Segunda-feira, Janeiro 31

Cantorias

Desmancha-prazeres não gosto de ser, mas tenho as minhas sombras e há muito perdi o hábito de deixar que me arrastem. É sinal de velhice, dirão, provavelmente será, mas é também o gosto de pensar duas vezes e fazê-lo com a minha própria cabeça.
Passei ontem pelo "Arrastão", ouvi os "Deolinda" e atentei neste comentário: "A música é boa, a letra é incisiva mas é a reacção vibrante do público que nos diz o essencial. Temos hino, temos ânimo, falta-nos mais combate."
Por que me ensombrei com "a reacção vibrante do público", aquele entusiasmo, a ovação em pé, as palmas, os assobios?
É que os que de verdade sentem na pele: "que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar" , a esses não sobra dinheiro para o bilhete, não estavam na sala. E que é isso de "falta-nos mais combate"? Onde estão as barricadas?
Palavras e cantorias são entretém, não são revolta. O folclore das "Grândola, vila morena" sai caro a quem canta e não trabalha.

Domingo, Janeiro 30

Já morri

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Morri pela primeira vez tinha quatro anos, na Exposição Colonial, no Porto, no lago que havia no antigo Palácio de Cristal. O nosso barquito chocou com outro e meu pai, na pressa de me proteger, atirou comigo à água.
Morri de novo quando, por volta dos nove anos, me davam de manhã cedo banhos fortificantes na maré cheia do Douro.
Na adolescência morri em Lanhelas, a bicicleta a derrapar junto do muro da Capela da Senhora da Saúde.
Voltei a morrer  em Viana, num bote que, uma manhã de temporal, a correnteza do Lima ia arrastando para a barra.
Morri em romagem ao Bom Jesus de Braga. O revisor, vendo-me pendurado na janela do comboio, berrou, e num último instante puxou-me para dentro. "É perigoso debruçar-se! Ne pas se pencher au dehors. È pericoloso sporgersi" Então eu não tinha visto? Tinha, mas o meu interesse ia para a palavra estranha. Sporgersi! Parecia o mesmo que espojar-se. Coisa curiosa, pensei, isto das línguas.
Em Paris foram vezes sem conta, mas poucas recordo. Morri no metro Saint Lazare, na Place Vendôme, engasgado com uma asa de frango num restaurante da Rue de Vaugirard, e na ocasião em que, mal saído da cama de madame Marie Louise, me cruzei nas escadas com monsieur  e civilmente nos demos o Bonsoir.
Morri num cruzamento em Amsterdam. Um alemão, num Porsche, não respeitou a minha prioridade,  atirou comigo e com o assento pelos ares.
Voltei a morrer em São Paulo, quando aceitei o convite de um amigo, bom piloto, mas tarado. O biplano era aberto, ele certificou-se de que o meu cinto se encontrava bem preso, e vá de voar em curvas mansas para que eu apreciasse o panorama. Quando achou que bastava, subiu a pique e começou a deixar o aviãozito "cair" em voltejos  de saca-rolhas, a fazer loopings, a dar cambalhotas de cabeça para baixo. Aí devo ter morrido umas quantas vezes, mas medo não mostrei, tão pouco lhe dei o gosto de ter borrado as calças, o que ele esperava e tinha acontecido a outros.
Morri poucos dias depois, num táxi que me levava ao aeroporto de Congonhas. A vez seguinte foi no céu do Amazonas, quando o avião em que ia para os Estados Unidos caiu num tão fundo poço de ar que em redor de mim, na cabine, voavam coisas e as hospedeiras pareciam ter-se libertado da força da gravidade.
Há nas Astúrias uma estrada pitoresca, a 630, que leva de Fonsagrada a Puerto Arbón de Vega. Por aí me meti uma tarde de sol, sem atentar no mau piso que tinha e as poças de óleo que nesse tempo os camiões nela espalhavam. Travei ao de leve numa curva, mas bastou para  um rodopio que ora me levava para a borda do abismo à direita, ora me punha o outro defronte dos olhos.
Isso foi há quase um quarto de século e desde então não voltei a morrer, mas verdade é que não sofro de impaciência nem tenho pressa de que tal aconteça em breve.

