terça-feira, janeiro 31

Naufrágio

Com a reforma garantida, a poupança a salvo, isto são apenas números, abstracções com que nada tenho a ver. Deveria anotá-los com o desprendimento dos que da praia assistem, e dão graças de terem desembarcado do Costa Concordia em que Portugal se tornou.
Todavia, são números que me retiram a paz da alma e continuam a revoar na cabeça, profetizando para a minha gente amarguras, sofrimentos e tempos negros.
Desconhecia, mas aprendi: não são os gregos os mais pobres, somos nós, com um PIB de apenas $ 21.000 contra os $ 26.000 do deles. Traduzo um assustador parágrafo: "Se bem que o governo grego tenha recebido avultados empréstimos de dinheiro e o tenha esbanjado, os consumidores gregos e as empresas mostraram-se relativamente constrangidos. Os portugueses não. Segundo números do Bank of International Settlements, o total da dívida portuguesa ascende a 479% do PIB (comparada com 296% para a Grécia). Ou seja, 783 biliões de euros para Portugal e 703 biliões para a Grécia."
E os bancos europeus têm $ 244 biliões em aberto em Portugal, contra $ 204 biliões na Grécia. Quem vai pagar? Quem acredita no perdão de dívidas?
Tivemos a pimenta da Índia, dois anos de volfrâmio, um quarto de século a comer fiado e, como povo, continuamos duros da cabeça, confirmando o ditado de que burro velho não toma andadura.
………………….
Agradeço parte do susto ao Eduardo Pitta.

segunda-feira, janeiro 30

Dia corriqueiro

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Caiu a primeira neve. Escuro de noite às seis da manhã, quando saio com o cachorro. Um pequeno grupo empurra um carro que deslizara para o passeio. A caminho do estacionamento passa uma rapariga negra, alta, elegante, vestida de preto. Um rapaz mete jornais nas caixas de correio, levando a bicicleta à mão. Corvos e gralhas, mais de vinte, debicam os saquinhos de grão que alguém pendurou numa árvore.
Porque o frio aperta e o vento corta, a volta matinal pelo parque fica pelo quarto de hora, e entre os dois abaixo de zero fora e os vinte dentro de casa, o retorno ao conforto e à xícara de café é mais que agradável.
Ligo o computador. Dou uma vista de olhos às notícias, aos blogues favoritos – o meu  amigo Zé Borges ganhou um merecido primeiro lugar – abro a In box e, surpresa, lá estão elas, agora em Davos. E também em Kiev, muito masculinas na apresentação dos traseiros.
Enfim, corriqueiro como quase sempre, assim começou o meu dia.

domingo, janeiro 29

Abaixo de zero

São tantas como os indivíduos, e muito pessoais, as maneiras de cada um estar no mundo, idem as suas vivências, aflições e desejos, de modo que a experiência alheia de pouco ou nada serve. Pode distrair ou assustar, surpreender, mas escorre como água sobre um oleado, e pronto voltamos às nossas aflições e às alegrias mais ou menos fingidas que calafetam o ramerrão diário.
Detenho-me a reler o que atrás fica e, modéstia à parte, parece-me prosa adequadamente sombria para esta manhã de domingo nórdico, escuro, frio, nevoento, o termómetro a descer  para os anunciados cinco graus negativos de logo à tarde.
Uma coisa puxa outra, os pensamentos enrolam-se, desenrolam-se, misturam-se, dou comigo a recordar os dias longínquos da minha juventude, a ânsia de deixar Portugal, a extraordinária força que crescia em mim para me libertar do pesadelo de uma vida sem dignidade e sem futuro.
Involuntariamente, no seguimento dessa recordação vêm-me à idéia os mails que nos últimos tempos recebo de jovens portugueses que me questionam sobre a Holanda, para onde desejariam emigrar. Para minha surpresa, quase todos perguntam também se o clima aqui não será  demasiado rigoroso, se custa aguentá-lo.
É então que me digo que as coisas em Portugal não devem ir tão mal como os pessimistas badalam, e felizes aqueles que querem (podem) decidir da vida em função do clima.
                                                          

sexta-feira, janeiro 27

Duas perguntas

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Se a Quetzal faz, também eu posso, mas aqui o regulamento é mais exigente e o prémio invulgar.
Redige você duas perguntas que faria se me entrevistasse, e para isso tem até 18 de Fevereiro. Remete-as para jrentes@xs4all.nl  Um júri (somos três) escolherá as mais originais e inteligentes, atribuindo a cada uma um número. No dia 19 serão os números metidos num saco, donde mão inocente tirará às cegas o premiado.
As perguntas, e as resposta que lhes darei, juntamente com o nome do laureado,  serão publicadas no Tempo Contado em 20/02. O próprio fornecerá um endereço postal e o correio cuidará do envio.

A invulgaridade do prémio consiste em que você, provavelmente, o não poderá ler, porque é em holandês. Mas tem lá um pequeno vocabulário, um índice onomástico com gente conhecida, e o volume (328 páginas)  é, como se dizia antigamente, "profusamente ilustrado". A maior parte das fotografias, incluindo a capa, são da minha autoria. Deixando-o sobre a mesa da sala poderá ser usado como bóia de salvação de muita conversa.

