Quinta-feira, Setembro 30

Outono

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O Outono, na aldeia, começa com a partida das andorinhas e a pendura, nas traves, das uvas que se hão-de comer pelo Natal.

Terça-feira, Setembro 28

Pontos no "i " e vingança do Além

Enviado por mão amiga, o texto que segue, da autoria de Bruno Vieira Amaral, foi publicado no jornal “i” semanas atrás. Antes, porém,  que você ao lê-lo se sinta tentado/a a chamar-me nomes feios e a assacar-me qualidades que creio não ter, paciente com o seu juízo até ter lido também o meu parecer. Pense depois o que quiser. É o seu direito, serei eu o último a levar-lho a mal.



“Num meio pequeno é assim que se sobrevive. As raivas, as invejas e os ódios vêm esporadicamente à tona, por vezes explodem, mas logo depois tudo assenta e o dia-a-dia continua a arrastar-se, sempre igual, imutável na sua fingida serenidade.” p. 107

A Amante Holandesa começa num registo evocativo da infância numa aldeia de Trás-os-Montes. Rentes de Carvalho (n. 1930) banha o relato de nostalgia: os sonhos de um rapaz pobre, os montes desertos, o comboio da linha do Sabor. Gradualmente, a história vai ganhando contornos mais negros. As recordações de Amadeu, ex-emigrante na Holanda e regressado à aldeia com a mágoa de ter deixado para trás mulher e filha, adensam o sentimento de frustração do narrador, amigo de infância de Amadeu e professor de História em Bragança. O rememorar de uma paixão avassaladora nas palavras de um homem simples e analfabeto perturba o professor, magoado com a vida, desiludido com o casamento e mortificado por segredos fundos e perigosos. Aquela história alheia, quase romanesca, acirra o demónio dos seus próprios falhanços, da monotonia da sua existência.

Um primeiro clímax encerra a metade inicial do romance, mas o mote para o que se segue já está lançado. Rentes de Carvalho pega nas pontas soltas e estica as cordas até um máximo de tensão. Então tudo se precipita e os pequenos incêndios na vida do professor alastram num grande e incontrolável fogo: o casamento, a relação com as gentes da aldeia e as consequências dos pecados ocultos. No meio da devastação, é a chegada da filha de Amadeu, fantasma e aparição, que oferece ao professor uma última esperança.

Uma personagem como a do professor, que nos faz balançar entre a repulsa e a empatia, é uma enorme criação literária. Apesar de ser vítima dos comportamentos gregários e ferozes dos habitantes da aldeia, compreende-os e perdoa-os porque também ele anseia pelo perdão que lhe é negado. Com uma linguagem dura e terna, simples e carregada de sentido, Rentes de Carvalho recria na perfeição a vida num meio pequeno e disseca as entranhas de um povo – a obsessão com as vidas dos outros, a crueldade que explode em violentas erupções para logo se camuflar nos hábitos rotineiros, os ódios alimentados na sombra, os desgostos inomináveis.

Aos 80 anos, com uma obra que faz lembrar um Vergílio Ferreira depurado de derivas filosóficas, Rentes de Carvalho afirma-se como mestre tardio e absoluto da nossa literatura.

Semelhantes palavras são, deveriam ser, néctar para a alma de um escriba. Agradaram-me? Pois agradaram, ou melhor: deveriam ter agradado, não fosse o senão de que, dezenas de anos passados, quando que pela primeira vez o li, logo Vergílio Ferreira se tornou uma das minhas bêtes noires.
Desde a má prosa à pedantice, desde a vaidade, ao orgulho e às pretensões de eminência, tudo no homem me desagradava e irritava. Lia-o por obrigação de ofício, mas ao longo de quase três décadas, os meus estudantes de então de certeza recordam a desmesurada fúria que me causava o sujeito e a sua empolada e nevoenta prosa.
Assim, ver-me agora comparado com ele não deve ser obra do acaso. Desconfio haver aqui intervenção do Além, sou levado a pensar que o jovem Bruno Vieira Amaral, julgando escrever pela sua mão, “ouviu vozes” e serviu de inconsciente médio a uma manhosa vingança do autor de Manhã Submersa.
………………
PS. No homem até aquele V(e)rgílio me irritava.


Segunda-feira, Setembro 27

Momentos (4)

O porteiro tinha-lhe dito  que era no terceiro andar, à esquerda do ascensor, a última porta. Sala grande, uma secretária  de tampo brilhante, ambos sentados lado a lado como juízes num tribunal. O chofer  encostado à ombreira da janela, uma silhueta no contraluz.
- Então?
Defronte deles, em pé, encolheu os ombros, tentou um sorriso, teve a sensação de que o medo lhe esvaziava o corpo.
- Então? – repetiu o mais velho.
- Não consegui. Mas tenho a certeza que daqui a uma semana, no máximo duas, quinze dias, quando os…
- Que certeza?
De súbito o chofer estava à sua frente, uma mão a segurar-lhe o ombro, o soco da outra atirando-o às arrecuas, a face inchada, um gosto de sangue.
Ergueu-se lentamente, esperando mais violência, mal ousando encarar os irmãos. O chofer aproximou-se e deu-lhe um empurrão, depois outro, abriu a porta com uma vénia de desprezo.
- Tens uma semana.
No espelho do ascensor viu a face inchada, um fio de sangue a correr do olho já roxo.
Discreto ou indiferente, o porteiro pareceu não dar conta e fez-lhe uma espécie de continência distraída.

