Sem malquerença, só porque tinha o adultério no sangue. Quis aceitar, compreender, esperançado de que um dia mudasse, mas em vão: ela era a borboleta da fábula, esvoaçando ao acaso, colhendo gota aqui gota ali.
Desesperado, lembrava-lhe que era preciso criar alicerces, pensar no futuro. Por vezes nessas ocasiões ela segurava-lhe as mãos, levava-as aos lábios, e no dia em que se divorciaram surpreendeu-o ao dizer-lhe numa repreensão terna:
- Não é culpa tua, mas nunca serás capaz de compreender.
Conheceu depois a domesticidade. A vida regular da casa arranjada, da mesa posta, das compras ao sábado, do sexo ao domingo. Do gato e do jardim. Das férias na praia. Das visitas, dos aniversários. Dos jantares com os sogros.
Cerrava os olhos com os punhos, no desejo inconsciente de fazer parar o tempo. Para onde foram os meus sonhos? Que aconteceu à aventura? Deus de misericórdia, é isto a vida?
Ela morreu como tinha vivido, calma e insignificante, e ele surpreendeu-se de não sentir dor, nem saudade, nem sequer pena. Mesmo a lembrança que se pegava aos móveis e aos objectos desvaneceu ao mudar de casa.
Quando julgava tudo perdido, tudo acabado, o sonho inesperadamente realizou-se e a aventura veio. Com a embriaguez dos sentidos e as loucuras de que nunca poderia ter gozado tão intensamente se por acaso as tivesse conhecido na mocidade.
Tentou tudo para que ela ficasse: prendê-la com afecto, seduzi-la com promessas, comprá-la com luxos. Mas também esta era borboleta e, além disso, jovem de mais para se sujeitar a prisões. No dia em que pela última vez a apertou nos seus braços, não se conteve e chorou lágrimas de raiva. As lágrimas de melancolia vieram mais tarde, com a certeza de que o curto ano de felicidade nunca se viria a repetir.
- É como lhe disse há bocado e você, escritor, de certeza concorda: a minha vida conta-se em quatro mulheres. Três capítulos e um posfácio.
domingo, janeiro 7
Caducando e engelhando
O envelhecimento físico é misericordioso: vamos caducando e engelhando, mas tão gradualmente que o espelho todas as manhãs nos devolve uma imagem que não difere da do dia anterior.
A surpresa, a má surpresa, vem quando distraídos folheamos um álbum e encontramos nele a imagem do que fomos no passado ou nos longes da juventude. Mas a hipocrisia defende-nos contra o choque. Eu fui assim? Tive aquela cara? Francamente, antes a de agora.
A surpresa, a má surpresa, vem quando distraídos folheamos um álbum e encontramos nele a imagem do que fomos no passado ou nos longes da juventude. Mas a hipocrisia defende-nos contra o choque. Eu fui assim? Tive aquela cara? Francamente, antes a de agora.
Subscrever:
Mensagens (Atom)