quinta-feira, julho 19

Despedida

Custa, porque são quase seis anos de escrita, de momentos gratificantes, boas surpresas, algumas amizades e muitas provas de simpatia, mas chega sempre a altura em que a vontade não basta, é preciso tempo, e o dia, só para privilegiados como Napoleão se desdobra em quarenta e oito horas.
O meu continua nas vinte e quatro. E essas tão cheias que, nas cinco ou seis que durmo, continuo em sonhos a apressar-me, a afligir-me de não fazer a tempo o que devo ou prometi.
De modo que o Tempo Contado vai fechar. De certeza até Dezembro. Depois de verá se Cronos, que conhece o mistério das horas, alonga as minhas.
Se o não fizer, então o Tempo Contado deixa de contar, despede-se de todos com o bom sentimento de que valeu a pena, não foi tempo perdido.          

segunda-feira, julho 16

Indiferença


Deve ser coisa que tenho de nascença, certo é que logo de criança me apercebi da qualidade de me tornar invisível. Não era e não é pela escassa estatura, deve ser algo que, em certos momentos, me faz desaparecer aos olhos dos outros.
Por vezes, num jantar ou convívio em que estou há horas, há sempre alguém que de repente me encara espantado, como se me julgasse defunto, esperasse longe, me visse cair do céu, ou ser tirado de um daqueles armários que os prestidigitadores usam nos circos, e donde fazem aparecer e desaparecer tigres, bandos de pombas, mulheres nuas soprando labaredas ou serradas a meio.
Deve haver outros que conhecem essa situação e, como eu, se maravilham com a indiferença do semelhante naquelas ocasiões em que dele se espera o que se chama as boas maneiras.
Assim, para tratar assunto de mútuo interesse, me encontrava eu, dias atrás, no gabinete de uma Power Woman. A meio da conversa teve ela de atender uma chamada, retirei-me discretamente para o fundo da sala. Devia ser assunto de peso, porque quando olhei o relógio já passara um quarto de hora, mais um quando desligou.
E então aconteceu: tinha-me tornado invisível, surgia ali por mágica, a madame não gritou quando me viu aproximar, mas quase.
O que aqui vem ao caso não é a distracção sincera ou fingida das pessoas, mas a indiferença que mostram pelo semelhante e nem sempre conseguem esconder.

sábado, julho 14

Gerrit Komrij (1944-2012)

Assisti hoje a uma cerimónia fúnebre em que se disseram sobre o defunto, carinhosas e sentidas palavras. Não das superficiais, das do preceito que aos mortos só se devem elogios, mas palavras sinceras de amizade e admiração, comemorando este um momento festivo, citando outro um dito memorável, um poema.
Tocou-se, coisa rara, bela música medieval. Incomum foi também ouvir os risos provocados pela lembrança de uma cena hílare, e que ali se lhe prestasse homenagem com longo aplauso e ovação de pé.
Lá onde está deve ter apreciado, pois era rebelde e iconoclasta, poeta de raro talento, crítico acerbo de gregos e troianos, justamente temido pelo veneno das setas que disparava e raro falhavam o alvo.
Durante um pouco mais de quatro anos foi sincera e íntima a nossa amizade. Depois cortei eu o laço. Dias atrás, recebi, chocado, a nova da sua morte. E hoje, na despedida, com pena recordei, não apenas a sua, mas as amizades que ao longo da vida se perdem e deixam um vazio.

sexta-feira, julho 13

Festa

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Houve ontem razão para festejo, pelo que os quatro presentes esvaziaram esta e lhes ficará algum tempo na lembrança.
Horas felizes são mais fáceis de recordar que as de amargura, a arte está em não tornar demasiado solenes as primeiras, nem julgar que as outras prenunciam o Inferno.

quarta-feira, julho 11

A sardinha do vizinho

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Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.
A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.
É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.
Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.

domingo, julho 8

Қазақстан

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Guarde-se por enquanto o mistério de como eu, estando nos pólders, me divirto também no Casaquistão - Қазақстан é mais bonito - e dei lá com o interessante divertimento do Kuuz Kuu que, imagine, quer dizer: "Agarra a moça".

sexta-feira, julho 6

Deus, o Bosão e a Santa da Ladeira

Anos atrás, como com regularidade pendular acontece, houve grande fervura sobre se Deus lá do alto nos olha, ou se tudo é poeira, ilusão, e o que chamamos vida se limita à sucessão de pontapés que uns acidentalmente recebem e de que outros também acidentalmente se livram.
Em ocasiões dessas aparece sempre um Dawkins de segura arrogância, a explicar como os mitos funcionam e desandam a cabeça de tantos. Na outra ponta está gente como Swedenborg e a muito nossa Mãe Maria, a Santinha da Ladeira, que não se gastam em argumentos, pois eles próprios visitaram o Altíssimo.
Chega-nos agora o Bosão, e esse não só garante a existência de Deus, de que é partícula, como profetiza um futuro próximo de melhoria e felicidade .
De modo que está na hora de que um novo Dawkins venha incomodar as certezas.

terça-feira, julho 3

"Açoriano Oriental"

Que ninguém olhe vesgo, ou me julgo emproado, mas é uma alegria ler um texto assim, depois de mais de cinquenta anos passados na assombrada ideia de que o que escrevia eram garrafas lançadas ao mar com esperança, mas se perdiam no fundo e nunca davam à costa ou chegavam à praia.

segunda-feira, julho 2

Bonjour