Sábado, Janeiro 29

Pepitas


Como todas as actividades comerciais o negócio da edição em Portugal por certo tem as suas leis, as suas tácticas, combinações, políticas, cumplicidades, os seus mistérios. Deve ter também, suponho que sim, interesse em fazer a prospecção do talento de jovens promissores na arte da escrita. E aí defronto um enigma: enquanto que na blogosfera encontro com frequência textos  que trazem a marca da boa ficção, a maioria dos romances portugueses que leio fica aquém, por vezes muito aquém, do que se espera da craveira da qualidade.
Será que, cansados de rebuscar nas centenas de manuscritos que recebem, aos editores falta  tempo para irem em busca de pepitas? Esquecem eles que muito bom escritor in spe duvida da sua própria qualidade? Sofrerão de comodismo? Improvável preguiça?
Ou será, Deus me livre, que a qualidade interessa menos do que a moda, o volume de vendas  e a taxa de  rendimento?
Não se poderia fazer a coisa fifty-fifty?

Sexta-feira, Janeiro 28

Diaghilev

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"No dia 29 de Agosto de 1929 largava uma gôndola do Grand Hotel des Bains, no Lido, em direcção à pequena ilha San Michele,  que desde o início do século XIX era o cemitério oficial da cidade de Veneza. O corpo na gôndola, que ia ser enterrado na parte reservada aos grego-ortodoxos, era o de Sergei Pavlovitch Diaghilev, um dos mais influentes pioneiros da Arte Moderna no século XX. Diaghilev tinha-se mantido activo na Europa Ocidental e Central durante vinte e três anos, conseguindo, nesse curto espaço de tempo, transformar o mundo da Dança, do Teatro, da Música e das Artes Plásticas de um modo sem precedente, e até hoje inigualado.
Na Rússia, a partir de 1896, desenvolvera uma actividade de crítico, organizador de exposições, editor e historiador da Arte. Pôs fim à estagnação de que a Arte na Rússia há anos sofria, defendeu na sua revista e em várias exposições o Simbolismo internacional, o Jugendstil , o Arts and Crafts Movement, o Neo-Nacionalismo russo, chamou a atenção para os aspectos esquecidos do passado artístico da Rússia. Criou na Europa uma companhia de Bailado, financiada particularmente, Ballets Russes,a qual actuaria nas mais famosas salas europeias e americanas, permanecendo ao longo de duas décadas a mais importante companhia de Dança do mundo.
Durante os primeiros anos de existência da sua companhia, tirando proveito da popularidade então corrente do exotismo eslavo e oriental, Diaghilev alcançou inacreditável êxito. Todavia, um pouco antes da Grande Guerra, começou a transformar Ballets Russes numa plataforma e laboratório para a vanguarda, chamando a si artistas como Picasso, Cocteau, Derain, Braque e Matisse, os futuristas, os cubistas e os surrealistas, e vanguardista russos como Larionov, Gontsharova e Naum Gabo.
Para tal correu enormes riscos pessoais e financeiros, suportando ainda a enorme pressão que sobre ele exerciam os seus íntimos. Mas o apoio de Ballets Russes foi ímpar para o prestígio e a divulgação da vanguarda artística europeia.
Tudo isso conseguiu Diaghilev sem possuir uma organização, nos primeiros dez anos mesmo sem uma sede, e sem garantias de subsídio. Vagabundeava pelo mundo com um lacaio e alguma bagagem, hospedando-se nos melhores hotéis, esquecendo por vezes de pagar a conta. Chamava a si a responsabilidade final da programação, dos contratos, da publicidade, do casting, mas sobretudo a parte criativa das produções, em muitas das quais se acha presente a  influência do seu excepcional sentido artístico. Sofria em permanência de grandes problemas financeiros, achou-se em mais de uma ocasião à beira do abismo e, pelo menos uma vez, não evitou a queda. Mesmo assim era recebido pelos reis, pelo mais nobres dos aristocratas e pelos industriais mais poderosos."

