quinta-feira, setembro 29

A Música


Pode ser falha do cérebro, desarranjo no que se chama o espírito, ligação defeituosa entre a aparelhagem que condiciona as emoções. Também, e mais simplesmente, pode ser a incapacidade de quem não aprendeu, certo é que desde há tempos ando às voltas com a relação que tenho com a Música.
Comecei cedo. Com boa voz e ouvido apurado. Teria oito anos, e os dedos mal davam para o braço da guitarra, mas conseguia tocar o fado em ré menor. Mudei depois para o que nesse tempo se chamava violão, fui tenor num quarteto, descobri Beethoven, Chopin, Mozart, o tango e o pasodoble no rádio que, inesperadamente, alegrou o dia dos meus quinze anos.
A Música muitas vezes me tem comovido, a memória de algumas vozes continua a surpreender-me pela beleza, tão facilmente me deixo arrastar por Louis Armstrong como por Aznavour,  Billie Holiday, Maria Callas ou Fischer-Dieskau.
Em abono da verdade, porém, devo mudar o verbo para o pretérito imperfeito. É que hoje em dia a música, toda a música, se me apresenta diferente, com forças inexplicáveis. Já não me arrasta nem embala, antes atemoriza. Em imensuráveis fracções de tempo deixa entrever fundos que me escapam, assinala cruelmente os limites do meu entendimento, e como é tosco o poder que tenho de sentir.
Continuo a ouvir música, mas sem a ingenuidade de antigamente. Ela permanece  sobrenatural, assustadora nos seus mistérios. Eu descubro-me ínfimo, surpreso de que houve tempo em que julguei que o meu cantar também era Música.

quarta-feira, setembro 28

Dão pena

São de pressas, correrias, repentes, febres. Ora deixam de comer carne, ora se lhes torna urgente ir àquela exposição a Madrid, não perder Paris no Outono, "mergulhar" na Natureza.
Uns poucos quilómetros os contentam e, chegados ao cu de Judas, extasiam-se com as badaladas do relógio da igreja, o cacarejar das galinhas, o fontenário, o tosco da calçada , o porco atrás da cerca, o vermelho outonal das parreiras, a anciã vestida de luto.
Falaram com o senhor António do café e, por recomendação dele, uma Felisbela vendeu-lhes  pão caseiro, de sabor extraordinário. Beberam um vinho "incrível". Compraram pêssegos  a uma mulher à beira da estrada, gostaram de vê-la sorrir quando disseram "isto por aqui é muito bonito".
São gente de praças, centros comerciais, de autocarros e estádios,  avenidas, semáforos, prédios de vinte andares. Gente a quem a urbe cortou as antenas da naturalidade. Dão pena.


terça-feira, setembro 27

Uns toquezitos


Sobre a senhora do retrato falaremos adiante. Vamos primeiro ao caso do amigo meu que, teria então cinquenta anos, se viu a passar férias numa praia da Bretanha com a família de um colega.
Acorda a meio da noite, descobre na cama uma das filhas da casa, catorze anos se tanto, camisinha de dormir, nua no resto, a bichanar Je veux faire l'amour avec toi.
Salvou-se ele do aperto com palavras doces e segurando firme as mãos da garota, que pelos jeitos era rápida no ataque e cursada em Anatomia.
De manhã arranjou desculpa, ia longe quando começou a suspirar aliviado, mas o choque durava ainda quando anos depois contou a cena.
Leio agora uma entrevista em que Jannetje Koelewijn, jornalista neerlandesa, confessa  sentir desde miúda uma particular atracção por homens de idade. Vai no segundo ou terceiro marido idoso, e admite francamente já ter levado para a cama mais de um dos homens que entrevista,  e que, à idade avançada, aliam fama, poder e dinheiro.
O que interessa agora, porém, é a cena dos seus treze anos, sentada num sofá ao lado do pai de uma amiguinha, "homem bonito, interessante, belos cabelos grisalhos".
Anunciou ela que se lhe desse um bocadinho do pastel que estava a comer poderia beijá-la. Deu-lhe ele o beijo, conta ela agora que "uns toquezitos" é um belo eufemismo para a sequência.
Refoga depois umas explicações freudianas, o desejo de agradar ao pai, a vontade de libertação, etc…, mas isso não vem ao caso. Interessantes são os jogos do poder em que a idade é arma.