Domingo, Setembro 26

O sol da manhã

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Sábado, Setembro 25

Personagem


Está só. Intensamente só num escuro sem alívio. Do marido nunca fala. Os filhos, de quem esperava uma forma de salvação, são-lhe agora peso e cadeia. Acarinha-os, maternal, mas para a mulher que é, vibrante na força, nos desejos e sonhos dos quarenta, são estranhos que lhe roubam o sossego e constantemente a tiram do sonho.
Odeia-se e odeia tudo à sua volta. Odeia em grande a hipocrisia a que se obriga, o mau e mesquinho teatro em que a sua vida se tornou. A vida de que tanto esperava, pois beleza não lhe falta, inteligência tem de sobra, nem vagamente conseguiria imaginar o que são aflições de fim de mês. Em frases sóbrias, quase com secura, analisa o que lhe acontece. Ainda tem perguntas, mas já não se interroga sobre o que valerá a pena, porque sabe que chegou à soleira da desistência e da escuridão. Só. Intensamente só. Palavra nenhuma lhe dará conforto. No amor deixou de acreditar. Amizades não quer. Sabe, sente, que já não é quem era e, alienada de si própria, se vai tornando um rancoroso personagem.

Sexta-feira, Setembro 24

Blogo ergo sum

Tecer enredos, criar personagens, relatar um caso, construir uma história, com um bocado de prática nada disso é trabalho de maior. Difícil, sim, o dar-lhe qualidade, descobrir-lhe os como, porquê e para quê. Na era do papel e pena, depois no tempo da máquina de escrever, havia uma possibilidade remota, sonhava-se de acordar um dia com aquilo impresso, prova de que se estava no mundo e um degrau acima do comum.
O sonho permanece, mas a internet acrescentou-lhe uma extraordinária e perigosa ilusão. Publicamo-nos, lemo-nos, existimos no mundo, de certeza outros nos lêem e nos conhecem, pois um blogue é loja de portas escancaradas.
Bem avisado se mostra aquele que não quer inquirir do Sitemeter quantos lá entram por acaso, quantos passam sem entrar.

Quarta-feira, Setembro 22

Basic Instinct

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Lembraria ao Diabo? Provavelmente, porque é especialista em tentações, mas ela não lhe fica atrás, ao contar a cena o seu lindo sorriso aproxima-se do diabólico.
O Batoque, alcunha que lhe dão na Câmara, tinha preparado bem as coisas. Seria sexta à noite, quando a mulher ia para a formação e a pequenita ficava com a avó.
Ao mesmo tempo que o beijava na face não pôde deixar de sorrir com a transparência da estratégia. Diminuíra as luzes, sobre a mesa arranjara os pratinhos de amêndoas e avelãs, a garrafa de Jack Daniel’s,  a marca de que ela gosta, copos de cristal, os sofás frente a frente.
Sorriu também de vê-lo de calções, t-shirt, os pés numas sapatilhas de plástico azul, curioso traje para um D. Juan. Ele cumprimentou-a pela elegância, arregalou brincalhão os olhos para o decote, seguiu a tira de ventre nu, parou-os na minissaia, disse que achava aqueles brincos muito bonitos, e o colar também, bonito mesmo.
Beberam. Falaram dos colegas, das dificuldades com o presidente, da estrada nova, das obras do saneamento. Falaram de música. Falaram de cinema. Para ele cineasta nenhum igualava Woody Allen. Se bem que… Tinha ela visto Basic Instinct? Formidável. Havia outros bons, muito bons, só que no Basic Instinct!
Garante, mas a gargalhada contradi-la, jura que foi por acaso, nem estava a pensar, ao cruzar as pernas demorou talvez dois segundos em vez de um. E a ferramenta do Batoque inchou nos calções, tremia-lhe o queixo, bebeu com a pressa de quem decidiu.
Foi então que o telemóvel tocou e ele falava ainda quando a porta se abriu e a mulher, beijocando, disse que a formação acabara mais cedo, e que se o Gabriel lhe tivesse dito que senhora engenheira vinha, nem tinha saído.

Segunda-feira, Setembro 20

A arte de ler



Com a idade todos perdemos a inocência, mas muitos são os que ao mesmo tempo também perdem a arte de ler que a inocência lhes tinha ensinado. Quando agora  lêem não se deixam arrastar pelas peripécias, não lhes interessa a beleza das palavras, escapa-lhes o enredo, aborrece-os a novidade. A leitura torna-se-lhes o espelho onde procuram o reflexo das suas grandes e pequeninas raivas, dos seus desapontamentos. Em vez de aprender ou tentar  compreender, projectam nos personagens o que no íntimo carregam de aversões e ódios, antipatias, desgostos, inconscientemente fazem da leitura um instrumento de agressão.
Aquele personagem de certeza é pedófilo, e eles odeiam pedófilos. Nos romances de fulano todas as mulheres são bonitas, longas das pernas, perfumadas, elegantes no modo! Um nojo. Só um homossexual inventa uma mãe assim! Este nunca viveu numa aldeia!


É pena, mas verdade: na vida ou na leitura dificilmente se reganha a inocência perdida.

