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domingo, novembro 20

Revista DOMINGO 20.11.2016





Entrevista: Fernanda Cachão / J. Rentes de Carvalho   (aqui)

1-Em sua opinião por que é que este livro não foi bem recebido na Holanda, como conta logo no prefácio? Diz que recebeu pouco menos de vinte euros de direitos de autor…

Um livro destes, contracorrente, só por milagre teria boas críticas ou seria bem aceite, mas também não contei com a atitude do editor, muito cauteloso em não desagradar à multidão do politicamente correcto. Publicou-o porque havia contrato, mas também fez o possível para não o distribuir. Na Holanda continua a não ser avisado, nem de bom tom, dizer que o rei vai nu.

2-Que livro é este?

Se posso parafrasear Pessoa, é o livro do meu desassossego. Em relação à sociedade, à 
manipulação, ao desdém que voto aos políticos em geral, a toda a espécie de profetas que insistem em nos mostrar o bom caminho. Desassossego, também, pela influência das redes sociais e o ambiente que criam, a   facilidade com que nelas se vitimiza ou promove a herói um qualquer pateta; de fazer de conta que é possível ter direitos sem deveres ou normas; que basta exigir.

3-Não poderia antes chamar-se ‘A ira de Rentes sobre a vida de um modo geral’?

Creio que não, porque pessoalmente há muito estou de bem com a vida. A minha ira, e acredite que é genuína, vai para a mentira, o descaro, a manipulação, a trafulhice, a cara de pau com que os políticos e os meios de informação aproveitam e abusam da ingenuidade dos cidadãos, nem sequer os tratando como imbecis, mas atrasados mentais, as "deploráveis criaturas" de que agora se fala.

4-Ainda assim escreve que se pudesse renascer, escolhia ser holandês. Porquê?

Porque a Holanda é um país superiormente organizado, o cidadão sabe-se realmente protegido pela lei, o nível de corrupção é muito baixo, vive-se nele sem necessidade de pedir favores, meter cunhas, pagar luvas, ou ter de falar com o doutor Fulano para que arranje vaga no hospital.

5-Geert Wilders, do Partido da Liberdade holandês (PVV), saudou a “revolução” na América que recuperou “a sua soberania e identidade” depois da eleição de Donald Trump. “O que a América pode fazer, nós também podemos”, prometeu Wilders cujo partido está bem posicionado nas sondagens para as eleições de Março na Holanda.  O que acha que pode acontecer nas próximas eleições? E à Europa depois das eleições americanas?

O partido de Geert Wilders de certeza vai obter excelente resultado nas próximas eleições, mas defronta um colossal obstáculo: só tem eleitores, não tem quadros. A força do politicamente correcto na Holanda é tal, que quem se arrisca a aceitar uma posição no PVV não escapa a ser social e politicamente ostracizado. De modo que a solução será que o PVV participe numa coligação, dando apoio parlamentar ao partido vencedor.
É cedo para falarmos da Europa, mas o avanço do Cinco Estrelas na Itália, e a apressada "simpatia" que alguns países europeus demonstram pela Rússia, de certeza vão trazer interessantes mudanças e dificultar o discurso dos eurocratas.

6-Que legado deixou no país o assassinato há dez anos do cineasta Theo Van Gogh por um holandês de origem marroquina, Mohammed Bouyeri, que atirou oito vezes no estômago e depois o decapitou?

É triste dizer que fora dos seus amigos e dos quantos que admirávamos a sua coragem, e lhe desculpávamos a truculência, Theo van Gogh é passado.
Mas porque dá a medida da cobardia dos governantes e do oportunismo dos seus princípios, é difícil esquecer dias depois do assassinato, o burgomestre de Amesterdão foi tomar chá a uma mesquita "para acalmar os ânimos dos muçulmanos."

7-“Existem muitas holandas, ao contrário de há 50 anos”, escreveu. Qual será a preponderante?
   
   Entre os dezasseis milhões de holandeses há cerca de meio milhão de marroquinos e outros tantos turcos. Esses são os da primeira geração. Eles e os seus filhos acatam em geral as leis holandesas, embora sejam muitos a afirmar a supremacia do  Islão. Se as acatarão quando forem a maioria, ou quase, é a grande incógnita. E como um antigo ministro da Justiça  afirmou: "Se forem a maioria e quiserem a sharia, teremos a sharia".  

