quinta-feira, Setembro 30

Outono

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O Outono, na aldeia, começa com a partida das andorinhas e a pendura, nas traves, das uvas que se hão-de comer pelo Natal.

terça-feira, Setembro 28

Pontos no "i " e vingança do Além

Enviado por mão amiga, o texto que segue, da autoria de Bruno Vieira Amaral, foi publicado no jornal “i” semanas atrás. Antes, porém,  que você ao lê-lo se sinta tentado/a a chamar-me nomes feios e a assacar-me qualidades que creio não ter, paciente com o seu juízo até ter lido também o meu parecer. Pense depois o que quiser. É o seu direito, serei eu o último a levar-lho a mal.



“Num meio pequeno é assim que se sobrevive. As raivas, as invejas e os ódios vêm esporadicamente à tona, por vezes explodem, mas logo depois tudo assenta e o dia-a-dia continua a arrastar-se, sempre igual, imutável na sua fingida serenidade.” p. 107

A Amante Holandesa começa num registo evocativo da infância numa aldeia de Trás-os-Montes. Rentes de Carvalho (n. 1930) banha o relato de nostalgia: os sonhos de um rapaz pobre, os montes desertos, o comboio da linha do Sabor. Gradualmente, a história vai ganhando contornos mais negros. As recordações de Amadeu, ex-emigrante na Holanda e regressado à aldeia com a mágoa de ter deixado para trás mulher e filha, adensam o sentimento de frustração do narrador, amigo de infância de Amadeu e professor de História em Bragança. O rememorar de uma paixão avassaladora nas palavras de um homem simples e analfabeto perturba o professor, magoado com a vida, desiludido com o casamento e mortificado por segredos fundos e perigosos. Aquela história alheia, quase romanesca, acirra o demónio dos seus próprios falhanços, da monotonia da sua existência.

Um primeiro clímax encerra a metade inicial do romance, mas o mote para o que se segue já está lançado. Rentes de Carvalho pega nas pontas soltas e estica as cordas até um máximo de tensão. Então tudo se precipita e os pequenos incêndios na vida do professor alastram num grande e incontrolável fogo: o casamento, a relação com as gentes da aldeia e as consequências dos pecados ocultos. No meio da devastação, é a chegada da filha de Amadeu, fantasma e aparição, que oferece ao professor uma última esperança.

Uma personagem como a do professor, que nos faz balançar entre a repulsa e a empatia, é uma enorme criação literária. Apesar de ser vítima dos comportamentos gregários e ferozes dos habitantes da aldeia, compreende-os e perdoa-os porque também ele anseia pelo perdão que lhe é negado. Com uma linguagem dura e terna, simples e carregada de sentido, Rentes de Carvalho recria na perfeição a vida num meio pequeno e disseca as entranhas de um povo – a obsessão com as vidas dos outros, a crueldade que explode em violentas erupções para logo se camuflar nos hábitos rotineiros, os ódios alimentados na sombra, os desgostos inomináveis.

Aos 80 anos, com uma obra que faz lembrar um Vergílio Ferreira depurado de derivas filosóficas, Rentes de Carvalho afirma-se como mestre tardio e absoluto da nossa literatura.

Semelhantes palavras são, deveriam ser, néctar para a alma de um escriba. Agradaram-me? Pois agradaram, ou melhor: deveriam ter agradado, não fosse o senão de que, dezenas de anos passados, quando que pela primeira vez o li, logo Vergílio Ferreira se tornou uma das minhas bêtes noires.
Desde a má prosa à pedantice, desde a vaidade, ao orgulho e às pretensões de eminência, tudo no homem me desagradava e irritava. Lia-o por obrigação de ofício, mas ao longo de quase três décadas, os meus estudantes de então de certeza recordam a desmesurada fúria que me causava o sujeito e a sua empolada e nevoenta prosa.
Assim, ver-me agora comparado com ele não deve ser obra do acaso. Desconfio haver aqui intervenção do Além, sou levado a pensar que o jovem Bruno Vieira Amaral, julgando escrever pela sua mão, “ouviu vozes” e serviu de inconsciente médio a uma manhosa vingança do autor de Manhã Submersa.
………………
PS. No homem até aquele V(e)rgílio me irritava.