Sábado, Setembro 18

Momentos (3)

(Não clique, não aumente)

Zandvoort é a praia de Amsterdam. Vinte minutos de carro, se tanto. Sempre multidão, mesmo na esplanada do hotel Bouwes, the place to be e poiso favorito da “plebe de luxo” (em holandês: luxe penoze) dos Rolex genuínos, Cayennes, Carreras, Jaguars, diamantes, putas que não parecem putas, champanhe, Partagas, muito riso, aqui e ali turistas de olhos arregalados, perguntando-se se aquilo será filme ou televisão, porque realidade não parece.
Sabendo-o imprevisível não me perguntei porque marcara o encontro em semelhante lugar, pois com mais conforto e menos viagem teríamos falado no seu escritório ou num dos cafés da vizinhança. Mas não senhor:
- No Bouwes. Às seis.
- Pois sim.    
Vejo-o aproximar-se, sessentão erecto, impecável no modo e no fato, aperto de mão a este, sorriso àquele, aceno breve aos que já defendeu no tribunal, abraço ao colega, beijinho à dama.
Senta-se de costas para eles, diz ao empregado que também quer cerveja, faz um esgar de enfado, mas em vez de entrar no assunto do encontro pergunta à queima-roupa:
- Quantas vezes urinas por hora?
- Quantas vezes? Não faço ideia!
A expressão do seu rosto impede-me de rir e ele explica. Com a  próstata  não tem problemas, mas disseram-lhe, e parece que é mesmo sério, urinando quatro ou mais vezes por hora sem sofrer da próstata indica isso problema cardíaco. Coisa grave. Era o que lhe acontecia agora. Mas não queria ainda consultar o médico, perguntava aos amigos.
Não pedi explicações, não o contradisse, não minimizei a sua preocupação. Deixei-o falar. E ele falou, longamente. Dos medos, da velhice, dos amores falhados, dos desencantos. Continuou durante o jantar. Decidimos depois que o nosso assunto ficaria para outra altura, mas quando nos separámos tive de sorrir, porque nas quase cinco horas de convívio não tinha ido à casa de banho.

Quinta-feira, Setembro 16

Bobby (1995-2010)

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Os pouco entendidos dirão que era apenas um cachorro. Para nós foi amigo de quinze anos, com quem não era preciso fala para que nos entendêssemos. Gentil, carinhoso, inteligente, brincalhão, cavalheiro de variados amores, com mais schmisse do que um estudante de Heidelberg, trazia-nos à porta as namoradas e os zorros dos seus amores, certo de que haveria comida e carícias para todos.
Morreu esta madrugada, sentindo que nos deixava, mas certo de que seríamos muitos a carpi-lo, mesmo alguns daqueles que fingem dureza para que não se lhes veja o pranto.
Voltámos  há pouco de enterrá-lo  e, pela terceira vez este ano, encontramos a casa mais vazia, sentimo-nos mais sós.

Quarta-feira, Setembro 15

É do sol

Pena sinto de não ter aprendido uma profissão, uma daquelas com regras, medidas, trabalhos que se começam, acabam, e nos deixam com obra que se veja. Porque a escrita me dá cada vez mais a ideia de que ando a enganar o alheio e a mim próprio.
Isto de escrever são neblinas, fumos, a fatiota inexistente do monarca, dança que você eu dançamos, fingindo ouvir música que banda nenhuma toca.
Sejamos francos: em cada século haverá uns quantos, não muitos, escritores que verdadeiramente enriquecem a humanidade. Mas que proveito vem ao mundo da colossal  pirâmide dos milhões de livros que descarregamos com a ajuda das cloacas do comércio?

Sinto-me cansado, tenho dormido mal, este calor não ajuda a disposição, e a gastronomia dos dias em que vim de viagem também não foi propícia. Mas o céu promete chuva e frescura, pelo que é bem possível que eu amanhã acorde optimista, louvando o Senhor, jurando com dobrado entusiasmo o avesso do que acima digo.

Terça-feira, Setembro 14

Ter sorte

- Quarenta e quatro anos é a força da vida.
- A juventude.
- O melhor tempo.
- Lembro-me como se fosse ontem. Eu tinha quarenta e dois quando casei pela segunda vez. O que aconteceu ao rapaz, francamente, é uma grande pena.
- Uma tragédia.
- De facto.
Ela ouvia as conversas dos conhecidos em redor, mas sem realmente se dar conta, absorta ainda no cerimonial do enterro e em recordações que de súbito se lhe apresentavam com uma importância absurda. Coisas antigas, momentos esquecidos de há anos e incidentes comezinhos, cenas estúpidas. Era incompreensível lembrar-se agora em detalhe que ele, no dia do desastre, insistira em vestir umas cuecas de xadrez vermelho trazidas da América. Ou que tinha de pagar duzentos e vinte euros à livraria, um engano na conta de Janeiro. Telefonar mulher do Fernandes por causa do corrimão.
- E bom rapaz.
- Bom rapaz.
- Agora a Helena, nova e bonita como é, com a fortuna que herdou do pai o ano passado, mais o que lhe vem por parte do António…
Baixou a cabeça e afastou-se, antes que se dessem conta de que os ouvira. Rica, sim, era. Bonita? Felizmente o véu cobria-lhe o rosto, ninguém veria que tinha sorrido ao ouvir o cumprimento. Achas que és bonita, Helena? Perguntou-se, respondendo logo que sim, mas recomposta, a cabeça inclinada para o chão.

- E agora? - quis saber alguém num sussurro.
Outra voz desconhecida retorquiu que tinham de esperar pelos carros.
- Ficaram à entrada do cemitério.
- Eu vim a pé.
- Se quiser pode ir connosco.
Helena teve uma sensação desagradável quando lhe pegaram pelo braço, um senhor idoso, com mau hálito, que insistiu em lhe contar que em 39, uns meses antes da guerra rebentar, comprara “ao seu papá, que Deus tenha, um Packard, uma marca muito boa que já não há”, e que com esse carro tinha começado a sua prosperidade.
- Graças ao seu papá, minha querida menina! Um santo!
Talvez fosse sem maldade, mas o velho movia mão ao longo do braço dela com apertos inquietos e nervosos, que tanto podiam ser emoção como luxúria. Fez um gesto de agradecimento e livrou-se, os olhos baixos, contrição fingida, achando graça à sogra que desde a revolução de 74 não se cansava de dizer: “Eu cá não acredito em Deus nem no Diabo. Só no dinheiro. Ele é que nos ajuda e que nos salva. Nosso Senhor é uma boa treta”, e agora caminhava amparada ao padre, o rosário na mão.

