Quarta-feira, Janeiro 4

"Parece-me"

Diz-se por vezes que fulano veio do nada. Este daí veio, nascido numa facha, entre a palha e o corpo da mãe um lençol que alma caridosa tinha ofertado quando rebentaram as águas. Tal  nascimento, e uma infância mais que atormentada, devem ter contado para a sua formidável vontade de viver e vencer.
Do que viveu pouco fala, e ainda menos de por onde andou, uma vez por outra lá deixa cair o nome de uma cidade, um país, por vezes fingindo que se embaralha, trocando assim as voltas a quem o ouve. Pouco importa. Gosta de dizer I am a winner, mas não explica se aprendeu aquilo na América, na África do Sul, se andou embarcado ou é basófia tirada de algum filme que viu. Venceu, isso é o que conta.
A discrição e reticência facilmente se compreendem. Fortuna assim não se ganha do dia para a noite, nem pode vir só de trabalho. Murmuram-se vagas histórias de assaltos e contrabando, casas de alterne, droga, alianças com ciganada. Provas ninguém tem, e o seu modo de vida, o luxo da casa, o Jaguar, a deferência com que o tratam nas repartições e no banco, dão-lhe a respeitabilidade que dificulta a coscuvilhice.
Tempos atrás pediu-me conselho. O seu rapaz, filho único, mimado, vai entrar para a universidade, mas não sabe o quer, não escolhe.
- Hoje é Medicina, amanhã é Gestão,  Cinema… Que lhe hei-de fazer?
- Francamente, não sei.
- Às vezes também diz que quer ser escritor, mas a mim parece-me…
Gostei daquele "parece-me", de como ele hesitou em terminar a frase e, sobretudo, do modo como se lhe descaíram os cantos da boca.