segunda-feira, Setembro 27

Momentos (4)

O porteiro tinha-lhe dito  que era no terceiro andar, à esquerda do ascensor, a última porta. Sala grande, uma secretária  de tampo brilhante, ambos sentados lado a lado como juízes num tribunal. O chofer  encostado à ombreira da janela, uma silhueta no contraluz.
- Então?
Defronte deles, em pé, encolheu os ombros, tentou um sorriso, teve a sensação de que o medo lhe esvaziava o corpo.
- Então? – repetiu o mais velho.
- Não consegui. Mas tenho a certeza que daqui a uma semana, no máximo duas, quinze dias, quando os…
- Que certeza?
De súbito o chofer estava à sua frente, uma mão a segurar-lhe o ombro, o soco da outra atirando-o às arrecuas, a face inchada, um gosto de sangue.
Ergueu-se lentamente, esperando mais violência, mal ousando encarar os irmãos. O chofer aproximou-se e deu-lhe um empurrão, depois outro, abriu a porta com uma vénia de desprezo.
- Tens uma semana.
No espelho do ascensor viu a face inchada, um fio de sangue a correr do olho já roxo.
Discreto ou indiferente, o porteiro pareceu não dar conta e fez-lhe uma espécie de continência distraída.

domingo, Setembro 26

O sol da manhã

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sábado, Setembro 25

Personagem


Está só. Intensamente só num escuro sem alívio. Do marido nunca fala. Os filhos, de quem esperava uma forma de salvação, são-lhe agora peso e cadeia. Acarinha-os, maternal, mas para a mulher que é, vibrante na força, nos desejos e sonhos dos quarenta, são estranhos que lhe roubam o sossego e constantemente a tiram do sonho.
Odeia-se e odeia tudo à sua volta. Odeia em grande a hipocrisia a que se obriga, o mau e mesquinho teatro em que a sua vida se tornou. A vida de que tanto esperava, pois beleza não lhe falta, inteligência tem de sobra, nem vagamente conseguiria imaginar o que são aflições de fim de mês. Em frases sóbrias, quase com secura, analisa o que lhe acontece. Ainda tem perguntas, mas já não se interroga sobre o que valerá a pena, porque sabe que chegou à soleira da desistência e da escuridão. Só. Intensamente só. Palavra nenhuma lhe dará conforto. No amor deixou de acreditar. Amizades não quer. Sabe, sente, que já não é quem era e, alienada de si própria, se vai tornando um rancoroso personagem.

sexta-feira, Setembro 24

Blogo ergo sum

Tecer enredos, criar personagens, relatar um caso, construir uma história, com um bocado de prática nada disso é trabalho de maior. Difícil, sim, o dar-lhe qualidade, descobrir-lhe os como, porquê e para quê. Na era do papel e pena, depois no tempo da máquina de escrever, havia uma possibilidade remota, sonhava-se de acordar um dia com aquilo impresso, prova de que se estava no mundo e um degrau acima do comum.
O sonho permanece, mas a internet acrescentou-lhe uma extraordinária e perigosa ilusão. Publicamo-nos, lemo-nos, existimos no mundo, de certeza outros nos lêem e nos conhecem, pois um blogue é loja de portas escancaradas.
Bem avisado se mostra aquele que não quer inquirir do Sitemeter quantos lá entram por acaso, quantos passam sem entrar.