domingo, setembro 25

Agradar

A senhora mandou dizer que não gosta de mim. Sem nunca me ter visto não gosta de mim como pessoa, a minha escrita desconsola-a, os meus pontos de vista e atitudes soam-lhe a  rabugice.
Temos aqui um problema, pois a simpatia e o apreço me fazem falta como o pão para a boca, desde que a intermediária me surpreendeu com a novidade tenho feito más digestões e perdido horas de sono.
É evidente a impossibilidade de forçar que outrem vá com o nosso modo, mas um qualquer  confirmará que em matéria de trato sou do tipo corrente. No que refere a prosa o caso torna-se bicudo, já que eu próprio partilho a opinião da senhora e, com frequência, me surpreendo a imaginar quanto daria para ter o estilo de fulano, inventar os enredos de sicrano, merecer prémios como esses jovens imbuídos do espírito do tempo.
A vida, porém, há muito me provou a verdade do ditado neerlandês que agora ajusto à nossa língua: quem nasceu para tostão não chega a conto de réis. De forma que, assim seja: para meu mal, nem no modo nem no verbo me vejo capaz de agradar à senhora.

sexta-feira, setembro 23

Peneiras


Essa gente existe. Seres distintos, habitando  mansões com um grande parque em redor, mordomo e pessoal. Quando recebem amigos e se sentam à mesa, a conversa pode, ao acaso de um remoque, começar por Tucídides ou Platão, ir daí para Johnson, Juvenal, os sonetos de Donne, as teorias de Keynes, os argumentos de Marx.
Das trufas aos pareceres tudo ali é fino, elevado. Motoristas, jardineiros e criadas são o muro  que os protege do vulgo, a massa vagamente humana, curvada, cinzenta, que  apercebem na rua por entre o fumo dos havanas que saboreiam, reclinados no couro dos seus Bentleys e Rolls-Royces.
Estou a ler um livro em que tudo é assim e confesso-me ligeiramente perplexo, pois como não se trata de romance, mas biografia, dá-me ideia de que o autor afrouxou as rédeas da imaginação.
Contudo, o anotar isto não é crítica, apenas ciúme. Bem gostava de me ver num desses mundos, não por causa dos charutos, pois não fumo, nem pelos Bentleys, mas para tomar parte na conversa, dizer que continua a fascinar-me a leitura de Gaius Julius Caesar e não passa dia que o não consulte.
Ciúme, pois, porque se o disser no meio em que vivo desatam a rir, até são capazes de dizer que minto.

quinta-feira, setembro 22

Vamos ter chuva

O estado do tempo pouco ou nada influi na minha disposição de espírito. Canícula, granizo, ciclone, trovoada ou nevoeiro, a menos que cause prejuízo não consegue despertar-me  interesse. De modo que conversas sobre o clima, a pergunta de como está o tempo por aí, profecias no género de amanhã vamos ter chuva, definitivamente afectam a capacidade que tenho de prestar atenção ao interlocutor e manter o amigável sorriso.
Bem sei que certos assuntos servem para ocultar a ausência de interesse, outros situam-se ao nível do ritual com que os cães se farejam o traseiro, e que temos de fingir para manter entre nós a paz que o Senhor recomenda, Mas, francamente, poupem-me. Não perguntem se na Holanda neva muito, ou se sofro com o calor quando estou em Portugal.
E já agora: conversa sobre a minha escrita, também dispenso.

quarta-feira, setembro 21

"Djibouti"

Até que enfim! Elmore Leonard (1926-), o mestre do suspense, com escrita desempoeirada e tão competente na arte do diálogo que se fica de boca aberta ao lê-lo, depois de dezenas de bons livros escreveu um mal alinhavado: Djibouti.
Não abandonou de todo as suas conhecidas Elmore Leonard's Rules of Writing, mas fez um guisado tonto de tiroteios, mortes, terroristas, navios-tanques e explosões.
Perdoava-lho eu tudo isso, não fosse o ter metido pelo meio um negro atlético de setenta e dois anos, assistente de uma cineasta loira, bonita, trinta primaveras. De tantas em tantas páginas vão para a cama e, assistido por uns gramas de Horny Goat Weed, sobe ele, sobem ambos, a repetidos píncaros da cópula.
Será isto uma nova tendência literária originada pelo número crescente de gerontes? Se assim é estão os jovens leitores mal servidos, além de ficarem com a ideia falaciosa de que, chegando a velhos, a Horny Goat Weed ou as pílulas da Pfizer tudo resolvem.