Importante: não haverá troca de correspondência sobre o assunto.

Feliz ilusão

Não há segurança na contagem do tempo. Quando olho para trás pergunto-me se de facto tive um passado, pois o que enxergo são episódios de pouca monta, uma mão-cheia deles, se tanto, longos hiatos, vivências desfeitas em névoa.
Em nenhuma escola se aprende a viver, e o caminho que os outros com boa intenção mostram, é o que eles conhecem, não o que iremos trilhar. Ora a passadas lentas, ora aos trambolhões,  carpindo o que já não é, temendo o que será.
Vão os fracos amparados pelo sonho, avançam os resolutos cheios de certezas, mas não sabemos contar, caminhamos todos na feliz ilusão de que a estrada é longa e sobra tempo.

quinta-feira, janeiro 26

Às cinco em ponto

É terrível a frieza desumana dos regulamentos. Um telefonema a anunciar que esta tarde, à hora marcada, irei ao hospital assistir a uma morte. Seremos quatro, os que ela pediu que estejam presentes quando, como há muito espera, o médico finalmente a liberte do sofrimento e da indignidade.
Que palavras se dizem num momento assim? Para onde se olha? Que gestos fazer? Que sentimentos me assaltarão. Será que, como agora, ainda manhã, irei recordar boas e más ocasiões da nossa amizade? Ter pena? Sentir medo?
Restam-lhe umas horas de vida, e dou-me conta de que já falo no passado. Muito lhe faltou, porque não conseguiu o que desejava e o seu intelecto fazia esperar, mas recebeu a dádiva sem preço de um amor verdadeiro. Duas mulheres que a paixão uniu quando ainda era pecado e vergonha e, sem queixa, sofreram o ostracismo das suas famílias e daqueles que aguardam até que a sociedade lhes manda que mudem de opinião.
Escrever isto pode parecer exibicionismo, o aproveitamento de uma tragédia, mas posso afirmar que o estado de espírito em que me encontro, e a proximidade da minha própria morte, me põem além do superficial. O terror e a solenidade de um momento assim não se partilha, tão-pouco traz alívio ou é desabafo o assinalá-lo.
Olho o relógio. Nunca as horas passaram tão depressa.

quarta-feira, janeiro 25

Ganhei!

Último acto

Vai do quarto para a cozinha, entra na sala, debruça-se na varanda. Apaga o cigarro. Não sabe como lho dirá, sente-se sem ânimo. Tantos dias pronto a decidir, outros tantos a adiar, cansado de desculpas e explicações, das mentiras transparentes, dos enganos, do fingimento. Amedrontado também, porque não dizê-lo, com o modo como ela, calma e incansável na espera, lhe faz sentir que sabe, mas terá de ser ele a confessar.
Retorna à cozinha. Ensaia frases que logo descarta por irresolutas, fraca desculpa. Absorto, pega nisto e naquilo, arruma os copos, aparta uma faca. Acende outro cigarro, encosta-se ao fogão.
Ouve-a rir ao telefone, com certeza a falar com a irmã, e assim que terminar lho dirá. Sem rodeios. Aperta o estômago, a acalmar a náusea. Bebe um copo de água. Olha em redor, indiferente ao que vê, tomado de um sentimento de perda e despedida. Pára no corredor, hesita, entra na sala.

- Espera um momento, Laura.
Vê-a tapar o microfone do aparelho com a mão e aproximar-se, apontando o sangue que  pinga no soalho:
- Que é isso, Manuel?
Só então repara no golpe que, sem sentir, tinha dado no polegar.

São dois que se revezam e não cessam de perguntar, mas ele jura que depois daquele instante nada recorda.

O pano cai, os actores voltam à cena, o público levanta-se a aplaudir.

terça-feira, janeiro 24

Fim da tarde

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Surpresa

Por respeito a quem me lê e a mim próprio, esforço-me por oferecer uma prosa escorreita, e não será de todo pena perdida. Surpreende, contudo, que dos 1.635 posts deste blogue, o mais visitado - não digo o mais lido - de certeza o não é pela escrita. De modo que, afinal, talvez seja de facto pena perdida estar a burilar frases e querer recheá-las de sentido, pois como dizem os chineses:

segunda-feira, janeiro 23

"Stop The World, I Want To Get Off!"

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Não ponha caras. Aguarde, que já explico. Sábado passado encontrei a fotografia deste rapaz no jornal holandês Het Parool, fiquei a saber que é professor de História no secundário, a roupa a sua grande paixão, e todos os dias passa pelas lojas. Continuava dizendo que, quem atentar no que ele veste, poderá deduzir o seu estado de alma, "Se é uma roupa extravagante mostro estar receptivo a comentários". Se vai a festas gosta de usar acessórios, como a malinha.
Era dia de chuva e sentia-se melancólico quando o fotografaram, daí o cinzento do garbo e a escolha do casaco que "voeja com muita graça quando está vento".

