quinta-feira, abril 12

Quartos de hotel (1)

Desde Maio de 1947, quando me hospedaram em Lisboa no que viria ser o Hotel Tivoli, mas nesse tempo era pensão, até ao mês passado, em Magaz de Pisuerga, são sem conta os quartos de hotel na minha vida. A maioria não deixou marca, mas muitos ficam na memória, e alguns, como os do parisiense e modesto Le Beuret, onde nos anos 60 gastei longos meses, foram cenário de interessantes vivências.
A desfiar lembranças, e começando pelas mais longínquas, recordo um quarto na Rua da Palma, em Lisboa, onde uma noite acordei em pânico e aos gritos, descobrindo-me coberto de percevejos.
Doutra vez, num hotel da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, numa antiguidade em que o ar condicionado era luxo, abri a janela para não sufocar e logo me vi atacado por mosquitos de um tamanho que desconhecia. Corri para o quarto de banho, acendi a luz, abriu-se-me a boca com um negrume de baratas. Fui protestar e o porteiro riu-se, esclareceu que o meu susto era falta de hábito.
 Ao findar dos anos 50, em Nova Iorque, no então famoso e hoje desaparecido Hotel Saint George, onde depois seriam filmadas cenas de The Godfather, fiquei perplexo com o tamanho do quarto e a aparelhagem do banheiro, em cuja bacia vi três, em lugar das duas torneiras do costume. Estranhei. Informei-me.
- Ice water! For your drinks! – explicou, jovial, a empregada negra, dando-me palmadas nas costas, descrente de tanta ignorância.
Anos 60. São Paulo. Hotel Jaraguá. Era hotel, e nele funcionava também a redacção de O Estado de São Paulo, as rotativas estavam na cave, os jornalistas viviam no bar.
O bagageiro, tipo de malandro e sorriso a condizer, pega nas malas, subimos com o ascensor.
- 'ócê vai gostar! – diz ele ao abrir a porta do quarto e alargando o sorriso.
Acena para que o siga. Encosta uma banqueta à parede do banheiro, sobe, desaparafusa um vidro fosco, desce, faz um gesto de mestre-de-cerimónias:
- Olha aí !
Quase me despenho. No andar fronteiro, a umas dezenas de metros e de janelas abertas, funciona um bordel de luxo. Há um trio num quarto, noutro um casal na posição clássica recomendada pelos missionários, no seguinte um cinquentão e uma garota.
Quem lá está enfrenta uma parede cega e uma sucessão de postigos. Eu, no lado oposto, vou ter ali semana e meia de um excitante e variado peep-show.
- Xixica! – o rapaz arreganha a boca e, rebolando os olhos, beija a nota de cem cruzeiros que lhe meto na mão.
(Continua)