terça-feira, setembro 20

Prazer secreto

Se há coisa em que demonstro alguma capacidade é no adiamento. A certa altura como que se fez segunda natureza, hoje em dia posso mesmo dizer que me tornei perito.
Não é medo, cobardia ou preguiça, nem sequer fastio. Aprendi, sim, que o gozo  maior não vem da coisa feita, mas da espera, e há muito descobri que com a chegada à meta desaparece a excitação da corrida.
De modo que quando alguém me pergunta o que ando agora a escrever, não considero isso prova de interesse ou simpatia, antes me parece uma violação da  intimidade. É querer ouvir-me confessar um prazer secreto.

domingo, setembro 18

Mário Soares & Partners

"Ninguém nega o seu mérito em retirar o país da ditadura e da miséria".
Leio isto no artigo referido aqui, e mais uma vez, ao longo de trinta e tal anos, me pergunto porque será que as pessoas insistem em ignorar os factos, ou que raio de sentimento os leva a erigir pedestais.
Teve então o senhor Mário Soares o mérito de retirar o país da ditadura e da miséria? Não será antes que o senhor Salazar queria manter o que não podia, levou o pobre Portugal à bancarrota, e os senhores banqueiros, industriais e quejandos, acharam que iam perder o comboio do Mercado Comum e da CEE?
Mandou-se fazer a revoluçãozita, puseram-se os títeres a representar de estadistas, veio a esmolinha, e quando se abriram os cofres abonados da União Europeia o senhor Mário Soares, digno representante do chico-espertismo nacional, anunciou que se iria chupar bem aquela teta.
Chupou-se.
Libertou-se Portugal da ditadura, não pelo talento da firma Mário Soares & Partners, antes pelo interesse daqueles a quem, no contexto da economia europeia, o regime obsoleto incomodava os planos. Da miséria é que ainda a ninguém apeteceu libertá-lo. Tão-pouco vejo pressa de que se escreva a História de Portugal desde 1962. Dá mais sossego manter a fase dos mitos e da admiração.

sábado, setembro 17

Crítica literária


Em Portugal, e no resto do que conheço do mundo, dois curiosos sintomas de preguiça regem o geral da chamada crítica literária. Um é a imitação do que as Selecções do Reader's Digest fazem há um século: condensa-se o enredo da obra e estão prontos três quartos do trabalho. O outro é o uso de comparativos. Assim se lê com frequência ter surgido um novo Joyce, outro García Marquez, a versão contemporânea de Viriginia Woolf, um poeta em que Rilke parece ter encarnado.
Pecadilhos correntes e, contudo, se ao primeiro encolho os ombros, a leitura de uma crítica comparando autores provoca em mim o conhecido efeito do vermelho sobre o touro. Não que acometa às patadas e aos bufos - a idade trava esses excessos – mas o reflexo instantâneo é chamar nomes ao crítico em questão.
Reacção humana, mas injusta, diga-se de passagem, pois muitas dessas comparações decorrem de um desejo de elogiar. Na verdade, porém, aferir um talento literário usando outro como craveira, nega algo de essencial: o facto de que, diminuto, medíocre, grande ou extraordinário, cada escritor é único. Por conseguinte não lhe ofereçam muletas, nem acenem com exemplos do que ele não é, mas poderia ser se…

quinta-feira, setembro 15

Nem tudo se diz

Conversávamos sobre o que escrevi dias atrás - "A segunda grande mola"-  veio ele com a confidência de que, tirante as duas de quem enviuvou, mal passa da meia dúzia o número das mulheres que levou para a cama.
- Para sessenta anos de vida, e nos dias de hoje, é pouco – conclui.
- Não é muito.
- E só de uma tenho saudades.
Aguardo a confidência, ele perdido sabe-se lá em que recordações, dando a impressão que vai falar, depois fazendo um trejeito de arrependimento, os olhos na colher que tirou da xícara. Finalmente, a partilhar o monólogo interior em que se demorara:
- Não, nem era bonita. Mas foi a única…
Detém-se, força o sorriso, encolhe os ombros numa desculpa:
- Não sei como aguento!
Sei-o eu, sabe-o ele também, mas é entre amigos que nem tudo se diz.