Agora eu. Tem o mundo dado muita volta desde que em 1930 cheguei, mas até uns anos atrás, embora cada vez mais atrasado, lá fui conseguindo acompanhar o movimento. Franzindo o sobrolho, é certo, mas espectador benévolo, só de longe a longe resmungando também: "Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem".  
Semelhante atitude poderá ser interpretada como arrogância tola ou desdém de velho, mas assim não é, apenas traduz medo e desapontamento. Nem o mundo vai como sonhei, e tudo mostra que cada dia menos pertenço nele.
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Outra aflição minha pode ser lida aqui.

domingo, janeiro 22

nr. 17, 3◦ esq.

Esquece Broadway. Esquece as ruas de Paris, o fedor de Lhasa, as praias de Cancún. Esquece Ulan Bator e os vagões do Transiberiano, Lima, o Aconcágua, a Patagónia, Detroit, Marmaris, Roma, Compostela.
Esquece os lugares onde nunca foste, onde nunca irás. Sonha, mas não contes. Jura que te alegra a nesga de viela, que adivinhas o rio por detrás do armazém, para concerto te basta o repicar dos sinos, e sempre aguentaste bem a solidão.
Cerra os olhos. Esquece que é domingo.

sábado, janeiro 21

A desolação da manhã

O céu de chumbo e a morrinha terão parte nisso, mas as sombras vêm de dentro. Um rodopiar de conversas, faces, palavras que não disse, pensamentos escondidos, fúrias, ocasiões perdidas, o gesto negado, o passo em vão.
Força estranha, a que aciona esta maquinaria que às primeiras horas entra a funcionar, sem que lhe adivinhe o motivo da tortura ou que fim serve.
Culpa do tempo? Dores minhas? Talvez não. Provavelmente apenas detritos do dia-a-dia. Farrapos que não consigo descartar, porque mesmo do imprestável sofro a ausência.
Tomado de um sentimento de vazio, pergunto-me por que razão se alinham as palavras nesta ordem, e o que as impede, quando as uso, de se tornar poema.

sexta-feira, janeiro 20

Fraco enredo

Houve tempo em que fui saudosista, daquele tipo lamecha que entristece porque o que era já não é, a juventude se  perde, os mortos não ressuscitam, as amizades fenecem e a vida não tem marcha atrás.
Não dei conta de como sucedeu, mas quase de um momento para o outro deixei de ter saudades, foi assim a modos de um cortinado que, ao descer, me separasse do passado.
Tal como outros por dieta diminuem o sal e o açúcar, corto eu nas recordações, desligando o ecrã onde, as mais das vezes a ensombrar-me, projectava momentos e memórias.
Já oiço o fado sem que se me humedeçam os olhos, leio a Mensagem com desprendimento, passo indiferente pelas ruas em que vivi, sinto-me constrangido se alguém, conversando, refere um episódio meu.
Corto-me do passado, mas não acho consolação no presente, nem tenho certezas para o futuro. Vou assistindo, mero espectador da minha vida, descontente com o personagem e desinteressado do enredo.

quinta-feira, janeiro 19

"Blogues do ano 2012"

Por iniciativa desconhecida Tempo Contado aparece inscrito no concurso "Blogues do ano 2011".  Sem ofensa, mas quem me conhece sabe que desde 1940, ao sair da primária, deixei de participar em corridas de sacos.

Joelhos

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Um fascínio. Joelhos, e aqueles trinta centímetros de coxa que as saias curtas deixam ver, os olhos passam num relâmpago, elas nem dão conta, mas mulher sentada à sua frente é avaliada por esse particular.
Galanteios, apartes bem doseados, conhece de sobra a arte e em geral vence. Agora se ela tem joelhos redondos e lisos, coxas prometedoras, a fantasia dispara, custa-lhe seguir a conversa, imagina-se amante submisso a despi-la com delicadezas de pajem, refinando carícias, deleitado de vê-la rebolar os olhos, suspiros prolongados em roncos, lábios entreabertos, as mãos inquietas a arrepanhar o lençol.
Tinham combinado na esplanada, às oito, mas Manuela não é de pontualidades nem avisos. Quando finalmente aparece nada de desculpas ou beijos, acena olá e deixa-se cair na cadeira com uma afogação de teatro.
- Ao sair do táxi dei um tombo!
Senta-se de lado, repuxa a saia a mostrar os joelhos, ele aproximando-se, debruçado, a fingir atenção, só arranhadelas, tão leves que nem sangram.
- Dói? Queres ir à farmácia?
- Não. Isto não é nada.

