domingo, janeiro 14

Andanças

Uns vão à Índia, outros partem para a Califórnia, o Peru, a Patagónia. Viajam para o Alaska, a Austrália e as Aleutas. Os que no ano passado estiveram em Bangkok vão passar o próximo Verão em New York e o Inverno seguinte em Miami.
Num mundo transformado em perpetuum mobile a minha existência é quase estática. Nunca vi as pirâmides de Gizeh nem o Kremlin, nunca fui a Atenas, nunca fui ao Japão, nem sequer a Londres ou à Escócia, não viajei no Transiberi­ano. De facto pouco mais conheço do planeta do que o que me mostra a televisão e, no Outono da vida, é isso que melhor me convém: em vez de me incomodar com as cruezas e os desconfortos da realidade, posso, quando quero, manter inteiras as ilusões da meninice.

Convite

A instituição, ligada a uma universidade, se bem compreendi é cultural, intelectual, artística, interessada nos temas europeus, terceiro-mundistas, mundiais, universais, filosóficos e outras coisas assim elevadas.
O presidente telefona-me, explica que prepara uma semana europeia, e quer convidar para um congresso um certo número de artistas, escritores e intelectuais europeus. Para falar na abertura das sessões lembraram-se de mim, e dado o nome e a importância dos mais participantes, ele não duvida que vou aceitar. Mas há um ponto que quer esclarecer:
- Só sei que o senhor é português e escritor, mas gostava que me dissesse o que é que escreve, porque não faço a mínima ideia.
Que resposta se pode dar a semelhante bacoco senão mandá-lo sem mais àquela parte? Não mandei. Disse-lhe que estava indisponível.

sábado, janeiro 13

17.000 páginas

Não, nunca serei capaz, como H.F. Amiel (1821-1881) no seu Journal intime (17.000 páginas!), de mergulhar numa introspecção dolorosa até às profundidades do 'eu' e concluir: 'Je suis fluide, négatif, indécis, infixable, et par conséquent je ne suis rien.'
No mais fundo que consigo mergulhar no meu íntimo não encontro, como Amiel, a água límpida dum panteísmo idealista, mas a turvação em que os meus raciocínios, memórias e sensações se agitam com a turbulência de larvas num lamaçal. Fosse eu nada, e teria paz; as preocupações nascem da incerteza, e de não descobrir quem verdadeiramente sou.

sexta-feira, janeiro 12

Pose

Só o conheço de vista e, talvez por isso, quando o encontro sempre tenho de sorrir, tão visível é o esforço que faz para que o tomem pelo que quer aparentar. E o que ele quer aparentar é o professor inglês de meia idade, ligeira­mente desleixado, usando fatos dum tweed tirante a verde, pullovers de lã grossa à moda dos anos trinta, sapatos daquele vermelho que hesita entre o roxo e o sangue de boi. Num fingimen­to de excentricidade que se lhe tornou natural, ao caminhar olha vagamente em frente e sorri, ao mesmo tempo que mexe os queixos como quem masca. De vez em quando tropeça. Se alguém de repente se lhe dirige, dá a impressão de não ter ainda acordado.
Já mo quiseram apresentar, mas não aceitei, porque se o conhecesse pessoalmente com certeza compreenderia os seus tiques e acabaria por matá-lo : não como pessoa, mas como personagem.

quinta-feira, janeiro 11

Urbe

Se as raízes da minha existência e da minha sensibilidade estão na aldeia, na essência sou homem da cidade e só nela me sinto viver plenamente.
Talvez pelo isolamento, é na aldeia que conheço instantes em que os sentimentos e as sensações parecem vir do mais íntimo; mas o que existe em mim de entusiasmo, força, vontade de criar, somente acorda ao contacto da maravilhosa diversidade da urbe.

Conversas

Eles conversam, dizem coisas filosóficas, põem a máscara da inteligência, a do espírito, e de súbito apercebemos a caveira da realidade no riso sem queixais, naquela ponta de cáries, na pedra que lhes borda as gengivas.
Cobrem-se com o fato apropriado, mas deixam-se trair pelo sapato que camba. Preocupam-se com a metafísica, os dramas da fome, e usam botinas frívolas com embutidos e correias, ponta em bico, tacão gasto.
O calçado e o estado da dentadura - dois fascinantes reveladores da personalidade.

quarta-feira, janeiro 10

Incertezas

Certezas não tenho, só suposições. Ou talvez nem sequer suposições, apenas a vaga esperança de que os nossos olhos sejam incapazes de ver tudo e a mente não passe de uma espécie de scanner pouco sofisticado.
Por isso me acho tão aberto à existência dos ultra-terrestres, como a aceitar desaparecer sem rasto na poeira cósmica ; a no momento seguinte ao da morte voar pelo túnel luminoso que leva ao Além, ou ir-me lentamente transformando na podridão pegajosa de que se alimentam os vermes.
A certeza de morrer não me assusta, nem as questões teológicas perturbam o meu descanso, sim a impossibilidade de conciliar o sonho com o comezinho da vida.

terça-feira, janeiro 9

Cara ou coroa?

