quinta-feira, abril 26

Intervalo

Nos dias a vir a barca fica atracada, porque o patrão vai a Lisboa, à Feira, e não sabe quando regressa.
Obrigado pela visita.

Do Porto e de Gaia

Do Porto, de Gaia, sobre medalhas, revoluções e arquitectura. Aqui e também aqui.

terça-feira, abril 24

O aloquete

 Por ter andado longe, as recordações que tenho da casa de minha avó Elisa e do meu avô Sapateiro ficaram pelos dezoito, dezanove anos.
Entrei lá quando meu pai faleceu, vai fazer três décadas, e desde então, como se lhe tivesse posto um cadeado, faltava-me coragem para rever o cenário de muitas vivências de menino e rapaz.
Esta tarde, porque era preciso dar um jeito à porta de entrada, a sair dos gonzos, torta, esburacada por mais de cem anos de canícula e frio de rachar, desandei a fechadura, mas demorou a arriscar-me para lá da soleira.
Ruina, podridão, bafios maléficos, teias de aranha em filmes de horror, paredes abauladas, telhas partidas, os degraus de pedra-lousa meio-desfeitos, carcomidos os de madeira, desengonçado o corrimão.
Essa vista de olhos pouco deve ter durado, pois num repente tudo rejuvenesceu, se compôs, voltou ao seu lugar, ganhou vida. O lume ardia em volta das panelas de três pés, o chão estava coberto de amêndoas, o fumeiro e os presuntos secavam em varas lá no alto, os cântaros ressudavam água, alguém deixara uma albarda junto do escano. A luz vinha de um candeeiro enfarruscado. Vi-me menino, correndo escada abaixo, a aprender quanto grão se deitava na manjedoura das mulas.
Ouvi o carpinteiro dizer para sairmos dali, não fosse cair algum barrote, e então, mal acordado, fui às arrecuas, despedi-me do sonho, repus o aloquete nas memórias da minha infância.

segunda-feira, abril 23

Abutres

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 Vai-se encosta abaixo, atravessa-se a ribeira a vau, tão escassa é a água, segue-se o carreiro que há séculos, talvez mesmo desde que começou a haver gente por aqui, levava ao resto do mundo. A coisa de dois quilómetros aparecem de ambos os lados umas fragas que já de pequeno me assustavam, e continuam a meter medo, disformes, gigantesca, a ameaçar  despenhar-se.
Olho com respeito e temor aquele cenário de ópera. Nunca ali deve ter subido alma cristã, sarracena, ou troglodita, tão-pouco se atreve nele a bicharada de quatro patas, que aquilo é a pique, no melhor  reino de cobras e lagartada.
Fui lá ontem, voltei hoje, sentei-me na borda do caminho, perguntando-me quantos  antepassados meus o terão pisado, indiferentes à majestade do sítio, o pensamento voltado para a luta do ganha-pão e as ameaças de doença e desgraça.
De muito alto veio descendo um abutre, depois outro, um terceiro, um bando a circular sobre as fragas. Fiquei a observá-los, tomado dum medo irracional, primitivo, ao recordar que vêm sempre de longe, chamados pelo cheiro de morte e podridão.
Assobiei ao cachorro. Voltámos ambos a casa a falar dos poucos coelhos, deitando de vez em quando uma olhadela aos abutres, agora simples pontos num céu de tormenta.

domingo, abril 22

O meu cinema


A aldeia é o meu cinema a preto-e-branco. Cenas, gente, momentos, sobrepõem-se à rua e às canelhas de agora, e não é miragem ou sonho, estado segundo. Chamo os defuntos e eles retomam a vida de então, oiço-os, espalham em redor os cheiros perdidos do estrume, do suor, do bedum e das cagalhetas. Gritam em vozes que reconheço e têm nome, acenam, dizem as palavras simples do dia-a-dia, descobrem-se respeitosos ao toque do sino, murmuram avés, pousam as mãos nas cabeças dos miúdos que pedem a bênção, desejam-se boa-noite e santa paz.
Passam burras com fachas de palha, cântaros de água, cargas de lenha. O fumo das lareiras escapa pela telha-vã. Uma mulher corre com uma pinha a arder, outra esconde sob o avental o frango que assou no forno. No muro do adro pousaram duas caixas de sardinha, donde escorre uma salmoura que pinga para o chão e fede.
Já se fez escuro. Passa um homem com um lampião pendurado numa vara. Ouve-se martelar no alpendre do ferreiro.