Manuela, a afilhada, o bebé que levou ao baptismo, a miúda que viu crescer, a bela rapariga de vinte e poucos anos que agora tapa a boca às mãos ambas e não consegue parar o riso.
- O que é?
- Não digo.
- Não sejas criança - e voltando-se para o empregado: - Outro café, um sumo de laranja - Diz lá.
- O meu pai!.. – o riso sufoca-a, das outras mesas há quem se volte num modo entre a simpatia e o incómodo, supondo talvez uma inconveniência do cinquentão.
- O meu pai!... Não, não, a minha mãe também!  Lá em casa estão sempre a dizer que tens uma coisa com joelhos, assim como um fetichismo, e quando te vi a olhar!...
Abana a cabeça, que tolice é essa, sobressaltado pela lentidão com que a afilhada cruza as pernas, surpreso do pensamento que lhe ocorre e nunca tinha tido.
………..
Doutzen Kroes só ilustra a história, a fotografia foi tirada daqui.


quarta-feira, janeiro 18

Gatos e gentes

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Foi apenas coincidência. Pense o que quiser, ou não pense, olhe ou não olhe. Passe adiante. Mas se tem curiosidade de saber, aconteceu sábado passado em Breda, no sul da Holanda.
O gatinho tinha subido a uma árvore e, como não conseguia descer, a vizinhança chamou os bombeiros. Ao ver a escada e o homem que vinha salvá-lo, o bichano, amedrontado, atirou-se ao canal.
O bom samaritano que se vê na fotografia, não hesitou: despiu-se, esqueceu a água quase gelada, dando ao caso um happy end .
Acontece agora que no momento em que a imagem e a notícia apareceram no computador, estava eu a folhear A Capital, o romance de Eça de Queiroz, em busca de um episódio que particularmente me interessa. Encontrada a página continuei a ler:
    "- Grandíssimo burro! Se nós lhe apanhássemos o dinheiro, hem? Era logo comboio para Lisboa, e bater para o Dafundo, com um par de pequenas.
    (Artur) Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio.
    A chuva cessara; um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azuis estrelavam-se.
    - Pois tivemos uma bela cavaqueira – disse o Rabecaz, quando Artur parou à porta de casa. - Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Apareça pela Corcovada. Não se passa mal.
            E avistando um gato atirou-lhe uma bengalada."


terça-feira, janeiro 17

Voltas da nora

Sobre a literatura (ciência do literato), a arte da escrita, escolas, estilos, épocas, tendências e enredos, personagens e autores, são incontáveis os tratados. Tenho lido bom número deles,  com alguns aprendi, alguns safaram certezas, outros mandaram-me por veredas de que depois tive de arrepiar.
Se faço o balanço constato que não encontrei o que procurava e, porque estava acima do meu entendimento ou me faltava sensibilidade, foi escasso o proveito. Mantenho, sim, as incertezas do começo, tropeço nos mesmos obstáculos, desaponta-me, sobretudo, a impossibilidade de mudar.
Agora é tarde, mas como deveria ter feito para ser outro? Por que razão não vi o melhor caminho? Quem me algemou? Que força, vício, defeito, me obriga a este rodar de animal puxando a nora, o chão por horizonte?

segunda-feira, janeiro 16

Coisas de Macau

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Alguma coisa se aprende com elas, e bem divertidas são as estatísticas. Assim ando eu a informar-me sobre Macau. Ao que parece, se decidir ficar por aqueles lados ainda me restam 2.37 anos de vida, pois a média é lá a mais elevada do mundo: 84.37. Curiosa também, a dos nascimentos: 0.91 bébé por mulher, como que a sugerir que os miúdos nascem incompletos, com menos dedos ou sem tringalha.
E em Macau passeiam-se as simpáticas da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) que, em sorridente contradição, exibem tentadoramente a carne para nos convencer a deixar de comê-la.
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© fotografias: Barbosa Briosa.

domingo, janeiro 15

Segunda visita a Macau

Por Macau já andei, noutra vida, no tempo em que Camões vivia e eu, rapaz aventureiro, me tinha alistado na esquadra de paraus de Sandokan, o Tigre da Malásia. Ancorámos lá para fazer aguada, e recordo vivamente a tarde em que, num largo com igreja, um colega malaio me apontou um sujeito alto e zarolho, dizendo que, morresse eu ali, era o cargo daquele homem assentar-me no Livro dos Ausentes e Defuntos. E mau grado o não ter melenas nem ar de tuberculoso, diziam-no poeta.
Foi isso noutra reincarnação – desde aí tive duas – e quer o acaso que, a actual prestes a terminar, me convidem agora para retornar a Macau.
Sei o que vou encontrar, o Google ajuda, sei também  mais ou menos que de mim esperam, e durante uns dias tentarei desempenhar o papel que me propõem, o do escritor a dizer seriamente coisas sérias sobre a literatura, a inspiração e a dificuldade de existir.
Problemático, se se der, será o momento em que, ao passar por um largo com igreja, me escape no tempo, aperceba Camões e, esquecendo ao que vim, deite a correr atrás dele.

