segunda-feira, Abril 16

Quartos de hotel (3)

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Queixas e críticas são de rigor, mas a vida académica proporciona também amenidades. E assim, porque uma estudante tinha feito a tese de licenciatura sobre Montedor, o meu primeiro romance, lá fui eu um dia a caminho da universidade de Perugia.
O sentimento de amizade com Brunello de Cusatis, o jovem catedrático de Português, nasceu súbito. Calabrês, falando impecável a nossa língua, especialista de Pessoa, casado com uma vianense e muito sabedor das coisas do Minho e arredores, ainda por cima era de uma alegria, humor e boa disposição contagiantes.
Foram três dias inesquecíveis, comi que nem um abade, fui tratado como um cardeal, deixei amigos, senti pena sincera na hora da despedida.
Uns duzentos quilómetros adiante começou a chover que Deus a dava, era já noite ao entrar em Bolonha, e irritado comecei a ronda dos hotéis. Pena perdida.
Já mo tinham dito, mas o recepcionista do Holiday Inn, sujeito de bigodinho, ar de proxeneta  mal humorado, detalhou, contando pelos dedos, o que nesse momento havia na cidade de congressos e feiras, exposições, jornadas de estudo, conferências disto, daquilo, daqueloutro.
Insisti. Resmungou ele. Tornei a insistir, e então lá concedeu: fosse jantar, talvez houvesse alguma reserva cancelada.
Voltei à recepção, e olha que sorte eu tinha, anunciou ele jubiloso, piscando o olho: logo uma das melhores suites. Ao preço daria um jeito, falávamos disso depois. Do passaporte não precisava, tão-pouco me deu ficha para assinar."Buona sera!"
Hall, grande sala, grande quarto, grande luxo. Bar bem aprovisionado. Muito mármore e dourados no banheiro.
Acalmado da surpresa fui-me a investigar. Havia ali jornais em três línguas, alguns livros de Economia. No primeiro guarda-roupa que abri abriu-se-me também a boca: vestidos, saias, casacos de peles. Nas gavetas, adereços e roupas de mulher, sapatos de tacão alto, coisas de luxo.
Era certamente pouso de dama de alto coturno e itinerante, o sacaninha da recepção aproveitando a oportunidade para fazer uns cobres.
Sentei-me a beber uísque e, distraído, peguei num dos álbuns que estavam sobre a mesinha. Helmuth Newton. Fotografia erótica. O mesmo no segundo. No álbum seguinte, sem autor, mas de excelente qualidade, cenas mais ousadas, estranhas, violentas.
Acabei o uísque à janela, olhando desinteressado  o céu de relâmpagos longínquos, a tempestade sobre a cidade desconhecida. Deu-me para pensar o que aconteceria se a mulher em questão entrasse e desse comigo. Distraído, sorrindo da eventualidade, abri outro armário. Depois o seguinte.
Respirei fundo umas quantas vezes. Vestuário e máscaras de cabedal fino, chicotes de vários tamanhos e grossuras, um cavalo marinho. Correntes. Algemas. Camisas de forças. Um garrote. Cordas. Calças de couro fendadas. Dildos. Botas com ponteiras de metal. Uma maleta de instrumentos cirúrgicos.
Repus tudo cuidadosamente. Demorei a adormecer, dormi mal, estava acordado há muito quando a empregada veio com o pequeno-almoço e, sem estranheza, me deu os bons-dias e os três jornais que a "inquilina" recebia.

O recepcionista informou-se do meu bem-estar, disse que eram cento e oitenta dólares sem recibo, trezentos com, não aceitava liras nem cartões de crédito, mas também não precisava eu de ir ao banco, que os florins mos cambiava ele.
Estávamos no final dos anos 80, e era puxadito, mas não refilei. O alojamento tinha sido confortável, a surpresa valia o dinheiro.
(Continua)