Estou sentado no pátio. Vi o filme três vezes.

sábado, abril 21

"Diário Dum Emigrante"

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Uma leitura dos meus dezassete anos. Anotei que não gostara. A minha consciência social refilou, aquilo era sobre gente de 1a classe, havia ali muita pouca-vergonha de ricos com mulheres casadas. Copiei da primeira página: " Novembro 3 - O Manel com um ar idiota, a olhar para o rancho da mulher e dos filhos e sem saber que lhes dizer. Novembro 5 - Hoje desci à terceira, a ver de perto a carneirada humilde que em rebanho se aglomera no poço da ré. Galegos, vindos da Corunha e de Vigo, minhotos embarcados em Leixões, saloios entrados em Lisboa."
Reli ontem e voltei a não gostar. Mas que raio de tempo aquele, e que curiosos personagens, tão actuais no comportamento e na mentalidade. Será que, no essencial, a burguesia portuguesa não muda?

sexta-feira, abril 20

Irei sem perdoar

Na minha idade, a morte próxima, tenho horas em que faço contas, revejo sonhos, listo aspirações. Em primeiro lugar o desejo de que a minha morte não seja súbita. Quero tempo para me despedir dos que amo, dos amigos que tenho, horas para recordar os que me fizeram bem, ensinaram caminhos e abriram horizontes.
Quero tempo para rememorar e agradecer a minha vida, aventurosa, variada, rica de paixões, de fúrias, alegrias, negrumes, amores, alturas e precipícios, e que por vezes, como que fora de mim, iluminou o palco e me fez espectador privilegiado do espectáculo.
Quero horas para me despedir do pobre país em que vim ao mundo. Relembrar que o amei como se fosse gente, me senti menino acarinhado e feliz no seu regaço. Que dele aprendi a língua,  única no modo de embalo, aquela que para lá do sentido das palavras deixa entrever os mistérios da música e do eterno.
O país da suavidade, do desespero, dos sonhos infantis, das mãos pobres que um nada enche, do sofrimento envergonhado e amanhãs que nunca chegam.
Irei sem perdoar aos que o rebaixam.

quinta-feira, abril 19

Quartos de hotel (5)

A primeira vez foi em 1967. Hospedei-me lá, curioso de ver por dentro onde veraneavam os ministros de Salazar, quando iam ao beija-mão do chefe no Vimeiro.
Achei teatral, antiquado, confortável, o pessoal hipocritamente subserviente. Nessa tarde visitei ainda a mata, admirando o arvoredo, sorrindo à lembrança de António Ferro, que em 1936  tinha ordenado uma campanha para fomentar o turismo, mas pelos jeitos  alguém se descuidara, e nos folhetos em Inglês referia-se ambiguamente o Buçaco como "The shadiest place of Europe".
Da dezena e pico de vezes que depois lá estive, a última em 1993, guardo o aprazimento de que nada me custaram, pois foi a expensas da televisão ou dos jornais holandeses em que colaborava.
Se desde essa altura tudo está na mesma, um dos quartos do primeiro andar tem um banheiro que, pelo desproporcionado das suas dimensões, protagonizou na história que segue.
Cameraman, som, redactor, produtora, três trintões e uma rapariga ainda nos vinte que, inexperiente, trabalhando pela primeira vez no estrangeiro, morria de nervos. Eu, sessentão, fingia de manda-chuva, só levando a sério o trabalho, que resultaria em dois programas de uma hora sobre Portugal.
Começámos pelo Porto, Minho, Gerês, Trás-os-Montes, descemos a Fátima porque o 13 de Maio era do programa. Caiu a peregrinação numa quinta-feira, e logo ao fim da tarde tomámos de assalto o Palace Hotel do Buçaco, contentes com o trabalho feito, mais que derreados, a canseira justificando um longo fim-de-semana.
Estávamos no bar  quando a nossa colega, que se tinha ausentado, voltou a correr com um ar de grande aflição, quase gritando: "Waar is de toilet! Ik moet poepen!"
Na Holanda sempre houve, mas tem aumentado, o modo directo, e os plebeísmos na linguagem a poucos incomodam. O que eu ali não esperava era que o barman compreendesse holandês e, sem outros clientes, ignorando que eu fosse compatriota, traduziu para o colega:
- A gaja quer cagar!
Não me dei por achado. Quando a rapariga voltou quisemos saber se não tinha estado no quarto, e ela explicou:
- Claro que estive! Tentei! Mas vocês vão ver, é um banheiro enorme, é como estar num largo! E eu sofro de agorafobia! 