8-Cita Borges e escreve que “em todos nós há resquícios de fascismo e racismo”. No que a si toca…

 Claro que há, claro que tenho, e creio que nisso não me diferencio de Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Madre Teresa. Mas para esses, muito humanos, defeitos do meu carácter possuo excelentes travões. Não me passaria pela cabeça insultar ou desprezar alguém devido à cor da sua pele, ou julgar-me superior ao meu semelhante. 

9-Contemplou diversas vezes a partida da Holanda mas nunca o chegou realmente a fazer? Porquê?

  Nem creio que o farei, a menos que a Morte ande na minha aldeia a aguçar a foice e me surpreenda lá. A razão simples é que só na Holanda tenho família: mulher, filhos, parentes e aderentes. Em Portugal resta-me a casa do meu avô materno. Mas talvez esse laço seja mais forte do que aparenta, pois há vinte anos que alterno três meses cá e três meses lá.

  10-Fala de como foi um ‘outsider inside’ no pós-25 de abril e sempre se manteve assim. Continua, portanto, a sentir-se um ‘outsider inside’ quando liga agora a televisão portuguesa?
  
   Já o era há muito, continuo a sê-lo, e poderá parecer exagero, ou até pose, mas o facto é que, outsider ou insider, Portugal me dói. Outras vezes envergonha-me, enraivece-me, faz-me desesperar. "Feira Cabisbaixa", de Alexandre O'Nei,l é dos raros poemas que sei de cor. Para mim Portugal é de facto "meu remorso, meu remorso de todos nós."

11-Fala das holandesas que se encontraram com o proletariado no Alentejo, que ainda hoje se encontram anciões alentejanos que “rebolam os olhos ao recordar esse gostoso tempo”. Quem se sai melhor neste seu quadro revolucionário?
  
  Devem ter sido as raparigas, porque além da componente erótica regressaram à Holanda com a satisfação de terem cumprido um dever missionário, instruindo as massas trabalhadoras nas possibilidades do Kamasutra

  12 - O que une o rapaz chegado à Holanda, no pós II Guerra, com o olho em Paris, e o octogenário. E o que os separa?
  
  O benefício dado a este último de poder olhar para trás e separar o trigo do joio, o que valeu a pena do que foi tempo perdido.
  
  13 - Fiquei com a impressão de que tem por hábito e, desde sempre, tomar notas ou manter um diário dos acontecimentos do quotidiano ou do que leu ou observou. É assim?
   
   De facto. Vou anotando. Depois deixo passar bastante tempo,  o que então me ajuda a rir de mim próprio, envergonhado de por vezes me ver a desempenhar aquele papel que nos outros tanto me irrita: o de um sujeito sério.

  14 - “Portugal, se fosse pessoa, já tinha sido condenado por falência”. “A obrigação da Europa para com os portugueses é, a exemplo do que fizeram os EUA com os índios, e o Quénia com os animais, é fechar-nos numa reserva”. “Deixados a nós próprios acabamos por desaparecer”. Resta-nos, portanto, ficar sossegadinhos a apanhar sol na praia da UE?

  Esse parece ser o nosso destino, a espera de que algo de bom aconteça. Mas sossego, sol e praia da EU creio que não vai haver, porque isso é gente que duma ou doutra maneira aparece sempre a apresentar a conta. E os juros.
  
  15 - “Viveu mais longamente do que o tempo indicado pelo calendário”. O que quer dizer com isto?
  
  Na minha juventude a média de vida para os homens em Portugal ia pouco além dos sessenta anos. Fora isso a idade de Jesus Cristo já me parecia suficiente

  16 - Como se vive aos 86 “sem país ou partido e para onde quer que olhe não descortino segurança e paz”?

Não a descortino nos outros, mas tenho-a em mim, de par com  uma sagrada independência. Não devo dinheiro, nem favores, não me prendem benefícios, alianças, amarras ou filiações, a ninguém tenho de prestar contas. Mas é uma segurança e uma paz que se paga caro.