Dias atrás. Programa da televisão belga de língua neerlandesa. Uma rua de Bruxelas.
Escolhido entre os que passam, o casal burguês, meia idade, simpático, cara de gente estudada, ganha um fim-de-semana em Paris se responder de forma idêntica à mesma pergunta.
A mulher afastou-se. O marido, interrogado, baixa os olhos, hesita, sorri frouxo, engasga-se.
O homem da TV repete: - Quando é que fizeram sexo pela última vez? E como foi?
- Bem… Ontem à tarde… É um bocado embaraçoso… Na mesa da cozinha.
Chega a vez da mulher. Arregalam-se-lhe os olhos, torce as mãos, abana umas quantas vezes com a cabeça que não… Finalmente decide-se:
- Ontem.
- Mas como foi? Olhe que é um fim-de-semana em Paris! Ida-e-volta no TGV, hotel cinco estrelas, limousine, restaurantes de luxo!...
O marido sorri, o entrevistador insiste, ela, atenazada entre a vitória e a vergonha, parece encolher e confessa num murmúrio:
- Foi no meu cu.
- Perdeeeuuu!!!

segunda-feira, janeiro 8

Três capítulos e um posfácio

Festejamos o nosso reencontro com um jantar. A terceira garrafa de Saint-Emlion vai meada e ele conta.
Pela primeira mulher apaixonou-se com o entusiasmo romântico da juventude, imaginando tesouros onde só havia vazio, descobrin­do depois como a incompa­tibilidade dos caracteres e dos corpos se transmuda lentamente em ódio.
A segunda traía-o. Sem malquerença, só porque tinha o adultério no sangue. Quis aceitar, compreender, esperançado de que um dia mudasse, mas em vão: ela era a borboleta da fábula, esvoaçando ao acaso, colhendo gota aqui gota ali.
Desesperado, lembrava-lhe que era preciso criar alicerces, pensar no futuro. Por vezes nessas ocasiões ela segurava-lhe as mãos, levava-as aos lábios, e no dia em que se divorciaram surpreendeu-o ao dizer-lhe numa repreensão terna:
- Não é culpa tua, mas nunca serás capaz de compreender.
Conheceu depois a domesticidade. A vida regular da casa arranjada, da mesa posta, das compras ao sábado, do sexo ao domingo. Do gato e do jardim. Das férias na praia. Das visi­tas, dos aniversários. Dos jantares com os sogros.
Cerrava os olhos com os punhos, no desejo inconsciente de fazer parar o tempo. Para onde foram os meus sonhos? Que aconteceu à aventura? Deus de misericórdia, é isto a vida?
Ela morreu como tinha vivido, calma e insignificante, e ele surpreendeu-se de não sentir dor, nem saudade, nem sequer pena. Mesmo a lembrança que se pegava aos móveis e aos objectos desvaneceu ao mudar de casa.
Quando julgava tudo perdido, tudo acabado, o sonho inespera­damente realizou-se e a aventura veio. Com a embriaguez dos sentidos e as loucuras de que nunca poderia ter gozado tão intensamente se por acaso as tivesse conhecido na mocidade.
Tentou tudo para que ela ficasse: prendê-la com afecto, seduzi-la com promes­sas, comprá-la com luxos. Mas também esta era borboleta e, além disso, jovem de mais para se sujeitar a prisões. No dia em que pela última vez a apertou nos seus braços, não se conteve e chorou lágrimas de raiva. As lágrimas de melancolia vieram mais tarde, com a certeza de que o curto ano de felicid­ade nunca se viria a repetir.
- É como lhe disse há bocado e você, escritor, de certeza concorda: a minha vida conta-se em quatro mulheres. Três capítulos e um posfácio.

domingo, janeiro 7

Caducando e engelhando

O envelhecimento físico é misericordioso: vamos caducando e engelhando, mas tão gradualmente que o espelho todas as manhãs nos devolve uma imagem que não difere da do dia anterior.
A surpresa, a má surpresa, vem quando distraídos folheamos um álbum e encontramos nele a imagem do que fomos no passado ou nos longes da juventude. Mas a hipocrisia defende-nos contra o choque. Eu fui assim? Tive aquela cara? Francamente, antes a de agora.

História de amor

Às vezes julgo que o que eu gostaria mesmo de escrever seria uma história de amor. Daquelas em que os amantes vão lentamente descobrindo a sua paixão. Uma história com fintas, obstáculos desmesurados, viagens a terras exóticas e abraços, noites de lua, beijos castos, famílias que se opõem mas acabam por se reconciliar. E finalmente o grande momento.
Penso isto, mas no fundo sei que jamais escreverei histórias de amor, aventuras, ou enredos complicados. O meu grande e inconsciente anseio também não é de facto o de escrever, mas de um dia recuperar a inocência com que antigamente lia.

sábado, janeiro 6

Vizinhos

Há quem afirme que os galegos são enigmáticos e têm por vezes um comportamento bizarro. “Cruza a gente com um galego numa escada e nunca se sabe se ele está a subir ou se vai descer.”

Visão celestial

No seu livro Homage to Barcelona, Colm Tóibín conta o caso de um bispo que, de visita à Catedral da Santa Família, quis saber de Gaudí porque razão tinha este decorado o topo das torres, uma vez que ninguém jamais poderia ver os enfeites.
- Vêem-nos os anjos – respondeu-lhe o arquitecto.