segunda-feira, janeiro 31

Cantorias

Desmancha-prazeres não gosto de ser, mas tenho as minhas sombras e há muito perdi o hábito de deixar que me arrastem. É sinal de velhice, dirão, provavelmente será, mas é também o gosto de pensar duas vezes e fazê-lo com a minha própria cabeça.
Passei ontem pelo "Arrastão", ouvi os "Deolinda" e atentei neste comentário: "A música é boa, a letra é incisiva mas é a reacção vibrante do público que nos diz o essencial. Temos hino, temos ânimo, falta-nos mais combate."
Por que me ensombrei com "a reacção vibrante do público", aquele entusiasmo, a ovação em pé, as palmas, os assobios?
É que os que de verdade sentem na pele: "que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar" , a esses não sobra dinheiro para o bilhete, não estavam na sala. E que é isso de "falta-nos mais combate"? Onde estão as barricadas?
Palavras e cantorias são entretém, não são revolta. O folclore das "Grândola, vila morena" sai caro a quem canta e não trabalha.

domingo, janeiro 30

Já morri

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Morri pela primeira vez tinha quatro anos, na Exposição Colonial, no Porto, no lago que havia no antigo Palácio de Cristal. O nosso barquito chocou com outro e meu pai, na pressa de me proteger, atirou comigo à água.
Morri de novo quando, por volta dos nove anos, me davam de manhã cedo banhos fortificantes na maré cheia do Douro.
Na adolescência morri em Lanhelas, a bicicleta a derrapar junto do muro da Capela da Senhora da Saúde.
Voltei a morrer  em Viana, num bote que, uma manhã de temporal, a correnteza do Lima ia arrastando para a barra.
Morri em romagem ao Bom Jesus de Braga. O revisor, vendo-me pendurado na janela do comboio, berrou, e num último instante puxou-me para dentro. "É perigoso debruçar-se! Ne pas se pencher au dehors. È pericoloso sporgersi" Então eu não tinha visto? Tinha, mas o meu interesse ia para a palavra estranha. Sporgersi! Parecia o mesmo que espojar-se. Coisa curiosa, pensei, isto das línguas.
Em Paris foram vezes sem conta, mas poucas recordo. Morri no metro Saint Lazare, na Place Vendôme, engasgado com uma asa de frango num restaurante da Rue de Vaugirard, e na ocasião em que, mal saído da cama de madame Marie Louise, me cruzei nas escadas com monsieur  e civilmente nos demos o Bonsoir.
Morri num cruzamento em Amsterdam. Um alemão, num Porsche, não respeitou a minha prioridade,  atirou comigo e com o assento pelos ares.
Voltei a morrer em São Paulo, quando aceitei o convite de um amigo, bom piloto, mas tarado. O biplano era aberto, ele certificou-se de que o meu cinto se encontrava bem preso, e vá de voar em curvas mansas para que eu apreciasse o panorama. Quando achou que bastava, subiu a pique e começou a deixar o aviãozito "cair" em voltejos  de saca-rolhas, a fazer loopings, a dar cambalhotas de cabeça para baixo. Aí devo ter morrido umas quantas vezes, mas medo não mostrei, tão pouco lhe dei o gosto de ter borrado as calças, o que ele esperava e tinha acontecido a outros.
Morri poucos dias depois, num táxi que me levava ao aeroporto de Congonhas. A vez seguinte foi no céu do Amazonas, quando o avião em que ia para os Estados Unidos caiu num tão fundo poço de ar que em redor de mim, na cabine, voavam coisas e as hospedeiras pareciam ter-se libertado da força da gravidade.
Há nas Astúrias uma estrada pitoresca, a 630, que leva de Fonsagrada a Puerto Arbón de Vega. Por aí me meti uma tarde de sol, sem atentar no mau piso que tinha e as poças de óleo que nesse tempo os camiões nela espalhavam. Travei ao de leve numa curva, mas bastou para  um rodopio que ora me levava para a borda do abismo à direita, ora me punha o outro defronte dos olhos.
Isso foi há quase um quarto de século e desde então não voltei a morrer, mas verdade é que não sofro de impaciência nem tenho pressa de que tal aconteça em breve.

