terça-feira, janeiro 9

Cara ou coroa?

Dias atrás. Programa da televisão belga de língua neerlandesa. Uma rua de Bruxelas.
Escolhido entre os que passam, o casal burguês, meia idade, simpático, cara de gente estudada, ganha um fim-de-semana em Paris se responder de forma idêntica à mesma pergunta.
A mulher afastou-se. O marido, interrogado, baixa os olhos, hesita, sorri frouxo, engasga-se.
O homem da TV repete: - Quando é que fizeram sexo pela última vez? E como foi?
- Bem… Ontem à tarde… É um bocado embaraçoso… Na mesa da cozinha.
Chega a vez da mulher. Arregalam-se-lhe os olhos, torce as mãos, abana umas quantas vezes com a cabeça que não… Finalmente decide-se:
- Ontem.
- Mas como foi? Olhe que é um fim-de-semana em Paris! Ida-e-volta no TGV, hotel cinco estrelas, limousine, restaurantes de luxo!...
O marido sorri, o entrevistador insiste, ela, atenazada entre a vitória e a vergonha, parece encolher e confessa num murmúrio:
- Foi no meu cu.
- Perdeeeuuu!!!

segunda-feira, janeiro 8

Três capítulos e um posfácio

Festejamos o nosso reencontro com um jantar. A terceira garrafa de Saint-Emlion vai meada e ele conta.
Pela primeira mulher apaixonou-se com o entusiasmo romântico da juventude, imaginando tesouros onde só havia vazio, descobrin­do depois como a incompa­tibilidade dos caracteres e dos corpos se transmuda lentamente em ódio.
A segunda traía-o. Sem malquerença, só porque tinha o adultério no sangue. Quis aceitar, compreender, esperançado de que um dia mudasse, mas em vão: ela era a borboleta da fábula, esvoaçando ao acaso, colhendo gota aqui gota ali.
Desesperado, lembrava-lhe que era preciso criar alicerces, pensar no futuro. Por vezes nessas ocasiões ela segurava-lhe as mãos, levava-as aos lábios, e no dia em que se divorciaram surpreendeu-o ao dizer-lhe numa repreensão terna:
- Não é culpa tua, mas nunca serás capaz de compreender.
Conheceu depois a domesticidade. A vida regular da casa arranjada, da mesa posta, das compras ao sábado, do sexo ao domingo. Do gato e do jardim. Das férias na praia. Das visi­tas, dos aniversários. Dos jantares com os sogros.
Cerrava os olhos com os punhos, no desejo inconsciente de fazer parar o tempo. Para onde foram os meus sonhos? Que aconteceu à aventura? Deus de misericórdia, é isto a vida?
Ela morreu como tinha vivido, calma e insignificante, e ele surpreendeu-se de não sentir dor, nem saudade, nem sequer pena. Mesmo a lembrança que se pegava aos móveis e aos objectos desvaneceu ao mudar de casa.
Quando julgava tudo perdido, tudo acabado, o sonho inespera­damente realizou-se e a aventura veio. Com a embriaguez dos sentidos e as loucuras de que nunca poderia ter gozado tão intensamente se por acaso as tivesse conhecido na mocidade.
Tentou tudo para que ela ficasse: prendê-la com afecto, seduzi-la com promes­sas, comprá-la com luxos. Mas também esta era borboleta e, além disso, jovem de mais para se sujeitar a prisões. No dia em que pela última vez a apertou nos seus braços, não se conteve e chorou lágrimas de raiva. As lágrimas de melancolia vieram mais tarde, com a certeza de que o curto ano de felicid­ade nunca se viria a repetir.
- É como lhe disse há bocado e você, escritor, de certeza concorda: a minha vida conta-se em quatro mulheres. Três capítulos e um posfácio.

domingo, janeiro 7

Caducando e engelhando

O envelhecimento físico é misericordioso: vamos caducando e engelhando, mas tão gradualmente que o espelho todas as manhãs nos devolve uma imagem que não difere da do dia anterior.
A surpresa, a má surpresa, vem quando distraídos folheamos um álbum e encontramos nele a imagem do que fomos no passado ou nos longes da juventude. Mas a hipocrisia defende-nos contra o choque. Eu fui assim? Tive aquela cara? Francamente, antes a de agora.

História de amor

Às vezes julgo que o que eu gostaria mesmo de escrever seria uma história de amor. Daquelas em que os amantes vão lentamente descobrindo a sua paixão. Uma história com fintas, obstáculos desmesurados, viagens a terras exóticas e abraços, noites de lua, beijos castos, famílias que se opõem mas acabam por se reconciliar. E finalmente o grande momento.
Penso isto, mas no fundo sei que jamais escreverei histórias de amor, aventuras, ou enredos complicados. O meu grande e inconsciente anseio também não é de facto o de escrever, mas de um dia recuperar a inocência com que antigamente lia.

sábado, janeiro 6

Vizinhos

Há quem afirme que os galegos são enigmáticos e têm por vezes um comportamento bizarro. “Cruza a gente com um galego numa escada e nunca se sabe se ele está a subir ou se vai descer.”

Visão celestial

No seu livro Homage to Barcelona, Colm Tóibín conta o caso de um bispo que, de visita à Catedral da Santa Família, quis saber de Gaudí porque razão tinha este decorado o topo das torres, uma vez que ninguém jamais poderia ver os enfeites.
- Vêem-nos os anjos – respondeu-lhe o arquitecto.