sábado, janeiro 14

Um que deixou marca

Tirante a família, na minha longa vida são bastantes os que recordo, poucos, meia dúzia se tanto, os que até agora deixaram marca perene. Tivesse eu de fazer deles uma lista, Joaquim Novais Teixeira (1899-1972) ocuparia o primeiro lugar. Trinta anos nos separavam e, contudo, mau grado o fosso entre as suas extraordinárias vivências e a ingenuidade do rapaz que começava na vida, logo no primeiro encontro criámos um genuíno laço de amizade.
Foi para mim o mais dedicado dos mestres, guiando, explicando, aconselhando, avisando, mas sempre cuidadoso em esconder a cátedra e o seu saber, deixando-me na ilusão de que quase aprendia por mim próprio. Ensinou-me mais de Literatura do que aprenderia na universidade; por sua mão fiz como que um curso superior de Cinema; introduziu-me em meios e providenciou contactos que transtornariam a minha visão da Política e da História, e fariam envergonhar da tosca singeleza das minhas convicções.
Foi honra o convidar-me para a intimidade familiar, nomeando-me sobrinho, honra maior fazer-me seu confidente.  Porque era generoso e tinha gosto em partilhar amizades, mais de uma vez comi a fabada asturiana que mandava cozinhar quando o seu amigo Luís Buñuel vinha de visita. Comi, mas confesso, assustado com a fama do homem de quem conhecia os filmes, e maravilhado de me ver em tal companhia.
- Este é o Gabo.
Como ia eu saber que, tendo lido uns textos do rapaz, Novais o entusiasmava para que escrevesse, detectando o Gabriel García Marquez que chegaria ao Nobel?
Um fim de tarde estamos no La Rhumerie do Boulevard Saint-Germain a beber cerveja. Vêm cumprimentá-lo e sentam-se connosco dois conhecidos seus, Brigitte Bardot e Roger Vadim . Estonteante momento para um jovem transmontano.
Levo-o a visitar uma amiga num prédio do Quai des Grands-Augustins e, numa jactância tola, digo-lhe que no andar de cima vive Picasso. A vergonha viria  de saber que ao pintor já ele desde os anos 20, quando vivera em Madrid, tratava por Pablo.
Sempre me confundiu, e continua a surpreender, que o jovem vimaranense que foi secretário  de Manuel Azaña, o presidente da República espanhola; o jornalista brilhante; o intelectual  que tão alta  consideração gozou nos meios políticos, literários, artísticos e cinematográficos, em Espanha, França e no Brasil; o português que conheceram e frequentaram todos os "grandes" opositores políticos, escritores, artistas e cineastas portugueses que nas décadas de 50 a 70 viveram em Paris; o homem que tantas portas abriu e tantos compatriotas ajudou; continua a surpreender, sim, que toda essa gente se tenha calado e cale.
Apenas duas excepções conheço: os pintores António Dacosta (1914-1990) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). E o bom António Alçada-Baptista (1927-2008), que algumas vezes o visitara,  nada lhe devia, e se pasmava da ingratidão duns e da ignorância dos mais, ensoberbados por terem fama no Chiado.
Satisfeito o pedido, dada a ajuda ou concedido o favor, essa gente distanciava-se a seguir quanto podia, pois sentiam que com a sua experiência  de muitas vidas, e talento para "radiografar" comportamentos, Novais Teixeira  lhes punha a alma e a sabujice a nu.
Ainda andam por aí velhotes importantes que, quando se lhes fala de Novais Teixeira, tomam o ar nebuloso dos primeiros sintomas de Alzheimer e acenam vagamente que sim, acho que me lembro, era um jornalista, não era? A vontade que então dá é de fazer coisas incompatíveis com a minha idade e as boas maneiras.
Não era de queixas, mas amargurava-o o sentimento de quanto lhe doía Portugal, e que nos vissem manhosos, pequenotes, fanfarrões sem jeito, e por vezes tão canalhas.
A fazer contrapeso, refugiava-se ele numa idealização da pátria, com outra gente e recordações de um Minho de As Pupilas do Senhor Reitor. Mas era teatro, e a sua inteligência não lhe deixava continuar por muito tempo a comédia. Voltava então à cena o verdadeiro Novais Teixeira, o homem que de tão modesto parecia ser o avesso de brilhante, mas cujas qualidades intelectuais cintilavam mesmo na mais anódina das conversas.
…………………..
 in Jornal de Letras – 11.01.2012

quinta-feira, janeiro 12

A batalha de Aljubarrota

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Só quero mal a dois ou três sujeitos, talvez quatro, mas mesmo a esses desejo boa saúde. Não rezarei para que quebrem as pernas, mas se lhes puder pagar em dobrado a tratantice não perdem pela demora. Isto a modo de aviso de que sou homem de paz, comigo nada de revoluções nem violências, o que não impede que, sonhando acordado, me imagine a conceber estratégias para solucionar as desgraças do país.
Foi assim que me perguntei quantos serão os senhores que verdadeiramente detêm o poder em Portugal. Quinhentos? Mil? Mais do que isso parece-me excessivo, e creio que talvez nem a mil cheguem.
Se numa tarde de Verão se agrupassem no Terreiro do Paço, junto da estátua, com os turistas que ali andam nem se daria por eles. Compare-se agora esse punhado de gente poderosa com os quase onze milhões que somos, e a conclusão impõe-se: não se trata de desequilíbrio, mas de um absurdo, que não é saudável para eles, nem proveitoso para nós.
Não sei por que vias travessas me ocorreu a batalha de Aljubarrota, onde trinta mil deitaram a fugir diante de sete mil, mas a comparação é trôpega, pois nem nós temos mentalidade de castelhanos, nem os senhores do poder possuem o génio do Condestável. Por conseguinte, a solução terá de vir por outros meios, mas é bom que não demore, e eles se dêem conta de  que, se assim não for, só perde quem tem. Nós, os onze milhões, pouco temos para perder.
 

