domingo, junho 24

Cruzeiros

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Nunca fiz um cruzeiro, e desde ontem, quando eles por volta das duas da madrugada se despediram, a minha decisão está tomada: nunca me verão embarcar num desses mamutes  que, a abarrotar de idosos, navegam serenamente os mares, todas as noites levantando âncora, todas as manhãs chegando a um longínquo porto, todas as tardes despejando milhares de basbaques que vão "dar uma volta pela cidade", ou se encafuam em autocarros, a caminho de ruínas e outros pontos altos da cultura dos povos.
Fizeram estes um cruzeiro de dez dias pelo Mediterrâneo e chegaram  equipados com ecrã, aparelhagem de som, PowerPoint, insistindo que íamos ver muita coisa, era melhor jantar cedo.
Foi dose dupla, pois ainda não estávamos à mesa já eles tinham contado em detalhe o voo Amsterdam-Marselha, a ida do aeroporto para o navio, o embarque, o luxo da cabine, a imponência dos salões, o refinamento e abundância dos menus, a partida ao anoitecer, as luzes  da cidade – "Feiota. Sombria. Muito árabe. É arriscado andar em certas ruas" – a riqueza dos shows, a abundância de drinks, as atenções da camareira filipina.
À sobremesa estávamos a "ver" ao longe Toulon e Saint Tropez, Nice, Mónaco, tudo muito iluminado, espectacular, inesquecível. "É um cruzeiro que vocês não podem perder".
Ao nascer do dia abriu-se-nos Génova, e entrementes tínhamos ouvido os detalhes do jantar, o gosto do Beluga, as lagostas, o champanhe, apreciado  o luxo da roupa de cama, o vídeo que mostrava em close up os dentes muito brancos da filipina a sorrir-lhes Goodnight.
Navegámos ao largo de Elba e da Córsega, ambas ilhas de napoleónica memória, o que eles ignoravam e para nós também de certeza era novidade. Adiante, mas passando cautelosamente longe, vimos o Costa Concordia, tal como na televisão, virado de lado. "De meter medo! Até dormimos mal".
"Nápoles! Que cidade! Chegar a Nápoles por mar! E então o Vesúvio! As ruínas de Pompéia! Só andámos em grupo, avisaram-nos que aquilo ali é tudo Máfia. Mas valeu muito a pena".
A minha mulher, dez anos mais nova e cortês por natureza, vai aguentando, eu adormeci à vista do Stromboli, pelo que me escapou também a visita a Palermo, a descrição de Malta.
Acordei quando partiam de Atenas e, ensonado, confundiu-me que Izmir fosse a nossa Esmirna.
Nessa noite tinham jantado à mesa do capitão, uma honra, e iam como pertence: ele de smoking, ela com vestido de noite. E se no diário já era grande o refinamento, à mesa do capitão só vendo.
Atacado de narcolepsia falhei a chegada a Haifa, mas o subconsciente, que nunca repousa, alertou-me ao nome de Alexandria. Enquanto eles descreviam o porto, a nova Biblioteca, e falavam de coisas dos faraós, recordava eu o queirosiano Raposo, que por ali andara de caleche, na companhia da doce Mary "rosa de York", do ilustre Dr. Topsius, e em cujo Hotel des Pyramides encontrara o inefável, imortal Alpedrinha.
Ouvi vagamente a passagem por Tunes, e como depois, com tempestade – "É lá fora, não se sente nada!" – tinham rumado a Barcelona, onde tiveram umas horas para as ramblas e a Catedral de Gaudí.
Houve baile à despedida. Em Marselha, amedrontados com a cara das pessoas, como que fugiram para o aeroporto.
Despedem-se, nós agradecemos a visita e a partilha de tão interessantes recordações. Já nos abraços, abrindo o carro, anunciam que para Dezembro planeiam um cruzeiro de mês e meio pelo Oriente.