quinta-feira, fevereiro 13

Saltando a fronteira (*)

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Tinha parado em Ciudad Rodrigo para meter gasolina, e no momento em que o vi sair do cubículo, dirigir-se a mim, tive a premonição de que o homem da bomba era louco. Pelo brilho esquisito dos olhos, depois porque ao mesmo tempo que introduzia a mangueira no depósito acendeu o cigarro com um isqueiro donde, devido ao calor, a chama saía em jacto.
- O vento está prò outro lado. Não tem perigo nenhum - disse ele com ar de troça ao notar a minha preocupação. E a provar a sua certeza fez pingar na mão um pouco de gasolina, apagando nela a ponta do cigarro.
- Está a ver? Não acontece nada.
Concordei com um aceno, franzi a face num sorriso cobarde, para que me julgasse descontraído tentei mudar de assunto, perguntei-lhe se na bomba vendiam chocolates.
- Gelados. Cerveja. Chocolates não. Com o tempo assim quente derretem, ninguém quer.
A mangueira disparou pela segunda vez e a gasolina, ao regurgitar, derramou para o chão. Ele tirou dum bolso do fato-macaco um novelo de desperdício, o isqueiro, as chaves do meu carro, um papel amarfanhado, um lenço, olhando-os alheado enquanto os passava de uma mão para a outra, indeciso do que fazer com eles. Finalmente entregou-me as chaves e com o isqueiro apontou a gasolina derramada:
- Podiam-se apagar ali mil cigarros, não acontecia nada. Agora com o isqueiro bastava isto... - como quem se prepara para apertar um gatilho pousou o dedo sobre a rodinha da pederneira. - Íamos ambos pelos ares. Ia o carro, ia a bomba, desaparecia metade desta cidade de merda!
Paguei-lhe. Contou vagarosamente o dinheiro, deu-me o troco, e em vez de responder quando lhe desejei as boas-tardes, perguntou se eu por acaso ia para a estrada de Béjar.
- Não. Vou para Portugal - menti num reflexo.
Era pena, achou ele. O seu serviço de facto já tinha acabado ao meio-dia e só estava ali à espera de arranjar boleia para Tenebrón.
- É a sua terra?
Não era, mas morava lá um primo que o tinha roubado na venda duma horta. Com esse queria fazer um ajuste de contas que havia de dar para vir no jornal.
- Raios me partam se antes do pôr-do-sol não lhe meto esta nas tripas! - e sacando do bolso uma faca de ponta-e-mola fez-lhe saltar a lâmina.
Com um gesto de apaziguamento sentei-me ao volante, mas ele, transtornado, segurou a porta, queria-me explicar como a coisa tinha começado por uma questão de partilhas. Ele e o primo até tinham sido bons amigos, tinham feito a tropa juntos.
O meu alívio foi grande quando finalmente guardou a faca e atirou com a porta, resmungando que era pena que eu não fosse para Tenebrón. Mas o filho da puta não perdia pela demora. Abria-lhe a barriga. Tão certo como estarmos ali ambos.
Fingi meter para a fronteira e, dando uma volta, retornei ao centro em busca de uma placa que me indicasse a direcção de La Alberca, o meu verdadeiro destino.
Depois da azáfama da E80, a estrada de duas faixas em que se aperta boa parte do trânsito entre a Espanha e Portugal, a C515 que vai de Ciudad Rodrigo a Béjar pareceu-me estranhamente deserta. Nem um carro, nem um camião, nenhum tractor na planície ondulada, onde as azinheiras se contavam por dezenas de milhar e o único sinal de vida eram as manadas de vacas e touros pretos como azeviche.
Para quem vem da agitação, uma paisagem assim é ligeiramente inquietante, o carro deixa de ser apenas meio de transporte, para se transformar numa espécie de invólucro em que os objectos familiares se tornam fetiches protectores. O livro que não coube na mala, o binóculo, a garrafa de água, o saco com a merenda para o caminho, a chave inglesa esquecida no assento, são outros tantos testemunhos de que não pertencemos àquela desolação, e que a nossa passagem por ela é confortavelmente efémera. O vago receio de nos vermos sós, alterna com a vaga esperança de que a próxima curva traga mudança, mas neste caso, depois de cada curva o abandono era idêntico.
