sábado, junho 30

Ser pobre

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Há pobre e pobre. Sabe-o quem o foi e já não é, quem sempre o será, adivinha-o aquele que não tardará a sê-lo.
Há ricos pobres, mas poucos nas circunstâncias do grande Isaac Babel (1894-1940), meu herói quando, na adolescência, li Cavalaria Vermelha e Contos de Odessa.
Casado há pouco, voltando da guerra debilitado, sujeito a fortes ataques de asma, o  sogro, rico comerciante judeu, arranjou-lhe uma casa na Geórgia, nas montanhas próximas de Batumi.
Chegado com a mulher a esse longe, e crendo-se abastado, Isaac Babel descobriu-se pedinte: o sogro tinha-lhe dado uma nota de mil rublos, e em todo o distrito não havia uma única alma com dinheiro suficiente para fazer o troco.

quinta-feira, junho 28

Futebol

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De futebol não entendo, mas de vez em quando vejo, como nas semanas atrás, ontem também. Não sofro com más jogadas, ou os disparos à trave, não grito se há vitória, aborreço-me se os jogadores saltitam de um lado para o outro como crianças no recreio.
Por essas razões e outras o jogo interessa-me menos que as carantonhas dos treinadores, o ar soturno dos sujeitos que se sentam junto deles na bancada, sempre com um caderninho na mão.
Gosto também daqueles rapazes que durante as interrupções beijam e abraçam os jogadores. Gosto dos massagistas. Num jogo da semana passada estava Balotelli em pé, a conversar com alguém, parecendo não se dar conta que dois - dois! um a cada perna! - lhe massajavam os músculos.
Gosto da cara dos árbitros quando agitam uma yellow card, e de quanto Ronaldo se põe a bufar antes de um penalty.
Aqueles stewards, de costas para o jogo, serão mesmo de carne e osso? Gosto de vê-los ali, impávidos, lembrando os soldados gregos de saia branca e espingarda de brinquedo. Aprecio muito quando os jogadores rebolam uns sobre os outros, com cara de grande aflição e dor, mas logo desatam a correr
É que não me sobra o tempo, senão todos os dias via futebol. Bom teatro, grande comédia, próspera indústria.

PS. Não me canso de admirar a variedade das tatuagens e o elaborado das cabeleiras. 

terça-feira, junho 26

Para pensar

Pergunta a uma psiquiatra:
- Será possível que um adulto realmente mude?
- Quem em criança sofreu constantemente castigos dos pais, e foi mau aluno na escola, tem grande possibilidade de, na vida adulta, se esforçar por agradar aos outros.
Reconhece-se? Deixe de ser bonzinho/a.

domingo, junho 24

Cruzeiros

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Nunca fiz um cruzeiro, e desde ontem, quando eles por volta das duas da madrugada se despediram, a minha decisão está tomada: nunca me verão embarcar num desses mamutes  que, a abarrotar de idosos, navegam serenamente os mares, todas as noites levantando âncora, todas as manhãs chegando a um longínquo porto, todas as tardes despejando milhares de basbaques que vão "dar uma volta pela cidade", ou se encafuam em autocarros, a caminho de ruínas e outros pontos altos da cultura dos povos.
Fizeram estes um cruzeiro de dez dias pelo Mediterrâneo e chegaram  equipados com ecrã, aparelhagem de som, PowerPoint, insistindo que íamos ver muita coisa, era melhor jantar cedo.
Foi dose dupla, pois ainda não estávamos à mesa já eles tinham contado em detalhe o voo Amsterdam-Marselha, a ida do aeroporto para o navio, o embarque, o luxo da cabine, a imponência dos salões, o refinamento e abundância dos menus, a partida ao anoitecer, as luzes  da cidade – "Feiota. Sombria. Muito árabe. É arriscado andar em certas ruas" – a riqueza dos shows, a abundância de drinks, as atenções da camareira filipina.
À sobremesa estávamos a "ver" ao longe Toulon e Saint Tropez, Nice, Mónaco, tudo muito iluminado, espectacular, inesquecível. "É um cruzeiro que vocês não podem perder".
Ao nascer do dia abriu-se-nos Génova, e entrementes tínhamos ouvido os detalhes do jantar, o gosto do Beluga, as lagostas, o champanhe, apreciado  o luxo da roupa de cama, o vídeo que mostrava em close up os dentes muito brancos da filipina a sorrir-lhes Goodnight.
Navegámos ao largo de Elba e da Córsega, ambas ilhas de napoleónica memória, o que eles ignoravam e para nós também de certeza era novidade. Adiante, mas passando cautelosamente longe, vimos o Costa Concordia, tal como na televisão, virado de lado. "De meter medo! Até dormimos mal".
"Nápoles! Que cidade! Chegar a Nápoles por mar! E então o Vesúvio! As ruínas de Pompéia! Só andámos em grupo, avisaram-nos que aquilo ali é tudo Máfia. Mas valeu muito a pena".
A minha mulher, dez anos mais nova e cortês por natureza, vai aguentando, eu adormeci à vista do Stromboli, pelo que me escapou também a visita a Palermo, a descrição de Malta.
Acordei quando partiam de Atenas e, ensonado, confundiu-me que Izmir fosse a nossa Esmirna.
Nessa noite tinham jantado à mesa do capitão, uma honra, e iam como pertence: ele de smoking, ela com vestido de noite. E se no diário já era grande o refinamento, à mesa do capitão só vendo.
Atacado de narcolepsia falhei a chegada a Haifa, mas o subconsciente, que nunca repousa, alertou-me ao nome de Alexandria. Enquanto eles descreviam o porto, a nova Biblioteca, e falavam de coisas dos faraós, recordava eu o queirosiano Raposo, que por ali andara de caleche, na companhia da doce Mary "rosa de York", do ilustre Dr. Topsius, e em cujo Hotel des Pyramides encontrara o inefável, imortal Alpedrinha.
Ouvi vagamente a passagem por Tunes, e como depois, com tempestade – "É lá fora, não se sente nada!" – tinham rumado a Barcelona, onde tiveram umas horas para as ramblas e a Catedral de Gaudí.
Houve baile à despedida. Em Marselha, amedrontados com a cara das pessoas, como que fugiram para o aeroporto.
Despedem-se, nós agradecemos a visita e a partilha de tão interessantes recordações. Já nos abraços, abrindo o carro, anunciam que para Dezembro planeiam um cruzeiro de mês e meio pelo Oriente.


