Desde Maio de 1947, quando me hospedaram em
Lisboa no que viria ser o Hotel Tivoli,
mas nesse tempo era pensão, até ao mês passado, em Magaz de Pisuerga, são sem
conta os quartos de hotel na minha vida. A maioria não deixou marca, mas
muitos ficam na memória, e alguns, como os do parisiense e modesto Le Beuret, onde nos anos 60 gastei
longos meses, foram cenário de interessantes vivências.
A desfiar lembranças, e começando pelas
mais longínquas, recordo um quarto na Rua da Palma, em Lisboa, onde uma noite
acordei em pânico e aos gritos, descobrindo-me coberto de percevejos.
Doutra vez, num hotel da Praça Mauá, no Rio
de Janeiro, numa antiguidade em que o ar condicionado era luxo, abri a janela para
não sufocar e logo me vi atacado por mosquitos de um tamanho que desconhecia. Corri
para o quarto de banho, acendi a luz, abriu-se-me a boca com um negrume de
baratas. Fui protestar e o porteiro riu-se, esclareceu que o meu susto era
falta de hábito.
Ao
findar dos anos 50, em Nova Iorque, no então famoso e hoje desaparecido Hotel Saint George, onde depois seriam
filmadas cenas de The Godfather,
fiquei perplexo com o tamanho do quarto e a aparelhagem do banheiro, em cuja
bacia vi três, em lugar das duas torneiras do costume. Estranhei. Informei-me.
- Ice
water! For your drinks! – explicou, jovial, a empregada negra, dando-me palmadas nas costas, descrente de
tanta ignorância.
Anos 60. São Paulo. Hotel Jaraguá. Era hotel,
e nele funcionava também a redacção de O
Estado de São Paulo, as rotativas estavam na cave, os jornalistas viviam no
bar.
O bagageiro, tipo de malandro e sorriso a
condizer, pega nas malas, subimos com o ascensor.
- 'ócê vai gostar! – diz ele ao abrir a
porta do quarto e alargando o sorriso.
Acena para que o siga.
Encosta uma banqueta à parede do banheiro, sobe, desaparafusa um vidro fosco, desce, faz um
gesto de mestre-de-cerimónias:
- Olha aí !
Quase me despenho. No andar fronteiro, a umas dezenas de metros e de janelas abertas,
funciona um bordel de luxo. Há um trio num quarto, noutro um casal na posição
clássica recomendada pelos missionários, no seguinte um cinquentão e uma
garota.
Quem lá está enfrenta uma parede cega e uma
sucessão de postigos. Eu, no lado oposto, vou ter ali semana e meia de um
excitante e variado peep-show.
- Xixica! – o rapaz arreganha a boca e,
rebolando os olhos, beija a nota de cem cruzeiros que lhe meto na mão.
(Continua)