*   *   *

terça-feira, fevereiro 17

Você, eu e os gregos

(Clique)
Tem certo cheiro a telenovela a agitação em torno da Grécia. É como se à viva força nos queiram convencer de que ou a coisa vai como os gregos desejam, ou temos aí guerras e catástrofes, a Europa a desmembrar-se, a Rússia a forçar a entrada pela Ucrânia, arreganhando os dentes para a nossa fraqueza e falta de união.
Talvez venha a ser assim. Talvez pior. Pode acontecer que da Líbia aportem a Lampedusa,  não milhares, mas dezenas, centenas de milhar de infelizes que supõem haver por aqui um Far-West com minas de ouro. Não há.
A ameaça desses assusta-me, o porta-moedas dos gregos deixa-me indiferente, e que saiam ou se deixem ficar, não me faz mossa. Se a você faz, se se sente com obrigação e capacidade de a sério  propor soluções e remédios, bom proveito. Mas saiba que por muito e melhor que opine, que escreva sobre o assunto, esse esforço tem valia igual aos conselhos que, na Antiguidade, a pitonisa berrava em Delfos.
Acalme. Deixe os gregos em paz, eles há séculos que se mostram capazes de, melhor que muitos, cuidarem dos seus interesses. Mais vale que empregue todo esse esforço e saber para melhoria da terra em que nascemos.
Não lhe vou lembrar o que Eça de Queiroz (ou seria Fradique Mendes?) aconselhava que se deve fazer quando encontramos um grego.

quinta-feira, agosto 2

A obrigação da Europa para com os portugueses

Em 1984 festejaram-se os cento e vinte e cinco anos de Max Havelaar, o famoso romance de Multatuli. A revista literária holandesa De Gids solicitou então a cento e vinte e cinco autores que tratassem outros tantos dos temas que Multatuli noutra obra sua tinha abordado. Coube-me escrever sobre A obrigação da Europa para com os portugueses.
Agora que alguns sugerem que a Espanha nos anexe, e outros alvitram que talvez seja melhor entregarmo-nos antes que ela, como da outra vez, nos compre e depois nos invada, este velho texto não é achega para discussões sérias: intenta apenas aborrecer os patrioteiros e piscar o olho ao profeta Saramago.


A OBRIGAÇÃO DA EUROPA PARA COM OS PORTUGUESES [i]


Nos últimos vinte e cinco anos a história de Portugal regista, como acontecimentos mais importantes, o fim do império colonial, a queda do regime fascista e o restabelecimento da ordem democrática.
Se bem que, à primeira vista, a restauração das liberdades e dos direitos se possa considerar um benefício, os três acontecimentos citados contribuem para fortalecer no observador perspicaz a certeza de que na história dos países pobres se repetem, ampliadas, as desgraças que afligem as famílias em penúria.
A obtenção repentina de um bem pode, em ambos os casos, dar origem a desequilíbrios tais que, passada a euforia e a surpresa, se anseia com desespero o retorno dos males antigos. Vistos à distância, e comparados com os malefícios do momento presente, sempre aqueles parecem de menor porte, mais suportáveis, arrepende-se a gente da ingenuidade com que lutou contra eles.
A partir do momento em que. nos fins do século XVI, termina a grande aventura dos Descobrimentos, a história de Portugal caracteriza-se, sobretudo, pelo seu aspecto regressivo. Enquanto que a generalidade dos países progride, e alguns, mais infelizes, param, o excêntrico Portugal recua.
A Holanda acelera os estudos da biotecnologia. Na Inglaterra pode dizer-se que literalmente chovem computadores nas escolas. Os franceses já pagam com a smart card. O Lesotho e as Maldivas incrementam o turismo e a prostituição. Taiwan, Singapura, a Coreia do Sul estão na ponta do progresso industrial. A Albânia excede-se a demonstrar a viabilidade da sua ortodoxia política. O Paquistão prepara a bomba...
No meio deste concerto de nações que se mexem, avançam, ou que por teimosia ou infelicidade são obrigadas a parar, a minha pátria dá ao mundo o espectáculo extraordinário e único de um país a caminho do passado.