Sjeng Scheijen (1972), doutorado pela Universidade de Leiden, escreveu uma biografia de Diaghilev, publicada em Neerlandês em 2009 com o título Sergej Diaghilev, een leven voor de kunst (Sergei Diaghilev, uma vida dedicada à Arte). O texto acima é a tradução da primeira página.
A tradução inglesa, Diaghilev, a life - Oxford University Press, saiu nesse mesmo ano e  The New Yorker consagrou-lhe cinco páginas de encómios; The Guardian chamou-lhe um triunfo; The Sunday Times escolheu-o como uma das "The Best Biographies of 2009".
A edição holandesa são 638 páginas que acabei de ler ontem com um sentimento de pasmo. Se se interessa por Arte, Dança, Teatro, aqueles e outros grandes nomes da Pintura, o ambiente artístico, mundano e extraordinariamente gay dos começos do século XX, não deixe passar a oportunidade de ler esta obra excepcional.



Quinta-feira, Janeiro 27

Para distrair




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- Parada em Delhi
- Desigualdades em Manila
- Peregrinos em Bangladesh
- Cheerleaders em Sidney

Quarta-feira, Janeiro 26

Vergonha

De si, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, se aflija com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, picar-lhe a curiosidade ou arreliá-lo, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de envolvê-lo num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, lhe deixa para se preocupar  com "os interesses superiores da Nação".
Eleições também só há de longe a longe, e a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, mas o preço do bacalhau, os problemas do colesterol, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.
O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se, sem ironia, de que Portugal seja Europa.
Perguntam-lhe, perguntam-me, como é possível um processo da Casa Pia, os milhares de milhões que desaparecem dos bancos, a corrupção de cima abaixo, as auto-estradas sem trânsito, os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.
Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.

Terça-feira, Janeiro 25

Lagosta e Wagyu

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Os cães ladraram, a caravana passou, o país tristonho e sem futuro que se adivinhe parece espelhar a casa onde não há pão, aquela onde todos ralham e ninguém tem razão. Só que a imagem não confere. Nos palácios onde a caravana se acolheu há pão, pão-de-ló, champanhe e caviar, lagosta, Wagyu.
Dança-se lá o minuete, os cavalheiros fazem reverência às Marias-Antonietas. O povinho, encostado à cerca, admira de longe a iluminação e não compreende a música.

Desta vez não haverá ditador nem general, cravos também não, e Nossa Senhora há muito se recolheu  às nuvens. O ódio nada resolve e os insultos nem sequer são desabafo, pois se alguma coisa provam é a impotência e o medo de quem os grita. As acusações, mesmo com provas, também de nada adiantam, só as ouviria uma Justiça imparcial.
De modo que, meu caro, o sofrimento é nosso, mas é também de nós que depende a salvação. Não do vizinho, nem dos partidos. Dos senhores que detêm o Poder ainda menos, que esses, fossem outros os tempos, já se teriam corrido à paulada.

Segunda-feira, Janeiro 24

António Barreto

A probabilidade é grande que por emprego ou função, cumplicidades e compadrios, cedências, fraquezas, apertos vários, você sinta como que lhe falta o ar. Provavelmente evita o espelho e prefere esquecer as vezes que falhou e aquelas em que se deixou aviltar.
Aceite que jogou mal. Mas pense nos seus filhos, nos netos que vai ter. Comece por si, ajude a fazer a barrela de que Portugal precisa. Tome consciência de que este Portugal, osso de tantos e ignóbeis cães, não é o país que desejamos e que precisamos, mas o que teremos de mudar, o que poderemos mudar se nos dermos a mão. Leia António Barreto aqui.

