sexta-feira, abril 6

Sonambulismo

Quando falo de mim, quando parece que falo de mim, tenho em mente os outros. Escondo-me neles, invento-me com tiques alheios, dou-me virtudes, sensibilidades, manhas e vícios que tornam suportável a minha simpleza e a monotonia do viver.
Agarro-me aos sonhos que oiço contar. Faço das aventuras que leio bóias de salvação que, se me não salvam, ao menos  iludem e aliviam da mesquinhez, das repetições, da banalidade e do automatismo.
Posso dizer com verdade que começo o dia em transe, noutra pele, fingindo-me ausente da rotina dos hábitos e encargos. É outro o que desanda a chave da porta, abre as janelas, regula o aquecimento, prepara o pequeno-almoço. É outro também o que espreita o céu a ver o estado do tempo.
Quando me forço a deixar o sonambulismo, tudo se me afigura estranho, difícil, complicado. É então que me acontece sopesar as vantagens da morte, a possibilidade que me trará de findar esta existência de empréstimo, e finalmente, ser eu próprio.