A correcção das nossas relações não bastava para disfarçar a antipatia mútua. Doentiamente ciumento, sempre a temer que lhe cobiçassem a mulher, Luigi suportava mal a minha presença. Eu era o predecessor - um dos predecessores! - no conhecimento íntimo daquele belo e apaixonado corpo, que já nos tempos de estudante valera à sua dona o apelido de Mad Madeleine. Apelido que, diga-se de passagem, só lhe davam os invejosos. Os que suportavam mal a sua inteligência e os que, julgando-se capazes de poder domá-la, tinham saído amachucados do que aos seus próprios olhos passavam por batalhas eróticas, mas de que ela desdenhava, referindo-se-lhes como simples escaramuças.
Nos anos em que tinha cursado Direito já a sua fama era grande, e dizia-se que a qualificação cum laude no diploma de licenciatura a devia tanto ao saber e ao talento, como às lições particulares que tinha dado aos professores mais influentes, revelando-lhes estímulos dos sentidos que alguns deles, ingénuos e menosprezando as consequências, tinham depois tentado repetir com as próprias mulheres.
Excepcionalmente jovem quando se formou, vinte e três anos, em vez de aceitar as óptimas ofertas de carreira surpreendeu os que lhe conheciam a ambição ao ir matricular-se em História da Arte.
Nos anos em que tinha cursado Direito já a sua fama era grande, e dizia-se que a qualificação cum laude no diploma de licenciatura a devia tanto ao saber e ao talento, como às lições particulares que tinha dado aos professores mais influentes, revelando-lhes estímulos dos sentidos que alguns deles, ingénuos e menosprezando as consequências, tinham depois tentado repetir com as próprias mulheres.
Excepcionalmente jovem quando se formou, vinte e três anos, em vez de aceitar as óptimas ofertas de carreira surpreendeu os que lhe conheciam a ambição ao ir matricular-se em História da Arte.
Aí o catedrático, femeeiro, conhecido por retribuir com recomendações e empregos os favores da cama, sucumbiu de pronto àquela excepcional combinação de great tits, great brains. A ligação que mantiveram nos três anos que ela demorou a formar-se, de novo cum laude, tomou proporções míticas no meio académico e fora dele.
Tinham-nos visto num prado, correndo nus a incomodar as vacas com ademanes de toureiros. E uma tarde Madeleine, Mad Madeleine, apresentara-se numa aula vestida apenas com um casaco de peles e sapatos de tacão agulha, recusando ceder ao cio do amante que, dando-se em espectáculo, primeiro implorante, depois transtornado e violento, a queria obrigar a que entrasse no seu gabinete.
Numa festa de abertura do ano lectivo tinha feito sufocar o idoso deão da faculdade, seduzindo o pobre homem com palavras suaves, olhares meigos, o esplendoroso decote, perguntando-lhe depois em voz alta, à queima-roupa, se nos seus tempos de estudante o sexo oral já era apreciado como substituto prático da biologicamente arriscada cópula.
Terminado o curso quebrara com o catedrático e tinha-se então estabelecido com um escritório especializado em casos que, directa ou indirectamente, se relacionavam com a Arte: transacções, contratos, seguros, conflitos entre galerias e artistas, representação de museus, e assim por diante. Uma mina de ouro que, num abrir e fechar de olhos, não somente lhe trouxera a riqueza, mas aos trinta e dois anos lhe criara uma sólida reputação internacional.
Quando se associou com John Moss e Hans Leibnitz para formar Hogden, Moss & Leibnitz, não foi surpresa para ninguém que a nova firma fosse ocupar no Herengracht um prestigioso edifício setecentista que, pelos séculos fora, tinha sido residência de aristocratas milionários, e cujos aposentos eram famosas pela requintada elegância.
Madeleine Hogden. Mad Madeleine. Como provavelmente todos os colegas, eu tinha ouvido falar dela, conhecia-lhe a história, lia de vez em quando nos jornais mais um episódio da sua vertiginosa ascensão profissional e social.
Madeleine Hogden a jantar em Paris com Henry Kissinger. Madeleine Hogden em tête-à- tête com o ministro das Finanças. Madeleine Hogden debruçada a beijar Kokoschka no dia dos seus dos noventa anos, uma das raras visitas que o pintor nesse dia recebera na sua casa de Villeneuve.
E mau grado a luz crua dos flashes, o que mais sobressaía nas fotografias não era a sua beleza, mas a aura que parecia envolvê-la, o carisma de que seria difícil dizer se irradiava do êxito, da confiança em si própria, ou de uma fogosa alegria de viver.
Numa festa de abertura do ano lectivo tinha feito sufocar o idoso deão da faculdade, seduzindo o pobre homem com palavras suaves, olhares meigos, o esplendoroso decote, perguntando-lhe depois em voz alta, à queima-roupa, se nos seus tempos de estudante o sexo oral já era apreciado como substituto prático da biologicamente arriscada cópula.
Terminado o curso quebrara com o catedrático e tinha-se então estabelecido com um escritório especializado em casos que, directa ou indirectamente, se relacionavam com a Arte: transacções, contratos, seguros, conflitos entre galerias e artistas, representação de museus, e assim por diante. Uma mina de ouro que, num abrir e fechar de olhos, não somente lhe trouxera a riqueza, mas aos trinta e dois anos lhe criara uma sólida reputação internacional.
Quando se associou com John Moss e Hans Leibnitz para formar Hogden, Moss & Leibnitz, não foi surpresa para ninguém que a nova firma fosse ocupar no Herengracht um prestigioso edifício setecentista que, pelos séculos fora, tinha sido residência de aristocratas milionários, e cujos aposentos eram famosas pela requintada elegância.
Madeleine Hogden. Mad Madeleine. Como provavelmente todos os colegas, eu tinha ouvido falar dela, conhecia-lhe a história, lia de vez em quando nos jornais mais um episódio da sua vertiginosa ascensão profissional e social.
Madeleine Hogden a jantar em Paris com Henry Kissinger. Madeleine Hogden em tête-à- tête com o ministro das Finanças. Madeleine Hogden debruçada a beijar Kokoschka no dia dos seus dos noventa anos, uma das raras visitas que o pintor nesse dia recebera na sua casa de Villeneuve.
E mau grado a luz crua dos flashes, o que mais sobressaía nas fotografias não era a sua beleza, mas a aura que parecia envolvê-la, o carisma de que seria difícil dizer se irradiava do êxito, da confiança em si própria, ou de uma fogosa alegria de viver.