Imagem


Alguns sabem-no logo de pequenos, mas a outros, como a mim, falta qualquer coisa que nos impede de criar o que sempre foi importante e hoje o é mais do que nunca: uma imagem singular de nós próprios, uma que nos satisfaça e ao mesmo tempo distinga.
Criando a imagem adequada encontram uns caminho na política, sobem outros no teatro, nas artes, na literatura, ganham fama no cinema, na tv…
A Agnes Gonxha Bojaxhiu, mulher de mau génio, interesseira, manipuladora, de negócios e amizades duvidosas, bastou a imagem que se criou de Madre Teresa de Calcutá, protectora dos pobres e socorro dos aflitos, para se ver a caminho da santidade.
Um qualquer Bono cria a imagem de ajudar os pretinhos e tudo quanto é gente importante lhe vai ao beija-mão, fingindo esquecer que mete no bolso os milhões da caridade. Veja Al Gore, Madonna, Lady Gaga… a imagem é tudo, o resto só fingimento.
De nada adianta quem você é, conta sim a imagem que se criou. E olhe que há muito por onde escolher. Arauto da liberdade, por exemplo. Defensor acérrimo da democracia (podia escrever decidido ou pertinaz, mas acérrimo tem cachet). Político impoluto. Homem de uma só cara. Homem vertical. Nas coisas da escrita é excelente, mas difícil, a imagem de jovem promissor. Cansativa também, pois implica excentricidades de vestuário, de comportamento, e tempo bastante para macaquear. Melenas e/ou uma barba à Van Dijk são atributos clássicos de eficiência provada.
Infelizmente, para tudo há excepções. Não gosto dele como pessoa, irrita-me a sua chança de histórico da Revolução, desagrada-me a poesia que compõe, o seu amor da caça, o ar de fidalgo amigo do povoléu, o estilo da barba, o modo como fuma charuto, mas não posso negar que Manuel Alegre era o único candidato com o fácies, a voz e o modo façanhudo que em minha opinião deve ter um presidente da República. Daqueles à moda antiga, que ficam bem no retrato. Como o presidente Carmona da minha infância.

Domingo, Janeiro 23

Banha de cobra

Que vá hoje votar, que boicote ou se abstenha, nada terá mudado quando amanhã se conhecerem os resultados e a república tiver um novo presidente.
No próximo mês e nos próximos anos é que as mudanças virão, muitas, para pior, e os senhores que mandam na república –  res publica, a que devia ser de todos mas não é – continuarão a dizer, com verdade, que a culpa é sua. Que foi simples no pensar e insensato como cidadão. Gastou em demasia, endividou-se, correu atrás do canto da sereia do crédito fácil, fez fé no vizinho que lhe garantiu que vida sem Mercedes não é vida.  Diziam os antigos que "quem não viu Lisboa, nunca viu coisa boa", mas para si coisa boa é o México, as Seychelles, a Tailândia. Recorda-se de ter encontrado em Banguecoque a Joaquina da sapataria, vinte anos, trezentos euros de ordenado?
Vão-lhe provar que foi e continua a ser tolo. Não o farão com palavras, mas com leis, medidas e regulamentos, adulterando a democracia que lhe prometeram, e eles transformaram numa suculenta reserva de caça privada. Enriquecendo-se e empurrando-o a si para a miséria, aquela em que não se morre de fome, mas de carências e desespero.
Ao contrário do que fizeram os pais destes, os senhores da ditadura, a si já nem deitam migalhas: recomendam-lhe que seja manso, aguente sem queixas, continue a acreditar e a iludir-se com a igualdade que nos faz tão desiguais.
Votou? Julga que cumpriu? Boicotou ou absteve-se e sente-se revolucionário?
Meu caro, triste, ingénuo e infeliz compatriota, abra os olhos à realidade. Acorde, deite fora a banha de cobra. E estes senhores com ela.

Sábado, Janeiro 22

Passatempo

O nevoeiro dura há quatro dias e o termómetro há mais de trinta que se mantém abaixo de zero.E eu, em vez de me entregar a coisas sérias ou esperar por uma inspiração que só visita os outros, fui-me à procura de fotografias que me distraíssem.

William Chavarriaga, colombiano de Medellin, ganha a vida imitando Popeye.
Ronaldinho e Patrícia Amorim, presidente do Flamengo.
Procissão em Manila
Khloé Kardashian


Sexta-feira, Janeiro 21

País levantino (eleições)

De Portugal, a Flor e a Foice:

