Tenho andado mole estes últimos dias, dor
aqui, dor ali, indisposição, náuseas, tonturas, mas não consulto médico, nem
na farmácia encontraria remédio, que isto, sei-o de fonte segura, é mau-olhado,
pelo que amanhã irei a Mogadouro para que a vidente mo corte.
Foi assim: encontrava-me uma tarde da
semana passada no espaço da Porto Editora na Feira do Livro, com Manuel
Valente, senhor de simpatia, humor e excelentes maneiras, quando a agradável conversa em que estávamos foi
interrompida por duas idosas de fala castelhana.
A mais despachada deu um beijo ao Manuel,
disparou uma rajada de vocábulos em que mal consegui compreender que vinha de
algures e ia não sei onde. A outra idosa e eu mantínhamo-nos discretamente
afastados, foi então que Manuel, num preâmbulo de apresentação, perguntou:
- Você conhece a… - e disse o nome
da viúva do laureado escritor.
- Não, não conheço – respondi, com verdade.
Em má hora o fiz. A viúva entesou, descairam-se-lhe
os cantos da boca ao mesmo tempo que
soprava veneno e desprezo, os olhos, até então mortiços, despediram chispas.
Manuel teve direito ao beijo de despedida,
a mim virou rabiosamente as costas, dando a impressão de que, fosse isso
possível, com gozo me teria espezinhado.
- Mas não conhecia a…
- De facto não. Lembro tê-la visto numa
revista, mas os fotógrafos, você sabe… Retocam, rejuvenescem. Não reconheci.
Além disso, ora estou na Holanda, ora em Trás-os-Montes, o renome de quem é
mundialmente famoso em Lisboa ou Lanzarote não chega a esses longes.
Despedimo-nos. Manuel foi à sua vida e eu
desci o Parque a caminho do hotel, sentindo arrepios, um começo de náusea.