Enxerguei um painel que indicava Pedrotoro, sem notar um ser vivo e mal lhe apercebendo os telhados. As azinheiras tinham sumido, dando lugar a um solo mais seco, mais pobre, sem relevo e de longas rectas. Ao fim da maior, cinco enfadonhos quilómetros, novo painel, este a anunciar o rio Tenebrilla.
Por curiosidade, porque em parte nenhuma via água, abrandei o andamento e dei-me conta de que com certeza só no Inverno havia ali um riacho. O seu leito, intensamente seco, assemelhava-se antes a um caminho de aldeia mal tratado.
Tenebrón é logo adiante e aí, a uns escassos vinte quilómetros da modernidade de Ciudad Rodrigo, tive a sensação de voltar ao passado.
Aldeia minúscula, plaza minúscula, gente que no traje e até nos gestos parecia viver ainda nos anos cinquenta. Entrei no café para uma cerveja e, gozando a frescura, pesei os prós e contras de procurar o sapateiro e avisá-la da intenção assassina do parente. Decidi que era preferível não me meter em trabalhos e retomei o caminho, agora com o pico da Peña de Francia (1.732 m) a fazer de pano de fundo à monotonia da planura.

Escondida numa cova, junto doutro ribeiro seco, Morasverdes, povoado cor de barro onde me fez sorrir o painel a indicar que, metendo para a esquerda, se ia para Diós lo Guarde. Mas em vez de lucubrações filosóficas sobre a fragilidade da existência ou a utilidade das viagens, ocupei-me a imaginar como é difícil inventar nome para os moradores de tais lugares. Diós los Guardenses? Guardeses? Morasverdeños? Tenebronenses? Tenebrosos?
Entretido o cérebro nesse jogo os olhos sofriam menos com a uniformidade da estrada, seguiam os abutres que circulavam, agourentos, à espera de morte que lhes desse alimento, enterneci-me com o jerico que ia pela berma puxando uma carroça vazia, acompanhado dum cão. Ambos apressados, a caminho dum destino ou tarefa, humanamente sorumbáticos, não se vendo em parte alguma dono a que pertencessem.


As primeiras colinas surgiram densas de pinhos, mostrando aqui e além uma aberta atapetada de carqueja em flor. A estrada começou uma subida lenta e tortuosa, passando El Maíllo, outra aldeia parada. Nela um convento meio arruinado, a primeira fartura de água e, num cruzamento, a impressão de me ter enganado no rumo.
Aos dois homens que num alpendre reparavam um tractor, a minha pergunta causou consternação. La Alberca? Não sabiam, não eram dali, tinham vindo de Andaluzia à procura de trabalho.
Um supunha que fosse para a direita, para o outro devia ser em frente, mas perguntasse na padaria, que lá com certeza me diriam. Não foi preciso. Ao virar a esquina uma tabuleta indicava La Alberca a apenas dez quilómetros.
Por um instante estive tentado a subir à Peña de Francia, que se erguia imponente à minha direita e como que ao alcance da mão, Mas o calor e o cansaço puderam mais, segui o meu destino.

La Alberca é, com razão, monumento nacional. Por decreto de 1940. Visitá-la nos dias de canícula, quando os turistas são aos milhares, deve ser experiência para não repetir e esquecer. Chegar como eu cheguei, ao fim de uma tarde soalheira de Março, com uma única loja de souvenirs aberta, e tão pouca gente que se ouviam os passos ressoar no lajedo, é recordação que fica.
Mau grado as antenas da televisão, a electricidade, os carros, a primeira impressão é de um grande recuo no tempo. A Plaza Mayor é pitoresca, embora  sem a arcaria tradicional, apenas uns quantos pilares de granito que sustentam varandas modestas e oferecem uma sombra insuficiente. Nela se encontra também o pelourinho, o Ayuntamiento, e um cárcere tão diminuto que confirma que a criminalidade nunca foi um problema local. O atractivo maior está nos becos e nas ruas tortuosas, ladeadas de casas com inesperadas paredes de taipa e enxaméis de madeira de castanho.