sábado, junho 23

O Portugal moçambicano


Com uma expressão de genuíno pasmo, e não era para menos, em meados dos anos 80 contava-me um diplomata holandês, que geria o auxílio a Moçambique, o que tinha testemunhado durante a visita a um ministério em Maputo.
Numa sala de enormes dimensões alinhavam-se dezenas e dezenas de faxes, todos eles matraqueando num ruído de ensurdecer. Por entre as filas de aparelhos moviam-se uns quantos funcionários, não se compreendendo o que os levava a parar aqui e ali, pois em nenhum dos faxes havia rolo de papel para a impressão das mensagens.
Recordei isto ao ler o caso que Henrique Raposo cita do Jornal de Negócios, e o sentimento que me toma não é de pena ou raiva, só desespero e vergonha. Nenhum país merece gente desta.

quinta-feira, junho 21

A fé

Veio de um pueblo de donde via a Peña Trevinca na Sierra de la Cabrera, mais de dois mil metros, muita altura. Disso tem saudades, mas do resto… Encolhe os ombros, dez réis de gente, alegre, despachada, ri às gargalhadas quando conta como veio parar aTrás-os-Montes e lhe deu a ideia que tinha chegado a um paraíso, tudo grande, melhor, florido, mais bonito.
Arranjou homem, pariu filhos, três ao todo, diz que a vida tem horas boas e horas más, e sem queixas aceita o destino.
Em Janeiro, quando soube o irmão mais velho às portas da morte, entrou na igreja e pediu a Nossa Senhora que o salvasse, ou pelo menos lhe aliviasse o grande sofrimento. Força tinha pouca, mas jurava, prometia, iria a pé ao Santuário.
Agora estou eu, crente ou descrente conforme as horas, preso à expressão desta mulher em corpo de criança, uns olhos que brilham de fé, de entusiasmo, e me conta da romagem, da canseira, do espanto de chegar a Fátima e sentir-se leve como uma pena, tomada de uma alegria luminosa, desconhecida.
- Nem quando me nasceram os niños! Agradeci de joelhos! Olhe que não vou esquecer. Nunca! E enquanto puder hei-de lá ir.
Suspendo a pergunta, que me parece descabida, mas ela lê os meus olhos e responde: - Está melhor, está cada vez melhor. Os médicos dizem que tem cura.
Despeço-me maravilhado. Vi a alegria e o arrebatamento da fé. Da fé pura, verdadeira, inocente, a fé que eu gostaria de ter.

terça-feira, junho 19

Gonçalo M. Tavares na Holanda

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Neste tempo em que vivemos, entre um rapaz de quarenta e um sénior com o dobro, podem ser abissais as diferenças de sensibilidade, de interesse, visão do mundo e, sobretudo, as das ideias sobre os corpos e as almas.
Isso bastaria para que a temática e o estilo de Gonçalo M. Tavares me travassem a vontade de lê-lo. O que da sua obra conheço também não me encorajou a persistir, nem os muitos prémios, elogios, ou as similitudes com Houellebecq me entusiasmam ou fazem mudar de opinião. Teimosia de idoso, esta de só através dos seus olhos querer ver o que se passa e o que o rodeia
Felizmente outros há, com menos anos, mais capazes, e melhor percepção da contemporaneidade, como o muito capaz e inteligente Gerry van der List, que no semanário holandês Elsevier termina assim a crítica de Aprender a Rezar na Era da Técnica:
"É um livro estranho e desconcertante, com curiosos personagens… Mas a precisão clínica, o tom seco e a mórbida fantasia de Tavares emprestam ao romance um estranho sentimento opressivo. E isso leva a desejar que, com brevidade, mais obras suas sejam traduzidas para o Neerlandês".
Congratulo-me com o êxito do jovem colega, e faço votos para que Gerry van der List continue a interessar-se pela literatura portuguesa. Quanto a mim, fico como sou: nem cego, nem invejoso, mas com demasia de anos para mudar de andadura.