- Linda viúva.
- Boas pernas e dinheiro como chuva.
Era incrível. Nem sequer reparavam que o burburinho dos passos não bastava para abafar as vozes. E de novo as recordações. Estava a pentear-se quando telefonaram da Polícia. Urgente. Sim senhora. O funcionário dizia ‘”xim xenhora”. Pousou o aparelho, corrigiu a maquillage e só então avisou os sogros de que o António tinha tido um acidente.
Era curioso pensar que nunca entrara num hospital - aquela vez que partira a perna tinha sido internada numa clínica particular e não contava - e o ar abafado, quente, fazia-lhe lembrar o colégio, as freiras, o cheiro de sopa e creolina.
A enfermeira disse-lhe que ia demorar porque tinham de operá-lo, e ela sentou-se no corredor, calma, olhando em torno aquele ambiente desconhecido, perplexa de que a monotonia do dia terminasse em tragédia.

- Não se pode fumar.
Não tinha dado pelo rapaz, talvez porque a cadeira de rodas não fazia ruído.
- Ali na salinha pode-se, mas aqui é proibido - acrescentou ele com um sorriso.
Sorriu também e guardou o maço de cigarros na bolsa.
- Está à espera de alguém? Família? Com certeza algum desastre.
Helena acenou que sim e ele fez rodar a cadeira vagarosamente, colocando-se diante dela:
- Nem era preciso perguntar, porque para aqui só vêm os desastres. Os doentes vão para cima. Eu estou cá vai em sete meses e tive sorte, sabe? Só fiquei paralítico da cinta para baixo. Mas se a senhora quer ver o que é desgraça, abra aquela porta. Está ali um que não tem braços nem pernas, e ainda por cima ficou cego. Na cama parece um pacotinho. Às vezes de noite, se começa a gritar…
O motorista fechou a porta do carro e ela, aliviada, tirou o véu.

   

Segunda-feira, Setembro 13

Jantar

Sexta-feira, Setembro 10

Almoço no Ritz

                                            
Nos meus anos de tropa Madame Blanche, num primeiro andar da Rua da Glória, distin­guia-se entre os bordéis de Lisboa pelo grande número de mulheres, o ambiente e, para­doxalmente, o decoro. Tenho memória de um desmedido salão cheio de sofás e banquetas onde raparigas de ar recatado, sozinhas ou conversando em pequenos grupos, aguardavam com o bel-prazer dos clien­tes. Havia algumas mesas, alguns móveis aparatosos, uns quan­tos quadros discretamente eróticos e pesadas cortinas que, mesmo nos dias soalheiros, mantinham uma agradável penumbra.      
            Para assegurar uma certa selecção da clientela, porque os preços não eram excessivos, a própria madame Blanche sentava-se a uma escrivaninha junto da porta e, espreitando pelo ralo, decidia se o aspecto do freguês lhe inspirava confiança. Os recusados tinham o mau costume de por despeito urinar na escada, cuja madeira, impregnada ao longo dos anos de mijo e creolina, acabara por dar à entrada um odor estran­ho, mas de forma nenhuma repelente, antes agradavelmente familiar.
            A partir das duas da tarde e pela noite fora Madame Blanche não era apenas bordel, mas local de encontro, de cavaqueira, com clientes assíduos que liam o jornal, tratavam negócios e confiavam às raparigas e à patroa os detalhes dos seus contratempos e achaques.
            De vez em quando, feita a escol­ha com um gracejo ou um sorriso, um deles saía para o andar de cima. Alguns bebiam mais um café, mais uma cerveja, e espera­vam ainda, enquanto outros rezingavam se a sua favorita não estava ou se ela, "infiel", lhes não guardava a primazia e ia com outros.
Travavam-se amizades, trocavam-se confidências, ria a gente com as anedotas, e desde que se obedecesse às duas regras principais da casa - madame Blanche não queria "porca­rias" no salão, nem admitia bebedeiras - passavam-se ali momentos agradáveis, tinha-se a ideia de pertencer a um clube que, além de acolhedor, oferecia a vantagem de não exigir entrada nem impor a obrigação do "consumo".
            Infelizmente, duas vezes por mês, quando um famoso navio de passageiros italiano da linha da América (cujo naufrágio, anos mais tarde, viria a ser uma das grandes tragédias marítimas do nosso tempo) tocava em Lisboa, madame Blanche fechava a porta à sua freguesia habitual.
            O estabelecimento era então reservado  para os oficiais do dito paquete que, a acreditar nos boatos, aí faziam grandiosas orgias onde também os passagei­ros, tanto homens como mulheres, tomavam parte.
            Madame Blanche preferiria que as coisas se passassem doutro modo, porque no seu próprio dizer os italianos eram "uns porcos", além de que no dia seguinte, exaustas, as raparigas "não valiam um pataco." Mas como esses dois dias lhe rendiam mais que o resto do mês, tinha ela de recusar os clientes certos que, ao dar com a porta fechada, caminhavam morosamente para o Rossio em busca de um café e de alívio para o seu estado de almas penadas.
            Uma tarde, ao subir a escada, descortinei no patamar um rapaz a espreitar curvado contra a porta.
            - Fechada - disse ele irritado. - Os sacanas têm outra vez a casa por conta e estão no banzé. Olha aí.
            Curvei-me também, mas só vi o vestíbulo vazio. Ouviam-se sons longínquos de música e de risos, uma gritaria alegre de festa.
            - Então? - perguntou ele.
            - Não se vê nada.
            - Pois eu ainda agora mesmo vi passar a Simone em pêlo, com um chicote na mão, montada num sujeito que ia de quatro patas aos guinchos e aos coices, a fingir de cavalo.
            Ao mesmo tempo que falava ele voltou a espreitar, mas como de facto também não via mais nada, resolveu descer as escadas comigo e acompanhar-me ao café.
Na rua estendeu-me a mão, disse que se chamava Carlos Palma, miliciano em Caçadores 5. Como era domingo e ambos estávamos livres, con­versámos durante o resto da tarde e acabámos por jantar jun­tos.
Filho de lavradores de Alcobaça, gente abastada em poma­res e vinhas, o Palma era jovem demais para ter história, mas falava pelos cotovelos. Do muito que contou recordo o caso de um tio que, em moldes clássicos, se tinha apaixonado por uma mulher da má vida que, pouco a pouco, lhe fora "comendo" os bens e o deixara tão depenado que o pobre homem vivia da caridade da família. O exemplo, disse o Palma, era assustador bastante para que jamais deixasse que lhe viesse a acontecer semelhante coisa, mas o vício com certeza vinha de família.
- Conheces a Rosa? - perguntou ele inesperadamente. - Uma alta, de cabelos castanhos, olhos castanhos.
Eu não a conhecia e ele estranhou, porque na Madame Blanche era das raparigas que dava mais na vista. Pois desde a primei­ra vez que tinha ido com ela para a cama, não aguentava passar o dia sem a visitar. E se não estava, ou se a via ir com outro, parecia-lhe que dava em doido. Por isso andava com ideias de a pôr por conta. Era só ela querer e a patroa deix­ar, porque o ordenado junto à mesada que lhe davam os pais, bastava à larga para dois.
- Palavra que a não conheces? Nunca foste com ela?
Repeti que não, irritado com aquela insistência, e ele abraçou-me aliviado, dizendo que não tinha dúvida que ficáva­mos amigos. Se um dia calhasse apanhar na rua um dos gajos com quem ela ia, não lhe deixava um osso inteiro. E eu não duvi­dei, porque o Palma, além de forte, tinha nos olhos um brilho de loucura.
    