"Em Dezembro (1974) é preso um grupo de doze importantes financeiros e industriais, acusados de sabotagem económica. Muito embora tenham sido respeitados os trâmites próprios de um Estado de Direito, os países da Europa  Ocidental exercem forte pressão sobre o governo português, o qual, precisamente nesse momento, começara a estudar o Plano Económico. Pressão que é como mais um aviso.
A Igreja, cautelosamente, cala-se. Em Lisboa, no 1o de Maio, a enorme multidão que nas ruas festeja a liberdade é um mar de cravos vermelhos. No dia 13, em Fátima, centenas de milhar de pessoas juntam-se em peregrinação, mas os cravos das grinaldas e nas lapelas são brancos.
Um indício: numa pastoral a hierarquia católica afirma que "as lutas de classes devem ser evitadas, pois só podem ser prejudiciais", e que a Igreja "deseja colaborar no processo de construção histórica em que o povo português se encontra empenhado", sendo tal desejo "a melhor maneira e mostrar que a Igreja se quer penitenciar dos seus erros passados".
É pouco como penitência, demasiado como hipocrisia.
A 12 de Abril (1975), duas semanas antes das primeiras eleições livres realizadas em cinquenta anos, os bispos escreverão aos fiéis: "Está vedado aos católicos dar o voto a partidos que, pelos seus princípios ideológicos, pelos objectivos e processos que preconizam, ou pela realização histórica para que tendem, se lhes afigurem incompatíveis com a concepção cristã do homem e da sua vida em sociedade" – e mais adiante: "a Igreja está a ser vítima de uma situação de forças que se insere num problema mais amplo e mais grave, o qual é a limitação da liberdade entre nós".
A  Igreja portuguesa, que apoiou a ditadura, a opressão, que se calou perante a tortura e os assassinatos, veda aos crentes o direito de votar como desejem e queixa-se da falta de liberdade.
Os bispos que assim falam são os mesmo que, em 1964 escreviam, dirigindo-se aos soldados que partiam para a guerra colonial: "Quereríamos ver a vossa juventude sempre a cantar, com os olhos iluminados, na vanguarda do Portugal que desperta para a sua missão de fazer florescer no Ultramar a civilização cristã. Juventude pura, forte, alegre, ao serviço dos grandes ideais pelos quais vale a pena morrer".
Como deve ser difícil e doloroso manter a fé para aqueles que sinceramente crêem!

Portugal país católico? As estatísticas e os clichés tradicionais nem sempre são as fontes de informação mais seguras. No norte e no centro, com certeza. O catolicismo é aí fortemente impregnado de tradição, de superstição e de um fatalismo herdado dos séculos de ocupação árabe, do relativo isolamento geográfico e da pobreza da terra.  A prática religiosa ultrapassa os 50% dos habitantes, em muitas aldeias chega aos 100%. Assim se explica que o padre é rei e senhor, o bispo verdadeira encarnação do Todo-Poderoso.
Compreende-se, pois, que antes das eleições de Abril de 75 o arcebispo de Braga tenha declarado: "É preciso obedecer ao bispo, mesmo quando ele se engana, pois enganar-se a gente juntamente com a Igreja é uma honra".
E em Vila Real, quando nesse mês faleceu um comunista e a família o quis enterrar cristãmente, foi-lhe imposta para tal a condição de assinar um documento, declarando que o defunto se encontrava em estado de loucura quando tinha aderido ao partido.
Todavia, seria erróneo ignorar a tomada de consciência do povo depois do 25 de Abril, e a actuação de pequenos grupos de cristãos, tanto sacerdotes como leigos, os quais política e socialmente se situam à margem das posições da hierarquia.
Ao sul do Tejo a presença e a actividade da religião são praticamente nulas. As igrejas e as capelas continuam a pontuar a paisagem, mas as missas são raras, a presença dos fiéis reduzida a uma mão-cheia de anciãos, a influência dos padres a zero.
Mesmo assim, porém, considerada no âmbito nacional, a Igreja permanece um formidável e extremamente poderoso aliado de todos aqueles para quem a extinção do antigo regime veio marcar o fim de uma era de privilégios, e que não se cansarão facilmente de tentar recobrar o perdido. Talvez até venha a ser um poderoso aliado para outros que,  "revolucionários, populares e marxistas",  parecem mais interessados exercer e guardar o poder, do que entregá-lo ao povo, do qual se dizem mandatários."