quarta-feira, janeiro 11

Um gesto

Vai para trinta anos tiveram uma coisa de pouca dura, ambos arrependidos da traição e temerosos do risco. Depois a vida mandou cada um para seu lado, nunca mais se viram ou procuraram, conta ele agora que mesmo a recordação se fora esvaindo aos poucos. Grande surpresa, pois, quando dias atrás o acaso os juntou numa festa de aniversário. Viu-a sentada, a conversar, diz que se aproximou, mas não pôde mais que tocar-lhe no ombro.
Ela sorriu-lhe, continuou a conversa, só muito depois se viram frente a frente, a memória a acordar em ambos os jovens que tinham sido.
Tinham evitado as banalidades, felizmente não se deram cumprimentos, emocionados demais para a mentira de que o tempo os tinha poupado, ou estás cada vez mais bonita,  e tu não mudaste.
- Conversa tola, a falar verdade. O que me surpreendeu, quando chegámos a casa, foi a minha mulher perguntar se tínhamos tido… Neguei, claro. E diz ela assim: não deste conta, mas eu vi como lhe puseste a mão no ombro.

terça-feira, janeiro 10

Almôndegas

Gosto de ver, aprecio o resultado, leio receitas com o entusiasmo de um concorrente ao Master Chef, mas as minhas habilitações de cozinheiro ficam abaixo das de aprendiz. Consigo, todavia, que uma meia dúzia de receitas me eleve acima dos analfabetos da culinária, e por elas receba modesto aplauso.
Como é possível que, à minha semelhança, também outros detestam esforço, mas saboreiam os cumprimentos, esta receita de almôndegas é rápida na confecção e de sucesso garantido. Fi-la pela enésima vez a semana passada, e pela enésima vez também os comensais bateram palmas e comeram tudo.

Para a massa:
- picar meio quilo de carne de vaca e meio quilo de carne de porco;
- cerca de 100 g. de pão ralado;
- 3 dente de alho esmagados;
- 2 ovos;
- 1 cálice de Vinho do Porto;
- 2 colheres de chá de cominhos em pó;
- um ramo de salsa picada;
- sal, pimenta e piri-piri a gosto.

Amassar até obter consistência. Com a massa – humedecendo ligeiramente as mãos em água -  fazer almôndegas, polvilhá-las com farinha e fritar em azeite. Depois de fritas reservá-las numa assadeira.

Para o molho:
- 1 cebola grande, picada;
- 4 dentes de alho, esmagados;
- 1 copo de vinho branco;
- 1 litro de caldo de galinha;
- 1 ramo de coentros, picado;
- 1 colher de sopa de farinha;
- piri-piri a gosto.

No azeite que ficou de fritar as almôndegas, alourar a cebola e de seguida os alhos, evitando que esturrem. Estando a cebola e os alhos alourados o suficiente, acrescentar o vinho e o caldo de galinha. Deixe ferver cerca de 5 min.
Deite o molho sobre as almôndegas na assadeira, leve ao forno (200 graus) cerca de meia hora.  

segunda-feira, janeiro 9

O espírito de Maria Antonieta

Dentro do possível esforço-me por evitar a avalanche de informações, opiniões e discussões sobre o estado da nação. É que mais do que aborrecer, desgosta-me a abundância de certezas, ideias justas, soluções, pontos de vista correctos, acusações definitivas, o deitar culpas, o apontar nos outros defeitos e injustiças.
Entristece pela inutilidade, o vazio. É divertimento dos senhores e senhoras das classes médias: classe média baixa, classe média média, classe média alta. Nem tido nem achado,  o Zé Povinho fica de fora, que para ele não há lugar no divertimento, nem sequer é assunto do mesmo, a pontos que me pergunto de que ilusões se alimenta essa gente. Em que país vive? Que país quer? Que país constrói?
Será preciso repetir que Portugal é de todos nós? E o que sempre acontece quando alguns se  julgam mais iguais do que os outros?