quarta-feira, Setembro 22

Basic Instinct

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Lembraria ao Diabo? Provavelmente, porque é especialista em tentações, mas ela não lhe fica atrás, ao contar a cena o seu lindo sorriso aproxima-se do diabólico.
O Batoque, alcunha que lhe dão na Câmara, tinha preparado bem as coisas. Seria sexta à noite, quando a mulher ia para a formação e a pequenita ficava com a avó.
Ao mesmo tempo que o beijava na face não pôde deixar de sorrir com a transparência da estratégia. Diminuíra as luzes, sobre a mesa arranjara os pratinhos de amêndoas e avelãs, a garrafa de Jack Daniel’s,  a marca de que ela gosta, copos de cristal, os sofás frente a frente.
Sorriu também de vê-lo de calções, t-shirt, os pés numas sapatilhas de plástico azul, curioso traje para um D. Juan. Ele cumprimentou-a pela elegância, arregalou brincalhão os olhos para o decote, seguiu a tira de ventre nu, parou-os na minissaia, disse que achava aqueles brincos muito bonitos, e o colar também, bonito mesmo.
Beberam. Falaram dos colegas, das dificuldades com o presidente, da estrada nova, das obras do saneamento. Falaram de música. Falaram de cinema. Para ele cineasta nenhum igualava Woody Allen. Se bem que… Tinha ela visto Basic Instinct? Formidável. Havia outros bons, muito bons, só que no Basic Instinct!
Garante, mas a gargalhada contradi-la, jura que foi por acaso, nem estava a pensar, ao cruzar as pernas demorou talvez dois segundos em vez de um. E a ferramenta do Batoque inchou nos calções, tremia-lhe o queixo, bebeu com a pressa de quem decidiu.
Foi então que o telemóvel tocou e ele falava ainda quando a porta se abriu e a mulher, beijocando, disse que a formação acabara mais cedo, e que se o Gabriel lhe tivesse dito que senhora engenheira vinha, nem tinha saído.

segunda-feira, Setembro 20

A arte de ler



Com a idade todos perdemos a inocência, mas muitos são os que ao mesmo tempo também perdem a arte de ler que a inocência lhes tinha ensinado. Quando agora  lêem não se deixam arrastar pelas peripécias, não lhes interessa a beleza das palavras, escapa-lhes o enredo, aborrece-os a novidade. A leitura torna-se-lhes o espelho onde procuram o reflexo das suas grandes e pequeninas raivas, dos seus desapontamentos. Em vez de aprender ou tentar  compreender, projectam nos personagens o que no íntimo carregam de aversões e ódios, antipatias, desgostos, inconscientemente fazem da leitura um instrumento de agressão.
Aquele personagem de certeza é pedófilo, e eles odeiam pedófilos. Nos romances de fulano todas as mulheres são bonitas, longas das pernas, perfumadas, elegantes no modo! Um nojo. Só um homossexual inventa uma mãe assim! Este nunca viveu numa aldeia!


É pena, mas verdade: na vida ou na leitura dificilmente se reganha a inocência perdida.

sábado, Setembro 18

Momentos (3)

(Não clique, não aumente)

Zandvoort é a praia de Amsterdam. Vinte minutos de carro, se tanto. Sempre multidão, mesmo na esplanada do hotel Bouwes, the place to be e poiso favorito da “plebe de luxo” (em holandês: luxe penoze) dos Rolex genuínos, Cayennes, Carreras, Jaguars, diamantes, putas que não parecem putas, champanhe, Partagas, muito riso, aqui e ali turistas de olhos arregalados, perguntando-se se aquilo será filme ou televisão, porque realidade não parece.
Sabendo-o imprevisível não me perguntei porque marcara o encontro em semelhante lugar, pois com mais conforto e menos viagem teríamos falado no seu escritório ou num dos cafés da vizinhança. Mas não senhor:
- No Bouwes. Às seis.
- Pois sim.    
Vejo-o aproximar-se, sessentão erecto, impecável no modo e no fato, aperto de mão a este, sorriso àquele, aceno breve aos que já defendeu no tribunal, abraço ao colega, beijinho à dama.
Senta-se de costas para eles, diz ao empregado que também quer cerveja, faz um esgar de enfado, mas em vez de entrar no assunto do encontro pergunta à queima-roupa:
- Quantas vezes urinas por hora?
- Quantas vezes? Não faço ideia!
A expressão do seu rosto impede-me de rir e ele explica. Com a  próstata  não tem problemas, mas disseram-lhe, e parece que é mesmo sério, urinando quatro ou mais vezes por hora sem sofrer da próstata indica isso problema cardíaco. Coisa grave. Era o que lhe acontecia agora. Mas não queria ainda consultar o médico, perguntava aos amigos.
Não pedi explicações, não o contradisse, não minimizei a sua preocupação. Deixei-o falar. E ele falou, longamente. Dos medos, da velhice, dos amores falhados, dos desencantos. Continuou durante o jantar. Decidimos depois que o nosso assunto ficaria para outra altura, mas quando nos separámos tive de sorrir, porque nas quase cinco horas de convívio não tinha ido à casa de banho.