A maioria das habitações tem duas portas: uma estreita, para as pessoas, a outra larga, para a cavalariça ou o estábulo, que em muitos casos continuam a ser utilizados. Esculpidos nos dintéis de pedra vêem-se, sobre alguns escudos de ordens religiosas, as datas da sua remota construção, 1610, 1616, 1702…Num deles, o sinistro emblema da palma e da espada assinala que ali esteve instalado o Santo Ofício.
Por costume antigo, na maioria das casas a porta de entrada permanece aberta o dia inteiro. A escada, de um só lanço e muito inclinada, passa pela sala no primeiro andar e segue até ao segundo, onde ficam a cozinha e o cuarto'l salaero, a alcova que faz de despensa.
Curiosamente, no passado as cozinhas não tinham chaminé: o fumo do lume servia para defumar, as castanhas, os presuntos e os chouriços, que no Outono se penduravam  num estrado construído a pouco mais de dois metros sobre a lareira.
Esses costumes artesanais vão desaparecendo, mas a aldeia orgulha-se ainda da sua produção de presuntos e enchidos, e do torrón, "o único sem misturas", feito nas lareiras em caldeirões onde se remexe lentamente a mistura de mel, nozes e claras de ovo.
La Alberca deve alguma da sua recente fama a Maurice Legendre, escritor francês que nos anos vinte lhe dedicou vários trabalhos, e cujo túmulo se acha na igreja de Peña de Francia. Mas antes e depois dele cantaram-na Ungaretti, Dámaso Alonso, Unamuno, Camilo José Cela, e foi cenário de El Lazarillo de Tormes e Marcelino Pan y Vino, filmes ainda não de todo esquecidos. E para que o visitante não vá julgar que a aldeia é um buraco sem história, alguns moradores lembram, como se fosse ontem, a visita do rei D. Juan II em Maio de 1445, a de D. Alfonso XIII em Junho de 1922, a passagem, numa manhã de Abril de 1954, dum longo cortejo de automóveis que levava Franco de visita às aldeias miseráveis de Las Hurdes.
Num opúsculo de 1693, Verdadera Relación y Manifesto Apologético de la Antiguedad de Las Batuecas y su Descubrimiento, relata o letrado Thomaz Gonzáles de Manuel, que em 1412 a visitou também "aquel Angel del Apocalypsi, Apóstol de Valencia, gloria y honra de nuestra España y de la Orden de Predicadores, San Vicente Ferrer." Na mesma obra fala-se doutro santo, o mais importante de todos porque local, o muito bondoso Simón Vela, que depois de uma vida dissipada em Paris acabou por se refugiar das tentações do mundo nas alturas de Peña de Francia, e aí continua a valer a quem pede a sua intercessão.

O leitor será com certeza diferente, mas eu, se vou de viagem e chego a um lugar que me arrebata, apresso-me a absorver o ambiente e a acumular impressões, pois de antemão sei que nunca tarda o momento em que se me tornará penoso sentir-me apenas aquele que está de passagem, e ali não tem raízes.
Por isso, dos meus quatro dias em La Alberca, só lá passei de facto o primeiro, os restantes gastei-os a visitar Las Hurdes. Mas todas as noites regressava ao hostal, estabelecimento construído para albergar as multidões do Verão, e onde eu era agora o único hóspede. O que de modo algum significava solidão. Os quatro empregados de mesa, o barman e a numerosa família da proprietária, insistiam que lhes fizesse companhia, e assim comíamos juntos, assistindo em simultâneo a dois programas de televisão em dois televisores gigantescos, colocados um sobre o outro a meia altura da parede. No de cima, a que tinham cortado o som, passavam as cenas de Los Años Meravillosos; no outro, com o volume no máximo por deferência para com o avô surdo, vivia-se a excitação de La Rueda de la Fortuna.
Despedíamo-nos a altas horas Eles para a cama, dando-me a chave da porta para que voltasse quando me apetecesse. Eu para as ruas desertas, onde três noites a fio passeei, a imaginar-me menos estrangeiro, um peregrino doutras eras, gozando o murmúrio indistinto das conversas que trespassavam as paredes, iludindo-me que ouvia tropear nas lajes os cavalos da mala-posta, que pelas sombras da Plaza Mayor se esgueiravam vultos de capa e espada.
