quarta-feira, abril 27

As elites


Quem sabe pouco da vida, me conhece mal, ou tem vistas curtas, é capaz de julgar que o riso que me dá quando se fala das elites portuguesas tem a ver com a minha origem plebeia. Mas assim não é. Acontece apenas que dei uns saltos largos desde a nascença, vi mundo bastante e tenho tido a sorte de poder comparar, resultando daí que o que em Portugal passa por elite se me apresenta como uma pitoresca massa de gente pobre com dinheiro, mais interessada em coleccionar relógios, vinhos e automóveis, do que se dar ao trabalho de estudar pelo menos aquele pouco que permite ter da vida, da sociedade, da política e da cultura, uma visão mais elevada do que a do taberneiro que julga o mundo através dos quartilhos de vinho e dos copos de cerveja.
Como se pode considerar elite um grupo de cidadãos que, mau grado as obscenas fortunas, não oferecem um quadro a um museu, não ajudam uma escola, nada fazem para aumentar o bem comum?
Vão aos concertos? Pois que lhes preste, mas não os vejo subsidiar uma orquestra ou oferecer bolsas aos músicos talentosos.
Livros? Têm-nos encadernados em marroquim, milhares deles em bibliotecas de confortáveis sofás, onde se bebe vintage ou aquele uísque que lhes reservam na Escócia. Não lêem, falam de moedas, de ganhos, dos bens que amealham, e poderá ser que tenham outra, mas a que mostram é uma visão rasteira do mundo e da vida, uma visão sem ideal nem solidariedade, até sem futuro, pois julgam que o mundo começou com eles, é deles, para eles,  e continuará nos filhos. A esses logo de começo ensinam o princípio de que o homem deve ser lobo do homem, e eles, as elites (as elites!) os lobos-alfa  com direito, não ao melhor naco da presa, mas à presa inteira.
Tenho podido comparar. Conheço países com elites de verdade, gente que amealha fortuna e depois a reparte para melhoria da terra em que nasceu. Homens e mulheres que oferecem milhões de euros a um hospital, um museu, uma universidade, uma orquestra. Homens e mulheres que pensam,  lêem, agem, que se sentem e mostram solidários com os seus concidadãos.
Neste nosso desmazelado e espezinhado Portugal, pobre de pedir entre as nações, até a elite que temos nos envergonha.