segunda-feira, julho 3

O da boina à Che Guevata

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Obrigações todos temos, e delas aprendemos a escapar com inocentes mentiras, fracas desculpas: a invenção de um funeral, um compromisso de última hora, percalço familiar, tossicando ao telefone para dar ênfase à gripe que nos força à ausência e a manter a cama. Pequenas mentiras, maus pretextos, os momentos desagradáveis a que obriga a vida em sociedade e, uma ou outra vez, nos levam a sonhar com as ilhas tropicais onde o céu é sempre azul, a gente pouca, as obrigações nenhumas.
Mas desta não inventei desculpa, nem maneira de me livrar, lá fui ao lançamento do livro do colega, sessentão aprumado que de tudo escreve. Ele é poesia tradicional e experimental, ele é comédia, ele é tragédia, história, metafísica, teatro de vanguarda, conto, novela, romance, guiões de filme, programas da TV, literatura infanto-juvenil. Performances? Também faz. Colunas nos jornais? Também tem. Está presente em júris de toda a ordem, não falha uma Noite da Poesia, uma Feira do Livro,  vêem-no nos festivais  literários do país, do Brasil, da Galiza, é dos primeiro a chegar a Frankfurt, que há vinte e dois anos frequenta. Já foi escritor residente em universidades de três continentes. Conhece celebridades por esse mundo fora, raro se menciona uma a que ele não tenha apertado a mão, ou com quem já correspondeu.
Sofro de inveja ou estou a ser excessivamente irónico? Desnecessariamente cínico? Não creio. Na verdade, e de facto, nem a sua volumosa produção literária me surpreende, nem a qualidade da sua obra me interessa, e a nossa relação é das de sorrisos e "Viva! Como tem passado?" Mas porque vou, então? Masoquismo? Inveja? Medo da sua conhecida má-língua? Nada disso. Vou por simples maldade. Para me divertir. Porque, honra se lhe faça, o homem é um original e um raro espectáculo. Veste invariável e inteiramente de preto. Gravata preta. Na cabeça, também preta, uma genuína boina à Che Guevara que, seja igreja ou cemitério, restaurante, café, procissão, baptizado ou jantar em casa amiga, nunca tira da cabeça. Do queixo pendem-lhe umas farripas amareladas que umas vezes lembram um mandarim chinês, outras fazem pensar num bode. Óculos pequeninos e redondos, à John Lennon. Sapatos de verniz.
Lançamento de livro seu não é em livraria ou centro comercial, mas em salão de costureiro. E sim senhor, adivinhou: o quarteto ataca Händel, o público aquieta-se, a sala vai escurecendo, uma única lâmpada brilha. Então, solene, com um sorriso de míope, o escritor avança na passerelle.
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Publicado na DOMINGO CM.