Voltámo-nos a ver anos depois em Paris, onde ele passara a morar. A nossa camaradagem tinha-se mantido, mas pouco mais que superficial, com encontros fortuitos, uma carta de vez em quando. Para ele a vida militar parecia ter sido o grande momento da sua vida, e se se referia às amizades então travadas descaía numa linguagem melada e romântica, cheia de "gajos porreiros", "belas farras", "noites de pândega."
- Vamos almoçar juntos. Pago eu.
Olhei-o com surpresa e alguma suspeita, porque não o tinha por mãos-largas, nem me lembrava que ele jamais me tivesse convidado.
Tomámos um táxi. Absorto nos meus pensamentos, só já dentro do restaurante me dei conta do luxo do estabelecimento para onde me levara e onde, a avaliar pelos rapapés e cortesi­as, era cliente estimado. O chefe de mesa, ligeiramente de­bruçado para apresentar o menu, sussurrava recomendações sobre os diferentes pratos, tratando-o por monsieur Palmà, sorrindo-lhe com a deferência que se guarda para o cliente magnânimo nos gastos e nas gorjetas. Monsieur Palmà!
- Também queres lagosta? Então vamos os dois neste Sauté de homard aux deux poivres et au gingembre. E de vinho?
O sommelier aproximou-se para recomendar o Pommard 61, ele aprovou, eu aceitei com um encolher de ombros, desconfian­do que o almoço não havia de terminar sem que se esclarecesse o fito de tanta e tão inesperada generosidade. Mas por enquan­to íamos debicando amuse-gueules, sorvendo goles de uma mistura de sumos exóticos, licores e champanhe, com um ligeiro odor a sabonete e a consistência de gemada.
O Palma recostou-se na cadeira e sorriu, tentando afastar o meu humor sombrio: - Nós aqui na bela Paris, o sol a bril­har, boa mesa, boa pinga, e o camarada do 7 de Infantaria com cara de enterro! Arriba, homem! Desabafa!
Eu tinha nesse dia razões de sobra para ideias tristes, mas avesso a interrogatórios e sem ter com ele a confiança que dispõe a confidências, pareceu-me mais seguro levar a conversa para o seu tema favorito. Falámos da tropa. E de Lisboa. E de Madame Blanche.
- Ah! A Madame Blanche! Não é nada do que foi, sabes. A madame trespas­sou o negócio. A casa está rasca, vai lá quem quer. Entram marujos, entram caixeiros... Ainda te lembras da Rosa?
Mais para lhe dar motivo de continuar do que por espírito de contradição, respondi que me não lembrava.
- Nem daquele caso do meu tio Miguel? Que por causa duma amante quase que acabou a pedir esmola?
- Vagamente.
Ele contou tudo outra vez, e que quando por fim pusera a Rosa por conta, também ela o depenara em dois tempos. Isso, porém, eram águas passadas. Com a herança de uma avó recompusera as finanças, tinha escapado aos pais e a Alcobaça, e estava agora nuns negócios que, se tudo corresse bem, o tornariam milionário.
- A nous deux, Paris!- exclamou ele entusiasmado.
Não lhe perguntei que negócios eram, e ele também não mo contou, distraído talvez pelo chefe de mesa que voltara para perguntar se, como de costume, monsieur Palmà desejava que com o café fosse servido o Baron Otard 1929. Palma acenou que sim e pediu charu­tos.
- Mesmo assim tenho boas recordações da Rosa. Mau caráct­er, mas corpo excepcional. E então na cama, meu velho!... De se lhe tirar o chapéu. Absolutamente. Se bem que a rapariga que tenho agora, a Colette, não lhe fique atrás. Excepcional! E uma francesa sempre é outra coisa. Tem mais cachet, não achas?
Concordei, ao mesmo tempo que me ocupava a acender o enorme Monte-Cristo que ele me aconselhara. Com o conhaque brindámos ao nosso reencontro, à felicidade mútua e, a seu pedido, brindá­mos ainda para que no mundo não acabasse a raça das belas mulheres. Numa transição brusca quis ele saber como iam os meus negócios, e quando lhe respondi que iam mal assombrou-se.
- Então vão mal? 
Confirmei que assim era. Por mais que tentasse, já há dois anos que a roda da minha fortuna não fazia senão desan­dar, e tudo o que eu empreendia dava em fracasso.
- Isso é o diabo - disse ele, num tom pesaroso demais para ser sincero. - Mas talvez eu te possa dar uma oportunid­ade. Tenho aí num armazém um lote de botas de pára-quedistas. Cinco mil pares. Fabrico alemão e ainda na embalagem de ori­gem. Lona de primeira. Boas para o deserto ou para a África. Uma pechincha a nove dólares o par. Que te parece?
Tive que o desiludir, porque nem o calçado era negócio de que eu entendesse, nem dispunha de capital.
- Então nada feito, meu caro! - gargalhou ele. - Já que não me compras o raio das botas, ficas-me a dever um almoço. E eu daqui vou-me meter na cama com a Colette.
Na rua ainda gracejou que não me esquecesse de dar reco­mendações suas às belas holandesas: - Apareço um dia por lá e levo-as todas a eito! 