Tendo por fontes de receita quase exclusivas o dinheiro que lhe mandam os seus emigrantes, e os empréstimos que de má-vontade lhe vão sendo concedidos, Portugal, se fosse pessoa, já há muito teria sido condenado à falência.
Essa dependência da generosidade dos seus filhos e da paciência dos seus banqueiros, aliada às consequências de uma mentalidade que dos antigos colonizadores - fenícios, gregos, romanos, visigodos, árabes e ingleses - apenas guardou aquilo que eles lhe deixaram de pior, tem por consequência um formidável desleixo, um descalabro sem igual. A sua corrupção torna mínima a do Paraguai. A incompetência dos que o governam ultrapassa a que se atribui aos políticos nas comédias. Nas suas cidades e aldeias descobre-se uma miséria que não destoaria no Bangladesh.

Agora que na CEE[ii] se delibera sobre a maneira de permitir ao pobre Portugal sentar-se a um canto da mesa dos países ricos - não para comer com eles, evidentemente, apenas para que as migalhas que lhe derem evitem que a sua falência e morte possam vir a ser vergonhosamente repentinas - eu gostaria de recordar, e na medida do possível actualizar, uma solução radical proposta internacionalmente em fins do século XIX para resolver os males, já então crónicos, do meu país.
Claro que, como acontece com a maioria das soluções radicais, se terá de fechar os olhos a um ou outro ponto da moral vigente. Isso, porém, não será de molde a sobressaltar ninguém, habituados que estamos a que a moral, como o dinheiro e outras certezas antigas, se desgastem com o tempo.
A solução que proponho, vantajosa para todos os que nela participarem, resume-se na venda pura e simples de Portugal a um consórcio de nações ricas, evitando-se assim o espectáculo de um país que, vivendo de esmolas, só tem como futuro o espaço de tempo que a esmola lhe concede.
Evitam também as nações ricas o incómodo que causa o terem de abrir a porta ao velho fidalgo colonial que, de mão estendida, pede que lhe acudam à miséria.
Fosse menor o volume das suas dívidas, poderia pensar-se em recorrer a um desses árabes que, ricos em petróleo e ouro, discutem pouco e pagam a contado. Mas é evidente que não se pode tratar aqui de iniciativa particular, pois um país, com o seu território, os seus cidadãos, a sua história, sempre tem outra importância que a compra dum camelo num oásis.
Soluções novas, pouco correntes, levam necessariamente à utilização de métodos inéditos. É por essa razão que eu, sem possuir quaisquer outras qualificações que a de ser português e, por conseguinte, directamente interessado, me atrevo à sugestão que segue.