domingo, junho 17

Portugal 2 - Holanda 1

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Aviso: tem você dois amores, duas pátrias, duas famílias? Se jogam uma contra a outra fica sempre a perder.

quinta-feira, junho 14

Descanso


Este blogue vai descansar uns dez dias. Obrigado pela visita.

Trás-os-Montes

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terça-feira, junho 12

O Cinquecento

Em Itália, quando na segunda metade dos anos 30 o Partido Comunista e os sindicatos estavam a ganhar influência suficiente para destabilizar a sociedade burguesa, The powers that be – a Santa Madre Igreja, a grande indústria e a banca – excelentes conhecedores do que anseiam os corpos e as almas, deitaram-se a construir bairros operários confortáveis, mas longe das fábricas, o que diminuía a vontade de pertencer a sindicatos e participar em reuniões de contestação. A fase seguinte foi o Fiat 500. Acessível no preço, económico na gasolina,  o trabalhador italiano tomou o gosto de, no fim-de-semana, levar a família para a praia. Adeus Marx, adeus Lenine.
Nos anos 60, e na mesma ordem de ideias, repetiu-se a coisa aqui ao lado, o operário espanhol sentou-se a conduzir o Seat, cópia fiel do Cinquecento, e com o passar das décadas, em ambos esses países os então proletários alcançaram o estatuto e os confortos da classe média.
No nosso Portugal, tradicionalmente débil em agitação social, mas de excelentes relações com o divino, ao findar a década de 80 repetiu-se, como sabemos, o milagre do maná, com que no Egipto o Senhor salvara os judeus.
Não vou repetir a gracinha brasileira de termos caído da palmeira para o volante, mas o português nunca faz as coisas por menos, e ele, que vinha da carroça e dos comboios com terceira classe, tomando grandes ares atirou-se aos BMW, Mercedes, Audi, Range Rover e quejandos.
A que vem o Cinquecento aqui chamado?
Já lho digo. São umas frases que com frequência oiço. "Isto já não é o que eles julgam! Já não é como antigamente! Isto mudou!"
Mas infelizmente tudo está na mesma e continuamos como somos, sonhadores da Fórmula 1. Nada de vagares, esperas, nada de desenvolvimento ordenado e pensado. O miúdo quer logo o brinquedo e nenhum Cinquecento o consola ou lhe serve. Venha o Ferrari, senão chora.
“Isto já não é o que eles julgam! Já não é como antigamente! Isto mudou!"
Será que mudou porque o sonho se foi?

segunda-feira, junho 11

A dor

Quem conhece a dor, a funda, a verdadeira, não a rima em verso, nem faz dela conto. Dor verdadeira quer ferrolho, negrume, silêncio, solidão, não grita, desconhece partilha. É azorrague, tenaz de ferro, punhal rombo que penetra onde o sofrimento deixa de ter nome. Nega a luz, a esperança, garrote de fino arame estrangula sem pressa. Acorda a memória de todos os males, não dá tréguas, é cadinho que funde as misérias passadas, as preditas, as devidas, e as que ficam para lá do desespero. Dor verdadeira nega a morte. É a longa espera pelo fim da maldição.

domingo, junho 10

Caseiro e maneirinho

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Há quem por gosto, ciência, sabedoria, elevação da alma, releia Píndaro e Lucrécio, Virgílio, Homero, recite Shakespeare, disserte sobre Dante, Leopardi, Johnson, Whitman.
Invejo-lhes o que sabem, aflige-me o pouco que aprendi. Se a eles me comparo, eu que só vou  relendo Vieira, Eça e Camilo, digo-me que de certo modo espelho a terra do meu nascimento: bastam-me a fé, a ironia e o veneno. Nada de altos voos ou transcendências, mas caseiro, fácil, maneirinho.
Assim, a ver se compreendia tudo, duas vezes li a entrevista de Harold Bloom na LER deste mês, de ambas fiquei a abanar a cabeça: somos da mesma idade e faz-me sentir um fedelho, devolve-me à 4ª classe. Grande senhor.

sábado, junho 9

Profecias sobre o futuro de Portugal


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Profetiza-o agora aqui  o “Corta-Fitas”, e no mesmo caderno do Expresso o senhor Bill Rhodes anuncia que “Portugal tem de se vender”. Um dia acontecerá,  mas a profecia vem de mais longe.