terça-feira, abril 17

Quartos de hotel (4)


Seria longo detalhar as razões da minha antipatia por Mário Soares como figura política. Datam de Paris, no começo dos anos 60, e permanecem. Tenho também pouco apreço pelos que, ingénuos ou ignorantes da História, e dizendo-se eternamente gratos, se lhe referem como "o homem que nos trouxe a Democracia." Não trouxe. As peripécias são outras e menos simples.
Mário Soares desagrada-me ainda como pessoa, pois simboliza aquilo que detesto e de que desdenho na burguesia portuguesa: a falsa pachorra, a jovialidade de pechisbeque, o modo paternal, o sorriso pronto, a mãozada, os Ora viva!, a festinha aos humildes; por detrás de tudo isso a ganância, o cálculo frio, o desprezo do semelhante, a presunção, o sentimento bacoco de casta, os rapapés, a mediocridade.
O senhor Mário Soares sabe o que dele penso. Isso, contudo, parece não obstar, pois tenho recebido os seus livros, autografados, e surpreendeu-me um Natal, enviando um retrato seu, dedicado "Ao meu caro amigo J. Rentes de Carvalho".
Surpresa tive-a também um dia em 1998, quando o competente e muito amável João Rosa Lã, então nosso embaixador em Haia, me telefonou anunciando:
- O Mário Soares vem cá almoçar e pediu que o convidasse, pois quer muito falar consigo.
Lá fui. Seríamos cinco ou seis, mas o cordial ex-presidente como que se apoderou de mim e, esquecendo os outros, esmiuçou longamente, miudamente, a sua visão da política portuguesa.
Fui ouvindo, e em determinado momento, para rebater o que ele afirmava disse-lhe:
- Mas isso, senhor presidente…
- Já não sou presidente! Chame-me Mário.
Agradeci, recusei, disse-lhe que da minha parte acharia indecorosa a familiaridade, se bem que...
- Se bem que?
- Dá-se o caso que o senhor presidente e eu já dormimos na mesma cama.
Contei-lhe depois a história, resumindo os detalhes e escondendo o remate.

Deve ter sido em Setembro de 1948, os dezoito anos feitos, que o Dr. Armando Pimentel , amigo e mentor, me convidou para um jantar em Macedo de Cavaleiros, onde padres ricos e proprietários abastados iam festejar a excepcional colheita de trigo e centeio desse Verão.
De Estevais a Macedo leva-se uma hora, naquele tempo dava a ideia de se ter feito grande viagem. Amesendámos na então já nomeada Estalagem do Caçador. Éramos muitos, eu o único jovem, sei que se começou com alheiras e chouriças, a seguir perdiz, borrego, leitão. O resto sumiu-se da memória.
Uns trinta anos depois aconteceu-me passar por Macedo, almocei na Estalagem, iniciando uma espécie de ritual, e desde então vezes sem conta lá comemos e pernoitámos, criando boa amizade com a D. Maria Manuela, que com simpatia e perícia dirigia o estabelecimento.
É ela que nos acolhe uma tarde de muito calor, manda preparar refrescos e, enquanto beberricamos e coscuvilhamos, diz que nos reservou um quarto especial.
Sobe connosco, abre a porta, e anuncia com maliciosa solenidade:
- O Mário Soares dormiu aqui ontem!
No fundo achamos desagradável a nova, é como se as exalações do corpo e da personalidade do homem ainda flutuem no aposento, mas sorrimos, dizemos umas palavras de circunstância, a D. Maria Manuela despede-se.
A empregada, transmontana, retornada de Angola, espera que a patroa desça, encosta a porta, e rosna, truculenta, ao mesmo tempo que nos agarra pelos braços:
- É verdade! O filho da puta dormiu aqui! Mas estejam descansados, que já desinfectei!