domingo, janeiro 8

sexta-feira, janeiro 6

Sarah

Sarah foi terminante ao vê-lo tirar a chave do bolso. Nada de carro. Era um passeio lindo, no máximo meia hora, saudável, boa oportunidade para estender as pernas. Iriam a pé. Parecia-lhe ridículo aquele hábito de não querer dar um passo.
- É atavismo. Vício dos meus antepassados. Mas não esqueça que durante anos andei no deserto, dias a fio. E acredite: caminhar sobre a areia não se compara ao luxo de uma calçada como esta.
Fizeram o caminho quase em silêncio. Num gesto casual, pouco depois de saírem do portão Jorge tinha-lhe tomado o braço, só o soltando ao entrarem no largo.
- Medo das más-línguas?
- Nenhum. Mais para resguardar a sua reputação.
A penumbra do cubículo onde o cesteiro tinha a loja obrigou-os a deter-se à entrada, o ancião a levantar-se com esforço da esteira onde trabalhava, todo salamaleques.
- Ah! Vem para a cestinha. Muito boas-tardes, senhor conde. Minha senhora. Ora veja! Acabei-a ontem e ficou bonita, não ficou? Se é para dar, é um lindo presente.
Sarah pegou-lhe e aproximou-se da porta para ver melhor, ia mostrar-lha, parou surpresa ao vê-lo já no largo, apressado em direcção ao ajuntamento que se fizera à porta do café, uns aos gritos e empurrões, outros a meter-se de permeio a apaziguar.
- Com licença! - o cesteiro também queria ver, pôs-lhe a mão no braço para que se afastasse.
- De vez em quando é isto! Vêm esses estrangeiros!…Embebedam-se, metem-se com as pessoas!...
Jorge segurava um rapaz loiro, a falar-lhe de modo calmo, enquanto outros continham um aldeão de meia idade, que esperneava aos gritos de “Parto-te os cornos, paneleiro de merda! Filho duma puta! Parto-te os cornos!”
A custo iam-no empurrando para dentro do café, enquanto Jorge acompanhava o rapaz. O outro estrangeiro, um gorducho, óculos pequeninos no rosto balofo, o cabelo ralo a cair-lhe na gola do casaco, caminhava devagar atrás eles, olhando em redor com um modo vago, como que a mostrar que aquilo lhe não dizia respeito.
O rapaz apertou a mão de Jorge e abriu a porta do pequeno Fiat vermelho, o outro fez­-lhe um aceno, entrou com o modo fingido de um idoso que se dobra a custo. O carro deu a volta ao largo e quando passou diante da porta do cesteiro riam ambos às gargalhadas.
- Nada! - respondeu Jorge ao olhar interrogador de Sarah. - Holandeses. Bebem demais e dá-lhes para a asneira. Fora isso têm um humor muito próprio, mas as pessoas são pouco de graças. Pelos jeitos o mais novo queria apostar com o Artur que beijava na boca o primeiro homem que entrasse no café, e o Artur disse-lhe que não apostava, tivesse juízo, ia dar encrenca...
Deteve-se brusco, ao dar conta que o cesteiro escutava, e apontou a cesta que Sarah enfiara no braço:
- Está pronta?
- Falta pagar.
- São só dezoito euros.
O cesteiro fez uma pequena vénia ao receber o dinheiro, seguiu-os com olhar, mordeu os beiços ao ver Sarah passar a porta:
- Grande foda!

 

quinta-feira, janeiro 5

"My country, right or wrong"

Tanta acusação, tanto insulto, tanta bruteza e ódio, inveja, falta de cabeça. Vistas curtas. Desprezo do semelhante. Tanta ilusão, vaidade, bacoquice. E aparências, sempre as aparências a tapar o desespero.
Oito décadas já fiz, passadas em dois séculos, e nunca o meu povo vi assim. Até à revolução consegui sonhar, tive esperança. Depois, a contragosto, tentei convencer-me de que o meu pessimismo era miopia. Então não tinham os pais da Zeferina, que trabalham nas limpezas, gasto sessenta mil euros no casamento da rapariga? Teria eu inveja do Mercedes do Abel? Cegava-me a alegria com que o João fora às Seychelles, e a Beatriz, aos fins-de-semana, voava Europa fora no sério intento de visitar todas as capitais? Que birra era essa de não querer ver?
O negrume, contudo, nunca parou de crescer em mim. E agora que o edifício lentamente  desmorona, e ninguém sabe como serão as ruínas, ou se alguma obra se poderá fazer com elas, balanço eu entre os sentimentos contraditórios da pena e da raiva, de me querer longe e sentir preso. Esbarrando sempre contra o mesmo muro. Pobreza? Tontice? Inconsciência? Desleixo? Assim será, mas esta é a minha pátria, esta é a minha gente.

quarta-feira, janeiro 4

"Parece-me"

Diz-se por vezes que fulano veio do nada. Este daí veio, nascido numa facha, entre a palha e o corpo da mãe um lençol que alma caridosa tinha ofertado quando rebentaram as águas. Tal  nascimento, e uma infância mais que atormentada, devem ter contado para a sua formidável vontade de viver e vencer.
Do que viveu pouco fala, e ainda menos de por onde andou, uma vez por outra lá deixa cair o nome de uma cidade, um país, por vezes fingindo que se embaralha, trocando assim as voltas a quem o ouve. Pouco importa. Gosta de dizer I am a winner, mas não explica se aprendeu aquilo na América, na África do Sul, se andou embarcado ou é basófia tirada de algum filme que viu. Venceu, isso é o que conta.
A discrição e reticência facilmente se compreendem. Fortuna assim não se ganha do dia para a noite, nem pode vir só de trabalho. Murmuram-se vagas histórias de assaltos e contrabando, casas de alterne, droga, alianças com ciganada. Provas ninguém tem, e o seu modo de vida, o luxo da casa, o Jaguar, a deferência com que o tratam nas repartições e no banco, dão-lhe a respeitabilidade que dificulta a coscuvilhice.
Tempos atrás pediu-me conselho. O seu rapaz, filho único, mimado, vai entrar para a universidade, mas não sabe o quer, não escolhe.
- Hoje é Medicina, amanhã é Gestão,  Cinema… Que lhe hei-de fazer?
- Francamente, não sei.
- Às vezes também diz que quer ser escritor, mas a mim parece-me…
Gostei daquele "parece-me", de como ele hesitou em terminar a frase e, sobretudo, do modo como se lhe descaíram os cantos da boca.



terça-feira, janeiro 3

Rabanada natalícia

Acontece uma ou outra vez, mas nada que se compare a esta rabanada que, quando a li, logo  disse comigo que era de vitrina.
Ao contrário de alguns, o senhor assinou o e-mail, pelo que merece louvor. A tradução fi-la o mais literalmente possível.