Do terraço do hotel a vista sobre o lago de Genebra era a que se espera dum postal suíço e por um instante esqueci a mul­tidão sentada à minha volta, corri os olhos pela verdura das encostas, pelas montan­has ainda com neve nos cumes, os meand­ros do rio, a cidade banhada de sol.
O pigarro do Palma tirou-me da contemplação e ao encará-lo ouvi-o dizer num desnecessário sussurro: - Ele não tarda. Agora mesmo estava a falar com o porteiro.
E de novo, como a temer que me tivesse equivocado, ou por qualquer razão não tivesse sido sincero, repetiu que estranha­va que eu não conhecesse o Garcia:
- É o Garcia! O Garcia das minas de cobre, aquele caso de que no ano passado se falou tanto nos jornais.
O homem veio para nós sorridente, de fato branco, camisa verde e gravata a condizer, um cinquentão gorducho, as ondas do cabelo domadas pela brilhantina. Palma murmurou as apresen­tações. Apertámo-nos as mãos e ele sentou-se vagarosamente na cadeira, cuidadoso no alinhar do vinco das calças, recusando beber connosco.
- Obrigado, não tomo nada. E desculpem, mas tenho pouco tempo. Estou aí em negociações com os sobrinhos do sheik de Qatar, que vieram com a comitiva. Alugaram um andar inteiro.
Um grupo de árabes de albornozes brancos passeava na esplanada de cá para lá, alguns em conversa animada, outros escutando com deferência e movendo nervosamente entre os dedos rosários de âmbar. Ele acenou-lhes, mas nenhum correspondeu.
- É aquela mania dos óculos muito escuros. Não enxergam nada. Além disso estão meio incógnitos. Coisas de armas, de petróleos... Temos encontrado marcado com o ministro para hoje à tarde.
Porque eu me não mostrava impressionado, ou simples antipatia, o certo é que o homem praticamente me virou as costas e, ignorando a minha presença, começou com o Palma uma longa conversa de recordações e esperanças, de planos para quando lhe sobrasse o tempo. Maus negócios que tinham acabado bem, negócios fracos que a sorte tornara rendosos, esquemas com que um dia, havendo accionistas, ele se propunha realizar uma fortuna igual à de Crésus. Ou à de Onassis, seu exemplo favorito.
Na minha opinião o Palma tinha feito asneira em me cha­mar. Eu conhecia o género de conversa e o tipo de homem de negócios que vive de expedientes, envolto num vocabulário de mistério e névoas como o da feitiçaria. "Se o nosso grupo estiver de acordo... Quando os financeiros chegarem aí..." Não há grupo, há escritórios nas salas de trás de prédios caducos, com o aluguer em atraso, uma mesa e duas cadeiras, máquinas poeirentas, uma aparência de arquivo. Telefones desarranjados por falta de pagamento. Tramóias. Imposturas. E os financeiros não estiveram, não estão, não vão estar. Porque existem apenas nos seus sonhos, no desejo do golpe que torne sólida a corda bamba em que vivem. "Vamos lá a ver se desta vez dá certo. Da outra não deu, mas esteve por um fio."
Assim se arrastam, desvairados, fazendo promessas impossíveis, produzindo docu­mentos onde sempre falta um detalhe essencial. Ou é a data que não corresponde, ou a assinatura que ninguém legalizou, o carimbo tão mal falsificado que constrange. Vigaristas desses. Se estão na mó de cima nenhum gasto lhes parece excessivo, nenhuma largueza os assusta, porque é assim que compensam os momentos de terror quando os lesados os defrontam, ou a cadeia se lhes torna uma perspectiva real.
O Garcia recordou como por acaso a minha existência e quis saber se eu vinha muitas vezes a Genebra.
- De longe a longe.
- Genebra é o centro, é onde está o dinheiro! - exclamou ele. - E o dinheiro é o poder! Aqui é que se decide tudo.
Eu disse que sim, por desenfado, distraído com o repuxo do lago, vagamente descontente com as voltas da minha vida e irritado por ter aceite o convite do Palma.
Desde o encontro em Paris não nos víamos há mais de um ano e ele tinha telefonado uma noite, cheio de urgência, dizendo que me apressasse para Genebra onde iríamos encontrar o famoso Garcia, o homem que tinha entrada junto dos poderosos. O Garcia, de quem uma simples palavra de recomen­dação era o mesmo que meio caminho andado para se chegar a rico. Inexperiente e algo ingénuo, no dia seguinte tomei o primeiro avião.
O homem dos famosos negócios, porém, decepcionava. Na aparência, no esta­pafúrdio do traje, na fala e nos maneiris­mos, era vigarista de quinta categoria e parecia-me mais capaz de roubar uma anciã numa viela, do que ter cabeça bastante para inventar um golpe ou defrontar um perigo. A sua fama talvez existisse apenas na imaginação do Palma.
Julgando que eu não tivesse compreendido, ou para melhor me convencer, Garcia repetiu que era em Genebra que os negócios do mundo se decidiam.
- Porque é aqui que está o dinheiro - retorqui, cansado demais para disfarçar a ironia.
- Exactamente.
A minha resposta deve tê-lo indisposto, pois logo em seguida se levantou e, esticando de novo os vincos das calças, anunciou que sentia, mas o secretário estava a chamar que o sheik o esperava.
- Vocês desculpem, mas tenho de ir embora. A ver se doutra vez nos encontramos com mais tempo e conseguimos arran­jar alguma coisa.
Depois dum aperto de mão flácido vimo-lo caminhar em direcção à entrada do hotel, cumprimentando à esquerda e à direita, parando junto dalgumas mesas para um gracejo, uma troca de palavras.
- Pena que não se tenha podido começar nada, porque com uma ajuda dele, uma apresentação... O gajo conhece meio mundo. Tu não acreditas, mas é mesmo importante - suspirou o Palma.
- Importante uma fava.
Palma olhou-me constrangido, perguntou se eu queria mais café, ou uma cerveja, uísque. Eu não queria coisa nenhuma. Estava a deitar contas à vida, indeciso entre se valia a pena correr para apanhar o avião da uma, ou flanar pela cidade e regressar a casa no das sete.
- E agora? - perguntou ele.
- Agora nada. Tu voltas para Paris, eu volto para Amster­dam.
Ocorreu-me ainda fazer um remoque sobre o dinheiro gasto e o tempo perdido, mas calei-me, porque ao fim e ao cabo eu estava ali de livre vontade, talvez mais iludido pela minha própria ingenuidade do que pelas incitações dele.
- O diabo é que eu tenho um problema. E sério.
Olhei-o preocupado, porque o tom não admitia dúvidas.
- Que problema?
           