sábado, janeiro 29

Pepitas


Como todas as actividades comerciais o negócio da edição em Portugal por certo tem as suas leis, as suas tácticas, combinações, políticas, cumplicidades, os seus mistérios. Deve ter também, suponho que sim, interesse em fazer a prospecção do talento de jovens promissores na arte da escrita. E aí defronto um enigma: enquanto que na blogosfera encontro com frequência textos  que trazem a marca da boa ficção, a maioria dos romances portugueses que leio fica aquém, por vezes muito aquém, do que se espera da craveira da qualidade.
Será que, cansados de rebuscar nas centenas de manuscritos que recebem, aos editores falta  tempo para irem em busca de pepitas? Esquecem eles que muito bom escritor in spe duvida da sua própria qualidade? Sofrerão de comodismo? Improvável preguiça?
Ou será, Deus me livre, que a qualidade interessa menos do que a moda, o volume de vendas  e a taxa de  rendimento?
Não se poderia fazer a coisa fifty-fifty?

sexta-feira, janeiro 28

Diaghilev

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"No dia 29 de Agosto de 1929 largava uma gôndola do Grand Hotel des Bains, no Lido, em direcção à pequena ilha San Michele,  que desde o início do século XIX era o cemitério oficial da cidade de Veneza. O corpo na gôndola, que ia ser enterrado na parte reservada aos grego-ortodoxos, era o de Sergei Pavlovitch Diaghilev, um dos mais influentes pioneiros da Arte Moderna no século XX. Diaghilev tinha-se mantido activo na Europa Ocidental e Central durante vinte e três anos, conseguindo, nesse curto espaço de tempo, transformar o mundo da Dança, do Teatro, da Música e das Artes Plásticas de um modo sem precedente, e até hoje inigualado.
Na Rússia, a partir de 1896, desenvolvera uma actividade de crítico, organizador de exposições, editor e historiador da Arte. Pôs fim à estagnação de que a Arte na Rússia há anos sofria, defendeu na sua revista e em várias exposições o Simbolismo internacional, o Jugendstil , o Arts and Crafts Movement, o Neo-Nacionalismo russo, chamou a atenção para os aspectos esquecidos do passado artístico da Rússia. Criou na Europa uma companhia de Bailado, financiada particularmente, Ballets Russes,a qual actuaria nas mais famosas salas europeias e americanas, permanecendo ao longo de duas décadas a mais importante companhia de Dança do mundo.
Durante os primeiros anos de existência da sua companhia, tirando proveito da popularidade então corrente do exotismo eslavo e oriental, Diaghilev alcançou inacreditável êxito. Todavia, um pouco antes da Grande Guerra, começou a transformar Ballets Russes numa plataforma e laboratório para a vanguarda, chamando a si artistas como Picasso, Cocteau, Derain, Braque e Matisse, os futuristas, os cubistas e os surrealistas, e vanguardista russos como Larionov, Gontsharova e Naum Gabo.
Para tal correu enormes riscos pessoais e financeiros, suportando ainda a enorme pressão que sobre ele exerciam os seus íntimos. Mas o apoio de Ballets Russes foi ímpar para o prestígio e a divulgação da vanguarda artística europeia.
Tudo isso conseguiu Diaghilev sem possuir uma organização, nos primeiros dez anos mesmo sem uma sede, e sem garantias de subsídio. Vagabundeava pelo mundo com um lacaio e alguma bagagem, hospedando-se nos melhores hotéis, esquecendo por vezes de pagar a conta. Chamava a si a responsabilidade final da programação, dos contratos, da publicidade, do casting, mas sobretudo a parte criativa das produções, em muitas das quais se acha presente a  influência do seu excepcional sentido artístico. Sofria em permanência de grandes problemas financeiros, achou-se em mais de uma ocasião à beira do abismo e, pelo menos uma vez, não evitou a queda. Mesmo assim era recebido pelos reis, pelo mais nobres dos aristocratas e pelos industriais mais poderosos."