(Continua)

segunda-feira, abril 16

Quartos de hotel (3)

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Queixas e críticas são de rigor, mas a vida académica proporciona também amenidades. E assim, porque uma estudante tinha feito a tese de licenciatura sobre Montedor, o meu primeiro romance, lá fui eu um dia a caminho da universidade de Perugia.
O sentimento de amizade com Brunello de Cusatis, o jovem catedrático de Português, nasceu súbito. Calabrês, falando impecável a nossa língua, especialista de Pessoa, casado com uma vianense e muito sabedor das coisas do Minho e arredores, ainda por cima era de uma alegria, humor e boa disposição contagiantes.
Foram três dias inesquecíveis, comi que nem um abade, fui tratado como um cardeal, deixei amigos, senti pena sincera na hora da despedida.
Uns duzentos quilómetros adiante começou a chover que Deus a dava, era já noite ao entrar em Bolonha, e irritado comecei a ronda dos hotéis. Pena perdida.
Já mo tinham dito, mas o recepcionista do Holiday Inn, sujeito de bigodinho, ar de proxeneta  mal humorado, detalhou, contando pelos dedos, o que nesse momento havia na cidade de congressos e feiras, exposições, jornadas de estudo, conferências disto, daquilo, daqueloutro.
Insisti. Resmungou ele. Tornei a insistir, e então lá concedeu: fosse jantar, talvez houvesse alguma reserva cancelada.
Voltei à recepção, e olha que sorte eu tinha, anunciou ele jubiloso, piscando o olho: logo uma das melhores suites. Ao preço daria um jeito, falávamos disso depois. Do passaporte não precisava, tão-pouco me deu ficha para assinar."Buona sera!"
Hall, grande sala, grande quarto, grande luxo. Bar bem aprovisionado. Muito mármore e dourados no banheiro.
Acalmado da surpresa fui-me a investigar. Havia ali jornais em três línguas, alguns livros de Economia. No primeiro guarda-roupa que abri abriu-se-me também a boca: vestidos, saias, casacos de peles. Nas gavetas, adereços e roupas de mulher, sapatos de tacão alto, coisas de luxo.
Era certamente pouso de dama de alto coturno e itinerante, o sacaninha da recepção aproveitando a oportunidade para fazer uns cobres.
Sentei-me a beber uísque e, distraído, peguei num dos álbuns que estavam sobre a mesinha. Helmuth Newton. Fotografia erótica. O mesmo no segundo. No álbum seguinte, sem autor, mas de excelente qualidade, cenas mais ousadas, estranhas, violentas.
Acabei o uísque à janela, olhando desinteressado  o céu de relâmpagos longínquos, a tempestade sobre a cidade desconhecida. Deu-me para pensar o que aconteceria se a mulher em questão entrasse e desse comigo. Distraído, sorrindo da eventualidade, abri outro armário. Depois o seguinte.
Respirei fundo umas quantas vezes. Vestuário e máscaras de cabedal fino, chicotes de vários tamanhos e grossuras, um cavalo marinho. Correntes. Algemas. Camisas de forças. Um garrote. Cordas. Calças de couro fendadas. Dildos. Botas com ponteiras de metal. Uma maleta de instrumentos cirúrgicos.
Repus tudo cuidadosamente. Demorei a adormecer, dormi mal, estava acordado há muito quando a empregada veio com o pequeno-almoço e, sem estranheza, me deu os bons-dias e os três jornais que a "inquilina" recebia.

O recepcionista informou-se do meu bem-estar, disse que eram cento e oitenta dólares sem recibo, trezentos com, não aceitava liras nem cartões de crédito, mas também não precisava eu de ir ao banco, que os florins mos cambiava ele.
Estávamos no final dos anos 80, e era puxadito, mas não refilei. O alojamento tinha sido confortável, a surpresa valia o dinheiro.
(Continua)

domingo, abril 15

Quartos de hotel (2)

Fim dos anos 50. Chego a Grenoble ao cair de uma noite de Inverno, vindo da Alemanha, quase onze horas para fazer um pouco mais de quinhentos quilómetros, derreado de tanta curva, estradas más, a passo de boi na travessia de não sei quantas cidades, aldeias e lugarejos.
Paro no primeiro hotel com que dou. Feliz escolha. Uma vista de olhos ao quarto amplo, simpático, uma lavadela, e vou-me ao restaurante, pois estou em jejum desde manhã.
Vêm as entradas, o peixe, a carne, a sobremesa, dois cafés, um conhaque, e Deus abençoe quem cozinha assim. Bebo um terceiro café e o segundo conhaque, vou-me dali num grande contento, soprando a Gauloise.
Exausto, mas alegre e de barriga cheia, entro no quarto e nem me dispo, atiro-me sobre a cama. A cama tem um dos famosos colchões franceses de então, coisa enorme onde o corpo se afundava. De facto sinto-me afundar, oiço um ranger de mau agouro, e lentamente, dando estalidos, a cama quebra, só por instinto evito que a pesada cabeceira de mogno me caia em cima.
Acodem da portaria. Muitas desculpas e uma má notícia: não há quartos livres. Põem uns cobertores no chão da copa e aí vou dormir como um justo. Acordo assarapantado às sete da manhã, sem compreender onde estou, rodeado do pessoal, a quem não tinham dito que me encontrariam ali.