Quinta-feira, Janeiro 20

Escolhas (2)

Escolhas (1)

Quarta-feira, Janeiro 19

País levantino (anexo)

De Portugal, a Flor e a Foice:

"No que respeita a imprensa ou a produção literária é uma impossibilidade fazer comparações ou estabelecer paralelos, entre a segunda metade do século dezanove e os quase cinquenta anos de regime fascista. Tentá-lo seria quase certamente correr o risco de cometer injustiças.
Todavia, quem de perto toma conhecimento da literatura portuguesa nos anos 30, não pode deixar de constatar que é escasso o número de escritores que, duma ou doutra forma, juntando as palavras aos actos, realmente ou eficazmente se opuseram ao regime.
De boca opunham-se quase todos, e os dois ou três que, pelos cargos que ocupavam eram oficialmente obrigados a dar améns, suscitavam  compaixão e nunca os colegas lho levaram a mal. Mas os outros, aquela grande maioria, com quantas cautelas foi contra! Quantas chinesices  não inventou para contentar Pedro e Paulo e a si mesma!
Burgueses de nascimento ou tornados burgueses pela pena – que em Portugal sempre concedeu certo cachet – os escritores, regra geral, estabeleceram-se dentro do regime como classe à parte. Evidentemente houve os que foram presos pela PIDE/DGS, tratados com cortesia e consideração desde que não fossem comunistas. Mas quantos o eram? Nem uma dúzia. Aliás, uns dias de interrogatório ou de prisão em Caxias – nas celas do terceiro andar, com chuveiro, wc, vista para o Tejo e visitas da família – nunca abalaram a saúde ou a mente de ninguém e serão, como se constatará mais tarde, recomendação valiosa quando o regime muda.
Sim, eles foram contra o salazarismo, a ditadura, a censura, a PIDE, a asfixia intelectual e moral. E afirmarão que tudo isso está bem patente nas suas obras. Estará. Eles, que as escreveram, poderão indicar as passagens crípticas em que deixaram a mensagem de revolta. Os seus amigos, informados e conhecedores do código, confirmam que na verdade assim é. Mas o leitor? Esse pobre diabo, cuja existência e importância os literatos portugueses apenas relacionam com  número de exemplares vendidos, não tem a ver com o assunto : a oposição ao regime, as frases secretas carregadas de fuga revolucionária, os subentendidos críticos, as parábolas venenosas, tudo isso foi privilégio do clã, exclusivo dos iniciados.
Pobre dele, leitor, se na ficção portuguesa dos últimos cinquenta anos quiser encontrar a revolta. Ela está lá, evidentemente, mas como agulha em palheiro, fininha e esquiva, ou então por detrás de disfarces tão ambíguos que uma camaleão não lhe levaria a palma.
- Se não fosse a censura!... -  lastimavam alguns.
A censura é indiscutivelmente repressiva. A censura fascista foi, sem dúvida, uma das razões do empobrecimento da produção e da qualidade da literatura portuguesa. Mas por si só não basta para explicar a passividade quase geral dos escritores perante o regime.
Em meio século de ditadura são escassas em Portugal as obras de franca resistência à situação política, ou gritos autênticos de revolta. E a quantos autores interessou a situação miserável do povo? Quantos verdadeiramente o defenderam? Que mos indiquem e eu aposto que ao contá-los com metade dos dedos ainda sobram dedos.
Para eles o povo era folclórico, estúpido, pobre por culpa da sua própria ignorância. Quando se lêem os romances em que, supostamente, o povo está presente, constata-se na generalidade este fenómeno curioso: aquele povo não existe, é a imagem deformada obtida pelos escritores que vão à província ver os camponeses, como os basbaques vão a um jardim zoológico ver os animais.
A prova? Na maioria, na grande maioria dos romances portugueses, os personagens populares são postos a falar com empolamento académico, ou então com a ênfase pesada dos maus dramas de teatro. Mais: aquela linguagem não é a sua, autêntica e rude. Nada disso: é uma linguagem que o escritor inventa, pedantesca, a mentir na sintaxe e nos sentimentos. A ponto que com os romances portugueses sucede o seguinte: não parecem ter sido escritos para serem lidos, ou com a intenção profunda de, ao agitar um problema da sociedade, causarem uma mudança  ou corrigirem uma injustiça, mas simplesmente para que o autor possa dar entrada naquele grupo de eleitos que se julgam diferentes, e daí melhores.
Mas o povo, mesmo inculto, quase analfabeto, não se deixa iludir nem impressionar, e os escritores portugueses bem poderiam atentar no facto bizarro de que há mais de cem anos "as massas"- como agora lhes chamam -  apenas conhecem e compram dois livros: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco (1825-1890), um  grande escritor do Romantismo com raízes populares que não mentem; e Rosa do Adro, de Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), do qual um dicionário de literatura diz com superioridade: "Romance popular de grande voga, exemplo típico da falsa literatura regional, obra sub-literária até na linguagem".
Caso para dizer: olha quem fala. E será assim, visto pelos olhos académicos, não vamos discutir aqui critérios de classificação literária. É sintomático, porém, que o povo se identifique com obras de sub-literatura, datando de há mais de um século, e ignore tudo de um Neo-Realismo que, supostamente, espelha as suas alegrias e dores.
Não se vá, porém, deduzir do que atrás fica que, durante este meio século de miséria, a literatura portuguesa tenha tido excessos de atenção para com o povo.. Se por vezes o utilizou como tema foi, sobretudo, para melhor falar de si própria, mostrar como, enfatuada e parva,  é capaz de cabriolas.
Num artigo sobre a Censura em Portugal José Cardoso Pires relata que o neo-realista Alves Redol escrevia em 1970 no hospital: "Sou um desses escritores que morrem completamente isolados do seu país... Nunca me deixaram escrever o que queria".
Estranha confissão. Quem poderá jamais impedir um escritor de escrever o que quer? Não o fizeram outros, ao longo de ditaduras mais ferozes, correndo, não o risco da censura, mas o da prisão, da tortura, da humilhação, da morte? Não o fizeram os alemães sob Hitler , os russo sob Estaline e depois? Não o fizeram os italianos e os gregos? Não o fazem tantos espanhóis e sul-americanos?
Monstruoso concubinato o de certos escritores  portugueses com a Censura,, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de  liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril , mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.
O escritor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953), um dos intelectuais comunistas que sofreram a repressão sob a ditadura de Getúlio Vargas, escreve em Memórias do Cárcere: "Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade -  talvez ingénuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém a desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem pública e social, mas nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".
Os escritores portugueses, regra geral, preferiram não se mexer."