Sjeng Scheijen (1972), doutorado pela Universidade de Leiden, escreveu uma biografia de Diaghilev, publicada em Neerlandês em 2009 com o título Sergej Diaghilev, een leven voor de kunst (Sergei Diaghilev, uma vida dedicada à Arte). O texto acima é a tradução da primeira página.
A tradução inglesa, Diaghilev, a life - Oxford University Press, saiu nesse mesmo ano e  The New Yorker consagrou-lhe cinco páginas de encómios; The Guardian chamou-lhe um triunfo; The Sunday Times escolheu-o como uma das "The Best Biographies of 2009".
A edição holandesa são 638 páginas que acabei de ler ontem com um sentimento de pasmo. Se se interessa por Arte, Dança, Teatro, aqueles e outros grandes nomes da Pintura, o ambiente artístico, mundano e extraordinariamente gay dos começos do século XX, não deixe passar a oportunidade de ler esta obra excepcional.



quinta-feira, janeiro 27

Para distrair




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- Parada em Delhi
- Desigualdades em Manila
- Peregrinos em Bangladesh
- Cheerleaders em Sidney

quarta-feira, janeiro 26

Vergonha

De si, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, se aflija com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, picar-lhe a curiosidade ou arreliá-lo, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de envolvê-lo num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, lhe deixa para se preocupar  com "os interesses superiores da Nação".
Eleições também só há de longe a longe, e a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, mas o preço do bacalhau, os problemas do colesterol, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.
O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se, sem ironia, de que Portugal seja Europa.
Perguntam-lhe, perguntam-me, como é possível um processo da Casa Pia, os milhares de milhões que desaparecem dos bancos, a corrupção de cima abaixo, as auto-estradas sem trânsito, os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.
Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.

terça-feira, janeiro 25

Lagosta e Wagyu

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Os cães ladraram, a caravana passou, o país tristonho e sem futuro que se adivinhe parece espelhar a casa onde não há pão, aquela onde todos ralham e ninguém tem razão. Só que a imagem não confere. Nos palácios onde a caravana se acolheu há pão, pão-de-ló, champanhe e caviar, lagosta, Wagyu.
Dança-se lá o minuete, os cavalheiros fazem reverência às Marias-Antonietas. O povinho, encostado à cerca, admira de longe a iluminação e não compreende a música.

Desta vez não haverá ditador nem general, cravos também não, e Nossa Senhora há muito se recolheu  às nuvens. O ódio nada resolve e os insultos nem sequer são desabafo, pois se alguma coisa provam é a impotência e o medo de quem os grita. As acusações, mesmo com provas, também de nada adiantam, só as ouviria uma Justiça imparcial.
De modo que, meu caro, o sofrimento é nosso, mas é também de nós que depende a salvação. Não do vizinho, nem dos partidos. Dos senhores que detêm o Poder ainda menos, que esses, fossem outros os tempos, já se teriam corrido à paulada.

segunda-feira, janeiro 24

António Barreto

A probabilidade é grande que por emprego ou função, cumplicidades e compadrios, cedências, fraquezas, apertos vários, você sinta como que lhe falta o ar. Provavelmente evita o espelho e prefere esquecer as vezes que falhou e aquelas em que se deixou aviltar.
Aceite que jogou mal. Mas pense nos seus filhos, nos netos que vai ter. Comece por si, ajude a fazer a barrela de que Portugal precisa. Tome consciência de que este Portugal, osso de tantos e ignóbeis cães, não é o país que desejamos e que precisamos, mas o que teremos de mudar, o que poderemos mudar se nos dermos a mão. Leia António Barreto aqui.

Imagem


Alguns sabem-no logo de pequenos, mas a outros, como a mim, falta qualquer coisa que nos impede de criar o que sempre foi importante e hoje o é mais do que nunca: uma imagem singular de nós próprios, uma que nos satisfaça e ao mesmo tempo distinga.
Criando a imagem adequada encontram uns caminho na política, sobem outros no teatro, nas artes, na literatura, ganham fama no cinema, na tv…
A Agnes Gonxha Bojaxhiu, mulher de mau génio, interesseira, manipuladora, de negócios e amizades duvidosas, bastou a imagem que se criou de Madre Teresa de Calcutá, protectora dos pobres e socorro dos aflitos, para se ver a caminho da santidade.
Um qualquer Bono cria a imagem de ajudar os pretinhos e tudo quanto é gente importante lhe vai ao beija-mão, fingindo esquecer que mete no bolso os milhões da caridade. Veja Al Gore, Madonna, Lady Gaga… a imagem é tudo, o resto só fingimento.
De nada adianta quem você é, conta sim a imagem que se criou. E olhe que há muito por onde escolher. Arauto da liberdade, por exemplo. Defensor acérrimo da democracia (podia escrever decidido ou pertinaz, mas acérrimo tem cachet). Político impoluto. Homem de uma só cara. Homem vertical. Nas coisas da escrita é excelente, mas difícil, a imagem de jovem promissor. Cansativa também, pois implica excentricidades de vestuário, de comportamento, e tempo bastante para macaquear. Melenas e/ou uma barba à Van Dijk são atributos clássicos de eficiência provada.
Infelizmente, para tudo há excepções. Não gosto dele como pessoa, irrita-me a sua chança de histórico da Revolução, desagrada-me a poesia que compõe, o seu amor da caça, o ar de fidalgo amigo do povoléu, o estilo da barba, o modo como fuma charuto, mas não posso negar que Manuel Alegre era o único candidato com o fácies, a voz e o modo façanhudo que em minha opinião deve ter um presidente da República. Daqueles à moda antiga, que ficam bem no retrato. Como o presidente Carmona da minha infância.