Gostamos de Ciudad Rodrigo. Cidadezinha alegre, simpática, há dezenas de anos que uma vez por outra, alongando o caminho, damos por lá a volta e descansamos um dia ou dois no parador.
A primeira visita, no Outono de 1968, ficou na memória, devido à surpreendente gentileza do bagageiro que, ao tirar as malas do carro, começou a desfiar a história da cidade. Ao chegarmos ao quarto ia ele não sei em que visita de Filipe II, mas em vez de abrir a porta deteve-se, anunciando com solenidade que naquela habitación  tinha dormido "Soberssé Mogum".
Não compreendemos, mas pusemos a cara de circunstância, descobrindo depois que se tratava de Somerset Maugham.
(Continua)

O Rebate


Nas livrarias desde sexta-feira 13/04

quinta-feira, abril 12

Quartos de hotel (1)

Desde Maio de 1947, quando me hospedaram em Lisboa no que viria ser o Hotel Tivoli, mas nesse tempo era pensão, até ao mês passado, em Magaz de Pisuerga, são sem conta os quartos de hotel na minha vida. A maioria não deixou marca, mas muitos ficam na memória, e alguns, como os do parisiense e modesto Le Beuret, onde nos anos 60 gastei longos meses, foram cenário de interessantes vivências.
A desfiar lembranças, e começando pelas mais longínquas, recordo um quarto na Rua da Palma, em Lisboa, onde uma noite acordei em pânico e aos gritos, descobrindo-me coberto de percevejos.
Doutra vez, num hotel da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, numa antiguidade em que o ar condicionado era luxo, abri a janela para não sufocar e logo me vi atacado por mosquitos de um tamanho que desconhecia. Corri para o quarto de banho, acendi a luz, abriu-se-me a boca com um negrume de baratas. Fui protestar e o porteiro riu-se, esclareceu que o meu susto era falta de hábito.
 Ao findar dos anos 50, em Nova Iorque, no então famoso e hoje desaparecido Hotel Saint George, onde depois seriam filmadas cenas de The Godfather, fiquei perplexo com o tamanho do quarto e a aparelhagem do banheiro, em cuja bacia vi três, em lugar das duas torneiras do costume. Estranhei. Informei-me.
- Ice water! For your drinks! – explicou, jovial, a empregada negra, dando-me palmadas nas costas, descrente de tanta ignorância.
Anos 60. São Paulo. Hotel Jaraguá. Era hotel, e nele funcionava também a redacção de O Estado de São Paulo, as rotativas estavam na cave, os jornalistas viviam no bar.
O bagageiro, tipo de malandro e sorriso a condizer, pega nas malas, subimos com o ascensor.
- 'ócê vai gostar! – diz ele ao abrir a porta do quarto e alargando o sorriso.
Acena para que o siga. Encosta uma banqueta à parede do banheiro, sobe, desaparafusa um vidro fosco, desce, faz um gesto de mestre-de-cerimónias:
- Olha aí !
Quase me despenho. No andar fronteiro, a umas dezenas de metros e de janelas abertas, funciona um bordel de luxo. Há um trio num quarto, noutro um casal na posição clássica recomendada pelos missionários, no seguinte um cinquentão e uma garota.
Quem lá está enfrenta uma parede cega e uma sucessão de postigos. Eu, no lado oposto, vou ter ali semana e meia de um excitante e variado peep-show.
- Xixica! – o rapaz arreganha a boca e, rebolando os olhos, beija a nota de cem cruzeiros que lhe meto na mão.
(Continua)