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"Prezado senhor,       
No Natal, em Portugal, na Bertrand, chamou-me a atenção o livro Com os Holandeses. Eu próprio há 25 anos que vivo e trabalho  Com os Portugueses.
Depois de ter lido algumas páginas perguntei-me sobre quem era o livro. Os holandeses, ou o luso-holandês Rentes de Carvalho, (isto) porque reconheço aí o português, mas pouco do holandês. Conhecemos o português como um materialista absoluto, um sórdido avarento da melhor água, sempre alerta para o proveito próprio, (alguém) com quem é impossível cooperar, alguém que contra toda a evidência da experiência e da ciência insiste em descobrir a roda. O português tem um desinteresse total pela beleza e a qualidade. Não serão eles que vão plantar uma árvore, porque isso de nada adianta. Aqui não há amizades. Amigos são aqueles de quem se tira proveito. Adeus amigo se isso vai contra os interesses da família.
E então agora, com o país em crise, nada mais fazem senão queixar-se. Queixam-se até cair redondos. Queixam-se em todas as esquinas. Liga-se o rádio e lá estão eles a queixar-se. De seguida ficam todos à espera até que as coisas melhorem ou vão emigrar. Que fado miserável é este povo. Muito bem descrito e analisado por José Gil em Portugal Hoje, o Medo de Existir.
Cordialmente,"

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O original holandês:

"Geachte heer,
Voor de kerst had ik in Portugal bij Bertrand het boek Com os Holandesas in handen waar mijn oog op viel. Zelf leef, woon en werk ik nu 25 jaar Com os Portugueses.
Na enige paginas te hebben gelezen vroeg ik mij af over wie dit boek gaat. De nederlander(s) of over de nederlandse portugees Rentes de Carvalho omdat ik er wel de Portugees in herken maar nauwelijks de Nederlander. Wij kennen generaliserend de portugees als een ultima materialist, een schraper van de eerste orde, altijd wachtend op een kans tot persoonlijk gewin, onmogelijk om mee samen te werken, iemand die tegen alle kennis en wetenschap in het wiel opnieuw gaat uit te vinden. Een portugees geeft niets om kwaliteit en schoonheid. Een boom zullen ze niet planten, daar heb je niets aan. Vriendschap bestaat hier niet. Vrienden zijn mensen waaraan je verdient. Deze laten ze als een baksteen vallen als het gaat om familiebelang.
En dan nu, met het land in crisis gaan ze allemaal een potje zitten klagen. Klagen tot ze er bij neer vallen. Op iedere hoek van de straat wordt geklaagd. Je kunt geen radio aanzetten of er wordt geklaagd. Vervolgens gaat iedereen wachten tot het beter wordt of emigreren. Wat een miserabele fado is dit volk. Goed beschreven en genaliseerd door José Gil in Portugal Hoje, o medo de existir!
Hartelijke groet,"


segunda-feira, janeiro 2

Diário de Notícias

É pena, mas facto: o DN não chega aqui e não gosto de champanhe. Como raio vou brindar?  http://quetzal.blogs.sapo.pt/

A agenda

Quantos irão ser os momentos felizes, os dias de espera, as horas de sobressalto e cansaço?
A agenda para o novo ano vejo-a eu como objecto misterioso, dá-me ideia de que nas folhas ainda em branco se acha já inscrito o que vão ser os meus dias, tenho a impressão que aquilo não é apenas papel, antes instrumento de bruxaria.
Folheio-a com respeito, olho assustado as datas, pergunto-me quantos dos que, por amor, carinho e amizade contam na minha vida, estarão vivos quando chegar o 31 de Dezembro. Estarei eu?
O mundo não vai acabar, o que talvez fosse a solução para tanta tragédia e desigualdade, mas guerras vai haver, que não podemos passar sem elas e a muitos dão proveito.

Na desgraça alheia voltaremos a encontrar o alívio de não ter sido a da nossa vez e, como até agora, os verdadeiros grandes desastres, os tsunamis, os terramotos de milhares de mortos, acontecerão sempre longe. A não ser…
Abro ao acaso. 23 de Abril, segunda-feira. Que irá acontecer até lá? E depois?

domingo, janeiro 1

O primeiro dia

Cá estamos então, sem vidente, bola de cristal, bússola ou mapa que mostre para onde vai ser a viagem. Mas viajar iremos de certeza, seja ele apenas em pensamento, pedindo ajuda à imaginação, nossa ou alheia. Esquecendo o que passou, esperançados no que vai ser, fingindo destinos, sabendo que são muitas as perguntas e as respostas só de longe a longe se ouvem.
A todos desejo boa viagem.