domingo, janeiro 23

Banha de cobra

Que vá hoje votar, que boicote ou se abstenha, nada terá mudado quando amanhã se conhecerem os resultados e a república tiver um novo presidente.
No próximo mês e nos próximos anos é que as mudanças virão, muitas, para pior, e os senhores que mandam na república –  res publica, a que devia ser de todos mas não é – continuarão a dizer, com verdade, que a culpa é sua. Que foi simples no pensar e insensato como cidadão. Gastou em demasia, endividou-se, correu atrás do canto da sereia do crédito fácil, fez fé no vizinho que lhe garantiu que vida sem Mercedes não é vida.  Diziam os antigos que "quem não viu Lisboa, nunca viu coisa boa", mas para si coisa boa é o México, as Seychelles, a Tailândia. Recorda-se de ter encontrado em Banguecoque a Joaquina da sapataria, vinte anos, trezentos euros de ordenado?
Vão-lhe provar que foi e continua a ser tolo. Não o farão com palavras, mas com leis, medidas e regulamentos, adulterando a democracia que lhe prometeram, e eles transformaram numa suculenta reserva de caça privada. Enriquecendo-se e empurrando-o a si para a miséria, aquela em que não se morre de fome, mas de carências e desespero.
Ao contrário do que fizeram os pais destes, os senhores da ditadura, a si já nem deitam migalhas: recomendam-lhe que seja manso, aguente sem queixas, continue a acreditar e a iludir-se com a igualdade que nos faz tão desiguais.
Votou? Julga que cumpriu? Boicotou ou absteve-se e sente-se revolucionário?
Meu caro, triste, ingénuo e infeliz compatriota, abra os olhos à realidade. Acorde, deite fora a banha de cobra. E estes senhores com ela.

sábado, janeiro 22

Passatempo

O nevoeiro dura há quatro dias e o termómetro há mais de trinta que se mantém abaixo de zero.E eu, em vez de me entregar a coisas sérias ou esperar por uma inspiração que só visita os outros, fui-me à procura de fotografias que me distraíssem.

William Chavarriaga, colombiano de Medellin, ganha a vida imitando Popeye.
Ronaldinho e Patrícia Amorim, presidente do Flamengo.
Procissão em Manila
Khloé Kardashian


quinta-feira, janeiro 20

domingo, janeiro 16

O jugo



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A julgar pelo que leio, oiço, e está provado, os dois principais candidatos à presidência da República são senhores que, num estado de direito e numa sociedade civilizada, não fariam o que se chama boa figura. Fora isso, por razões conhecidas, teriam igualmente processos em tribunal.
Daí a minha impressão que, neste nosso reino da Dinamarca, não somente há qualquer coisa errada e algo de muito podre a pedir limpeza, mas é urgente atentar também na consciência cívica e na saúde mental dos cidadãos.
Porque custa a compreender que um país inteiro, em vez de exigir uma barrela e se negar a participar na comédia bufa que estas eleições são, vá mansamente depor o seu voto.
Para quê? Com que esperança?
Não somos a Tunísia, violência e revoluções não são comigo, sou visceralmente contra, mas um povo desdenhado e espezinhado pelos senhores que mandam poderia, pelo menos, atentar nas lições de Gandhi e aprender a eficácia da resistência passiva e da não-violência.
Votar neles é aceitar a continuação do jugo que um povo que se respeita deveria sacudir.