quarta-feira, abril 11

No palco

Falas de cinema e de rock, de viagens, museus, daquele recanto em Barcelona . Creio que por cortesia, ou fingindo interesse, falas também de livros, dos livros que queres ler, porque o tempo é escasso, as solicitações muitas. E voltas a falar de filmes e actores, de como te surpreendeu o Guggenheim em Bilbao, a maravilha que é deixar Istambul ao cair da noite, atravessar o Mar Negro, ver o romper do sol em Odessa.
Oiço atento, sorrio. Na tua idade é de esperar esse entusiasmo. Oiço-te e tenho o bom senso de não retribuir. Nada de comparações ou saudades tontas. Não te falo das minhas memórias, das viagens num tempo distante, em paisagens agora mortas. Dos mares que atravessei, dos medos que se sofrem nas borrascas, as piores, as que não são do vento, mas da alma e da dor de existir.
Aceno, mostro interesse. Transporto-me por segundos aos lugares que descreves, maravilho-me contigo. A espaços, porém, a atenção descola. Pergunto-me porque razão falarás tanto de aventuras, viagens, cinema, música, mas do que no íntimo pensas e sentes nada contas. Não que eu espere confidências, mas uma conversa de apenas entusiasmos, maravilhas, surpresas,  excitações, tem muito de cortina de fumo ou décor teatral. É cavaqueira, não é conversação.
Se por acaso leres isto não te vejas obrigado - obrigada? – a outro comportamento, mas talvez reconheças que o palco é menos interessante que a realidade escondida nos bastidores.

terça-feira, abril 10

O fardo

Faço o que está nas minhas forças para julgar amigavelmente e piedosamente o semelhante. Mas cansa muito, e por vezes, tal besta de carga que não aguenta o fardo, vou-me abaixo, sai-me então o veneno em golfadas.
Felizmente, porque também isso os anos me ensinaram, guardo o balde do vómito onde não cheire nem incomode. Verdade é que não me viria proveito se o despejasse, tão-pouco se incomodariam com ele os que o merecem, que esses são gente de cavalarias altas, cheios de si, e que só a si vêem.
Comigo sózinho, bem estou, mas a vida obriga a sair. Vem o semelhante, sorriso pronto, mão estendida, ressudando vaidade e arrogância. Palmadinha nas costas.
Sem intróito, diz ele assim:
- Venha lá a casa. Quero que me assine uns livros que lá tenho.
Dei-lhe uma resposta torta. Parece que estranhou.

domingo, abril 8

Páscoa

É Páscoa, bem sei, Jesus Cristo subiu aos Céus, de lá nos abençoa e há-de redimir. Amém.
Mas olho em volta, leio, oiço, vejo, e começo o dia em pecado, rogando maldições aos que exploram o semelhante, o roubam, humilham, lhe mentem. Não se me dá em nome de que credo, política, teoria ou ilusão o fazem, ou que razões encontram para se justificar.
Rogo ao Altíssimo para que esses seres vis tenham medo, sintam um terror igual ao dos que vivem sem esperança, os que têm fome, dormem na rua, se sabem perdidos e amaldiçoam o terem nascido.
Que aos que têm culpa dê o Altíssimo vida longa e dolorosa, torne infindas as horas de remorso, avive neles a crença de que não podem imaginar o martírio que os espera no Inferno.

sábado, abril 7

O terceiro acto

De pequenina tem aquela paixão do teatral, e a mímica, a entoação, os gestos, tudo nela é de quem vive num palco. Explica muitas vezes, com talento, a razão de não ter filhos. Ergue-se de súbito, aponta o baixo-ventre, descreve com dois dedos um círculo, dando a impressão de que segura um bisturi, e exclama com drama:
- Arrancaram-me tudo!
Não só eu, di-lo também a expressão dos outros presentes, vemo-nos de súbito no bloco operatório, o corpo na mesa, o sangue a jorrar, os cirurgiões muito concentrados, aquela aparelhagem toda, as lâmpadas. Depois, aos cicios e passadinhas, seguimo-la na maca pelos corredores, entramos no quarto, assistimos aos cuidados das enfermeiras.
Representa muito bem a visita dos médicos na manhã seguinte, o professor falando de sinartrose e pericárdio, uteremia, palavras que nada lhe dizem, nem a nós, mas que decorou por achá-las interessantes.
Senta-se então lentamente, suspirando, mas logo volta a erguer-se, pronta para o terceiro acto, a representação da impotência do Alberto, da sua sovinice, a discórdia e o divórcio.
Essa é a parte de que gostamos menos - o falecido era bom homem - e então há sempre alguém que diz que se faz tarde, vão sendo horas da deita.