Paro no primeiro hotel com que dou. Feliz escolha. Uma vista de olhos ao quarto amplo, simpático, uma lavadela, e vou-me ao restaurante, pois estou em jejum desde manhã.
Vêm as entradas, o peixe, a carne, a sobremesa, dois cafés, um conhaque, e Deus abençoe quem cozinha assim. Bebo um terceiro café e o segundo conhaque, vou-me dali num grande contento, soprando a Gauloise.
Exausto, mas alegre e de barriga cheia, entro no quarto e nem me dispo, atiro-me sobre a cama. A cama tem um dos famosos colchões franceses de então, coisa enorme onde o corpo se afundava. De facto sinto-me afundar, oiço um ranger de mau agouro, e lentamente, dando estalidos, a cama quebra, só por instinto evito que a pesada cabeceira de mogno me caia em cima.
Acodem da portaria. Muitas desculpas e uma má notícia: não há quartos livres. Põem uns cobertores no chão da copa e aí vou dormir como um justo. Acordo assarapantado às sete da manhã, sem compreender onde estou, rodeado do pessoal, a quem não tinham dito que me encontrariam ali.
Gostamos de Ciudad Rodrigo. Cidadezinha
alegre, simpática, há dezenas de anos que uma vez por outra, alongando o
caminho, damos por lá a volta e descansamos um dia ou dois no parador.
A primeira visita, no Outono de 1968, ficou
na memória, devido à surpreendente gentileza do bagageiro que, ao tirar as
malas do carro, começou a desfiar a história da cidade. Ao chegarmos ao quarto
ia ele não sei em que visita de Filipe II, mas em vez de abrir a porta
deteve-se, anunciando com solenidade que naquela habitación tinha dormido
"Soberssé Mogum".Não compreendemos, mas pusemos a cara de circunstância, descobrindo depois que se tratava de Somerset Maugham.
(Continua)