Na última noite sentei-me a descansar nos degraus da igreja, meditando sobre a pena que é já não haver os milagres de antigamente. Como, por exemplo, o de 6 de Setembro de 1655, quando "entre las tres y las cinco de la tarde, y el dia siguiente por la mañana, sudó el Santo Cristo en este lugar de La Alberca".
Assim escreveu com sobriedade o cronista, mas a tradição diz que foi suor de sangue, e ao recordar o facto não pude evitar um calafrio. Porque a imagem, cujo milagre eu me atrevia a pôr em dúvida, estava ali a dois passos, dominando o altar-mor com a sua expressão severa.
Talhada, ao que dizem, pelas mãos consagradas de Alonso González de Berruguete ou Juan de Juni, ambos alunos de Michelangelo, e capazes como ninguém de dar vida à madeira inanimada. Sob a imagem tinha eu visto também o relicário de prata, com duas relíquias não menos impressionantes: um fragmento de um espinho da verdadeira coroa de Jesus, certificado autêntico pelo cardeal Ottobono, e um retalho da sobrepeliz de Benedito XI.
Tomado daquele inquietante sentimento que por vezes aflige os infiéis perante o mistério, fui-me dali a passos lentos, evitando olhar para trás, onde adivinhava presenças que me seguiam e era melhor não encarar.

Na manhã seguinte resolvi prosseguir viagem, mas os quilómetros percorridos a subir e a descer os montes de Las Hurdes tinham feito baixar o nível da gasolina à alarmante zona vermelha. Quando à mesa do pequeno-almoço perguntei onde ficava a bomba, houve um momento de ligeiro embaraço: La Alberca tinha tudo e era, como me tinham dito, monumento nacional, mas faltava -lhe esse símbolo da civilização.
- Para que lado vai? – quis saber a proprietária.
- Cáceres.
Então estava a coisa mal. Além de ser domingo, dia em que muitas fechavam, a bomba mais próxima era a de Tamames, a vinte e dois quilómetros no sentido oposto, pela estrada de Salamanca. A seguinte era na boa direcção, em Caminomorisco, mas a mais do dobro da distância. E a família inteira desceu comigo a avaliar para quantos quilómetros daria a gasolina que restava.
Depois de alvitres inúteis e alguns também inúteis abanões ao carro – "P'ra ver se o ponteiro mexe" – ganharam os optimistas: o depósito devia ter ainda uns dez litros, o que dava e sobrava para o caminho todo. E fingindo que riam dos meus temores, recomendaram que me acautelasse com os loucos na estrada, e tiraram m os lenços para me acenar boa-viagem.

Cheguei sem empeno a Caminomorisco, mau grado o carro dar de vez em quando umas tossidelas e uns solavancos de mau agouro.
E agora, porque parece demasiada coincidência para ter acontecido de verdade, hesito contar que também na bomba local a pessoa que me atendeu era visivelmente chanfrada.
Vestida de domingo, cabeleira enriçada em molde de colmeia, um mau humor visível, quando lhe disse que queria o tanque cheio a mulher explodiu: não me ia vender mais de mil pesetas de gasolina.
- Mas porquê? Não tem que chegue?
- Tenho de sobra, mas cá toda a gente só mete mil pesetas de cada vez.
Argumentei que ia para longe, para Cáceres, e ela retorquiu que nas estradas de España não faltavam bombas. Metia mil pesetas e era decidir, estavam outras à espera de vez.
Tive de me conformar, mas num acesso de indignação impotente, modifiquei logo ai os meus planos. Cáceres ficaria para ocasião mais propícia, e em vez de rumar para sul meti direito a Portugal, seguindo uma estrada calma que me gratificou com duas surpresas: Santibáñez el Alto, aldeia com castelo, alcandorada numa colina isolada na planície, junto ao lago da barragem de Borbollón; e num desvio da C513, treze quilómetros para norte, uma pérola: San Martín de Trevejo, aldeia tão pitoresca que custa a acreditar quando se entra nela, e logo se pede à Providência que para todo o sempre lhe conserve as casas, as ruas e a Plaza Mayor no estado em que as vi.
