Sábado, Janeiro 7

Madeleine

A correcção das nossas relações não bastava para disfarçar a antipatia mútua. Doentiamente ciumento, sempre a temer que lhe cobiçassem a mulher, Luigi suportava mal a minha presença. Eu era o predecessor - um dos predecessores! - no conhecimento íntimo daquele belo e apaixonado corpo, que já nos tempos de estudante valera à sua dona o apelido de Mad Madeleine. Apelido que, diga-se de passagem, só lhe davam os invejosos. Os que suportavam mal a sua inteligência e os que, julgando-se capazes de poder domá-la, tinham saído amachucados do que aos seus próprios olhos passavam por batalhas eróticas, mas de que ela desdenhava, referindo-se-lhes como simples escaramuças.
Nos anos em que tinha cursado Direito já a sua fama era grande, e dizia-se que a qualificação cum laude no diploma de licenciatura a devia tanto ao saber e ao talento, como às lições particulares que tinha dado aos professores mais influentes, revelando-lhes estímulos dos sentidos que alguns deles, ingénuos e menosprezando as consequências, tinham depois tentado repetir com as próprias mulheres.
Excepcionalmente jovem quando se formou, vinte e três anos, em vez de aceitar as óptimas ofertas de carreira surpreendeu os que lhe conheciam a ambição ao ir matricular-se em História da Arte. 
Aí o catedrático, femeeiro, conhecido por retribuir com recomendações e empregos os favores da cama, sucumbiu de pronto àquela excepcional combinação de great tits, great brains. A ligação que mantiveram nos três anos que ela demorou a formar-se, de novo cum laude, tomou proporções míticas no meio académico e fora dele. 
Tinham-nos visto num prado, correndo nus a incomodar as vacas com ademanes de toureiros. E uma tarde Madeleine, Mad Madeleine, apresentara-se numa aula vestida apenas com um casaco de peles e sapatos de tacão agulha, recusando ceder ao cio do amante que, dando-se em espectáculo, primeiro implorante, depois transtornado e violento, a queria obrigar a que entrasse no seu gabinete.
Numa festa de abertura do ano lectivo tinha feito sufocar o idoso deão da faculdade, seduzindo o pobre homem com palavras suaves, olhares meigos, o esplendoroso decote, perguntando-lhe depois em voz alta, à queima-roupa, se nos seus tempos de estudante o sexo oral já era apreciado como substituto prático da biologicamente arriscada cópula.
Terminado o curso quebrara com o catedrático e tinha-se então estabelecido com um escritório especializado em casos que, directa ou indirectamente, se relacionavam com a Arte: transacções, contratos, seguros, conflitos entre galerias e artistas, representação de museus, e assim por diante. Uma mina de ouro que, num abrir e fechar de olhos, não somente lhe trouxera a riqueza, mas aos trinta e dois anos lhe criara uma sólida reputação internacional.
Quando se associou com John Moss e Hans Leibnitz para formar Hogden, Moss & Leibnitz, não foi surpresa para ninguém que a nova firma fosse ocupar no Herengracht um prestigioso edifício setecentista que, pelos séculos fora, tinha sido residência de aristocratas milionários, e cujos aposentos eram famosas pela requintada elegância.
Madeleine Hogden. Mad Madeleine. Como provavelmente todos os colegas, eu tinha ouvido falar dela, conhecia-lhe a história, lia de vez em quando nos jornais mais um episódio da sua vertiginosa ascensão profissional e social.
Madeleine Hogden a jantar em Paris com Henry Kissinger. Madeleine Hogden em tête-à- tête com o ministro das Finanças. Madeleine Hogden debruçada a beijar Kokoschka no dia dos seus dos noventa anos, uma das raras visitas que o pintor nesse dia recebera na sua casa de Villeneuve.    
E mau grado a luz crua dos flashes, o que mais sobressaía nas fotografias não era a sua beleza, mas a aura que parecia envolvê-la, o carisma de que seria difícil dizer se irradiava do êxito, da confiança em si própria, ou de uma fogosa alegria de viver.