quinta-feira, Setembro 16

Bobby (1995-2010)

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Os pouco entendidos dirão que era apenas um cachorro. Para nós foi amigo de quinze anos, com quem não era preciso fala para que nos entendêssemos. Gentil, carinhoso, inteligente, brincalhão, cavalheiro de variados amores, com mais schmisse do que um estudante de Heidelberg, trazia-nos à porta as namoradas e os zorros dos seus amores, certo de que haveria comida e carícias para todos.
Morreu esta madrugada, sentindo que nos deixava, mas certo de que seríamos muitos a carpi-lo, mesmo alguns daqueles que fingem dureza para que não se lhes veja o pranto.
Voltámos  há pouco de enterrá-lo  e, pela terceira vez este ano, encontramos a casa mais vazia, sentimo-nos mais sós.

quarta-feira, Setembro 15

É do sol

Pena sinto de não ter aprendido uma profissão, uma daquelas com regras, medidas, trabalhos que se começam, acabam, e nos deixam com obra que se veja. Porque a escrita me dá cada vez mais a ideia de que ando a enganar o alheio e a mim próprio.
Isto de escrever são neblinas, fumos, a fatiota inexistente do monarca, dança que você eu dançamos, fingindo ouvir música que banda nenhuma toca.
Sejamos francos: em cada século haverá uns quantos, não muitos, escritores que verdadeiramente enriquecem a humanidade. Mas que proveito vem ao mundo da colossal  pirâmide dos milhões de livros que descarregamos com a ajuda das cloacas do comércio?

Sinto-me cansado, tenho dormido mal, este calor não ajuda a disposição, e a gastronomia dos dias em que vim de viagem também não foi propícia. Mas o céu promete chuva e frescura, pelo que é bem possível que eu amanhã acorde optimista, louvando o Senhor, jurando com dobrado entusiasmo o avesso do que acima digo.

terça-feira, Setembro 14

Ter sorte

- Quarenta e quatro anos é a força da vida.
- A juventude.
- O melhor tempo.
- Lembro-me como se fosse ontem. Eu tinha quarenta e dois quando casei pela segunda vez. O que aconteceu ao rapaz, francamente, é uma grande pena.
- Uma tragédia.
- De facto.
Ela ouvia as conversas dos conhecidos em redor, mas sem realmente se dar conta, absorta ainda no cerimonial do enterro e em recordações que de súbito se lhe apresentavam com uma importância absurda. Coisas antigas, momentos esquecidos de há anos e incidentes comezinhos, cenas estúpidas. Era incompreensível lembrar-se agora em detalhe que ele, no dia do desastre, insistira em vestir umas cuecas de xadrez vermelho trazidas da América. Ou que tinha de pagar duzentos e vinte euros à livraria, um engano na conta de Janeiro. Telefonar mulher do Fernandes por causa do corrimão.
- E bom rapaz.
- Bom rapaz.
- Agora a Helena, nova e bonita como é, com a fortuna que herdou do pai o ano passado, mais o que lhe vem por parte do António…
Baixou a cabeça e afastou-se, antes que se dessem conta de que os ouvira. Rica, sim, era. Bonita? Felizmente o véu cobria-lhe o rosto, ninguém veria que tinha sorrido ao ouvir o cumprimento. Achas que és bonita, Helena? Perguntou-se, respondendo logo que sim, mas recomposta, a cabeça inclinada para o chão.