A sua sorte também desandara. Gasta a herança, perdidas as amantes - detalhes que eu ignorava - tinha posto no encontro com o Garcia uma esperança desmedida: arranjar ali de imediato com ele e comigo um negócio que o salvasse. Falhada a coisa, não tinha alternativa e em Paris estava "queimado". Dormia por favor num quarto. Nem sequer lhe sobrara dinheiro para comprar bilhete de ida e volta. Retornar a Alcobaça sem vintém e com o rabo entre as pernas? Não, muito obrigado. Mais depressa se atiraria ao lago.
Como eu não tinha outro modo de o ajudar, propus dar-lhe o dinheiro que me sobrava e que não era muito, mas suficiente para uma segunda classe no comboio para Paris. Fomos a caminho da estação. A cavaquear disto e daquilo, necessitados de palavras que cobrissem os nossos pensamentos e exorcizassem os nossos medos.
- Lembras-te daquele belo almoço?
- Esplêndido almoço.
- Bons tempos.
 - Belas farras na Madame Blanche também, hein? Grandes noites de pând­ega!
- É verdade - e dizendo isto puxei-o mais para dentro do passeio, porque às vezes cambaleava como bêbado e os autocar­ros quase o roçavam. Na estação despedimo-nos com fortes abraços e votos de felicidade. Assim que as coisas corressem bem comíamos outro grande almoço.
- Prometido?
- Prometido.

No táxi, a caminho do aeroporto, e depois no avião, ao rememo­rar os acontecimentos do dia dei-me conta de como é verdade que, em tempos difíceis, a solidariedade esmorece. Os meus problemas eram demasiado grandes para que me preocupassem as aflições alheias, e ao virar-lhe as costas na estação o Palma, julgava eu, desaparecera de modo definitivo da minha vida.
Mas, como ele me contaria, precisamente no momento em que nos separámos a sorte decidira bater-lhe à porta. Tinha esquecido a mala na recepção do hotel e ao voltar para buscá-la encon­trara de novo o Garcia, mas um Garcia descomposto e exausto, a gritar-lhe enraivecido:
- Onde diabos é que você se meteu!
- Fui para a estação e o caso é que esqueci aqui a ma­la...
- Qual mala, qual estação! Vamos ao sheik, homem! O sheik quer as botas!
- Mas eu já não as tenho. Empenhei-as.
- Desempenham-se!

O chefe de mesa do Ritz curva-se junto de monsieur Palmà para lhe entregar o menu, mas ele, entusiasmado com a narrativa, a sua mão a apertar-me o braço, fá-lo esperar:
- É ou não é o que se chama sorte?
- De facto é - concordo eu.
- E desde então tem sido sempre ao para cima! Nas Arábi­as, tudo quanto é soldado calça botas minhas. Queres lagosta como da outra vez?
Digo que sim, invejoso de tanta prosperidade, e oiço-o encomendar de novo o Sauté de homard aux deux poivres et au gingembre, acom­panhado agora de um Puligny-Montrachet 63.
- Mas sabes uma coisa que me dá mesmo pena? E com que às vezes até sonho? - continua ele, ao mesmo tempo que saboreia o kir. - É não ter vinte anos. E não estar em Lisboa. A esta hora, meu velho, ninguém me segurava! Fazia como os italianos e fechava-me dois dias na Madame Blanche!