De lá rodei para Valverde del Fresno, terra grande, enriquecida nos tempos em que o contrabando com Portugal era a versão local da corrida do outro.
Surpreendeu-me o abandono da estrada para a fronteira, dezassete quilómetros desertos, mas a preocupação maior tive-a quando o asfalto terminou de súbito junto de um fosso.
Meti nele o carro, sentindo que as rodas patinavam na lama, e temendo que a qualquer momento me despenhasse no ribeiro. A rampa oposta, de terra solta, levava a um pontão de madeira, sem parapeito, e subindo depois umas dezenas de metros de empedrado, alcancei um edifício branco.
Os dois guardas-fiscais sentados à sombra a jogar as cartas, não apreciaram a minha presença: toda a gente sabia que ali a fronteira estava fechada, e por isso tinham de me mandar de volta para Espanha.
Mostrei-lhes o mapa, onde a bandeirinha indicava a passagem da fronteira, mas não os convenci. A bandeirinha era verde, concluiu com razão um deles, significando que a fronteira só estava aberta às vezes.
Para provar a minha boa-fé mostrei-lhes também o passaporte, mas eles abanaram a cabeça: andavam com o jipe em serviço de patrulha, não tinham ordens para carimbar papelada.
Sem mais argumentos, e sentindo que se me acabava a paciência, encolhi os ombros, resolvido a voltar para donde tinha vindo.
Foi então que eles me convidaram para que me sentasse um bocado à sombra. Bebíamos um copo juntos. Não tinham coração para me ver ir embora por aquele calor, até lhes parecia milagre que tivesse atravessado o fosso sem problemas, porque já lá tinha havido desastres.
Sabia eu de quem era a culpa? A culpa disto tudo era da CEE. Não fosse a CEE estavam as coisas como dantes, não havia mudanças, nem confusões, não se complicava a vida de ninguém. Por exemplo: o posto onde estávamos. Antigamente ficava aberto das sete da manhã às sete da noite, mas agora, em vez de o deixarem assim, ou de o abrirem de dia e de noite, tinham-no quase sempre fechado. E a isso é que chamavam progresso! Os mandões da política não se cansavam de apregoar quem em 1993 iam desaparecer as fronteiras, mas para acreditar só vendo primeiro.
A meio da segunda garrafa, uma deles, outra minha, tínhamos esboçado uma CEE em que os guardas das diferentes polícias, e os escritores das diferentes línguas, veriam aumentar os seus privilégios e rendimentos.
Regulamentada a nossa Europa e bebido o último copo de vinho, chegou a hora da despedida. Eles entreolharam-se, sorriram como se tivessem lido os pensamentos um do outro, hesitaram antes de me estender a mão.
Claro que eu tinha de voltar para Espanha, informou o mais velho, sorrindo, com uma satisfação que me pareceu descabida. Era o regulamento, tinha de carimbar o passaporte, contra isso nada podiam fazer. Mas se metesse outra vez pelo fosso, era capaz de me ferir e do carro ficar lá enterrado.
Ora eles não queriam esse remorso na consciência. Portanto, em vez de meter or onde tinha vindo, eu ia fazer um pequeno desvio em Portugal. Era proibido, mas fechavam os olhos a essa transgressão, pois era o único caminho seguro. Percorridos uns trezentos metros, onde havia uma estrada asfaltada, tão nova que ainda a não tinham inaugurado, eu virava então à esquerda, que era o caminho da Espanha, e lá escolheria uma fronteira "que tivesse os carimbos".
Despedimo-nos. O sol ia baixo, a brisa tornara a tarde amena, e eu, sem razão que pudesse traçar, talvez só pelo cheiro das giestas e da urze, ou por me saber no mundo das minhas recordações mais antigas, senti-me tomado por uma grande serenidade.
Deixei o carro fazer lentamente a descida, e quando cheguei ao cruzamento de que os guardas tinham falado, compreendi o sofisma e tive de sorrir: para o lado espanhol a saída estava fechada com grandes blocos de cimento. O único caminho aberto era o de Penamacor.
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(*) Publicado em versão neerlandesa no jornal de Volkskrant com o título: Een grens overschreden (Saltando a fronteira). Amsterdam, 12.09.1992.