"Um parêntesis para desanuviar. No fim da década de 60 as classes abastadas da sociedade portuguesa, e as camadas ditas intelectuais, sofrem de dois bacilos virulentos: o amor sáfico e o marxismo. Por extraordinário que pareça o safismo vai atacar indiferentemente homens e mulheres.
Nos homens os sintomas mais visíveis, provavelmente os únicos, detectam-se na linguagem. Indivíduos escorreitos, ou tidos por tal, começam a dizer que se sentem lésbicos, poetas que eram saudavelmente pederastas passam a ser doentiamente lesbianos. Escritores há que só anseiam por uma inspiração: a lésbica.
No que respeita o outro sexo, a expressão mais trombeteado do bacilo foi aquele livro sensaborão, Novas Cartas Portuguesas das "Três Marias (1972), tomado erradamente por um grito de Women's Lib.
Do bacilo marxista pode dizer-se que foi igualmente gracioso. Nos salões encontravam-se, displicentemente atiradas sobre a mesa, as obras completas de Lenine.
Caetano dera ordem para que a Censura não impedisse a sua impressão, desde que nas lombadas e nas capas, em vez do pseudónimo do Vladimir Ilitch figurasse Ulianov, o nome de família do cujo.
E os banqueiros, os filhos e as filhas dos banqueiros, os empreiteiros que ganhavam milhões em África, as condessas, "os-dez-homens-mais-bem-vestidos-do-ano", chamavam-se com piscadelas de olho, muito secretamente, para nos vãos das janelas, a sussurrar com quem conspira, dizerem uns aos outros que também tinham lido.
Ao serem anunciadas as eleições de 1969, e ao saber-se que os comunistas concorreriam sob o manto da CDE, toda aquela gente-bem sentiu arrepios de gozo, tanto mais que, afirmavam alguns cabalisticamente, "com os nossos comunistas não há perigo".
Levado como outros por esse delicioso entusiasmo de uma luta de classes a fingir, um D. Fernando, marquês de Fronteira, ofertou à CDE, para despesas eleitorais, meio milhão de escudos. O povo, ao tomar conhecimento, encontrou a designação justa para essa novidade em ideologia política: o "marquesismo-leninismo".