- E agora? - quis saber alguém num sussurro.
Outra voz desconhecida retorquiu que tinham de esperar pelos carros.
- Ficaram à entrada do cemitério.
- Eu vim a pé.
- Se quiser pode ir connosco.
Helena teve uma sensação desagradável quando lhe pegaram pelo braço, um senhor idoso, com mau hálito, que insistiu em lhe contar que em 39, uns meses antes da guerra rebentar, comprara “ao seu papá, que Deus tenha, um Packard, uma marca muito boa que já não há”, e que com esse carro tinha começado a sua prosperidade.
- Graças ao seu papá, minha querida menina! Um santo!
Talvez fosse sem maldade, mas o velho movia mão ao longo do braço dela com apertos inquietos e nervosos, que tanto podiam ser emoção como luxúria. Fez um gesto de agradecimento e livrou-se, os olhos baixos, contrição fingida, achando graça à sogra que desde a revolução de 74 não se cansava de dizer: “Eu cá não acredito em Deus nem no Diabo. Só no dinheiro. Ele é que nos ajuda e que nos salva. Nosso Senhor é uma boa treta”, e agora caminhava amparada ao padre, o rosário na mão.

- Linda viúva.
- Boas pernas e dinheiro como chuva.
Era incrível. Nem sequer reparavam que o burburinho dos passos não bastava para abafar as vozes. E de novo as recordações. Estava a pentear-se quando telefonaram da Polícia. Urgente. Sim senhora. O funcionário dizia ‘”xim xenhora”. Pousou o aparelho, corrigiu a maquillage e só então avisou os sogros de que o António tinha tido um acidente.
Era curioso pensar que nunca entrara num hospital - aquela vez que partira a perna tinha sido internada numa clínica particular e não contava - e o ar abafado, quente, fazia-lhe lembrar o colégio, as freiras, o cheiro de sopa e creolina.
A enfermeira disse-lhe que ia demorar porque tinham de operá-lo, e ela sentou-se no corredor, calma, olhando em torno aquele ambiente desconhecido, perplexa de que a monotonia do dia terminasse em tragédia.

- Não se pode fumar.
Não tinha dado pelo rapaz, talvez porque a cadeira de rodas não fazia ruído.
- Ali na salinha pode-se, mas aqui é proibido - acrescentou ele com um sorriso.
Sorriu também e guardou o maço de cigarros na bolsa.
- Está à espera de alguém? Família? Com certeza algum desastre.
Helena acenou que sim e ele fez rodar a cadeira vagarosamente, colocando-se diante dela:
- Nem era preciso perguntar, porque para aqui só vêm os desastres. Os doentes vão para cima. Eu estou cá vai em sete meses e tive sorte, sabe? Só fiquei paralítico da cinta para baixo. Mas se a senhora quer ver o que é desgraça, abra aquela porta. Está ali um que não tem braços nem pernas, e ainda por cima ficou cego. Na cama parece um pacotinho. Às vezes de noite, se começa a gritar…
O motorista fechou a porta do carro e ela, aliviada, tirou o véu.

   

segunda-feira, Setembro 13

Jantar

quinta-feira, Setembro 9

Momentos (2)


Duas loiras, duas pretas retintas, as quatro naquela idade em que se é dono do mundo. Power suits de tecido caro, acessórios de luxo, em cima da mesa parafernália condizente: Blackberries , iPods, netbooks. Vodka-martinis e sorrisos deslumbrantes, como se de um momento para o outro o Sean Connery com que suas mães sonharam, ou George Clooney, entrassem no café onde, no meu disfarce costumeiro de idoso alheado e entregue à frescura da cerveja, eu lhes seguia a agitação, apanhando aqui e ali frases da conversa.
De vez em quando gargalhavam. Faziam gestos de cordialidade, acenos de concordância e compreensão. Uma das negras tinha o tique de pontear a conversa figurando aspas com os dedos, ao mesmo tempo que soprava, como se assim indicasse dificuldade ou perigo.
Interessante espectáculo, a contrastar com a pachorrice do café.
Inesperadamente, ambas as loiras e a outra negra arrepanharam a maquinaria, ergueram-se numa pressa, viraram as costas sem despedidas nem cortesia.
A dos tiques, não tenho a certeza e pode ter sido impressão minha, ficou um instante de boca aberta e os dedos no ar, talvez hesitando se fecharia as aspas.