Em primeiro lugar devem os banqueiros e políticos estrangeiros decidir sobre o montante a pagar, o qual, recomendo, não deve exceder o valor dos débitos a solver.
Evite-se a todo o custo que quantias em líquido ou cheques descontáveis passem, mesmo por um instante, pelas mãos dos políticos, pois logo eles as farão desaparecer a caminho das contas numeradas e dos fundos secretos.
Resolvido esse preliminar, as nações compradoras mandarão construir um muro sólido ao longo da fronteira terrestre. Aqui e além, onde hoje, por exemplo, passam as principais estradas, será aberto um certo número de portões, guardados severamente por uma polícia europeia. As entradas e saídas deverão ser totalmente proibidas durante um período de, digamos, cinco anos.
Uma força naval, também europeia, poderosa e veloz, manterá do lado do mar a mesma vigilância rigorosa, não permitindo mais que a navegação de barcos de pesca a remos ou vela até à distância máxima de duas milhas da costa. Cada infracção será punida com a pena de morte. Igualmente será proibido todo e qualquer intercâmbio com Portugal, mesmo o dos rádioamadores ou dos columbófilos.
Ao cabo de cinco anos o desgaste e o desleixo, aliados à tendência nacional de ir a passos largos para o passado, ter-se-ão encarregado de destruir, ou pelo menos de danificar de modo irremediável, a maioria dos vestígios da modernidade.
O número de veículos diminuirá drasticamente. Os aviões, proibidos, aliás, de levantar voo, enferrujarão nos aeroportos. Dos comboios só funcionarão aqueles cuja solidez resiste ao tempo e à incúria, tais como os que ainda hoje fazem a linha do Sabor, com locomotivas de 1904[iii] e carruagens do mesmo ano.
A fome, o desespero, a doença, a tristeza e a velhice, que nas circunstâncias actuais são causas de morte lenta, verão aumentada a sua eficácia, e a população, que anda agora pelos nove milhões, cairá para três ou quatro.
A inexistência de adubos, aliada à falta de máquinas, fará retrogradar a lavoura a um bucolismo bíblico. E não somente nas aldeias, mas mesmo nas ruas de Lisboa, hão-de ver-se mulheres a fiar lã e homens agasalhados em peles de animais.
Haverá rebanhos a pastar nos jardins públicos. Os amoladores, os aguadeiros, os ferradores, as lavadeiras e os almocreves, todas essas profissões antigas terão a sua renascença, e a substituir a defunta televisão far-se-ão representações de saltimbancos.
A água dos rios e ribeiros ganhará a limpidez original e, sem cair no ridículo, os poetas de novo poderão compará-la com a clareza dos olhos da mulher amada. Ou vice-versa.
Nas casas brilharão as candeias de azeite e as velas de cera de abelha. Para os transportes recorrer-se-á à segurança pachorrenta do carro de bois. Os soldados e os amanuenses terão, como antigamente, de lutar à mão e de escrever à mão, do que resultará um desânimo ainda mais acentuado para ambas as classes.
As universidades serão encerradas, pondo-se termo a certas profissões como a de médico ou engenheiro, encorajando-se o retorno das mulheres de virtude, dos endireitas e dos ervanários.
A existência do dinheiro será proibida, e a posse de qualquer forma de valores, ouro, prata ou semelhantes, punida com o enforcamento em público. Os cidadãos viverão numa economia de troca, somente aplicável aos artigos de alimentação e vestuário.
As sedes dos bancos serão transformadas em catedrais, e as suas agências em igrejas ou capelas, consoante o tamanho, havendo nelas serviços religiosos permanentes, durante os quais se pedirá ao Altíssimo o regresso dos tempos em que em Portugal havia mouros, bruxas, a peste negra e um pássaro com cara de gente e pés de cabra.

Bem pensado, talvez cinco anos seja um prazo demasiado curto. Suponhamos dez. Durante esse tempo Portugal não custou um centavo, nem fez dívidas. Se não participou no concerto das nações, também não importunou ninguém com pedidos de esmolas e de empréstimos.
O muro a fechar as suas fronteiras e a marinha a isolar as suas costas, a proibição de intercâmbios ou contactos, e a apatia nacional, terão entretanto contribuído para que, finalmente, o país se ache em condições de se tornar um investimento lucrativo para o consórcio que o tiver comprado.
As nações compradoras, eventualmente assistidas pelos organismos internacionais que cuidam da manutenção dos monumentos, poderão fundar um instituto cujo fim será o de organizar excursões ao velho Portugal.
Os autocarros e os comboios não serão autorizados a atravessar o muro, sendo os viajantes transferidos na fronteira para carros de bois que, lentamente, ao som dos chocalhos e das rodas a chiar, os levarão por montes e aldeias, dando-lhes assim uma oportunidade educacional e recreativa única.
A esses turistas não somente será possível confrontar in vivo o passado, como ao mesmo tempo lhes fará entrar no corpo e na alma um medo salutar. Ao fim de cada jornada os guias reunirão os participantes nos adros das igrejas e, no decurso de uma refeição medieval, explicarão as causas que levaram à venda de Portugal.
À noite, deitados sobre faixas de palha, esses cidadãos ressentirão o calafrio que toma os ricos, quando repentinamente enfrentam a pobreza. E certamente regressarão aos seus países mais contentes, mais felizes, mais dóceis.

Resumindo: a obrigação da Europa para com os portugueses é, pois, seguir o exemplo do que fizeram os Estados Unidos com os índios e o Kénia com os animais, e fechar-nos numa reserva. Para benefício comum e para evitar que, deixados a nós próprios, acabemos por desaparecer.
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[i] Publicado em tradução holandesa na revista De Gids, nr 8/9, Amsterdam, Agosto de 1984.
[ii] Communauté Économique Europénne.
[iii] A linha do Sabor foi desactivada em 1988.