De Portugal, a Flor e a Foice:
"No que respeita a imprensa ou a produção literária é uma impossibilidade fazer comparações ou estabelecer paralelos, entre a segunda metade do século dezanove e os quase cinquenta anos de regime fascista. Tentá-lo seria quase certamente correr o risco de cometer injustiças.
Todavia, quem de perto toma conhecimento da literatura portuguesa nos anos 30, não pode deixar de constatar que é escasso o número de escritores que, duma ou doutra forma, juntando as palavras aos actos, realmente ou eficazmente se opuseram ao regime.
De boca opunham-se quase todos, e os dois ou três que, pelos cargos que ocupavam eram oficialmente obrigados a dar améns, suscitavam compaixão e nunca os colegas lho levaram a mal. Mas os outros, aquela grande maioria, com quantas cautelas foi contra! Quantas chinesices não inventou para contentar Pedro e Paulo e a si mesma!
Burgueses de nascimento ou tornados burgueses pela pena – que em Portugal sempre concedeu certo cachet – os escritores, regra geral, estabeleceram-se dentro do regime como classe à parte. Evidentemente houve os que foram presos pela PIDE/DGS, tratados com cortesia e consideração desde que não fossem comunistas. Mas quantos o eram? Nem uma dúzia. Aliás, uns dias de interrogatório ou de prisão em Caxias – nas celas do terceiro andar, com chuveiro, wc, vista para o Tejo e visitas da família – nunca abalaram a saúde ou a mente de ninguém e serão, como se constatará mais tarde, recomendação valiosa quando o regime muda.
Sim, eles foram contra o salazarismo, a ditadura, a censura, a PIDE, a asfixia intelectual e moral. E afirmarão que tudo isso está bem patente nas suas obras. Estará. Eles, que as escreveram, poderão indicar as passagens crípticas em que deixaram a mensagem de revolta. Os seus amigos, informados e conhecedores do código, confirmam que na verdade assim é. Mas o leitor? Esse pobre diabo, cuja existência e importância os literatos portugueses apenas relacionam com número de exemplares vendidos, não tem a ver com o assunto : a oposição ao regime, as frases secretas carregadas de fuga revolucionária, os subentendidos críticos, as parábolas venenosas, tudo isso foi privilégio do clã, exclusivo dos iniciados.
Pobre dele, leitor, se na ficção portuguesa dos últimos cinquenta anos quiser encontrar a revolta. Ela está lá, evidentemente, mas como agulha em palheiro, fininha e esquiva, ou então por detrás de disfarces tão ambíguos que uma camaleão não lhe levaria a palma.
- Se não fosse a censura!... - lastimavam alguns.
A censura é indiscutivelmente repressiva. A censura fascista foi, sem dúvida, uma das razões do empobrecimento da produção e da qualidade da literatura portuguesa. Mas por si só não basta para explicar a passividade quase geral dos escritores perante o regime.
Em meio século de ditadura são escassas em Portugal as obras de franca resistência à situação política, ou gritos autênticos de revolta. E a quantos autores interessou a situação miserável do povo? Quantos verdadeiramente o defenderam? Que mos indiquem e eu aposto que ao contá-los com metade dos dedos ainda sobram dedos.
Para eles o povo era folclórico, estúpido, pobre por culpa da sua própria ignorância. Quando se lêem os romances em que, supostamente, o povo está presente, constata-se na generalidade este fenómeno curioso: aquele povo não existe, é a imagem deformada obtida pelos escritores que vão à província ver os camponeses, como os basbaques vão a um jardim zoológico ver os animais.
A prova? Na maioria, na grande maioria dos romances portugueses, os personagens populares são postos a falar com empolamento académico, ou então com a ênfase pesada dos maus dramas de teatro. Mais: aquela linguagem não é a sua, autêntica e rude. Nada disso: é uma linguagem que o escritor inventa, pedantesca, a mentir na sintaxe e nos sentimentos. A ponto que com os romances portugueses sucede o seguinte: não parecem ter sido escritos para serem lidos, ou com a intenção profunda de, ao agitar um problema da sociedade, causarem uma mudança ou corrigirem uma injustiça, mas simplesmente para que o autor possa dar entrada naquele grupo de eleitos que se julgam diferentes, e daí melhores.