terça-feira, Setembro 7

Momentos (1)

 
É rio modesto, há canais mais largos, mas antes de entrar na cidade faz ali curva, dando uma impressão ilusória de grandeza. Na margem, a esplanada do restaurante é local favorito de gente bem na vida, trintões agarrados à lembrança da juventude passada, raparigas muito capazes em fintar o tempo. Janta-se bem.
Mediana na estatura, decote generoso, cigarro entre os dedos, a mulata entrou sozinha, espalhafatosa no modo e na minissaia branca, onde em maiúsculas desproporcionadas se lia: STOP ANIMAL ABUSE.
Passou pela minha mesa, fez vaivém por entre os grupos, falando a um e a outro, que abanavam a cabeça e lhe sorriam de circunstância. As mulheres, todas mais altas, mais jovens, mais bonitas, voltavam-lhe as costas, ou encaravam-na como se tivessem dificuldade em enxergar.
Agarrou um quarentão pelo braço. Ele ouviu-a, sorriu, e com um encolher de ombros de desculpa foi adiante. Depois, sentada a uma mesa próxima, demorou até que lhe trouxessem um copo de vinho branco que foi bebericando com vagares e um rosto de desespero. Levantou-se, deixando o copo meio, e o empregado disse que estava bem, não precisava pagar, não tinha importância, deu-lhe as boas-noites.
Vi-a depois, única caminhante na berma da estrada, as maiúsculas da bizarra minissaia gritando ao mundo que não se deve maltratar os animais.

quinta-feira, Setembro 2

Sem rei e sem Deus


Eles, e agora também elas – teremos de arranjar  pronome pessoal para o conjunto, que o eles é machista – discutem, analisam, criticam, propõem. São a favor uns, outros são contra, mas todos mudam, reviram, esquecem, juntam-se, desunem-se, instáveis e irregulares como as ondas do mar.
Sabem de política e futebol. Argumentam e tratam longamente, exaustivamente, de política e futebol. Fingindo esquecer que a política é para poucos e o futebol  reserva particular dos engravatados da FIFA que, com a franqueza bruta da economia de mercado, mostram que mandam nos governos, não se lhes dando que cor têm.
Sabem de rock e carros topo de gama, cinema, Scarlett Johansson, Monica Belluci, Derrida, Duchamp, sabem até das razões do Irão e das desigualdades do Iraque, da Palestina, da União Europeia.
Mas é fachada. Só fachada e medo, cortina de fumo, porque se sabem… Não. Porque nos sabemos, sem rei e sem Deus. Porque continuamos a ser os Alpedrinhas, “das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho.”
“Desventuroso Alpedrinha!  Tu eras o derradeiro Lusíada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do desconhecido te levara, como eles, para essa terra de Oriente, donde sobem ao céu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei. Somente não tendo já, como os velhos Lusíadas, crenças heróicas concebendo empresas heróicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas – descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios." (*)
…….
(*) Eça de Queirós – A Relíquia


quarta-feira, Setembro 1

O Halteres


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Arde nas labaredas do Inferno desde o Outono de 1940, o "Halteres", o sádico que nas aulas de ginástica nos deixava pendurados nas barras até que caíamos, gozava de nos ver trambolhar no trampolim, gargalhava se no salto perdíamos o equilíbrio e aterrávamos de costas.
Que o anjo das trevas continue a fritá-lo por séculos e séculos, ámen, e de vez em quando o espiche com água gelada, como ele nos fazia nos chuveiros do balneário no pino do Inverno.
Sempre de sobretudo, óculos defumados, as mãos atrás das costas, catarro, pele de tísico. E vá de assentar uma lambada neste, passar a outro uma rasteira, explicando com voz de fumador que  não queria ali Mariazinhas.
- Agarra o trapézio, palerma! Despacha-me essas patas, ó urso!
Uma manhã, quando esperávamos por mais uma sessão de tormento, Nossa Senhora das Dores fez o milagre: vieram-nos dizer que estava no hospital e nunca mais o vimos.