*  *  *

In O Milhão, 1991

Quinta-feira, Setembro 9

Momentos (2)


Duas loiras, duas pretas retintas, as quatro naquela idade em que se é dono do mundo. Power suits de tecido caro, acessórios de luxo, em cima da mesa parafernália condizente: Blackberries , iPods, netbooks. Vodka-martinis e sorrisos deslumbrantes, como se de um momento para o outro o Sean Connery com que suas mães sonharam, ou George Clooney, entrassem no café onde, no meu disfarce costumeiro de idoso alheado e entregue à frescura da cerveja, eu lhes seguia a agitação, apanhando aqui e ali frases da conversa.
De vez em quando gargalhavam. Faziam gestos de cordialidade, acenos de concordância e compreensão. Uma das negras tinha o tique de pontear a conversa figurando aspas com os dedos, ao mesmo tempo que soprava, como se assim indicasse dificuldade ou perigo.
Interessante espectáculo, a contrastar com a pachorrice do café.
Inesperadamente, ambas as loiras e a outra negra arrepanharam a maquinaria, ergueram-se numa pressa, viraram as costas sem despedidas nem cortesia.
A dos tiques, não tenho a certeza e pode ter sido impressão minha, ficou um instante de boca aberta e os dedos no ar, talvez hesitando se fecharia as aspas.

Terça-feira, Setembro 7

Momentos (1)

 
É rio modesto, há canais mais largos, mas antes de entrar na cidade faz ali curva, dando uma impressão ilusória de grandeza. Na margem, a esplanada do restaurante é local favorito de gente bem na vida, trintões agarrados à lembrança da juventude passada, raparigas muito capazes em fintar o tempo. Janta-se bem.
Mediana na estatura, decote generoso, cigarro entre os dedos, a mulata entrou sozinha, espalhafatosa no modo e na minissaia branca, onde em maiúsculas desproporcionadas se lia: STOP ANIMAL ABUSE.
Passou pela minha mesa, fez vaivém por entre os grupos, falando a um e a outro, que abanavam a cabeça e lhe sorriam de circunstância. As mulheres, todas mais altas, mais jovens, mais bonitas, voltavam-lhe as costas, ou encaravam-na como se tivessem dificuldade em enxergar.
Agarrou um quarentão pelo braço. Ele ouviu-a, sorriu, e com um encolher de ombros de desculpa foi adiante. Depois, sentada a uma mesa próxima, demorou até que lhe trouxessem um copo de vinho branco que foi bebericando com vagares e um rosto de desespero. Levantou-se, deixando o copo meio, e o empregado disse que estava bem, não precisava de pagar, não tinha importância, deu-lhe as boas-noites.
Vi-a depois, única caminhante na berma da estrada, as maiúsculas da bizarra minissaia gritando ao mundo que não se devem maltratar os animais.

Quinta-feira, Setembro 2

Sem rei e sem Deus


Eles, e agora também elas – teremos de arranjar  pronome pessoal para o conjunto, que o eles é machista – discutem, analisam, criticam, propõem. São a favor uns, outros são contra, mas todos mudam, reviram, esquecem, juntam-se, desunem-se, instáveis e irregulares como as ondas do mar.
Sabem de política e futebol. Argumentam e tratam longamente, exaustivamente, de política e futebol. Fingindo esquecer que a política é para poucos e o futebol  reserva particular dos engravatados da FIFA que, com a franqueza bruta da economia de mercado, mostram que mandam nos governos, não se lhes dando que cor têm.
Sabem de rock e carros topo de gama, cinema, Scarlett Johansson, Monica Belluci, Derrida, Duchamp, sabem até das razões do Irão e das desigualdades do Iraque, da Palestina, da União Europeia.
Mas é fachada. Só fachada e medo, cortina de fumo, porque se sabem… Não. Porque nos sabemos, sem rei e sem Deus. Porque continuamos a ser os Alpedrinhas, “das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho.”
“Desventuroso Alpedrinha!  Tu eras o derradeiro Lusíada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do desconhecido te levara, como eles, para essa terra de Oriente, donde sobem ao céu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei. Somente não tendo já, como os velhos Lusíadas, crenças heróicas concebendo empresas heróicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas – descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios." (*)
…….
(*) Eça de Queirós – A Relíquia


Quarta-feira, Setembro 1

O Halteres


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Arde nas labaredas do Inferno desde o Outono de 1940, o "Halteres", o sádico que nas aulas de ginástica nos deixava pendurados nas barras até que caíamos, gozava de nos ver trambolhar no trampolim, gargalhava se no salto perdíamos o equilíbrio e aterrávamos de costas.
Que o anjo das trevas continue a fritá-lo por séculos e séculos, ámen, e de vez em quando o espiche com água gelada, como ele nos fazia nos chuveiros do balneário no pino do Inverno.
Sempre de sobretudo, óculos defumados, as mãos atrás das costas, catarro, pele de tísico. E vá de assentar uma lambada neste, passar a outro uma rasteira, explicando com voz de fumador que  não queria ali Mariazinhas.
- Agarra o trapézio, palerma! Despacha-me essas patas, ó urso!
Uma manhã, quando esperávamos por mais uma sessão de tormento, Nossa Senhora das Dores fez o milagre: vieram-nos dizer que estava no hospital e nunca mais o vimos.