Mas o povo, mesmo inculto, quase analfabeto, não se deixa iludir nem impressionar, e os escritores portugueses bem poderiam atentar no facto bizarro de que há mais de cem anos "as massas"- como agora lhes chamam - apenas conhecem e compram dois livros: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco (1825-1890), um grande escritor do Romantismo com raízes populares que não mentem; e Rosa do Adro, de Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), do qual um dicionário de literatura diz com superioridade: "Romance popular de grande voga, exemplo típico da falsa literatura regional, obra sub-literária até na linguagem".
Caso para dizer: olha quem fala. E será assim, visto pelos olhos académicos, não vamos discutir aqui critérios de classificação literária. É sintomático, porém, que o povo se identifique com obras de sub-literatura, datando de há mais de um século, e ignore tudo de um Neo-Realismo que, supostamente, espelha as suas alegrias e dores.
Não se vá, porém, deduzir do que atrás fica que, durante este meio século de miséria, a literatura portuguesa tenha tido excessos de atenção para com o povo.. Se por vezes o utilizou como tema foi, sobretudo, para melhor falar de si própria, mostrar como, enfatuada e parva, é capaz de cabriolas.
Num artigo sobre a Censura em Portugal José Cardoso Pires relata que o neo-realista Alves Redol escrevia em 1970 no hospital: "Sou um desses escritores que morrem completamente isolados do seu país... Nunca me deixaram escrever o que queria".
Estranha confissão. Quem poderá jamais impedir um escritor de escrever o que quer? Não o fizeram outros, ao longo de ditaduras mais ferozes, correndo, não o risco da censura, mas o da prisão, da tortura, da humilhação, da morte? Não o fizeram os alemães sob Hitler , os russo sob Estaline e depois? Não o fizeram os italianos e os gregos? Não o fazem tantos espanhóis e sul-americanos?
Monstruoso concubinato o de certos escritores portugueses com a Censura,, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril , mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.
O escritor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953), um dos intelectuais comunistas que sofreram a repressão sob a ditadura de Getúlio Vargas, escreve em Memórias do Cárcere: "Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade - talvez ingénuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém a desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem pública e social, mas nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".
Os escritores portugueses, regra geral, preferiram não se mexer."
"Um parêntesis para desanuviar. No fim da década de 60 as classes abastadas da sociedade portuguesa, e as camadas ditas intelectuais, sofrem de dois bacilos virulentos: o amor sáfico e o marxismo. Por extraordinário que pareça o safismo vai atacar indiferentemente homens e mulheres.
Nos homens os sintomas mais visíveis, provavelmente os únicos, detectam-se na linguagem. Indivíduos escorreitos, ou tidos por tal, começam a dizer que se sentem lésbicos, poetas que eram saudavelmente pederastas passam a ser doentiamente lesbianos. Escritores há que só anseiam por uma inspiração: a lésbica.
No que respeita o outro sexo, a expressão mais trombeteado do bacilo foi aquele livro sensaborão, Novas Cartas Portuguesas das "Três Marias (1972), tomado erradamente por um grito de Women's Lib.
Do bacilo marxista pode dizer-se que foi igualmente gracioso. Nos salões encontravam-se, displicentemente atiradas sobre a mesa, as obras completas de Lenine.
Caetano dera ordem para que a Censura não impedisse a sua impressão, desde que nas lombadas e nas capas, em vez do pseudónimo do Vladimir Ilitch figurasse Ulianov, o nome de família do cujo.
E os banqueiros, os filhos e as filhas dos banqueiros, os empreiteiros que ganhavam milhões em África, as condessas, "os-dez-homens-mais-bem-vestidos-do-ano", chamavam-se com piscadelas de olho, muito secretamente, para nos vãos das janelas, a sussurrar com quem conspira, dizerem uns aos outros que também tinham lido.
Ao serem anunciadas as eleições de 1969, e ao saber-se que os comunistas concorreriam sob o manto da CDE, toda aquela gente-bem sentiu arrepios de gozo, tanto mais que, afirmavam alguns cabalisticamente, "com os nossos comunistas não há perigo".
Levado como outros por esse delicioso entusiasmo de uma luta de classes a fingir, um D. Fernando, marquês de Fronteira, ofertou à CDE, para despesas eleitorais, meio milhão de escudos. O povo, ao tomar conhecimento, encontrou a designação justa para essa novidade em ideologia política: o "marquesismo-leninismo".
